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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA Contentores de bebidas alcoólicas: Usos e significados na Porto Alegre oitocentista Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em História, Área de Concentração em Arqueologia. Paulo Alexandre da Graça Santos Orientador: Prof. Dr. Klaus P. K. Hilbert Porto Alegre, janeiro de 2005

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Contentores de bebidas alcoólicas:

Usos e significados na Porto Alegre oitocentista

Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em História, Área de Concentração em Arqueologia.

Paulo Alexandre da Graça Santos

Orientador: Prof. Dr. Klaus P. K. Hilbert

Porto Alegre, janeiro de 2005

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AGRADECIMENTOS

Minha gratidão e reconhecimento a todos aqueles que, de um modo ou de outro,

contribuíram para a realização deste trabalho.

Em especial, gostaria de agradecer:

ao meu orientador, o arqueólogo Prof. Dr. Klaus P. K. Hilbert, que desde o

início acreditou no potencial desta idéia, pelo seu incentivo e dedicação. A ele gostaria

também de agradecer por seus desenhos;

à arqueóloga Profa. Dra. Fernanda Bordin Tocchetto, a quem devo a minha

formação em Arqueologia Histórica, pelo estímulo e apoio incessante. No decorrer do

estágio no Museu Joaquim José Felizardo e da bolsa de iniciação científica da

FAPERGS aprendi a admirar a forma como respeita à diferença, o seu modo

democrático de compartilhar experiências e atividades no setor e o seu jeito de

administrar marcado pela coerência entre discurso e prática;

ao arqueólogo Prof. Dr. Arno A Kern com quem tive a oportunidade de esmiuçar

questões teóricas da Arqueologia;

ao Museu Joaquim José Felizardo pelo apoio institucional, absolutamente

indispensável para o desenvolvimento da pesquisa;

à CAPES, pela concessão da bolsa de mestrado que viabilizou a realização deste

projeto;

ao arqueólogo e colega Alberto Tavares Duarte de Oliveira pelas fotografias dos

fragmentos, anúncios e caricaturas de jornais;

ao arqueólogo Diogo Meneses com quem aprendi a valorizar o potencial da

análise de artefatos de vidro;

ao sociólogo Prof. Dr. Pedro Andrade pelo envio dos seus textos sobre tabernas;

ao arqueólogo Luis Cláudio Symanski pelas boas idéias e sugestões;

aos funcionários dedicados do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul,

do Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Velinho, da Biblioteca Pública do Estado

do Rio Grande do Sul, da Junta Comercial de Porto Alegre, do Museu de Comunicação

Social Hipólito José da Costa e do Museu Joaquim José Felizardo;

às secretárias do Curso de Pós-Graduação em História Carla e Alice pela

atenção e boa vontade em ajudar;

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à minha esposa Jaque, pelo carinho e tolerância ao longo desses dois anos de

trabalho.

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SUMÁRIO

RESUMO........................................................................................................................05

CONSIDERAÇÕES INICIAIS: UM APERITIVO....................................................09

1. OS SÍTIOS PESQUISADOS....................................................................................15

1.1 Introdução....................................................................................................15

1.2 Unidades Domésticas..................................................................................19

1.2.1 Sítio Casa da Riachuelo (RS.JA-17)...............................................19

O contexto histórico-espacial.......................................................19

A estratigrafia e o material arqueológico.....................................20

O período do consumo de bebidas alcoólicas..............................24

1.2.2 Sítio Solar da Travessa Paraíso (RS.JA-03)....................................27

O contexto histórico-espacial.......................................................27

A estratigrafia e o material arqueológico.....................................28

O período do consumo de bebidas alcoólicas..............................31

1.2.3 Sítio Solar Lopo Gonçalves (RS.JA-04).........................................34

O contexto histórico-espacial.......................................................34

A estratigrafia e o material arqueológico.....................................35

O período do consumo de bebidas alcoólicas..............................37

1.2.4 Sítio Chácara da Figueira (RS.JA-12).............................................39

O contexto histórico-espacial.......................................................39

A estratigrafia e o material arqueológico.....................................39

O período do consumo de bebidas alcoólicas..............................42

1.3 Lixeiras Coletivas.........................................................................................44

1.3.1 Sítio Mercado Público (RS.JA-05).................................................44

O contexto histórico-espacial.......................................................44

A estratigrafia e o material arqueológico.....................................45

O período de descarte dos vestígios relacionados ao consumo de

bebidas alcoólicas.........................................................................48

1.3.2 Sítio Praça Rui Barbosa (RS.JA-06)...............................................50

O contexto histórico-espacial.......................................................50

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A estratigrafia e o material arqueológico.....................................51

O período de descarte dos vestígios relacionados ao consumo de

bebidas alcoólicas.........................................................................55

1.3.3 Sítio Paço Municipal (RS.JA-20)....................................................57

O contexto histórico-espacial.......................................................57

A estratigrafia e o material arqueológico....................................59

O período de descarte dos vestígios relacionados ao consumo de

bebidas alcoólicas.........................................................................63

1.4 Sítio Antiga Cervejaria Brahma (RS.JA-22).............................................65

O contexto histórico-espacial.......................................................65

A estratigrafia e o material arqueológico.....................................67

O período de descarte dos vestígios relacionados ao consumo de

bebidas alcoólicas.........................................................................70

2. OS CONTENTORES DE VIDRO E GRÊS PARA BEBIDAS ALCOÓLICAS..............................................................................................................72

2.1 Aspectos tecnológicos e cronológicos dos métodos de fabricação de

artigos de vidro...................................................................................................73

2.2 Notas sobre a produção do vidro no Brasil e no exterior no século XIX e

início do XX........................................................................................................82

2.3 Forma e função.............................................................................................92

2.4 Processos de reciclagem.............................................................................128

2.4.1 A reutilização de garrafas.............................................................128

2.4.2 Uso secundário com alteração na dimensão formal do artefato....131

3. OS ARTEFATOS E OS ATOS DE BEBER NA PORTO ALEGRE OITOCENTISTA........................................................................................................136

3.1 A caricatura: consistência figurativa na interpretação dos artefatos...138

3.2 A taberna: paraíso do ócio e antro da vadiagem....................................165

4. O CONSUMO E AS PRÁTICAS RELACIONADAS ÀS BEBIDAS

ALCOÓLICAS NOS SÍTIOS PESQUISADOS........................................................181

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4.1 Unidades domésticas..................................................................................181

4.1.1 Sítio Casa da Riachuelo (RS.JA-17).............................................181

4.1.2 Sítio Solar da Travessa Paraíso (RS.JA-03)..................................185

4.1.3 Solar Lopo Gonçalves – (RS.JA-04).............................................189 4.1.4 Sítio Chácara da Figueira (RS.JA-12)...........................................195

4.2 Lixeiras coletivas........................................................................................198

4.2.1 Mercado Público Central (RS.JA-05)...........................................198

4.2.2 Sítio Praça Rui Barbosa (RS.JA-06).............................................202

4.2.3 Sítio Paço Municipal (RS.JA-20)..................................................205

4.3 Sítio Antiga Cervejaria Brahma (RS.JA-22)...........................................208

CONSIDERAÇÕES FINAIS: A “SAIDEIRA”........................................................210

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................221

ANEXO - Ficha de análise das peças de vidro e grês...............................................236

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RESUMO

A cultura material vinculada ao consumo de bebidas alcoólicas, por estar

integrada ao sistema de vida e de valores de várias sociedades, possui uma posição

estratégica para a pesquisa arqueológica. Cada grupo social faz uso de um cenário

próprio constituído de elementos materiais indispensáveis e convergentes para

degustação da sua bebida privativa. Os locais específicos para beber são espaços

privilegiados em que se manifestam as particularidades culturais com códigos

extremamente bem integrados. Por sua vez, o uso de artefatos para beber como um

modo de se comunicar e se expressar atribuiu a estes objetos determinados significados

do consumo de álcool. Além disso, as formas, as cores e os acabamentos destes

artefatos podem formar um grupo de atributos capazes de se estabelecer um indicador

seguro para a datação do registro material. A recuperação eventual de marcas de

fabricantes, afora a possibilidade de ser um índice cronológico, pode fornecer também

informações importantes sobre a estruturação de redes comerciais e procedência da

peça. O propósito desta dissertação, portanto, é o de interpretar os significados

vinculados à fabricação, apropriação e utilização de artefatos de vidro e grês

relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas em sítios de unidades domésticas e

lixeiras coletivas oitocentistas do município de Porto Alegre, além de organizar um

conjunto de dados que sirvam de referencial para análise destes artefatos em sítios

arqueológicos do século XIX.

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CONSIDERAÇÕES INICIAIS: UM APERITIVO1

As pesquisas desenvolvidas no Brasil em sítios históricos, desde a década de 60, na

sua maioria estiveram relacionadas a determinadas categorias materiais. Categorias como o

vidro e o grês foram preteridas ou precariamente exploradas pelos pesquisadores

brasileiros.

Um artigo na revista Science de autoria dos antropólogos Alan Macfarlane e Gerry

Martin (2004) sobre a importância do vidro em quase todas as transformações que a Europa

ocidental conheceu entre os séculos XIII e XIX, destaca o mérito do estudo sobre esta

categoria material e levanta uma questão sobre a produção intelectual na Arqueologia

Histórica brasileira.

A aplicação de material vítreo em determinadas atividades teve um papel

fundamental, segundo os autores, no advento das revoluções científicas e industrial abrindo

“a mente e os olhos das pessoas para novas possibilidades de observação, ao transformar a

percepção humana da forma auditiva para a visual” e ainda “os recipientes de vidro

simplificaram o transporte e a estocagem de comidas, bebidas e medicamentos; estufas

ajudaram a desenvolver a agricultura e faróis e lanternas facilitaram a vida noturna”

(Macfarlane and Martin, 2004: 1407-8).

O que intriga diante da comparação entre a importância desta categoria material no

desenvolvimento das ciências e a produção de textos e artigos na Arqueologia Brasileira é a

escassez de trabalhos relacionados a estes artefatos, embora tenham uma presença constante

pelo menos em sítios urbanos oitocentistas2. O mesmo quadro quanto à raridade de estudos

e incidência nos sítios pode ser verificado com as peças de grês3.

Em grande parte o menor apreço facultado pelos pesquisadores brasileiros aos

fragmentos ou peças de vidro e grês pode estar vinculado à reutilização destes objetos para

diferentes propósitos ao longo do século XIX. Prática difícil de ser percebida no registro 1 O uso do termo aperitivo, além é claro da relação com o objeto de pesquisa, refere-se também à intenção do autor em abrir o apetite dos leitores, ou seja, a uma provocação de parte de quem escreve com o propósito de instigar a curiosidade, por meio da degustação leitoral de uma parcela pequena mas significativa de um todo. 2 Dentre os poucos estudos relacionados à análise de artefatos de vidro em sítios históricos no Brasil é possível citar: Symanski (1998), Camargo e Zanettinni (s/d) e Macedo (1997). 3 Segundo Shávelzon (2001: 249) o grês se caracteriza por ser “um produto cerâmico de alta qualidade, de tradição claramente européia foi habitual nos países do norte e centro do continente desde a metade do século XV”. Diferencia-se por sua alta temperatura de cocção que o torna resistente, impermeável e com granulação muito fina e sem impurezas, além da cor da pasta (branca, bege, marrom e cinza) (idem).

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arqueológico, a reutilização tornaria complexa a tarefa de atribuir a função e a trajetória de

vida dos recipientes, principalmente as garrafas.

Outro fator a ser considerado está relacionado a uma superioridade em termos de

quantidade e diversidade de fragmentos ou peças cerâmicas nos sítios relatados e um

aparente fascínio da maioria dos arqueólogos brasileiros por esta categoria material. A

louça decorada, principalmente, seduz os pesquisadores com o seu atrativo visual e até

mesmo tátil. No caso dos vidros, a presença de atributos nem tanto atraentes e a exigência

de um cuidado no manuseio para se evitar talhos e cortes, ao que parece, contribuem

também para que sejam colocados em segundo plano nas investigações arqueológicas.

No que tange os artefatos de vidro e grês utilizados no consumo de bebidas

alcoólicas existem alguns aspectos, tidos como depreciativos, ligados aos atos de beber que

igualmente promovem a repulsa de grande parte dos pesquisadores4. Em partes

representativas não só no campo da Arqueologia como em outras áreas do conhecimento

existe um evidente descrédito sobre as atividades que fazem apelo aos sabores. Como bem

pontuadas por Onfray (1999b) as questões relacionadas ao paladar gozam de baixa

reputação por serem enfáticas em lembrar o quanto o ser humano que faz uso do

entendimento e da razão é ao mesmo tempo um animal que sente prazer em saborear.

Especificamente no caso do consumo de bebidas alcoólicas, ainda que seja corrente

em todas as civilizações desde os seus primórdios, entre a maioria dos pesquisadores a

temática é tida como vil o bastante para não se transformar em objeto de estudo. O estigma

dos atos de beber possivelmente decorra das suas eventuais deturpações na faculdade de

pensar, por sua contribuição no estímulo ao entusiasmo e, conseqüentemente, a promoção

de um afastamento ocasional das virtudes da sabedoria e da moralidade.

O curioso é que pesquisadores da cultura material5, em algumas ocasiões, possam

desvalorizar certos estudos justamente em razão do registro material encarnar aspectos

4 Sobre o consumo de bebidas alcoólicas no Brasil é possível mencionar os trabalhos ligados à Antropologia e História de: Cascudo (1968), Santos (1998) e Scarano (2001). 5 O conceito de cultura material tratado neste estudo corresponde ao que Bezerra de Meneses (s/d: 22) especifica como “(...) aquele segmento do meio físico que é socialmente apropriado pelo homem. Por apropriação social convém supor que o homem intervém, modela, dá forma a elementos do meio físico, segundo propósitos e normas culturais” (idem). Nesta relação existe uma interação entre homem e meio material onde os artefatos podem agir como instrumentos de “comunicação e expressão que podem condicionar e às vezes controlar a ação social” ( Beaudry, 1991: 151).

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negativos que por convenção estão ligados a determinadas práticas. Não deveria ser o

contrário? Ao invés da falta de apreço, existir o interesse ou pelo menos a consideração?

A repulsa deste tema, no que diz respeito a ser objeto de pesquisa, talvez seja fruto

de uma possível incongruência entre a prática de consumir bebidas alcoólicas e o

estereótipo do arqueólogo com os seus arremedos de um espírito intrépido, erudito e

interessado no que pode ser considerado “belo” e “imponente”. O arqueólogo travestido de

Apolo se esforça em rechaçar Dionísio, o “outro” que lembra histeria, insensatez, o que é

ao mesmo tempo esquisito e indigno (Onfray, 1999a).

A cultura material vinculada ao consumo de bebidas alcoólicas, no que diz respeito

à investigação arqueológica, possui uma posição estratégica por estar integrada ao sistema

de vida e de valores de várias sociedades. Cada grupo social faz uso de um cenário próprio

constituído de elementos materiais indispensáveis e convergentes para degustação da sua

bebida privativa. Estes locais e seus aparatos são espaços privilegiados em que se

manifestam as particularidades culturais com códigos6 extremamente bem integrados.

Diante destas circunstâncias, por se tratar de um tema abrangente, o pesquisador

tem a oportunidade de trabalhar com diversas possibilidades.

Em sítios arqueológicos oitocentistas, por exemplo, a recuperação dos vestígios de

contentores7 de bebidas alcoólicas podem indicar a presença de determinadas práticas

cotidianas com os seus significados sociais. Aspectos como a fabricação, apropriação, e

utilização destes artefatos podem estar intimamente vinculados a determinados ambientes,

bem como ao perfil social das pessoas que utilizaram estes objetos e os seus conteúdos.

Além disso, as formas, as cores e os acabamentos destas peças podem formar um

grupo de atributos capazes de estabelecer um indicador seguro para a datação destes

artefatos. A recuperação eventual de vestígios de marcas de fabricantes, afora a

possibilidade de ser um indício cronológico, pode fornecer também informações

importantes sobre a estruturação de redes comerciais e a procedência da peça.

O propósito desta dissertação, justamente, é o de interpretar os significados

vinculados à fabricação, apropriação e utilização de artefatos de vidro e grês relacionados

6 O conceito de código aplicado neste estudo corresponde a um conjunto de regras através do qual mensagens são convertidas, de modo convencionado e reversível, de uma representação para outra (Jakobson, 1978). 7 Contentor corresponde aquilo que contém algo (Ferreira, 1986). Neste caso garrafas, copos, taças e cálices podem receber esta denominação.

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às bebidas alcoólicas em sítios de unidade domesticas e lixeiras coletivas oitocentistas do

município de Porto Alegre, além de organizar um conjunto de dados que sirvam de

referencial para analise destes artefatos em sítios arqueológicos do século XIX.

Tendo em conta a significativa potencialidade do estudo dos usos destes artefatos e

os seus significados em centros urbanos e considerando a necessidade de analisar amostras

diversificadas8 para evitar relações por demais simplificadas, que este trabalho se identifica

com a denominada Arqueologia Urbana.

Noções tradicionais sobre o estudo da cultura material muitas vezes estão

fundamentadas em premissas onde o processo histórico é interpretado por meio de

proposições teleológicas, com tendência ao determinismo. Por intermédio desta visão o

vestígio material passa, freqüentemente, a fazer parte de relações diretas e unívocas.

Dentro de uma perspectiva mais abrangente a Arqueologia Urbana procura inter-

relacionar a cultura material com os contextos urbanos. Staski (1982: 97) a caracteriza

como “(...) o estudo das relações entre cultura material, comportamento humano e cognição

em um cenário urbano” (idem). A Arqueologia Urbana refere-se às sociedades, que tenham

se fixado em áreas onde se manifesta, ou se manifestou, uma “concentração de pessoas ou

energias” (ibidem).

Considerando que o objeto de estudo desta dissertação está vinculado a um contexto

histórico caracterizado pela penetração da lógica capitalista no Brasil do século XIX, que

este trabalho se identifica igualmente com uma prática arqueológica voltada para o estudo

sobre o mundo moderno (Orser, 1992). Dentro desta concepção, a investigação tem como

foco as manifestações materiais, nos seus aspectos sociais, culturais e históricos, em

contextos marcados pelos efeitos do surgimento e desenvolvimento do capitalismo (idem).

Seguindo esta linha de raciocínio, ao longo do processo interpretativo as obras que

foram utilizadas como referencial teórico foram Braudel (1995), sobre o consumo de

bebidas alcoólicas e os seus significados, Sennet (1989) referente à relação entre os

domínios privado e público na vida social do século XIX, Barreiro (2002) e Oliven (2001)

8 A base empírica para o desenvolvimento deste trabalho constitui-se de artefatos de vidro e grês relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas e recuperados em oito sítios arqueológicos oitocentistas de Porto Alegre, que são: o Sítio da Antiga Cervejaria Brahma; as unidades domésticas evidenciadas nos sítios Solar da Travessa Paraíso, Solar Lopo Gonçalves, Sítio Chácara da Figueira e Casa da Riachuelo; as lixeiras coletivas evidenciadas nos sítios Mercado Público Central, Praça Rui Barbosa e Paço Municipal. Maiores detalhes quanto aos sítios e aos conceitos de unidade doméstica e lixeira coletiva serão tratados no próximo capítulo.

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sobre a modernidade no Brasil oitocentista, Chalhoub (1986) e Barreiro (2002) sobre o

cotidiano dos grupos subalternos em lugares públicos para beber no Brasil do século XIX e

de Certau (1994) com relação aos conceitos sobre estratégia, tática, consumo e maneiras de

fazer. No que diz respeito à Arqueologia foram utilizadas obras que servem de referência

para uma abordagem crítica e interpretativa, que são: Shanks and Tilley (1987), Hodder

(1991) e Beaudry et al (1991).

Uma Arqueologia crítica, segundo esta concepção, se caracteriza por ser uma

prática interpretativa marcada por ajustes incessantes entre conceitos, representações e

idéias e conhecimento e prática9 (Shanks and Tilley, 1987). Uma abordagem crítica é uma

intervenção ativa que relaciona o passado e o presente, ou seja, corresponde a um processo

em que incide a simultaneidade da reflexibilidade (crítica de si mesmo) e da crítica dos

aspectos relacionados ao passado (idem).

O pesquisador deve ter em mente a importância dos significados do passado para o

presente. Aspectos ligados à interpretação arqueológica como os conceitos, o modo como

as informações são interpretadas, a realização das análises, tudo isto produz significados

para o presente. (ibidem).

As interpretações sobre o passado, no entanto, não são entendidas como unívocas,

ao contrário, elas são, conforme este ponto de vista, múltiplas e tolerantes a constantes

alterações e reavaliações (Shanks and Tilley, 1987; Hodder, 1991; Beaudry et al, 1991).

Concepções tradicionais baseadas na divisão entre o arqueólogo e os dados, entre o

assunto e o objeto, entre a subjetividade e objetividade são, portanto, descartadas, na

medida em que se destaca a existência de uma série de mútuas influências na relação entre

o pesquisador e as fontes, entre o passado e o presente. A produção do conhecimento é

percebida como uma prática social nascida das atividades ou das práxis dos seres humanos

no mundo (Shanks and Tilley, 1987).

Além disso, uma abordagem crítica deve ter como foco investigativo não só as

inter-relações funcionais e substantivas da cultura material, mas buscar interpretar também 9 Conforme Shanks and Tilley (1987) qualquer interpretação do passado está no interior de um círculo hermenêutico, ou melhor, um espiral que envolve alterações e trabalho teórico sobre o que será interpretado. No círculo hermenêutico, ainda segundo os autores, “o pesquisador se aproxima de uma cultura material a partir de uma abundancia contextual, o que permite a pressuposição de um entendimento inicial dos seus significados” (idem: 106). “A tarefa hermenêutica se torna automaticamente um interrogatório dos objetos e sempre é determinada em parte por isto, na medida em que os pressupostos são inevitavelmente modificados de um modo progressivo para permitir uma compreensão satisfatória” (ibidem).

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o modo pelo qual foram construídos os seus significados; refletir sobre os interesses, as

estruturas e as condições sociais em que se originam (idem). A chave para interpretação

está na busca de um contexto da forma mais abrangente e abundante possível, onde os

significados da cultura material sejam situados e particularizados (Beaudry et al, 1991). É

imprescindível, portanto, adquirir, da melhor forma possível, coerência sobre os vários

aspectos relacionados aos artefatos e entre a teoria adotada e a totalidade das informações

obtidas (Hodder, 1991; Kern, 1996).

Tendo como propósito à aplicação dos princípios teóricos acima que esta

dissertação foi organizada em quatro capítulos.

No primeiro capítulo são apresentados os dados empíricos da pesquisa, com a

localização temporal e espacial dos oito sítios pesquisados. No segundo são tratados os

aspectos ligados à morfologia, métodos de fabricação, cronologia e reutilização de

contentores de bebidas alcoólicas, além de algumas considerações sobre o uso e consumo

de artigos de vidro no Brasil e a produção de vidro no país e no exterior no século XIX e

início do século XX. Com a intenção de estabelecer uma construção detalhada do contexto

histórico e cultural do uso do artefato são apresentadas no terceiro capítulo as

possibilidades interpretativas relacionadas à percepção dos membros da elite intelectual

porto-alegrense com relação aos atos de beber e o conjunto de elementos materiais

específicos de que se lançava mão nestas circunstâncias. Além disso, são apresentadas

também as possibilidades interpretativas relacionadas à visão de determinados grupos

sociais quanto às práticas nas tabernas da Porto Alegre oitocentista, dentre elas as que

incidem o uso dos artefatos vinculados ao consumo de bebidas alcoólicas. No último

capítulo são apresentadas as interpretações relacionadas ao consumo e as práticas ligadas às

bebidas alcoólicas nos sítios pesquisados.

Tendo como foco de interpretação não só os aspectos funcionais, físicos e

tecnológicos do registro material, mas também o modo pelo qual idéias, reveladas por meio

dos artefatos, cumprem uma função na conformação e fundamentação da sociedade, que se

busca suplantar o caráter empirista que muitas vezes é atribuído ao estudo da cultura

material e destacar o potencial significativo da pesquisa sobre estes artefatos.

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1. OS SÍTIOS PESQUISADOS

1.1 Introdução

No município de Porto Alegre foram iniciadas as pesquisas em Arqueologia

Histórica a partir de 1997 pelo Museu Joaquim José Felizardo, por intermédio do

Programa de Arqueologia Urbana (Tocchetto et al, 1999). Desde então foram

cadastrados, em áreas centrais e periféricas do município, dezoito sítios históricos, que

denotam uma significativa diversidade de ocupações. A despeito de uma grande gama

de impactos no solo urbano, um rico acervo material foi recuperado nestes sítios.

Exemplos de empreendimentos bem sucedidos foram os salvamentos e

acompanhamentos arqueológicos de obras de restauração, reforma e reestruturação de

prédios e locais públicos na área central do município. O acompanhamento

arqueológico, por parte da equipe do Museu, das obras na Praça Rui Barbosa, no

Mercado Público Central, na Praça Parobé e no Paço Municipal, entre 1995 e 2001,

possibilitou a identificação de grandes depósitos de lixo do século XIX. Uma extensa

diversidade de fragmentos e objetos de louça, cerâmica, vidro, metal, ossos, entre outras

categorias, foi evidenciada nestes sítios.

Estes vestígios materiais são uma importante fonte de informação sobre a

diversidade cultural da Porto Alegre oitocentista. São detentores de um potencial capaz

de auxiliar na interpretação tanto das práticas relacionadas ao consumo de vários grupos

sociais, como das vinculadas ao descarte do lixo e quanto às noções de limpeza e saúde

(Santos e Tocchetto, 2001).

Em áreas urbanas é constante a incidência de depósitos constituídos por práticas

coletivas de descarte de lixo. Estas lixeiras se caracterizam por um processo de

formação de refugo secundário10. O acúmulo deste refugo decorre da tendência dos

habitantes das cidades de descartar o lixo nas áreas onde outros já o haviam colocado.

Esta prática coletiva de rejeito de lixo é conhecida nos Estados Unidos como efeito

“Arlo Guthrie trash-magnet” (Wild and Schiffer, 1979 apud Schiffer, 1991).

Normalmente as pessoas fazem uso destas lixeiras coletivas até o momento em que

10 Segundo Schiffer (1991:58), dentre os processos de formação cultural de um registro arqueológico está o refugo secundário, que corresponde ao refugo depositado em áreas que não fazem parte do local de utilização do artefato.

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cessa a capacidade do local de receber refugo ou que se encontre alternativas mais

convincentes (Schiffer: 1991).

Em visita a Porto Alegre, entre 1820 e 1821, Saint’Hilaire (1939:79) comentou o

aproveitamento das margens do Guaíba como área para descarte de lixo:

(...) poucas casas possuem jardins e muitas não tem mesmo pátio, redundando isso no grave inconveniente de serem atiradas à rua todas as imundícies, tornando-as de uma extrema sujeira. As encruzilhadas, os terrenos baldios e principalmente as margens do lago são entulhadas de lixo (...). (idem).

Justamente em razão de problemas vinculados aos despejos do lixo urbano e

insalubridade11, o Código de Posturas Policiais de 1837 determinou dez pontos para

descarte de lixo na margem do Guaíba (Santos e Tocchetto: 2001).

Atualmente, dentre estes pontos, estão localizados o Paço Municipal, o Mercado

Público, correspondentes ao antigo trecho “entre a Praça do Paraíso e o Porto dos

Ferreiros”12 e a Praça Rui Barbosa, “entre a Rua da Misericórdia e Rua do Rosário”13

(idem). Nas sondagens mais profundas das obras de reestruturação destes locais, após a

retirada do piso ou asfalto e do solo proveniente de aterros, se observou um solo cinza

escuro, muito úmido, com presença de material arqueológico e orgânico, o que veio a

comprovar que estas áreas se localizam onde era o antigo leito do Guaíba.

Estes locais, possivelmente, se constituíram em áreas estigmatizadas pelos

despejos de lixo e pela afluência da população mais pobre da sociedade, como escravos

e trabalhadores informais. Posteriormente, entre os anos quarenta e setenta do século

XIX, estas áreas foram cobertas com aterros fartos em material arqueológico, com

exceção do aterro para construção do Mercado Público. Solos extraídos de diferentes

áreas da cidade e arredores foram utilizados como aterro.

11 Segundo Pesavento (1994:86) com o cerco da cidade, no decorrer da Revolução Farroupilha (1835-1845), os rejeitos de lixo e esgoto, e o abate de reses passaram a ser efetuados na área central, o que ampliou de maneira significativa os problemas relacionados à concentração urbana. 12 Código de Posturas Municipais de 1837, cap. 50, Arquivo Histórico Moisés Vellinho. 13 Código de Posturas Municipais de 1837, cap. 50, Arquivo Histórico Moisés Vellinho.

16

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O poder público, além do processo de normatização dos rejeitos de lixo,

promovia, simultaneamente, a expansão da malha urbana e o encobrimento das lixeiras

coletivas, através de aterramentos das margens do Guaíba14 (Santos e Tocchetto: 2001).

Entre as ações coordenadas do governo local, em meados do século XIX, a

limpeza e o asseio de locais públicos começava adquirir relevância. Paulatinamente

ocorria a difusão e apropriação, principalmente entre intelectuais e administradores, de

todo um enunciado relacionado à influência do meio sobre o comportamento e a

constituição física dos seres humanos (Pesavento: 1994). Segundo esta lógica era

imperioso, portanto, junto à necessidade de ampliação e reorganização do espaço

urbano, se livrar da “imundície” de determinados locais da cidade.

Inseridos neste contexto estão os descartes de lixo praticados em unidades

domésticas. Antes da regularização do serviço de limpeza pública, instituído no final do

século XIX, predominava, entre a população, afora o já mencionado rejeito de lixo nas

margens do Guaíba ou em terrenos baldios, o simples descarte ou enterramento dos

dejetos cotidianos nos pátios das casas.

Por intermédio de pesquisas, com problemáticas e objetivos bem definidos, por

parte do Setor de Arqueologia do Museu Joaquim José Felizardo/SMC, foi possível

identificar estas práticas oitocentistas nos pátios de quatro unidades domésticas. Esta

amostra é composta pelos sítios Casa da Riachuelo, localizado na área central da cidade,

Solar Lopo Gonçalves e Solar Travessa Paraíso, situados, no século XIX, em áreas

periféricas da cidade que posteriormente foram anexadas à malha urbana, e pelo sítio

Chácara da Figueira, localizado em área rural no decorrer do século XIX.

As evidências materiais, pertencentes aos contextos arqueológicos dessas

unidades domésticas, podem ser fontes importantes para interpretações de elementos

vinculados às práticas cotidianas e seus significados simbólicos. Os depósitos de lixo

nos pátios das casas, como produto de práticas rotineiras, segundo Lima (1999:191),

“contém mostras pouco tendenciosas das atividades de seus moradores e de sua

dinâmica interna. Os descartes de lixo, como ações em geral inconscientes são, por sua

vez, potencialmente reveladores das estruturas subjacentes de uma sociedade”.

O local de residência contém em si diversas formas de comunicação e

significados para os seus freqüentadores. Sendo espaços onde, em um tempo

determinado, se concentram certas atividades diárias, as unidades domésticas se

14 Atualmente a área central de Porto Alegre corresponde ao triplo da extensão do início do século XIX (Souza, 1997).

17

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transformam em um elemento importante na constituição de práticas sociais. Giddens

(1995:399), referindo-se às sedes, conceito válido também para as unidades domésticas,

afirma que estas por serem regiões possuidoras de delimitadores físicos e simbólicos,

exercem grande influência nas inter-relações entre as práticas cotidianas e o seu meio

físico. A unidade doméstica, sendo um cenário convergente, traz em si profundas

implicações sobre os vínculos dos moradores com o seu corpo, com o cotidiano familiar

e a utilização do espaço (Correia: 2004).

Com relação ao desenvolvimento desta pesquisa, além das unidades domésticas

e das lixeiras coletivas, é importante mencionar, também, o sítio da Antiga Cervejaria

Brahma, localizado no Bairro Floresta. O salvamento e acompanhamento arqueológico

das obras de reestruturação e implantação do Total – Shopping de Descontos15 no

terreno da cervejaria, evidenciou uma significativa quantidade de fragmentos de

garrafas de vidro e de grês. Estes artefatos estão relacionados, na sua grande maioria,

aos rejeitos da própria cervejaria. Os materiais descartados correspondem à segunda

metade do século XIX e início do XX, e foram utilizados como aterro para nivelamento

do terreno da fábrica.

Toda a potencialidade e complexidade do conjunto destes sítios e dos seus

registros materiais, por sua vez, tornam evidente o mérito de estudos que procurem

inter-relacionar estas diversas ocupações. Foi justamente a partir desta perspectiva que

foi constituída a base empírica para o desenvolvimento desta pesquisa. A amostra das

evidências materiais analisadas neste trabalho corresponde, portanto, aos artefatos de

vidro e grês relacionados às bebidas alcoólicas e exumados no sítio da Antiga

Cervejaria Brahma; nas unidades domésticas16 evidenciadas nos sítios Solar da Travessa

Paraíso, Solar Lopo Gonçalves, sítio da Figueira e Casa da Riachuelo; e nas lixeiras

coletivas encontradas nos sítios Mercado Público Central, Praça Rui Barbosa, e Paço

Municipal.

Após esboçar, de forma sintética, alguns dos trabalhos arqueológicos realizados

em Porto Alegre e os seus vínculos com o desenvolvimento desta dissertação será

apresentado no tópico seguinte a contextualização histórica espacial e temporal dos

sítios selecionados, e os dados empíricos relacionados às análises dos vestígios

materiais, aos trabalhos de campo e às fontes escritas. 15 Trabalho coordenado pela arqueóloga Beatriz Valladão Thiesen entre julho de 2002 e junho de 2003, e realizado nos quadros do Programa de Arqueologia Urbana de Porto Alegre. 16 As pesquisas de campo e laboratório, relacionadas a estes sítios, resultaram, respectivamente, em tese de doutorado de Tocchetto (2004) e dissertação de mestrado em História de Symanski (1998 a), PUCRS.

18

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1.2 Unidades Domésticas

1.2.1 Sítio Casa da Riachuelo (RS.JA-17)

O contexto histórico-espacial

O lote urbano onde foi realizada a escavação arqueológica, atualmente situa-se

na rua Riachuelo n° 66117. Localizado no centro histórico da cidade, o sítio Casa da

Riachuelo foi pesquisado entre 1999 e 2001, pela equipe do Museu Joaquim José

Felizardo18. O depósito relacionado ao descarte doméstico foi identificado nos fundos

do terreno, concentrado em uma área de 6m², aonde seria o antigo pátio da casa.

Neste terreno, marcado por um aclive em direção a rua Duque de Caxias e

medindo 41m de profundidade por 4,5 m de largura, foi construída, no decorrer do

século XIX, uma moradia de porão alto ou assobradada. A opção de se construir uma

casa de porão alto, mesmo que de dimensões reduzidas, se explica em razão do

aproveitamento do relevo do terreno, no caso em aclive, para construção deste tipo de

prédio (Tocchetto: 2004). O assobradado teria, conforme perfil abaixo, além do porão

alto, o primeiro terraço, onde provavelmente estaria a cozinha e, ou varanda, e a área de

serviço; e o segundo terraço, que seria um local destinado para o descarte do lixo

doméstico.

Figura 01: Perfil do Sítio Casa da Riachuelo, com parte da área de escavação. Desenho: EPAHC/SMC. Fonte: Tocchetto (2004).

Não foi possível verificar a data da primeira ocupação do terreno, mas é certo

afirmar que no final da década de 1830 já havia uma habitação no lote, pois na Planta de

Porto Alegre de L.P. Dias, de 1839, consta uma edificação no terreno (idem). Além

17 Este trecho, da atual rua Riachuelo, até 1865 era designado como Rua da Ponte. Trata-se de uma das mais antigas ruas de Porto Alegre. 18 As informações sobre o sítio Casa da Riachuelo foram extraídas de Tocchetto (2004.

19

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disso, a pesquisa realizada em fontes escritas primárias não possibilitou a identificação

dos moradores da casa. O registro da quitação do imposto predial da casa relativo ao

ano de 1893, em nome de Joaquim Pereira Martins, e o inventário de 1911 da sua

esposa, com a qual casou em 1889, Angelina Cardoso Martins, são as únicas referências

de proprietários da casa no século XIX19. O que não quer dizer que o casal morasse

nesta habitação.

Ao invés disso, é bem provável que o casal locasse esta habitação, junto com

outras propriedades, pois nos inventários de Angelina (1911) e Joaquim (1919) são

arrolados vários imóveis. Entre as propriedades relacionadas no inventário de Angelina

consta um sobrado com cinco aberturas na sua parte superior bem próximo do local

pesquisado. Este sobrado, devido ao seu maior conforto e espaço em relação aos outros

imóveis, poderia muito bem servir de moradia para o casal.

Com relação às transformações das características do prédio, Tocchetto (2004:

31) afirma que, inicialmente, havia no terreno uma casa com porão alto, de 4,5m de

largura por 8,5 de profundidade, e que a sua ampliação, possivelmente em 1896, de

assobradado para sobrado resultou, provavelmente, no encobrimento da lixeira

doméstica. O certo, ainda segundo a autora, é que, nas últimas décadas do século XIX,

por intermédio da construção ou pela interrupção do despejo do lixo nos fundos do

terreno, a lixeira deixou de ser utilizada (idem). A formação, através do descarte de lixo

doméstico, da lixeira localizada nos fundos do lote, ou seja, no segundo terraço, estaria

relacionada, portanto, com o cotidiano dos moradores da casa de porão alto (ibidem).

A estratigrafia e o material arqueológico

Na escavação se evidenciou a presença de cinco camadas arqueológicas20. Com

exceção de uma das sete quadriculas de 1 m², localizada na parte sul da escavação, o

restante das quadrículas revelou um quadro similar.

A estratigrafia nestas quadrículas constituía-se, basicamente, nas camadas: I)

pavimento de concreto e contra-piso arenoso, com 14 cm de espessura; II) estrato fino

de solo compacto de coloração marrom, com 1 a 2,5 cm de espessura; III) solo

avermelhado, solto, com pouca presença de material relacionado ao século XIX, tendo

19 A pesquisa em fontes primárias foi efetuado pelo autor entre 2000 e 2001, na época estagiário do Museu Joaquim José Felizardo PMPA/SMC. 20 A escavação for realizada pela arqueóloga Fernada Bordin Tocchetto, pelo estagiário do Museu JJF Diogo Menezes Costa e por estudantes da UFRGS e PUCRS, por intermédio de Termos de Cooperação Técnica estabelecidos com a PMPA/SMC.

20

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de 4 a 6 cm de espessura; IV) solo de cor marrom escuro, com grande concentração de

material arqueológico com 45 a 50 cm de espessura; V) solo úmido de cor marrom

escura, estéreo.

Fonte: Tocchetto (2004). Edição: Paulo Alexandre da Graça Santos.

O material recuperado na escavação atingiu o total de 4.629 fragmentos. Desta

amostra, 2.460 (53,14%) corresponde à categoria cerâmica, 1.003 (21,66%) à vítrea e

21

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408 (8,81 %) à metálica21. Do total da categoria vítrea 295 fragmentos correspondem ao

material arqueológico oitocentista relacionado ao consumo de bebidas alcoólicas,

evidenciado na camada IV. Não houve incidência de fragmentos de grês com estas

características.

21 A análise do material arqueológico foi efetuada pela arqueóloga Fernanda Bordin Tocchetto, pelo autor e pelo colaborador Diogo Menezes da Costa.

22

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A seguir, a tabela referente às análises do material vítreo vinculado a consumo de bebidas alcoólicas:

Tabela 01 – Freqüência de peças por categoria funcional.

Item Forma Categoria Terminação Cor Nmp NfrgMaterial

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Verde oliva escuro 2 3

Garrafa para vinho ou conhaque Cilíndrica Vidro 2 anéis superior cone inferior arredondado Verde escuro 1 4

Garrafa para bebida alcoólica Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro Verde oliva escuro 1 3

Garrafa para bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde escuro 5 31

Garrafa para bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde oliva escuro 2 18

Garrafão Cilíndrico Vidro Verde médio 2 5

Copo Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 2 2

Copo pequeno Sem motivos decorativos aparentes Vidro Transparente 1 1

Copo Sem motivos decorativos aparentes Vidro Transparente 1 1

Taça ou cálice Sem motivos decorativos aparentes Vidro Transparente 2 2

Não identificado 225

Total 19 295

23

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O período do consumo de bebidas alcoólicas

Para atingir um período aproximado da intensificação do consumo nos sítios, a

partir dos fragmentos ou peças relacionadas às bebidas alcoólicas, foi utilizado como

expediente o gráfico de barras desenvolvido por South (1978). Ainda que tenha sido

indicado especificamente para a pesquisa de amostras de louças, o diagrama reúne todas

as condições para ser aplicado em outras categorias materiais desde que o conjunto de

fragmentos e peças apresente períodos de produção bem delimitados, o que pode ser

verificado no caso do vidro e do grês. Cabe ressaltar que a meta principal a ser atingida

com a aplicação do gráfico de barras é a obtenção de um período aproximado de

intensificação do consumo de bebidas alcoólicas, se bem que por meio do confronto das

informações dos gráficos de barras da louça22 e do vidro e grês dos sítios é possível,

também, fazer algumas considerações sobre os períodos de ocupação mais intensos e as

divergências entre os intervalos.

O sítio Casa da Riachuelo está entre os sítios que podem ser incluídos neste

caso. O gráfico de barras (South, 1978), referente às informações obtidas da análise da

louça e do vidro, indicou uma ocupação mais intensa da casa, relacionada ao descarte de

lixo nos fundos do terreno, entre 1828 e 1875. No entanto, a necessidade de uma

delimitação mais precisa da data final dos gráficos e uma divergência entre o intervalo

do gráfico de vidro com o de louça, sugerem uma discussão mais aprofundada sobre os

resultados dos gráficos de barras23.

Comparando o período que compreende o gráfico de barras da análise da louça

(1828-1875) com o do material vítreo relacionado ao consumo de bebidas alcoólicas24

(1840-1870), se verifica um período mais reduzido de ocupação do sítio por parte do

gráfico do vidro. Nas outras unidades domésticas estudadas, também, se constatou a

tendência do gráfico de barras do vidro, ou do vidro e do grês, em apontar um intervalo

de tempo menor, se comparado com o de louças25.

22 Com relação aos períodos obtidos nos gráficos de louça dos sítios de unidades domesticas pesquisados ver Tocchetto (2004). 23 Em razão de um provável prosseguimento do descarte de lixo doméstico na unidade doméstica por alguns anos do último quartel do século XIX, constatado a partir da localização de alguns fragmentos de vidro e louça na estratigrafia, Tocchetto (2004: 56), sugere que não se adote como data final do gráfico de barras o ano de 1875. 24 Não foi verificada na amostra do sítio Casa da Riachuelo a incidência de fragmentos de grês relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas. 25 Os fatores que promoveram um grande avanço no desenvolvimento do processo de fabricação industrial e massivo dos objetos de vidro e o seu uso e consumo de modo mais intenso no Brasil, a partir da metade do século XIX, serão tratados no próximo capítulo.

24

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Considerando que, por várias razões, o consumo e a utilização de forma mais

intensa de artigos de vidro no Brasil ocorreu somente a partir de meados do século

XIX26, há que se delimitar como data inicial da formação do depósito de lixo doméstico

escavado o ano de 1828, no caso a data do gráfico de barras da louça.

Buscando um estabelecer um período de intensificação do consumo por partes

dos moradores do assobradado, Tocchetto (2004) defende a delimitação de um intervalo

entre 1840/50 e 1870, baseando-se na grande incidência, entre os fragmentos de louça

recuperados, de peças em faiança fina decoradas com pintura à mão livre, populares

entre 1840 e 1860, e no uso de forma mais intensa de artigos de vidro a partir de meados

do século XIX.

Com relação ao estabelecimento da data final do gráfico de barras um debate

promovido por Newmann (1970) sobre a determinação de datas para as técnicas de

fabricação de garrafas pode ser válido para este caso. O autor afirma que a data do

desenvolvimento de uma nova técnica de fabricação de garrafas não possibilita,

simplesmente, o estabelecimento do período final de utilização da técnica antiga que foi

substituída. A demora de alguns fabricantes na substituição de uma técnica antiga de

produção, o intervalo de tempo resultante do armazenamento na fábrica e do transporte

para o local de comercialização, e a possibilidade de re-utilização da garrafa antes do

descarte final, são aspectos que devem ser considerados (idem). Visando atingir datas

mais precisas, o autor sugere um avanço de dez anos na data de substituição de uma

técnica antiga (ibidem).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, com relação à delimitação do período de

ocupação do sítio Solar Lopo Gonçalves, Symansky (1998a) acrescentou dez anos à

data terminal no gráfico de barras da louça, tendo em conta a existência de um intervalo

de tempo maior entre o início da produção da peça e o seu descarte como refugo.

