análise de hans andersen

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118 TEMAS E IMAGENS POLÊMICAS NOS CONTOS DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN Ana Paula Sversuti GONGORA (G-UEM) Alice Áurea Penteado MARTHA (UEM) ISBN: 978-85-99680-05-6 REFERÊNCIA: GONGORA, Ana Paula Sversuti; MARTHA, Alice Áurea Penteado. Temas e imagens polêmicas nos contos de Hans Christian Andersen. In: CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007, Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 118-128. 1. INTRODUÇÃO Enquanto gênero literário, a literatura infantil surge no século XVIII, com características muito peculiares, na medida em que seu nascimento decorre da ascensão da família burguesa e do espaço que a criança conquistava na sociedade. Entretanto, na segunda metade do século XVII, já se manifestava uma preocupação com uma literatura voltada para crianças e jovens, representada, principalmente, por Charles Perrault, na França. Mais tarde, os irmãos Grimm, na Alemanha, recolhiam contos populares e os destinavam ao público infantil. Nestas narrativas, todo o processo é vivido pela fantasia e o imaginário, com a intervenção de entidades com propriedades extraordinárias, como fadas, bruxas ou animais encantados, e, por esse motivo, os contos de fadas revelaram- se tão adequados ao público infantil. Cerca de vinte anos após a compilação dos Grimm, Hans Christian Andersen (1805-1875) inicia sua produção literária. O escritor dinamarquês é hoje consagrado como o verdadeiro criador da literatura infantil e é um dos mais famosos autores para crianças em todo o mundo. Parte dos contos de Andersen foi retirada da memória popular, e outra parte foi criação do próprio autor, fato que o diferencia de seus antecessores e o revela o grande criador da literatura destinada aos pequenos. Poucos autores conseguiram expressar tanta ternura pelo mundo das crianças, mas também raros tornaram a violência tão presente e dolorosa nesse mesmo mundo como ele. À luz do exposto, o presente artigo tem a proposta de observar os temas e imagens polêmicas nos contos de Andersen, bem como o reflexo de tais temas em seu leitor. A partir disso, pretende-se discutir a construção da personagem infantil, considerando a preocupação do autor em criar um universo literário para crianças. Para tanto, serão analisados os contos “O Patinho Feio”, “Os Sapatos Vermelhos”, “A

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Page 1: Análise de Hans Andersen

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TEMAS E IMAGENS POLÊMICAS NOS CONTOS DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN

Ana Paula Sversuti GONGORA (G-UEM) Alice Áurea Penteado MARTHA (UEM)

ISBN: 978-85-99680-05-6

REFERÊNCIA: GONGORA, Ana Paula Sversuti; MARTHA, Alice Áurea Penteado. Temas e imagens polêmicas nos contos de Hans Christian Andersen. In: CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. 3, 2007, Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 118-128. 1. INTRODUÇÃO

Enquanto gênero literário, a literatura infantil surge no século XVIII, com características muito peculiares, na medida em que seu nascimento decorre da ascensão da família burguesa e do espaço que a criança conquistava na sociedade. Entretanto, na segunda metade do século XVII, já se manifestava uma preocupação com uma literatura voltada para crianças e jovens, representada, principalmente, por Charles Perrault, na França. Mais tarde, os irmãos Grimm, na Alemanha, recolhiam contos populares e os destinavam ao público infantil. Nestas narrativas, todo o processo é vivido pela fantasia e o imaginário, com a intervenção de entidades com propriedades extraordinárias, como fadas, bruxas ou animais encantados, e, por esse motivo, os contos de fadas revelaram-se tão adequados ao público infantil. Cerca de vinte anos após a compilação dos Grimm, Hans Christian Andersen (1805-1875) inicia sua produção literária. O escritor dinamarquês é hoje consagrado como o verdadeiro criador da literatura infantil e é um dos mais famosos autores para crianças em todo o mundo. Parte dos contos de Andersen foi retirada da memória popular, e outra parte foi criação do próprio autor, fato que o diferencia de seus antecessores e o revela o grande criador da literatura destinada aos pequenos. Poucos autores conseguiram expressar tanta ternura pelo mundo das crianças, mas também raros tornaram a violência tão presente e dolorosa nesse mesmo mundo como ele.

