a revolução econômica - robert heilbroner

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A Revolução Econômica - Robert Heilbroner

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  • A HISTRIA DOPENSAMENTO ECONMICO

  • ROBERT HEILBRONER

    A HISTRIA DOPENSAMENTO ECONMICO

  • FundadorVICTOR CIVITA

    (1907 - 1990)

    Editora Nova Cultural Ltda.

    Copyright desta edio 1996, Crculo do Livro Ltda.

    Rua Paes Leme, 524 - 10 andarCEP 05424-010 - So Paulo - SP

    Traduo publicada sob licena da Simon & Schuster.Todos os direitos reservados., incluindo o direito de

    reproduo no todo ou em partes.

    Ttulo original: The Wordly Philosophers - Robert L. HeilbronerCopyright 1953, 1972, 1980, 1992

    Direitos de traduo: Crculo do Livro Ltda.

    Traduo: Therezinha M. DeutschSylvio Deutsch

    Consultoria: Paulo Sandroni

    Impresso e acabamento:DONNELLEY COCHRANE GRFICA E EDITORA BRASIL LTDA.

    DIVISO CRCULO - FONE (55 11) 4191-4633

    ISBN 85-351-0810-6

  • II

    A REVOLUO ECONMICA

    Desde que desceu das rvores, o homem encarou o problemada sobrevivncia, no como indivduo, mas como membro de umgrupo social. A continuidade de sua existncia testemunho deque ele conseguiu resolver o problema; mas a continuidade tambmda carncia e da misria, at mesmo nas mais ricas naes, evi-dncia de que essa soluo foi, no mnimo, parcial.

    No entanto, o homem no pode ser severamente censuradopor seu fracasso em construir um paraso na Terra. difcil ar-rancar um meio de vida da superfcie deste planeta. A imaginaose confunde quando se tenta pensar nos interminveis esforos quedevem ter sido despendidos nas primeiras domesticaes de ani-mais, na descoberta de sementes para plantio, no primeiro trabalhode extrao de minrio. Na verdade, o homem s conseguiu per-petuar-se por ser uma criatura socialmente cooperativa.

    Mas justamente o fato de o homem depender de seu seme-lhante tornou o problema da sobrevivncia extraordinariamentecomplicado. O homem no uma formiga, convenientemente equi-pada com instintos sociais j ao nascer. Ao contrrio, ele parecefortemente inclinado a ter uma natureza egocntrica. Se suas forasfsicas, relativamente fracas, o foram a procurar cooperao, seusimpulsos ntimos ameaam o tempo todo romper o trabalho emconjunto com seus companheiros.

    Na sociedade primitiva, a batalha entre o egocentrismo e acooperao resolvida pelo meio ambiente; quando o espectro damorte pela inanio vive encarando uma comunidade de frente como a dos esquims , a pura necessidade de assegurar a prpriaexistncia impele a sociedade a uma complementao cooperativa

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  • dos trabalhos dirios. Sob condies menos severas, dizem-nos osantroplogos, homens e mulheres realizam suas obrigaes regu-lares sob a poderosa orientao das universalmente aceitas normasde parentesco e reciprocidade: em seu maravilhoso livro dobre osbosqumanos da frica, Elizabeth Marshall Thomas1 descreve comoum rix dividido entre parentes e parentes dos parentes at que,no fim, ningum come mais do que os outros. Mas essa pressotangvel do meio ambiente ou essa rede de obrigaes sociais noexiste nas comunidades desenvolvidas. Quando homens e mulheresno lutam ombro a ombro, empenhados em tarefas diretamenteligadas sobrevivncia sem dvida quando dois teros da po-pulao jamais toca na terra, penetra em minas, constri com asprprias mos, entra em uma fbrica ou quando reclamam quea unio entre parentes desapareceu, a perpetuao do animal hu-mano torna-se uma notvel proeza social.

    mais notvel ainda se a existncia da sociedade pender porum fio de cabelo. Uma comunidade moderna encontra-se mercde milhares de perigos: seus fazendeiros podem no produzir co-lheitas suficientes, seus ferrovirios podem enfiar na cabea de setornar guarda-livros ou seus guarda-livros podem resolver tornar-seferrovirios; se poucos puderem oferecer seus prstimos como mi-neiros, como peritos na pudlagem do ao, como candidatos a vrioscursos de engenharia em uma palavra, se algumas das milharesdas entrelaadas tarefas a serem desempenhadas pela sociedadeno forem realizadas , a vida industrial se tornar desesperada-mente desorganizada. A cada dia a comunidade encara a possibi-lidade de um colapso no das foras da natureza, mas dos im-previsveis desvios humanos.

    Ao longo dos sculos o homem encontrou apenas trs caminhospara evitar essa calamidade.

    Assegurou sua continuidade organizando a sociedade em tornode tradio, transmitindo as vrias e necessrias tarefas de geraoa gerao, de acordo com os usos e costumes: os filhos substituemos pais, e, assim, o padro foi sendo preservado. No antigo Egito,diz Adam Smith, por um princpio religioso, todo homem era levadoa desempenhar a mesma ocupao que seu pai, e cometeria o maisterrvel sacrilgio se mudasse para outra.2 Da mesma maneira,at bem recentemente, na ndia, algumas ocupaes eram tradi-cionalmente atribudas de acordo com as castas; de fato, em boa

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  • parte do mundo no industrializado cada qual nasce para umadeterminada tarefa.

    Pois bem, a sociedade pode resolver o problema de maneiradiferente. Pode usar o chicote das regras autoritrias para garantirque as tarefas sejam realizadas. As pirmides do antigo Egito noforam construdas porque um empreiteiro empreendedor enfiou nacabea que iria constru-las, nem os Planos Qinqenais da UnioSovitica foram feitos porque concordavam por acaso com o costumedo toma-l-d-c ou do interesse individual. Tanto a Unio Soviticaquanto o Egito eram sociedades autoritrias; poltica parte, elesasseguravam a sobrevivncia econmica por meio dos decretos deuma autoridade e por castigos que a suprema autoridade aplicavaem cada caso.

    Por incontveis sculos o homem lidou com o problema dasobrevivncia de acordo com uma ou outra dessas solues. Quero problema fosse resolvido por tradio, quer por imposio, jamaischegou a esse campo especial de estudos denominado economia.Se bem que as sociedades da Histria tenham demonstrado a maissurpreendente diversidade econmica, se bem que tenham tido exal-tados reis e comissrios, que hajam usado bacalhau seco e pedrascomo dinheiro, se bem que tenham distribudo seus bens de acordocom os padres comunitrios mais simples ou da maneira maisaltamente ritualista, desde que se regessem por costumes ou im-posies, no precisavam de economistas para tornar esse problemacompreensvel. De telogos, tericos polticos, estadistas, filsofos,historiadores, sim no entanto, por mais estranho que parea,de economistas no.