De acordo com esta orientação, a barra da direita do gráfico deve avançar pelo

menos dez anos, chegando a 1885 como limite mínimo para a data terminal de ocupação

mais intensa do sítio. De acordo com a proposta deste intervalo de tempo, o gráfico de

barras correspondente aos fragmentos de vidro relacionados ao consumo de bebidas

alcoólicas indica um período de 1840 a 1870.

26 Este quadro, relacionado ao uso e consumo de artigos de vidro no século XIX, ao que parece não está restrito somente ao Brasil. Fontana (1968) na sua análise de artefatos de vidro recuperados em sítios dos séculos XVIII e XIX em Magdalena de Kino, Sonora, México, indicou para os fragmentos mais antigos uma cronologia situada na metade do século XIX. No entanto, o autor não se deteve sobre as causas e motivos que levaram a isto.

25

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Gráfico de barras 01 - peças de vidro relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas - Sítio: 17 - Casa da Riachuelo

111098

76

54321

Legenda

1 Terminação com tira de vidro aplicada sem uso de ferramentas para acabamento de topo (lipping tool )- até 18402 Pontel de vidro - até 1870 3 Pontel de vidro e areia - até 1870 4 Pontel de tubo - até 18705 Molde de 2 ou 3 partes - até 18806 Ferramenta de acabamento de topo (lipping tool ) e superfície do vidro com aparência de metal martelado - 1840 a 1870 7 Ferramenta de acabamento de topo (lipping tool ) - 1840 a 19208 Instrumento de sustentação (snape case) - 1850 a 19209 Demanda crescente por vidro transparente - a partir de 1850

10 Utilização do centro da base de garrafa de vidro para inscrição comercial - a partir de 185011 Produção de terminações sem emendas ou marcas - a partir de 1870

26

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1.2.2 Sítio Solar da Travessa Paraíso (RS.JA-03)

O contexto histórico-espacial

O Solar da Travessa Paraíso27, atual sede do Centro de Educação Patrimonial e

Ambiental da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, está localizado no Morro Santana,

no endereço Travessa Paraíso n° 71, bairro Menino Deus. Em novembro de 2001, nos

fundos do Solar, ou seja, no quintal da casa, um depósito de refugo doméstico

oitocentista foi localizado pela equipe do Museu Joaquim José Felizardo28.

Com relação aos antigos proprietários do Solar no século XIX, a aquisição mais

remota que a pesquisa histórica29 conseguiu evidenciar, diz respeito a uma compra

efetuada em 1809, por parte de Francisco Prestes de Paulo Barreto. Vinte anos após essa

transação, o combatente nos conflitos contra Artigas (1821-26) e da Cisplatina (1825-

28), e futuro coronel farroupilha, Onofre Pires da Silveira Canto, adquiriu a chácara. A

posse do Solar e do terreno por parte de Onofre persistiu até 1844, quando ocorreu a sua

morte causada por ferimentos resultantes de um duelo com Bento Gonçalves da Silva. A

partir da morte de Onofre Pires o proprietário da chácara passou a ser o vereador de

Porto Alegre Francisco Pinto de Souza. Uma nova transferência ocorreu, em 1854,

quando o médico homeopata Dionísio Oliveira Silveiro recebeu a chácara como

reembolso de dívidas pendentes de Onofre Pires. Dionísio e sua família mantêm a posse

da chácara até 1908, quando Nogueira Barbosa passa a residir no local.

Dentre os proprietários do Solar no século XIX foi possível verificar que tanto

Onofre Pires como Dionísio residiam no centro da cidade e, possivelmente, utilizaram a

chácara como área de lazer e produção. Segundo Tocchetto (2004), é provável que após

a morte de Dionísio em 1871, no mínimo a partir de 188830, o seu filho Afonso de

27 Os dados relacionados ao Sítio Solar da Travessa Paraíso foram extraídos de Tocchetto (2004). 28 O trabalho de campo foi efetuado pela arqueóloga Fernanda Toccheto, pelo autor, na época bolsista de iniciação científica da FAPERGS, pelo colaborador Diogo Menezes Costa e pelo oficiando do Museu Joaquim José Felizardo, Rodrigo Bragio Bonaldo. 29 A investigação relacionada à propriedade foi iniciada em 1994 pelo arqueólogo Cláudio B. Carle e estagiário da EPAH/SMC, no momento em que começaram as intervenções arqueológicas no sítio. Em 2002, o estagiário Fabiano Aiub Branchelli e a oficinanda Camila da Silva Freitas, vinculados ao MJJF, prosseguem com a pesquisa sobre a documentação primária, no caso escrituras de compra e venda, inventários e testamentos . 30 No inventário da esposa de Dionísio, Maria Sophia, de 1888, existe o registro de que Afonso, herdeiro da parte da chácara onde estaria o sobrado, residia na Freguesia do Menino Deus. O que não quer dizer que Afonso não tenha vindo morar no Solar antes desta data. Inventário de 02/05/1888, 3° Cartório do Cível, maço 1, feito 7, estante 3 (APERGS).

27

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Oliveira Silveiro tenha utilizado o Solar como moradia até 190331, data de seu

falecimento. Já no período em que Francisco Pinto de Souza (1844/54) foi proprietário

existe a possibilidade da chácara ter sido abandonada32.

A estratigrafia e o material arqueológico

No decorrer das intervenções arqueológicas foi possível verificar a presença de

três camadas: I) solo arenoso e úmido de coloração marrom escura, com material do

século XX e XIX, tendo entre 5 a 26 cm de espessura; II) solo arenoso de maior

granulação que a camada I, com material arqueológico oitocentista, com exceção de

uma quadrícula que apresentou uma intrusão de lixo do século XX, sendo que sua

espessura variou entre 10 a 55 cm; III) solo arenoso e úmido, com granulação fina e de

coloração marrom clara, estéril.

O material arqueológico recuperado na escavação atingiu um total de 8.392

fragmentos33, sendo que 2.739 fragmentos, 32,64 % da amostra, correspondem à

categoria vítrea; 2.636, 31,41% da amostra, referem-se à categoria cerâmica; e 1.113,

13,26% da amostra, dizem respeito à categoria metálica. Do total dos fragmentos de

vidro 832, e no caso do grês 7 fragmentos correspondem aos vestígios relacionados ao

consumo de bebidas alcoólicas recuperados na camada II.

31 Entre 1903 a 1908, o proprietário do Solar foi o cunhado de Afonso, Virgílio Rodrigues do Valle, que o adquiriu através de um arremate em um leilão, em razão de a propriedade estar hipotecada. 32 Na escritura de venda da propriedade para Dionísio é verificada a possibilidade de abandono através da existência de um registro que menciona as precárias condições em que se encontrava a chácara. Escritura de venda, anexo do inventário de Dyonísio de Oliveira Silveiro de 03 de julho de 1879, 3° Cartório do Cível, maço 1, feito 7, estante 3 (APERGS). 33 A pesquisa em laboratório foi realizada pela arqueóloga Fernanda Bordin Tocchetto, pelo colaborador Diogo Menezes da Costa, pelo autor, na época bolsista de Iniciação Científica da FAPERGS, e contou também com a participação do oficinando Rodrigo Bragio Bonaldo e do estagiário Fabiano Branchelli / MJJF / SMC.

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Fonte: Tocchetto (2004). Edição: Paulo Alexandre da Graça Santos.

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A seguir, a tabela referente às análises do grês e material vítreo vinculado a consumo de

bebidas alcoólicas:

Tabela 02: Frequência de peças por categoria funcional

Item Forma Cat. Terminação Cor Nmp Nfrg

Garrafa para cerveja Cilíndrica Vidro Terminação para rolha metálica Âmbar 1 1

Garrafa para champanhe Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro 2 anéis arredondados Verde oliva claro 1 1

Garrafa para champanhe Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Verde oliva claro 1 1

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 2 3

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Âmbar 1 1

Garrafa para champanhe Cilíndrica Vidro Terminação Champanhe Âmbar 1 2

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde médio 1 1

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 1 1

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior cone Verde escuro 1 1

Bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde oliva escuro 1 3

Bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde escuro 1 6

Bebida fermentada Cilíndrica Vidro Âmbar 2 2

Fução original não identificada Vidro 11 60

Garrafa para genebra ou aguardente Tronco piramidal invertida Vidro Anel em forma de cone Verde oliva escuro 1 3

Garrafa para genebra Cilíndrica Grês Anel em forma de cone Marrom avermelhado 1 3

Garrafa para cerveja Cilíndrica Grês Bege e marrom claro 1 4

Garrafão Cilíndrico Vidro Verde médio 1 1

Copo Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 3 5

Caneco para chopp Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 1 2

Cálice para licor, ou vinho do Porto Vidro Transparente 1 2

Taça para vinho, ou champanhe C/ decoração Vidro Transparente 5 16

Não identificado 720

Total 39 839

O depósito formado pelo descarte de lixo dos moradores do Solar corresponde às

evidências materiais do século XIX encontradas na camada II. Próximo aos antigos

muros de arrimo, na área do lote onde incide o maior declive, era efetuado o rejeito do

lixo oitocentista (ver planta abaixo).

30

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Figura 02: Planta de topo do quintal do sítio Solar da Travessa Paraíso, 1994. Arqueólogo: Cláudio B. Carle. Edição: Paulo Alexandre da Graça Santos

O período do consumo de bebidas alcoólicas

Os gráficos de barras (South, 1978), correspondentes às informações obtidas da

análise da louça e do vidro e grês relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas,

indicam um período de ocupação mais intensa do sítio entre 1840 e 1905.

Acrescentando-se, é claro, mais dez anos para atingir um período que alcance o início

da produção das peças, sua compra, utilização e descarte como refugo.

31

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Tendo em conta a possibilidade de abandono da chácara, citada anteriormente, o

intervalo de tempo está relacionado, principalmente, a duas ocupações do sítio por parte

da família Silveiro, no caso a de Dionísio, de 1854 a 1871, e do seu filho Afonso, de

1888 (ou antes disso) a 1903. Cabe ressaltar que o período que compreende o gráfico de

barras dos fragmentos relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas (entre 1850 a

1895), além das questões relacionadas à produção do vidro, evidencia justamente o

intervalo de ocupação mais intensa correspondente ao de Dionísio e sua família.

32

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Gráfico de barras 02 de peças de vidro e grês relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas

Sítio: 03 - Solar da Travessa Paraíso 1615

1413121110

9876

54321

Legenda1 Terminação com tira de vidro aplicada sem o uso de ferramenta de acabamento de topo - até 18402 Pontel de vidro - até 1870 3 Superfície do vidro com aparência de metal martelado - até 1870 4 Molde de 2 ou 3 partes - até 18805 Ferramenta de acabamento de topo ( lipping tool ) - 1840 a 19206 Instrumento de sustentação (snape case) - 1850 a 19207 Utilização do centro da base de garrafa de vidro para inscrição comercia l - a partir de 18508 Haste de taça com degrau central transparente - 1850 a 18709 Demanda crescente por vidro transparente - a partir de 1850

10 Máquina dotada de agulhas cauterizadoras - 1870 a 193011 Haste de taça tipo balaustre - 1870 a 189012 Produção de terminações sem emendas ou marcas - a partir de 187013 Molde de tornear (turn m old )- 1870 a 193014 Ulização em larga escala de Manganês como agente descolorante - 1888 a 191515 Processo semi-automático ou automático - a partir de 1889 ou 190416 Terminação para rolha metálica - a partir de 1895

33

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1.2.2 Sítio Solar Lopo Gonçalves (RS.JA-04)

O contexto histórico-espacial

O Solar Lopo Gonçalves34 está localizado na rua João Alfredo, 582, bairro

Cidade Baixa. Atualmente é a sede do Museu Joaquim José Felizardo, que pertence à

Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre35.

A construção do Solar ocorreu entre 1845 e 1855, nos fundos de uma chácara, a

mando do comerciante português Lopo Gonçalves Bastos (Giacomelli, 1992). Suas

atividades comerciais envolviam vendas de produtos importados e escravos, na loja da

Rua da Praia em que era proprietário, investimentos em ações, imóveis e empréstimos

em dinheiro, além de uma sociedade com o seu sogro no ramo de transportes e

embarcações, em uma loja de fazendas na Praça da Alfândega, e até 1839, em um

armazém de molhados na Rua da Praia (Symanski, 1998a).

Afora os empreendimentos comerciais, Lopo Gonçalves adquiriu notoriedade

em Porto Alegre, também, por sua participação em ações de caridade e pelo exercício de

cargos públicos36.

Por intermédio de fontes materiais e documentais, o que pode ser verificado

sobre a ocupação vinculada a Lopo Gonçalves e sua esposa, foi de que neste período

esteve relacionada a atividades produtivas, e, possivelmente, voltada, também, para o

lazer. O comerciante e sua esposa tinham como domicílio o sobrado, onde estava

instalada a loja de fazendas (Symanski, 1998a). Com a morte de Lopo Gonçalves, em

1872, seu genro e sobrinho, Joaquim Gonçalves Bastos Monteiro recebe a chácara de

herança37. Segundo Symanski (1998a: 113) é possível que entre a data da morte de

Lopo Gonçalves até a realização de seu inventário (1878), Joaquim e sua esposa Maria

Luisa Gonçalves Bastos Monteiro passassem a residir no Solar. A utilização do Solar

34 As informações relacionadas ao Sítio Solar Lopo Gonçalves foram extraídas de Symanski (1998a). 35 Nos fundos do Solar, depósitos formados pelo descarte de lixo do século XIX relacionados aos seus moradores, foram evidenciados e escavados, em 1996, pelo arqueólogo Luis Cláudio Pereira Symanski. A sua pesquisa de campo e laboratório no Solar resultou em dissertação de mestrado em História, PUCRS, e publicação do livro “Espaço privado e vida material em Porto Alegre no século XIX” (1998a). 36 Lopo Gonçalves foi vereador de Porto Alegre por duas vezes (mandatos de 1833-1837 e 1845-1849), e suplente de vereador (entre 1849 e 1852), Juiz na Junta de Execução do Código do Processo Criminal, Juiz Municipal de Órfãos, Juiz da Paz, tesoureiro do asilo de Santa Leopoldina (1858), e da Obra do Seminário Episcopal (1866), Prior da Ordem Terceira de Nossa Senhora das Dores (1857-61), e benemérito da Santa Casa de Misericórdia (1851) (Giacomelli, 1992). 37 Inventário de Lopo Gonçalves Bastos e Francisca Lopo Teixeira Bastos, 1° Cartório Cível, N° 429, M-19, E-27 E/C, 1878 (APERGS).

34

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como morada por parte do casal, provavelmente, se estendeu até o início do século XX

(idem).

As duas ocupações estavam, entre outras razões, articuladas com o processo de

expansão da malha urbana. Até a década de setenta, localizada em área não urbanizada e

próxima do centro da cidade, a chácara, possivelmente, foi utilizada com fins de

produção e de lazer. A partir do último quartel do século XIX, com a sua incorporação

ao processo de urbanização da cidade e o afastamento de grupos sociais mais abastados

da área central de Porto Alegre, o Solar passou a servir de moradia.

A estratigrafia e o material arqueológico

No decorrer da escavação, que atingiu uma área total de 22m², se evidenciou a

presença das seguintes camadas: I) solo escuro e húmico, com material do século XX e

XIX, tendo em torno de 25 cm de espessura; II) solo de coloração castanha, com

material do século XIX, e 40 cm de espessura, aproximadamente; III) solo escuro,

argiloso e estéril, a partir de 65 cm de profundidade. A amostra do material recuperado

na camada II corresponde às ocupações do grupo doméstico relacionado a Lopo

Gonçalves, entre 1845 e 1872; e a subseqüente vinculada a Joaquim Gonçalves Bastos

Monteiro e esposa, entre 1872 e 1915.

35

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A quantificação e análise do material recuperado, por parte de Symanski

(1998a), foram realizadas nas categorias cerâmica e vítrea. No que diz respeito ao vidro,

do total de 497 fragmentos, 194 correspondem a vestígios recuperados na camada II e

relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas. Não houve incidência de fragmentos de

grês com estas características.

36

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Tabela 03: Frequência de peças por categoria funcional

Item Forma Cat. Terminação Cor Nmp Nfrg

Garrafa para vinho ou champanhe Cilíndrica Vidro Verde médio 2 2

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 1 1

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço abrutpo Vidro Faixa de vidro aplicada Amarelo 1 40

Garrafa para genebra ou aguardente Tronco piramidal invertida Vidro Verde oliva escuro 1 3

Garrafa para uísque ou cerveja Cilíndrica Vidro Âmbar 1 40

Bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde escuro 3 40

Função original não identificada Vidro 11 35

Copo Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 5 8

Copo pequeno Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 1 1

Copo Sem motivos decorativos aparentes Vidro Transparente 1 1

Copo Octogonal facetado Vidro Transparente 2 3

Taça para vinho ou champanhe C/ decoração Vidro Transparente 3 4

Taça para vinho ou champanhe Sem motivos decorativos aparentes Vidro Transparente 3 3

Não identificado 13

Total 35 194

O período do consumo de bebidas alcoólicas

O período de ocupação do Solar, indicado pelos gráficos de barras (South, 1978)

da louça e do vidro, teve como data inicial 1840 e terminal 1892. Em razão da

construção do prédio ter sido realizada, possivelmente, entre 1845 e 1855, Symanski

(1998) acrescentou mais cinco anos à data inicial. O gráfico de barras do material vítreo,

de forma similar ao das outras unidades domésticas pesquisadas, apontou para um

período menor de ocupação do sítio, entre 1855 e 1892 (Tocchetto: 2004). O Gráfico

das peças de vidro relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas correspondeu ao

período de 1850 a 1870.

37

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Gráfico de barras 03 de peças de vidro relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas - Sítio: 04 - Solar Lopo Gonçalves

1312

1110

987

65

4321

Legenda

1 Terminação com tira de vidro aplicada sem o uso de ferramento para acabamento de topo - até 18402 Molde inteiriço (dip mold ) - até 18503 Superfície do vidro com aparência de metal martelado - até 1870 4 Molde de 2 ou 3 partes - até 18805 Molde tripo, e superfície do vidro com aparência de metal martelado - 1810 a 18706 Ferramenta de acabamento de topo (lipping tool ) - 1840 a 19207 Instrumento de sustentação (snap case) - 1850 a 19208 Superfície do vidro com aparência de metal martelado, e instrumento de sustentação (snap case ) - 1850 a 18709 Demanda crescente por vidro transparente - a partir de 1850

10 Inscrição em painéis (plate molds ) - a partir de 186011 Selo comemorativo do casamento entre o principe de Gales Albert com a princesa da Dinamarca Alexandra em 186312 Produção de terminações sem emendas ou marcas - a partir de 187013 Molde de tornear (turn mold )- 1870 a 1930

38

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1.2.4 Sítio Chácara da Figueira (RS.JA-12)

O contexto histórico-espacial

Situado no sopé do Morro Santana, na divisa entre os municípios de Porto

Alegre e Viamão, o sítio Chácara da Figueira38 tem como endereço atual o residencial

Três Figueiras. Os trabalhos de prospecção na região encontraram na superfície do

terreno, material arqueológico do século XIX e indícios de uma edificação de pequenas

dimensões39. No decorrer das tradagens, das coletas superficiais e da escavação do

interior da estrutura, dois tipos de refugos foram identificados no local. Provenientes de

um processo de abandono, restos materiais foram encontrados na parte interna da casa,

caracterizando um refugo de fato, e no entorno da estrutura foi evidenciado um refugo

secundário (Tocchetto: 2004).

A investigação em fontes documentais primárias não conseguiu alcançar o

período de ocupação verificado na análise das evidências materiais recuperadas40. A

data mais remota de transferência da propriedade refere-se ao ano de 191841. O certo é

que até os anos 40 do século XX, nas áreas próximas do Morro Santana havia o

predomínio de chácaras voltadas para a produção agropecuária (idem). Além disso,

vestígios materiais vinculados ao trabalho no campo e a objetos domésticos de uso

cotidiano, encontrados no decorrer das investigações arqueológicas, indicam uma

ocupação do local com fins produtivos e de moradia (ibidem).

A estratigrafia e o material arqueológico

Ao longo das intervenções, que alcançaram uma área total de 3.700 m², se

evidenciou a presença das seguintes camadas arqueológicas: I) solo de coloração

marrom escura, húmico, contendo ossos, objetos metálicos e material construtivo do

século XX, de 2 a 5 cm de espessura, aproximadamente; II) solo, arenoso, de coloração

marrom claro, com presença de material arqueológico, de 10 a 30 cm de espessura. A

amostra do material evidenciado nesta camada parece estar vinculada com a ocupação

da casa; III) Solo de coloração avermelhada, apresentando na sua extremidade inicial

38 As informações sobre o sítio Chácara da Figueira foram extraídas de Tocchetto (2004). 39 Os trabalhos de prospecção no Morro Santana foram realizados pelos arqueólogos José Alberione dos Reis e Cláudio B. Carle. A investigação arqueológica estava inserida no projeto de localização da sede da primeira sesmaria de Porto Alegre promovido pela Secretaria Municipal da Cultura/PMPA. 40 A pesquisa na documentação primária foi efetuada pela estagiária Márcia Costa do Museu Joaquim José Felizardo, em 1999. 41 Escritura de compra, 01/04/1918, Livro 3-H, fls.362, n.29.335, 1ª Zona, Porto Alegre.

39

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uma granulação mais solta do que a composição argilosa e compacta evidenciada com

uma profundidade maior. Nesta camada houve pouca incidência de material

arqueológico, e em áreas próximas da edificação pareceu estar perturbada por ação

antrópica.

Fonte: Tocchetto (2004), edição: Paulo Alexandre da Graça Santos

O material recuperado nas intervenções arqueológicas atingiu o total de 3.287

fragmentos, sendo que 757 (23%) correspondem à categoria cerâmica, 567 (17,25%) à

vítrea e 490 (14,91) à metálica42. Do total de fragmentos de vidro, 71, e no caso do grês,

2, correspondem a vestígios recuperados na camada II e relacionados ao consumo de

bebidas alcoólicas.

42 O trabalho de análise no laboratório foi efetuado pela arqueóloga Fernanda Tocchetto e pelo estagiário Diogo Menezes da Costa, Museu Joaquim José Felizardo/SMC.

40

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Tabela 04: Frequência de peças por categoria funcional

Item Forma Categoria Terminação Cor Nmp Nfrg

Garrafa para bebida fermentada Cilíndrica com pescoço abrupto Vidro Verde oliva 3 27

Garrafa para bebida alcoólica Cilíndrica Vidro Âmbar 1 9

Garrafa para genebra ou aguardente Tronco piramidal invertida Vidro Verde oliva escuro 1 33

Garrafa para genebra Cilíndrica Grês Marrom avermelhado 2 2

Copo Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 1 1

Copo pequeno Octogonal com paredes facetadas Vidro Transparente 1 1

Total 9 73

41

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O período do consumo de bebidas alcoólicas

Os gráficos de barras (South, 1978), relacionados aos dados obtidos da análise

da louça e do vidro, indicam um período de ocupação mais intensa do sítio entre 1828 e

1899.

Procurando estabelecer um período de ocupação mais apurado, Tocchetto

(2004:147) defende a delimitação de um intervalo entre 1840/50 e 1885, baseando-se na

grande incidência, entre os vestígios recuperados na camada II, de fragmentos de louça,

vidro e elementos construtivos da casa que remontam à segunda metade do século XIX,

e uma moeda de 1885. Por outro lado, os fragmentos de louça e vidro, que apontam para

um período posterior a 1885, foram encontrados, na sua maioria, na parte externa da

casa, indicando a possibilidade de serem originários de outras atividades ou locais

(idem). Em consonância com a proposta deste intervalo de tempo, o gráfico de barras

correspondente aos fragmentos de vidro relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas

indica um período de 1850 a 1870.

42

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Gráfico de barras 04 de peças de vidro relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas - Sítio: 12 - Chácara da Figueira

43

21

Legenda

1 Instrumento de sustentação (snape case) - 1850 a 19202 Demanda crescente por vidro transparente - a partir de 18503 Molde de 2 partes com inscrição em painéis (plate molds ) - a partir de 18604 Molde de tornear (turn mold )- 1870 a 1930

43

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1.3. Lixeiras Coletivas

1.3.1 Sítio Mercado Público (RS.JA-05)

O contexto histórico-espacial

Localizado no largo Glênio Peres, em área central de Porto Alegre, o Mercado

Público43 tem como demarcadores a Av. Borges de Medeiros a sudoeste, a Praça Parobé

a nordeste, a Av. Júlio de Castilhos a noroeste e o próprio largo a sudeste.

Tombada em 1979, pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural do

Município de Porto Alegre, a edificação em estilo neoclássico teve as suas instalações

reformadas e reestruturadas no ano de 1994. Em razão do rebaixamento do piso e da

implementação de cobertura metálica e escadas rolantes no prédio, foi requisitado à

equipe do Museu Joaquim José Felizardo que fizesse, ao longo dessas intervenções44, o

acompanhamento e salvamento arqueológico45.

A construção do Mercado Público Central fez parte de um processo de expansão

urbana, iniciado em meados do século XIX na cidade. Com um expressivo

desenvolvimento de sua economia, impulsionado principalmente pelo comércio com as

colônias alemãs, Porto Alegre começava a ampliar, de maneira significativa, a sua

malha urbana. Edificações imponentes e melhor aparelhadas foram construídas na área

central, no lugar dos prédios ou construções já existentes ou, ainda, em terrenos

resultantes de aterro46.

Por outro lado, segundo a lógica das autoridades locais, o rápido crescimento

comercial de gêneros alimentícios exigia uma infra-estrutura, que propiciasse uma

maior regulamentação e fiscalização dessas atividades.

43 Os dados relacionados sobre o Sítio Mercado Público Central foram extraídos de Tocchetto (1995). 44 O trabalho dos pesquisadores envolveu uma área de 4.705 m². As sondagens mais profundas, no decorrer das intervenções, atingiram 3,30 metros de profundidade, aproximadamente. 45 O acompanhamento arqueológico, entre 1994 e 1996, foi realizado pela equipe formada pelos arqueólogos Fernanda Tocchetto, Cláudio Baptista Carle, pela pesquisadora com bolsa de aperfeiçoamento da FAPERGS Ângela Cappelletti, e os bolsistas de iniciação da FAPERGS Alberto Tavares de Oliveira e Sérgio Ozório. A partir da quarta e última etapa das obras no Mercado Público Central, entre abril e julho de 1996, os trabalhos foram coordenados pela arqueóloga Beatriz dos Santos Landa. 46 Neste período, além do Mercado Público, são exemplos destas transformações na cidade: a demolição e reconstrução da Casa da Câmara, e da Beneficência Portuguesa (Souza, 1997).

44

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Os trabalhos relativos à construção do Mercado Público começaram em 1864, na

antiga Praia do Paraíso, após a finalização do aterro do local iniciado em 1845. A sua

inauguração ocorreu em 1870, no mesmo ano em que o antigo Mercado47 foi demolido.

Do início das atividades até a sua reestruturação em 1994 houve algumas

modificações estruturais no prédio. Dentre estas alterações estão: o calçamento da parte

interna do Mercado em 1871; a arborização do interior do prédio em 1873; a retirada

das árvores e a construção de 24 bancas de madeira em 1887; a edificação de um

segundo piso e substituição das antigas bancas por chalés construídos em cimento e

ferro, entre 1912 e 1913; e, finalmente, nos anos 40 do século XX a elevação do piso no

pátio interno do prédio (Franco: 1998).

A estratigrafia e o material arqueológico

Durante as obras de reestruturação e reforma foi possível observar uma

estratigrafia composta, basicamente, pelas seguintes camadas arqueológicas: I) solo

formado pela elevação do piso no pátio interno na década de 40 do século XX, com a

presença de material do período em questão; II) solo de coloração clara, constituído de

saibro, com pequena incidência de material arqueológico oitocentista, se comparada

com a camada III. A camada II está relacionada ao aterro realizado a partir de 1845

para construção do prédio; III) solo de coloração escura, úmido, com grande presença

de material arqueológico oitocentista e restos orgânicos, de 90 a 160 cm de

profundidade, dependendo da localização das sondagens, e com uma espessura variando

de 10 a 40 cm. A amostra do material recuperado corresponde, na sua maioria, às

práticas de descarte do lixo nas margens do Guaíba na Praia do Paraíso e poucas peças

estão relacionadas ao aterro do pátio interno do Mercado efetuado em 1871.

47 Construído entre 1842 e 1844, o antigo mercado se localizava, na época, na Praça do Paraíso, mais tarde denominada Praça do Mercado, na área onde atualmente está a parte ajardinada da Praça 15 de Novembro (Franco: 1998). Foi o primeiro Mercado Público da cidade.

45

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O material arqueológico recuperado atingiu, entre objetos inteiros e fragmentos,

a soma de 9.681 peças48, sendo que do total das peças de vidro 512, e no caso do grês

246 fragmentos, correspondem aos vestígios relacionados ao consumo de bebidas

alcoólicas.

48 A análise dos fragmentos de faiança fina evidenciados nos sítios Mercado Publico Central, Praça Rui Barbosa, e Solar Lopo Gonçalves realizada pelos pesquisadores Fernanda Bordin Tocchetto, Luis Cláudio Pereira Symanski, Sérgio Rovan Ozório, Alberto Tavares Duarte de Oliveira e Ângela Maria Cappelletti resultou, em 2001, na publicação “A faiança fina em Porto Alegre: vestígios arqueológicos de uma cidade”, UE/SMC/PMPA.

46

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47

Tabela 05: Frequência de peças por categoria funcional

Item Forma Categoria Terminação Cor Nmp NfrgMaterial

Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro 2 anéis, superior em forma de cone, inferior arredondado Verde oliva escuro 1 3

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis em forma de cone Verde escuro 9 22

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis em forma de cone Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde escuro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro Borda expandida c/2 anéis arredondados Verde escuro 1 1

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis em forma de cone Verde escuro 7 22

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis em forma de cone Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis em forma de cone Verde oliva claro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde escuro 2 5

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 1 2

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 1 5

Garrafa para uísque Poligonal Vidro Âmbar 1 1

Garrafa para genebra ou aguardente Tronco piramidal invertida Vidro Anel com dobragem externa Verde escuro 1 7

Garrafa para genebra ou aguardente Tronco piramidal invertida Vidro Anel com dobragem externa Verde oliva escuro 2 22

Garrafa para bebida alcoólica Cilíndrica Vidro Verde oliva escuro 4 4

Garrafa para bebida alcoólica Cilíndrica Vidro Verde oliva claro 1 1

Garrafa para bebida fermentada Cilíndrica c/pescoço abrupto vidro Verde oliva escuro 23 54

Garrafa para vinho, champanhe Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para vinho, champanhe Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Verde oliva claro 1 6

Garrafa para champanhe Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Verde oliva claro 1 1

Conteúdo não identificado Vidro 5 5

Garrafa para genebra Cilíndrica Grês Anel estreito em forma de cone Marrom claro 8 39

Garrafa para genebra Cilíndrica Grês Anel estreito em forma de cone Marrom avermelhado 10 207

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Anel arredondado (blob top ) Verde oliva claro 1 2

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês Anel em forma de cone Bege 1 1

Garrafão Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 1 1

Garrafão Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde escuro 1 10

Copo Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 2 2

Copo Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 1 1

Cálice para licor, ou vinho do Porto Painéis de corte vertical, estilo "flute" Vidro Transparente 1 1

Cálice para licor, ou vinho do Porto Haste com degrau central Vidro Transparente 2 4

Não identificado 317

Total 95 758

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O período de descarte dos vestígios relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas

Existem outros indicadores que podem ser utilizados para delimitação do

período de formação do registro arqueológico, além da presença ou ausência de

determinados artefatos na amostra do sítio.

As informações sobre a construção de obras ou prédios no local podem ser um

elemento importante para a definição da data final da formação do sítio. É o caso da

construção da Praça Rui Barbosa, e dos prédios do Mercado Público e Paço Municipal.

A delimitação do período de encobrimento dos registros arqueológicos, por intermédio

das obras de edificação ou remodelação nos locais, possibilita a designação de uma data

absoluta do tipo “não depois de”. Já para a definição do período inicial o indicador mais

preciso, como nos outros sítios, corresponde, em grande parte, a data de fabricação do

artefato mais antigo recuperado no local49.

O período mais intenso indicado pelo gráfico de barras (South, 1978), através da

análise dos artefatos de vidro e grês relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas,

teve como data inicial 1830 e terminal 187050. O intervalo de tempo obtido pelo gráfico

está de acordo com as informações relacionadas às práticas de descarte de lixo na antiga

Praia do Paraíso, o aterro do local, e o calçamento da parte interna do Mercado Público

em 1871.

No entanto, de todos os gráficos de barras dos fragmentos de vidro e grês

relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas dos sítios pesquisados, o elaborado com

material do Mercado Público é o único em que a data inicial abarca quase a totalidade

do segundo quartel do século XIX, período anterior ao consumo e utilização de forma

mais intensa de artigos de vidro no Brasil51.

49 Com relação à definição do período de formação do registro arqueológico, Deetz (1977: 16) utiliza os termos terminus post quem para a data mais remota adquirida para o começo da formação do sítio, e terminus ante quem para o marco temporal obtido para o final do depósito. 50 Os gráficos de barras (South, 1978) relacionados aos dados obtidos da análise da louça nos sítios Mercado Publico Central, Paço Municipal e Praça Rui Barbosa não foram realizados. 51 As dessemelhanças entre os períodos do consumo de bebidas alcoólicas dos sítios correspondentes às lixeiras coletivas serão tratadas no capitulo 4.

48

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Gráfico de barras 05 de peças de vidro e grês relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas

Sítio: 05 - Sítio Mercado Público Central2221

20191817

16151413

1211

109

87654321

Legenda1 Terminação flamejada - até 1840 12 Ferramenta de acabamento de topo (lipping tool ) - 1840 a 19202 Terminação com tira de vidro sem o uso de ferramentas lipping tool - até 1840 13 Instrumento de sustentação (snap case) - 1850 a 19203 Molde inteiriço (dip mold ) - até 1850 14 Haste de cálice com degrau central transparente - 1850 a 18704 Pontel de vidro - até 1870 15 Demanda crescente por vidro transparente - a partir de 18505 Pontel de vidro e areia - até 1870 16 Utilização do centro da base de garrafa de vidro para inscrições - a partir de 18506 Pontel de tubo - até 1870 17 Inscrição em forma de panéis - a partir de 18607 Superfície do vidro com aparência de metal martelado - até 1870 18 J.T. Gayen Altona, Fabricante de uísque, Schiedam, Holanda - a partir de 18608 Molde de 3 partes - 1810 a 1880 19 Inscrição "H R", Hormann Rohrbacher, Philadelphia - a partir de 1860 a 19049 Molde de 2 ou 3 partes - até 1880 20 Fabricante Henry Kennedy/Barrowfiels Pottery/Glasgow, Escócia, 1866 a 1929

10 Molde Ricketts - 1820 ao início do século XX 21 Molde de tornear (turn molde ) - 1870 a 193011 Painéis no estilo pregueado "flute" - a partir de 1830 22 Produção de terminações sem emendas ou marcas - a partir de 1870

49

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1.3.2 Sítio Praça Rui Barbosa (RS.JA-06)

O contexto histórico-espacial

A Praça Rui Barbosa está localizada no centro de Porto Alegre, entre a rua

Voluntários da Pátria e Av. Julio de Castilhos, tendo a sudoeste a rua Dr. Flores como

limite52.

Em virtude da implantação, na praça, de fundações para novos terminais de

ônibus e instalação de esgoto pluvial, foi realizado, no mês de junho de 1995, o trabalho

de salvamento arqueológico pela equipe do Museu Joaquim José Felizardo53. Neste

período a área trabalhada pelos pesquisadores atingiu um total de 124m², composta por

uma trincheira de 91m x 1m, e 11 buracos de 1,5m x 2m para sapatas.

O aterro do local, onde hoje é a Praça Rui Barbosa, foi efetuado em 1879 com

porções de terra retiradas de áreas próximas, como a Praça da Conceição e ruas São

Rafael e Pinto Bandeira. A nova área transformou-se em praça pública, tendo como

função principal o parqueamento de carretas dos abastecedores do Mercado Público.

Antes mesmo do aterro, a margem do lago, próxima ao local, tinha outras

finalidades. Com o Caminho Novo, atual Voluntários da Pátria, aberto em 1806, o lugar

passou a fazer parte da conexão entre o centro urbano e as quintas situadas à beira do

lago. Entre 1836 e 1840, durante o cerco farroupilha, foi instalado, temporariamente na

região, um matadouro público. No entanto, o uso mais duradouro deste espaço, no

século XIX, foi por atividades ligadas ao conserto e construções de embarcações. O

local, em 1839, já era denominado de Praça ou Praia do Estaleiro. Apenas em 1879,

com uma nova destinação, que o lugar passou a ser chamado de Praça das Carretas. No

entanto, a utilização de parte da área, por parte de estaleiros, persistiu pelo menos até

1887.

52 As informações sobre o sítio Praça Rui Barbosa foram extraídas de Tocchetto (1995). 53 O salvamento e acompanhamento arqueológico foi efetuado pelos arqueólogos Fernanda Tocchetto, Luis Cláudio Symanski, e Cláudio de Carle, pelos bolsistas da FAPERGS Ângela Maria Cappelletti, Alberto T. Duarte de Oliveira, Sérgio Rovan Ozório, e pela estagiária do Museu Ana Letícia de A. Vignol.

50

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A estratigrafia e o material arqueológico

O processo de formação do sítio envolveu uma grande gama de impactos no

solo. O local passou, do final do século XIX até a reestruturação em 1995, por várias

alterações, ocasionadas por seguidas elevações de nível do terreno e ampliações em

direção ao lago. Uma grande variedade na composição do solo foi constatada no

transcurso dos trabalhos de salvamento arqueológico. O sítio apresentou uma

estratigrafia extremamente complexa. Diversas composições de camadas de aterro

foram evidenciadas. Mesmo diante de tais circunstâncias, foi possível verificar a

configuração do terreno anterior à execução do aterro e a presença de uma camada

úmida, que corresponderia ao material descartado como lixo e atirado às margens do

lago.

51

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Fonte: Tocchetto (1995). Edição: Paulo Alexandre da Graça Santos

52

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Tabela 06: Frequência de peças por categoria funcional

Item Forma Categoria Terminação Cor Nmp NfrgMaterial

Garrafa para bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde oliva escuro 6 7

Garrafa para bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde oliva claro 2 2

Garrafa para bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde escuro 1 1

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior arredondado Verde escuro 2 6

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 5 10

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis em forma de cone Verde escuro 1 1

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis em forma de cone Âmbar 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis em forma de cone Verde oliva escuro 2 8

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Âmbar 1 2

Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior arredondado Verde oliva claro 1 2

Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior arredondado Verde oliva escuro 2 6

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis em forma de cone Verde escuro 3 6

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Âmbar 1 3

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 2 6

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva escuro 1 4

Garrafa para genebra ou aguardente Tronco piramidal invertida Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva escuro 1 2

Função original não identificada Vidro 6 6

Garrafa para genebra Cilíndrica Grês Marrom avermelhado 2 13

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Grês 2 anéis superior cone, inferior arredondado Bege 2 8

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Grês Bege e marrom claro 1 3

Copo pequeno Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 1 2

Cálice para licor, ou vinho do Porto Copa sem decoração Vidro Transparente 1 1

Taça ou cálice Vidro Transparente 3 4

Taça ou cálice Copa facetada Vidro Transparente 3 5

Não identificado 348

Total 52 460

53

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O material arqueológico proveniente das atividades de salvamento arqueológico

na Praça Rui Barbosa atingiu a soma de 4.423 fragmentos ou objetos, sendo que, deste

total, 2.174 peças (48,02%) correspondem à categoria cerâmica e 890 (20,12%) à vítrea.

Do conjunto dos vestígios de vidro, 436, e no caso do grês, 24, correspondem aos

fragmentos ou peças relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas, recuperados nas

camadas de aterro e lixeira coletiva.

54

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O período de descarte dos vestígios relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas

O gráfico de barras (South, 1978), correspondente às informações obtidas da

análise dos fragmentos de vidro e grês relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas,

indica um período entre 1848 e 1870. A data inicial do gráfico aponta para uma

intensificação do descarte dos vestígios correspondentes ao consumo de bebidas

alcoólicas, num momento posterior ao do material recuperado na área do mercado

público e Paço Municipal.

55

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Gráfico de barras 06 de peças de vidro e grês relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas

Sítio: 06 - Praça Rui Barbosa14

1312

1110987

654321

Legenda

1 Terminação com tira de vidro aplicada sem o uso de ferramentas para finalização de topo (lipping tool )- até 18402 Pontel de vidro - até 18703 Superfície do vidro com aparência de metal martelado - até 18704 Molde de 2 ou 3 partes - até 18805 Molde inteiriço ou triplo - até 18806 Ferramenta de acabamento de topo (lipping tool ) - 1840 a 19207 Inscrição "G & H", fabricante Gray & Hemingray, Cincinnati, Ohio, ou Covington, Ky. - 1848 a 18648 Utilização do centro da base de garrafa de vidro para inscrição comercial - a partir de 18509 Demanda crescente por vidro transparente - a partir de 1850

10 Superfície do vidro com aparência de metal martelado e uso de instrumento de sustentação - 1850 a 187011 Instrumento de sustentação (snap case) - 1850 a 192012 Inscrição "Dowlton Lambeth", Inglaterra - 1858 a 191613 Inscrição em painéis (plate molds ) - a partir de 186014 Molde de tornear (turn mold ) - 1870 a 1930

56

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1.3.3 Sítio Paço Municipal (RS.JA-20)

O contexto histórico-espacial

Em área central da cidade, o Paço Municipal localiza-se entre a Av. Borges de

Medeiros e a rua Uruguai, e as ruas Siqueira Campos e Sete de Setembro.

Em virtude da implementação do projeto de restauração do Paço Municipal pela

Prefeitura Municipal de Porto Alegre, a equipe de Arqueologia do Museu Joaquim José

Felizardo54, entre setembro de 2001 e julho de 2002, realizou o acompanhamento

arqueológico das obras que interferiram no subsolo das áreas circunscritas ao interior e

faixas laterais externas do prédio.

No projeto de restauração não havia uma previsão de estudos arqueológicos, o

que limitou, consideravelmente, o tipo de ação por parte dos pesquisadores. O mesmo

quadro foi verificado durante as obras no Mercado Público e Praça Rui Barbosa. Em

função disso, os pesquisadores limitaram-se a acompanhar as intervenções no subsolo,

recuperando a cultura material existente nestes sítios, sem contribuir com o processo de

restauração e reestruturação. A metodologia de campo aplicada, nestes sítios, foi,

portanto, a de coletar todos os materiais arqueológicos, bem como registrar vestígios

associados na estratigrafia, como pisos, contra-pisos e calçamentos. O registro do

material recuperado ocorria, conforme a procedência dos fragmentos ou objetos, em

nível sincrônico e diacrônico.

A construção do Paço Municipal, realizada entre 1898 e 1901, surgiu em uma

conjuntura marcada pela instabilidade política. Baseado em um aparato político-

ideológico de caráter, ao mesmo tempo, conservador, progressista e autoritário, o

partido governista (Partido Republicano Rio-Grandense), procurava afirmar-se em meio

a fortes manifestações oposicionistas.

Dentre as estratégias governistas estava a edificação do Paço Municipal. O

conjunto arquitetônico, com a sua estatuária marcada pela influência greco-romana, se

sobressaia diante de outros prédios por sua monumentalidade e suntuosidade

(Doberstein, 1992). A construção do Paço Municipal tornou-se um símbolo do poder

constituído.

O primeiro aterro do local, onde hoje está o prédio da Prefeitura, foi realizado no

final da década de 1850, em função da construção de um cais ladeado por duas docas,

54 Equipe formada pela arqueóloga coordenadora do Programa de Arqueologia Urbana de Porto Alegre, Fernanda Bordin Tocchetto, e pelo autor, na época bolsista de Iniciação Científica da FAPERGS.

57

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em projeto desde 1847. A Doca das Frutas, localizada onde atualmente está a Praça

Parobé, já estava quase pronta, sendo finalizada em 1852. Doze anos depois foi iniciada

a construção da segunda doca e do novo Mercado Público.

As informações obtidas por intermédio das pesquisas arqueológicas e históricas,

apontam para a formação de um sítio multicomponencial, que contêm três ocupações

diferenciadas no mesmo espaço. A primeira ocupação corresponde à utilização das

margens do Guaíba para descarte do lixo urbano por parte da população. A segunda diz

respeito à construção da doca em meados da década de 1860, e a última relacionada à

edificação do Paço Municipal. Parte da doca foi utilizada como alicerce na construção

do prédio da prefeitura (ver fig. 03).

Figura 03: Transposição de plantas onde constam a antiga orla do lago Guaíba, o traçado do cais do Mercado Público, Praça Parobé, e Paço Municipal. Fonte: Oliveira (1987) e AHMV. Edição: Paulo Alexandre da Graça Santos.