À luz do exposto, o presente artigo tem a proposta de observar os temas e imagens polêmicas nos contos de Andersen, bem como o reflexo de tais temas em seu leitor. A partir disso, pretende-se discutir a construção da personagem infantil, considerando a preocupação do autor em criar um universo literário para crianças. Para tanto, serão analisados os contos “O Patinho Feio”, “Os Sapatos Vermelhos”, “A

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Menina dos Fósforos”, e “A Pequena Sereia”. Assim, busca-se, com a pesquisa, refletir sobre o modo como os temas e as imagens polêmicas são tratados nos contos do escritor, partindo-se do pressuposto de que a proposta dessas narrativas não é o mascaramento da realidade, mas sim mostrar que a morte, o medo, o sexo, a violência, os ritos de passagem, a miséria, a dor, o sofrimento, fazem parte da vida.

Entre 1835 e 1872, Andersen publicou, com o título geral de Eventyr, cerca de 168 contos infantis, entre os quais estão: “O Patinho Feio”, “A Pequena Sereia”, “O Soldadinho de Chumbo”, “Os Novos Trajes do Imperador”, “Os Cisnes Selvagens”, “Olé Lukoeje”, “O Guardador de Porcos”, “A Margaridinha”, “Mindinha”, “O Pinheirinho”, “A Rainha da Neve”, “Os Sapatos Vermelhos”, “A Pastora e o Limpador de Chaminés”, “A Menina dos Fóforos”, “João-Pato”, “Nicolau Grande e Nicolau Pequeno”, “O Isqueiro Mágico”, “A Princesa e o Grão de Ervilha”, “As Flores da Pequena Ida”, “As Galochas da Fortuna”, “O Rouxinol”, e outros.

No universo literário de Andersen não há a alegria e a leveza de atmosfera, presentes na maioria dos contos dos irmãos Grimm e Perrault, como afirma Coelho (1987). O que predomina em seus contos é um ar de tristeza ou dor, que é compensado por uma ternura humana dirigida, principalmente, aos pequenos e desvalidos. Além disso, as narrativas de Grimm são marcadas pelo mundo maravilhoso, e na maior parte das de Andersen, é na realidade concreta do cotidiano que o maravilhoso é descoberto.

Andersen reinventou o conto de fadas para os novos tempos. Seu primeiro livro de literatura infantil foi publicado em uma época em que as crianças já eram objeto de preocupação por parte dos adultos. A sociedade que passou a valorizar a infância atentava para a construção da vida de cada indivíduo, considerando seus pensamentos, convicções, desejos e particularidades. A literatura, por sua vez, sofreu transformações, as personagens não eram mais estereotipadas e as aventuras incluíam aspectos relativos a tensões subjetivas. Como afirmam Corso e Corso (2006), Andersen colocou muito conflitos emocionais modernos, incluindo o sofrimento subjetivo das personagens, dentro de um formato que se beneficiou dos recursos dos contos maravilhosos. Assim, recriou os conto de fadas para as necessidades de outros tempos e contribuiu para a consagração do gênero.

De acordo com Coelho (1991), Andersen, essencialmente influenciado pelos ideais românticos de exaltação dos valores populares, e pelos ideais de fraternidade e generosidade humana, revela-se uma das vozes mais puras do espírito dos “simples”, não do rudimentar e tosco, mas do singelo, do ingênuo que vive mais pelas emoções que pelo intelecto.

Além disso, embora muitas das narrativas de Andersen aconteçam no mundo fantástico da imaginação, a maioria está presa ao cotidiano. O autor viveu em uma época em que a ascensão econômica se fazia por meio da industrialização e uma nova classe de operários se formava. Assim, Andersen pôde perceber os contrastes daquela sociedade, a abundância de um lado, e miséria de outro. Segundo Coelho (1991), as histórias do escritor mostram que sua principal reação a essa situação foi mais de resignação e refúgio na fé religiosa do que de revolta contra as injustiças sociais.