    Aos economistas caberia a descoberta de uma terceira soluopara o problema da sobrevivncia. Eles aguardavam o desenvolvi-mento de um surpreendente arranjo no qual a sociedade assegurariasua prpria continuidade deixando cada indivduo fazer o que achas-se conveniente para ele desde que obedecesse regra principalde orientao. O arranjo foi denominado sistema de mercado e aregra era de uma simplicidade decepcionante: cada qual pode fazero que lhe for mais vantajoso monetariamente. No sistema de mer-cado, o que orientava cada qual sua obrigao era o fascnio dolucro, no a fora da tradio ou o chicote da autoridade. No entanto,se bem que cada um fosse livre para deixar que seu experientenariz o dirigisse, a ao constante das pessoas umas contra asoutras resultou na necessria tarefa de orientao da sociedade.

    Foi essa paradoxal, sutil e difcil soluo para o problema da

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  • sobrevivncia que exigiu o surgimento dos economistas. Pois, ao con-trrio da simplicidade dos costumes e do comando, no era totalmentebvio que se cada pessoa se preocupasse apenas com o prprio ganhoa sociedade poderia subsistir. Tambm no estava muito claro quetodos os trabalhos sociais tanto os sujos quanto os refinados tinham que ser feitos mesmo que os costumes e o comando j noregessem o mundo. Quando uma sociedade no mais obedece regraimposta, quem poder dizer como as coisas iro terminar?

    Caberia aos economistas esclarecer esse enigma. Mas at quea idia do sistema de mercado em si mesma ganhasse aceitao,no havia qualquer enigma a esclarecer. E at poucos sculos atrs,nem todos os homens ainda tinham certeza de que o sistema demercado era vivel sem suspeitas, desgostos e desconfianas. Omundo avanara durante sculos pelo confortvel caminho da tra-dio e da imposio; para abandonar essa segurana pelas des-concertantes operaes do sistema de mercado, fazia-se necessriauma espcie de revoluo.

    Do ponto de vista da moldagem da sociedade moderna, foi amais importante revoluo que se instalou pelo menos foi, fun-damentalmente, mais perturbadora do que as revolues francesa,americana e at mesmo a russa. Para avaliar sua magnitude, paraentender o violento abalo que ela provocou na sociedade, temos demergulhar naquele distante e esquecido mundo no qual a nossasociedade se originou. S assim poder ficar claro por que os eco-nomistas tiveram de esperar tanto tempo.

    Primeira parada: Frana, 1305.3

    Estamos visitando uma feira. Os mercadores viajantes che-garam nesta manh, com seus guardas armados, montaram suastendas alegremente coloridas, comerciam entre si e com a populaolocal. Uma variedade de exticas mercadorias est venda: sedase tafets, especiarias e perfumes, couros e peles. Algumas vieramdo Oriente, outras da Escandinvia, outras, ainda, de algumas cen-tenas de quilmetros de distncia. Entre a populao comum, lordese ladies entram nas barracas, empenhados em aliviar o tdio desuas aborrecidas, incolores e senhoriais vidas; bem depressa voadquirindo, juntamente com todas as estranhas mercadorias daArbia, novas palavras vindas daquela terra incrivelmente longn-qua, tais como div, xarope, tarifa, alcachofra, espinafre, jarra.

    Mas no interior das tendas deparamos com uma estranhacena. Livros de comrcio abertos sobre as mesas, muitas vezes no

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  • passam de simples cadernos de anotaes; exemplo das anotaes deum mercador: Um homem de Whitsuntide deve dez florins. Esquecio nome dele.4 Os clculos so feitos quase sempre em algarismosromanos e geralmente as somas saem erradas; a diviso encaradacomo um mistrio e o uso do zero ainda no foi claramente entendido.E para maior espalhafato da exposio e excitao do povo, a feira pequena. A quantidade total de mercadorias que chegam Franadurante um ano, pela Passagem de Saint Gothard5 (a primeira pontesuspensa da Histria), no encheria um moderno trem de carga; aquantidade total de mercadorias transportadas pela grande frota ve-neziana no encheria um navio cargueiro moderno.

    Nova parada: Alemanha, fins de 1550.Andreas Ryff6, um mercador barbudo e vestido em couro, est

    voltando para a sua casa em Baden; numa carta que escreve esposa conta que visitou trinta feiras e que perturbado por abra-ses provocadas pela sela. Porm, perturba-se mais ainda com osprejuzos daqueles tempos; durante a viagem parado a mais oumenos cada dezesseis quilmetros, com a finalidade de pagar pe-dgio; entre Basle e Colnia paga trinta e um tributos.

    E isso no tudo. Cada comunidade que visita tem seu prpriodinheiro, suas normas e regulamentos, suas prprias leis e orga-nizao. S na regio ao redor de Baden7 h 112 medidas de com-primento diferentes, 92 medidas quadradas diferentes, 65 medidasdiferentes para secos, 163 medidas diferentes para cereais, 123medidas diferentes para lquidos, 63 medidas especiais para bebidase 80 tipos de pesos diferentes denominados libras.

    Vamos adiante: estamos em Boston, 1639.8

    Est havendo um julgamento; um tal de Robert Keayne, umvelho professor de Evangelho, um homem de admirveis talentos,rico e com um s filho, tendo passado por cima do amor conscinciae do conhecimento do Evangelho acusado de crime hediondo:teve mais de seis pence de lucro sobre um xelim, ganho esse con-siderado ultrajante. A corte debate se deve excomung-lo pelo pe-cado cometido, mas, em vista de seu passado sem manchas, final-mente se abranda e lhe d a liberdade com uma multa de duzentaslibras. Mas o pobre sr. Keayne fica to transtornado que se apre-senta diante dos mais velhos da Igreja e entre lgrimas, exibeseu corao corrupto e ganancioso. O ministro de Boston no con-segue resistir a esta preciosa oportunidade para apontar a imagemviva de um obstinado pecador e usa a avareza de Keayne como

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  • tema no retumbante sermo de domingo sobre falsos princpios decomrcio, dos quais d vrios exemplos. Entre eles estavam estes:

    I. Um homem deve vender o mais caro que puder ecomprar o mais barato que puder.

    II. Se um homem, por casualidade, perder parte de suamercadoria no mar, etc., pode subir o preo do restante.

    III. Ele pode vender como comprou, desde que seja tam-bm caro...

    Tudo falso, falso, falso, grita o ministro; ir em busca da riquezapelo interesse na prpria riqueza cair no pecado da avareza.

    Voltamos para a Inglaterra e para a Frana.Na Inglaterra, uma grande organizao comercial, a The Mer-

    chant Adventurers Company,9 elaborou os estatutos de uma corpo-rao; entre eles h regras para os comerciantes associados: nadade linguagem indecente, de brigas entre irmos, de jogos de baralho,de vigilantes ces de caa. Ningum carrega trouxas horrveis pelasruas. Sem dvida, uma estranha empresa de negcios; mais pareceuma repblica fraternal.