58

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A estratigrafia e o material arqueológico

Ao longo das intervenções, que alcançaram uma área total de 1.355,48 m², foi

possível verificar a presença de uma estratigrafia formada, basicamente, pelas seguintes

camadas: I) piso e contra-piso, com 8 a 16 cm de espessura, com exceção da canaleta

exterior leste (frontal à Praça Montevidéu), onde se evidenciou um segundo calçamento

e contra-piso totalizando 28 cm de espessura; II) solo marrom arenoso, proveniente de

aterro, formado basicamente de saibro e com incidência de material arqueológico. III)

Solo marrom escuro, proveniente de aterro e com material arqueológico; IV) solo preto

acinzentado com material arqueológico, que corresponde ao antigo leito da praia,

evidenciado nas sondagens mais profundas55.

55Na escavação de um poço para colocação do reservatório coletor subterrâneo, a camada IV apareceu aos 1,69 m de profundidade, alcançando 2,29 m no final da escavação.

59

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O material arqueológico proveniente das atividades de acompanhamento e

salvamento arqueológico no Paço Municipal atingiu a soma de 3.885 fragmentos ou

objetos. Sendo que deste total, 2.782 peças correspondem à categoria cerâmica e 850 à

vítrea. Do conjunto dos vestígios de vidro, 561, e no caso do grês, 31, correspondem aos

fragmentos ou peças relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas, recuperados nas

camadas de aterro e lixeira coletiva.

61

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Tabela 07: Frequência de peças por categoria funcional

Item Forma Categoria Terminação Cor Nmp NfrgMaterial

Bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde escuro 1 1

Bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde oliva escuro 16 11

Bebida fermentada Cilíndrica Vidro Verde primavera 1 1

Garrafa para champanhe Cilíndrica Vidro Champanhe Verde oliva claro 1 2

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro 2 anéis superior arredondado, inferior reto Verde escuro 1 2

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 5 5

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva escuro 4 12

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde oliva escuro 4 4

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis em forma de cone Verde escuro 16 36

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis em forma de cone Verde oliva escuro 2 4

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde escuro 5 14

Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior arredondado Verde escuro 4 9

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro Faixa de vidro aplicada Verde escuro 2 2

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis em forma de cone Verde escuro 7 16

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis em forma de cone Verde oliva escuro 3 4

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis superior reto, inferior arredondado Verde escuro 3 6

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Anel arredondado e furos para atarraxar bujão Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para champanhe Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Champanhe Verde oliva claro 2 2

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva claro 4 4

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde oliva escuro 1 1

Garrafa para genebra ou aguardente Tronco piramidal invertida Vidro Anel com dobragem externa Verde oliva escuro 3 18

Conteúdo não identificado Vidro 13 13

Garrafa para genebra Cilíndrica Grês Anel estreito em forma de cone Marrom avermelhado 1 7

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Grês Bege e chocolate 1 1

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Grês Bege e marrom claro 4 4

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês 2 anéis arredondados Bege 1 6

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês 2 anéis superior reto, inferior arredondado Bege 1 6

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês Bege 1 6

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês 2 anéis superior cône, inferior arredondado Bege e marrom claro 1 1

Garrafão Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Verde oliva escuro 1 8

Copo Cilíndrico c/paredes facetadas Vidro Transparente 4 11

Copo Cilíndrico c/paredes lisas Vidro Transparente 1 3

Cálice para licor, ou vinho do Porto Haste com degrau central Vidro Transparente 4 5

Taça para vinho Vidro Transparente 2 2

Não identificado 359

Total 123 592 62

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O período de descarte dos vestígios relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas

O período mais intenso indicado pelo gráfico de barras (South, 1978), através da

análise dos artefatos de vidro e grês relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas,

teve como data inicial 1840 e terminal 1890.

63

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Gráfico de barras 07 de peças de vidro e grês relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas

Sítio: 20 - Paço Municipal 2019

1817

161514131211

109

87654321

Legenda do gráfico de barras do vidro

1 Terminação flamejada - até 1840 11 Haste de cálice com degrau central transparente - 1850 a 18702 Terminação com tira de vidro aplicada sem o uso de lipping tool - até 1840 12 Demanda crescente por vidro transparente - a partir de 18503 Pontel de vidro - até 1870 13 Decoração através de cauterização (acid-eched glass ) a partir de 18504 Pontel de vidro e areia - até 1870 14 Utilização do centro da base de garrafa para inscrição comercial - a partir de 18505 Pontel de tubo - até 1870 15 Instrumento de sustentação (snap case) - 1850 a 19206 Molde de 2 ou 3 partes - até 1880 16 Inscrição "A", John Agnew & Son, Philadelphia - 1854 a 18667 Molde inteiriço (dip mold ) ou triplo - até 1880 17 Inscrição "ORTOBELL" - Richard Cooper & Co., Portobello, Escócia - 1868 a 19288 Molde de 3 partes - 1810 a 1880 18 Molde de tornear (turn mold ) - 1870 a 19309 Inscrição "Van Den Bergh & C.", Fabricante de Genebra, Holanda - 1830 a 1880 19 Inscrição "S", Hero Glass Works, Philadelphia - 1882 a 1884

10 Ferramenta de acabamento de topo (lipping tool ) - 1840 a 1920 20 Padrão decorativo Cut - a partir de 1890

64

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1.4.2 Sítio Antiga Cervejaria Brahma (RS.JA-22)

O contexto histórico-espacial

O sítio Antiga Cervejaria Brahma1 está localizado na Av. Cristóvão Colombo,

512, bairro Floresta. O acompanhamento arqueológico2 foi efetuado no local onde

foram realizadas as obras de implantação do Total – Shopping de Descontos, em terreno

de 54.680 m². O empreendimento tinha como meta a edificação de novas construções no

local, além da preservação e utilização dos prédios tombados pela COMPHAC em

1999.

O que pôde ser verificado, ao longo do monitoramento, foi a presença de aterros

formados em grande parte por rejeitos da própria fábrica, como fragmentos de garrafas

de vidro e grês e sobras de carvão, numa área com declive natural. Além desse material,

foram recuperados, também, vestígios de objetos relacionados à saúde e higiene, o que

remete, possivelmente, a um depósito relacionado a uma unidade doméstica,

provavelmente a casa do mestre cervejeiro. Além da área do barranco, foram

evidenciadas mais duas áreas de descarte com fragmentos de garrafas da fábrica e

objetos relacionado ao consumo doméstico. Foi possível verificar também a existência

de restos de construções antigas, como a estação de tratamento de água e a casa do

mestre cervejeiro, além de pisos de outras edificações.

A utilização do terreno por atividades ligadas a fabricação de cerveja remonta ao

último quartel do século XIX. Na área onde hoje está o Shopping – Total houve a

instalação, na época, de duas cervejarias. A Cervejaria Bopp, fundada em 1881, foi

transferida, em 1886, da rua Voluntários da Pátria para o terreno da Cristóvão Colombo.

No mesmo espaço da antiga Cervejaria Brahma, em área próxima da Cervejaria Bopp,

já estava instalada a fábrica de propriedade de Guilherme Becker, fundada em 1878.

No início do século XX a Cervejaria Bopp passa por um processo de ampliação,

com a adoção da nova razão social Cervejaria Bopp e Irmãos, a implementação de

novas instalações destinadas à administração, à produção e comercialização do produto,

e moradia do mestre cervejeiro. Na mesma época a Cervejaria Becker já tinha alterado a

sua razão social para Cervejaria Sassen, em virtude da sua aquisição, em 1899, por parte

de Bernardo Sassen. 1 As informações sobre o sítio Antiga Cervejaria Brahma foram extraídas de Tiesen (2003). 2 Trabalho coordenado pela arqueóloga Beatriz Valladão Thiesen entre julho de 2002 e junho de 2003, e realizado nos quadros do Programa de Arqueologia Urbana de Porto Alegre.

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A inauguração dos novos prédios da Cervejaria Bopp e Irmãos, em 1911, foi

considerado um importante evento na cidade. Parte destas instalações ainda estão

preservadas.

Para fazer frente a um processo de intensificação da concorrência e de

concentração empresarial no ramo cervejeiro, estimulado principalmente por empresas

de outros estados como a Brahma e Antártica, em 1924 foi constituída a Cervejaria

Continental, através da fusão de três grandes cervejarias de Porto Alegre, entre elas a

Bopp, a Sassen e Ritter. A fusão de empresas consegue adiar o ingresso da Indústria

Brahma no mercado gaúcho, realizado em 1946 com a aquisição da Cervejaria

Continental.

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A estratigrafia e o material arqueológico

As obras no terreno da antiga cervejaria envolveram uma série de escavações.

Houve em várias áreas uma grande gama de impactos, acarretados pelo translado de

solos para nivelamento do terreno, pela utilização de maquinaria pesada, e explosivos.

Com início das atividades dos arqueólogos num momento posterior ao das obras, e

também, por seus trabalhos estarem restritos à coleta de material e observação do que

estava sendo realizado, os dados adquiridos pelos pesquisadores correspondem a uma

pequena parcela do que realmente poderia ser obtido. Os solos removidos eram, em

várias ocasiões, colocados diretamente em caminhões e retidos do local. Isto acabou

impossibilitando a verificação de uma estratigrafia básica no local.

Do total das peças de vidro recuperadas no sítio, 134 e no caso do grês 228

fragmentos correspondem aos vestígios relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas.

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Camada 2

Camada 3

Camada 4

Camada 5

Camada 6

Camada 7

Camada 1

5 Cm

Perfil estratigráfico esquemático da parede sul, prédio 6, segmento A entre pilares 11 e 12

Camada 1 - 08 cm. - ConcretoCamada 2 - 09 cm. - Brita com fragmentos de vidro e granitoCamada 3 - 02 cm. - Areia misturada com carvão, coloração cinzaCamada 4 - 14 cm. - CarvãoCamada 5 - 11 cm. - CinzaCamada 6 - 07 cm. - SaibroCamada 7 - indeterminado - Substrato

Fonte: Thiesen (2003)

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Tabela 08: Frequência de peças por categoria funcional

Item Forma Categoria Terminação Cor Nmp NfrgMaterial

Garrafa para vinho Cilíndrica Vidro Faixa de vidro aplicada Verde escuro 1 2

Garrafa para cerveja Cilíndrica Vidro Terminaçao para rolha metálica Âmbar 6 14

Garrafa para cerveja Cilíndrica Vidro Terminaçao para rolha metálica Verde escuro 6 14

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde oliva claro 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde oliva escuro 3 8

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde primavera 2 4

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde escuro 1 2

Garrafa para vinho Cilíndrica c/pescoço gradual Vidro Faixa de vidro aplicada Verde primavera 1 2

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis em forma de cone Verde escuro 1 2

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro Terminaçao para rolha metálica Âmbar 3 8

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Âmbar 1 3

Garrafa para vinho ou cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro 2 anéis superior reto, inferior em forma de cone Verde oliva escuro 1 2

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Vidro Terminaçao para rolha metálica Verde escuro 1 1

Garrafa para bebida fermentada Vidro Âmbar e verde oliva 7 7

Conteúdo não identificado Vidro 4 4

Garrafa para genebra Cilíndrica Grês Marrom avermelhado 5 173

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês Bege e marrom claro 5 5

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço abrupto Grês Bege e marrom claro 9 9

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês Bege 6 6

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês 2 anéis superior reto, inferior arredondado Bege 3 3

Garrafa para cerveja Cilíndrica Grês Bege 13 29

Garrafa para cerveja Cilíndrica Grês Bege e marrom claro 2 2

Garrafa para cerveja Cilíndrica c/pescoço gradual Grês Anel em forma de cone Bege e marrom claro 1 1

Não identificado 59

Total 83 362

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O período de ocupação

O período de ocupação mais intenso indicado pelo gráfico de barras (South,

1978), através da análise dos artefatos de vidro e grês relacionados ao consumo de

bebidas alcoólicas, teve como data inicial 1870 e terminal 1925, tendo como data base

para a comutação da automatização da indústria do vidro nos grandes centros produtores

a metade da segunda década do século XX (Miller & Sullivan, 1984).

O intervalo de tempo obtido pelo gráfico aponta como primeiro momento de

intensificação na prática de descarte o início das atividades das cervejarias Becker e

Bopp no local, e compreende também o período de funcionamento da Cervejaria Bopp

& Irmãos. A data terminal do gráfico corresponde praticamente ao período que precede

a formação da Cervejaria Continental, pois a ultrapassa em apenas um ano.

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Gráfico de barras 08 de peças vidro e grês relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas

Sítio: 22 - Antiga Cervejaria Brahma

1514

1312

1110

9876

5432

1

Legenda

1 Ferramenta de acabamento de topo (lipping tool ) - 1840 a 1920 9 Molde de tornear (turn mold ) - 1870 a 19302 Utilização do centro da base de garrafa para inscrição - a partir de 1850 10 Inscrição A Pinto Ramos - fabricante de vinho do Porto - a partir de 18803 Inscrição "Port-Dundas Pottery Co., Glasgow" - 1850 A 1916 11 Inscrição "S", fabricante Hero Glass Works, Philadelphia - a partir de 18844 Inscrição "Price T Bristol" - 1850 a 1916 12 Terminação para rolha metálica (crown top ) - a partir de 18955 Instrumento de sustentação (snap case) - 1850 a 1920 13 Inscrição "S M", Cia Vidraria Santa Marina - a partir de 18966 Inscrição Henry Kennedy/Barrowfiels Pottery/Glasgow - 1866 a 1929 14 Inscrição "C I", Companhia Industrial São Paulo e Rio de Janeiro, (CISPER) - a partir de 19177 Inscrição "Grosvenor & Glasgow" - 1869 A 1899 15 Predomínio de equipamentos automáticos de produção de garrafas8 Produção de terminações sem emendas ou marcas - a partir de 1870 de vidro nos grande centros produtores - a partir de 1925

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2. OS CONTENTORES DE VIDRO E GRÊS PARA BEBIDAS ALCOÓLICAS Fator importante no processo de análise das peças e nas posteriores associações e

interpretações, o estabelecimento das relações de freqüência e dessemelhanças entre os

fragmentos de garrafas, copos, taças e cálices recuperados advém, necessariamente, da

classificação desses artefatos de acordo com as suas formas e funções.

Outro elemento indispensável para não se estabelecer associações precipitadas é a

verificação da cronologia e proveniência das peças. Os vestígios deixados nos contentores

por processos de manufatura e inscrições do nome e local do fabricante podem fornecer

dados importantes sobre a antiguidade da peça e redes de comércio. O entendimento das

mudanças tecnológicas e os métodos de fabricação no período enfocado são, portanto,

fundamentais para que se possa realizar análises detalhadas dos contentores.

Em virtude disso, neste capítulo serão tratados os aspectos tecnológicos e

cronológicos relacionados aos processos de manufatura de artigos de vidro no Brasil e

exterior no século XIX e início do XX e as características relativas à forma, função e

reutilização dos contentores de bebidas alcoólicas. O enfoque dado ao material vítreo

decorre da maior incidência de fragmentos de vidro nos sítios pesquisados, em termos de

quantidade e diversidade se comparado com as peças em grês.

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2.1 Aspectos tecnológicos e cronológicos dos métodos de fabricação de artigos de vidro As marcas deixadas por processos de manufatura são, acima de tudo, o melhor

elemento para delimitação de uma cronologia de peças ou fragmentos de vidro. Por se tratar

de um tema versado por diversos autores, serão enfatizados apenas os vestígios dos

métodos de fabricação verificados na análise da amostra. Os dados aqui apresentados estão

baseados em informações sobre técnicas encontradas em bibliografia especializada.

Existe uma vasta bibliografia, essencialmente estrangeira, voltada para a explanação

dos métodos de fabricação de garrafas, copos, taças e cálices. Além de estudos direcionados

para o campo da Arqueologia, são encontradas informações precisas em trabalhos

dedicados à história das tecnologias na fabricação de vidros e coleções de antiguidades. Por

estarem entre os fragmentos ou peças de vidro que aparecem com maior freqüência nos

sítios estudados, será dado destaque à descrição de processos e técnicas de confecção de

garrafas.

Antes do advento de máquinas semi-automáticas no final do século XIX, as garrafas

de vidro eram fabricadas através de processo de conformação manual. Havia dois modos de

ser realizado: o sopro da massa vítrea com a utilização de molde ou a mão livre (Baugher-

Perlin, 1988).

Com algumas variações, o processo de manufatura para produção de garrafas,

principalmente na Europa e Estados Unidos até meados do século XIX, ocorria da seguinte

forma:

Por intermédio de movimentos circulares e elevações o vidreiro fixava, na

extremidade de um tubo ou cana de soprar, uma determinada porção de massa vítrea já

fundida. Ao vidro quente era dada uma forma preliminar (parison)58 por meio de insuflação

e rotação em uma laje ou peça de metal plana (Jones, 1971). Após esta operação o soprador

poderia inserir a massa vítrea em um molde para a formação do corpo da garrafa. Caso

contrário, a transformação da pré-forma ocorria de maneira lenta e cuidadosa, dependendo

exclusivamente da habilidade e experiência do vidreiro. Após a retirada do molde ou da

modelagem manual, a próxima etapa era o reforço da base da garrafa (push-up ou kick). A

operação consistia na formação de uma concavidade basal, ainda verificada em garrafas de 58 Em razão do predomínio da bibliografia estrangeira no que diz respeito a estudos sobre os métodos de fabricação de artigos de vidro se optou por inserir os termos em inglês entre parênteses junto à descrição em português da matéria-prima, técnica, ou ferramenta correspondente.

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vinho e espumantes, por meio de pontel ou tubo de soprar que empurravam a base da

garrafa. Com uma nova empunhadura, proporcionada pela fixação de uma ferramenta na

base, a cana de soprar era destacada da outra extremidade, deixando-a livre para o

acabamento. O gargalo era, então, novamente aquecido e, com a adição de um vidro extra,

a extremidade ou topo era formado. Após a finalização da extremidade, o pontel ou tubo de

soprar era sacado da base e a garrafa era conduzida ao forno de recozimento.

As alterações nos métodos de produção, ao longo do século dezenove, resultantes de

aperfeiçoamentos e inovações, podem ser observadas em alguns artefatos de vidro.

A garrafas fabricadas por sopro a mão livre se caracterizam por sua assimetria,

apresentando, normalmente, uma superfície lisa e brilhante com grande concentração de

vidro na base (Lorrain, 1968). Esses objetos, obviamente, não podem apresentar emendas

ou linhas ocasionadas pela utilização de molde.

As marcas de molde são produzidas quando uma pequena quantidade de vidro

quente entra em contato e verte entre as extremidades ou emendas do molde. A verificação

dessas linhas ou marcas em artefatos de vidro pode ser importante para a obtenção de uma

cronologia.

A introdução de moldes no processo de fabricação surgiu da necessidade de

unificação de formas e aceleração da produção ocasionada pela demanda crescente de

garrafas (Baugher-Perlin, 1988).

Os mais antigos são os moldes inteiriços (dip molds). Seu período de utilização,

segundo Tolouse (1969: 584), vai desde o final do século XVII até meados do XIX.

Somente o corpo da garrafa era configurado por este tipo de molde. Os acabamentos do

ombro, gargalo e topo eram feitos manualmente. Se durante o processo de conformação

houve o contato do vidro com a borda do molde, pode ser encontrada uma linha horizontal

de molde no ponto onde inicia o declive do ombro, na parte de maior diâmetro da garrafa.

No entanto estas características podem ser encontradas também em artefatos produzidos

por moldes de três partes.

O molde triplo ou de três partes (three-part molds) foi desenvolvido em torno de

1810 (Lorrain, 1968; Newman, 1970). Na Inglaterra o seu registro de patente foi obtido em

1821, e a sua aplicação na fabricação de garrafas não ultrapassa a década de 1870 (Tolouse,

1969). Além da linha horizontal na divisa entre o corpo e o ombro, as garrafas fabricadas

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por este tipo de molde apresentam, também, dois cortes verticais contrapostos que surgem

da linha horizontal e atingem o gargalo. Normalmente, tanto o molde triplo quanto o

interiço não apresentam decoração ou inscrição no corpo da garrafa.

Somente a partir da década de 1820, com o desenvolvimento do molde de duas

partes denominado Ricketts pela empresa Ricketts Company de Bristol Inglaterra, que foi

possível, a partir de um molde, fazer inscrições em relevo na base da garrafa (Jones, 1971).

O modelo incluía um anel com letreiros que poderia ser colocado perto da circunferência da

base. Por meio do anel, informações sobre o volume da garrafa ou dados do fabricante

poderiam ser impressos. Com grande aceitação entre os fabricantes de vidro, a sua

utilização se estende até o início do século XX (idem).

Segundo Baugher-Perlin (1988: 264) os moldes duplos ou de duas partes foram

largamente utilizados entre 1750 e 1880. As garrafas produzidas por este tipo de molde,

normalmente, apresentam duas marcas verticais de emendas contrapostas que partem da

base em direção ao gargalo.

Figura 04: Da esquerda para direita: ilustração de molde inteiriço (dip mold), e um exemplo dentre vários de moldes de duas partes. Fonte: webpages.charter.net/blindsey8952/blm/index.htm A partir de 1870 surge, entre as técnicas de fabricação de garrafas, o uso de um tipo

de molde onde as linhas verticais de emendas eram obliteradas (Tolouse, 1969). O molde

de tornear (turn mold) era um molde de metal coberto por uma pasta que possibilitava o

torneamento da massa vítrea. A rotação no interior do molde eliminava as marcas de

emenda, no entanto poderia deixar sulcos ou estrias horizontais no corpo da garrafa. A sua

aplicação entrou em declínio na década de 1920 (Baugher-Perlin, 1988).

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A utilização de equipamentos automáticos e semi-automáticos pode ser identificada

por meio de determinadas marcas de molde nos artefatos59. Os dois processos apresentam,

de uma maneira geral, uma linha horizontal uma pouco acima da base e duas linhas

verticais contrapostas que vão da base até a borda da terminação. Estas marcas podem ser

apagadas através de polimento.

Entre 1880 e 1885, as primeiras máquinas semi-automáticas foram desenvolvidas

(Mari, 1982). No entanto, a aplicação desses equipamentos de forma ampla na produção de

recipientes de boca estreita não ocorreu antes de 1889 (Miller & Sullivan, 1984). Mesmo

com a invenção da primeira máquina automática (Owens), em 1904, as semi-automáticas

continuaram em uso por algum tempo. A partir da metade da década de 1920 que ocorre o

predomínio dos equipamentos automáticos nas indústrias de vidro dos grandes centros

(idem).

Figura 05: Ilustrações das linhas das emendas do molde de duas partes (esquerda), e molde de três partes (direita). Fonte: Lorrain (1968).

Da mesma forma que as linhas de molde, as marcas de pontel podem ser um

importante indicativo para a formação de uma cronologia. A sua presença em determinado

fragmento ou peça de vidro atesta a aplicação de um processo de produção manual. O

pontel, conforme já mencionado, é uma haste de ferro que segura o objeto de vidro durante

o processo manual de finalização do gargalo e topo. A sua remoção ocasiona uma marca

irregular, normalmente, na base do objeto.

59 Segundo Miller & Sullivan (1984: 83) não é possível diferenciar o uso de máquinas automáticas e semi-automáticas através das marcas deixadas pelos processos de manufatura. Ao contrário da produção manual, os dois sistemas partem de um mesmo princípio: o de formar a garrafa a partir do gargalo.

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Durante a análise foram identificados os seguintes vestígios ou marcas decorrentes

da aplicação de pontéis para confecção de garrafas, copos e cálices:

a) Marcas de pontel com ponta de vidro: podem ser caracterizadas pela presença de

marcas circulares ocasionadas pelo excesso de vidro deixado ou pela remoção de

uma pequena quantidade de vidro da base.

b) Marcas de pontel com ponta de vidro e areia: são maiores e mais perceptíveis que as

de ponta de vidro. Quase sempre a marca inicia perto do descanso da base, e a

superfície basal é alterada ou enrugada pela adesão de grãos de areia e camadas de

vidro. Muito comuns em garrafas inglesas de vidro verde escuro para vinho do final

do século XVIII e primeira metade do XIX (Jones, 1971).

c) Marcas de pontel de tubo: ocasionadas pelo uso da cana de soprar como pontel. A

única área na superfície basal perturbada corresponde a uma cicatriz em formato de

anel de vidro (Baugher-Perlin, 1988; Jones, 1971; White, 1978) Foram encontradas

em fragmentos de bases de copos e cálices.

Figura 06: Ilustração com os tipos de pontel (com ponta de vidro (A), com vidro e areia (B), e pontel de tubo (C)). Fonte: Jones (1971).

No século XVIII e primeira metade do XIX a vara de pontel foi largamente utilizada

na confecção de garrafas de vidro. Somente com a introdução, na década de 1840 na

Inglaterra e na de 1850 nos Estados Unidos e França, de um dispositivo que envolvia o

recipiente sem deixar marcas na superfície basal, que o uso de pontéis começava a entrar

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em declínio (Tolouse, 1971). A nova ferramenta, denominada snap-case, era constituída de

braços ou garras curvadas que prendiam o recipiente ao redor do corpo e não deixava

marcas na base. O instrumento de sustentação poderia, eventualmente, deixar leves traços

no corpo da garrafa, ocasionados pelo contato com o vidro quente e flexível (Baugher-

Perlin, 1988; Lorrain, 1968; White, 1978). No entanto, isto é uma exceção a regra, pois

normalmente não existem marcas. Por volta de 1870, o pontel já havia sido substituído no

processo de acabamento de garrafas na maioria dos fabricantes (Jones, 1971; Newman,

1970; Fike, 1987). Com o uso do snap-case e o desaparecimento das marcas de pontel, a

partir de meados do século XIX, as indústrias de garrafas começaram a utilizar o centro da

base para inscrição de letras e números (Tolouse, 1971).

Figura 07: Ilustração com exemplos de instrumento de sustentação (snap-case). Fonte: Lorrain (1968), e site webpages.charter.net/blindsey8952/blm/index.htm

Outro avanço com relação às gravações comerciais ocorre, em torno de 1860, com o

desenvolvimento de um sistema que possibilitava a inscrição em painéis no corpo da

garrafa (Baugher-Perlin, 1988; Lorrain, 1968). Diferentes letreiros poderiam ser aplicados

através da utilização alternada de placas de inscrição em um mesmo molde (plate molds). A

possibilidade de aquisição de recipientes personalizados em pequenas quantidades tornava

o sistema rentável e prático para pequenas companhias (Baugher-Perlin, 1988).

O aperfeiçoamento de ferramentas e técnicas ocorreu, também, entre os processos

manuais de reforço e acabamento de gargalos e terminações. No início do século XIX

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predominava entre os fabricantes de garrafa, a formação de uma terminação simples, sem

tira ou faixa de vidro ao redor do gargalo, denominado sheared lip (Baugher-Perlin, 1988;

Newman, 1978). Neste caso a retirada da cana de soprar da extremidade, onde a terminação

era formada, ocorria por meio de um choque térmico resultante do contato de água corrente

fria com o vidro quente, ou com o corte do vidro em estado maleável, através de um tipo

especial de tesoura. Após a disjunção havia a alternativa de um polimento do topo com

fogo.

Na década de 1840, a maioria dos fabricantes de garrafas fazia uso de diversos tipos

de ferramentas para finalização de gargalos e topos. (Baugher-Perlin, 1988; Lorrain, 1968;

Polak, 2000). Por meio desses utensílios uma nova camada de vidro era moldada na

extremidade do gargalo. A inovação, conhecida na Inglaterra e Estados Unidos por lipping

tool, proporcionou um melhor acabamento e diversificação das terminações, além da

substituição das toscas faixas ou tiras de vidro aplicadas em torno do gargalo. Na superfície

dos topos produzidos por lipping tools é possível verificar, em alguns casos, a presença de

enrugamentos ou estrias horizontais ocasionadas pelo contato do vidro quente e maleável

com o metal frio da ferramenta.

Figura 08: Exemplos de ferramentas para acabamento de terminações de garrafas (lipping tool). Fonte: Baugher-Perlin (1988) e Lorrain (1968).

A partir de 1870, houve um grande aprimoramento na finalização dos objetos, com

o emprego de carvão com maior potencial calórico e a adição de gás nos fornos (Baugher-

Perlin, 1988). O calor mais intenso dos fornos permitia a produção de gargalos e

terminações lisas, sem emendas ou marcas decorrentes do uso da ferramenta.

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A preocupação em mascarar ou eliminar possíveis marcas de fabricação é

verificada, principalmente, em partes de cálices e copos. Marcas de pontel na base dos

artefatos poderiam ser apagadas através de processo de abrasão ou polimento.

Normalmente as linhas de molde eram disfarçadas por meio de recursos ornamentais.

As técnicas de decoração mais freqüentes em cálices e copos, ao longo do século

XIX, eram a talha, a gravura, a moldagem e a douradura. Os elementos decorativos ou

desenhos eram efetuados através do uso de moldes, rodas ou molas giratórias, ponta de

diamante, agulha de metal, ácido, salpicadura de areia, pintura a frio, ouro em pó ou

purpurina, entre outros (Jones, 2000). Informações importantes, quanto à antiguidade do

objeto, podem ser obtidas pela identificação dos recursos decorativos. No decorrer da

análise foi evidenciado o uso dos seguintes equipamentos e técnicas decorativas:

a) Máquina dotada de agulhas cauterizadoras: utilizada, entre 1870 e 1930, na

decoração de artigos finos (idem). Seus padrões decorativos se caracterizam,

geralmente, pela presença de elementos gráficos ou faixas e linhas contínuas.

b) Moldagem de contato (contact-molded): nesta técnica decorativa a massa vítrea é

soprada em tipo especial de molde (open-and-shut) que molda e decora ao mesmo

tempo (ibidem). Pode reproduzir os padrões obtidos pelas técnicas de gravura ou de

vidro talhado. A identificação da técnica pode ser obtida pela comparação dos perfis

da superfície interior e exterior (Lorrain, 1968; Jones, 2000). Onde o contorno da

superfície interna é côncavo, o da parte externa será convexo, ou vice-versa.

c) Cauterização (acid-eched glass): técnica utilizada na decoração de vidros em escala

comercial a partir da metade do século XIX (Jones, 2000). Os efeitos decorativos

são obtidos através do uso de produtos que resistem à ação do ácido Hidroflorídico.

A aplicação deste recurso possibilita a corrosão do vidro de modo controlado e a

alternação de superfícies lisas com as modificadas de aparência geada.

Para alguns autores, um dos atributos de pouca confiabilidade quanto à delimitação

de uma cronologia, diz respeito à cor dos objetos, pois são vários os fatores que podem

influenciar na sua definição, como o nível de calor no forno, o tempo que a peça é re-

aquecida, a quantidade de óxido de ferro na massa vítrea e o acréscimo de agentes

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colorantes ou descolorantes (Baugher-Perlin, 1988: Lorrain, 1968: Fike, 1991: Jones e

Sullivan, 1989).

A maioria dos fabricantes da Europa e Estados Unidos, até meados do século XIX,

não utilizava agentes descolorantes na confecção de garrafas (Baugher-Perlin, 1988). Na

época a aplicação de produtos químicos para descorar o vidro elevava de modo

significativo o custo de produção. Normalmente a utilização de massa vítrea, sem adição

de descolorantes ou colorantes, produz vidros com vários tons e matizes de verde e marrom

escuro (âmbar), conforme quantidade de óxidos férreos na composição (Harris, 2000).

O quadro se altera, a partir da metade do século XIX, com a crescente demanda por

vidro claro motivada pelo desenvolvimento da indústria de conservação de alimentos

(Baugher-Perlin, 1988). A transparência dos vasilhames passou a ser sinônimo de higiene e

qualidade do produto. A necessidade de embalar produtos de forma que pudessem ser

visualizados obrigou os fabricantes a aperfeiçoar o processo de descorar o vidro.

A utilização em larga escala de manganês como agente descolorante, entre 1888 e

1915 aproximadamente, pode fornecer pistas quanto à antiguidade da peça ou fragmento

(idem). Visto que o artefato descolorido com manganês assume uma coloração ametista

quando exposto ao sol por tempo prolongado.

De modo geral, a definição de cronologias, por meio de atributos de garrafas, copos

e cálices, envolve a combinação de vários aspectos ligados às marcas de manufatura. No

entanto deve-se ter cautela com estes dados, pois estão baseados em generalizações.

Existem variações que podem alterar de modo significado a delimitação de uma cronologia.

Como bem ressaltou Newman (1970: 71), as datas estabelecidas para técnicas de fabricação

de garrafas devem servir para “orientação dos sábios e submissão dos tolos”.

Por outro lado, o processo de análise não pode estar baseado somente em critérios

técnicos e tipológicos. Há que se estabelecer um entrelaçamento dessas informações com os

dados obtidos sobre outros objetos recuperados e o contexto onde foram encontrados.

Somente a partir destes princípios será possível ir além tanto da mera transposição

mecânica de dados cronológicos de origem européia e norte-americana, quanto da

configuração de um trabalho voltado exclusivamente para aspectos tecnológicos e

morfológicos.

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2.2 Notas sobre a produção do vidro no Brasil e no exterior no século XIX e início do

XX.

A chegada ao Brasil da família real portuguesa, em 1808, pode ser apontada como

um marco para o surgimento das primeiras iniciativas voltadas à produção local de vidro no

século XIX. O estabelecimento da corte forçou o ajuste da sua colônia à condição de centro

político-administrativo do império. Com isso foi implementada uma série de medidas com

o objetivo de ampliar a economia e a infra-estrutura local.

Logo ao chegar, Dom João revoga o Alvará de 1785 de D. Maria I, que determinava

a extinção de todas as manufaturas no Brasil, e facilita a vinda de artesãos e profissionais

liberais europeus. Um ano mais tarde, com outro Alvará, promovia a isenção do imposto de

entrada de matérias-primas essenciais na produção de qualquer manufatura.

A partir destas resoluções surgem as primeiras autorizações para instalação de

fábricas de vidro no Brasil. O primeiro a ser beneficiado, o português Francisco Ignácio da

Siqueira Nobre, conseguiu abrir a sua manufatura na Bahia em 1812 (Sandroni, 1989).

Depois de um período conturbado, marcado pela destruição da sua fábrica por tropas

portuguesas no período da emancipação política, Francisco obtinha, em 1825, uma outra

autorização para fabricar garrafas, frascos, garrafões e vidros lisos ou lapidados em nova

fábrica (idem).

Após o fracasso de várias tentativas de estabelecer uma outra manufatura no Brasil,

o italiano Folco fundava no Rio de Janeiro, em 1839, a Fábrica Nacional de Vidro São

Roque, com processo inteiramente manual e uso de matéria-prima local (ibidem).

Não eram poucos os empecilhos para a confecção de artigos de vidro no Brasil.

Entre eles estavam a concorrência desigual com os produtos estrangeiros estabelecida em

um mercado de pequenas proporções, a burocracia do Império e a falta de mão-de-obra

especializada.

No cerne destas questões estava a estreita dependência de Portugal junto às grandes

potências econômicas da época, em especial a Inglaterra60.

60 A submissão da Coroa portuguesa frente aos interesses da Inglaterra ficou patente com o Tratado de Methuen, em 1703. No acordo o mercado inglês dava isenção de impostos a um dos produtos da mais alta estima dos portugueses, o vinho do Porto. No entanto, eram os próprios ingleses que controlavam a produção em Portugal e transportavam em seus navios a bebida para Inglaterra.

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Antes de embarcar para o Brasil a Coroa portuguesa assinava a Convenção Secreta

de Londres (Albuquerque, 1986). No acordo a Inglaterra garantia a transferência da Corte e,

em troca, obtinha grandes vantagens comerciais junto ao mercado português. Em

consonância com o que foi acordado, D. João decretava, ao chegar na Bahia, a abertura dos

portos brasileiros às nações amigas. Os tratados de Amizade e Aliança e o do Comércio e

Navegação, firmados em 1810 e referendados em 1827, consolidavam ainda mais a

presença inglesa na colônia ao fixarem tarifas preferenciais aos artigos da Inglaterra.

Após a emancipação política, o Brasil assinava, em 1827, acordos comerciais com

outras nações, como a França, Áustria e Prússia, e com a Dinamarca, os Estados Unidos e

os Países Baixos, em 1829 (Aquino, 1999).

A política de livre-comércio, as baixas taxas de importação e os benefícios dados

aos produtos ingleses anulavam, na prática, qualquer incentivo às manufaturas e

promoviam uma intensa entrada de produtos estrangeiros no mercado brasileiro61. A

economia do país estava toda ela fundamentada no fornecimento de poucos produtos

primários e na troca destes por manufaturados das metrópoles. Nestas condições somente

poderia se desenvolver a produção artesanal voltada para exíguos mercados favorecidos

pelas dificuldades de transporte (Goldenstein et al, 1994).

No século XIX, os fabricantes de vidro da Inglaterra e dos Estados Unidos num

momento posterior, consolidaram a sua hegemonia comercial em todo o mundo, por meio

de uma maior capacidade de distribuição e preços mais competitivos (Camargo e

Zanettinni, s/d). A expansão da rede de transportes e o aperfeiçoamento da estrutura de

produção de bens de consumo promoveram uma expansão significativa na capacidade

produtiva e de distribuição dos produtos fabricados pelos países que estavam à frente deste

processo.

Um dos mercados mais prósperos na Europa para as fábricas de vidro era o

comércio de bebidas alcoólicas engarrafadas que, a partir do século XVIII, difundia de

forma considerável o uso de garrafas (Harris, 2000; Johnson, 1999). As vinícolas,

destilarias e cervejarias atendiam a um próspero mercado interno, resultante de uma

61 Segundo Gilberto Freyre (1977: 595) nas primeiras décadas do século XIX no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, boa parte da população estabelecia uma relação entre a chegada dos ingleses ao Brasil e uma maior presença de artigos de vidro.

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crescente população urbana, e exportavam, também, para outros continentes (Shanks and

Tilley, 1987).

Desde o final do século XVII já era conhecido o procedimento de guardar as

bebidas em garrafas arrolhadas para envelhecê-las (Johnson, 1999). No decorrer do século

XVIII a garrafa em forma cilíndrica, para o armazenamento e envelhecimento do vinho em

posição horizontal, foi evoluindo paulatinamente (idem). No entanto, foi com o

desenvolvimento de moldes, principalmente a partir da década de 1820, que ocorre a

padronização das formas e o aumento da produção de garrafas por vidreiro. Por meio da

estandardização de medidas e do aprimoramento de ferramentas utilizadas na produção, que

se conseguiu, num primeiro momento, atender a crescente demanda.

A falta de uniformidade, nos séculos XVII e XVIII, fazia com que houvesse

restrições na Inglaterra quanto à venda de vinho em garrafas de vidro. Além disso, a

devastação das florestas voltada para o abastecimento das diversas fábricas de vidro

preocupava a Coroa britânica (ibidem).

O ato de 1630 na Inglaterra proibia a comercialização de vinho em recipientes de

vidro (Santos, 1998). O rei Guilherme III, em 1695, buscando incentivar a indústria do grês

institui um imposto sobre a produção de artigos de vidro (Giovannetti, 1999). A lei que

proibia a venda de vinho engarrafado só foi refogada no país na década de 1860 (Robinson,

1999). Na França, a determinação de lei que restringia a atividade dos fabricantes de vidro,

em razão da escassez de madeira, havia provocado o declínio das pequenas fábricas

setecentistas (Harris, 2000).

A situação, na Inglaterra, começava a se alterar para a indústria vidreira com a

introdução de fornos alimentados por carvão no início do século XVIII e, posteriormente,

em 1844, a sua produção adquiria um grande impulso com a anulação do imposto sobre o

vidro (Giovannetti, 1999; Harris, 2000; Schávelzon, 1991).

Se por um lado, a nação que estava à frente na Revolução Industrial em sua primeira

fase revogava o imposto sobre artigos de vidro apenas em meados do século XIX, por outro

o desenvolvimento da mecanização e produção contínua nas fábricas de vidro ocorria

somente a partir da segunda metade do século XIX. O incremento comercial no setor de

embalagens forçava, nesta época, o desenvolvimento da indústria vidreira. A necessidade

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cada vez maior de recipientes de vidro, com a expansão de mercados, impulsionou o

aumento das cotas de produção.

Por outro lado, os avanços tecnológicos e científicos em diversos setores da

nascente sociedade de consumo oitocentista estimularam a criação e especialização de

vários recipientes (Giovannetti, 1999). Entre as transformações impostas pela Revolução

Industrial, estava o redimensionamento do comércio não só em nível global, mas também à

escala da cidade. Houve um crescimento extraordinário do volume e variedade das

mercadorias que deveriam ser armazenadas, distribuídas e colocadas a venda, buscando

atender uma massa crescente de consumidores.

O complexo farmacêutico em escala industrial promoveu uma nova demanda por

frascos e vasilhames. A indústria de perfumes aos poucos foi abrindo mão da produção

artesanal e adotando frascos mais sofisticados para suas essências. Vários tipos de

vasilhames começaram a ser utilizados no transporte e armazenamento de produtos da

industria química, tais como ácidos, colas, graxas para sapato e produtos de limpeza em

geral. Com o processo contínuo de competição militar e territorial entre as grandes

potências, as técnicas de conservação e acondicionamento de alimentos foram aprimoradas.

A necessidade de preservar os alimentos em longos percursos estimulou a realização de

pesquisas no campo da microbiologia e, conseqüentemente, a criação de recipientes com

aperfeiçoados sistemas de conservação, que posteriormente foram transpostos para o

ambiente doméstico.

Ao contrário do ocorrido com outros tipos de indústrias, o impacto das inovações

tecnológicas obtidas na Revolução Industrial sobre a confecção de vidro não foi imediato.

As primeiras tentativas de automatizar os processos de conformação procurando repetir

quase que fielmente as operações manuais, fato verificado no setor têxtil e metalúrgico, não

tiveram êxito (Mari, 1982). Os outros empecilhos para a mecanização estavam nas

dificuldades de aquisição e variações de qualidade das matérias-primas (idem).

A superação de parte dos obstáculos ocorreu com o desenvolvimento de pesquisas

no setor químico que possibilitou, além da utilização de novos agentes para coloração e

descoloração, uma maior uniformidade na composição e propriedades dos produtos

(Giovannetti, 1999; Mari, 1982). Em 1865 Ernest Solvay registra a patente de um novo

processo para fabricar carbonato de sódio, uma das matérias-primas do vidro (Mari, 1982).

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A inovação proporcionou um ganho na pureza da mescla vítrea e uma redução do custo de

produção.

Um outro avanço quanto à racionalização da produção ocorreu com os

aprimoramentos dos fornos, obtidos em grande parte com o forno de cuba de tipo

regenerativo, patenteado em 1867, por Friedrich Siemens (idem). A inovação, por sua vez,

impulsionava o aprimoramento de materiais refratários.

A divulgação de novos produtos e tecnologias que surgiam no bojo da

industrialização, entre elas as concernentes ao vidro, ficava a cargo das Exposições

Universais. Na Europa as primeiras exposições aparecem em Londres em 1851 e Paris em

1855. Seguindo esta tendência o Brasil organizava, em 1861, a Exposição Nacional,

instalada na Escola Central, atualmente Instituto de Filosofia e História da UFRJ. Entre os

produtos expostos estavam os artigos de vidro fabricados pelas manufaturas nacionais. Na

época, atuavam no setor as fábricas Bella Vista, de Angra dos Reis, Fábrica Nacional de

São Roque, fábrica Bento Pupo de Moraes e Cia, fábrica da Praia Formosa, de Castro Paes

e Cia, F. J. Castro Leite e Cia e outras, de São Paulo e da Bahia (Sandroni, 1989).

O fato de uma fábrica nacional estar em funcionamento por 21 anos (1839 a 1861),

no caso a São Roque, revela a existência de um nicho de mercado onde as manufaturas

brasileiras conseguiam competir com os produtos importados. As matérias-primas

essenciais para confecção do vidro - areia, cal e madeira para alimentar os fornos - não se

constituíam em problema, pois estas eram abundantes no país62. A grande dificuldade para

a produção de vidro nacional em larga escala, com relação ao ferramental a ser utilizado,

seria a aquisição dispendiosa no exterior de material refratário para a construção de

cadinhos (Camargo e Zanettinni, s/d). A utilização desses potes para as temperaturas

elevadas dos fornos era uma das operações mais onerosas em termos de tempo e custo de

produção, pois a troca desses instrumentos deveria ocorrer a cada oito semanas (Polak,

2000).

Sem condições de concorrer com os artigos confeccionados em larga escala no

exterior, a produção artesanal de grande parte destes fabricantes devia estar direcionada ao

62 A título de exemplo, João Batista Fortes, um dos proprietários da fábrica São Roque, em 1847 informava que a sua manufatura consumia matéria-prima do país e que havia encontrado uma jazida de quartzo de boa qualidade para fabricação de cristais (Sandroni, 1989). No entanto, ele comunicava também que não tinha condições ainda de competir com alguns produtos importados (idem).

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vidro artístico de consumo doméstico ou com fins decorativos, tais como vasos, licoreiras,

cálices de cristal, taças, globos para iluminação, compoteiras, etc...