É importante observar que, na opinião da autora, a emotividade que perpassa no mundo de ficção de Andersen e o seu poder de tocar a sensibilidade do leitor foram os aspectos que mais diretamente contribuíram para que o escritor conquistasse sua glória. Ainda hoje Andersen continua tendo um vasto público, pois aliou a ternura ao realismo, não omitindo traços de violência ou deixando de tratar de temas polêmicos, inerentes à vida.

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Uma das peculiaridades de Andersen é a mistura entre o maravilhoso e o realismo presente em sua matéria literária. Nas narrativas, não há fadas, exceto uma em “Os Cisnes Selvagens”, mas isso não impede a onipresença do maravilhoso em seu universo. A maioria dos contos apresenta personagens, espaço e problemática presentes na realidade.

É significativo observar que as narrativas de Andersen fluem entre a ternura e a violência. Como já foi aqui referido, poucos autores demonstraram tanta ternura pelo universo infantil, mas também poucos tornaram a violência tão presente. Os irmãos Grimm já haviam suavizado a violência existente em certas histórias de Perrault, mas ainda conservavam-na. Entretanto, na visão de Coelho (1991), nos irmãos Grimm, a violência e o mal passam quase despercebidos ao leitor, pois estes, além de serem envolvidos pela magia que domina todo o espaço, são totalmente vencidos pelo final feliz, que os neutraliza. Já em Andersen, a derrota final da personagem é muito comum e os finais negativos superam os desenlaces felizes. 2. ANDERSEN E OS TEMAS POLÊMICOS

“O Patinho Feio” é uma narrativa que muito agrada às crianças pequenas. O conto pertence à coleção lançada em 1844, época em que Andersen já criava suas próprias histórias. Assim, o patinho que se perenizou na literatura ocidental é fruto exclusivo da imaginação do autor. O conto, já bastante conhecido entre crianças do mundo todo, narra a trajetória do patinho que, por ser diferente dos irmãos, é rejeitado pela mãe e pelos outros. Após um período de maus-tratos, o patinho decide fugir, e essa fuga é uma sucessão de agressões e sofrimentos até que ele encontra os cisnes e se descobre um deles.

A narrativa foi escrita em um momento em que as crianças já eram objeto de preocupação por parte dos adultos, e a literatura passava por um período de transformações, pois as histórias começaram a incluir aspectos relativos a tensões subjetivas. Sob essa perspectiva, o Patinho Feio é um dos primeiros heróis modernos escritos para crianças, cujo drama se baseia em um profundo sentimento de rejeição. Segundo Corso e Corso (2006), poucas histórias infantis foram capazes de uma empatia tão forte e duradoura com o público, certamente por traduzir muito bem a angústia da criança pequena. Além disso, para Zilberman (1992), o patinho, diminuído perante os outros e em busca de sua identidade, sintetiza o mundo infantil, uma vez que a criança é vista como um ser menor na sociedade dominada por valores do mundo adulto.

É importante observar que os períodos de transição que ocorrem na vida de todo ser humano, ou seja, os ritos de passagem, estão presentes em “O Patinho Feio”, e a ocorrência deles na estrutura narrativa pode propiciar à criança o reconhecimento e a valorização desses momentos de transição inerentes à condição humana. Vale ressaltar que os ritos de passagem são momentos de mudança que ocorrem na vida de todas as pessoas, nos âmbitos biológico, religioso e social, como o nascimento, a morte, o casamento, a adolescência, o autoconhecimento, a descoberta do novo.

Pode-se considerar que o modo como são narrados os ritos de passagem em “O Patinho Feio” é um atrativo para as crianças. O conto já se inicia com o rito do nascimento do Patinho Feio e de seus irmãos: “Finalmente, um após o outro, os ovos foram estalando: “Pip, pip! diziam, e as gemas adquiriam vida e botavam a cabecinha de fora” (ANDERSEN, 1992, p.06).