    Na Frana, a recente indstria de tecidos tambm tem tomadomuitas iniciativas ultimamente e um rglement promulgado porColbert em 1666 para acabar com essa perigosa e destruidora ten-dncia. No entanto, os tecidos de Dijon e Selangey10 contm, nadamais nada menos, 1.408 fios incluindo as ourelas. Em Auxerre,Avalon e duas outras cidades industriais, os fios eram 1.376; emChtillon, 1.216. Toda roupa considerada sujeita a objees ex-posta ao ridculo. Caso seja objetada trs vezes, o comerciante tam-bm exposto ao ridculo.

    H algumas coisas em comum entre todos estes fragmentosesparsos dos mundos antigos. So elas: primeiro, a idia da pro-priedade (para no dizer necessidade) de um sistema organizadocom base no ganho pessoal ainda no criou razes; segundo, ummundo econmico isolado, auto-suficiente, ainda no surgiu comseu prprio contexto social. O mundo dos negcios prticos estinetrincavelmente misturado com o mundo da vida poltica, sociale religiosa. At que esses dois mundos se separem, nada haverque se parea com o ritmo e o aspecto da vida moderna. E paraque os dois se separem ser preciso que acontea uma longa eamarga batalha.

    Pode nos parecer esquisito que a idia de lucro seja relativamente

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  • moderna; fomos ensinados a acreditar que o homem uma criaturaessencialmente aquisitiva e que, deixada por conta prpria, ela iragir como qualquer comerciante respeitado agiria. A motivao-lu-cro, dizem-nos constantemente, to velha quanto o prprio homem.

    Mas no . A motivao-lucro como a conhecemos to velhaquanto o homem moderno. Mesmo hoje a noo de lucro peloprprio lucro estranha para uma grande parte da populao domundo e tornou-se notvel pela ausncia na maior parte da Histriaregistrada. Sir William Petty, admirvel personagem do sculo de-zessete (que foi taifeiro, vendedor ambulante, fabricante de roupas,mdico, professor de msica e fundador de uma escola denominadaPolitical Arithmetick), afirmava que quando os salrios eram bons,o trabalho era insuficiente para todos, e eles eram to preguiososque trabalhavam apenas o suficiente para comer ou ento parabeber.11 E sir William no estava apenas expressando os precon-ceitos burgueses daquele tempo. Observava um fato que ainda podeser notado entre os povos no industrializados do mundo: umafora de trabalho no habituada ao trabalho assalariado, que des-conhece a vida de fbricas, que indisciplinada e alheia idiade contnua elevao do nvel de vida, no ir produzir melhor seo salrio subir; simplesmente, passar mais tempo de folga. A idiado ganho, a idia de que cada trabalhador ou trabalhadora noapenas pode, mas deve melhorar constantemente sua vida material, uma idia completamente estranha s grandes classes baixa emdia das culturas medieval, egpcia, grega e romana, emergindoapenas durante a poca do Renascimento, da Reforma e manten-do-se amplamente ausente na maioria das civilizaes orientais.Como uma onipresente caracterstica da sociedade, ela uma in-veno to moderna quanto a imprensa.

    No s a idia de lucro no to universal como s vezessupomos, como tambm a sano social do lucro tem um desenvol-vimento ainda mais moderno e restrito. Na Idade Mdia, a Igrejaensinava que no era cristo ser mercador, e por trs desse ensi-namento havia uma perturbadora fermentao na sociedade. Notempo de Shakespeare, o objetivo da vida para o cidado comum,para todos de fato menos para a nobreza, no era melhorar a si-tuao de vida, mas sim apenas mant-la. Mesmo para os nossosantepassados Peregrinos, a idia de que o lucro podia ser umatolervel ou mesmo til finalidade na vida pareceria pelomenos uma doutrina do demnio.

    A riqueza, claro, sempre existiu e a cobia est presente

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  • at nas antigas narrativas bblicas. Mas h uma enorme diferenaentre a inveja inspirada pela riqueza de uns poucos, poderosospersonagens e a luta geral pela riqueza difundida entre a sociedade.Os mercadores aventureiros existem h muito tempo, como os ma-rinheiros fencios, e podem ser vistos ao longo da Histria nosespeculadores de Roma, nos comerciantes venezianos, na Liga Han-setica, nos navegantes portugueses e espanhis que abriram ocaminho para as ndias e para as suas fortunas pessoais. Mas aaventura de poucos coisa muito diferente de uma sociedade inteiramovida pelo esprito da aventura.

    Veja, por exemplo, a extraordinria famlia Fugger12 de gran-des banqueiros alemes do sculo dezesseis. Naquela poca os Fug-ger possuam minas de ouro e de prata, concesses comerciais eat mesmo o direito de cunhar as prprias moedas; o crdito delesera maior do que a riqueza de reis e imperadores cujas guerras (eas despesas da famlia real) eles financiavam. Mas quando o velhoAnton Fugger morreu, seu sobrinho mais velho, Hans Jacob, re-cusou-se a dirigir o imprio bancrio porque os negcios da cidadee os seus prprios negcios j lhe davam muito que fazer; o irmode Hans Jacob, George, disse que preferia viver em paz; um terceirosobrinho, Christopher, tambm no se interessou. Nenhum dos her-deiros em potencial de um reinado de riqueza parecia achar queele valia qualquer esforo.

    A no ser alguns reis (aqueles que eram solventes) e algumasfamlias esparsas, como os Fugger, os primeiros capitalistas noeram pilares da sociedade, mas sim eram freqentemente discri-minados e dracins. Aqui e ali um jovem empresrio como SaintGodric13 de Finchale podia se expandir como um vagalho reben-tando na praia, reunindo mercadorias advindas de navios mercantesnaufragados em quantidade suficiente para se tornar um comer-ciante e, depois de fazer fortuna, retirar-se envolto em santidade,como um eremita. Mas esses homens eram pouqussimos. Enquantoimperava a idia suprema de que a vida na Terra era apenas umdoloroso prembulo para a Vida Eterna, o esprito para negciosno era encorajado e no recebia qualquer tipo de estmulo espon-tneo. Os reis queriam tesouros e por isso provocavam guerras; anobreza queria terras, e, como s os nobres que no respeitavama si mesmos eram capazes de vender suas propriedades ancestrais,consegui-las significava conquista, tambm. Porm, a maioria daspessoas servos, artesos e at mesmo donos de guildas industriais

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  • queria ser deixada em paz a fim de viver como seus pais tinhamvivido e seus filhos iriam viver.