O quadro da produção vidreira nacional começava a se alterar a partir do último

quartel do século XIX, principalmente com a fundação, entre 1878 e 1882, da Fábrica de

Vidros e Cristais do Brasil, em São Cristóvão, RJ (Sandroni, 1989). A fábrica, em 1882,

havia adotado o sistema francês de produção e utilizava máquinas a vapor e elétricas na

fabricação de vidros para janelas, copos, lampiões e uma variedade de serviços de mesa

(idem). Com o tempo, os produtos Esberard - marca que identificava a fábrica - foram

reconhecidos mundialmente, principalmente os de cristal (ibidem).

O aparecimento de uma fábrica de vidro de maior porte em território nacional estava

em consonância com o desenvolvimento capitalista no Brasil a partir da segunda metade do

século XIX.

Novas oportunidades de investimento foram surgindo com a proibição do tráfego

negreiro, a adequação da posse de terras segundo critérios capitalistas - ambas em 1850 - e

a expansão da lavoura cafeeira. Por via do mecanismo bancário e comercial, o capital

acumulado, principalmente pela cafeicultura, era reinvestido na aquisição de equipamentos

e maquinário industrial, na construção de ferrovias e progressos técnicos em áreas urbanas,

tais como a iluminação a gás e transportes (Gorender, 1981).

O resultado deste dinamismo foi o aumento da capacidade de consumo nas cidades,

principalmente entre profissionais liberais, funcionários públicos e militares, e a expansão

do pequeno e médio comércio. Além disso, o fim da escravidão e a imigração, propagam as

relações salariais e expande-se de forma acelerada o mercado interno.

A demanda por recipientes de vidro foi ampliada com a necessidade de armazenar e

comercializar uma quantidade maior de mercadorias, tanto em termos de volume quanto de

diversidade. O desenvolvimento das malhas de transporte proporcionava a aquisição de

artigos de vidro em áreas onde nunca foram freqüentes. Por sua vez, o aumento de

epidemias, proporcionado pela falta cada vez maior de condições de higiene básicas nos

centros urbanos, provocava uma expansão considerável do consumo de remédios.

No extremo sul a acumulação de capital, necessária para a emergência da indústria,

ocorria de modo diverso. À medida que pequenos produtores rurais, estabelecidos nas

zonas de colonização alemã e italiana, encontravam um mercado consumidor para os seus

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produtos, seja nos principais núcleos coloniais ou nos grandes centros urbanos, ampliava-se

o poder aquisitivo local a ponto de promover um desenvolvimento comercial e urbano e

surgir diversos estabelecimentos fabris (idem). No Rio Grande do Sul as empresas de maior

participação no parque industrial regional eram as ligadas à produção de cerveja, vinho,

banha, farinha e fumo (Pesavento, 1991).

Como centro distribuidor dos produtos coloniais na Província, Porto Alegre

transformava-se, ao mesmo tempo, no maior mercado urbano do estado. Na cidade crescia,

também, o comércio de importação de bens manufaturados ou de máquinas e utensílios

para as indústrias.

Em alguns casos, era a partir do montante de capital acumulado no ramo de

importação, que se constituía uma indústria. Foi o caso do importador de artigos de vidro

da Alemanha, Frederico Julio Brutschke. Em 1888, ele estabelecia sociedade no setor de

importação com Jacob Selbach e Frederico Harbich, com a denominação Brutschke e

Harbich, para posteriormente, em 1891, fundar junto com os seus sócios uma fábrica de

vidros no distrito de Pedras Brancas63. Uma dissolução contratual, em 1892, entre os

sócios, passa para Frederico a posse da fábrica, que funda uma nova empresa com a razão

social F. J. Brustchke & Cia e o nome fantasia Companhia Fábrica de Vidros Sul-

Brasileira64.

Foto 01: Anúncio de F. J. Brustchke & Cia, com o seu nome fantasia.

Annuário de 1896, página 356. Fotografia: Alberto Tavares Duarte de Oliveira.

63 Contrato de sociedade, n° 918 de 28/06/1892, Junta Comercial de Porto Alegre. 64 Contrato de dissolução, n° 950 de 20/08/1892, Junta Comercial de Porto Alegre.

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Na época, a empresa já havia constituído um patrimônio considerável, composto

pela fábrica, escritório, depósito na rua Voluntários da Pátria, 38, e trapiche que se estendia

até o Guaíba65. A fábrica, com fornos abastecidos à lenha produzia uma grande variedade

de artigos como: frascos para farmácia, licoreiras, garrafas para cerveja e vinho,

compoteiras, tinteiros, globos para lampiões, entre outros66.

A empresa permanece em funcionamento até a data de falecimento de Frederico em

1910, quando Ernestina Saeger Brutschke recebe o espólio de seu marido, e passa então a

ser denominada Viúva F. J. Brutschke & Cia67. Em 1919 a fábrica já tinha como

proprietário um dos filhos do casal, Otto Brutschke68.

Por intermédio das fontes documentais não foi possível verificar a data de

encerramento das atividades da fábrica. A investigação conseguiu, isto sim, localizar o

terreno onde permanecem resquícios de um dos prédios da fábrica, com várias alterações, e

fragmentos de artigos de vidro e refugo dos fornos, encontrados à margem do Guaíba69. A

área está localizada na Av. Martinho Poeta, 529, em Eldorado do Sul, e é de propriedade de

Estela Mari Hoerde. Junto à proprietária foi possível obter a informação de que o seu sogro

Rolfe Hoerde havia adquirido o terreno na década de 60. No entanto não soube dizer quem

era o proprietário anterior.

Foto 02: Vista geral da fábrica situada em Eldorado do Sul. Fonte: O Estado do Rio Grande do Sul.

Foto 03: Refugo dos fornos encontrado no terreno da antiga fábrica de vidro. Fotografia: Alberto Tavares Duarte de Oliveira.

65 Livro 1894 Commercio pelo valor locatício – Imposto Locativo Urbano, página 10, Arquivo Histórico Moisés Velhinho. 66 O Estado do Rio Grande do Sul, ano 1916, página 171. 67 1° Cartório de Órfãos – processo/talão 2580 – maço 130 – ano 1910 – Porto Alegre, APERGS. 68 Forças Econômicas do Estado do Rio Grande do Sul no 1° centenário da Independência do Brasil 1820 – 1922. Porto Alegre: Globo, p.122. 69 No dia 26/08/2004 o autor e o orientador e arqueólogo Klaus Hilbert encontraram os vestígios da fábrica, por intermédio de informações obtidas com a Sra. Tereza Carvalho da Silva , moradora e líder comunitária em Eldorado do Sul.

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A exemplo da F. J. Brustchke & Cia, as fábricas de vidro no Brasil, no final do

século XIX, ainda utilizavam a lenha para alimentar os seus fornos70. A madeira ainda

abundante tinha um custo baixíssimo para a produção. No entanto, havia uma perda de

qualidade do produto em virtude do baixo potencial calórico para liquefação e mescla dos

componentes, se comparada com o carvão (Camargo e Zanettinni, s/n).

Quanto às técnicas de fabricação aplicadas nestas empresas para confecção de

frascos e garrafas, durante o final do século XIX, é possível afirmar que utilizavam o sopro

livre com auxílio de molde inteiriço e vara de pontel (Sandroni, 1989). Até o momento, não

foi possível precisar a data de inserção no Brasil de outras ferramentas como os moldes

duplos ou triplos, o snap-case e mesmo as que serviam para confecção de gargalos

(Camargo e Zanettinni, s/n).

Enquanto que as fábricas brasileiras ainda empregavam o sistema de conformação

manual para fabricação de garrafas e recipientes sem adotar algumas inovações, as

primeiras máquinas semi-automáticas para confecção de vasilhames eram criadas quase que

simultaneamente nos Estados Unidos, com a invenção de Philip Arbogast em 1881, e na

Inglaterra, com Howard Ashley em 1886 (Miller & Sullivan, 1984). No entanto, até 1905

os processos de confecção manual ainda eram aplicados em algumas fábricas destes países

(idem).

No Brasil o ingresso das primeiras máquinas semi-automáticas ocorreu em 1906,

com uma aquisição da indústria Santa Marina (Brandão, 1996).

Antes disso, em 1904 nos Estados Unidos, Michael Owens inventava a máquina

automática de fabricação de garrafas que revolucionou a indústria vidreira em nível

mundial (Mari, 1982; Miller & Sullivan, 1984). O impacto nos sistemas de produção dos

países desenvolvidos foi de grande extensão e de forma rápida (Miller & Sullivan, 1984).

Em pouco tempo, com a sua utilização em larga escala, as máquinas Owens

proporcionavam uma uniformidade em termos de tamanho, peso e capacidade dos

recipientes produzidos jamais vista71.

70 Segundo Brandão (1996) neste período a fábrica Santa Marina utilizava a madeira como combustível para seus fornos. 71 Segundo Miller & Sullivan (1986: 96) nos Estados Unidos antes de 1917, metade da produção dos vasilhames de vidro eram confeccionada através das Owens e, antes de 1924 havia somente 72 máquinas semi-automáticas em produção. Na Inglaterra, antes da década de 1920, a indústria de recipientes de vidro estava completamente automatizada (idem).

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A primeira produção de garrafas com uma máquina Owens no Brasil ocorre em

1917, com a indústria Cisper do Rio de Janeiro (Sandroni, 1989). No ano seguinte a fábrica

já estava atendendo um pedido da Cervejaria Brahma de 100 mil garrafas (idem). Seguindo

a tendência de mercado a Santa Marina em 1921, adquire as suas primeiras máquinas com

processo automático de produção de garrafas (Brandão, 1996). A produção nacional, a

partir dessas máquinas na década de 20, começava a preponderar e deixava para o vidro

importado uma pequena parcela de mercado.

De modo geral, pode-se falar de indústria vidreira no Brasil somente a partir do final

do século XIX. Antes disso houve apenas tentativas, quase sempre frustradas, de

implementar uma produção de artigos de vidro em grande escala. O domínio do vidro

importado neste período foi completo, restando apenas para as pequenas manufaturas

brasileiras um segmento restrito de mercado. Nada de extraordinário para uma economia

voltada para a monocultura exportadora.

Ao começar da segunda metade do século XIX, com a expansão em ritmo acelerado

do mercado interno, os aprimoramentos quanto à racionalização da produção nas indústrias

das metrópoles e a ampliação das redes de transporte, os artigos de vidro, antes escassos e

até mesmo associados à chegada dos ingleses ao Brasil, tornam-se mais freqüentes,

principalmente em centros urbanos.

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2.3 Forma e função

A identificação correta dos atributos relacionados à forma das peças é essencial para

o processo de análise quantitativa. Além disso, a pista principal quanto aos conteúdos de

garrafas, copos e cálices está justamente na forma dos recipientes. Com a identificação das

formas das peças, baseada em literatura especializada, sobretudo estrangeira, se buscou,

entre outros aspectos, definir a finalidade original dos recipientes.

Como já foi exposto, no século XIX, principalmente com o aperfeiçoamento dos

moldes, houve o início de um processo de padronização na configuração das garrafas. Com

isso, as funções de vários recipientes oitocentistas passaram a ser conhecidas pelo uso

constante e associado de formas padronizadas para determinadas aplicações. Existem, é

claro, variações relacionadas às formas e, principalmente, à re-utilização dos vasilhames72.

O primeiro passo no processo de análise dos fragmentos e peças correspondentes ao

consumo de bebida alcoólica, consistiu na separação das categorias materiais, no caso o

grês e o vidro, para depois se efetuar a distribuição dos fragmentos por cores. Logo em

seguida, eram identificados os aspectos vinculados ao processo de fabricação e as formas

das peças que possibilitassem a definição do período de produção e a delimitação de cada

peça em uma das categorias funcionais.

A ficha de análise utilizada para cada um dos fragmentos recuperados nos sítios,

possui os seguintes itens73:

a) Número de catálogo;

b) Categoria material;

c) Tipo de recipiente e a sua parte correspondente;

d) Coloração;

e) Espessura do fragmento considerando sua posição na peça (terminação, gargalo,

base, etc...);

f) Diâmetro do fragmento em milímetros com as seguintes subdivisões: diâmetro

interno da terminação, diâmetro externo da terminação, diâmetro externo da

base do gargalo, diâmetro do corpo, diâmetro externo da base e diâmetro

máximo do pontel;

72 A questão da re-utilização será tratada no próximo tópico. 73 A ficha de análise em detalhes está no anexo da dissertação.

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g) Altura dos fragmentos em milímetros com as seguintes subdivisões: altura do

formato externo da terminação, altura do gargalo, altura do corpo, altura da

haste no caso de taças e cálices e altura total;

h) Capacidade dos recipientes em mililitros;

i) Forma da terminação;

j) Forma do pescoço;

k) Forma da base;

l) Forma do recipiente;

m) Técnicas de fabricação;

n) Deformidade funcional;

A grande dificuldade em identificar algumas características das garrafas de vidro,

em virtude da alta fragmentação das amostras dos sítios74, fez com que se buscássemos

maiores informações quanto às formas em determinadas partes dos recipientes. Os

elementos distintivos que proporcionaram maior quantidade de informação foram as bases

e as terminações das garrafas.

Neste segmento serão apresentadas as informações sobre as formas dos recipientes e

suas partes encontradas nos sítios analisados, junto com os seus respectivos períodos de

produção, conforme as categorias materiais. Para isso foram escolhidos os exemplares mais

significativos das formas dos recipientes e suas partes75.

Devido a dificuldade de mesurar a capacidade líquida da maioria das garrafas, em

razão da fragilidade das peças, foram utilizados grãos de arroz como medida seca76. Cabe

salientar que as datas dos períodos de fabricação nas legendas são procedentes de

combinações de atributos identificados.

74 As amostras dos sítios das unidades domésticas apresentaram uma maior fragmentação que às pertencentes das lixeiras coletivas e do sítio da Antiga Cervejaria Brahma. O fato das peças, junto com outros materiais, terem sido utilizados como aterro, e portanto, serem selados por meio de uma edificação ou pavimentação, preservou os fragmentos de pisoteamentos e o atrito com outros materiais. 75 Para efeito de síntese, todas as fotos deste segmento são de Alberto Tavares Duarte de Oliveira. 76 Método utilizado por Harris (2000).

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a) Categoria material vítrea

Garrafas para vinho:

Foram produzidas exclusivamente por sopro manual, com ou sem auxílio de

moldes, até a década de 70 do século XIX, quando então começam a ser utilizados os

moldes de tornear (turn mold) (Tolouse, 1969). Entre 1880 a 1910, nos Estados Unidos e

Inglaterra, predominava o uso do molde de tornear na confecção deste tipo de recipiente

(Baugher-Perlin, 1988). Normalmente caracterizam-se por serem garrafas de corpo

cilíndrico constituídas de reforço basal e pescoço abrupto, com preponderância da

coloração verde em tons que variam de verde oliva ao verde escuro. Segundo alguns

autores, o reforço na base (push-up), além de proporcionar uma melhor distribuição do

vidro na base, é um eficiente recurso para a decantação do vinho, ao possibilitar a

concentração no fundo da garrafa de cristais de tártaro (pequenos, brancos e em pó) e

solidificar os taninos (sedimentos de cor escura) (Jones, 1971; Sicheri, 1989). O

predomínio dos tons e matizes verde pode ser explicado pela praticidade - para obter esta

coloração não é necessária a aplicação de agentes descolorantes e colorantes - e também

pela sua funcionalidade, pois protege o produto contra a ação prejudicial dos raios

ultravioletas. No final do século XIX começaram a ser produzidas garrafas para vinho com

outras colorações em tons escuros: tais como marrom, vermelho, azul (Bauguer-Perlin,

1988).

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Figura 09 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.84 Cor: Verde oliva claro Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço abrupto Técnica de fabricação: Uso de pontel com ponta de vidro ou com ponta de vidro e areia, e molde inteiriço (dip mold) Período de produção: até 1860 Capacidade: em torno de 750 ml Forma da terminação: Faixa de vidro aplicada Diâmetro interno da terminação: 20 mm Diâmetro da externo base: 77 mm Altura total: 320 mm Deformidade: Assimetria basal, superfície com aparência de metal martelado e incrustação de bolhas de ar

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Figura 10 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.08 Cor: Verde escuro Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço abrupto Técnica de fabricação: Uso de ferramenta de acabamento do topo da garrafa (Lipping Tool) e molde inteiriço. Período de produção: 1840 – 1860 Capacidade: 400 ml Forma da terminação: 2 anéis, superior arredondado e inferior em forma de cone Diâmetro interno da terminação: 19 mm Diâmetro externo da base: 79 mm Altura total: 210 mm Deformidade: Assimetria basal, superfície com aparência de metal martelado incrustação de bolhas de ar Avaliação: 80 reis em 181477

77 Inventariado José Antonio Nogueira, proprietário de taberna no Porto dos Ferreiros, ano 1814, maço 492, feito 23, estante 31, 1° Cartório de Órfãos, APERGS.

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Figura: 11 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.85 Cor: Verde oliva claro Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço abrupto Técnica de fabricação: Uso de ferramenta de acabamento do topo da garrafa , e molde inteiriço Período de produção: 1840 – 1860 Capacidade: 660 ml ou 1 quartilho (antiga unidade de medida) Forma da terminação: 2 anéis, superior reto e inferior em forma de cone Diâmetro interno da terminação: 18 mm Diâmetro da externo da base: 79 mm Altura total: 290 mm Deformidade: Incrustação de bolhas de ar

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Garrafa para vinho ou champanhe:

Podem ser caracterizadas como recipientes de corpo cilíndrico, com reforço basal,

pescoço gradual e ombro pouco acentuado, com a predominância de coloração verde em

tons que variam de verde oliva ao verde escuro. Possuem a mesma periodização das

técnicas de fabricação das garrafas para vinho.

As garrafas para champanhe devem possuir paredes espessas e resistentes, em

virtude da pressão exercida pela gaseificação da bebida. A fragilidade das garrafas diante

da efervescência do champanhe era um dos obstáculos para a universalização do seu

consumo no primeiro quartel do século XIX. Segundo Johnson (1999: 373) nas linhas de

montagem do champanhe na França, em torno de 1830, era freqüente o procedimento de

pegar os novos recipientes e bater um contra o outro: as que rompessem eram debitadas ao

fabricante da garrafa. As garrafas que apresentassem assimetria ou outro tipo de

deformidade eram destinadas para o vinho tinto (idem).

As garrafas para vinho ou champanhe começaram a ser produzidas com outras

colorações em tons escuros no final do século XIX (Bauguer-Perlin, 1988).

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Figura 12 Sítio: Casa da Riachuelo N° de catálogo: 17.54 Cor: Verde oliva escuro Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço gradual Técnica de fabricação: Sopro manual sem auxílio de molde, e pontel com ponta de vidro Período de produção: Até 1870 Capacidade: 330 ml ou 1/2 quartilho (antiga unidade de medida) Forma da terminação: Faixa de vidro aplicada Diâmetro da externo da base: 77 mm Altura total: 240 mm Deformidade: Fundo deformado ou de lado, e incrustação de bolhas de ar

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Garrafas para genebra ou aguardente:

Esse tipo de recipiente se sobressai diante de outros por sua forma tronco-piramidal

invertida, base quadrada, paredes retas, sem pescoço, com o predomínio de coloração verde

que varia em tons de verde oliva ao verde escuro (Moreno, 1994; Schávelzon, 1991). Na

Inglaterra eram conhecidas por “case bottle”, devido a sua praticidade em termos de

acondicionamento e aproveitamento de espaço em caixas de embalagem (Johnson, 1999;

Moreno, 1994; Polak, 2000; Schávelzon, 1991).

Ainda que os holandeses, desde o século XVII, já fabricassem recipientes em

moldes quadrangulares inteiriços, as garrafas de vidro para genebra começaram a substituir

amplamente as garrafas de grês desta bebida a partir de meados do século XIX (Johnson,

1999; Moreno, 1994; Schávelzon, 1991).

Existem referências de alguns autores quanto à utilização destes recipientes para

conter aguardente ou rum, mas as pesquisas em inventários de proprietários de taverna,

anúncios de jornais e almanaques de Porto Alegre no século XIX apontaram para o uso

extensivo das botijas – no caso garrafas de grês – e os frascos – garrafas retangulares – no

engarrafamento de genebra78. Não foi encontrada uma menção dessas botijas ou frascos

para aguardente ou rum, o que em si não descarta totalmente essa possibilidade.

As citações em inventários relacionadas às aguardentes estão totalmente ligadas às

pipas (equivale a 480 litros) e medidas (igual a 2,66 litros), o que remete à reutilização de

recipientes para conter estas bebidas. Não houve uma referência quanto ao rum nos

inventários de taberneiros, se bem que esta bebida se enquadra dentro de um tipo de

aguardente, muito popular na região do Caribe, obtida pela fermentação e destilação do

melaço de cana-de-açúcar. A própria genebra é um tipo de aguardente.

78 A titulo de exemplo:

- 13 botijas de genebra de José Duarte Maia proprietário de taberna no Becco do Fanha, inventário de 1837, feito 1243, maço 59, estante 2, 1° Cartório de Órfãos, APERGS.

- 48 botijas de genebra de Luiz Antonio de Carvalho proprietário de taberna, inventário de 1852, feito 1705, maço 59, estante 2, 1° Cartório do Cível, APERGS.

- 1 frasco de genebra de João Batista Blingini proprietário de botequim no Theatro São Pedro, inventário de 1866, feito 325, maço 19, estante 2, 2° Cartório de Órfãos, APERGS.

As menções em inventários de frascos para genebra aparecem a partir da década de 60 do século XIX, o que corrobora a afirmação de que o início do uso freqüente destes recipientes ocorreu em meados do século.

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Figura 13 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.179 Cor: Verde oliva escuro Forma do recipiente: Garrafa retangular Técnica de fabricação: Uso de instrumento de apreensão (snap case) Período de produção: 1860 – 1905 – inscrição na base “H R” Hormann Rohrbacher, Philadelphia Diâmetro da externo da base: 54 x 68 mm Deformidade: Variação de espessura das paredes

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Garrafas para cerveja:

Antes de 1870 eram muito raras as garrafas de vidro para cerveja, pois a bebida

arruinava de dois a três dias depois de ser fabricada (Baugher-Perlin, 1988; Polak, 2000).

Duas inovações deram o impulso necessário para o engarrafamento em larga escala de

cerveja: a pasteurização (1864), que prolongou o tempo para o consumo ao evitar a ação de

microorganismos, e uma tampa, denominada lightning stopper (1875), que promoveu um

notável aprimoramento no fechamento das garrafas de vidro para cerveja (Baugher-Perlin,

1988; Beckhauser, 1984)79. A maioria das garrafas para cerveja, até os anos trinta do século

XX, foram produzidas nas cores verde-água, azul e predominantemente marrom escuro

(âmbar) (Baugher-Perlin, 1988; Polak, 2000). Não foram evidenciadas peças ou fragmentos

com uma inteireza capaz de fornecer elementos diagnósticos para a caracterização das

garrafas utilizadas em Porto Alegre80.

Terminações de garrafas81:

Figura 14 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.06

Terminação Champanhe, Utilizado amplamente para garrafas de champanhe ou sidra, se

distingue por sua borda arredondada, e por uma espessa faixa

de vidro que serve para amarrar o arame que prende a rolha da

garrafa. Nesta peça não foram identificados os vestígios das

ferramentas de acabamento do topo da garrafa, em razão da

aplicação de polimento a fogo das marcas.

79 A partir de 1876, entre os registros de inventários, foram localizadas referências a garrafas de cerveja importadas da Alemanha, tais como:

- Quatro garrafas da cerveja Christiamier, a 500 reis a unidade, inventariado Pedro Licht, proprietário de taberna, ano 1876, maço 2125, feito 102, estante 2, 1° cartório de órfãos, APERGS.

- Setenta e duas garrafas da cerveja Carlsberg, a 600 reis, e trinta e seis garrafas da cerveja Forseth inventariado Frederico Bier, proprietário de casa de molhados, ano 1879, maço 475, feito 16, estante 1, 2° Cartório do Cível, APERGS.

80 Foram encontrados apenas fragmentos de bases e topos, que serão tratados no segmento relacionado a estas partes. 81 As descrições dos tipos de terminações estão baseadas nas informações obtidas em Baugher-Perlin (1988), Fike (1987), Polak (2000) e White (1978), e em sites de colecionadores de garrafas antigas www.antiquebottles.com e www.wordlynx.net/sodasandbeers/.

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Figura 15 Sítio: Casa da Riachuelo N° de catálogo: 17.54

Terminação com faixa de vidro aplicada,

Muito comum em recipientes que foram confeccionados nas

primeiras décadas oitocentistas. Podem ser encontradas em

garrafas com pescoço abruto e gradual, retangulares e também

em garrafões. Em várias peças foi possível verificar o ponto de

junção das duas extremidades da faixa. Este tipo de terminação

existe em diversas formas de faixas – cônicas, arredondadas,

planas, helicoidais, etc... No exemplo ao lado a borda do topo

da garrafa foi polida e expandida com fogo.

Figura 16 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.91

Terminação com dois anéis em forma de cone,

Foi utilizada quase que exclusivamente para as garrafas de

cerveja e de vidro preto para vinho. A partir do último quartel

do século XIX deixam de ser confeccionadas em larga escala.

Estes tipos de terminações foram produzidos pelas ferramentas

de acabamento de topo (lipping tool). Em algumas peças foi

possível verificar marcas do contato do metal frio da

ferramenta, e do seu movimento circular, além de rebarbas de

vidro abaixo da terminação.

Figura 17 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.156

Terminação com dobragem externa (rolled-out),

Entre os recipientes para bebida alcoólica foram encontradas

somente nas garrafas retangulares para genebra ou aguardente.

O acúmulo de vidro na extremidade do topo era produzido por

meio da ação do fogo.

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Figura 18 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.01

Terminação com borda expandida e dois anéis

arredondados,

Muito utilizada em garrafas para vinho e cervejas de

exportação da Inglaterra a partir da segunda metade do século

XIX. Foram produzidas com o uso de ferramentas para

acabamento de topo.

Figura 19 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.04

Terminação com anel arredondado e furos para atarraxar

bujão (blob top),

Está entre os tipos mais usados para garrafas antigas de

refrigerantes e cervejas. Sua forma impede o lascamento do

topo da garrafa de modo mais eficiente que outros tipos.

Foram encontrados, também, os mesmos tipos de terminação

só que sem os furos. O modelo de terminação com a inserção

de furos era muito popular na Alemanha.

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Figura 20 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.37

Terminação com dois anéis, superior reto e inferior

arredondado,

Mais uma variação das terminações produzidas pelo uso de

ferramentas para acabamento de topo. Foram muito utilizadas

para garrafas de vinho, cerveja e conhaque.

Figura 21 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.80

Terminação com dois anéis, superior arredondado e

inferior em forma de cone,

Terminação com grande aplicação para garrafas de vinho e

champanhe ou sidra. Foram produzidas com a utilização de

ferramentas para acabamento de topo de garrafas.

Figura 22 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.19

Terminação com dois anéis, superior arredondado e

inferior reto,

Presente em garrafas para vinho de coloração verde escuro e

de origem inglesa. Foram confeccionadas através de

ferramentas para acabamento de topo.

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Figura 23 Sítio: Solar da Travessa Paraíso N° de catálogo: 3.512

Terminação com dois anéis arredondados,

Muito utilizada para garrafas com pescoço gradual e borda da

terminação arredondada de champanhe. Pode ser encontrada

também em garrafas com pescoço abrupto de coloração verde

escuro para vinho.

Figura 24 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.153

Terminação com dois anéis, superior em forma de cone e

inferior arredondado,

Presente em garrafas para vinho e conhaque. Outro exemplo

de aplicação de ferramenta para acabamento de topo.

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Figura 25 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.90

Terminação com dois anéis, superior reto e inferior em

forma de cone,

Mais uma variação das terminações confeccionadas por

ferramentas para acabamento de topo. Este tipo foi muito

aplicado para garrafas de vinho e cerveja.

Figura 26 Sítio: Praça Rui Barbosa N° de catálogo: 6.03

Terminação com anel em forma de cone (sloping collar),

De uso diversificado no século XIX, este tipo pode ser

encontrado em garrafas para cerveja, genebra, bitter,

refrigerante, frascos de remédio, entre outros. Produzida por

meio de ferramenta de acabamento de topo.

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Marcas de fabricantes82:

Além de características como os vestígios das técnicas de confecção e as formas dos

recipientes, as marcas de fabricantes constituem um importante elemento na análise das

peças de vidro. Algumas indústrias, vidreiras ou de bebidas alcoólicas, estampavam em

seus artigos caracteres ou palavras e estes, quando identificados, tornam possível a

obtenção de um período mais preciso relacionado à produção das peças.

A identificação das marcas de fabricantes possibilitou a aquisição de dados mais

precisos relacionados ao período e o local de fabricação, o que permitiu uma datação mais

apurada para a formação dos depósitos arqueológicos, corroborando os dados históricos

disponíveis.

Dentre as marcas identificadas, houve um nítido predomínio de artigos produzidos

nos Estados Unidos e Reino Unido.

Figura 27

H. Ricketts & Co. Fabricante de artigos de vidro

Lugar de origem: Bristol, Inglaterra

Sítio: Mercado Público Central

N° de catálogo: 5.168

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica

Período de produção: 1820 – início do século XX

82 As informações sobre as marcas de fabricantes estão baseadas em Tolouse (1971) e Depperd (1949).

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Figura 28

Van Den Bergh & C. Fabricante de genebra

Lugar de origem: Holanda

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.41

Forma do recipiente: Garrafa retangular – selo do fabricante

Período de produção: 1830 - 1880

Figura 29

Gray & Hemingray Fabricante de artigos de vidro

Lugar de origem: Cincinnati, Ohio ou Covington,

KY, Estados Unidos

Sítio: Praça Rui Barbosa

N° de catálogo: 6.21

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica;

marca “G & H” no fundo da base

Período de produção: 1848 – 1864

Figura 30

Cooperative Wholeasale Society Ltd. – Fabricante de artigos

de vidro

Lugar de origem: De Wigan, Inglaterra

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.41

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica; marca “P” no

fundo da base

Período de produção: A partir de 1850 – uso do centro

da base para inscrição

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Figura 31

Fabricante não identificado

Sítio: Travessa Paraíso

N° de catálogo: 3.512

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica

Período de produção: A partir de 1850 – uso do centro

da base para inscrição

Figura 32

Fabricante não identificado

Sítio: Mercado Público Central

N° de catálogo: 5.42

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca no

fundo da base

Período de produção: A partir de 1850 – uso do centro

da base para inscrição

Figura 33

Fabricante não identificado

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.29

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca no

fundo da base

Período de produção: A partir de 1850 – uso do centro

da base para inscrição

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Figura 34

Fabricante não identificado

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.01

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca em

forma de círculo no fundo da

base

Período de produção: A partir de 1850 – uso do centro

da base para inscrição

Figura 35

Fabricante não identificado

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.91

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca no

fundo da base

Período de produção: A partir de 1850 – uso do centro

da base para inscrição

Figura 36

Fabricante não identificado

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.04

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica

Período de produção: A partir de 1850 – uso do centro

da base para inscrição

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Figura 37

John Agnew & Son Fabricante de garrafas

Lugar de origem: Pittsburg, Estados Unidos

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.25

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca no

fundo da base

Período de produção: 1854 - 1866

Figura 38

Hormann Rohrbacher (provável) Fabricante de artigos de vidro Lugar de origem: Philadelphia, Estados Unidos

Sítio: Mercado Público Central

N° de catálogo: 5.179

Forma do recipiente: Garrafa retangular para genebra;

marca no fundo da base

Período de produção: 1860 a 1904

Figura 39

J. T. Gayen Altona Fabricante de uísque e

aguardente

Lugar de origem: Schiedam, Holanda

Sítio: Mercado Público Central

N° de catálogo: 5.84

Forma do recipiente: Garrafa octogonal

Período de produção: a partir de 1860 – inscrição em

painéis

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Figura 40

Selo comemorativo do casamento entre o príncipe de Gales

Albert com a princesa da Dinamarca Alexandra

Sítio: Solar Lopo Gonçalves

N° de catálogo: 6.02

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço

abrupto para vinho; selo anexado

na altura do ombro

Período de produção: A partir de 10/03/1863 – data do

casamento

Figura 41

Richard Cooper & Co. Fabricante de garrafas

Lugar de origem: Portobello, Escócia

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.21

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca no

fundo da base

Período de produção: 1868 - 1928

Figura 42

Adriano Ramos Pinto Fabricante de vinho do Porto

Lugar de origem: Vila Nova de Gaia, Portugal

Sítio: Antiga Cervejaria Brahma

N° de catálogo: 20.03

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca no

fundo da base

Período de produção: A partir de 1880

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Figura 43

Hero Glass Works Fabricante de garrafas e frascos

Lugar de origem: Philadelfia, Estados Unidos

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.54

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica – marca no

fundo da base

Período de produção: 1882 - 1884

Figura 44

Cia Vidraria Santa Marina Fabricante de artigos de vidro

Lugar de origem: São Paulo, Brasil

Sítio: Antiga Cervejaria Brahma

N° de catálogo: 22.14

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica marca um

pouco acima da base

Período de produção: a partir de 1896

Figura 45

Vidreria Ind. Figueiras Fabricante de artigos de vidro

Oliveiras S.A.

Lugar de origem: São Paulo, Brasil

Sítio: Antiga Cervejaria Brahma

N° de catálogo: 22.10

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica

Período de produção: a partir de 1920

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Figura 46

Selo do vinho Chateau La Rose

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.58

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço

gradual; selo anexado na altura

do ombro

Período de produção: Não identificado

Figura 47

Fabricante não identificado

Sítio: Paço Municipal

N° de catálogo: 20.83

Forma do recipiente: Garrafa retangular para genebra;

marca no fundo da base

Período de produção: Não identificado

Figura 48

Antonio Rocha Leão Fabricante de vinho do Porto

Lugar de origem: Portugal

Sítio: Antiga Cervejaria Brahma

N° de catálogo: 22.14

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica; marca no

fundo da base

Período de produção: Não identificado

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Figura 49

Inscrição no corpo da garrafa “REGISTRADA”,

possivelmente de fabricante nacional

Sítio: Antiga Cervejaria Brahma

N° de catálogo: 20.01

Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica; marca no

corpo do recipiente

Período de produção: Não identificado

Copos:

Entre os tipos de encontrados pode-se fazer uma divisão dos copos facetados e os

lisos.

Normalmente com uma marca de pontel em um fundo espesso e paredes de corpo

finas, os copos lisos foram encontrados em tamanho pequeno, destinados para consumo de

bebidas de alto teor alcoólico, e os de proporções maiores, que segundo as pesquisas em

inventários, podiam chegar a ter uma capacidade de meio quartilho (330 ml), meio litro, um

quartilho (660 ml) e até meia medida (1,33 litros)83.

Registros de copos facetados em inventários de taberneiros e donos de lojas de

louça e vidro, surgem com profusão somente a partir do último quartel do século XIX. Nas

amostras dos sítios pesquisados foram evidenciados conjuntos de copos com a mesma

83 Nas investigações em inventários desde o início do século XIX, foram encontradas avaliações de copos pequenos, sempre em pequenas quantidades, que são:

- 2 copos pequenos, avaliação 100 reis unitário, inventariado José de Castro Moraes, maço 3, ano 1804, 2° Cartório do Cível, APERGS.

- 7 copos pequenos, avaliação 60 reis unitário, inventariado Jeronymo Francisco de Barros, proprietário de taberna, feito 436, maço 21, ano 1811, 1° Cartório de Órfãos, APERGS.

Quanto aos outros tamanhos, a título de exemplo é possível citar: - 1 copo de quartilho, avaliação 320 reis, inventariado José Carneiro Geraldes, maço 3, ano 1806, 2°

Cartório do Cível, APERGS. - 1 copo grande de meia medida, avaliação 320 reis , inventariado Jeronymo Francisco de Barros,

proprietário de taberna, feito 436, maço 21, ano 1811, 1° Cartório de Órfãos, APERGS. - 1 copo de meio quartilho, avaliação 200 reis , inventariado José Antonio Nogueira, proprietário de

taberna no Porto dos Ferreiros, feito 492, maço 23, estante 31, ano 1812, 1° Cartório de Órfãos, APERGS.

- 1 copo liso de meio litro, avaliação 320 reis, inventariado Domingos José Lopes, proprietário de taberna na Andradas, 55, feito 2129, maço 103, estante 2, ano 1876, 1° Cartório de Órfãos, APERGS.

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decoração em tamanhos pequenos e de maiores proporções84. Além disso, foram

encontrados fragmentos de base de copos octogonais e os de corpo de canecos destinados

para consumo de chope e cerveja.

Figura 50 Sítio: Casa da Riachuelo N° de catálogo: 17.41 Forma do recipiente: Copo liso pequeno Técnica de fabricação: Sopro manual sem auxílio de molde e pontel com ponta de vidro Período de produção: Até 1870 Diâmetro da externo da base: 40 mm Deformidade: Irisação e incrustação de bolhas de ar Avaliação: 100 reis a unidade em 1804

84 Em alguns inventários constam registros de copos moldados em tamanhos grande e pequeno para licor ou vinho licoroso, tais como: - 12 copos moldados grandes para vinho, avaliação 667 reis unitário; 12 copos moldados pequenos para vinho, avaliação 500 reis unitário; 12 copos moldados de meia garrafa (330 ml), avaliação 500 reis unitário; 12 copos moldados para licor, 233 reis unitário. Inventário de Guilherme Rumann, proprietário de casa de pasto na rua General Silva Tavares, feito 495, maço 31, estante 2, ANO 1875, 2° Cartório de Órfãos, APERGS.

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Figura 51 Sítio: Paço Municipal N° de catálogo: 20.79 Forma do recipiente: Copo facetado Técnica decorativa: Entalhamento com rodas ou molas giratórias, padrão cut Período de fabricação: A partir de 1890 Diâmetro da externo da base: 70 mm Deformidade: Irisação e incrustação de bolhas de ar Avaliação: 500 reis a unidade em 1895

Taças e cálices:

Da mesma forma que os copos facetados, as taças e cálices aparecem em

abundância nos arrolamentos de inventários de comerciantes a partir do último quartel do

século XIX. De acordo com a investigação, já havia neste período uma grande diversidade

de peças destinadas ao consumo específico de bebidas como vinho, licores, champanhe,

conhaque, entre outros. Em termos de preço, em média as taças e cálices tinham um preço

equivalente ou um pouco abaixo dos copos facetados85.

85 Inventário de Guilherme Rumann, proprietário de casa de pasto na rua Gen. Tavares, ano 1875, maço 495, feito 31, estante 2, 2° Cartório de Órfãos, APERGS, avaliação de 24 cálices para vinho por 667 reis a unidade. Inventário de João Correa de Oliveira proprietário de casa de molhados na rua dos Andradas, 187, ano 1878, maço 2172, feito 106, estante 2, 2° Cartório de Órfãos, APERGS, avaliação de 5 cálices para conhaque por 160 reis a unidade. Inventário de Augusto Gomes da Silva, proprietário de uma casa de molhados na rua

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Entre as peças e fragmentos foram evidenciados cálices e taças para vinho e licores,

com algumas marcas de técnicas de fabricação e decoração que forneceram dados

suficientes para estabelecer um período de produção de alguns dos artefatos.

Figura 52 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.87 Forma do recipiente: Cálice para vinho com painéis verticais, estilo pregueado flute, e haste curvada que cresce nas extremidades (Jones, 2000) Período de produção: A partir de 1830 Diâmetro externo da terminação:54 mm Diâmetro externo da base: 59 mm Altura total: 107 mm Avaliação: 667 reis em 1875

Voluntários da Pátria, 16, ano 1897, maço 2426, feito 121, estante 2, 2° Cartório de Órfãos, APERGS, avaliação de 6 cálices de champanhe por 300 reis a unidade.

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Figura 53 Sítio: Solar da Travessa Paraíso N° de catálogo: 3.517 Cor: Incolor Forma do recipiente: Taça, fragmentos de corpo Técnica decorativa: Uso de máquina dotada de agulhas cauterizadoras Período de produção: Entre 1870 a 1930 Deformidade: Irisação

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b) Categoria grês

Garrafa para genebra:

O médico holandês Francesco De La Bor não tinha idéia do que estava criando ao

estabelecer a fórmula da genebra ou gim para a purificação do sangue e tratamento de uma

doença dos rins no século XVII (Polak, 2000). Entre a população não houve demora em

incorporar à aplicação medicinal da genebra, o caráter de bebida alcoólica86.

A Inglaterra, Alemanha, Holanda e Dinamarca foram os principais centros

produtores da bebida. Para Buenos Aires, Schávelzon (2001) afirma que as garrafas de grês

de genebra começaram a surgir em grandes quantidades a partir da década de 1820 e

estabelece o conflito da Primeira Guerra Mundial como marco para uma redução drástica

na incidência deste recipiente. No Brasil ainda não existem estudos quanto à periodização

da entrada destes artigos no mercado brasileiro. Em Porto Alegre, baseando-se nas

pesquisas feitas em inventários de comerciantes e taberneiros, os primeiros registros de

garrafas ou botijas de grês para genebra ocorrem em meados da década de 1830. A partir da

segunda metade do século foi possível verificar, também, o fenômeno de substituição das

botijas de grês pelas garrafas de vidro retangulares para conter genebra. Com o avançar dos

anos em direção aos 1900, os registros de botijas rarefazem-se à medida que se ampliam os

números das garrafas retangulares87.

As garrafas de grês para genebra podem ser caracterizadas por sua terminação muito

estreita, ausência de pescoço e corpo cilíndrico de dimensões esguias. Podem apresentar ou

não uma alça na altura do ombro.

86 Várias bebidas alcoólicas na sua origem, e até mesmo depois, transitavam entre a condição de tônico medicinal e substância estimulante, entre elas o bitter e a genebra. A classificação como remédio era um recurso usual entre os fabricantes para escapar dos impostos sobre as bebidas alcoólicas (Tolouse, 1970). O fato de alguns recipientes para estas bebidas serem na sua forma semelhantes aos frascos de remédios não é mera casualidade. 87 Exemplos de algumas avaliações de botijas contendo genebra:

- 13 botijas de genebra, 200 reis a unidade, inventariado José Duarte Maia, proprietário de Casa de varejo no Becco do Fanha, maço 1243, feito 59, estante 2, ano 1837, 1° Cartório de Órfãos, APERGS.

- 48 botijas de genebra, 305 reis a unidade, inventariado Luiz Antonio de Carvalho, proprietário de taberna, maço 1705, feito 83, estante 2, ano 1852, 2° Cartório do Cível, APERGS.

- 4 botijas de genebra Holanda, 1500 reis a unidade, inventariado João José Correa Barbosa, comerciante, maço 1928, feito 65, estante 2, ano 1893, 2° Cartório de Órfãos.

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Figura 54 Sítio: Mercado Público Central N° de catálogo: 5.153 Cor: Superfície exterior marrom, interior cinza Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com uma alça no ombro Diâmetro interno do topo: 18 mm Diâmetro da externo do corpo: 86 mm Avaliação: 305 reis a unidade contendo genebra em 1852

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Garrafas para cerveja:

Existe quase que um consenso que o costume de beber cerveja no Brasil se inicia

com a abertura dos portos em 180888. No entanto, entre os registros de inventários

pesquisados em Porto Alegre, foi encontrado um de garrafas de grês para cerveja em 1806,

mostrando que antes da abertura dos portos já havia a presença destes artigos na cidade89.

Isto não quer dizer, no entanto, que fossem abundantes e o consumo de cerveja estivesse

disseminado entre a população.

O que se constatou com a pesquisa em inventários foi que a rápida expansão em

Porto Alegre do mercado cervejeiro ocorreu em meados da década de 1870, período

coincidente com a extensão da pasteurização e dos aperfeiçoamentos nas vedações nos

processos de produção da cerveja, e o início do predomínio teuto-rio-grandense no

comércio e casas de importação, juntamente com uma presença significativa de alemães e

descentes na cidade e arredores90. Todos estes fatores provocaram grandes transformações

nos processos artesanais de fabricação local de cerveja e no mercado consumidor, seja pela

adoção das novas tecnologias ou pelo acirramento da concorrência com as cervejas

importadas.

Entre os produtos importados comprovados pelas marcas de fabricantes de garrafas

de grês evidenciadas nas peças e fragmentos dos sítios pesquisados, estão Port-Dundas

Pottery Co., H. Kennedy, F. Grosvenor, todos de Glasgow, Escócia, Price de Bristol e J.

Macintayre de Liverpool, Inglaterra91.