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Outro momento no conto que pode ser entendido como um rito de passagem é a fuga do patinho do convívio familiar, pois após um período de rejeição e maus-tratos o patinho decide ir embora, e isso acarreta várias mudanças em sua vida, promovendo a descoberta do novo, como o encontro com os gansos selvagens no brejo, a chegada na casa da velha senhora, o momento na casa do camponês. Ao encontrar os gansos selvagens no brejo, pela primeira vez a personagem se depara com a morte, pois presencia o assassinato dos animais pelo caçador: “Bang, bang! ouviu-se nesse momento acima deles, e os dois gansos selvagens caíram mortos entre os juncos e água tingiu-se de vermelho...” (IDEM, idem, p.14). Além disso, a personagem sente medo diante da situação: “Juncos e bambus deitaram-se para todos os lados; foi um horror para o pobre patinho, que enfiou a cabeça embaixo da asa...” (IDEM, idem, p.15).

O patinho enfrenta muitas dificuldades desde que sai de perto de sua família até seu encontro com os cisnes, o que permite sua identificação com um grupo que o aceita como um igual. Assim, o momento em que Patinho Feio se transforma em cisne marca sua chegada à maturidade e configura, portanto, outro rito de passagem: “... mas o que ele viu na água cristalina? Ele viu debaixo de si sua própria imagem, mas não era mais um pássaro cinzento, grosseiro, feio e sem graça, era um cisne” (IDEM, idem, p.23). O reconhecimento com o novo grupo separa a vida do patinho da vida anterior.

Na visão de Zilberman (1992), a popularidade de “O Patinho Feio” decorre dos vários aspectos que o caracterizam, como por exemplo, a sua estrutura narrativa, na qual se cruzam a inventividade do escritor na criação da personagem e o aproveitamento de padrões narrativos tradicionais, o da história de aventuras, no que diz respeito ao desenvolvimento da trama, e do conto de fadas, na solução do conflito.

Outro aspecto decisivo do conto, conforme a autora, advém do significado que ele tem para o leitor. A este cumpre assumir o papel do patinho, vítima da rejeição dos outros por razões variadas, algumas irracionais, outras fruto do comodismo que leva à marginalidade os que recusam incorporar papéis sociais convencionais.

Além disso, é válido ressaltar que o patinho, como personagem central, é fundamental para a adesão do leitor ao texto. “A posição de filho, a busca da identidade e a intolerância com suas opiniões por não serem de “gente grande” propiciam a identificação do destinatário” (ZILBERMAN; MAGALHÃES, 1982, p.50). Assim, pode-se considerar que o patinho é a personagem representação da criança. Sua aventura consiste na busca da própria identidade e do lugar que irá localizá-lo perante os demais. Dessa forma, ao encontrar essa identidade, o patinho se localiza e é aceito. O conto fala da autodescoberta e da descoberta da própria identidade, o que é essencial para o crescimento.

Outro tema polêmico abordado no conto é a rejeição. Como já foi aqui observado, o patinho é maltratado por todos, inclusive pela mãe, a qual acaba desejando não vê-lo mais por não suportar a estranheza que ele provoca: “E a mãe dizia: Se pelo menos você estivesse longe daqui!” (ANDERSEN, 1992, p.12).

Ainda sobre este conto, é importante ponderar que, segundo Zilberman (1992), poucas histórias trataram de modo tão condensado e, ao mesmo tempo, tão concreto, uma das principais aspirações infantis. E o faz sob a perspectiva da criança, uma vez que o narrador apresenta as ações sob o ângulo do Patinho Feio, personagem representação da criança, e evita observações de cunho pedagógico ou lições morais, deixando espaço para a interpretação do leitor e sua participação no universo ficcional.

Outro conto muito significativo no que diz respeito aos temas polêmicos é “Os Sapatos Vermelhos”. Neste, Andersen aborda, além das muitas imagens violentas, o

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castigo, o medo, a tristeza, o sofrimento, a culpa e a religiosidade. Nesta narrativa, os traços de crueldade chocam o leitor e fazem do conto um exemplo de como a literatura destinada a crianças e jovens trata de temas polêmicos.

Em “Os Sapatos Vermelhos”, Karen, a personagem central, é uma menina muito pobre que, ao perder a mãe, é adotada por uma velha senhora. Antes, porém, da morte da mãe, Karen é presenteada pela sapateira da aldeia em que vive com um par de sapatos vermelhos. A menina, como não tem outros, vai ao enterro da mãe com os novos sapatos. Após adotar a menina, a velha senhora queima os sapatos vermelhos, alegando que aqueles eram horríveis. Entretanto, com o passar do tempo, a obsessão da menina pelos sapatos vermelhos só aumenta.