    A ausncia da idia de ganho como guia normal da vida diria na verdade, o positivo descrdito em que a Igreja manteve aidia constituiu uma enorme diferena entre o estranho mundodo sculo dez ao sculo dezesseis e o mundo que comeou a separecer com o nosso, um ou dois sculos antes de Adam Smith.No entanto, tambm aqui havia uma diferena ainda mais funda-mental. A idia de construir uma vida ainda no comeara aexistir. A vida econmica e a vida social eram uma nica e mesmacoisa. O trabalho ainda no significava um meio para uma finali-dade a finalidade de obter dinheiro e as coisas que ele compra.O trabalho era uma finalidade em si mesmo, claro, abrangendodinheiro e propriedades, mas engajada em uma parte da tradio,como um modo de viver. Em uma palavra, ainda no tinha sidofeita a grande inveno social do mercado.

    Os mercados sempre existiram, desde at onde chega nossoconhecimento da Histria. As Tbuas de Tell-el-Amarna14 mencio-nam um comrcio ativo entre os faras e os reis Levantinos, em1400 a.C.: ouro e carros de guerra eram trocados por escravos ecavalos. Mas embora a idia da troca deva ser quase to antigaquanto o homem, assim como em relao idia do lucro, nodevemos cometer o erro de concluir que o mundo inteiro tinha apropenso para negociar que tem o estudante americano do sculovinte. Apenas a ttulo de curiosidade, sabe-se que entre os maoris15

    da Nova Zelndia no se pode indagar quanta comida um anzolpara pescar um bonito vale, pois esse tipo de comrcio jamais feito e essa pergunta seria considerada ridcula. Em compensao,em algumas comunidades africanas perfeitamente legtimo per-guntar quantos bois vale uma mulher troca esta que conside-ramos to ridcula quanto os maoris consideram ridcula a trocade alimentos por anzis (se bem que ainda existam entre ns re-manescentes da tradio do dote, o que diminui o abismo que nossepara dos africanos).

    Mas os mercados, quer fossem trocas entre tribos primitivascujos objetos eram casualmente espalhados pelo cho, quer fossemas fantsticas feiras ambulantes da Idade Mdia, no so o mesmoque o sistema de mercado. Isso porque o sistema de mercado nose trata apenas de uma troca de mercadorias: um mecanismopara sustentar e manter uma sociedade inteira.

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  • E esse mecanismo estava muito longe de ser claro para amentalidade do mundo medieval. O conceito de ampliao de ganhoera profundamente blasfemo, como vimos. A ampla noo de queuma luta generalizada por ganhos iria manter uma comunidadeunida teria sido considerada pouco menos do que loucura.

    H um motivo para essa cegueira. A Idade Mdia, a Renas-cena, a Reforma sem dvida o mundo inteiro at o sculo de-zesseis ou dezessete podiam no vislumbrar o sistema de mercadopelo simples motivo de que Terra, Trabalho e Capital os agentesbsicos de produo alocados pelo sistema de mercado aindano existiam. Terra, trabalho e capital no sentido de solo, sereshumanos e ferramentas coexistiam, claro, com a prpria sociedade.Mas a idia de terra abstrata, de trabalho abstrato no sugeria mente humana, de imediato, mais do que a idia de energia oumatria abstratas. Terra, trabalho e capital como agentes de pro-duo, como entidades econmicas impessoais e no humanas, soto modernos como concepo quanto o clculo. Sem dvida, noso muito velhos.

    Tomemos a terra, por exemplo. At o sculo catorze ou quinzeno havia o conceito de terra no sentido de propriedade livrementevendveis ou propriedade produtora que poporcionava renda. Haviaterras, evidente amplas propriedades, domnios feudais e prin-cipados , mas sem dvida alguma no eram propriedades paraserem compradas ou vendidas segundo as ocasies exigissem. Essasterras formavam o cerne da vida social, proporcionavam as basespara o prestgio e o status social, constituindo os alicerces da or-ganizao militar, judicial e administrativa da sociedade. Se bemque as terras fossem vendveis em determinadas condies (commuitos veculos associados), no estavam simplesmente venda.Um nobre medieval em boa situao jamais pensaria em vendersuas terras, assim como o governador de Connecticut nunca pen-saria em vender alguns condados ao governador de Rhode Island.

    Essa ausncia de comercializao aplicava-se tambm ao tra-balho. Quando falamos em mercado de trabalho, hoje, nos referimos enorme rede de demanda de emprego na qual os indivduos ven-dem seus servios a quem oferece mais. Simplesmente, essa redede demanda de emprego no existia no mundo pr-capitalista. Haviauma mixrdia de servos, aprendizes e artfices que trabalhavam,porm a maior parte de seu trabalho jamais aparecia no mercadopara ser vendida e comprada. Nos campos, o campons vivia amar-rado ao seu senhor, dono da propriedade; ele assava nos fornos do

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  • senhor, moa nos moinhos do senhor, cultivava as terras do senhore servia o senhor nas guerras, mas raramente era pago por qualquerdos seus servios: os servios eram deveres de um servo, no otrabalho de um homem livremente contratado. Nas cidades, osaprendizes entravam a servio dos artfices ou mestres; o prazo deaprendizagem, o nmero de colegas, a cota de pagamento, as horasde trabalho, os mtodos usados eram todos regulados por uma guil-da. Havia pouca ou nenhuma barganha entre servos e senhores,a no ser por ocasio de choques espordicos em que as condiesse tornassem intolerveis. Nisso havia tanto mercado de trabalhoquanto o que existe entre internos num hospital.

    Ou, ento, recursos o capital. Com certeza o capital existiano mundo pr-capitalista, no sentido de riqueza privada. Mas sebem que os recursos existissem, no havia entusiasmo para dar-lhesum novo e agressivo uso. Em vez de tentativa e risco, o lema eraSegurana em primeiro lugar. A tcnica preferida de produoera o processo mais longo e mais trabalhoso, no o mais curto emais eficiente. A publicidade era proibida e a idia de que ummestre da guilda poderia oferecer melhor produto do que seus co-legas era encarada como traio. Na Inglaterra do sculo dezesseis,quando a produo em massa no comrcio da tecelagem mostroupela primeira vez sua assustadora cabea, as guildas protestaramcom o rei. O maravilhoso trabalho das fbricas16 que suposta-mente continham duzentos teares e uma equipe de trabalho queinclua aougueiros e padeiros para alimentar a fora de trabalho era considerado ilegal por Sua Majestade: tanta eficincia econcentrao de riqueza poderia abrir um mau precedente.