Quanto aos tipos de garrafas encontradas, estes podem ser divididos em duas

categorias: as cilíndricas com o pescoço gradual e ombro pouco acentuado, e as cilíndricas

com o pescoço abrupto, com o predomínio, em ambas, da cor bege, com ou sem banho da

88 Sandroni (1989) menciona a chegada no porto do Rio de Janeiro, em 1808, de um carregamento de caixas de cervejas alemãs importadas da Inglaterra. 89 Inventariado José Carneiro Geraldes, Maço 3, ano 1806, 2° cartório do Cível, 2 garrafas brancas a 1.600 reis a unidade. 90 Segundo Roche (1969: 445-458) os comerciantes teuto-rio-grandenses começam a sobrepujar os luso-brasileiros com a ampliação das linhas de navegação transoceânicas diretas e, conseqüentemente com a redução da intermediação das casas de importação do Rio de Janeiro. Na metade do século XIX, entre a população de Porto Alegre de 24.000 habitantes em torno de 2.000 eram de origem alemã ou descendente (Hörmeyer, 1986). Em 1858 havia cerca de 3.000 alemães radicados na cidade (Avé-Lallemant, 1858). 91 No próximo segmento serão apresentadas as marcas de fabricantes, com as suas configurações e períodos de produção.

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coloração marrom claro ou chocolate. Dentro destas categorias existem outras variações

ligadas às terminações e dimensões.

Figura 55 Sítio: Antiga Cervejaria Brahma N° de catálogo: 22.02 Cor: Bege Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço gradual e ombro pouco acentuado Capacidade: N° 1: aproximadamente 400 ml, n° 2 e 3: em torno de 750 ml Forma da terminação: N° 2: anel em forma de cone Diâmetro da externo da base: N° 1: 75 mm, n° 2 e 3: 90 mm Altura total: N° 2: 265 mm Avaliação: N° 1: 160 reis a unidade, N° 2 e 3: 320 reis a unidade em 188592

92 Inventariado Manoel Marques Alfama, proprietário de casa de molhados na rua Misericórdia, ano 1885, maço 102, feito 7, estante 2, 3° Cartório de Órfãos, APERGS.

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Figura 56 Sítio: Antiga Cervejaria Brahma N° de catálogo: 22.02 Cor: N° 1 e 2: bege e marrom claro, n°3: bege e chocolate Forma do recipiente: N° 1 e 2: garrafa cilíndrica com pescoço gradual e ombro pouco acentuado, n° 3: garrafa cilíndrica com pescoço abrupto Capacidade: N° 1: aproximadamente 400 ml, n° 2 e 3: em torno de 750 ml Forma da terminação: N° 1: dois anéis, superior em forma de cone e inferior arredondado Diâmetro da externo da base: N°1: 74 mm, n°2 e 3: 90 mm Altura total: N° 1: 222 mm

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Marcas de fabricantes:

Figura 57

Port-Dundas Pottery Co. Lugar de origem: Glasgow, Escócia Sítio: Antiga Cervejaria Brahma N° de catálogo: 22.02 Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço gradual; marca um pouco acima da base Período de produção: 1850 – 1916

Figura 58

Price Lugar de origem: Bristol, Inglaterra Sítio: Antiga Cervejaria Brahma N° de catálogo: 22.02 Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço gradual; marca um pouco acima da base Período de produção: 1850 - 1916

Figura 59

Grosvenor Lugar de origem: Glasgow, Escócia Sítio: Antiga Cervejaria Brahma N° de catálogo: 22.02 Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço gradual; marca um pouco acima da base Período de produção: 1866 - 1899

Figura 60

H. Kennedy Lugar de origem: Glasgow, Escócia Sítio: Antiga Cervejaria Brahma N° de catálogo: 22.02 Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço gradual; marca um pouco acima da base Período de produção: 1866 - 1916

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Figura 61

J. Macintayre Localidade: Liverpool, Inglaterra Sítio: Antiga Cervejaria Brahma N° de catálogo: 22.02 Forma do recipiente: Garrafa cilíndrica com pescoço gradual; marca um pouco acima da base

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2.4 Processos de reciclagem

2.4.1 A reutilização de garrafas

As dimensões formais de uma garrafa e suas marcas geralmente são aspectos

importantes na investigação da sua função original e procedência. No entanto, o processo

de reciclagem93 tem de ser considerado na análise do artefato, pois sabemos que recipientes

e principalmente os destinados a conter bebidas alcoólicas eram reutilizados para diferentes

propósitos.

Uma especificidade dos recipientes, tanto de vidro como os de grés cerâmico, é a de

que podem ser usados novamente depois de se consumir o produto. No Brasil,

principalmente a partir de meados do século XIX, a garrafa foi muito valorizada por sua

serventia na embalagem de artigos domésticos. Segundo a pesquisa em inventários a

própria comercialização, nas tabernas e vendas, de azeite, vinagre, mel, melado, pimenta,

querosene e alcatrão tinham como prática a reutilização de garrafas para embalar estes

produtos94.

93 Segundo Schiffer (1987:29) a reciclagem caracteriza-se pelo “...retorno de um artefato depois de algum período de uso a um processo de manufatura”. Embora a reutilização sem adulteração da forma do recipiente, como ocorre com a adição de novos conteúdos, não se encaixe com o conceito de fato, o autor afirma que este procedimento também deve ser considerado como um processo de reciclagem. 94 Nas investigações em inventários foram encontradas avaliações de garrafas, a partir de 1848, contendo diferentes produtos. A seguir alguns exemplos:

- Duas garrafas de melado avaliadas em 640 reis a unidade, e dez garrafas de vinagre avaliadas em 240 reis a unidade, inventariado Antonio Joaquim Nunes, proprietário de venda, ano 1848, maço 1606, feito 79, estante 1, 1° Cartório de Órfãos, APREGS;

- Quatro garrafas de pimenta cumari avaliadas em 100 reis a unidade, inventariado Luiz Antonio de Carvalho, proprietário de taberna, ano 1852, maço 1705, feito 83, estante 2, 1° Cartório do Cível, APERGS;

- Quatorze garrafas de mel de abelha avaliadas em 400 reis a unidade, inventariado Pedro Licht, proprietário de taberna, ano 1876, maço 2125, feito 102, estante 2, 1° Cartório de Órfãos, APERGS;

- Seis garrafas de azeite fino avaliadas a 800 reis a unidade, inventariado Antonio José Soares, proprietário de casa de pasto no Mercado Público, 25 e 27, ano 1878, maço 2157, feito 105, 1° Cartório de Órfãos, APERGS;

- Uma garrafa de alcatrão avaliada em 400 reis, inventariado José Gomes dos Santos Amorim, proprietário de taberna, ano 1883, maço 647, feito 40, estante 2, 2° Cartório de Órfãos, APERGS;

- Seis garrafas de querosene avaliadas em 240 reis a unidade, e dez garrafas de vinagre nacional avaliadas em 140 reis a unidade, inventariado Manoel Marques Alfama, proprietário de casa de molhados na rua da Mizericórdia, ano 1885, maço 102, feito 7, estante 2, 3° Cartório de Órfãos, APERGS.

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Na Inglaterra desde o século XVII e adentrando o século XIX marcas e selos eram

colocados em garrafas de bebidas alcoólicas para identificá-las como propriedade privada

(Tolouse, 1971; Busch, 1987). Os taberneiros e comerciantes ingleses utilizavam garrafas

com as suas iniciais impressas para atestar a sua posse e assegurar o regresso dos

recipientes para um novo abastecimento95 (Busch, 1987).

No Brasil o transporte de bebidas de importadas ou da produção local até os

estabelecimentos de venda a retalho ocorria através de pipas e barris. Nestes locais o vinho

e as outras bebidas alcoólicas eram vendidos, na sua maioria, de acordo com medidas de

capacidade para líquidos, correntes no século XIX como quartilho (equivalente a 0,66

litros), e canada ou medida (correspondentes a 2,66 litros). Os recipientes vazios tinham um

valor na troca e na sua aquisição.

As exceções estavam relacionadas à importação de bebidas engarrafadas

direcionadas principalmente para a comercialização de produtos tidos como artigos finos

voltados para atender a demanda de grupos privilegiados96.

Uma indicação quanto à possível reutilização de garrafa de bebida pode estar na

presença de um grande intervalo de tempo entre o período de produção do artefato e a sua

deposição no registro arqueológico (Hill, 1982).

A grande quantidade de registros relacionados às garrafas vazias, pipas e barris de

bebidas alcoólicas nos inventários de comerciantes de Porto Alegre revela a existência de

um sistema onde o consumidor retornava com o seu recipiente vazio com objetivo de

adicionar alguma bebida ou de ser ressarcido do valor gasto anteriormente com a garrafa.

Por outro lado, os mesmos registros confirmam também que o uso das garrafas vazias em

grande parte estava direcionado para o consumo de bebidas alcoólicas.

95 As marcas não identificadas no fundo das bases das garrafas encontradas na amostra dos sítios pesquisados talvez possam ser de comerciantes ingleses que pediram para os seus fabricantes inserirem suas iniciais ou marcas, e que não constam em catálogos especializados. 96 Abaixo alguns dos registros de inventários relacionados à importação de bebidas alcoólicas engarrafadas:

- Um frasco com genebra avaliado em 800 reis a unidade, inventariado Pedro Licht, proprietário de taberna, ano 1876, maço 2125, feito 102, estante 2, 1° Cartório de Órfãos, APERGS.

- Uma garrafa de Cognac avaliada em 1.500 reis a unidade, seis garrafas de champanha Farre avaliadas em 4.167 reis a unidade, seis garrafas de vinho Bordeaux avaliadas em 1.000 reis a unidade, e vinte e quatro garrafas de vinho do Reno avaliadas em 1.250 reis a unidade, inventariado Guilherme Rumann, proprietário de casa de pasto na Rua General Silva Tavares, ano 1875, maço 495, feito 31, estante 2, 2° Cartório de Órfãos, APERGS.

Como é possível observar os valores acima são bem superiores aos relacionados com os produtos informados anteriormente.

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A despeito dessas dificuldades, os pesquisadores podem utilizar os fragmentos de

garrafas em suas análises e pesquisas de campo. Para isso, os dados obtidos de outras

evidências materiais e de fontes documentais devem interagir com as informações

relacionadas a estes artefatos.

O estudo de fragmentos de garrafas de vidro e grés cerâmico, copos, cálices e taças

de vários sítios, aliado com pesquisa em registros escritos e pictóricos, se ajusta às

circunstâncias necessárias para ir além de suposições simplistas. As eventuais lacunas

deixadas pela possibilidade de reutilização das garrafas podem ser preenchidas pela

extrema especificidade funcional dos outros objetos e por uma abundância contextual.

Além disso, os artigos de vidro, em virtude da sua pouca freqüência no Brasil,

principalmente na primeira metade do século XIX, eram considerados objetos de grande

valor. Tipos de garrafas, copos, taças e cálices podem formar conjuntos, que afora as suas

funções utilitárias, trazem consigo mensagens que insinuam lugares, trajes, e

comportamentos adequados a determinadas realidades sociais.

Ainda que as marcas de fabricantes e as formas dos recipientes não sejam

indicadores imediatos do tipo de bebida consumida, em várias situações estes traços aliados

com outros tipos de informações podem fornecer pistas importantes quanto ao perfil social

dos que fizeram uso dos objetos e de seus conteúdos, além dos ambientes aos quais

pertenciam.

Na análise de fragmentos de garrafas, de modo semelhante ao que ocorre nos

estudos apurados de qualquer tipo de vestígio material, persiste a necessidade de

multiplicar os pontos de apoio e elaborar instrumentos de controle adequados para se evitar

associações por demais simplificadas.

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2.4.2 Uso secundário97 com alteração na dimensão formal do artefato

A atenção para com um vestígio material, tido muitas vezes como pouco promissor

pode, em algumas circunstâncias, ser recompensada com a presença de indícios com

potencial informativo sobre grupos sociais de baixa visibilidade no registro arqueológico.

Os cacos de vidro lascados oriundos de garrafas e outros artigos são exemplos

reveladores dessa possibilidade.

Nos Estados Unidos a incidência destes artefatos foi evidenciada em sítios de

habitações de afro-americanos na Okley Plantation em Louisiana, referentes ao período de

1840 a 1930. Nestes sítios Wilkie (1996) verificou a presença de trinta e cinco fragmentos

de vidro com processos de reciclagem marcados seja pelo retoque na borda latitudinal98 ou

pelo gume na extremidade longitudinal sem incidência de retoque.

Cacos de vidro lascados foram identificados no Brasil pela primeira vez por Ribeiro

(1988) na Aldeia de São Nicolau do Rio Pardo - RS. Outros exemplos foram evidenciados

em dois sítios rurais dos séculos XVIII e XIX em Rio Grande - RS (Klaus Hilbert

comunicação pessoal), em aldeias Bororo de contato no Mato Grosso (Wüst, 1990:344), e

num sítio de contato em Aimores – Minas Gerais (A. Baeta, comunicação pessoal apud

Symanski e Osório, 1996).

Estes artefatos foram reconhecidos também por Symanski e Osório (1996) durante a

etapa de análise do material recuperado do sítio Solar Lopo Gonçalves e Mercado Público

Central. Da camada arqueológica do sítio Solar Lopo Gonçalves, dois fragmentos de

garrafas, relacionados principalmente a movimentos de raspar, apresentaram gume na borda

longitudinal com retoque (idem).

97 Segundo Darnay e Franklin, 1972 apud Schiffer (1987: 30) o uso secundário pode ser caracterizado no momento em que “os objetos assumem um novo uso sem precisar de modificações extensas”. 98 Sentido transversal ao da base do objeto.

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Figura 62: Artefatos reciclados de vidro encontrados no sítio Solar Lopo Gonçalves (Fonte: Symanski e Osório, 1996: 48).

Ao que parece o uso na Porto Alegre oitocentista de lâminas de fragmentos de vidro

relacionados, sobretudo, a movimentos para cortar e raspar não esteve restrito somente a

ambientes rurais ou semi-rurais, pois no decorrer da nossa análise do material vítreo

recuperado do sítio Paço Municipal também se evidenciou a presença de artefatos com

processos de uso secundário e de reciclagem com adulteração das formas originais dos

recipientes. Ainda que o processo de formação do sítio Paço Municipal, como já vimos,

tenha ocorrido, essencialmente, por meio de aterros de origem desconhecida, a

probabilidade de que sejam procedentes de terrenos da área urbana da cidade é bem maior

do que o contrário99.

Os fragmentos identificados na amostra do sítio correspondem a dois cacos que

foram recolhidos na área do porão do Paço, sendo um confeccionado a partir do corpo de

uma garrafa cilíndrica de coloração verde oliva e com incrustação de bolhas de ar, e o outro

do corpo e borda de um copo facetado transparente. Com relação ao período de produção

das peças, mesmo que não apresentem marcas de fabricação passíveis de serem datadas,

pode ser assumido que foram confeccionadas, utilizadas, recicladas e descartadas até 1901,

ano da construção do Paço Municipal.

99 O próximo capítulo terá uma referência de registro escrito do uso secundário por parte de grupos desvaforecidos em área urbana de Porto Alegre no século XIX de fragmentos de vidro com modificação na dimensão formal.

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Figura 63: Artefatos reciclados de vidro encontrados no sítio Paço Municipal. (desenhos do professor

Dr. Klaus Hilbert).

Com um gume reto formado, no sentido latitudinal, por múltiplas retiradas na sua

lateral esquerda superior (ver fig. 63), e medindo em torno de 8 cm de comprimento por 4,3

cm de largura, o primeiro utensílio parece estar relacionado, principalmente, a movimentos

de cortar.

O artefato produzido a partir de parte do corpo e terminação de um copo facetado

mede aproximadamente 5 cm de comprimento por 3,8 cm de largura. O retoque côncavo e

abrupto em uma das suas extremidades (ver fig. 63), foi produzido no sentido longitudinal.

Ao contrário do outro utensílio este fragmento foi utilizado, provavelmente, para raspar e

alisar objetos de madeira tendo como suporte na operação a parte da borda sem

protuberâncias cortantes do copo.

O uso provável para raspagem de madeira também foi constatado por Wilkie

(1996), que através de depoimentos orais confirmou a aplicação de cacos de vidro lascados

para alisar cabos de enxadas e machados em Oakley Plantation.

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Symanski e Osório (1996) ressaltaram o fato de que os utensílios encontrados na

camada arqueológica do sítio Solar Lopo Gonçalves estavam inseridos num contexto onde

a presença de escravos foi confirmada através de registros materiais e escritos.

Pessoas pertencentes aos grupos de baixo poder aquisitivo estavam, evidentemente,

mais inclinadas a fazer uso destes objetos do que as participantes de grupos privilegiados.

A pesquisa em processos crime tornou possível a verificação de casos onde escravos

e trabalhadores informais fizeram uso de objetos ou instrumentos cortantes em meio a

conflitos de toda ordem100. O controle rigoroso, por parte das autoridades locais,

relacionado ao porte de qualquer tipo de arma, principalmente no que diz respeito aos

escravos, provavelmente tenha motivado a aplicação de processos de reutilização de

artefatos para obter instrumentos de ataque ou defesa pessoal.

No que diz respeito às evidências em lixeiras coletivas na área urbana de Porto

Alegre, o que chama a atenção é a recuperação de artefatos reciclados de vidro com

alteração na dimensão formal em sítios muito próximos, no caso o sítio Mercado Público

Central101 e o Paço Municipal102.

Como já foi visto, estes locais, possivelmente, se constituíram em áreas

estigmatizadas pelos descartes de lixo e pela freqüência da população mais pobre da cidade,

como escravos e trabalhadores informais. No entanto, em virtude da natureza dos dois sítios

não há como se afirmar que o uso secundário e a reciclagem de tais artefatos tenham

ocorrido nestes locais.

Ainda que persista a necessidade de testar a hipótese em um número maior de

evidências e contextos, a possibilidade do uso destes artefatos por parte de afro-brasileiros

não está descartada e deve ser considerada. Mesmo que de forma não resoluta e com alguns

100 Infelizmente os processos crime não revelam o tipo de material empregado, apenas descrevem a arma utilizada como objeto ou instrumento cortante. Abaixo alguns exemplos de processos com esta particularidade:

- Degola com instrumentos cortantes em 07/12/1821, ré Maria (escrava), vítimas Manuel e Manuela (escravos), cartório Júri-Sumários, maço 15, processo 379, APERGS;

- Lesões corporais com objeto cortante em 23/09/1831, réu camillo (escravo), vítima Joaquim, cartório Júri-Sumários, maço 15, processo 379, APERGS;

- Lesões corporais com objeto cortante em 1884, réu Manoel (escravo), vítima Jovita, cartório Júri-Sumários, maço 59, processo 1513, APERGS.

101 Symanski e Osório (1996) levantaram a hipótese de que o utensílio encontrado no sítio Mercado Público Central tenha exercido uma função lúdica, o que não ocorre com as peças evidenciadas no Paço Municipal. 102 Tais utensílios não foram encontrados no outro sítio urbano da cidade caracterizado também como lixeira coletiva, no caso o sítio da Praça Rui Barbosa.

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elementos ainda obscuros, os vestígios, sejam materiais ou escritos, apontam para a

produção e uso destes artefatos por parte de grupos desfavorecidos.

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3. OS ARTEFATOS E OS ATOS DE BEBER NA PORTO ALEGRE OITOCENTISTA

O vestígio material, por ter uma especificidade marcada por ser remanescente e

lacunar, se caracteriza, quase sempre, como um indício desordenado e confuso, o que

torna complexa uma aproximação dos aspectos do passado a partir da sua descrição e

análise. Para se estabelecer uma inter-relação coerente entre as várias especificidades

dos vestígios materiais é necessário um exame aprofundado das particularidades do

contexto.

Qualquer objeto após ser produzido passa a fazer parte de um sistema de

fabricação, utilização e consumo onde adquire significações através do comportamento

humano e, também, por intermédio de estruturas sócio-culturais próprias de uma região

ou época específica. Os significados relacionados à cultura material dizem respeito a

uma determinada época e local, e somente adquirem sentido quando estão inseridos em

um contexto específico (Beaudry et al, 1991; Hodder, 1991; Shanks and Tilley, 1987).

No momento em que se articula estas questões com a problemática desta

pesquisa, que busca interpretar os significados vinculados aos artefatos relacionados às

bebidas alcoólicas na Porto Alegre oitocentista, se verifica a necessidade de estabelecer

procedimentos voltados para a identificação de aspectos ligados às praticas cotidianas.

A procura da interpretação de tais práticas, de forma criteriosa e rigorosa, passa,

necessariamente, pelo exame das especificidades do contexto onde estão inseridas.

Dentro desta perspectiva, não há como abrir mão do uso de registros escritos e

pictóricos na reunião e organização de dados que possam fornecer importantes

informações relacionadas aos objetivos da pesquisa, mesmo que entre os procedimentos

predomine o estudo de fontes materiais. O importante é levar em conta toda a

complexidade e potencialidade dos dados, independente de sua origem, e a partir disso

organizar, da melhor forma possível, um conjunto de informações que possibilitem

examinar a cultura material nas suas várias formas de utilização e apropriação.

Tendo como suporte os princípios defendidos por Chartier (1990: 16), o trato

com as diversas fontes se resume em buscar “identificar o modo como em diferentes

lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler”

(idem). A atenção tem de estar centrada sobre como a sociedade percebe e presume a

realidade e, por conseqüência, é indispensável procurar interpretar como ocorre a

conformação dessa apropriação ou assimilação. Essa interpretação decorre da

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verificação de qual grupo social ou o meio intelectual que os indivíduos fazem parte. É

a partir deles que emergem os “esquemas intelectuais incorporados que criam as figuras

graças às quais o presente pode adquirir sentido, o outro tornar-se inteligível e o espaço

ser decifrado” (ibidem: 17).

A partir desta concepção e com o estudo sobre as caricaturas de jornais do século

XIX se buscará, neste segmento, interpretar como pessoas pertencentes há elite

intelectual de Porto Alegre percebiam os atos de beber e o conjunto de elementos

materiais específicos de que se lançava mão para demonstrar poder, força, erudição,

entre outros atributos. Dentro da mesma linha de raciocínio, com o trabalho relacionado

às tabernas oitocentistas em Porto Alegre o objetivo principal é procurar interpretar a

relação dos atos de beber e, conseqüentemente o uso dos artefatos vinculados ao

consumo de álcool, com o antagonismo entre as práticas sociais que buscavam o

requinte e as que estavam ligadas pela memória à sociedade tradicional. Cabe lembrar

que o conjunto das considerações a seguir corresponde a uma possibilidade

interpretativa entre outras tantas.

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3.1 A caricatura: consistência figurativa na interpretação dos artefatos

As caricaturas podem fornecer importantes informações que, muitas vezes, não

estão disponíveis em outras fontes. Os aspectos da vida cotidiana, elemento de suma

importância para a Arqueologia, quase sempre são desprezados nos registros históricos,

o que muitas vezes não ocorre com as imagens caricatas. Por intermédio das caricaturas

existe a possibilidade de se obter dados relacionados às representações e práticas

sociais, além de evidenciar o período, a constituição física e a utilização dos artefatos.

Consistência figurativa, contestação do cotidiano e principalmente comunicação

inquieta são características que configuram a caricatura como um vestígio circunstancial

significativo para a busca da compreensão de aspectos das sociedades pretéritas

(Velloso, 1996).

A caricatura, através de uma escolha apurada de minúcias, pode realçar

determinadas características, de um indivíduo ou de um acontecimento, que provocam o

riso e o escárnio. No exagero de aspectos grotescos ou cômicos, a imagem caricata

desvenda o particular na presença do público (idem). Com estilo ágil, registra-se o dia-

a-dia, o circunstancial, ressaltando, assim, os comportamentos e os costumes de certos

grupos sociais (Fonseca, 1999).

No entanto, as imagens do cômico podem ser o resultado de uma observação

atenta que desvela uma intencionalidade, e que afronta um conjunto de normas e regras

estabelecidas; por outro lado, pode ser também um alerta sobre condutas desviantes e

um clamor ao cumprimento da ordem vigente (Pesavento, 1994). Cabe ao pesquisador

efetuar as interconexões possíveis e necessárias entre a visão crítica das imagens

caricatas e o seu contexto histórico.

As caricaturas alcançaram grande força expressiva no século XIX. Determinados

limites que demarcavam o que era belo e feio, paulatinamente foram sendo rejeitados.

Foi o período em que se instaurou uma reação à ordem realista da representação

baseada, ainda, na concepção renascentista (Velloso, 1996).

Com o advento da litografia, criada em 1798, os periódicos ilustrados

conquistam uma ampla circulação no meio urbano. As normas anteriores de inter-

relação entre imagem e texto começam a ser proscritas. O texto escrito passa a ser

utilizado, cada vez mais, como um comentário vinculado à ilustração.

Com a expansão vertiginosa do capitalismo e da cultura urbana, e a conseqüente

dificuldade de se determinar as fronteiras entre o domínio público e o privado, o mundo

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exterior para as pessoas passou a não ter uma configuração exclusiva, podendo

apresentar, isto, sim múltiplas formas, dependendo do olhar do observador. Havia a

necessidade de apurar a observação para tentar compreender a diversidade de

significados.

Na Europa, setores ligados à medicina, à criminologia, à metafísica, à estética, e

à fisiologia se dedicavam a analisar as expressões humanas. Teorias como a

fisiognomonia e a frenologia influenciaram significativamente as caricaturas de

Daumier e Charivari (Velloso, 1999).

Um novo ponto de vista sobre o dia-a-dia nas cidades surgia com a caricatura.

Na medida em que procurava decifrar a dualidade entre a aparência e a interioridade

humana, as caricaturas passavam a ter uma grande influência nas condutas e nos valores

dos grupos sociais que atingiam (idem). Aos poucos as imagens caricatas iam se

transformando em um recurso visual de grande impacto informativo.

No Brasil, em razão da forte censura imposta pela metrópole Portuguesa até o

processo emancipatório, o maior desenvolvimento da caricatura ocorreu somente na

metade do século XIX. Araújo Porto-Alegre, após o seu retorno de Paris, lançou em

1844 no Rio de Janeiro o primeiro jornal com caricaturas intitulado Lanterna Mágica.

Segundo Salgueiro (2003), o jornal Lanterna Mágica surgiu:

(...) num momento de franca produção editorial de estampas e jornais. Embora efêmeros, e por vezes acríticos, pois comprometidos com o mecenato monárquico, esses periódicos respondiam à missão romântica de educar o povo e difundir o progresso, a indústria e as belas-artes, construindo uma cultura nacional brasiliense. Encarnam o espírito de sátira romântico-realista na linhagem dos retratos físicos e morais descritivos de costumes e práticas da sociedade urbana. (idem, 2003).

Partícipe da mesma concepção, o primeiro periódico ilustrado de Porto Alegre -

A Sentinella do Sul – era lançado em 1867. De caráter discreto e avesso aos escândalos,

tinha o formato de 27 cm X 21 cm, composto de oito páginas, quatro delas ilustradas.

Além das caricaturas, se sobressaem os retratos de pessoas que pertenciam à alta

sociedade rio-grandense, principalmente os militares que estavam a serviço da guerra,

em curso, contra o Paraguai.

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Seu ilustrador, de 22 anos, era Jacob Weingärtner, irmão de Pedro Weingärtner,

que posteriormente seria um renomado artista plástico, e filho de Inácio Weingärtner,

que viera ao Rio Grande do Sul em torno de 1836 (Guido, 1956). Sua família, a

exemplo de muitos imigrantes alemães, constituiu uma longa tradição na arte

litográfica. O próprio Jacob, após se afastar do desenho caricato e da composição de

retratos, passou a se dedicar exclusivamente ao trabalho na litografia de sua família

(Damasceno, 1944).

Outro fato que confirma essa tendência era a composição litográfica do

Sentinella do Sul, que estava a cargo da litografia Wiedmann, sob os cuidados de

Augusto Lanzac von Schonak (idem).

O jornal estava inserido em um contexto marcado pela campanha contra Solano

Lopes e pela grande influência do ideário romântico na produção intelectual da

Província. Suas publicações semanais eram influenciadas significativamente por estes

fatores. A começar pelo seu cabeçalho (ver fig. 64). Sua estampa mostra uma vista

panorâmica da cidade de Porto Alegre, onde se destacam, à esquerda um acampamento

militar (uma referência à Guerra do Paraguai), tendo ao fundo o aglomerado urbano, e a

sua frente um gaúcho à cavalo de sentinela, à direita em primeiro plano a imagem de um

índio associada à natureza e ao Guaíba (ibidem). No centro da figura um sol que irradia

luminosidade por todas as direções. Inscrito em latim no interior do astro, o lema

Audacem (ousadia, coragem, valor), Fortuna (boa fortuna, sorte, destino), Juvat

(aprazer, ser agradável e útil) (Ferreira, 1960).

A imagem idealizada do indígena associada à natureza americana eram temas

freqüentes do ideário romântico. Em meados do século XIX havia a necessidade de

ressaltar as especificidades dos elementos que compunham a paisagem tropical. Tais

aspectos eram capazes de estabelecer uma distinção entre a produção intelectual

brasileira e européia.

O desejo de uma autonomia cultural mantinha um estreito vínculo com o

processo de independência política. A necessidade de uma emancipação cultural era

vista como um elemento importante na manutenção da separação entre Brasil e Portugal

no âmbito político (Baumgartem, 1997).

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A figura do índio não aparece somente no cabeçalho do jornal. Entre a dupla de

personagens principais da sua primeira caricatura, está o fiel piá caracterizado como

índio. O outro personagem corresponde ao redator do jornal. No primeiro fascículo,

publicado em 7 de julho de 1867, a caricatura apresenta o redator e o piá aos seus

leitores (ver fig. 65). Na frente, próximo a uma estante de livros, com uma cabeça

avantajada e desproporcional ao corpo, de óculos e trajando fraque e cartola, o redator.

O piá, de proporções menores e atrás do redator, imitando o seu amo retira o cocar.

A utilização da imagem do índio nessa caricatura não diz respeito somente às

questões ligadas a uma desejada autonomia cultural, remete também a uma

representação conferida às camadas populares da sociedade. Segundo Crouzet (apud

Pesavento, 1994: 12-13), no século XIX, era freqüente atribuir aos indivíduos

participantes dos grupos de desvalidos uma imagem idealizada, caracterizando-os como:

(...) o generoso, o primitivo, o inocente, o irracional, uma natureza-cultura, espontânea e coletiva. (...) o povo não estará jamais no povo, mas num “outro” social, designado, senão forjado pelo intelectual como um mundo de outrora (...). (idem)

Por outro lado, as representações ligadas ao redator remetem sempre à fidalguia,

à erudição, a um indivíduo de posição elevada na sociedade.

A caricatura (ver fig. 66) publicada no dia 29 de setembro de 1867, possibilita

um melhor esclarecimento destas questões e também versa sobre as práticas vinculadas

à bebida.

Nesta estampa o redator aparece com o mesmo aspecto, com o seu inseparável

fraque, cartola e guarda-chuva. Na figura, está cobrando a produção do colóquio que

tinha ficado a cargo do piá. Agora de fraque de aparência mestiça e pequena estatura, o

piá alega ser principiante e não ter a capacidade de improvisação do seu amo. Sua

cartola está atirada ao lado como sinal de desleixo e, na mesa junto aos objetos de

trabalho, está uma garrafa de vinho e uma taça.

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Um elemento que chama a atenção é a transformação dos traços do personagem,

de índio a mestiço. A eleição das feições de um mestiço como tipo ideal, denota um

certo esgotamento do Indianismo e, ao mesmo tempo, uma necessidade, segundo a ótica

do ilustrador, de representar as camadas populares de forma que se aproxime mais da

realidade.

A imagem reforça a incapacidade para atividades intelectuais e o espontaneísmo

do personagem. Além disso, o fato do piá aliar o lazer ao trabalho redunda em uma

privação aos leitores.

O ato indisciplinado de beber é recriminado. Por outro lado, ressalta como

característica do piá, a propensão para impulsos espontâneos e alheios à razão.

Nos textos do Sentinella do Sul é marcante o diálogo entre os personagens. O piá

com uma visão imatura e até infantil questiona os acontecimentos em voga na cidade. O

redator, de forma didática, procura responder as dúvidas, buscando orientar o seu fiel

criado.

Na caricatura de 11 de novembro de 1867 (ver fig. 67) parece que o redator se

aborrece com tal empreitada e resolve impor uma censura no questionador. Na imagem,

o redator aparece de óculos e pena na orelha – outro símbolo de erudição -, fechando

uma garrafa de vidro de genebra européia com a forma tronco-piramidal invertida,

através da introdução de uma rolha103. Próximos ao redator estão a estante de livros, a

cartola e o guarda-chuva bem dispostos em uma cadeira. O piá, enclausurado no interior

da garrafa, como um gênio está acomodado e feliz.

Oriunda de centros tidos como civilizadores na época, a garrafa para genebra na

imagem surge como um recurso de correção e disciplina104. Ela mantém o

inconveniente dentro de certos limites e sob controle. Sua transparência possibilita

enxergar o conteúdo sem ter o contato direto.

Garrafas e bebidas também são elementos de presença marcante na caricatura

intitulada Banquete Paraguayo, publicada em 29 de março de 1868 (ver fig. 68).

103 A rolha, em linguagem corrente, corresponde à “repressão da liberdade de falar ou de escrever; ou imposição de silêncio” (Ferreira, 1986). 104 Segundo Câmara Cascudo (1983) as genebras no Brasil pertenciam “à dinastia das bebidas finas, fortes, capitosas, supostamente digestivas e animadoras das funções sudoríferas.” Grifo do autor.

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Solano Lopez, na ilustração, é representado com uniforme militar trazendo em

uma das mãos um copo, com o qual faz um gesto de saudação e, no outro braço, carrega

um bastão105. Em cima de um barril106, que serve de pedestal, ele discursa encorajando

os seus colaboradores a capturar os dois encouraçados brasileiros. No seu entorno,

várias garrafas de vinho e genebra, um garrafão e uma cabeça de gado em cima de um

prato. Na sua frente uma grande mesa com garrafas de genebra e vinho. Em destaque e à

frente da mesa, altos oficiais embriagados o saúdam com garrafas e copos nas mãos.

Ao fundo uma multidão, quase sem forma definida. A maioria das pessoas

apenas contempla a cena de forma passiva.

O inimigo, personificado na figura de Solano Lopez, é caracterizado como um

ser astuto e de má-fé, que busca controlar e dominar uma massa inerte.

Ainda que o título da caricatura faça menção à refeição, o cenário se destaca

pelo predomínio de bebidas alcoólicas e pela escassa presença de alimentos. Na cena, a

saudação com taças e garrafas em riste e o ato de beber, se configuram num expediente

que busca revigorar laços de solidariedade e sentimentos de pertencimento. Por outro

lado, o incentivo ao consumo de bebida poderia dissipar possíveis temores ou

resistências107.

Solano não parece estar bêbado. O dirigente mantém uma postura altiva diante

dos seus subordinados embriagados. A imagem insinua uma manipulação por

intermédio do estímulo à ingestão de álcool. A bebida é vista como um modo eficaz de

perverter e corromper.

O consumo de álcool é percebido, também, como um mecanismo, ao mesmo

tempo, mantenedor da ordem vigente e corruptor, na caricatura do hebdomadário O

Século, publicada em 25 de junho de 1882 (ver fig. 69).

As duas imagens sucessivas fazem menção ao tipo de relação mantida pelo

Partido Liberal, dirigido por Gaspar Silveira Martins, com os seus eleitores antes e

depois do processo eletivo (Pesavento, 1993).

105 Em várias ocasiões, o bastão é utilizado como sinal distintivo de comando e liderança (Ferreira, 1986). 106 O barril, em razão da precariedade das instalações sanitárias na cidade, era utilizado como contentor de matérias fecais, que posteriormente eram jogadas no Guaíba pelos escravos. Nesse caso o barril passava a ser denominado por tigre. O tonel na caricatura, diante da situação marcada pelo conflito, poderia se remeter, também, a um barril de pólvora. 107 Não era à toa, que, na Guerra do Paraguai, soldados brasileiros acreditavam que ao ingerirem cachaça misturada com pólvora estariam estimulando atos de bravura e coragem (Câmara Cascudo, 1968).

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No primeiro quadro está o Zé Povinho108 sendo servido por cinco adeptos de

Gaspar Silveira Martins no momento de dependência política. Todos estão com a

mesma feição do líder partidário.

O Zé, com um guardanapo amarrado ao pescoço, traz um ar de felicidade diante

de uma boa refeição. A sua frente está uma mesa com artigos, que denotam requinte,

compostos por duas garrafas de vinho, cálices, talheres e uma bandeja com a comida.

No quadro posterior o Zé povinho está sendo surrado por dois adeptos, um com

porrete e outro o chutando. O Zé, com roupas esfarrapadas e mais magro, está com uma

expressão de espanto e assombro, como quem não compreende a situação.

A partilha de bebidas e comidas com os seus aparatos, nas duas últimas

caricaturas, simbolizam a anuência ou a busca desta. A distribuição de alimentos entre

os participantes incentiva a troca de cortesias e revela uma hierarquia, pois para quem a

organiza é um modo de demonstrar riqueza e refinamento. A bebida alcoólica junto com

uma boa refeição e um ambiente ostensivo são considerados um expediente que

recompensa um comportamento que está de acordo com o que se deseja.

Através de caricaturas, as práticas políticas tidas na época como ludibriantes

começam a ser criticadas.

Em 1878 o Partido Liberal conseguia obter maioria na Assembléia Legislativa

rio-grandense, o que confirmava a sua superioridade sobre o Partido Conservador.

Quando oposição, o Partido Liberal havia se constituído em um dos setores da

sociedade que dava vazão às reivindicações modernizantes e às críticas com relação às

práticas de cunho conservador por parte da monarquia (Piccolo, 1974). Enquanto

governo, através da liderança de Silveira Martins, passava a defender a monarquia, cada

vez mais desgastada pela propaganda republicana, pela campanha abolicionista e pela

questão religiosa (idem).

Em paralelo se verificava, entre a intelectualidade brasileira e sul-rio-grandense,

a transição da concepção romântica para a naturalista, em razão do avanço e da

influência inicial do ideário cientificista (Baumgarten, 1997).

Neste período, a imagem cômica voltada para as questões políticas começava a

predominar. A procura do recreativo e do divertido passava, paulatinamente, a ceder

lugar a uma crítica mais contundente e de cunho pessoal.

108 Segundo Pesavento (1993: 53) a caracterização do Zé Povinho refere-se ao “cidadão de segunda classe, trabalhador pobre, esquecido pelo poder público, marginalizado social e politicamente”.

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A gazeta crítica e humorística O Século é um exemplo dessa transição. Surgida

em 11 de novembro de 1880, traz no discurso de apresentação do primeiro exemplar a

seguinte intenção: “Promover o riso sem ofensa dos bons costumes, acatando o

santuário da vida privada, será o sistema por nós adotado” (idem: 1). No entanto, logo

em seguida passa a adotar uma postura mais incisiva, o que iria marcar o jornal.

O Século, de formato 43 cm X 30 cm, foi o periódico humorístico de maior

tiragem e circulação da Província. Teve uma duração de treze anos, com interrupções

em 1885 e 1889 (Damasceno, 1944).

O primeiro ilustrador do jornal foi Jacob Weigärtner. Em dez de junho de 1881

assume a ilustração das caricaturas Eduardo Antonio de Araújo Guerra, conhecido como

Araújo Guerra. Em razão de um desentendimento entre Miguel de Werna – diretor de O

Século - e Araújo Guerra, em cinco de agosto de 1883, Joaquim Samaranch, de

nacionalidade espanhola, decorador e cenógrafo, passa a ser o novo ilustrador. Em fins

de 1884 Samaranch adoece, e Jacob Weigärter assume, novamente, as ilustrações do

semanário (idem).

O proprietário do jornal, Miguel de Werna era filho do fiscal Ernesto de Werna e

Bilstein, e descendente da Marquesa de Santos por parte de mãe. Em 1869 foi vice-

presidente do Partenon Literário, o mais importante grêmio cultural da Província na

segunda metade do século XIX. Com dezessete anos foi redator do jornal crítico e

literário Atualidade e, em 1877, foi diretor do O Chavari, um pasquim de pequeno porte

(ibidem).

Em virtude das suas críticas a Gaspar Martins e ao governo provincial sob o

comando do Partido Liberal, foi expulso da Câmara de Vereadores. Posteriormente, foi

candidato pelo Partido Conservador ao cargo de deputado provincial. No entanto, não

conseguiu se eleger. Dedicou, também, parte de suas críticas à corrente barcelista,

contrária da sua no Partido Conservador. No início do regime republicano foi preso e

teve o seu jornal fechado temporariamente. Em 1893 era chefe de seção da Secretaria da

Intendência Municipal, e em meados de 1894 viajava para o Rio de Janeiro, aonde veio

a falecer aos 46 anos em 1896 (idem).

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O político, jornalista e ativista cultural Carlos von Koseritz109, a quem chamava

de “borrachon”, e o clero, que denominava ser “as asas negras da sociedade”, estavam

entre os alvos prediletos do diretor do jornal O Século.

A caricatura de Joaquim Samaranch publicada em dois de setembro de 1883

materializa, por intermédio de imagens cômicas, a intenção do jornal em

desmoralizar a imagem da igreja católica (ver fig. 70). A seqüência de imagens apresenta, no primeiro quadro um padre e uma freira

sentados em uma poltrona no interior de uma alcova. Na figura, o sacerdote está numa

posição de assédio, com um braço encostado no ombro da freira e o outro segurando

uma taça de champanhe. A freira, de modo ambíguo, tenta barrar o cerco do padre com

um braço e com a outra mão segura a taça.

Com uma perna cruzada deixa aparecer parte da sua perna e, no seu rosto, traz

estampado um sorriso de satisfação. Na frente da poltrona uma mesa tendo no centro

uma garrafa de champanhe. No segundo quadro está o padre, no púlpito da igreja do

Rosário, pregando a palavra de Deus.

A escolha do vinho espumante na caricatura pode ser uma menção ao monge

beneditino Dom Pérignon, inventor hipotético ou mítico do champanhe. O seu registro

demonstra a intenção de estabelecer um nexo histórico entre a Igreja Católica e o

consumo de bebida alcoólica. O champanhe e a sua cultura material correspondente são

utilizados como símbolo de perversão, de corrupção de virtudes e, por conseqüência,

como meio de difamar a imagem da classe clerical.

O vínculo da igreja com o álcool e com as mazelas da sociedade era

estabelecido, também, nas caricaturas publicadas em vinte e seis de outubro de 1884 e

dois de novembro de 1884.

A ilustração editada em vinte e seis de outubro de 1884 traz o micróbio Cholera

Morbus representando uma forma humana grotesca. Seu corpo é magro e alongado (ver

fig. 71). O micróbio com braços, pés e dedos compridos, boca e orelhas avantajadas,

nariz achatado, olhos arregalados, bigode fino e comprido, veste um traje preto e tem na

cabeça um chapéu com um morcego negro no seu cume.

109 Carlos von Koseritz, além de ter sido colaborador do jornal A Reforma, órgão do Partido Liberal, foi um grande divulgador dos preceitos positivistas, do evolucionismo darwiniano, e de teorias científicas na segunda metade do século XIX em Porto Alegre (Baumgarten, 1997).

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Abaixo de cada braço traz duas garrafas e, embaixo do seu corpo, um símbolo associado

à morte, a foice. Esmagando o seu corpo está um barril de cachaça com a marca Santo

Antonio do padre Joãozinho.

Os traços orientais do Cholera Morbus (o bigode fino e comprido, e o chapéu em

forma de telhado de quiosque)110 fazem menção a origem da doença; no caso a Ásia

meridional.

A doença, no decorrer do século XIX, saiu do seu domínio habitual e passou a

incidir em todos os continentes, em razão da expansão e intensificação do comércio

internacional (Sournia, 1984). No Brasil, só no Rio Janeiro, em 1855, o Cholera matou

mais de 200 mil pessoas (Telarolli Junior, 1961). Porto Alegre, por sua vez, foi afetada

por três epidemias de Cholera nas décadas de 1850, 1860 e 1870 (Macedo, 1982;

Weber, 1992).

A população nas cidades brasileiras sem saber como tratar da doença adotava

como tratamento uma dieta à base de café e cachaça (Telarolli Junior, 1961).

Na França, assim como em outros países, os surtos do Cholera contribuíram para

o avanço da implementação de medidas a muito desejadas pelas autoridades, como a

criação de organismos de saúde pública, e a realização de transformações urbanas

(Sournia, 1984).

A caricatura, portanto, faz uma alusão às precárias condições sanitárias da

cidade e o desleixo das autoridades. Prática comum entre os caricaturistas da época.

A menção à igreja, corresponde à marca da cachaça111 e ao proprietário da

marca, além da própria caracterização do chapéu do micróbio com “asas negras”.

A associação da igreja com a cachaça e o micróbio, remete, segundo a visão do

autor, à crendice e ao atraso em que se encontra a população. Na legenda da caricatura

esse comportamento é ressaltado, ainda, com a denúncia do charlatanismo, marcado

pela venda e proliferação de panacéias. Além disso, todas essas mazelas poderiam vir à

tona justamente no momento da visita dos representantes do Império.