Quando atinge a idade de ser crismada, Karen ganha novos sapatos da velha senhora. Como esta não enxergava bem, é enganada pela menina e compra-lhe sapatos vermelhos, sem saber. Assim, Karen é crismada com os sapatos vermelhos e, na igreja, todos olham muito para seus pés. A velha senhora, quando sabe do que ocorrera, censura a menina e exige que esta só use sapatos pretos na igreja, ordem que a menina não obedece. Um dia, porém, um velho soldado, de muletas, com barba comprida e vermelha, junto à porta da igreja, se oferece para limpar os sapatos de Karen e diz: “-Que lindos sapatos de baile! Que fiquem firmes no seu pé, quando dançarem!”. (ANDERSEN, 2002, p.333). Depois disso, a menina passaria muito tempo dançando, pois seus pés não lhe obedeciam mais. Karen encontrou um anjo que lhe disse que ela deveria dançar sempre e mostrar-se para as crianças vaidosas, para que estas tivessem pavor dela. Dessa forma, a menina dançava sem parar e por todos os lugares, o que só teve fim quando um carrasco cortou seus pés com um machado. Karen, então, passa a usar pernas de pau e uma muleta, e se arrepende do valor que havia dado aos sapatos vermelhos.

Segundo Abramovich (1997) há muito o que se trabalhar com a criança ao lhe contar “Os Sapatos Vermelhos”. O conto já tem início com um tema polêmico, a morte da mãe da Karen. A menina fica órfã e é adotada por uma velha senhora que, algum tempo depois, também morre. Assim, Karen se sente extremamente sozinha, uma vez que esta segunda perda ocorre quando ela está dançando, momento de grande sofrimento para ela. Outro aspecto significativo no conto é a idéia do castigo, da punição, fortemente ligada à religiosidade. O fato de Karen não conseguir parar de dançar é um castigo por ter sido tão vaidosa, a ponto de só pensar nos sapatos vermelhos. As palavras do anjo confirmam essa idéia:

- Dançarás! – disse o anjo – Dançarás com teus sapatos vermelhos até estares pálida e fria, até tua pele enrugar-se como a de um cadáver. Dançarás de porta em porta, e, onde morem crianças soberbas, vaidosas, baterás à porta, para que te ouçam e tenham pavor de ti! Dançarás, dançarás sempre...(ANDERSEN, 2002, p.335)

Além disso, vale destacar que Karen vai ao Crisma com os sapatos vermelhos e, mesmo na igreja, só pensa neles. Dessa forma, é possível considerar que todo o sofrimento da menina é um tipo de punição por sua vaidade.

Lá dentro, todo mundo olhou para os sapatos vermelhos de Karen, e até mesmo as imagens como os fitaram. Quando Karen se ajoelhou ante o altar e levou o cálice de ouro aos lábios, pensou nos sapatos

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vermelhos: era como se estes boiassem no cálice à sua frente. Ela se esqueceu, até, de cantar o salmo e de rezar o “Padre Nosso”. (IDEM, idem, p.333)

É importante notar que a própria personagem vê seu sofrimento como uma

forma de expiar seu pecado. Quando não agüenta mais dançar, Karen procura o carrasco e é ela quem pede para que ele lhe corte os pés: “Não me cortes a cabeça! – pediu Karen – Pois assim eu não poderia expiar o meu pecado! Corta meus pés, com os sapatos vermelhos!” (IDEM, idem, p.336). Entretanto, a culpa acompanha a menina mesmo depois de ter os pés cortados e de seu sofrimento. Em todos os lugares aonde vai, Karen vê os sapatos vermelhos dançando à sua frente e isso a apavora: “Saiu andando tão depressa quanto podia, rumo à igreja, mas, ao chegar à porta, viu os sapatos vermelhos dançando à sua frente. Retrocedeu, apavorada” (IDEM, idem, p.336). Assim, o medo se configura como um outro tema polêmico no conto. Medo da vaidade, medo da culpa, medo de não ser perdoada, medo de ter sido abandonada por todos, inclusive por Deus. Em vários momentos, Karen sente medo: “Aterrorizada, voltou, e arrependeu-se, do fundo do coração, do seu pecado”. (IDEM, idem, p.336). E ao lado do medo, está a tristeza, pois a menina sofreu muito: “Passou a semana inteira entristecida. Chorou muito”. (IDEM, idem, p.336). Um dos aspectos que mais impressionam em “Os Sapatos Vermelhos” são as imagens de violência. Karen, ao dançar por onde os sapatos a levam, machuca-se e fica coberta de sangue:

E ela dançava sempre. Sem descanso, sem parar, dançava pela noite adentro. Os sapatos a levaram por sobre espinheiros e tocos de árvores, que a deixaram coberta de sangue. Dançando através de um tojal, chegou a uma casinha solitária. Lá, sabia-o morava o carrasco. Bateu com o dedo na vidraça. (IDEM, idem, p.335)

A imagem mais cruel e violenta do conto é quando a menina tem seus pés cortados com um machado:

Confessou todos os seus pecados, e o carrasco cortou-lhe os pés calçados com os sapatos vermelhos. Os sapatos saíram dançando, com os pés cortados, pelo campo afora, e desapareceram na mata. (IDEM, idem, p.336)

Esta cena é seguida de outra, muito triste, que demonstra a resignação da

personagem:

O homem esculpiu-lhe umas pernas de pau e umas muletas, ensinou-lhe um salmo cantado pelos pecadores, e ela, depois de beijar a mão que vibrara o machado, saiu caminhando pelo campo. (IDEM, idem, p.336)

É significativo observar que, a despeito de todas as imagens violentas presentes

no conto, a cena final faz com que o leitor esqueça que a menina tivera seus pés cortados:

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O órgão soava, e ternas eram as vozes das crianças no coro. A clara luz do sol entrava, cálida, pelas janelas da igreja. Também o coração de Karen se encheu de sol, paz e alegria. Sua alma voou para Deus, num raio de sol. E ninguém mais perguntou pelos sapatos vermelhos. (IDEM, idem, p.333)

De acordo com Coelho (1991), o castigo de Karen está relacionado ao fato de

que a vaidade é um dos sete pecados capitais que precisam ser extirpados do coração do homem. Além disso, a vaidade está ligada também à luxúria, outro pecado capital, identificado tradicionalmente pela cor vermelha. Pode-se considerar que o fato de os sapatos serem vermelhos e de haver tanto sangue presente na narrativa apontam o caráter sexual do objeto. O sangue não está somente relacionado à violência, mas também à sexualidade, que dever ser castigada, como a trajetória da menina demonstra. Para Coelho (1991), o fundo moralizante-religioso do conto está bastante claro, mas este pertence a uma época em que tais interditos faziam parte da vida do homem. À luz do exposto, é possível perceber, em “Os Sapatos Vermelhos”, os dois pólos entre os quais fluem as narrativas de Andersen: a ternura e a violência. Para alguns, esta pode parecer uma história negativa para crianças porque castiga de maneira cruel a natural vaidade e a fantasia de alguém que sonha em usar algo que lhe parece belo e atraente. Entretanto, a maneira terna com que o autor trata de assuntos considerados polêmicos supera o aspecto negativo, e mostra que a violência, a crueldade e o medo fazem parte da vida. Morte, desamparo, carências, violência em casa e pobreza são alguns temas abordados em “A Menina dos Fósforos”. O conto narra a história de uma menina muito pobre, que vende fósforos nas ruas. É noite de Ano Novo e a menina, com frio e com fome, sem conseguir vender um palito sequer, vê as luzes, a comida, as árvores de Natal, em todas as casa por onde passa. Como não agüenta o frio, a menina vai acendendo os fósforos, um a um, e, a cada chama, imagina uma cena alegre. Em uma das chamas, a menina vê sua avó, que já havia morrido e, momentos depois, ela também morre, de frio, sentada em um canto entre duas casas. A morte da menina, embora seja causada por motivos muito tristes – a fome, o frio, o desamparo, a miséria – é narrada de forma terna. A menina é levada pela avó a um lugar onde não há fome, frio ou medo. No dia seguinte à morte, a menina é encontrada com um sorriso nos lábios. É importante observar que, assim como ocorre em “Os Sapatos Vermelhos”, a cena final do conto faz com que o leitor esqueça a forma trágica que a menina morre: “Ninguém sabia que maravilhas ela vira, nem imaginava o esplendor que a cercara, com a velha avó, nas alegrias do Ano Novo” (ANDERSEN, 2002, p.356). Outro tema polêmico presente no conto são as carências da menina. A fome e o frio são retratados duramente, o que, de certa forma, pode chocar o leitor mais sensível. Além disso, é possível considerar que o conto aponta, ainda, para a temática da violência em casa, na medida em que, se a menina voltasse para casa sem ter vendido os fósforos, apanharia do pai.