    Assim, o fato de que o mundo medieval no podia concebero sistema de mercado baseava-se na boa e suficiente razo de queos elementos abstratos da produo ainda no haviam sido conce-bidos. A falta de terra, de trabalho e de capital na Idade Mdiaresultava na falta de mercado; e como faltava mercado (apesar dascoloridas feiras locais e das feiras ambulantes), a sociedade regia-sepelos costumes e tradies. Os senhores davam ordens: a produominguava ou prosperava, de acordo com elas. Ningum dava ordens:a vida prosseguia em sua rotina. Se Adam Smith tivesse vividonos anos anteriores a 1400, no teria sentido o impulso de construiruma teoria de economia poltica. No h mistrio para penetrarna falta de compreenso que fez a Idade Mdia permanecer ina-tingvel e no permitir qualquer possibilidade para a descobertatanto da ordem quanto da finalidade. tica e poltica, sim; havia

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  • muito a ser explicado e racionalizado nas relaes entre os lordesinferiores com os lordes superiores, dos lordes superiores com osreis, e um trabalho enorme para esclarecer as confuses entre osensinamentos da Igreja e as incorrigveis tendncias da classe co-merciante. Mas economia, no. Quem iria procurar leis abstratasda oferta e demanda, dos custos, ou do valor, quando a explicaodo mundo ali estava, como um livro aberto, nas leis do feudalismo,da Igreja e nos costumes de toda uma existncia? Adam Smithpoderia chegar a ser um grande filsofo moral naquela poca toprimitiva, mas nunca teria sido grande economista.

    Por vrios sculos no havia nada que um economista pudessefazer at que o auto-reprodutivo, auto-suficiente mundo irrompeuno alvoroado, disparado e disposto a tudo, sculo dezoito. Irrom-peu talvez seja uma palavra dramtica demais, porque a mudanalevou sculos se realizando, no aconteceu em um simples e violentoespasmo. Mas a mudana, por mais demorada que tenha sido, nofoi uma evoluo pacfica: foi uma angustiante convulso da socie-dade, uma revoluo.

    S para comercializar a terra para transformar a hierarquiade relacionamentos sociais em muitos lotes sem dono e em provei-tosos terrenos exigiu nada mais nada menos do que desenraizartodo um intrincado modo de vida feudal. Transformar os protegidosservos e aprendizes em trabalhadores no importa quo ex-plorador houvesse sido o manto de paternalismo requeria a cria-o de uma assustada e desorientada classe chamada proletariado.Para transformar os mestres de guildas em capitalistas era precisoensinar a lei da selva aos tmidos habitantes do quintal.

    Alm de tudo, no se tratava de uma perspectiva pacfica.Ningum queria esta comercializao da vida. S poderemos avaliarcomo foi amarga a resistncia se fizermos uma ltima viagem aopassado a fim de observar a revoluo econmica acontecendo.

    Estamos de volta Frana, no ano de 1666.17

    Os capitalistas da poca enfrentam um desafio perturbadorque a ampliao do mecanismo do mercado trouxe com seu des-pertar: mudana.

    A primeira questo a surgir foi de que modo um mestre deguilda da indstria txtil poderia ser levado a tentar uma inovaoem seu produto. O veredicto: Se um tecelo de roupas pretendeproduzir uma pea de sua prpria inveno, no deve obt-la deseu tear; precisa antes obter permisso dos juzes da cidade para

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  • empregar o nmero e o comprimento de fios de que ir necessitar,depois que o caso for considerado pelos quatro mercadores maisvelhos e os quatro teceles mais velhos da guilda. Pode-se imaginarquantas sugestes para mudanas eram toleradas.

    Pouco depois de resolvido o problema da tecelagem de roupas,surgem os botes, que provocam uma avalanche de protesto; osalfaiates estavam comeando a produzir botes para roupas, umacoisa jamais sonhada at ento. O governo, indignado com a pos-sibilidade de que uma inovao viesse ameaar uma indstria es-tabelecida, impe uma multa aos que fazem botes. Mas os vigi-lantes dos botes da guilda no se do por satisfeitos. Demandamo direito de dar buscas nas casas e guarda-roupas de quem querque fosse, de multar e at mesmo prender nas ruas quem estivesseusando os tais renegados objetos subversivos.

    Esse medo da mudana e da inovao no apenas umaresistncia cmica de alguns poucos e assustados comerciantes. Ocapital luta com vigor contra a mudana e nenhum esforo pou-pado. Na Inglaterra, alguns anos antes, uma patente para um apa-relho de fabricar meias18 no s foi recusada, como tambm o Con-selho Privado ordenou que a perigosa engenhoca fosse abolida; naFrana, a importao de tecido de algodo estampado ameaa so-lapar a indstria de roupas. Isso enfrentado com medidas quecustam a vida de 16 000 pessoas! Em Valence, de uma s vez, 77pessoas so executadas por enforcamento, 58 so despedaadas nosuplcio da roda, 635 condenadas s gals e uma nica, felizardapessoa absolvida do crime de negociar com os proibidos tecidosestampados.19

    Mas o capital no o nico agente de produo que se debatefreneticamente na tentativa de evitar os perigos do modo de vida domercado. O que acontece com o trabalho ainda mais desesperado.

    Voltemos Inglaterra.Estamos em fins do sculo dezesseis, a grande era da expanso

    e aventura. A rainha Elizabeth fez uma viagem triunfal pelo reinoe retorna com uma estranha queixa:

    H mendigos por toda parte! reclama.Esta uma observao surpreendente, pois apenas cem anos

    antes o interior da Inglaterra consistia em grande parte de proprie-trios camponeses que cultivavam suas prprias terras; tratava-se dopequeno proprietrio, orgulho da Inglaterra, o maior grupo do mundode cidados independentes, livres e prsperos. Agora, H mendigospor toda parte!20 O que havia acontecido nesse nterim?

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  • O que acontecera fora um enorme movimento de expropriao ou, melhor, o incio desse movimento que ainda comeava a sedesenvolver nessa poca. A l tornara-se uma mercadoria nova,lucrativa, e exigira que seu produtor tivesse amplas pastagens. Ospastos fazem parte das terras comuns; uma verdadeira e loucacolcha de retalhos formada por pequenas e espalhadas propriedades(sem cerca e identificveis apenas por uma rvore aqui, uma pedraali, que funcionavam como limites entre as terras de um homeme de outro) e pelas terras comuns, nas quais o gado do pequenoproprietrio se alimenta e nas quais ele colhe a turfa. Essas terrasde repente so declaradas inteiramente como propriedades abso-lutas dos lordes e no mais disponveis para uso dos camponeses.Onde antes havia uma espcie de propriedade comum, agora existea propriedade privada. Onde antes havia pequenos proprietriosrurais, agora h ovelhas. John Hales21 escreveu, em 1549: ...ondeXL pessoas viviam, agora um s homem e seu pastor ocupam tudo...Sim, as ovelhas so a causa de todos esses males, pois expulsarama lavoura dos campos, que antes proporcionavam grande quantidadede alimentos de todo tipo, e agora s h ovelhas, ovelhas.

    quase impossvel imaginar o resultado e o impacto do pro-cesso de fechamento das terras. Mais ou menos em meados dosculo dezesseis comearam a explodir revoltas; em um desses le-vantes morreram 3 500 pessoas.22 Em meados do sculo dezoito oprocesso ainda estava em plena efervescncia; s em meados dosculo dezenove estaria completando seu terrvel curso histrico.Assim, em 1820, cerca de cinqenta anos depois da Revoluo Ame-ricana, a duquesa de Sutherland23 removeu 15 000 camponeses de794 000 acres de terra, substituindo-os por 131 000 ovelhas, e comocompensao arrendou uma mdia de dois acres de terras marginaispara cada uma das famlias desalojadas.