A ilustração publicada em dois de novembro de 1884 é uma espécie de

continuação da caricatura anterior (ver fig. 72). Na imagem, o Cholera Morbus entra na

cidade, no dia dos Finados, em uma biga romana com dois cavalos vigorosos, tendo

como condutor a morte vestindo fraque e cartola. 110 Muito popular nas cidades brasileiras do final do século XIX, o quiosque corresponde a uma pequena construção de estilo oriental que servia de abrigo ou de ornamentação nas praças e jardins. 111 A marca Santo Antonio refere-se, também, à importância do município de mesmo nome no fornecimento da bebida à cidade de Porto Alegre.

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Assistindo a entrada, vários homens vestindo trajes cerimoniais e alguns carregando

flâmulas. As inscrições nas flâmulas (da esquerda para direita: Cannalopatia,

Charlapathia, Hydropathia, Dosimetria, Alopathia e Homeopathia) referem-se, de forma

irônica, aos tratamentos utilizados no combate à doença.

A caricatura, em parte, reporta-se ao poder terapêutico que a crença popular

atribuía à cachaça.

No entanto, a bebida era tratada, também, como um fator desagregador dos

vínculos familiares.

Um exemplo disso é a ilustração de Samaranch, publicada em 27 de janeiro de

1884, que reproduz um ambiente de uma taberna, botequim ou bordel, onde o marido é

flagrado pela sua esposa (ver figura 73). No cenário estão três homens e três mulheres,

tendo ao centro uma mesa com uma garrafa e dois copos.

Para os homens do século XIX, o domínio público era o espaço onde

exercitavam sua liberdade, que seria coibida no âmbito familiar. Já com as mulheres

ocorria o inverso (Freyre, 1985). As práticas tidas como obscenas e retrógradas eram focalizadas também pelo

semanário A Lente. O periódico afirmava, em seu primeiro edital, que tinha a intenção

de empreender “a espinhosa missão de criticar os vícios da sociedade contemporânea”

(1883: 1).

De propriedade de Araújo Guerra, surgiu em julho de 1883 em virtude das

desavenças entre Miguel de Werna e Araújo, quando ainda era caricaturista de O

Século. Araújo não encontrou dificuldades para fundar o seu jornal. Alguns setores da

sociedade, em razão das polêmicas criadas por Miguel de Werna, desejavam a criação

de uma gazeta humorista que fizesse frente ao O Século. (Damasceno, 1944).

Descendente de portugueses, Araújo Guerra era republicano confesso e

militante. Foi perseguido pelo governo da Província, em razão do recrudescimento da

campanha republicana na década de 80 (idem).

Em 1878, foi diretor e ilustrador do jornal Cabrion em Pelotas. A convite de

Miguel de Werna, em 1881, passou a ser o cartunista de O Século em Porto Alegre

(ibidem).

O jornal A Lente era composto de oito páginas, quatro delas ilustradas, e tinha o

formato de 22 cm X 31cm. Amplamente influenciado pelo ideário republicano, o jornal

mesclava textos literários com caricaturas e retratos de personalidades da época.

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O seu cabeçalho retrata o espírito da época (ver fig. 74). A estampa traz a

autocaricatura de Araújo Guerra segurando em uma das mãos o lápis do desenhista e na

outra uma lente de aumento de grandes proporções. Ao fundo e próximo do letreiro

algumas palmatórias. Por intermédio da nitidez e transparência da lente, os

acontecimentos seriam ressaltados pela observação atenta do ilustrador. Seu olhar

minucioso percorre a turba a procura de tipos e fatos.

Araújo Guerra tinha como um dos seus personagens principais o Urso, o grande

responsável pelas transgressões que ocorriam nas caricaturas do seu jornal. Na realidade

era uma das várias provocações que ocorreram entre Araújo Guerra e Miguel de Werna,

pois as feições do Urso são as do seu antagonista. Na época, Miguel era conhecido pelo

cognome de “Urso Fidalgo” (Lazzari, 2001; Damasceno, 1944).

A caricatura publicada em vinte e cinco de agosto de 1883 faz parte dessa troca

de insultos e ofensas (ver fig. 75).

Na seqüência de algumas caricaturas, que foram editadas nesta publicação, está

o Urso com as feições de Miguel de Werna, acorrentado e agarrado a uma garrafa de

grandes proporções. Araújo repreende o Urso por estar embriagado, ou seja, na

“cazaça”. De estatura maior que o urso, Araújo está bem trajado e traz numa das mãos

uma bengala e, na outra, um livro.

No imaginário da época, designar alguém como urso representava que esta

pessoa era alvo de escárnio e desprezo. Dentro do simbolismo cristão, o urso112

representa os baixos instintos, o vício em geral (Becker, 1999).

Na imagem, o ato indisciplinado de beber é tido como incompatível com o modo

de vida de um indivíduo que pertence a uma elite intelectual. Com isso se estabelece um

vínculo entre a cachaça e um comportamento deplorável, por parte da sociedade, no

caso a embriagez.

Além das controvérsias entre Araújo e Miguel e outros assuntos, as caricaturas

de A Lente trabalham, também, com o enfoque político aliado às bebidas alcoólicas.

112 Calazans (1951: 89) em seu estudo sobre o folclore da cachaça relaciona a expressão popular “bafo de urso” com o estado de embriagez. No mesmo trabalho, o pesquisador identifica entre as várias marcas de cachaça, a marca Urso Branco (idem).

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Na ilustração editada em 19 de agosto de 1883, a Assembléia Provincial aparece

representada na figura clássica feminina encostada num balcão de taberna e, no fundo,

uma prateleira com várias garrafas com rótulos (ver fig. 76). Numa das mãos traz um

copo de grandes proporções, que emborca uma quantidade de bebida no chão113.

A caricatura buscava enxovalhar a imagem da assembléia através da sua

associação com práticas populares relacionadas ao consumo de bebida e com o ato de

freqüentar uma taberna.

Os veículos de comunicação, entre eles os jornais com caricaturas, foram

elementos importantes nas ações de repulsa sobre os comportamentos tidos como

desviantes e na vigilância do cumprimento da ordem vigente. Os setores das gazetas

eram compostos, na sua maioria, por mão-de-obra imigrante e membros de uma elite

intelectual ou política.

Baseados em concepções onde o trabalho era sinônimo de honorabilidade e

causa de progresso e fortuna, os imigrantes que atuavam nas gazetas buscavam reforçar

a imagem do trabalhador estrangeiro, íntegro e dedicado, em contraponto com o

desleixo e atraso da população mais pobre.

Para os indivíduos que almejavam uma carreira artística e/ou literária, a

produção intelectual a partir de jornais era um fator que promovia um significativo

crescimento profissional (Salgueiro, 2003). Esse ofício poderia, por um lado, promover

o seu enriquecimento e o reconhecimento por parte da alta sociedade e, por outro, seria

uma maneira de se tornar um porta-voz de um projeto civilizatório para a nação e um

crítico de práticas tidas como retrógradas (idem).

Impregnados de noções advindas do senso comum e de teorias científicas em

voga, os periódicos procuravam elaborar uma explicação racional do que ocorria no

cotidiano da cidade. Os jornais buscavam explicar e divulgar uma noção de progresso

seja material ou moral, por meio de uma oposição recíproca entre a civilização e a

barbárie em que se encontrava parte da população, formada na sua maioria por escravos,

mestiços e imigrantes pobres.

113 O ritual, de herança portuguesa (Andrade, 1988), de deitar um pouco de bebida no balcão ou no chão do botequim ou taberna - o “dar para o santo” - ainda permanece entre as práticas das camadas populares.

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Seguindo este princípio, a supremacia da razão, por sua vez não poderia ser

deturpada por condutas influenciadas pelo consumo indisciplinado de álcool.

Quando o comportamento não estava de acordo com a norma estabelecida a

reação, por parte de intelectuais e grupos dominantes, era de desaprovação e escárnio.

A maneira de usar determinados artefatos relacionados ao consumo de bebida

alcoólica e os seus contextos de inserção estavam, evidentemente, entre os aspectos que

possibilitavam uma delimitação do que seria ou não uma conduta socialmente aceita.

Temas como a Guerra do Paraguai, a política em voga na Província, a urgência em

laicilizar a sociedade e melhorar as condições sanitárias de Porto Alegre, as

incompatibilidades entre o domínio público e o âmbito familiar e a inobservância de

determinadas normas de conduta entre os desvalidos foram caricaturados através de

cenários onde os artefatos relacionados ao consumo de álcool tinham um papel

essencial. Determinados atos de beber nas caricaturas refletem intenções que buscam

avigorar vínculos de solidariedade e sentimentos de pertencimento, a supressão de

resistências e temores, a degeneração e corrupção de virtudes e o descrédito de

determinado estrato da sociedade.

Entre os atos de beber tidos como inconvenientes por estes jornais estavam as

exercidos por grupos das camadas populares, principalmente em locais públicos

voltados para o lazer, tais como as tabernas.

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3.2 A taberna: paraíso do ócio e antro da vadiagem

Locais de reunião, de distribuição e consumo de bebidas, predominantes por

quase todo o século XIX em Porto Alegre, as tabernas assumem um papel importante no

estudo das práticas sociais vinculadas às bebidas alcoólicas. Possuem um potencial

capaz de auxiliar na formação de uma percepção apurada do modo como alguns temas

do cotidiano na Porto Alegre oitocentista eram tratados.

No século XIX em Porto Alegre, assim como em outras localidades do Brasil,

ia-se à taberna, principalmente, para beber. Esta é a diferença fundamental entre este

tipo de estabelecimento e as casas de pasto e os botequins. A aplicação destes termos

não era resultado de uma rigorosa delimitação. Com certeza existia uma confusão entre

a função de cada um. No entanto, é possível afirmar que os botequins e as casas de

pasto, além do fornecimento da bebida, eram reconhecidos por servirem pequenas

refeições, almoços e jantares. Uma casa de pasto era obrigada ter uma cozinha, mas a

taberna não. Isto não quer dizer, também, que a taberna não pudesse oferecer alguma

refeição ou aperitivo, além da venda de outros artigos, o que em muitas vezes ocorria.

Em várias ocasiões a taberna era reconhecida como uma casa de pasto inferior ou

ordinária.

Na Porto Alegre oitocentista a taberna conhece o seu período de supremacia

como local para beber, basicamente, na primeira metade do século. Posteriormente com

o processo de diferenciação econômico-social dos locais de lazer e a divisão desses

lugares em áreas urbanas mais delimitadas, passa a sofrer um paulatino declínio com a

concorrência agressiva de outros lugares de entretenimento e com a sua retirada do

centro da cidade.

Bebericar nas tabernas, locais tradicionalmente freqüentados pela população

masculina114, nunca foi um comportamento marcado pelo isolamento. Além das festas

religiosas da cidade era um dos poucos divertimentos da população mais pobre.

As bebidas, segundo Braudel (1995:182), além de outras funções, representaram

desde sempre “o papel de excitantes, de evasões, o esquecimento de desgostos, o

expulsa-dores”. O ato de comer ou de beber não estão circunscritos somente às

necessidades básicas ou aos faustos sociais, dizem respeito também aos “jogos relativos

à comunidade, relações entre o homem e a sociedade, entre o homem e o mundo

114 Damasceno (1940), em seu ensaio, afirma que os porto-alegrenses não tinham o hábito de levar a família à antiga taberna.

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material, (...)” (idem: 150). Estas práticas estão intimamente conectadas a todo um

conjunto de parâmetros sociais, seja pela promoção e celebração ou pela contestação e

rejeição de tais modelos.

Os artefatos vinculados às bebidas alcoólicas, ao participarem ativamente na

estruturação destas relações podem expressar as concepções do grupo social a qual

pertencem. Por serem mediadores de uma variedade de códigos podem ser não apenas

um fator importante de unidade e integração do grupo, mas, também, de afastamento e

exclusão.

Nas tabernas havia a possibilidade do convívio de pessoas de diferentes grupos e

a difusão de companheirismo, o que era quase inviável em outros espaços de

convivência diária e, que até certo ponto, contrariava os grupos ligados à administração

e ao poder econômico (Scarano, 2001).

O fato de se criar condições para uma possível estruturação de laços de

solidariedade entre os menos favorecidos nestes locais fazia, com que as autoridades

buscassem controlar essas relações, principalmente no que diz respeito aos escravos115.

Por outro lado, na Europa, a partir da metade do século XVIII, o álcool crescia

rapidamente em importância como item comercial na economia agrícola. Na Grã

Bretanha com o cercamento dos campos, criou-se um excedente de cereais do qual boa

parte foi convertida em bebidas alcoólicas. A fabricação de cerveja e a destilação do

gim de parte do excedente de cereais foram reconhecidas como uma forma eficaz de

obtenção de lucro e acúmulo de capital. Os produtos de destilarias e cervejarias

abasteciam um próspero mercado interno, fruto de uma crescente população urbana, e

eram, também, exportados para outros continentes (Shanks and Tilley, 1987).

Resultado de um rígido processo de industrialização da Europa, o alcoolismo

nos grandes aglomerados urbanos evidenciava a angústia de grande parte da população

em vista das suas péssimas condições de vida (Onfray, 1999b).

Na América Portuguesa o álcool de cana-de-açúcar, que a partir do século XVI

seria somente um subproduto da grande riqueza de exportação, passava paulatinamente

a ganhar importância com o declínio da exportação do açúcar (Scarano, 2001). A

insistente e muitas vezes secreta fabricação local atendia a uma crescente demanda.

115 Código de Posturas Municipais em 1837 nos seus capítulos: “XX: nenhuma pessoa poderá ter escravo por caixeiro de tabernas, botequins, bodegas, e outras semelhantes casas, senão estando presente nas mesmas seus respectivos donos; (...)”, e “XXII: os proprietários das tavernas, botequins, bodegas, e outras semelhantes casas, não consentirão ahi sem justo motivo escravos parados, nem jamais o consentirão jogando, ou bailando” (AHMV).

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A comercialização da aguardente local, no caso a cachaça, atendia

principalmente o consumo dos trabalhadores de eito a jornal, dos mestiços e escravos. A

expansão deste comércio tornava evidente a divergência entre Portugal e as autoridades

locais. Em paralelo à complexa e imperiosa fábrica de aguardente metropolitana, e

contrariando os interesses de Portugal, a pequena plantação e produção, junto à

diminuta comercialização, fornecia boas fontes de renda para os seus produtores e

comerciantes (Câmara Cascudo, 1968).

Após o período colonial o governo passava a receber uma significativa carga de

impostos sobre as bebidas alcoólicas e os locais de comercialização116.

Evidentemente, estando na ponta da rede de distribuição, a taberna era um foco

de atenção por parte das autoridades locais. A abertura de uma taberna, o horário de

funcionamento, a atividade comercial nos domingos, nos feriados e festas religiosas

eram vigiados atentamente pelo governo local, o que não evitava as transgressões por

parte de taberneiros e freqüentadores117. A bebida era, sem dúvida, uma grande

estimuladora do comércio clandestino.

Além disso, as tabernas tinham um grande potencial de se tornarem locais

próprios para a crítica e contestação popular. Segundo Barreiro (2002) graças a uma

infra-estrutura, baseada em vendas e tabernas, se fomentava a recepção e

comercialização de bens furtados ao longo do século XIX no Brasil. Entre os grupos

desfavorecidos a prática do furto consubstanciava-se, ao mesmo tempo, em uma

rejeição ao trabalho disciplinado e a noção capitalista de propriedade privada (idem).

Havia, portanto, uma contradição entre o fomento de um mercado em expansão,

que fornecia uma substancial fonte de rendimentos, tanto para os produtores, os

comerciantes e os importadores, quanto para o governo local com a arrecadação de

impostos; e a necessidade de controlar e barrar possíveis relações de solidariedade entre

grupos desfavorecidos, além do contrabando de bebidas, os furtos e as bebedeiras

intensificadas pelo consumo de bebidas alcoólicas.

116 Atas da Câmara, livro 10, dia 18/07/1829: “arrecadação dos impostos das tabernas e botequins”; dia 02/10/1832: “elegem uma comissão para arbitrar o preço das aguardentes fabricadas no país a pedido da Junta da Fazenda Nacional”; livro 12, dia 17/06/1835: “estabelecem o preço do imposto da aguardente” (AHMV). 117 Atas da Câmara, livro 10, dia 18/07/1829: “licença para abrir uma taberna”; livro 15, dia 09/10/1859: “ofício do chefe da policia comunicando que o taberneiro abriu sua taberna após o toque de recolher”. Código de Posturas Municipais, em 1830, capitulo XXXIV: “as lojas armazéns, botequins, casas de pasto, tabernas, bilhares, e outras semelhantes casas, se fecharão todas as noites ao toque do sino da Câmara (...)”. (AHMV).

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No entanto, a bebida para a população mais pobre e desvalida, além de ser uma

forma de se afastar ou esquecer da sua difícil condição, representava também um

complemento alimentar. O prazer e a necessidade se confundiam no ato de beber

(Andrade, 1988). Tal prática continha em si uma ambigüidade. Simultaneamente

parecia ser um comportamento marcado pelo distanciamento da realidade social e, por

outro lado, pela consolidação de identidade e asserção de grupo social.

Até a metade do século XVIII, o consumo de aguardente da Terra (cachaça) e a

do Reino (vinda de Portugal) tinham um bom alcance entre as camadas populares. A

metrópole apregoava, em 1734, o consumo exclusivo da aguardente do Reino. Contudo,

era a cachaça que tinha uma maior penetração entre os desfavorecidos (Scarano, 2001).

A partir de 1808, todos os visitantes estrangeiros ao percorrer o Brasil

reconhecem a cachaça como a bebida predileta da população mais pobre. Vista como

fonte de energia ou como um recurso de prevenção contra doenças pulmonares, a

cachaça era fornecida aos escravos em dias chuvosos ou mesmo como recompensa a

uma proeza notável (Câmara Cascudo, 1983).

A vinda da corte portuguesa ao Brasil, em 1808, propiciou a vulgarização de

alimentos de origem européia na mesa dos grupos privilegiados, através da abertura dos

portos brasileiros à entrada de produtos estrangeiros (Ornellas, 2000). Entre eles estava

os vinhos e licores de várias regiões da Europa, a cerveja inglesa, alemã, holandesa,

dinamarquesa e norueguesa, e a genebra vinda da Inglaterra e dos Estados Unidos. Junto

com a aguardente, o vinho se constitui entre as bebidas mais importadas. Trazido na sua

maioria da metrópole, era considerado produto nobre pelos portugueses e grupos

dominantes. A cachaça era vista pelas classes dirigentes como um simples e pobre

substituto (Scarano, 2001). Em virtude da sua produção e comercialização em grande

parte clandestina e pelo aspecto depreciativo do seu consumo, não havia um contentor

que encarnasse o consumo da bebida.

Já neste período, afora a cachaça, cada bebida possuía um recipiente específico.

O vinho com as suas robustas garrafas verdes escuras de vidro, a genebra com as suas

botijas de grês cilíndricas com alça e garrafas retangulares de vidro, a cerveja com as

suas garrafas de grês e os licores com as suas licoreiras. Não esquecendo, é claro, que

havia a reutilização destes recipientes para conter outros líquidos, entre eles a própria

cachaça.

Percebido muitas vezes como um elixir facilitador da digestão e que

proporcionava saúde e longevidade, o vinho era, sem dúvida, a bebida mais divulgada

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em Portugal e suas colônias. Ao contrário da cerveja que por muito tempo, foi

considerada mais apropriada aos costumes bárbaros (Câmara Cascudo, 1983). Somente

com a chegada de grandes levas de imigrantes alemães, é que o consumo de cerveja

começava adquirir uma posição de destaque entre as bebidas consumidas no Brasil118.

Saint-Hilaire (1974), em 1822, referindo-se aos objetos importados pelo porto de

Rio Grande em 1816 nos dá algumas pistas sobre a preferência de bebidas alcoólicas na

região. São pipas, barris e garrafas de vinho, pipas e barris de aguardente do Reino e de

cana-de-açúcar, barricas de cerveja, pipas de genebra e licores em garrafas (idem).

Sobre as tabernas, Saint-Hilaire, ao chegar na colônia de Sacramento, nos

fornece uma importante descrição:

Em toda a região, as tabernas são totalmente parecidas com as do Brasil. Garrafas de cachaça, comestíveis, ponches, fazendas. Um grande balcão estendido de um outro muro paralelo à porta forma uma barreira entre o comerciante e as mercadorias de um lado, e os compradores e bebedores do outro. Estes ficam de pé e muitas vezes se deitam sobre o balcão, falando com tristeza, brincando ou cantando suas lânguidas cantigas, enquanto o cavalo os aguarda pacientemente à porta. (ibidem: 182).

É possível constatar que era extremamente informal o conjunto de relações

sociais que se formava no interior de uma taberna. A freqüência de determinados grupos

sociais era, sem dúvida, o que estabelecia a diferenciação entre os diversos

estabelecimentos (Silva, 1978).

No entanto, a maioria dos freqüentadores seria os pertencentes a grupos de baixo

poder aquisitivo. Esta camada da população era composta, basicamente, por artesãos,

mascates, taberneiros, caixeiros, carregadores, marinheiros e prostitutas. Não deveria ser

significativa a parcela de ganho obtida no atendimento a essa clientela, o que explica

também a recepção e comercialização de objetos furtados (Barreiros, 2002). Em

algumas tabernas era bem provável que fosse a única forma de sobreviver, tornando a

manutenção e o funcionamento da taberna dependente da assiduidade de tais

freqüentadores.

118 Segundo Damasceno (1974: 175) o consumo de cerveja em Porto Alegre se difunde somente com “o crescimento da comunidade germânica e a “gradativa” generalização do gosto dos brasileiros pela bebida.” “O português nato – o peninsular como o ilhéu – era do vinho. (...). Seus descendentes – brancos, mamelucos e mulatos – inclinar-se-iam mais para a canguara”, no caso a cachaça (idem). Grifo do autor.

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Por intermédio da conduta do proprietário que eram fortalecidas as distinções e

prerrogativas entre os grupos que freqüentavam o estabelecimento. O dono da taberna

estabelecia quem poderia beber fiado ou não, se deveria ou não haver jogos de azar e a

recepção de objetos furtados ou a entrada de instrumentos musicais no interior do

estabelecimento. Existia, portanto, de um lado um latente antagonismo119 entre os

fregueses e o proprietário da taberna, e por outro, uma relação de dependência entre

ambos.

A taberna era palco, também, das mais diversas desavenças120. Na sua maioria

eram contendas que surgiam de tensões onde o desfecho de forma pacífica, era

descartado. Os copos e as garrafas, que normalmente participavam dos cerimoniais onde

a solidariedade era marcante, evidentemente, em várias destas ocasiões transformavam-

se em armas em meio ao conflito. Esta forma de utilizar copos ou garrafas como arma,

tão corriqueira nos processos criminais de Porto Alegre no século XIX, parece não ser a

única. Damasceno (1940) cita, em seu ensaio, exemplos de reciclagem destes artefatos,

como cacos de vidro que eram afiados e utilizados para roubar as pessoas fantasiadas

para o carnaval.

A noção de honradez estava, sobretudo, relacionada ao uso da força bruta,

admitida pelos freqüentadores como uma conduta regular, que agia como prova de

valentia e audácia (Barreiro, 2002).

É interessante notar que o ato de beber encerra em si uma forma simbólica de

demonstrar virilidade, uma prova de amadurecimento. Parece que alguns destes

atributos permanecem. Na atualidade existem vários exemplos de formas peculiares de

consumir bebidas alcoólicas e de utilizar os seus objetos que representam masculinidade

e vigor. Os desafios do consumo de maior quantidade em um tempo menor entre os

bebedores, o gesto rápido de emborcar um copo, a contração do rosto ao ingerir uma

119 Este antagonismo estava materializado no balcão da taberna, conforme verificado pelo próprio Saint-Hilaire (1974:182). 120 Achylles (1922: 44 e 179), no seu livro de crônicas, descreve algumas desavenças em tabernas na Porto Alegre oitocentista. O que se verifica também nos processos crimes, a seguir alguns exemplos:

- Na taberna de Victorino José Chaves, na rua da Igreja com Rosário, José Thomas de Almeida atirou copo em José Pereira da Mota causando lesões corporais, Cartório Júri-Sumários, maço 16, processo 418, data 15/03/1834, estante 33.

- O embarcadiço pardo Antonio José Lopes causou vários ferimentos no pardo Francisco Corte com uma garrafa, Cartório Júri-Sumários, maço 38, processo 1114, data 24/03/1866, estante 33.

- O jornaleiro Antonio Machado da Silva atirou uma garrafa de vidro no verdureiro Casimiro Pereira da Conceição causando-lhe lesões corporais, Cartório Júri-Sumários, maço 67, processo 1663, data 10/03/1888, estante 33.

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grande quantidade de bebida e o posterior e vigoroso golpe do copo de encontro ao

balcão são códigos de conduta que vão de encontro à constituição deste ambiente.

Por intermédio de todo um sentido de gestos, sinais (até mesmo os objetos

utilizados) e regras de comportamento, que os indivíduos das camadas populares

constituíam a sua identidade social. Naturalmente, era na taberna que predominava a

incidência destes comportamentos.

Os fundos de uma taberna era uma área que estava sujeita a conflitos. No entanto

constituía-se, também, num espaço propenso a outras sociabilidades. Um lugar onde as

pessoas poderiam se reunir para comer, beber, jogar e conversar121.

Além disso, a taberna era um local onde habitualmente havia uma troca de

informações entre os seus freqüentadores122. Seria o lugar em que se poderia,

eventualmente, arrumar um biscate. Não havia uma rígida dicotomia entre o lazer e o

trabalho. O freguês poderia muito bem emborcar uma pequena quantidade de bebida no

balcão ou no chão e “matar o bicho”123, enquanto esperava aparecer algum trabalho. Em

certas regiões do Brasil ainda persiste o hábito, de caráter fortificante, de se tomar um

“martelinho”124 no começo da manhã.

O álcool, no século XIX, era extensamente utilizado para propósitos terapêuticos

e de entretenimento. As concepções populares influenciadas pelo humorismo

hipocrático125 sustentavam que a ingestão de bebida alcoólica revigorava o organismo e

estimulava a produção de suor (Câmara Cascudo, 1983; Reckner and Brighton, 1999).

Nas tabernas era bem provável que existisse uma espécie de reciprocidade entre

os grupos que freqüentavam tais lugares, ou seja, haveria uma troca recíproca de

indicações para trabalhos.

Todo esse conjunto de interações que ocorria nas tabernas redimensionava as

relações dos seus freqüentadores com o mundo circundante, dando um sentido a uma

121 Segundo Damasceno (1940:103), os homens se reuniam nos fundos da taverna, preparavam e comiam mocotós, feitos em lata de querosene, e bacalhoadas à portuguesa. 122 Achylles (1922:179) descreve um momento onde a taberna serve como um centro aglutinador de informações aos grupos desfavorecidos, indicando o trajeto do peditório. 123 Segundo Calasans (1951:99), a expressão “matar o bicho” corresponderia a “ingerir pela primeira vez no dia qualquer bebida alcoólica”. “(...) a loc. vem da Espanha e tem origem no fato de somente pela ação da aguardente ter sido possível matar um verme, que estava provocando misteriosa moléstia”.Por sua vez, Achyilles (1922:149 e 155) descreve o hábito freqüente de parte da população no século XIX de entrar na taverna no começo da manhã e tomar um “martello” de aguardente. O autor faz menção, também, do uso do termo “matar o bicho” em Porto Alegre. 124 Foram encontrados fragmentos de base e corpo deste tipo de copo de pequenas proporções específico para consumo de bebida de alto teor alcoólico nos sítios arqueológicos oitocentistas de Porto Alegre Casa da Riachuelo (RS.JA.17) e Paço Municipal (RS.JA.20). 125 Sobre humorismo hipocrático ver Lima (1995b).

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realidade social que, muitas vezes, era incompreensível ou desconhecida (Chalhoub,

1986).

São justamente estas relações fundamentadas num modo de vida tradicional que

se transformaram, em várias ocasiões, num verdadeiro empecilho à tentativa de impor

uma rotina de trabalho adequada aos preceitos elitistas de acumulação de capital. Os

furtos e os comportamentos assistemáticos vinculados ao trabalho e ao lazer presentes

em algumas tabernas, evidenciavam a resistência das camadas populares na apropriação

das concepções relacionadas ao trabalho capitalista e à propriedade privada (Barreiro,

2002).

Segundo Pesavento (1994), ao longo do século XIX, a cidade de Porto Alegre

atinge um expressivo desenvolvimento comercial no momento em que seu porto se

transforma num escoadouro dos produtos oriundos da região da colônia alemã. Com a

Revolução Farroupilha (1835-1845), as fortificações da cidade foram novamente

construídas, tendo, no entanto, um outro traçado que envolvia novas áreas. Em razão do

cerco da cidade, os rejeitos de lixo e esgoto e o abate de reses passam a ser efetuados no

interior das fortificações. A partir da metade do século XIX, começavam a surgir os

primeiros problemas com relação à concentração da população na área central da cidade

(idem). Um ajuntamento de moradias de diversos tipos, inseridas num sistema viário

marcado pelo cruzamento de becos e ruas, deixava evidentes os problemas ligados ao

crescimento urbano. Nas áreas suburbanas começavam a surgir pequenos

estabelecimentos industriais, moinhos, matadouros e olarias. Para os setores mais

privilegiados da sociedade, essa espécie de amálgama desordenada e confusa na área

central da cidade tinha como conseqüência indesejável a convivência muito próxima

entre pobres e ricos (ibidem).

O Código de Posturas Municipais, editado em 1873, além da permanente cautela

para com os escravos, revela também as novas preocupações por parte das autoridades

locais. As pessoas alcoolizadas, o “voserio e obscenidades” e a “vadiagem”, eram estes

os novos comportamentos que, agora, exigiam uma maior atenção por parte do

policiamento126. Em 1893, o Código tentará impor uma nova regulamentação com

relação às construções, com objetivo que tornar a cidade mais bela e ordenada.

126 Código de Posturas Municipais, em 1873: Capitulo 4: voserias, injurias e obscenidades, artigo 41: “Todo aquele que der gritos, fiser alaridos e voserias, cantando assoviando, ou tangendo descompassadamente pelas ruas será multado em 10$000 ou 2 dias de cadeia”. Artigo 43: “O que proferir em lugar publico expressões injuriosas, infamantes e indecentes, será multado em 10$000 ou 6 ou 8 dias de cadeia”. Capitulo 8: Guarda de dias santificados. Artigo 77: “Os donos das casas que fazem excepção

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O crescimento e desenvolvimento da cidade, âmbito social onde de modo mais

intenso se constitui a estruturação do capitalismo, exigia o empreendimento de

alterações que resultassem num processo de delimitação de espaços exclusivos para a

população mais pobre. Por outro lado este mesmo processo requeria a integração de

parte desta população como mão de obra num programa de reorganização das atividades

produtivas (Pesavento, 1994). A tentativa de uma normatização dos espaços na cidade

seria um dos seus princípios fundamentais (idem).

Conforme Sevcenko (1985), a partir das últimas décadas do século XIX, o

processo de transformação e estruturação social nas principais cidades brasileiras, tendo

como espelho a cidade do Rio de Janeiro, resumia-se nas seguintes práticas:

(...) a condenação dos hábitos e costumes ligados pela memória à sociedade tradicional; a negação de todo e qualquer elemento de cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante; uma política rigorosa de expulsão dos grupos populares da área central da cidade, que será praticamente isolada para o desfrute exclusivo das camadas aburguesadas; e um cosmopolitismo agressivo, profundamente identificado com a vida parisiense. (idem:85).

A tentativa de extinguir determinadas sociabilidades pertencentes às camadas

populares passava, necessariamente, por uma campanha contra os becos, onde se

localizava a maioria das tabernas, dos botequins, das casas de jogo e os bordéis da

cidade. Era estabelecida uma relação entre as vielas e os becos com os seus

freqüentadores, no caso as pessoas que estavam à margem do mercado formal de

trabalho, e com as práticas sociais que ali se manifestavam (Pesavento, 1994).

do art. 75”, ou seja, que podem trabalhar nos domingos e dias santos, “não poderão vender bebidas espirituosas aos escravos, nem consentir indivíduos embriagados em suas casas”. Artigo 78: “Todo o individuo que for encontrado aos domingos e dias santificados em estado de embriagues, quer se ache em casas publicas, quer vagando pelas ruas ou praças, será recolhido à cadeia por 24 horas, findas estas, será solto pagando 10$000 de multa, e por sua circunstância não poder pagar a multa, será conservado por mais 6 dias, se for escravo será entregue ao senhor no fim de 24 horas, excepto de multa”. Capitulo 9: Policia das praças dos mercados, casas de negocio e atravessadores. Artigo 84: “O taverneiro que consentir escravos parados em suas tavernas ou da porta para dentro pagara de 12$000 de multa”. Artigo 90: “As tavernas, botequins, e casas de jogo se feixarão ao toque de recolher, e abrirão nunca antes do de alvorada”. Artigo 93: “Nas casas publicas de negócios não serão permithidos escravos à vender, nem administrar (...)”. Artigo 94: “Fica prohibido todo o ajuntamento de pessoas com tocadas dansas e voserias em tavernas, casa de bebidas ou bilhares”. Capitulo 10: Dos vadios e tiradores de esmolas. Artigo 103: “Toda a pessoa, que for encontrada vadia, sem emprego ou ocupação honesta que garanta sua subsistência, será presa por 8 dias e entregue à disposição do chefe da policia para lhe dar destino” (AHMV).

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As tabernas mais conhecidas neste período eram a taberna do Beco do Fanha127

(atual Caldas Junior, antiga Travessa Paissandu), a Rei de Ouros, a Janacú no Beco do

Oitavo e a Pau-bate, no beco do Poço (trechos Gen. Paranhos, atual Borges de

Medeiros). Havia também o Beco da Garapa128 onde se vendia a bebida vinda de

canaviais de propriedade de João Inácio Teixeira, localizada no Caminho Novo, o que

demonstra a promoção de algumas atividades agrárias em torno da cidade para atender a

demanda resultante do consumo de bebidas129.

É sintomática a atribuição de nomes vinculados às bebidas alcoólicas aos becos

da cidade130.

Tais fatos são possíveis de se constatar no século XIX em São Paulo com o Beco

da Cachaça (atual Rua da Quitanda), em São João Del-Rei com a Rua da Cachaça, e

sem falar no Beco do Gim em Londres, o que denota a importância do ato de beber e

das suas implicações na vida dos que freqüentavam estes lugares.

Determinadas práticas em locais públicos, principalmente nos becos e nas

tabernas, eram consideradas “vexatórias”. Uma ordenação por parte da população

urbana em termos de aparência e disposição espacial possibilitou que os habitantes da

cidade pudessem ter uma noção aproximada sobre uns aos outros simplesmente ao

observar aspectos visuais.

Sennett (1989) afirma que no século XIX os grupos mais abastados, através do

convívio familiar e da intimidade do lar, buscaram manter um certo afastamento do

espaço público. A família se transformou em um reduto contra os perigos existentes em

uma confusa e perigosa realidade social (idem). A rua, domínio público que se

apresentava em oposição a casa, seria o local onde os indivíduos se viam impelidos a

conviver com pessoas desconhecidas e de grupos sociais diferentes (ibidem).

Essa separação entre o público e privado fez com que surgissem códigos de

conduta apropriados para o relacionamento com estranhos. Alguns locais seguiam

determinadas diferenciações sociais que foram geradas no processo de formação da

ordem burguesa e ascensão das classes médias em Porto Alegre.

127 O nome do beco se originou do fato do proprietário da taverna ser fanhoso (Damasceno: 1940). 128 A garapa corresponde ao caldo da cana, quando destinado à destilação, ou qualquer líquido que se põe a fermentar para depois ser destilado (Ferreira:1986). 129 Achylles (1922:101) menciona, numa das suas crônicas, o pequeno comércio de garapa feito por um funcionário público que tinha uma chácara no Areal da Baronesa (atual bairro Cidade Baixa). 130 Entre os processos criminais de Porto Alegre no século XIX existem menções ao Beco da Cerveja e a Rua da Cachaça. Júri-Sumário, maço 67, processo 1660 de 09/03/1888 e maço 72, processo 1767, de 08/06/1892 (APERGS).

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Os hotéis, teatros, clubes, cafés e confeitarias são exemplos dos espaços onde

ocorriam estas sociabilidades. Desempenhavam a função de estabelecer um domínio

público propício a freqüentação de pessoas de “boa índole”. Com eles surgiram novas

formas de celebrizar, de diferenciação social e de apropriação e uso do espaço

(Schávelzon, 2000).

As festas religiosas começavam a perder o seu vigor diante dos carnavais de rua

e das diversões em recintos fechados, como o teatro e os bailes (Tinhorão, 2000). Na

década de 1870 o carnaval em Porto Alegre dividia-se entre o promovido pelas elites

brancas, baseado em modelos da Corte e da Europa, e a folia de grupos de desvalidos

(Lazzari, 2001). Os bailes em salões eram destinados aos associados e suas famílias,

com algumas prerrogativas às pessoas especialmente convidadas (idem).

Os cafés foram se elitizando com decorações luxuosas e caras. Tornaram-se

redutos das relações sociais masculinas. Considerado o “escol” de Porto Alegre, o Café

Colombo era o local onde conversavam e bebiam, artistas, intelectuais e jornalistas. As

mulheres, sempre acompanhadas, e famílias inteiras freqüentavam confeitarias como a

Boemia, a Central e a Nova (Damasceno: 1940). São locais onde, segundo determinada

ótica, predominava o requinte.

Foto 04: Anúncio da Confeitaria Central. Annuário de 1887 página 311. Fotografia: Alberto Tavares Duarte de Oliveira.

O que se convencionou chamar de moderno, na época, era percebido pelas elites

como algo externo em vigor nas regiões desenvolvidas e que necessariamente deveria

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ser alcançado e valorizado. A partir do século XVIII, com a desintegração das

concepções religiosas do mundo, era iniciado processo de modernização da sociedade e

da cultura.

Segundo Barreiro (2002: 15), os outros fatores que permitiram a existência da

modernidade foram:

O desenvolvimento das sociedades modernas, ao lado da laicização da cultura, com o surgimento das ciências empíricas modernas e a autonomização das artes (...). As novas estruturas sociais são caracterizadas pela diferenciação de dois sistemas, cristalizados em torno de centros organizadores. Tais centros são a empresa capitalista e o aparelho burocrático do Estado, que do ponto de vista funcional se interpenetram. (idem).

No Brasil a abolição da escravatura e a instituição do regime republicano

possibilitaram uma incorporação significativa do país à economia capitalista mundial e

a modernidade. A estruturação deste quadro institucional trazia a reboque o

estabelecimento das bases para a constituição dos ideais de desenvolvimento econômico

e a divulgação dos preceitos burgueses.

A expansão do gênero de vida burguês em centros urbanos promovia a distinção

social para as pessoas que buscassem o requinte e atitudes tidas como condizentes com

o trabalho metódico e disciplinado e o meio intelectual. Essas idéias e práticas

ultrapassaram as fronteiras da Europa e difundiam-se para outros continentes e ao se

depararem com ambientes diferenciados do seu local de origem foram sendo adaptadas

ao novo contexto (Oliven, 2001).

A etiqueta francesa, marcante pelo serviço de cardápios e pela divulgação de

costumes ditos elegantes, exercia grande influência nas preferências alimentares das

elites, conferindo prestígio e status. Os Manuais de cozinheiro prescreviam quais os

melhores modos de se portar em uma mesa.

No Rio de Janeiro, em 1872, foi editado o “Novo Manual de Bom-Tom” de

autoria dos irmãos Laemmert, baseado no “Code Cível, Manuel Complet de la Politesse,

du Ton, dês Maniéres de Bonne Companie” (Lima, 1995a; Ornellas, 2000).

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Um novo fausto começava a predominar. Eram as normas e estilos franceses,

ingleses e alemães que passavam a ser seguidos, ao invés dos modelos ibéricos (Freyre,

1985).

Emergiam cenários convergentes, onde o champanhe e os finos vinhos, com as

suas delicadas taças de cristal, eram símbolos de requinte e status social. Havia todo um

cerimonial, que indicava quais as bebidas, os copos, as taças e os cálices deveriam ser

utilizados em determinada situação. Surgiam diferentes taças específicas para o

champanhe, conhaque, vinho e água. Sem falar nos cálices destinados ao vinho do Porto

ou aos licores circunscritos aos ambientes do romantismo feminino (Câmara Cascudo,

1968). Os licores passaram, com maior ênfase, a representar o encerramento de uma

refeição refinada, além de serem utilizados para ressaltar e acrescentar o paladar e

aroma às sobremesas e coquetéis131.

Em Porto Alegre, as casas de bebidas e os restaurantes se transformavam em

pólos irradiadores das novas etiquetas ligadas à mesa. Restaurantes como o Au Provot e

Sferra, eram especializados, respectivamente, nas comidas e vinhos franceses e

italianos. O Armazém Germânia tinha como especialidade a cerveja Germânia, além de

vinhos franceses e alemães. Na década de 90, o consumo de cerveja da cidade era

disputado pelas cervejarias Kaufmann, Becker e Christoffell (Achylles, 1922). No

interior das casas de bebidas, como a Sport-Club, as cachaças Água-da-vida, Negrita, e

Branquinha, eram acondicionadas e servidas em garrafas de cristal (Damasceno, 1940).

A cachaça, que anteriormente era vista como uma bebida sem nobreza e prestígio,

começava a conquistar novos admiradores e recipientes.

Do outro lado e contrastando com todos estes códigos de distinção estavam as

práticas sociais efetuadas nas tabernas. Existia, evidentemente, um grande abismo entre

as formas de compartilhar a bebida na taberna, onde um copo podia dar voltas e

voltas132, e as convenções sociais elitistas estabelecidas nos cafés, restaurantes e casas

de bebida.

Desde sempre as tabernas e as famílias formaram redes antagônicas de convívio

social (Andrade: 1988). No entanto, houve um maior acirramento entre os dois focos

131 Câmara Cascudo (1983: 818) afirma que “o Segundo Império foi o tempo dos licores” e também “Nunca o licor se popularizou nas camadas humildes. Os “nacionais”, de manipulação domestica, (...), não eram bebida de homem” (idem). 132 Segundo Hebe de Castro (1997:350), as taças e os objetos de vidro em geral tornaram-se elemento comum no cotidiano de boa parte da população brasileira somente a partir das últimas décadas do século XIX. Nas pesquisas de inventários post mortem de taberneiros da Porto Alegre oitocentista, verificou-se a escassa quantidade de copos relacionada ao conjunto de mercadorias dos estabelecimentos (APERGS).

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sociais com a tentativa, de parte da sociedade, de impor regras de ética e moral

adequadas ao trabalho assalariado, e com a resistência das camadas subalternas na

assimilação de tais normas. O ato indisciplinado de beber era incompatível com um

novo modelo de trabalhador engajado e passivo (Shanks and Tilley, 1987).

A diferenciação estabelecida por Michel de Certeau (1994:46-47) entre

estratégias e táticas pode ser um valioso expediente para se tentar compreender esta

tensão. As estratégias, segundo o autor, criam regras, padrões e objetos, pressupõem o

estabelecimento de instituições e lugares, têm por princípio a acumulação e tiram

proveito disto. As táticas, ao contrário, carentes de ações influentes sobre o tempo e de

lugar próprio, pois “só tem por lugar o do outro”, atuam no interior do cenário que lhe é

imposto, tiram vantagem das ocasiões e através delas procuram recriar situações.

As diversas práticas onde os usuários estabelecem vínculos numa rede de

relações junto à economia cultural dominante e que por meio de diversas alterações

conforme as suas próprias normas se re-apropriam do espaço organizado, são segundo o

autor maneiras de fazer. Estas correspondem a uma maneira de pensar investida em uma

maneira de agir, uma arte de combinar interligada a uma arte de utilizar (idem: 42).

O processo de consumo, mesmo sem a fabricação de objetos, é descrito como

uma operação de produção que marca a sua presença por intermédio dos modos de

utilizar os produtos que lhe são impostos, ou seja, é o contraponto às estratégias que tem

por objetivo regular e disciplinar as práticas do quotidiano (ibidem: 39).

Como sugere o autor:

A uma produção racionalizada, expansionista além de centralizada, barulhenta e espetacular, corresponde outra produção, qualificada de “consumo”: esta é astuciosa, é dispersa, mas ao mesmo tempo ela se insinua ubiquamente, silenciosa e quase invisível, pois não se faz notar com produtos próprios mas nas maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem econômica dominante. (ibidem: 39)

Todo um enunciado de caráter estético, criminológico e higienista, era

articulado, para que se pudesse, através de estratégias, enquadrar e controlar as camadas

mais pobres da cidade. Neste período, concepções vinculadas à influência do ambiente

sobre a conduta do homem e a sua própria constituição física, tinham grande alcance

entre os intelectuais. Paulatinamente houve a introjeção e a difusão de parte destes

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valores na sociedade. A articulação e assimilação de tais discursos eram acompanhados

pela constituição de estereótipos sobre os pobres e desvalidos (Pesavento, 1994).

As tabernas, onde a incidência dos “vozerios” e “obscenidades” era freqüente,

eram vistas como locais de perdição. Segundo essa concepção, desses lugares provinha

o meretrício, o consumo de álcool e os mais variados delitos. Centros de “libertinagem”

e “corrupção”, as tabernas poderiam contagiar os “cidadãos de bem”, com os seus

exemplos “nefastos”. Era necessário, portanto, estabelecer um controle.