Vale ressaltar que a temática da menina que vende fósforos na rua, para ajudar no sustento da casa, é muito atual. Sobre este aspecto, Abramovich (1997, p.133) diz textualmente:

Tão parecido com nossos pivetes, com nossas crianças esfomeadas, vendendo seus objetos em esquinas e praças, de dia ou de madrugada,

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querendo também – como qualquer criança – comida, agasalho, proteção, teto... querendo estar dentro duma casa e não apenas enxergando seu interior pela janela e sendo protagonistas de uma situação social injusta, cruel, desumana...Querendo ser recebidas com carinho, com amor, por sua família – como acontece com aquelas mais ricas – e desejando apenas que isso suceda enquanto ainda estão vivas, e não depois de sua morte.

Dessa forma, mesmo abordando temas considerados tão polêmicos para crianças

neste conto, Andersen faz com que a ternura e a magia de sua arte superem o lado negativo. Ao tratar de temas como miséria, morte, carências, o autor o faz sob a perspectiva da criança, abrindo espaço para a sua interpretação.

“A Pequena Sereia” foi escrito em 1836-1837 e consolidou a fama de Andersen. Em 1913, a cidade de Copenhague encomendou a estátua de bronze da Pequena Sereia, que se tornou o monumento nacional da Dinamarca. De acordo com Warner (1999), Andersen elaborou essa perturbadora história a partir de vários elementos de contos orais e escritos tanto na tradição ocidental como na oriental, sobre ondinas e selkies, gênios das águas, em que a criatura mágica podia viver na terra como mulher e ter um companheiro mortal desde que cumprisse certas condições.

Em “A Pequena Sereia” todo o amor que a sereia sente pelo príncipe, que ela salva do naufrágio, faz com que a personagem repudie sua espécie natural e se transforme em mulher. Nesse processo, a Pequena Sereia é submetida às mais terríveis dores, as quais ela suporta até o momento da morte. Assim, a narrativa trata de temas como amor, escolhas, renúncia, sacrifício, dor, sofrimento e auto-anulação. A personagem renuncia à sua condição de sereia por amor e essa escolha acarreta muito sofrimento. A narrativa gira em torno do amor que a sereia sente pelo príncipe. É por amor que ela decide deixar de ser sereia, mesmo que para isso tenha que renunciar à sua voz. Depois que o vê pela primeira vez e por ele se apaixona, a personagem não pode mais esquecê-lo e conviver com o fato de não possuir, como ele, uma alma imortal.

Há, no conto, muitas imagens de dor e sofrimento que demonstram como a Pequena Sereia se sacrificou para torna-se humana: “... cada vez que seus pés tocavam o chão, sentisse que pisava em facas afiadas (...) e embora seus pés delicados sangrassem” (ANDERSEN, 2002, p.101). Além disso, há imagens violentas, pois, aos preparar a beberagem, a bruxa corta o próprio peito para usar seu sangue: “Em seguida, cortou o próprio peito, e deixou o seu sangue negro gotejar no caldeirão” (IDEM, idem, p.99). Há, ainda, a imagem em que a bruxa corta a língua da pequena sereia: “-Pronto! – disse a bruxa, e cortou a língua da pequena sereia, que se tornou muda, não podendo mais nem cantar, nem falar” (IDEM, idem, p.99).

Outro tema polêmico apontado no conto é a sexualidade, uma vez que a bruxa do mar, ao dividir as pernas da Pequena Sereia, concede-lhe a sexualidade humana em troca de sua voz. Para Warner (1999), o poder de sedução da linguagem feminina ainda parece uma questão predominante no exercício da sexualidade das mulheres.