    Mas no apenas o confisco de terras em massa que mereceateno. A verdadeira tragdia aconteceu com o campons. Despo-jado do direito de usar as terras comuns, ele no mais podia semanter como fazendeiro. Uma vez que no havia terras venda,ele no podia mesmo que quisesse transformar-se em operrio.Tornou-se, ento, a mais miservel de todas as classes sociais, umproletrio agrcola; onde no havia trabalho disponvel em lavouras,ele acabou por se transformar em indigente, at mesmo em ladroe comumente em mendigo. Aterrorizado com o crescimento alar-mante da misria atravs do pas, o Parlamento ingls tentou lidarcom o problema, comeando por confin-lo. Ps os indigentes e

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  • mendigos sob os cuidados de asilos organizados por parquias locais,mediante um auxlio simblico, e lidou com os ladres manejandoo chicote, marcando com ferro em brasa e com mutilaes. Umclrigo do tempo de Adam Smith descrevia seriamente os asilosnos quais os pobres eram relegados como Casas do Terror.24 Noentanto, o pior de tudo era que as verdadeiras medidas que o pasadotou para proteger-se dos pobres confinando-os em suas pa-rquias, onde eram apenas mantidos vivos com um mnimo de des-pesas impediram a nica soluo do problema. No era, emltima anlise, que as classes governantes fossem indiferentes ecruis. Na verdade, elas no conseguiam compreender o conceitode uma fora de trabalho fluida, mvel, que podia ir trabalharonde quer que houvesse trabalho, de acordo com os preceitos domercado. A cada passo, a comercializao do trabalho, como a co-mercializao do capital, era inconcebvel, temida e combatida.

    O sistema de mercado com seus componentes essenciais comoterra, trabalho e capital havia, assim, nascido em agonia umaagonia que comeou no sculo treze e foi seguindo seu curso at osculo dezenove. Jamais uma revoluo foi to pouco entendida,to mal recebida, to mal planejada. Mas as grandes foras domercado nascente no podiam ser negadas. Insidiosamente, elasforam destruindo as bases dos costumes; insolentemente, desman-telavam a tradio. Apesar do clamor contra os fazedores de botes,as roupas com botes conquistaram seu espao. Apesar de toda aadversidade do Conselho Privado, a mquina de fazer meias tor-nou-se to valiosa que depois de setenta anos o mesmo ConselhoPrivado teve de proibir sua exportao. Apesar de todos os supli-ciados na roda, o comrcio de algodo estampado cresceu em paz.Apesar da desesperada oposio da Velha Guarda, terras produtivasforam desapropriadas de posses ancestrais, e apesar dos protestosde empregados e patres unidos, o trabalho domiciliar foi posto disposio de aprendizes desempregados e dos lavradores sem terra.

    A enorme carruagem da sociedade, que por tanto tempo des-lizara suavemente pela estrada macia da tradio, encontrou-seento impulsionada por uma verdadeira fornalha interior. Transa-es, transaes, transaes e lucro, lucro, lucro proporcionavam odespertar de uma nova e poderosa fora-motivo.

    Que foras teriam sido suficientemente poderosas para abalarum mundo estabelecido de maneira to confortvel e introduzirem seu lugar essa nova e no desejada sociedade?

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  • No existe uma s causa. O novo modo de viver originou-se nointerior do velho como a borboleta origina-se da crislida, no interiordo casulo, e quando o impulso de vida tornou-se forte o bastante,rompeu a velha estrutura. A revoluo econmica no foi produzidapor grandes eventos, aventuras nicas, leis individuais ou personali-dades poderosas. Foi um processo de crescimento interno.

    Primeiro, houve a emergncia gradual de unidades polticasna Europa. Sob as exploses de lutas camponesas e conquistas darealeza, a existncia de um feudalismo precoce abriu caminho paraas monarquias centralizadas. E com as monarquias deu-se o cres-cimento do esprito nacional; sucessivamente, isso significou pro-teo real para indstrias favorecidas, tais como os grandes tra-balhos de tapearia francesa, o desenvolvimento de armadas e deexrcitos, com todas as suas indstrias satlites. A infinidade deregras e regulamentos que atormentaram Andreas Ryff e seus com-panheiros mercadores durante o sculo dezesseis abriu caminhopara leis nacionais, medidas comuns e moedas circulantes mais oumenos padronizadas.

    Um aspecto da mudana poltica que estava revolucionandoa Europa foi o encorajamento da explorao e aventura de estran-geiros. No sculo treze os irmos Polo empreenderam uma auda-ciosa viagem e chegaram s terras do grande Khan como indefesosmercadores; no sculo quinze Colombo25 navegou para o que eleesperava ser o mesmo destino, sob os auspcios reais de Isabel. Amudana da explorao privada para a explorao nacional foi ele-mento e parcela da mudana da vida privada para a vida nacional.Em conseqncia, as grandes aventuras nacionais dos navegantes-capitalistas ingleses, espanhis e portugueses levaram uma ondade riqueza e conscientizao dessa riqueza de volta Europa.

    Aquele que tem ouro, disse Cristvo Colombo, faz e con-segue tudo que quiser no mundo e no fim ainda o usa para enviaralmas ao paraso.

    Os conceitos de Cristvo Colombo eram os conceitos de umaera e apressavam o advento de uma sociedade orientada para o lucroe para a oportunidade, impulsionada pela caa ao dinheiro. Deve-senotar, de passagem, que os tesouros do Oriente eram realmente fa-bulosos. Com as participaes recebidas como acionista da viagem deFrancis Drake no Golden Hynd, a rainha Elizabeth pagou todas asdvidas externas da Inglaterra, equilibrou seu oramento e investiuno exterior uma alta soma, a juros compostos, que foi responsvelpor todas as riquezas de alm-mar da Gr-Bretanha em 1930!26

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  • Verificou-se uma segunda grande corrente de mudanas nalenta decadncia do esprito religioso sob o impacto das vises c-ticas, inquiridoras e humanistas do Renascimento italiano. O mundode Hoje encontrava-se lado a lado com o mundo de Amanh e avida sobre a Terra tornou-se mais importante, assim como a noode padres materiais e confortos comuns. Por trs da mudana natolerncia religiosa encontrava-se o surgir do Protestantismo, quereforou a nova atitude em relao ao trabalho e riqueza. AIgreja de Roma sempre olhara os comerciantes com olhos duvidosose no hesitara em classificar a usura como pecado. Mas no momentoem que os comerciantes elevavam-se cada dia mais na sociedade,uma vez que eles j no eram apenas um acessrio til, mas apenasparte integrante de uma nova espcie de mundo, tornava-se ne-cessria uma reavaliao de suas funes. Os lderes protestantespavimentaram o caminho para um amlgama das vidas espirituale temporal. Longe de louvar a vida de pobreza e de contemplaoespiritual, como se fosse separada da vida mundana, eles pregavamque era piedoso utilizar na vida diria de negcios um dos maioresdons ofertados por Deus. Da faltava apenas um passo para a iden-tificao de riquezas com excelncias espirituais e de homens ricoscom santidade.