Entre outras estratégias, seria através da vigilância constante por parte do

aparato policial que se buscaria impor a ordem desejada. Todo aquele indivíduo que

freqüentava as tabernas e os becos, e que não conseguia comprovar que era um

trabalhador, passava a ser considerado um vadio (Chalhoub, 1986). Isso não quer dizer

que não houvesse resistência ou até uma cumplicidade, em alguns momentos, entre o

aparato policial e os freqüentadores destes ambientes.

Para o freqüentador de tabernas o ato de beber não era visto como um defeito. O

bebericar estava, isto sim, ligado a uma atividade social, a sua rotina diária.

A tentativa de transformação desses indivíduos em grupos de trabalhadores

ordeiros passava, necessariamente, por uma intensa vigilância. Com relação ao consumo

de bebidas alcoólicas, o objetivo era estimular o autocontrole e a privacidade. O ócio

teria que estar, em grande parte, circunscrito a casa e a família.

Paralelamente se desenvolve uma política severa, voltada para a expulsão dos

grupos populares e de seus locais de convívio do centro da cidade. A fiscalização dos

casebres, a imposição de pesadas multas e o aumento de impostos e de aluguel destas

moradias foram as medidas tomadas para atingir tal objetivo.

Aliado a este processo, a concorrência incessante de outros lugares de beber

determinaram a retirada paulatina das tabernas da área central da cidade e o seu gradual

declínio como local de lazer.

Os botequins, bares e outros lugares de beber acabaram herdando o estigma de

ser a principal opção de lazer dos grupos subalternos na cidade. Nesses lugares, assim

como nas tabernas, através do convívio poderiam estabelecer pontos de união. A

formação de laços de solidariedade nesses locais possibilitava a constituição de vínculos

indesejáveis e contrários à lógica dominante.

Ao mesmo tempo eram locais que incentivavam o consumo de álcool. Em razão

disso, se transformaram num mecanismo excelente para ampliação dos ganhos dos

grandes fabricantes e comerciantes de bebidas alcoólicas.

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Para a população mais pobre, o consumo de álcool era um modo de se distanciar,

mesmo que momentaneamente, da sua dura realidade. Uma maneira de se livrar da sua

consciência de inferioridade e uma ação afirmativa de grupo social. Uma desculpa para

a formação de amizades e de encontros. Nesse âmbito cultural havia a possibilidade de

se constituir um senso de comunidade e a rejeição de representações e práticas sociais

fundamentadas na propriedade privada e no trabalho disciplinado.

Os artefatos, integrados a este ambiente, exerciam um papel ativo. Esta inter-

relação poderia ser constatada, entre outros exemplos: no uso tradicional do copo para

derramar um pouco de bebida no chão ou no balcão e na rotina de “matar o bicho” pela

manhã; nos conflitos onde garrafas e copos se transformavam em arma; e na utilização

de um mesmo copo por vários freqüentadores, o que em si materializava, além das

precárias condições do estabelecimento, os vínculos de solidariedade. Tais

comportamentos, evidentemente, contrariavam e afrontavam o emergente discurso

sanitarista e os preceitos elitistas de cortesia e civilidade.

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4. O CONSUMO E AS PRÁTICAS RELACIONADAS ÀS BEBIDAS

ALCOÓLICAS NOS SÍTIOS PESQUISADOS

4.1 Unidades domésticas

4.1.1 Sítio Casa da Riachuelo (RS.JA-17)

Os vestígios relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas recuperados na

lixeira doméstica do sítio da Casa da Riachuelo apontam para o predomínio do consumo

de vinho e bebidas de teor alcoólico elevado, como cachaça, aguardente ou conhaque133.

Além da preponderância das espessas bases de garrafas verde escuras com

marcas de pontel, utilizadas principalmente para conter vinho, outro elemento que

indica esta preferência, por parte do(s) indivíduo(s) pertencente(s) ao grupo familiar que

ali residia, está na presença de duas bases de taças ou cálices e de um copo de

proporções reduzidas sem motivos decorativos e produzido por sopro manual (ver

tabela 09 e fig. 50).

Ainda utilizado atualmente, este tipo de copo, conforme verificado no capítulo

anterior, tinha a sua aplicação quase que restrita à ingestão da aguardente da terra, no

caso a cachaça, entre os grupos pertencentes às camadas populares em tabernas e

botequins. Cabe ressaltar que nos outros sítios de unidades domésticas não foram

encontrados vestígios relacionados a este tipo de artefato.

Outro elemento importante a ser considerado no que tange à predileção dos

moradores do assobradado não está na presença, mas sim na ausência de fragmentos de

grês ou vidro que indiquem o consumo de cerveja ou genebra.

Como já sabemos, entre as preferências de imigrantes portugueses e seus

descentes no século XIX não estava incluído o consumo de cerveja134. O vinho, junto ao

azeite de oliva e o pescado são alimentos que fazem parte da tradição portuguesa, são

sinais de identidade étnica, cultural e religiosa.

133 O teor alcoólico da cachaça está entre 38 e 54° GL (g por 100ml) e o da aguardente e conhaque corresponde a 35° GL. Para efeito de comparação a cerveja tem entorno de 4° GL de teor alcoólico. 134 No sítio Solar Lopo Gonçalves, onde foi construída uma moradia de propriedade de um ilustre imigrante português da cidade, também não foram encontrados fragmentos de grês que indicasse o consumo de cerveja.

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Tabela 09 - Frequência de peças e fragmentos de vidro e grês por categorias funcionais

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para vinho 2 3Garrafa para vinho ou conhaque 1 4Garrafa para bebida fermentada 7 49Garrafão 2 5Copo sem motivos decorativos 1 1Copo pequeno sem motivos decorativos 1 1Copo com paredes facetadas 2 2Taça ou cálice 2 2Função original não identificada 1 3Não identificado 225Total 19 295

Gráfico 09 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro para bebidas alcoólicas

Garrafa para vinho ou

conhaque33%

Garrafa para vinho67%

Tendo em conta todos estes aspectos e lembrando que o proprietário do

assobradado era de origem lusitana, a hipótese dos moradores da casa serem pessoas

próximas à família de Joaquim Pereira Martins ou seus empregados de descendência

portuguesa com poder aquisitivo menor, se comparado com o do proprietário, não deve

ser descartada e tem de ser ponderada.

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Joaquim, conforme verificado em inventário post mortem, era proprietário de

taberna e provavelmente necessitasse de empregado para atendimento em seu

estabelecimento135.

O predomínio lusitano nas atividades ligadas a importação e venda de artigos era

sustentado com a chegada de imigrantes portugueses pertencentes à mesma família dos

comerciantes que assumiam a função de caixeiros com o propósito de, num futuro

próximo, serem os donos do negócio (Alencastro e Renaux, 1997).

Segundo Barreiro (2002: 29) a esfera social em que transitava os caixeiros no

século XIX, em virtude das suas funções na taberna fazia com mantivessem relações

tanto com as camadas dominantes quanto com os extratos de baixo poder aquisitivo da

sociedade.

As relações com grupos sociais caracterizadas pela interposição talvez possam

explicar a presença no registro material de artigos de custos não muito elevados, no caso

o copo para consumo de cachaça, junto às peças decoradas e de valor superior, como as

taças ou cálices, e os copos facetados136 (ver tabela 09).

Os altos valores imputados às taças ou cálices e copos facetados e o elevado

grau de especificidade no que diz respeito à função, principalmente com relação às taças

e cálices, revelam que tais objetos estavam impregnados de significados no cenário

social. Ao fazer uso desses objetos em ocasiões marcadas pela comensalidade,

principalmente com pessoas que não pertenciam ao grupo doméstico, o ato em si

carregava um forte conteúdo social com grande poder de comunicação.

O tipo de taça para determinada bebida, o momento e a maneira correta de

utiliza-la são normas de comportamento que podem delimitar as diferenças em uma

sociedade. Verdadeiros sinais não só de identidade, como também de exclusão das

pessoas que não conseguem decodificar suas mensagens, esses comportamentos podem

enunciar as hierarquias e organizações no interior do grupo social.

A apropriação de práticas de ambos os grupos sociais, evidenciada na cultura

material do sítio, pode ser uma alusão ao momento em que de um lado parte da

sociedade porto-alegrense oitocentista buscava seguir estilos e normas baseados em 135 Segundo Porto Alegre (1994: 201) no século XIX o imigrante português ao chegar no Brasil procurava “colocação no comércio, protegido apenas por seus patrícios, que já estavam encaminhados aqui, e constituíam então uma colônia forte pelos seus bons elementos”. 136 Tocchetto (2004: 224-5) registrou na amostra do sítio a presença de artigos de preços não muito elevados, como peças de faiança fina brancas ou sem decoração para uso nas refeições, com fragmentos de louça de chá decorada de custo superior. Além disso, a autora verificou, também entre as peças de faiança fina a utilização de itens avulsos que não formavam conjuntos de mesa e chá, e uma diversificação reduzida nas formas e funções das peças (idem: 227-8).

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padrões franceses, ingleses e alemães e de outro o contraste dos costumes e hábitos das

camadas populares.

Ao que parece o uso do copo de dimensões reduzidas sem decoração e

produzido por sopro manual estaria restrito às relações informais de cunho íntimo com

pessoas pertencentes ao grupo doméstico ou as estreitamente ligadas ao convívio

familiar, ou seja, a utilização em circunstâncias onde a formalidade não imperasse,

como por exemplo o “matar o bicho” na parte da manhã e o aperitivo antes das

refeições. Quanto às taças ou cálices e os copos facetados, conforme já foi exposto,

deveria ocorrer justamente o contrário.

A evidência dos fragmentos de taças ou cálices sugere um empenho em

consolidar uma condição social por meio da assimilação de preceitos elitistas de cortesia

e civilidade.

Afora esses aspectos, a presença dos artefatos ligados ao consumo de bebidas

alcoólicas na amostra do sítio revela que os atos de beber, antigamente presentes na sua

maioria em locais públicos, estavam adentrando o ambiente doméstico137. A gradativa

introjeção de práticas fundamentas na concepção de que o consumo de álcool teria que

ser transferido para o âmbito privado138, por sua vez, se constituiu em uma das

estratégias que buscava disciplinar e regular o cotidiano. Mesmo que estivessem em

consonância com alguns aspectos das estratégias disciplinantes do consumo do álcool, a

possível incidência do “matar o bicho” pela manhã e o aperitivo antes das refeições,

pode indicar a continuidade de atos de beber vinculados a determinadas sociabilidades

das camadas populares. Tais práticas, segundo Certeau (1994), seriam uma maneira de

fazer, de caráter tático, que tirava vantagem das circunstâncias buscando recriar

situações em um cenário que lhe era imposto.

Quanto à possibilidade dos moradores do assobradado no decorrer do período

estudado serem imigrantes portugueses ou descendentes com os perfis delineados

acima, ela não está rejeitada e deve ser considerada.

137 Esta tendência também foi verificada nos outros sítios de unidades domésticas. 138 Na América do Norte, de modo similar, Jones (2000) afirma que no século XVIII e parte do XIX, o uso de bebidas alcoólicas no interior das residências não era freqüente. No entanto, nestes ambientes a partir do final do século XIX o consumo de bebidas e os uso de jogos para servir drinques se popularizaram.

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4.1.2 Sítio Solar da Travessa Paraíso (RS.JA-03)

O que se sobressai na análise dos vestígios relacionados ao consumo de bebidas

alcoólicas do grupo doméstico ligado à família de Dionísio de Oliveira Silveiro que

ocupou a chácara do Cristal, no período entre a metade e o final do século XIX, é a

diversidade de itens e o apuro no acabamento de determinadas peças.

Os fragmentos de garrafas, copos, canecos, taças e cálices indicam um consumo

de bebidas como o vinho, champanhe, cerveja, genebra e/ou aguardente, e licor e/ou

vinho licoroso (ver tabela 10). À exceção das garrafas para genebra, e genebra ou

aguardente, no total de 2 nmp (número mínimo de peças), o restante das garrafas, taças

e cálices correspondem a artigos relacionados às bebidas de baixo teor alcoólico139.

Mesmo sendo a família de Dionísio originária de Portugal, a variedade dos

vestígios relacionados às bebidas manifesta um cosmopolitismo acentuado e

identificado com os costumes e hábitos advindos da Europa, principalmente no que

concerne a vida parisiense, o que não foi verificado em nenhuma das outras unidades

domésticas pesquisadas.

Tido na época como privativo dos ambientes seletos e elegantes no Brasil o

consumo de champanhe ocupa o segundo posto entre os artefatos que identificam as

preferências dos usufrutuários do solar. Outra bebida de procedência européia e de

prestígio social no país, também está presente, no caso a genebra com a seu típica botija

de grês e a garrafa de vidro com o tronco piramidal invertido. Até mesmo o consumo de

cerveja aparece na amostra com fragmentos de garrafa de grês de cor bege e um caneco

para cerveja ou chope.

No entanto, os vestígios relacionados ao consumo de vinho predominam na

amostra, com as suas garrafas e taças características, junto aos cálices para vinho

licoroso ou licor.

Entre as garrafas para vinho (5 nmp) existe, entretanto, a possibilidade de uma

das de coloração verde oliva claro ter sido reutilizada para vários propósitos, devido à

incidência de um grande intervalo de tempo entre o período de produção do artefato e a

sua deposição no registro arqueológico.

139 O teor alcoólico do vinho do Porto é de 15 GL superior ao champanhe seco ou doce (11 GL) e o vinho tinto ou branco (10 GL). Como vimos anteriormente o teor alcoólico da cerveja é de 4 GL. Quanto à genebra o seu teor alcoólico é de 25 GL inferior aos do uísque, conhaque e aguardente (35 GL), e a cachaça (entre 38 e 54 GL).

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Tabela 10 - Frequência de peças e fragmentos de vidro e grês por categorias funcionais

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para vinho 5 6Garrafa para champanhe 3 4Garrafa para cerveja 2 5Garrafa para vinho ou cerveja 1 1Garrafa para genebra ou aguardente 1 3Genebra 1 3Garrafa para bebida fermentada 4 11Garrafão 1 1Copo com paredes facetadas 3 5Caneco para chopp 1 2Cálice para licor, ou vinho do Porto 1 2Taça para vinho, champanhe 5 16Função Original não identificada 11 60Não identificado 720Total 39 839

Gráfico 10 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro e grês para bebidas alcoólicas

Genebra8%

Garrafa para genebra ou aguardente

8%

Garrafa para vinho ou cerveja

8%

Garrafa para vinho38%

Garrafa para champanhe

23%

Garrafa para cerveja

15%

O recipiente possivelmente tenha sido utilizado nos afazeres domésticos pelos escravos

ou empregados do solar na preparação de refeições e contensão de líquidos, como

vinagre, azeite ou mel140 (ver tabela 02 e gráfico de barras 02).

140 A garrafa em questão corresponde ao fragmento de topo e pescoço de garrafa cilíndrica com pescoço gradual e com faixa de vidro aplicada sem a utilização de ferramenta de acabamento de terminação

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A preservação de práticas influenciadas pela tradição portuguesa, no que tange

ao consumo de bebida alcoólica, possivelmente esteve alicerçada na preferência por

vinho, e principalmente no vinho licoroso, como o vinho do Porto.

A presença de cálice para este tido de bebida pode estar, provavelmente,

relacionada com a influência e participação de Maria Sophia Freire Silveiro, esposa e

viúva de Dionísio Oliveira Silveiro, em jantares e recepções nas salas de jantar e de

visitas do solar. Entre os bens arrolados no inventário de Maria Sophia constam cálices

de vinho e champanhe e garrafas para vinho141.

O consumo de licores, circunscrito às recepções em jantares tidos como

elegantes e às cortesias entre damas e cavalheiros no século XIX, tornou-se um meio

eficaz de promoção feminina. Era um dos espaços aonde a mulher articulava a sua

participação social e ampliava a sua visibilidade e os contatos com a vida

extradoméstica. O oferecimento e o consumo da bebida, muitas vezes produzida pela

própria mulher, era um dos seus símbolos de hospitalidade e de afirmação da sua

atividade criadora.

Nesses ambientes de interação social o apuro nos motivos decorativos e

acabamentos de peças como taças e cálices com extremas especificidades funcionais e

as circunstâncias e os modos adequados de utilizá-las eram sinais de distinção.

As evidências de copos facetados, taças com decorações realizadas com máquina

dotada de agulha cauterizadora (1870 a 1930) e outra com haste em forma de balaústre

(1870 a 1930), junto a cálice para consumo de licor ou vinho licoroso, apontam para

uma predileção por artigos relacionados a uma grande diversidade de ornamentos que

denotavam, segundo concepção da época, requinte e polidez (ver tabela 02 e gráfico

02).

Com um papel ativo nas reuniões sociais no âmbito doméstico, esses objetos

indicam, por um lado, uma preocupação em seguir normas ditadas pelos pólos

irradiadores das novas etiquetas, e de outro, a permanência de comportamentos regidos

por padrões lusitanos. Estas práticas, no entanto, estavam todas elas fundamentadas em

convenções elitistas de diferenciação e manutenção de status social.

Além disso, o predomínio de fragmentos de garrafas, taças e cálice para bebidas

de baixo teor alcoólico indica, afora o prestígio social imputado a estas bebidas, a (lipping tool), número do catálogo 3.508 e diz respeito também ao primeiro item do gráfico de barras de vidro do sítio Solar Travessa Paraíso, que tem como data limite para sua confecção o ano de 1840. 141 Inventário de Maria Sophia Freire Silveiro, 02/05/1888, 3° Cartório do Cível, M-3, F-63, E-3 (APERGS).

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preferência por estimulantes que não propiciem facilmente a ebriedade. Com isso,

atingia-se o objetivo de descontrair o ambiente, deixando os convidados á vontade e ao

mesmo tempo as convenções caracterizadas pelo pudor e amabilidade não eram

afrontadas.

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4.1.3 Solar Lopo Gonçalves – (RS.JA-04)

Os fragmentos vinculados ao consumo de bebidas alcoólicas recuperados da

lixeira do solar Lopo Gonçalves apontam, com relação ao grupo doméstico ligado à

família de Lopo Gonçalves, no período entre 1850 e 1870, para um predomínio do

consumo de vinho, e vinho ou champanhe e num nível inferior a genebra e o uísque ou

cerveja (ver gráfico de barras 03 e gráfico 11).

Se compararmos as escolhas de consumo verificadas nos sítios Solar Lopo

Gonçalves e Solar Travessa Paraíso142, os dois relacionados a membros da elite porto-

alegrense durante o terceiro quartel do século XIX, é possível verificar algumas

dessemelhanças, principalmente no que diz respeito aos copos, canecos, taças e cálices.

A amostra dos fragmentos de copos do sítio Solar Lopo Gonçalves apresenta

uma superioridade em termos de quantidade e diversidade de tamanho e configuração

dos recipientes, se comparado com o outro sítio. As evidências apontam para um jogo

de copos decorados em painéis com dimensões diferentes. Entre eles existe um, de

proporções menores, provavelmente utilizado para ingestão de bebidas de alto teor

alcoólico, como genebra, aguardente do Reino, ou até mesmo licor143. A cachaça em

razão do aspecto depreciativo do seu consumo estaria, evidentemente, quase que

descartada. Os copos de dimensões superiores, possivelmente, estejam ligados em

grande parte ao consumo de uísque.

Quanto aos vestígios relacionados às taças, da forma similar ao Sítio Solar da

Travessa Paraíso, a amostra indica que havia conjuntos desses recipientes caracterizados

pelo esmero nos motivos decorativos e acabamentos das peças.

A ausência de fragmentos de garrafas de grês para cerveja e canecos de chope ou

cerveja, além da origem lusitana de Lopo, são elementos que reduzem

consideravelmente a possibilidade de que os fragmentos de coloração âmbar estejam

ligados ao consumo da bebida. Outro fator a ser ponderado é o de que, conforme já foi

mencionado, as garrafas para cerveja eram muito raras antes de 1870, justamente a data

limite para o período mais intenso indicado no gráfico de barras para o consumo de

bebidas alcoólicas.

142 Tocchetto (2004) afirma que sem constituir um patrimônio com as próprias mãos, o grupo doméstico ligado a Dionísio de Oliveira Silveiro desfrutou das heranças resultantes dos seus dois matrimônios com as filhas Raphaela Pinto Bandeira da Silva Freire, falecida em 1838 e Maria Sophia, do Coronel Comendador Vicente da Silva Freire, que pertencia, na época, à elite porto-alegrense. 143 Na amostra do sítio não houve incidência de fragmentos relacionados aos cálices de licor.

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Tabela 11 - Frequência de peças de vidro por categorias funcionais

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para vinho 2 41Garrafa para vinho ou champanhe 2 2Garrafa para uísque ou cerveja 1 40Garrafa para genebra 1 3Garrafa para bebida fermentada 3 40Copo sem motivos decorativos aparentes 1 1Copo cilíndrico com paredes facetadas 5 8Copo octogonal com paredes facetadas 2 3Copo pequeno com paredes facetadas 1 1Taça para vinho ou champanhe sem motivos decorativos aparentes 3 4Taça para vinho ou champanhe com decoração 3 3Função original não identificada 11 35Não identificado 13Total 35 194

Gráfico 11 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro para bebidas alcoólicas

Garrafa para genebra

17%

Garrafa para uísque ou

cerveja17%

Garrafa para vinho33%

Garrafa para vinho,

champanhe33%

O intervalo entre 1850 e 1870 apontado pelo gráfico evidencia o consumo de

álcool de forma mais intensa no decorrer do período de ocupação anterior a posse de

Joaquim Gonçalves Bastos Monteiro do solar, ou seja, está relacionado à ocupação do

grupo doméstico ligado a Lopo Gonçalves.

190

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A morte do patriarca, em 1872 e da sua esposa no final da década de 1870,

possivelmente tenha sido um fator importante na redução, por um tempo considerável,

do ânimo dos membros família, no que diz respeito à recepção e jantares relacionados à

vida extradoméstica e por conseqüência no consumo de bebidas alcoólicas na chácara.

Outra possibilidade seria a de que entre os hábitos e costumes do casal Joaquim e Maria

Luiza Lopo Teixeira Bastos não estivesse o de ingerir bebidas alcoólicas com

freqüência. Prática esta condizente com os preceitos que caracterizavam as pessoas de

“boa índole” nas últimas décadas do século XIX.

Entre os vestígios ligados ao consumo de bebidas alcoólicas foi encontrado,

também, uma garrafa de vinho que possivelmente tenha sido reutilizada para várias

funções, segundo a incidência de um intervalo de tempo considerável entre o período de

produção do artefato e a sua deposição no registro arqueológico. O uso da garrafa,

provavelmente esteja relacionado aos trabalhos domésticos efetuados pelos escravos na

contensão de líquidos, como azeite, vinagre, ou mel e no preparo de refeições destinadas

aos usufrutuários do solar144 (Ver tabela 03 e gráfico de barras 03).

Outra garrafa para vinho também adquiriu destaque, só que de modo

diferenciado entre os itens da amostra145. A existência, entre os fragmentos desta peça,

de um selo comemorativo do casamento entre o príncipe de Gales Albert Edward

Windsor, futuro rei Edward VII da Inglaterra, com a princesa da Dinamarca Alexandra

Caroline Mary Charlotte em 10 de março de 1863 possibilitou a obtenção de dados mais

precisos relacionados ao período e o local de fabricação e conseqüentemente uma

datação mais apurada para a formação do depósito arqueológico (fotos 5 e 6).

A cerimônia de casamento do príncipe herdeiro do trono da principal potência

econômica, na época, foi um evento marcante.

144 O recipiente em questão corresponde ao fragmento de topo e pescoço de garrafa cilíndrica e com faixa de vidro aplicada sem a utilização de ferramenta de acabamento de terminação (lipping tool), número do catálogo 4.209 e diz respeito também ao primeiro item do gráfico de barras de vidro do sítio Solar Lopo Gonçalves, que tem como data limite para sua confecção o ano de 1840. 145 Esta garrafa para vinho diz respeito aos fragmentos de topo, pescoço, ombro e corpo de coloração amarela e número de catálogo 4.76 (ver tabela 03).

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Fotos 5 e 6: da esquerda para direita: fotografia efetuada em momento posterior à cerimônia do casamento do príncipe herdeiro do trono da Inglaterra Albert Edward Windsor com a princesa da Dinamarca Alexandra Caroline Mary Charlotte e quadro ilustrando a chegada da princesa, em 07/03/1863, acompanhada por sua família e o príncipe para o seu casamento na Inglaterra. Fonte: sites www.museumoflondon.org.uk do Museum of London Picture Library, e www.nmm.ac.uk/mag/pager/mmuexplore do Maritime Art Greenwich.

A presença da garrafa com o selo comemorativo na amostra do sítio denota o

interesse por determinados bens importados e a facilidade de aquisição por parte de

Lopo Gonçalves, em virtude da sua participação em atividades comerciais que

envolviam a venda de produtos de origem estrangeira.

Além disso, a evidência do selo comemorativo inter-relacionada à trajetória do

comerciante Lopo Gonçalves e sua família revelam traços semelhantes aos de outros

comerciantes proeminentes no Brasil e Portugal.

Lopo Gonçalves nasceu em 1800 no arcebispado de Braga, um pequeno

povoado da Freguesia de São Miguel de Gêmeos de Bastos e possivelmente a sua

família em Portugal fosse de origem modesta (Giacomelli, 1992). Estando em Porto

Alegre em 1827 já trabalhava no ramo comercial (Tocchetto, 2004).

Na cidade Lopo Gonçalves adquiriu projeção social, conforme mencionado

anteriormente, não só como um destacado comerciante, mas também atuando na

Câmara dos Vereadores e junto com a sua esposa, em benfeitorias de instituições

assistenciais e religiosas. Segundo Symanski (1998: 117) Lopo tinha preocupação “com

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a ostentação de sua condição econômica muito mais no domínio público externo do que

no domínio doméstico privado”.

Com a união matrimonial consangüínea em 1858, entre a sua filha Maria Luiza e

o seu sobrinho Joaquim Gonçalves Bastos Monteiro, os seus bens permaneceram em

mãos de pessoas pertencentes à família.

Ao que parece existem alguns aspectos na vida de Lopo e de seus familiares

próximos que remetem ao um desejo de nobilitação.

Um paralelo da vida de um dos precursores da nobreza brasileira, o negociante

Brás Carneiro, com a de Lopo Gonçalves, neste caso pode ser elucidativo.

Tido como o mais influente e destacado comerciante do Rio de Janeiro nas

primeiras décadas do século XIX, Brás Carneiro Leão, descendente de lavradores,

nasceu na cidade do Porto em 1732 e assim como vários imigrantes portugueses chegou

ao Rio de Janeiro, no ano de 1798, para trabalhar, em troca de casa e comida, como

caixeiro no estabelecimento de um patrício (Malerba, 2000). Com um acúmulo de

riquezas considerável Brás Carneiro obteve o título de coronel das milícias da cidade e

Cavaleiro Fidalgo da Casa Real e buscava também o reconhecimento para si e seus

filhos do seu brasão de armas para comprovar a sua nobreza (Fernandes, 2004).

O exemplo de Brás Carneiro é altamente significativo para se entender o

engajamento de parte das elites de origem reinol em adquirir notoriedade por meio das

concessões das tradicionais ordens militares, fomentadas, essencialmente, pelo dinheiro

do comércio, ou seja, uma concepção de nobreza caracterizada como uma honraria e

símbolo de distinção social estabelecida pelo rei, ao invés da sua aquisição através de

laços de sangue.

Entre os reis portugueses, principalmente a partir da administração do marquês

do Pombal (1750 a 1777), a outorga de títulos nobiliárquicos e funções nas ordens

religiosas e militares foi utilizada largamente como meio de remuneração para serviços

prestados.

A corte portuguesa no Brasil não agiu de maneira diferente. Logo ao chegar D.

João VI passou a incentivar as relações da corte com membros da elite nativa

concedendo títulos de nobreza para os que colocavam a sua riqueza à disposição do

rei146.

146 D. João VI concedeu 590 condecorações da Ordem de São Tiago, 1.422 comendas da Ordem de São Bento de Aviz, e 4.048 insígnias de cavaleiros e grã cruzes de Ordem de Cristo (Faoro, 1976).

193

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A situação com a emancipação política não se alterou. Entre 1822 a 1889 foram

outorgados 1.211 títulos nobiliárquicos (Schwarcz, 1999).

A continuidade deste tipo de prática, no decorrer de quase todo o século XIX,

por parte de D. Pedro I e II, demonstra o prestígio dessas condecorações entre os

membros da elite e principalmente os grandes comerciantes de origem lusitana.

Lopo Gonçalves provavelmente não tenha sido exceção. Saído de um pequeno

povoado de Portugal, numa conjuntura onde a nobilitação, entre setores destacados do

comércio era sinal de ascendência social, Lopo possivelmente tenha buscado essa

distinção ao obter projeção tanto econômica como social no Brasil.

Suas ações filantrópicas e o apreço à vida pública, somados à sua posição de

destaque no comércio da cidade, aos seus investimentos em empreendimentos

imobiliários, à preservação do patrimônio da família Bastos por meio de um casamento

consangüíneo e o interesse, ou no mínimo uma curiosidade, nas questões que envolvem

a família real britânica evidenciado no selo comemorativo de uma garrafa para vinho,

apontam para a valorização e o desejo de posse de título de nobreza. A sua nomeação

entre 1857 e 1861 como Prior Jubilado da Ordem Terceira das Dores em Porto Alegre

corrobora essa probabilidade.

194

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4.1.4 Sítio Chácara da Figueira (RS.JA-12)

Os vestígios relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas do sítio Chácara da

Figueira, no período entre 1850 e 1870, sugerem o predomínio da genebra, genebra ou

aguardente e bebidas fermentadas (ver gráfico de barras 04 e gráfico 12).

Ainda que não se tenham informações sobre os moradores da área no decorrer

do terceiro quartel do século XIX e apesar de não terem sido recuperadas terminações

entre os fragmentos de garrafas para bebidas fermentadas que pudessem identificar com

maior precisão a função original do recipiente, algumas considerações apontam para um

provável consumo de vinho.

A raridade de garrafas de vidro para cerveja antes da década de 1870 e a

ausência de fragmentos de recipientes de grês e canecos para cerveja ou chope no sítio

indicam um possível predomínio do vinho ou champanhe e o descarte da possibilidade

do consumo de cerveja. No entanto, a ausência de taças na amostra do sítio reduz a

probabilidade do consumo de champanhe e aponta para a preponderância dos

recipientes para vinho entre as garrafas para bebidas fermentadas.

Além dos vestígios de garrafas para genebra ou aguardente, a presença de copo

facetado de dimensões reduzidas evidencia a preferência por bebidas de alto teor

alcoólico.

O índice de fragmentos recuperados relacionados às garrafas para genebra (29%)

e para genebra ou aguardente (14%) entre a amostra dos vestígios de garrafas que foram

identificadas as funções originais é significativo se comparado com os outros sítios de

unidades domésticas (ver tabela 12 e gráfico 12).

O seu suposto poder revigorante e terapêutico nas funções digestivas e produção

de suor, baseado em noções advindas do humorismo hipocrático, possivelmente tenha

motivado o consumo de genebra entre o grupo doméstico ligado ao sítio da Chácara da

Figueira e aos outros grupos dos sítios de unidade doméstica que apresentam

fragmentos de garrafas desta bebida, como o Solar da Travessa Paraíso e o Solar Lopo

Gonçalves.

A incidência de fragmentos de garrafas relacionadas ao consumo de bebida de

origem européia em ocupação de área periférica com fins de moradia e produção revela

a penetração e apropriação de certos padrões de consumo vivenciados intensamente em

centros urbanos.

195

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Além disso, a presença de dois copos facetados de dimensões variadas,

caracterizados pelo apuro na decoração e acabamento das peças, aponta para um

empenho em consolidar uma condição social através da assimilação de algumas noções

elitistas de urbanidade e civilidade. A coincidência desse e de outros aspectos podem

indicar a existência de algumas similaridades entre os sítios Chácara da Figueira e o da

Casa da Riachuelo.

As evidências materiais marcantes pela presença de artigos de custo não muito

elevados e uma diversificação reduzida nas formas e funções de peças, no que diz

respeito ao sítio da Casa da Riachuelo e a ausência de taças ou cálices, no caso da

chácara do Morro Santana, sugerem que os grupos domésticos que residiam nestes

locais estivessem ocupando uma posição sócio-econômica mais desfavorável do que os

grupos das outras unidades domésticas, mas que ao mesmo tempo tinham interesse em

ostentar uma melhor condição social com o uso de alguns poucos itens com esmero em

seus acabamentos, como os copos com paredes facetadas.

Por outro lado, a inexistência de fragmentos de taças ou cálices na amostra do

sítio Chácara da Figueira, além de uma condição social menos favorável dos grupos

domésticos que ali residiam se comparado com os moradores dos Solares Lopo

Gonçalves e Travessa Paraíso podem sugerir também a incidência de comportamentos

diferenciados das demais unidades domésticas, possivelmente, por estarem residindo

fora do âmbito urbano e por conseqüência à parte de algumas orientações e práticas em

voga na cidade147.

147 Tocchetto (2004) verificou também indícios de que os grupos domésticos que residiam na chácara tenham ficado à margem de normas e comportamentos vigentes com relação às praticas de descarte de lixo no meio urbano.

196

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Tabela 12 - Frequência de peças de vidro e grês por categoria funcional

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para genebra 2 2Garrafa para genebra ou aguardente 1 33Garrafa para bebida fermentada 4 36Copo com paredes facetadas 1 1Copo pequeno com paredes facetadas 1 1Total 9 73

Gráfico 12 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro e grês para bebidas alcoólicas

Garrafa para genebra ou aguardente

14%

Garrafa para bebida

fermentada57%

Garrafa para genebra

29%

197

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4.2 Lixeiras coletivas

4.2.1 Mercado Público Central (RS.JA-05)

A amostra dos vestígios relacionados às de bebidas alcoólicas do sítio Mercado

Público Central possibilitou a obtenção de informações significativas sobre o consumo

da população e o descarte dos artefatos no local.

O gráfico de barras elaborado com material do Mercado Público (1830 a 1870),

conforme já exposto anteriormente, é o único em que a data inicial abarca quase a

totalidade do segundo quartel do século XIX, período anterior ao consumo e utilização

de forma mais intensa de artigos de vidro no Brasil (ver gráfico de barras 05).

A presença no sítio de grande quantidade de garrafas com marcas de pontel, ou

seja, fabricadas através de sopro manual ou por intermédio de molde e sopro manual,

pode ser explicada pelo fato de que o descarte de lixo na área não esteve relacionado

somente aos despejos domésticos. O rejeito de um grande número de recipientes de

vidro, descartados próximos a um local que desde a primeira metade do século XIX

caracterizava-se como centro de comércio, provavelmente tenha sido, na sua maioria,

produto de descartes de tabernas, vendas e casas de pastos, entre outros. As robustas

garrafas de vidro escuro, produzidas em processo manual, precedem a segunda metade

do século XIX e eram utilizadas pelos estabelecimentos comerciais na venda a retalho

de vinho e outros líquidos.

O período obtido no gráfico de barras dos fragmentos de vidro e grês vinculados

às bebidas alcoólicas pode ser um indicador importante não só no que diz respeito à

evidência no local de descartes de tabernas, vendas e casas de pasto na primeira metade

do século XIX, mas também de outros comportamentos relacionados aos despejos de

lixo.

O início da intensificação dos descartes indicada pelo gráfico, em torno de 1830,

aponta para a adoção do local por parte da população como lixeira coletiva a partir da

determinação do poder público dos pontos para rejeitos de lixo nas margens do Guaíba,

com o objetivo de preservar as bocas da rua e as proximidades da Alfândega. Existe, no

entanto, a necessidade de confirmar esta possibilidade com outras fontes de informação,

o que talvez possa ser obtido com gráficos de barras vinculados a outras categorias

materiais.

198

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No que diz respeito ao término do período estabelecido pelo gráfico é possível

desenvolver algumas considerações sobre o consumo de bebidas alcoólicas na cidade

até 1870.

O predomínio do consumo de vinho evidenciado nos sítios das unidades

domésticas também é verificado na amostra do sítio (ver gráfico 13). Seguindo o

raciocínio desenvolvido anteriormente quanto à raridade de garrafas de vidro para

cerveja até 1870, é reduzida a possibilidade dos vestígios de garrafas de vinho ou

cerveja de terem sido utilizados para o consumo de cerveja. Mesmo porque a incidência

de garrafas de vidro e grês para cerveja correspondeu apenas a duas peças, sendo que

em uma delas o início de sua produção ocorreu a partir de 1866148. O que de certo modo

vai de encontro às informações obtidas em inventários post mortem de donos de

tabernas, botequins e casas de molhados, entre outros, que apontam para um consumo

reduzido de cerveja na cidade, principalmente na primeira metade do século XIX.

148 O recipiente em questão diz respeito à garrafa de grês de coloração bege, número de catálogo 5.86 e corresponde também ao vigésimo item do gráfico de barras de vidro e grês do sítio Mercado Público Central, que tem como intervalo para sua confecção o período entre 1866 a 1929. (ver tabela 05 e gráfico de barras 05).

199

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Tabela 13 - Frequência de peças de vidro e grês por categoria funcional

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para vinho ou cerveja 24 59Garrafa para genebra 18 246Garrafa para champanhe 3 9Garrafa para genebra ou aguardente 3 29Garrafa para cerveja 2 3Garrafa para vinho 2 7Garrafa para uísque 1 1Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque 1 3Garrafa para bebida fermentada 23 54Função original não identificada 10 10Garrafão 2 12Copo com paredes facetadas 3 3Cálice para licor ou vinho do Porto 3 5Não identificado 317Total 95 758

Gráfico 13 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro e grês para bebidas alcoólicas

Garrafa para genebra

33%

Garrafa para vinho ou cerveja

43%

Garrafa para vinho4%

Garrafa para cerveja

4%

Garrafa para genebra ou aguardente

6%

Garrafa para uísque

2%

Garrafa para champanhe

6%

Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque

2%

Os fragmentos relacionados às garrafas para genebra e genebra ou aguardente

revelam também algumas especificidades do seu consumo no período. A começar pelo

o seu índice entre as garrafas para bebidas alcoólicas que foram identificadas a função

original, 33% e 6% respectivamente, o maior entre os sítios de lixeiras coletivas e o

segundo maior percentual no sítio (ver gráfico 13). Na amostra dos vestígios

relacionados ao consumo de genebra e genebra ou aguardente o predomínio dos

recipientes de grês é evidente, 82,50% do total.

Estes dados se comparados com os obtidos nos outros sítios de lixeiras coletivas

apontam para uma possível redução de forma gradativa no consumo da bebida e a

200

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substituição do recipiente de grês pelo frasco de vidro com a forma tronco-piramidal

invertida na contenção da genebra, ou genebra e aguardente, a partir de meados do

século XIX149.

A confrontação das informações obtidas nos sítios Mercado Público Central e

Praça Rui Barbosa, ambos com a data final estabelecida em 1870 no gráfico de barras

de vidro e grês, aponta também para uma maior diversidade de recipientes para bebidas

alcoólicas por parte do sítio Mercado Público Central. A maior variedade de garrafas

para bebidas alcoólicas pode ser explicada mais uma vez pelos rejeitos de tabernas,

vendas e casas de pasto, próximos a uma área que desde a primeira metade do século

XIX caracterizava-se como um centro das atividades comerciais na cidade.

A diversidade dos vestígios na amostra possibilitou também a verificação de

determinadas redes de comércio de produtos importados por meio de fragmentos com

inscrições de fabricantes dos recipientes e das bebidas. No estabelecimento dessas redes

de comércio é importante ressaltar a intermediação das casas de importação do Rio de

Janeiro principalmente até 1870, momento em que a ingerência de comerciantes e

importadores teuto-rio-grandenses no comércio de importação começava a adquirir

relevância por meio das linhas de navegação transoceânicas diretas.

Entre os fragmentos da amostra foram evidenciadas as marcas do molde Ricketts

da empresa Ricketts Company de Bristol Inglaterra, as inscrições “H R” em garrafa para

genebra do fabricante Hormann Rohrbacher da Philadelphia, Estados Unidos, da

indústria J. T. Gayen Altona de Schiedam, Holanda, em garrafa para uísque ou

aguardente e H. Kennedy fabricante de garrafas de grês de Glasgow, Escócia (ver

figuras 27, 38, 39 e 60).

149 A redução do consumo da bebida e a substituição dos recipientes de grês pelo frascos de vidro de tronco piramidal invertido serão tratados nos próximos tópicos.

201

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4.2.2 Sítio Praça Rui Barbosa

Ainda que o sítio Praça Rui Barbosa apresente em seu gráfico de barras

relacionado aos artefatos de vidro e grês para consumo de bebidas alcoólicas uma data

final para um período de intensificação do descarte no local igual ao do sítio do

Mercado Público Central existem algumas particularidades da amostra do sítio a serem

consideradas (ver gráficos de barras 06).

A especificidade de um intervalo de tempo reduzido (1848 a 1870), se

comparado com o período do Mercado Público Central (1830 a 1870) e concentrado em

grande parte no terceiro quartel do século XIX pode ser um contraponto na

confrontação das informações de outros sítios.

A data inicial do gráfico (1848), como vimos anteriormente, aponta para uma

intensificação dos rejeitos num momento posterior ao do material recuperado na área do

Mercado Público e Paço Municipal.

O local, onde atualmente está situada a Praça Rui Barbosa, não fazia parte do

núcleo urbano da cidade até meados do século XIX. Isso explica o retardamento no

descarte nas margens do lago e no aterro do local, se comparado com uma das primeiras

áreas a obter aterro na cidade, o Mercado Público. Mesmo que a Praia ou Praça do

Estaleiro fosse um dos pontos de despejo de lixo urbano determinados pelo Código de

Posturas Policiais de 1837, os moradores da área urbana deram preferência, na época,

aos pontos de fácil acesso, ou seja, os situados em áreas próximas do núcleo urbano. A

intensificação das práticas de descarte de lixo, a partir da metade do século XIX, ocorre

justamente no momento em que áreas próximas do estaleiro começam a ser envolvidas

pelo processo de ampliação da malha urbana.

A atividade ligada à manutenção e construção de embarcações é outro elemento

importante a ser considerado na redução dos despejos. O fato da margem do lago ter

sido aproveitada por estaleiros deveria inibir ou diminuir de forma considerável o

descarte de lixo no local.

Com relação às características da amostra dos vestígios relacionados às garrafas

para bebidas alcoólicas que foram identificadas a função original, além do maior índice

de recipientes para vinho (35%), verificado também nos outros sítios, existe uma

presença mais significativa de garrafas de grês para cerveja (10%), se confrontada com

o percentual obtido no sítio do Mercado Público Central (4%).

202

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Um provável aumento gradativo do consumo da bebida a partir de meados do

século XIX, indicado na comparação dos dados dos dois sítios, possivelmente esteja

relacionado a um aumento entre a população porto-alegrense de imigrantes alemães e

seus descendentes na cidade e arredores no período enfocado.

Dentre os vestígios de garrafas para bebidas alcoólicas foram verificadas marcas

de indústrias de bebidas e garrafas que indicam a estruturação de rotas comerciais de

produtos importados, tais como "G & H", do fabricante de vidro Gray & Hemingray,

Cincinnati, Ohio, ou Covington, Ky. Estados Unidos, o fabricante de garrafas de grês

Doulton Lambeth, Inglaterra, e marcas de indústrias que não foram identificadas como

“H P” e “JGW &” mas que provavelmente sejam oriundas dos Estados Unidos ou de

países da Europa (ver figuras 29, 35 e 32).

Os dados obtidos com os fragmentos de garrafas para genebra e genebra ou

aguardente sugerem também uma paulatina diminuição do consumo da bebida na cidade

e substituição das características botijas de grês pelos recipientes de vidro.

Do conjunto dos fragmentos de recipientes para genebra e genebra ou

aguardente no sítio Praça Rui Barbosa 70% corresponde às botijas de grês e 30% aos

frascos de tronco piramidal invertido, no sítio Mercado Público Central o predomínio

das botijas é bem superior, 84,68% para 15,38%.

No que diz respeito aos índices relacionados ao consumo a amostra dos vestígios

vinculados às garrafas para genebra e genebra ou aguardente apresenta um percentual

menor entre o total de garrafas para bebidas alcoólicas que foram identificadas a função

original, 7% e 3% respectivamente, se comparado com o índice do sítio do Mercado

Público Central, 33% e 6% (ver gráficos 12 e 13).