Um aspecto significativo a ser observado nos contos de Andersen é a construção da personagem infantil. Em cada um dos contos aqui apresentados a personagem principal é uma criança, ou uma representação desta, como no caso do Patinho Feio. Vale ressaltar que antes de Andersen, nos contos de Perrault e dos Grimm, quase não havia crianças no centro das narrativas. Em “O Patinho Feio” a personagem central é a representação da criança, ou o que simboliza a sua condição. Há, no conto, a oposição

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entre o mundo da criança, representado pelo patinho, e o mundo dos adultos. A criança se identifica com o Patinho Feio, que, diminuído perante os outros, é considerado o ser menor.

Em “Os Sapatos Vermelhos” a personagem central é uma criança, e, embora esta sofra terríveis punições, possui uma característica comum a muitas crianças – a teimosia. Karen insiste em desobedecer às ordens da velha senhora, usando os sapatos vermelhos, e se mostra uma criança muito teimosa. No conto “A Menina dos Fósforos”, a personagem principal também é uma criança e, como já foi aqui apresentado, esta representa muitas crianças carentes. O leitor pode se identificar com a menina na medida em que também tem carências, quando não financeira, de afeto, de atenção. Além disso, a Pequena Sereia também é criança no início do conto, embora cresça durante a narrativa e se transforme em mulher. Esta é descrita como uma criança “estranha, quieta e meditativa”, mas se mostra impaciente ao desejar ardentemente chegar aos quinze anos para visitar a terra pela primeira vez. Dessa forma, ao centralizar as narrativas na criança, Andersen propiciou uma maior participação do leitor no mundo ficcional. O escritor, na tentativa de criar um universo literário infantil, parte da realidade concreta e, nesta, a criança descobre o maravilhoso. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os temas polêmicos, como a morte, o medo, a violência, o sexo, os ritos de passagem, a dificuldade de ser criança, as carências, as autodescobertas, a dor, os sacrifícios, as escolhas, o sofrimento, as renúncias, as perdas, as tristezas, os desconfortos, são, muitas vezes, escamoteados ou suprimidos da literatura destinada a crianças e jovens. Entretanto, como se sabe, as fontes primárias da literatura infantil apontam a presença desses assuntos, como por exemplo, os clássicos contos de fadas, os quais não eram, em sua gênese, destinados às crianças. Foi devido à fantasia que essas narrativas se tornaram tão adequadas ao público infantil e passaram a atrair cada vez mais o seu interesse. Ao utilizarem a fantasia e o imaginário, os contos de fadas transmitem importantes mensagens às crianças e ajudam-nas a compreender o mundo. Andersen reinventou o conto de fadas para os novos tempos, na medida em que se valeu dos recursos dos contos maravilhosos, mas incluiu neles os conflitos emocionais modernos e as tensões subjetivas. Poucos autores infantis, tanto clássicos como contemporâneos, trataram a violência de forma tão dolorosa como Andersen. Entretanto, o que o singulariza é a maneira com que o faz, demonstrando uma extraordinária ternura pelo mundo das crianças em seus contos. Mesmo tratando de questões tão delicadas, o escritor, com a magia de sua arte, supera os aspectos negativos, os quais poderiam se sobressair perante tanta violência, e mostra à criança que tais assuntos fazem parte da vida.

Por fim, vale salientar que Andersen foi o primeiro escritor a se preocupar realmente com a criança e, assim, faz-se necessário uma especial atenção à sua produção, considerando sua relevância no panorama da literatura infantil. O autor continua cativando o público infantil, uma vez que aliou a ternura ao realismo, não omitindo traços de violência ou dor, ou deixando de tratar de temas polêmicos, inerentes à vida.

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REFERÊNCIAS

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ANDERSEN, Hans Christian. O Patinho Feio. Porto Alegre: Kuarup, 1992. Tradução de Tabajaras Ruas.

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ZILBERMAN, Regina. Em busca da identidade. IN: ANDERSEN, Hans Christian. O Patinho Feio. Porto Alegre: Kuarup, 1992. Tradução de Tabajaras Ruas.

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