    Um conto folclrico local do sculo doze fala sobre um usurrioque foi esmagado por uma esttua que caiu sobre ele no momentoem que entrava numa igreja para se casar. Quando foram ver,descobriram que se tratava da esttua de um outro usurrio que,assim, revelara o desgosto de Deus para com aqueles que negocia-vam com dinheiro. Devemos nos lembrar, tambm, de que em mea-dos dos anos 1660 o pobre Robert Keayne colidiu de frente com asautoridades religiosas puritanas devido s suas prticas de neg-cios. Nessa atmosfera de hostilidade no era fcil para o sistemade mercado se expandir. Da por diante a gradual aceitao, porparte dos lderes espirituais, da mansido e, sem dvida, dos be-nefcios do processo de mercado foi essencial para o crescimentocompleto do sistema de mercado.

    No entanto, h uma outra profunda corrente nas mudanasmateriais que eventualmente tornou o sistema de mercado possvel.Estamos acostumados a pensar na Idade Mdia como um tempode estagnao e ausncia de progresso. Contudo, em quinhentosanos a era feudal criou mil cidades (uma grande obra), interligou-ascom estradas rudimentares, mas que funcionavam, e sustentou suaspopulaes com alimentos vindos do campo. Tudo isso desenvolveu

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  • a familiaridade com o dinheiro, com os mercados e com os hbitosde vender e comprar. No decorrer dessa mudana, naturalmente,o poder comeou a gravitar nas mos daqueles que entendiam dedinheiro os mercadores e distanciou-se da desdenhosa nobreza,que no entendia.

    O progresso no foi apenas conseqncia desse lento processode monetizao. Houve tambm o progresso tcnico, de maneiraenormemente importante. A revoluo comercial no pde comearenquanto no se desenvolveu uma forma de contabilidade racionaldo dinheiro: embora os venezianos do sculo doze j estivessemat usando mtodos sofisticados de contabilidade, os comerciantesda Europa eram pouco mais do que estudantes do primeiro grauem sua ignorncia sobre essa matria. Foi preciso tempo para quese reconhecesse a necessidade da escriturao mercantil; at o s-culo dezessete, as partidas dobradas2 ainda no existiam como umaprtica padro. E at ento o dinheiro no era racionalmente con-tabilizado de maneira a permitir que um negcio em grande escalafosse feito com inteiro sucesso.

    Pode ser que o mais importante de tudo na penetrao desseefeito tenha sido um aumento de curiosidade cientfica. Embora omundo pudesse esperar at depois da era de Adam Smith para apirotcnica exploso de tecnologia, a Revoluo Industrial no teriapodido acontecer se o terreno no houvesse sido preparado por umasrie de descobertas subindustriais bsicas. A era pr-capitalistaviu o nascimento da imprensa, da fabricao do papel, do moinhode vento, do relgio mecnico, do mapa e de uma infinidade deoutras invenes comearam a ser observadas com olhar amigvel.

    Nem uma s dessas correntes, agindo sozinha, poderia tervirado a humanidade de cabea para baixo. Mas, sem dvida, mui-tas delas poderiam provocar efeitos que causassem uma violentaconvulso na organizao humana. A histria no se desloca emngulos agudos e a vasta sublevao foi se alastrando ao longo dotempo. As evidncias da maneira de existir do mercado espalhou-sepor todos os lados da antiga maneira tradicional e remanescentesdos velhos hbitos persistiram por bastante tempo depois que omercado havia, por motivos prticos, se colocado frente como oprincpio-guia da organizao econmica. Assim, os privilgios feu-dais e das guildas s foram abolidos na Frana em 1790 e os Es-

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    2 Sistema de escriturao em que cada lanamento se faz ao mesmo tempo no deve de umaconta e no haver de outra. (N. do E.)

  • tatutos dos Artfices, que regulavam as prticas da guilda na In-glaterra, s foram revogados em 1813.

    Mas em 1700, vinte e trs anos antes de Adam Smith nascer,o mundo que julgara Robert Keayne, que proibira os mercadoresde transportar desagradveis trouxas, passou a se preocupar compreos justos e o hbito de lutar pelo privilgio de prosseguir nomesmo caminho percorrido pelos pais comeou a entrar em declnio.Em seu lugar a sociedade comeou a colocar um novo tipo de ditadospessoais. Eis alguns deles:

    Todo homem tem ambio natural pelo lucro.Lei nenhuma prevalece sobre o ganho.O ganho o Centro do Crculo do Comrcio.27

    Uma nova idia comeou a tomar corpo: homem econmico um plido esboo da criatura que seguia seu crebro mquinade somar aonde quer que este decidisse lev-lo. Os livros logocomeariam a falar de Robinsons Crusos em ilhas desertas, queorganizavam seus negcios como se fossem avarentos contadores.

    No mundo dos negcios, uma nova febre de riqueza e espe-culao apoderara-se da Europa. Na Frana, em 1718, um aven-tureiro escocs chamado John Law28 organizou uma arriscada aven-tura denominada Mississippi Company, vendendo aes de umaempresa que iria explorar montanhas de ouro na Amrica. Homense mulheres lutavam nas ruas pelo privilgio de conseguir aes,eram cometidos assassinatos, fortunas surgiam da noite para odia. Um garom de hotel ganhou trs milhes de libras. Quandoa companhia estava prestes a revelar enormes para todos os in-vestidores, o governo tratou de impedir o desastre reunindo milmendigos, armando-os com picaretas e ps, fazendo-os desfilar pelasruas de Paris como se fossem um grupo de mineiros prontos parapartir rumo ao Eldorado. Claro, a estrutura desabou. Mas que mu-dana dos tmidos capitalistas de cem anos antes para a multidodos fique-rico-depressa acotovelando-se na Rue de Quincampoix;que imensa fome de dinheiro tinha esse pblico para que houvesseengolido uma fraude to descarada!

    No h qualquer dvida, o processo terminara e o sistemade mercado nascera. Assim, o problema da sobrevivncia no seriaresolvido por costumes nem por imposio, mas pela ao livre,com finalidade de lucro, de homens que tinham em comum entresi apenas o mercado. O sistema iria chamar-se capitalismo. E aidia de lucro, que era sua base, iria enraizar-se com tanta firmeza

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  • que logo os homens poderiam afirmar vigorosamente que ela eraparte eterna e onipresente da natureza humana.