203

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Tabela 13 - Frequência de peças de vidro e grês por categorias funcionais

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para vinho 10 26Garrafa para vinho ou cerveja 10 24Garrafa para cerveja 3 11Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque 3 8Garrafa para genebra 2 13Garrafa para genebra ou aguardente 1 2Garrafa para bebida fermentada 9 10Função original não identificada 6 6Copo pequeno com paredes facetadas 1 2Cálice de licor ou vinho do Porto 1 1Taça ou cálice 6 9Não identificado 348Total 52 460

Gráfico 13 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro e grês para bebidas alcoólicas

Garrafa para vinho ou cerveja

35%

Garrafa para cerveja

10%

Garrafa para vinho, cerveja ou

conhaque10% Garrafa para

genebra7%

Garrafa para genebra ou aguardente

3%Garrafa para vinho

35%

204

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4.2.3 Sítio Paço Municipal (RS.JA-20)

A análise de uma quantidade considerável de fragmentos do sítio oriundos em

grande parte de aterros e com datação posterior á metade do século XIX proporcionou a

obtenção de informações significativas sobre os rejeitos no local e quanto ao consumo e

aos artigos de vidro e grês vinculados às bebidas alcoólicas (ver gráfico de barras 07).

Ainda que a área de descarte de lixo, onde posteriormente foram construídos a

doca e Paço Municipal, esteja muito próxima ao do Mercado Público, houve uma

diferença de dez anos na data inicial entre os dois sítios.

Uma presença significativa de artefatos produzidos no último quartel do século

XIX no sítio do Paço Municipal trouxe a barra da esquerda do gráfico para a década de

quarenta do século XIX. Ao contrário do que foi verificado no Mercado Público, a

grande incidência de material arqueológico oitocentista posteriores a década de 1850 e

oriundos dos aterros utilizados para a construção da doca e do Paço Municipal teve uma

influência expressiva na formação do período do gráfico de barras.

Essa particularidade do sítio possibilitou a confirmação de um avanço no

percentual de vestígios relacionados às garrafas para cerveja (13%), e vinho e cerveja

(47%) entre o total de garrafas para bebidas alcoólicas que foram identificadas a função

original, se comparado com os índices obtidos nos sítios Mercado Público Central (4% e

43%) e Praça Rui Barbosa (10% e 35%), o que fortalece a constatação de um avanço no

consumo de cerveja na cidade passível de ser verificado no registro material dos três

sítios (Ver gráfico 14).

Da mesma forma pôde ser constatado também uma redução no índice de

fragmentos relacionados às botijas de grês para genebra (1%), e os frascos de vidro para

genebra e aguardente (4%) e um aumento dos vestígios vinculados aos frascos de tronco

piramidal invertido, dentre o conjunto de recipientes para bebidas alcoólicas que foram

identificadas a função original, se confrontado é claro com os percentuais dos sítios

Mercado Público Central (33% e 6%) e Praça Rui Barbosa (7% e 3%).

O declínio de uma bebida reconhecida por setores da população por seu poder

revigorante e terapêutico nas funções digestivas e seus benefícios na produção de

suores, qualidades estas influenciadas por noções do humorismo hipocrático,

possivelmente esteja ligado à erradicação de antigos preceitos vinculados ao corpo. Por

outro lado, o avanço do consumo da cerveja, obtido entre outras razões por meio de

melhorias relacionadas às vedações de garrafas e, principalmente, pela descoberta da

205

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teoria microbiana, aponta não só para a vulgarização dos resultados alcançados na

medicina como também para a assunção do enunciado higienista entre os processos de

produção e ingestão de algumas bebidas alcoólicas.

Da mesma forma que nos dois sítios anteriores foram verificadas marcas de

indústrias de bebidas e de vidro dentre fragmentos de garrafas para bebidas alcoólicas,

que apontam para uma consolidação de rotas comerciais de produtos importados, tais

como a “Van Den Bergh & C.” do fabricante holandês de genebra, a marca do vinho

francês “Chateau Larose”, a inscrição “PORTOBELLO” da indústria de garrafas

Richard Cooper & Co. de Portobello, Escócia, as marcas “S” do fabricante Hero Glass

Works, e “A” de John Agnew & Son, ambos da Philadelphia, Estados Unidos e marcas

de fabricantes que não foram identificadas como “H P” e “JGW &”, entre outras, mas

que provavelmente tenham a sua origem nos Estados Unidos ou países da Europa (ver

figuras 28, 46, 41, 37, 35, 32). As marcas de fabricantes de vidro da Philadelphia, as de

maior incidência, são indicadores do desenvolvimento dessas indústrias em uma região

caracterizada pela abundância de matérias primas em termos de lenha e areia, da busca

dessas empresas por novos mercados na segunda metade do século XIX, e da

emergência dos Estados Unidos como potência industrial.

Um outro aspecto a ser ressaltado diz respeito a um aumento progressivo de

copos, taças e cálices evidenciado nos três sítios - Mercado Público Central (total 6

nmp), Praça Rui Barbosa (total 8 nmp), e Paço Municipal (total 11 nmp). Esta tendência

verificada nos sítios está de acordo e reforça a afirmação de que somente a partir das

últimas décadas do século XIX taças, cálices e copos de vidro tornaram-se elemento

comum no cotidiano de boa parte da população brasileira. Essencialmente ligados à

rápida expansão do mercado interno e à ampliação das redes de transporte, ou melhor,

ao desenvolvimento capitalista no Brasil a partir da metade do século XIX, o consumo e

uso intenso destes objetos, ao mesmo tempo, podem indicar também a influência dos

pólos irradiadores das novas etiquetas e do gênero de vida burguês.

206

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Tabela 14 - Frequência de peças de vidro e grês por categorias funcionais

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para vinho ou cerveja 38 84Garrafa para vinho 18 19Garrafa para cerveja 10 26Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque 7 15Garrafa para champanhe 3 4Garrafa para genebra ou aguardente 3 18Garrafa para genebra 1 7Garrafa para bebida fermentada 18 18Função original não identificada 13 13Garrafão 1 8Copo facetado 4 11Copo com paredes lisas 1 3Cálice para licor ou vinho do Porto 4 5Taça para vinho 2 2Não identificado 359Total 123 592

Gráfico 14 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro e grês para bebidas alcoólicas

Garrafa para vinho ou cerveja

47%

Garrafa para vinho22%

Garrafa para champanhe

4%

Garrafa para vinho, cerveja ou conhaque

9%

Garrafa para cerveja13%

Garrafa para genebra ou aguardente

4%Garrafa para genebra

1%

207

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4.3 Sítio Antiga Cervejaria Brahma (RS.JA-22)

A amostra dos vestígios relacionados às bebidas alcoólicas do sítio Antiga

Cervejaria Brahma possibilitou a obtenção de informações significativas relacionadas

aos artefatos produzidos no último quartel do século XIX e início do XX (1870 a 1925),

período não enfocado pela grande maioria dos sítios pesquisados (Ver gráfico de barras

08). Afora a possibilidade ímpar de analisar uma quantidade significativa de fragmentos

de garrafas de vidro e grês relacionados, na sua maioria, aos rejeitos da cervejaria.

Infelizmente, em virtude da incidência de uma grande gama de impactos no local sem o

monitoramento arqueológico, conforme relatado anteriormente, não foi possível

verificar que tipo de material especificamente corresponderia à unidade doméstica, ou

seja, a casa do mestre cervejeiro, e aos descartes da fábrica.

A quantidade significativa de fragmentos de garrafas de grês para cerveja do

sítio, com uma inteireza que não foi encontrada em nenhum dos outros sítios

pesquisados, proporcionou um ganho de qualidade na análise destes recipientes. Cabe

ressaltar que estes recipientes após a sua utilização pela fábrica na contensão de cerveja,

e o posterior abandono desta função, serviam para a distribuição de levedo de cerveja

(Thiesen, 2003).

A amostra dos fragmentos de vidro relacionados às bebidas alcoólicas do sítio

apresenta uma peculiaridade quanto às técnicas de fabricação dos artefatos, se

comparada com as dos outros sítios. Parte do conjunto das garrafas de vidro foram

confeccionadas por meio de conformação manual com a utilização de moldes e

ferramentas de acabamento (29,21% do total do nmp de vidro), e outra parte

corresponde aos artigos produzidos por processos automáticos ou semi-automáticos de

fabricação (41,03% do total do nmp de vidro), ou seja, a amostra dos fragmentos de

vidro vinculados às bebidas alcoólicas evidencia um período de transição dos processos

de fabricação de recipientes de vidro (ver gráfico de barras 08).

Dentre os vestígios foram verificadas marcas de indústrias de garrafas e de

bebidas de outros países, tais como os fabricantes de garrafas de grês para cerveja Port-

Dundas Pottery Co., Henry Kennedy / Barrowfiles Pottery, Grosvenor, todos da cidade

de Glasgow, Escócia e Price, de Bristol, Inglaterra, além da marca “S” do fabricante

Hero Glass Works, da Philadelphia, Estados Unidos e os fabricantes de vinho do Porto

A. Pinto Ramos e Antonio Rocha Leão de Portugal. Além disso, foram identificadas

também inscrições comerciais de fabricantes nacionais de garrafas de vidro do início do

208

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século XX, como a marca “vFo” da Vidreria Ind. Figueiras Oliveiras S/A, de São

Paulo, a “S. M.” Cia Vidraria Santa Marina, e a “C I” da Companhia Industrial São

Paulo e Rio de Janeiro, do Rio de Janeiro, e inscrição “REGISTRADA” no corpo de

uma garrafa de fabricante desconhecido, mas que provavelmente seja de indústria

nacional (ver figuras 57, 60, 59, 58, 43, 42, 48, 45, 44 e 49).

Tabela 15 - Frequência de peças de vidro e grês por categorias funcionais

Categoria funcional Nmp NfrgGarrafa para vinho ou cerveja 10 23Garrafa para genebra 5 173Garrafa para cerveja 55 92Garrafa para vinho 2 4Garrafa para bebida fermentada 7 7Função original não identificada 4 4Não identificado 59Total 83 362

Gráfico 15 - Frequência de garrafas para bebidas alcoólicas

Garrafas de vidro e grês para bebidas alcoólicas

Garrafa para vinho ou cerveja

14%

Garrafa para genebra

7%

Garrafa para vinho3%

Garrafa para cerveja

76%

O predomínio entre os fragmentos de garrafas de vidro das marcas de fabricantes

instalados no Brasil nas primeiras décadas do século XX corrobora a informação de que

neste período a produção nacional começava a preponderar na confecção desses

recipientes e deixava para o vidro importado um segmento reduzido de mercado.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS: A “SAIDEIRA”

Uma analogia entre o segmento final e a “Saideira” se justifica diante da intenção de

expor reflexões e interpretações sobre o passado tendo em mente que estas considerações

não são as únicas possíveis.

O último copo fecha a série, que amanhã ou depois pode ser retomada em outras

circunstâncias. No próximo encontro o bate-papo será pautado pela conversa anterior, no

entanto as intenções e particularidades circunstanciais de forma alguma serão repetidas ou

recordadas na sua totalidade. Haverá, possivelmente, uma inter-relação ativa entre o que foi

amigavelmente conversado no passado e o que se deseja contar de novidade.

Neste caso, o brinde derradeiro de uma despedida jubilosa que não descarta um

novo encontro singular, pode lembrar, também, a presença de mutuas influências entre o

passado e o presente na prática interpretativa e a incapacidade do investigador em

reproduzir fielmente aspectos do passado.

Dentro desta perspectiva, a interpretação é vista como ontológica, ou seja, ela está

irremediavelmente enredada com a visão de mundo do pesquisador. A caracterização de um

fato ou situação não corresponde a uma descrição empírica dos mesmos, equivale isto sim a

considerações que fazem parte de uma estrutura lógica de razões e justificações próprias do

investigador (Shanks and Tilley, 1987). As idéias, opiniões, pressupostos do pesquisador

sobre o passado estão balizadas no presente. O conhecimento sobre o presente é transferido

ao passado, e a partir deste momento o pesquisador passa a confrontar as informações

obtidas para posteriormente adaptar as suas reflexões anteriores (Kern, 1991). Esta

concepção transcende, portanto, a tradicional disjunção entre o arqueólogo e as suas fontes,

entre o passado e o presente.

A síntese apresentada passa a ser o resultado de uma espiral hermenêutica

caracterizada por encadeamentos ininterruptos de idéias, conceitos e representações.

O desenvolvimento e a estruturação desta dissertação teve como um dos seus

suportes a efetivação deste processo. Como exemplo é possível citar o uso do gráfico de

barras para localização temporal e espacial dos sítios pesquisados, que além do proposto

evidenciou também o consumo de forma mais intensa de artigos de vidro a partir da

segunda metade do século XIX em Porto Alegre e particularidades quanto ao descarte de

lixo nas lixeiras coletivas da cidade.

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Para obter informações e construir explicações sobre o consumo no século XIX foi

essencial um aprofundamento sobre os aspectos ligados aos métodos de fabricação e a

comercialização desses objetos no Brasil e nas potências industriais da época.

Diante desta questão e da necessidade de organizar os dados sobre morfologia,

funções e técnicas de fabricação dos artefatos que se constituiu o segundo capítulo. A

conjunção dos aspectos cronológicos e tecnológicos, com base em bibliografia estrangeira,

proporcionou a elaboração de um conjunto de informações que podem servir como

referenciais para se evidenciar os métodos de produção e a antiguidade de artefatos de vidro

recuperados em sítios oitocentistas.

A obtenção destas informações, por sua vez, forneceu uma base sólida para o estudo

do que envolvia a produção e o consumo de vidro no Brasil e nos grandes centros

produtores. Como fatores determinantes da expansão do consumo de artigos de vidro, no

Brasil a partir da metade do século XIX, foram indicados a rápida ampliação do mercado

interno, os avanços na racionalização da produção nas indústrias vidreiras das metrópoles e

a expansão das redes de transporte. A proibição do tráfego negreiro, a adequação da posse

de terras segundo critérios capitalistas - ambas em 1850 - e a ampliação da lavoura cafeeira

proporcionaram o surgimento de novas oportunidades de investimento em território

nacional. Por meio do sistema bancário e comercial, o capital acumulado, principalmente

pela cafeicultura, foi reinvestido na compra de equipamentos e maquinário industrial, na

construção de ferrovias e progressos técnicos em áreas urbanas (Gorender, 1981). O

desenvolvimento das malhas de transporte, por sua vez, possibilitava a compra de

mercadorias em áreas onde nunca foram freqüentes. A conseqüência deste dinamismo foi o

aumento da demanda nas cidades, principalmente entre profissionais liberais, funcionários

públicos e militares, e a ampliação do pequeno e médio comércio. Além disso, o fim da

escravidão e a imigração, propagavam as relações salariais. A necessidade cada vez maior

de recipientes de vidro, com a ampliação de mercados, promovia o aumento das suas cotas

de produção. Houve um acréscimo notável no volume e variedade das mercadorias que

deveriam ser estocadas, distribuídas e colocadas à venda, com o objetivo de atender uma

massa crescente de consumidores.

Em nível nacional e regional foram evidenciadas as particularidades com relação ao

surgimento das indústrias e o desenvolvimento capitalista a partir da metade do século XIX,

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tendo como foco principal as indústrias vidreiras. No extremo sul a acumulação de capital,

necessária para o surgimento da indústria, ocorreu de modo singular. À medida que nas

zonas de colonização alemã e italiana os pequenos produtores rurais encontravam um

mercado consumidor para os seus produtos, seja nos principais núcleos coloniais ou nos

grandes centros urbanos, crescia de modo significativo o poder aquisitivo local a ponto de

promover um desenvolvimento comercial e urbano e surgir diversas manufaturas (idem).

Como centro distribuidor dos produtos coloniais na Província, Porto Alegre se transformou

no maior mercado urbano do estado e pólo de desenvolvimento manufator. Entre as

primeiras manufaturas a surgir na cidade estava a fábrica de vidro F. J. Brustchke & Cia. A

investigação conseguiu localizar o terreno da fábrica onde permanecem resquícios de um

dos seus prédios com várias alterações e fragmentos de artigos de vidro e refugo dos fornos,

encontrados à margem do Guaíba.

No outro segmento a atenção estava voltada para a principal pista quanto à

identificação da função original dos recipientes e o número mínimo de peças: os atributos

relacionados às formas das peças. Os dados sobre as formas dos recipientes recuperados

nos sítios analisados foram apresentados junto com os seus respectivos períodos de

produção, conforme as categorias materiais. Além disso, tendo estas peças e fragmentos

como referencial, foi elaborado um catálogo com os tipos de contentores de vidro e grês, as

marcas de fabricantes vidro e de bebidas alcoólicas e as terminações de garrafas de vidro.

No último segmento do capítulo 2 foram tratadas as questões relacionadas ao

processo de reciclagem, um elemento importante a ser considerado na análise destes

artefatos. A reutilização de garrafas, um dos processos de reciclagem, torna complexa a

tarefa de atribuir a função e a trajetória de vida das peças, pois é difícil de ser percebida no

registro arqueológico. No entanto, mesmo com estas dificuldades foi verificado que os

pesquisadores podem fazer uso dos fragmentos de garrafas em seus estudos. Para isso, as

informações de outras fontes e evidencias materiais devem interagir com os dados

vinculados a estes artefatos. A análise de fragmentos e peças de garrafas de vidro e grês,

copos, cálices e taças de vários sítios, inter-relacionada com investigação em registros

escritos e pictóricos, se adapta perfeitamente às circunstâncias necessárias para transcender

considerações simplistas. As lacunas deixadas pela possibilidade de re-uso das garrafas

podem ser preenchidas pela extrema especificidade funcional dos outros objetos e por uma

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abundância contextual. Os cacos de vidro lascado, um outro tipo de reciclagem, também

foram tratados neste segmento. Dois artefatos com processos de uso secundário e de

reciclagem com adulteração das formas originais evidenciados na amostra do sítio Paço

Municipal foram descritos e comparados com os fragmentos recuperados por Osório e

Symanski (1996) no Solar Lopo Gonçalves em Porto Alegre e Wilkie (1996) em Oakley

Plantation.

O aprofundamento nas questões ligadas à fabricação, cronologia, morfologia,

consumo e reutilização de contentores de bebidas alcoólicas deu condições para que, no

próximo capítulo, se adentrasse nos aspectos ligados aos significados das utilizações destes

artefatos. Na primeira parte com o estudo sobre as caricaturas de jornais do século XIX se

buscou interpretar como membros da elite intelectual de Porto Alegre percebiam os atos de

beber e a cultura material de que se lançava mão para se comunicar e se expressar no

decorrer destes atos. Os jornais com caricaturas foram veículos de comunicação

importantes para preservação da ordem vigente e o controle sobre os comportamentos tidos

como desviantes. Em grande parte, os setores das gazetas eram compostos por mão-de-obra

imigrante e membros de uma elite política ou intelectual. Tendo como suporte princípios

onde o trabalho era sinônimo de honorabilidade e motivador de fortuna e progresso, os

imigrantes que atuavam nos periódicos procuravam reforçar a imagem do trabalhador

estrangeiro, íntegro e dedicado, em contraponto com o atraso e desleixo de escravos,

mestiços e imigrantes pobres. A produção intelectual a partir de jornais poderia, por um

lado, promover o enriquecimento e o reconhecimento por parte da alta sociedade e, por

outro, seria um modo de divulgar um projeto civilizatório para o país e criticar práticas

tidas como retrógradas (Salgueiro, 2003). Os periódicos buscavam divulgar um ideal de

progresso, seja material ou moral, por intermédio de uma oposição entre a civilização e a

barbárie em que se encontrava parte da população. A partir destes pressupostos, a

supremacia da razão, por sua vez, não poderia ser deturpada por condutas onde incidem o

consumo indisciplinado de álcool.

Os modos de utilizar determinados objetos relacionados ao consumo de bebida

alcoólica e os seus contextos de inserção estavam, evidentemente, entre os aspectos que

possibilitavam uma delimitação do que seria ou não uma conduta socialmente aceita.

Assuntos como a Guerra do Paraguai, a política em voga no Rio Grande do Sul, a

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necessidade de laicilizar a sociedade e melhorar as condições sanitárias da cidade, o

antagonismo entre o domínio público e o âmbito familiar e a falta de “civilidade” entre os

populares foram caricaturados por meio de cenários onde os objetos ligados ao consumo de

álcool tinham um papel essencial. Nas representações determinados atos de beber

conjugados com tipos de garrafas, copos e taças refletem intenções que buscam o

fortalecimento de laços de solidariedade e sentimentos de pertencimento, a eliminação de

resistências e temores, a perversão e corrupção de virtudes e a difamação de determinado

estrato da sociedade.

Com o propósito de se aprofundar na relação dos atos de beber com o antagonismo

entre práticas sociais que buscavam o refinamento e as que estavam vinculadas pela

memória à sociedade tradicional, se buscou interpretar, na parte final do capitulo 3, como

as práticas nas tabernas, dentre elas o uso de objetos ligados ao consumo de bebidas

alcoólicas, eram percebidas por determinados grupos sociais na Porto Alegre do século

XIX. O que se verificou foi que as relações baseadas num modo de vida tradicional,

presentes em algumas tabernas, transformaram-se, em vários momentos, em um empecilho

à tentativa de impor uma rotina de trabalho adequada aos preceitos elitistas de acumulação

de capital, ou melhor, um obstáculo para as estratégias que buscavam disciplinar e regular

as práticas do quotidiano. As amplas reformulações dos espaços urbanos, âmbito social

onde o desenvolvimento capitalista incidiu de forma mais intensa, exigiam a incorporação

de parte da população mais pobre como mão-de-obra num programa de reorganização das

atividades produtivas (Pesavento, 1994). Estreitamente ligado com a questão urbana, o

discurso médico-sanitarista, baseado em modelos europeus assépticos, buscava o

estabelecimento de um corpo social sadio e sem vícios, em termos físicos e morais. Havia a

necessidade de uma ordenação, no sentido social e cultural, que estivesse de acordo com

modelos disciplinadores firmados pelo desenvolvimento capitalista e pela modernidade

(Barreiro, 2001). No Brasil, a abolição da escravatura e a constituição de um regime

republicano possibilitaram o ingresso do país de forma significativa à economia capitalista

mundial. O estabelecimento deste quadro institucional teve como uma das suas

conseqüências a divulgação, principalmente em meio urbano, dos ideais de

desenvolvimento econômico e do modo de vida burguês. Estas idéias e práticas

ultrapassaram os limites da Europa propagando-se para outras áreas e ao encontrar

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ambientes que não se assemelhavam com o seu lugar de origem foram sendo adaptadas ao

novo contexto (Oliven, 2001). Em centros urbanos como Porto Alegre, a difusão do gênero

de vida burguês promovia a distinção social para os que buscassem o refinamento das

práticas sociais relacionadas às boas maneiras e a polidez no trato com as pessoas. O que

por convenção se intitula moderno, na época, era visto pelos grupos sociais mais abastados

como algo que vinha de fora, que estava em voga nas nações desenvolvidas e que deveria

ser valorizado e tido como modelar (idem). A apropriação, ou até mesmo o arremedo de

padrões e estilos de vida franceses, ingleses e alemães passavam a ser um indicativo para

diferenciação social. Surgiam ambientes onde os seletos champanhes e vinhos europeus

eram sinais distintivos de status social e requinte. Todo um conjunto de formalidades

passou a determinar quais os tipos de bebidas e contentores que deveriam ser utilizados em

determinada ocasião. O modo de vida burguês, além dos vínculos com estes símbolos de

requinte e prestígio social, estava associado também a uma disposição inata ao trabalho.

Dentro desta perspectiva, em um país que havia banido a escravidão e promulgado a

república, o trabalho metódico e disciplinado teria que ser valorizado entre as camadas

populares (Barreiro, 2001).

No entanto, as maneiras de fazer caracterizadas pelos furtos e pelas práticas

assistemáticas ligadas ao trabalho e lazer, presentes em determinadas tabernas da cidade,

tornavam evidente a resistência das camadas populares na assimilação dos princípios

vinculados ao trabalho sob a ótica capitalista e à propriedade privada. Além disso, a

presença nestes estabelecimentos de comportamentos que contrariavam as noções elitista de

etiqueta e urbanidade fez com que passassem a ser, cada vez mais, censuradas as pessoas

que freqüentassem este ambiente.

Para a camada mais pobre da população havia a possibilidade de se constituir um

senso de comunidade nas tabernas, por meio de um conjunto de gestos, sinais (incluindo o

uso de artefatos) e normas de comportamento. Nestes ambientes o ato de beber parecia ser

ao mesmo tempo uma prática marcada pelo distanciamento da dura realidade social e, por

outro, pela consolidação de identidade e afirmação de grupo social. Os artefatos ligados ao

consumo de bebidas alcoólicas eram parte ativa na estruturação destas relações. Práticas

como o hábito de matar o bicho pela manhã, o uso tradicional do copo para derramar uma

pequena quantidade de bebida no balcão ou no chão da taberna, as discussões onde copos e

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garrafas se transformavam em arma, e o uso do mesmo copo por vários freqüentadores,

evidenciavam além do papel ativo dos artefatos nestas relações, os vínculos de

solidariedade e a desconsideração para com o discurso sanitarista e as noções elitistas de

cortesia e civilidade.

O término do terceiro capítulo e a articulação dos dados obtidos com a localização

espacial e temporal dos sítios e interpretação de aspectos vinculados aos contentores de

bebidas alcoólicas possibilitou a realização de algumas considerações sobre as práticas e o

consumo de álcool nos sítios pesquisados.

Afora estas questões, no tocante à interpretação das amostras das lixeiras coletivas,

foi possível também interpretar determinadas práticas relacionadas ao descarte de lixo em

alguns desses locais. No sítio do Mercado Público Central, por exemplo, a recuperação de

um número significativo de garrafas de vidro produzidas por processo manual, em um local

que desde a primeira metade do século XIX caracterizava-se como um centro de comércio,

possivelmente tenha sido, em grande parte, o resultado de descartes de vendas, casas de

pasto, tabernas, entre outros. Com relação ao sítio Praça Rui Barbosa, a especificidade de

um intervalo de tempo reduzido dos descartes de vestígios vinculados ao consumo de

álcool e concentrados em grande parte no terceiro quartel do século XIX, possivelmente

decorra, em grande parte, da localização do sítio em uma área que não fazia parte do núcleo

urbano até a metade do século XIX. Os moradores da cidade, ao que parece, preferiram, na

época, os pontos de fácil acesso para o despejo de lixo, ou seja, os localizados em áreas

próximas do núcleo urbano. A intensidade dos rejeitos de lixo, a partir da metade do século

XIX, se dá justamente no momento em que locais próximos desta área começavam a ser

envolvidos pelo processo de expansão da malha urbana. Outro fator apontado para a

redução dos despejos de lixo está ligado à manutenção e construção de embarcações no

local. O fato da margem do lago ter sido aproveitada por estaleiros provavelmente reduziu

ou inibiu de modo considerável o descarte de lixo no local.

A importância dos sítios de lixeira coletiva e o da Antiga Cervejaria Brahma no

processo de interpretação está correlacionada também à inteireza e à quantidade

significativa de fragmentos recuperados nestes sítios, o que proporcionou um ganho de

qualidade na análise dos artefatos, nos aspectos ligados aos métodos de fabricação, à

morfologia, aos processos de reciclagem. Por se tratarem de sítios com períodos de

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ocupação diferenciados foi possível verificar algumas alterações no consumo das bebidas e

dos recipientes.

Com relação ao consumo de bebidas alcoólicas, o predomínio do consumo de vinho

foi evidenciado e corroborado nos sítios das lixeiras coletivas, de modo similar ao ocorrido

nos sítios de unidades domésticas. Sobre a genebra e a cerveja, como um dos fatores de

diminuição e acréscimo de consumo verificado nos sítios das lixeiras coletivas foi possível

apontar a erradicação paulatina na sociedade de antigos preceitos ligados ao humorismo

hipocrático, no caso da redução do consumo de genebra, e uma assunção constante do

enunciado higienista entre os processos de produção e ingestão de bebidas, como a cerveja.

Da mesma forma pôde ser constatado também uma redução contínua no índice de

fragmentos relacionados às botijas de grês para genebra e um aumento paulatino dos

vestígios vinculados aos frascos de tronco piramidal invertido, utilizados essencialmente

para genebra ou aguardente. Um outro aspecto a ser ressaltado diz respeito a um aumento

progressivo de copos, taças e cálices evidenciado nos três sítios - Mercado Público Central,

Praça Rui Barbosa e Paço Municipal. Esta tendência está de acordo e reforça a afirmação

de que somente a partir das últimas décadas do século XIX estes contentores de vidro

tornaram-se elemento comum no cotidiano de boa parte da população brasileira. Além

disso, a maior incidência de marcas de fabricantes de vidro dos Estados Unidos foram

apontadas como indicadores da emergência dos Estados Unidos como potência industrial e

da busca das industrias vidreiras deste país por novos mercados na segunda metade do

século XIX.

Quanto à interpretação das amostras dos sítios de unidades domésticas, foi possível

indicar algumas semelhanças e particularidades das escolhas de consumo de cada unidade.

No que diz respeito às semelhanças, os fragmentos de vidro e grês vinculados ao

consumo de álcool e recuperados nas amostras de todos os sítios de unidades domésticas

foram apontados como indícios de que os atos de beber, antigamente presentes na sua

maioria em locais públicos estavam adentrando o ambiente doméstico, o que sugere

também uma introjeção de preceitos influenciados pelas estratégias que procuravam

regular e disciplinar o consumo de álcool.

Em todas unidades domésticas foram recuperadas evidências que apontam, para um

predomínio do consumo de vinho e, no caso específico do sítio Solar da Travessa Paraíso o

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consumo de vinho licoroso, que possivelmente estejam relacionadas à preservação de

práticas influenciadas pela tradição lusitana. Além disso, o consumo vinho licoroso ou de

licores, possivelmente esteja ligado à participação e influência de Maria Sophia Freire

Silveiro em recepções no Solar. Conforme verificado anteriormente, o consumo desta

bebida, restrito aos jantares tidos como elegantes e às cortesias entre damas e cavalheiros,

era um meio eficaz de promoção feminina. No entanto, mesmo com a preservação de

algumas práticas ligadas à tradição portuguesa, por parte do grupo doméstico ligado à

família de Dionísio Silveiro, a diversidade de vestígios ligados a vários tipos de bebida

alcoólica foi interpretada como uma manifestação de um cosmopolitismo acentuado e

identificado com os costumes e hábitos europeus, principalmente no que diz respeito à vida

parisiense, o que não foi verificado em nenhuma das outras unidades domésticas.

No sítio Solar Lopo Gonçalves a existência, entre os fragmentos de uma garrafa

para vinho, de um selo comemorativo do casamento entre o príncipe de Gales Albert

Edward Windsor e a princesa da Dinamarca Alexandra Caroline, inter-relacionada a

trajetória de vida de Lopo e seus familiares, foi apontado como um vestígio que evidencia

uma concepção de nobilitação como ascensão social, verificada na sua maioria entre

comerciantes de origem portuguesa. As ações filantrópicas e o apreço à vida pública,

somados à sua posição de destaque no comércio da cidade, aos seus investimentos em

empreendimentos imobiliários, à preservação do patrimônio da família Bastos por meio de

um casamento consangüíneo e o interesse, ou no mínimo uma curiosidade, nas questões

que envolvem a família real britânica evidenciado no selo comemorativo, foram

interpretados como uma valorização e o desejo de posse de título de nobreza. A nomeação

entre 1857 e 1861 de Lopo Gonçalves como Prior Jubilado da Ordem Terceira das Dores

em Porto Alegre corrobora essa probabilidade.

Uma outra especificidade só que concernente ao sítio da Casa da Riachuelo diz

respeito a recuperação de um fragmentos de um copo de dimensões reduzidas sem

decoração e produzido por sopro manual. A sua utilização estaria circunscrita às relações

informais de cunho intimo com pessoas que pertencessem ao grupo familiar ou as

estreitamente ligadas ao convívio familiar, ou seja, o uso em ocasiões onde a formalidade

não imperasse, como por exemplo, o “matar o bicho” na parte da manhã e o aperitivo antes

das refeições. A possível incidência de tais práticas, mesmo que estivessem de acordo em

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alguns aspectos com as estratégias disciplinantes do consumo de álcool na medida em que

tenham adentrado o ambiente familiar, indica a continuidade de atos de beber ligados a

determinadas sociabilidades das camadas populares. Seria uma maneira de fazer, com

características táticas, que atua no interior do cenário que lhe é imposto e tira vantagem das

ocasiões procurando recriar situações.

Ainda com relação ao sítio da Casa da Riachuelo, a presença de fragmentos de

artigos de custo não muito elevados e uma diversificação reduzida nas formas e funções de

peças e no caso do sítio da Chácara da Figueira a ausência de taças e cálices, foram

apontados como indícios de que os grupos domésticos que moravam nestes locais estavam

ocupando uma posição sócio-econômica mais desfavorável do que os grupos das outras

unidades domésticas, mas ao mesmo tempo tinham interesse em ostentar uma melhor

condição social com o uso, em circunstâncias marcadas pela formalidade, de alguns poucos

itens com esmero em seus acabamentos, como os copos com paredes facetadas.

Uma presença significativa de taças e copos facetados nos sítios Solar da Travessa

Paraíso e Solar Lopo Gonçalves, se comparada com os outros sítios de unidades

domésticas, indicou uma valorização desses objetos por parte de membros da elite porto-

alegrense durante o terceiro quartel do século XIX, no caso os grupos domésticos ligados a

Lopo Gonçalves e a Dionísio Oliveira Silveiro.

Os altos valores atribuídos a estes objetos e o elevado grau de especificidade com

relação à função, principalmente no que diz respeito às taças e cálices, indicam que tais

objetos estavam impregnados de significados neste âmbito social. Em ambientes de

interação social o apuro na decoração e no acabamento de peças com extremas

especificidades funcionais e as circunstâncias e maneiras apropriadas de utiliza-las eram

sinais de distinção. As evidências dos fragmentos de copos facetados, taças e cálices

sugerem a presença de práticas baseadas em convenções elitistas de diferenciação e

manutenção de status social.

Manifestação essencialmente ligada à rápida ampliação do mercado interno e à

expansão das redes de transportes, ou melhor, ao desenvolvimento capitalista no país a

partir de meados do século XIX, a intensificação do uso e consumo destes objetos, ao

mesmo tempo, se constitui em um possível indicador da influência dos pólos irradiadores

das novas etiquetas e do gênero de vida burguês.

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As interpretações alcançadas estão de acordo com os pressupostos de uma prática

interpretativa baseados em ajustes ininterruptos de idéias, conceitos e representações e entre

conhecimento e prática. Para isso a escolha de oito sítios oitocentistas no município de

Porto Alegre e a inter-relação entre os dados obtidos com o registro material e as

informações de outras fontes foi fundamental, pois multiplicou os pontos de apoio e

propiciou a elaboração de instrumentos de controle adequados para se evitar associações

por demais simplificadas. Em vários casos pode ser demonstrado o potencial deste estudo

diante da variedade de informações obtidas sobre os usos e significados de garrafas, copos,

tacas e cálices. O uso de forma conjugada e sistemática dos dados sobre os contentores

pode contribuir para o alcance de uma interpretação substancial dos aspectos relacionados

ao perfil social das pessoas que utilizaram estes artefatos, dos seus conteúdos, dos

significados de determinadas práticas cotidianas, e conseqüentemente, sobre fenômenos

ligados à urbanização e à industrialização no Brasil da segunda metade do século XIX e

início do XX.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

I. Fontes primárias

a) Manuscritas

1- Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul

- 1° Cartório do Cível de Porto Alegre, Inventários (1801-1855).

- 2° Cartório do Cível de Porto Alegre, Inventários (1801-1880).

- 1° Cartório de Órfãos de Porto Alegre, Inventários (1801-1900).

- 2° Cartório de Órfãos de Porto Alegre, Inventários (1866-1900).

- 3° Cartório de Órfãos de Porto Alegre, Inventários (1885-1900).

- Catálogos do Notoriado de Porto Alegre (1890-1915).

- Código de Posturas Municipais (1837; 1873).

- Júri Sumários de Porto Alegre, Processos Crime (1801-1900).

2- Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Velinho

- Atas da Câmara (1801-1900).

- Livros de Imóveis (1894-1910).

3- Junta Comercial de Porto Alegre, Contrato de Sociedade e Dissolução (1892).

b) Impressas (Almanaques, Jornais, memórias, relatos e descrições de viajantes e cronistas).

1- Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Almanaques (1873 a 1891) e

Anuários (1887 a 1900).

2- Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, jornais de Porto Alegre

Sentinella do Sul (07/07/1867 a 29/03/1868), O Século (11/11/1880 a 02/11/1884), e A

Lente (01/07/1883 a 19/08/1883).

AVÉ-LALLEMANT, Robert.

1953 Viagem pelo Sul do Brasil no ano de 1858. Rio de Janeiro: INL.

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DAMASCENO, Athos.

1940 Imagens Sentimentais da Cidade. Porto Alegre: Globo.

1974 Colóquios com a minha cidade. Porto Alegre: Globo.

HÖRMEYER, Joseph.

1986 O Rio Grande do Sul de 1850. Porto Alegre: Eduni-Sul.

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1922 Noutros Tempos. Porto Alegre: Globo.

1994 História Popular de Porto Alegre. Porto Alegre: Unidade Editorial/SMC/PMPA.

SAINT-HILAIRE, Augueste.

1974 Viagem ao Rio Grande do Sul. Porto Alegre: ERUS/Martins Livreiro.

II. Fontes secundárias

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1986 Pequena História da Formação Social Brasileira. Rio de Janeiro, Edições Graal.

ALENCASTRO, L. F.; RENAUX, Maria Luiza.

1997 Caras e modos dos migrantes e imigrantes. História da Vida Privada no Brasil –

Império: a Corte e a Modernidade Nacional, V. 2, São Paulo, Companhia das Letras,

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ANEXO

Ficha de análise das peças de vidro e grês

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FICHA DE ANÁLISE DE RECIPIENTES DE VIDRO E GRÊS

DADOS DE IDENTIFICAÇÃO

A) NÚMERO DO SÍTIO B) NÚMERO DE CATÁLOGO

DADOS BÁSICOS

C) CATEGORIA MATERIAL

1..........Vidro 2...........Grês

D) PARTES DO RECIPIENTE a) Garrafa b) Copo c) Taça d) Cálice e) Garrafão 1.......... Terminação 2.......... Pescoço 3.......... Ombro 4.......... Corpo 5……. Haste 6......... Base 7......... Alça 12....... Terminação e pescoço 14....... Corpo e haste 23....... Pescoço e ombro 34....... Ombro e corpo 46....... Corpo e base 56....... Haste e base 123..... Terminação, pescoço e ombro 145..... Terminação, corpo e haste 146..... Terminação, corpo e base 347..... Ombro, corpo e alça 456..... Corpo, haste e base

1237... Terminação, pescoço, ombro e alça 1456... Terminação, corpo, haste e base 2346... Pescoço, ombro, corpo, base 12346. Terminação, pescoço, ombro, corpo e base 12347. Terminação, pescoço, ombro, corpo e alça

237

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E) COR 0.......... Não identificada 1.......... Verde água 2.......... Verde-oliva claro 3.......... Verde-oliva escuro 4.......... Verde escuro 5.......... Verde primavera 6.......... Âmbar 7.......... Transparente 8.......... Bege 9.......... Marrom claro 10........ Marrom avermelhado 11........ Chocolate 12........ Verde médio 89........ Bege e marrom claro F) ESPESSURA (mm) G) DIÂMETRO DOS FRAGMENTOS (mm)

a) DIÂMETRO INTERNO DA TERMINAÇÃO b) DIÂMETRO EXTERNO DA TERMINAÇÃO c) DIÂMETRO EXTERNO DA BASE DO PESCOÇO d) DIÂMETRO DO CORPO e) DIÂMETRO DA HASTE f) DIÂMETRO EXTERNO DA BASE g) DIÂMETRO MÁXIMO DO REFORÇO DA BASE (PUSH-UP) h) DIÂMETRO MÁXIMO DA MARCA DO PONTEL

H) ALTURA DOS FRAGMENTOS (mm)

a) ALTURA DA TERMINAÇÃO b) ALTURA DO PESCOÇO c) ALTURA DO CORPO d) ALTURA DA HASTE e) ALTURA DO REFORÇO DA BASE (PUSH-UP) f) ALTURA PARCIAL g) ALTURA TOTAL

I) CAPACIDADE DOS RECEPIENTES (ml)

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J) FORMA DA TERMINAÇÃO 0............... Não identificada 1............... Terminação com dobragem externa (rolled-out) 2............... Terminação com uma faixa de vidro aplicada 3............... Terminação com um anel em forma de cone (sloping collar) 4............... Terminação com dois anéis em forma de cone

5............... Terminação com dois anéis – superior reto, inferior em forma de cone

6............... Terminação com dois anéis – superior reto, inferior arredondado 7............... Terminação com dois anéis - superior arredondado, inferior reto 8............... Terminação com dois anéis arredondados 9............... Terminação champanhe 10............. Terminação com anel arredondado e furos para atarraxar bujão (blob top) 11............. Terminação com a borda expandida com dois anéis arredondados 12............. Terminação com dois anéis – superior em forma de cone, inferior

arredondado 13............. Terminação para rolha metálica K) FORMA DO PESCOÇO

0............ Não identificada 1............ Reta 2............ Expandida na parte do ombro 3............ Afinada

L) FORMA DA HASTE

0............ Não identificada 1............ Reta 2............ Com ressalto de vidro

M) FORMA DA BASE

0............ Não identificada 1............ Circular 2............ Retangular 3............ Poligonal 4............ Circular com degrau na parte superior

N) FORMA DO REFORÇO DA BASE (push-up)

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0............ Não identificada 1............ Côncava (forma de cúpula no cume) 2............ Cônica 3............ Cônica e arredondada no cume

O) FORMA DO RECIPIENTE

0............ Não identificada 1............ Garrafa cilíndrica 2............ Garrafa cilíndrica com pescoço abrupto 3............ Garrafa cilíndrica com pescoço gradual 4............ Garrafa retangular 5............ Garrafa poligonal 6........... Taça com a copa lisa 7........... Taça com a copa decorada 8........... Cálice com a copa lisa 9........... Cálice com a copa decorada 10......... Copo com as paredes lisas 11......... Copo com as paredes facetadas 12......... Taça 13......... Cálice 14......... Copo pequeno com a parede facetada 15......... Copo pequeno 16......... Garrafão

DADOS DE TRATAMENTO

P) TÉCNICAS DE FABRICAÇÃO 0.......... Não identificada 1.......... Terminação cortada com tesoura em estado maleável (sheared lip)

2.......... Anel ou faixa de vidro fundida ao redor ou abaixo da borda sem utilização de ferramenta de acabamento de topo

3…….. Ferramenta de acabamento de terminação (lipping tool) 4.......... Polimento da terminação 5.......... Filete para tampa de rosca 6.......... Molde de 2 partes 7.......... Molde de 3 partes 8.......... Molde de 2 ou 3 partes 9.......... Molde de tornear 10….... Molde até a base da terminação 11........ Molde até ½ da terminação 12........ Molde até a extremidade superior da terminação

240

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13........ Molde horizontal acima da base 14........ Molde não identificado 15........ Inscrição em forma de painéis 16........ Inscrição no centro da base da garrafa 17........ Instrumento de sustentação (snap case) 18........ Pontel de vidro 19........ Pontel de vidro e areia 20........ Pontel de tubo de soprar 21........ Polimento da marca do pontel 22........ Uso de descolorante 23........ Terminação flamejada 24........ Decoração através de rodas abrasivas e polidoras (cut glass)

25........ Decoração através de cauterização por ácido produzindo uma superfície geada

26........ Decoração através de molde de contato moldado (contact-molded) 27........ Molde horizontal na parte do ombro 28........ Molde Ricketts 29........ Molde inteiriço (dip mold) 30........ Cicatrizes de formato circular na base 31........ Decoração através de agulhas cauterizadoras com torno mecânico 32........ Lipping tool e polimento de terminação 33........ Lipping tool e molde não identificado 210.…. Faixa de vidro aplicada s/uso de lipping tool e molde até a base da

terminação 310….. Lipping tool e molde até a base da terminação 616...... Molde de 2 partes, inscrição em forma de painéis 613...... Molde de 2 partes, molde horizontal acima da base Q) DEFORMIDADE FUNCIONAL

0............ Não identificada 1............ Assimetria 2............ Má distribuição de vidro ou variação na espessura de parede 3............ Fundo de lado ou deformado 4............ Rachadura, trinca ou fissura 5............ Aparência de metal martelado 6............ Bolha de ar 7............ Inclusão de material não refratário 8............ Irisação 9............ Inscrição com imagem fantasma 15.......... Assimetria e aparência de metal martelado 16.......... Assimetria e bolha de ar 25.......... Má distribuição de vidro e aparência de metal martelado 26.......... Má distribuição de vidro ou variação na espessura de parede e bolha de ar 35.......... Fundo de lado ou deformado, aparência de metal martelado 36.......... Fundo de lado ou deformado e bolha de ar 56.......... Aparência de metal martelado e bolha de ar 156........ Assimetria, aparência de metal martelado e bolha de ar

241

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256........ Má distribuição de vidro, aparência de metal martelado e bolha de ar 12567.... Assimetria, má distribuição de vidro, aparência de metal martelado, e

bolha de ar

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