    A idia precisava de uma filosofia.J foi dito e repetido at a exausto que o animal humano

    distingue-se dos demais pelo raciocnio. Isto parece significar que,uma vez tendo formado sua sociedade, ele no se contenta emdeixar o barco correr: precisa poder dizer a si mesmo que a sociedadeparticular em que vive a melhor possvel de todas e que os arranjosfeitos nela espelham, ao seu pequeno modo, os arranjos que a pro-vidncia fez fora dela. Portanto, cada era produz seus filsofos,apologistas, crticos e reformadores.

    Mas as questes com as quais os primeiros filsofos sociaisse preocupavam focalizavam-se mais na poltica do que no ladoeconmico da vida. Enquanto os costumes e a imposio governavamo mundo, o problema dos ricos e dos pobres no incomodava osantigos filsofos: era aceito com um suspiro ou rotulado como maisum sinal da ntima baixeza humana. Enquanto os homens, comoabelhas, nascessem para ser ou no zanges, ningum se preocu-paria muito com a racionalidade do trabalho dos pobres os ca-prichos das rainhas eram muito mais elevados e fascinantes

    Desde a hora do nascimento escreveu Aristteles al-guns esto destinados sujeio, outros ao domnio29, e neste co-mentrio rene-se no apenas o desdm como tambm a indiferenacom que os antigos filsofos olhavam o mundo trabalhador da poca.A existncia de um vasto substrato trabalhador era simplesmentetomado por certo; as questes de dinheiro e de mercado eram noapenas muito enfadonhas, como tambm vulgares demais para me-recer a considerao de cavalheiros e sbios. Eram um direito dosreis, divino ou no, e eram as grandes questes do poder temporale do poder espiritual que constituam a arena para idias contes-tadoras no as pretenses de atrevidos mercadores. Embora osricos desempenhassem seu papel para fazer o mundo girar, atque a luta pela riqueza se tornasse generalizada, onipresente e deuma clareza vital para a sociedade, no houve necessidade de umafilosofia geral para a riqueza.

    Mas no se pde ignorar o desagradvel e batalhador aspectodo mundo mercantil por muito tempo, porque corria-se o risco deser fulminado por ele. Afinal, quando o mercado penetrou no san-turio dos filsofos, foi o caso de se indagar como as evidncias dealguns padres principais podiam ainda no ter sido vistas. At

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  • ento, durante duzentos anos antes de Adam Smith, os filsofosteciam suas teorias a respeito da vida diria.

    Em tese, a primeira e infeliz luta pela existncia encontrouseus princpios e sua finalidade no acmulo de ouro. CristvoColombo, Cortez e Francis Drake no eram apenas simples aven-tureiros; eram considerados tambm como agentes do progressoeconmico. Para os Bullionistas (como denominamos o grupo depanfletrios e ensastas que escreveram sobre comrcio), estavamais do que evidente que o poder nacional era o objetivo naturaldo esforo econmico e que o ingrediente mais importante do podernacional era o ouro. Pertencia a eles, tambm, a filosofia dos grandesexrcitos e das aventuras, a riqueza real e a avareza nacional,alm de uma profundamente arraigada crena de que se tudo fossepermitido na busca da fortuna, uma nao no podia deixar de setornar prspera.

    Ali pelo sculo dezoito a nfase inicial pelo ouro comeava aparecer ridiculamente ingnua. Novas escolas de pensamento surgiamenfatizando cada vez mais o comrcio como a grande fonte da vitalidadenacional. A questo filosfica que eles se propuseram no foi comocontrolar o mercado do ouro, mas como criar cada vez mais riqueza,auxiliando a classe mercantil a incrementar sua tarefa.

    A nova filosofia nasceu com um novo problema: como manteros pobres pobres. Era generalizadamente admitido que, se os pobresno fossem pobres, no seriam as ferramentas honestas para o tra-balho dirio que no pediam pagamentos exorbitantes. Para formara Sociedade Feliz..., necessrio que grande nmero de pessoas con-tinue a ser Ignorante e Pobre,30 escreveu Bernard Mandeville, o maisperspicaz e malvolo cronista social do incio do sculo dezoito. Assim,tambm os escritores mercantilistas observavam e aprovavam o baratotrabalho agrcola e industrial da Inglaterra.

    Ouro e comrcio no eram as nicas idias que impunhamalguma espcie de ordem no caos da vida cotidiana. Havia incon-tveis panfletrios, vigrios, excntricos e fanticos que clamavampor justificao ou danao para a sociedade, com dezenasde explicaes diferentes. Mas o problema residia em que todos osmodelos eram insatisfatrios. Um dizia que uma nao evidente-mente no podia comprar mais do que vendia, enquanto que outroafirmava, numa teimosia empacada, que era evidente que umanao ficaria melhor se recebesse mais do que desse em troca.Alguns insistiam que era o comrcio que enriquecia uma nao eexaltavam os comerciantes; outros argumentavam que o comrcio

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  • era apenas um crescimento parasita sobre o corpo forte dos fazen-deiros. Existia quem dissesse que Deus havia determinado que ospobres fossem pobres e que mesmo que assim no fosse, sua pobrezaera essencial para a riqueza da nao; e havia quem visse a misriacomo um mal social e no conseguisse perceber de que maneira apobreza podia gerar riqueza.

    parte o mle de racionalizaes contraditrias, apenas umacoisa sobressaiu com a maior clareza: o homem insistia em umaespcie de organizao intelectual que o ajudasse a compreendero mundo no qual vivia. O duro e desconcertante mundo econmicoque se tornava cada vez mais importante. No de admirar queo dr. Samuel Johnson tenha dito: No h nada que mais exija serilustrado pela filosofia do que o comrcio.31 Em uma palavra, che-gara o tempo dos economistas.

    Fora do mle surgiu tambm um filsofo de espantosa en-vergadura. Adam Smith publicou seu Inquiry into the Nature andCauses of the Wealth of Nations (Estudo sobre a Natureza e Causasda Riqueza das Naes) em 1776, adicionando um segundo acon-tecimento revolucionrio a esse ano decisivo. Uma democracia po-ltica nascera de um lado do oceano; um programa de ao econ-mica desdobrava-se do outro. Mas se no era a totalidade da Europaa seguir a liderana poltica da Amrica, depois que Smith pintouo primeiro verdadeiro quadro da sociedade moderna, todo o mundoocidental tornou-se o mundo de Adam Smith: sua viso tornou-sea receita para os olhos de geraes. Adam Smith nunca teria pen-sado em si mesmo como um revolucionrio; apenas procurou ex-plicar o que para ele era muito claro, sensvel e conservador. Masdeu ao mundo uma imagem de si mesmo calcada no que estavapesquisando. Depois de The Wealth of Nations, os homens passarama ver o mundo com novos olhos; perceberam de que modo os tra-balhos que desempenhavam encaixavam-se na sociedade e viramque essa sociedade estava dando um majestoso passo na direode uma meta distante, mas j claramente visvel.

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