Por quê o Brasil não inova?

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Por qu temos to poucas empresas inovadoras? Este artigo analisa algumas razes comumente apresentadas para justificar a estagnao que o Brasil se encontra entre as naes que usam tecnologia a servio do crescimento e desenvolvimento. Ele apresenta uma explicao alternativa associada s conseqncias da atual poltica de avaliao da produo cientfica e tecnolgica que valoriza exclusivamente a produo bibliogrfica e no reconhece o pedido e a concesso de uma patente ou qualquer outro tipo de produo ou atividade.

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<p>Por que o Brasil recuou no ranking tecnolgico mundial</p> <p>PAGE 1</p> <p>Inovao Tecnolgica no Brasil:</p> <p>H uma pedra no meio do caminho Marcos Cavalcanti* e Andr Pereira Neto**Este artigo analisa algumas razes comumente apresentadas para justificar a estagnao que o Brasil se encontra entre as naes que usam tecnologia a servio do crescimento e desenvolvimento. Ele apresenta uma explicao alternativa associada s conseqncias da atual poltica de avaliao da produo cientfica e tecnolgica que valoriza exclusivamente a produo bibliogrfica e no reconhece o pedido e a concesso de uma patente ou qualquer outro tipo de produo ou atividade. A constatao da existncia de uma pedra no meio do caminho pode representar um primeiro passo para superao desta situao. Palavras-chave: Inovao, Inovao Tecnolgica, Gesto da Inovao, Sociedade do Conhecimento. </p> <p>Technological Innovation in Brazil:It has a stone on the way </p> <p>This paper examines some reasons commonly put forward to justify the stagnation that Brazil is among the nations that use the technology for growth and development. It presents an alternative explanation of the consequences associated with the current policy of assessing scientific and technological production that emphasizes only the bibliographic production and does not recognize the request and the granting of a patent or any other type of output or activity. The acceptance of a stone along the way may represent a first step towards overcoming this situation.Keywords: Innovation, Innovation Management, Knowledge Society.</p> <p>No meio do caminho tinha uma pedratinha uma pedra no meio do caminhotinha uma pedrano meio do caminho tinha uma pedra.Carlos Drumond de Andrade</p> <p>1. Introduo </p> <p>A sociedade contempornea vive um momento de mudana de paradigma. Os fatores que geravam riqueza no tm mais o mesmo valor hoje em dia. Ter terra, capital ou trabalho no representa mais possuir renda, prestgio e poder. Na sociedade em que vivemos o conhecimento o principal fator de produo. Os pases que conseguirem transformar conhecimento em valor econmico e social devero ser aqueles que mais iro se desenvolver neste sculo que se inicia (Drucker, P. 2001). </p> <p>O pedido e a concesso de uma patente de um produto ou processo considerado uma das expresses da transformao do conhecimento em valor econmico e social (GALINA, 2005). A patente, em sua formulao clssica, uma concesso pblica, conferida pelo Estado, aos autores pessoa fsica ou jurdica detentores dos direitos de criao e explorao de uma inveno ou modelo de utilidade (PAVITT, 1988). O indetismo ou novidade uma das exigencias para que um pedido de patente seja apresentado nacional opu internacionalmente, dependendo de onde as empresas pretendem fabricar e comercializar seu produtos (Meirelles, 2008). Segundo informaes disponveis no site do United States Patent and Trademark Office, disponvel no Anexo I, em 1998, o Brasil registrou 88 patentes. Em 2008, 133. Ou seja,em 10 anos, em termos absolutos a produo de patentes do aumentou! Em termos relativos estes dados se tornam inquietantes. Em 1998 o Brasil havia apresentado o mesmo do nmero de patentes registradas pelos chineses. Em 2004, esta distncia aumentou: O Brasil apresentou um quarto dos chineses. Em 2009, o Brasil conseguiu registrar 16 vezes menos patentes que os chineses! Em relao aos indianos o distanciamento apesar de ser menor, pode ser facilmente percebido. Em 1996 a produo brasileira de patentes superava a indiana. Em 2006 eles apresentaram trs vezes patentes que o Brasil. Em 2009 esta distncia aumentou ainda mais! O quadro abaixo ilustra esta evoluo. Quadro I Criado a partir dos dados presentes no Anexo I</p> <p>Pas19961998200020022004200620082009</p> <p>ndia3794131267376506672720</p> <p>China48881613905979701.8742.270</p> <p>Brasil6988113112161148133148</p> <p>Muitas pessoas se surpreenderam com o resultado da edio de 2009/2010 do estudo Global Information Technology, do Frum Econmico Mundial. Esta entidade internacional apresenta, desde 2002, o ranking dos pases que usam tecnologia a servio do crescimento e desenvolvimento. Nesta ltima edio o Brasil se manteve na mesma posio no ranking anterior, continuando a ocupar o 59 lugar. sua frente esto pases em desenvolvimento como frica do Sul, Chile, Costa Rica, Jamaica, Jordnia, Kuwait e Malsia. A China que ocupava a 17 posio no ranking anterior, hoje ocupa a 13. O quadro abaixo ilustra esta evoluo.Quadro IIThe Networked Readiness Index Rankings</p> <p>The Global Information Technology Report 2008-2009 2009 World Economic Forum</p> <p>Pas 2008/2009 2007/20082006/2007</p> <p>China13 17 13 </p> <p>Malsia 28 26 26 </p> <p>Chile39 34 31 </p> <p>Jordnia 44 47 57 </p> <p>frica do Sul52 51 47 </p> <p>Jamaica 53 46 45 </p> <p>ndia54 50 44 </p> <p>Kuwait57 52 54 </p> <p>Brasil 59 59 53 </p> <p>Neste artigo analisaremos uma pedra que est no meio do caminho do Brasil para a inovao tecnolgica: a poltica de avaliao da produo cientfica e tecnolgica que valoriza exclusivamente a produo cientifica nacional sob a forma de artigo publicado em revista indexada acadmica de qualidade e reconhecimento internacional.Metodologicamente sero analisadas criticamente duas razes comumente apresentadas para justificar este quadro: a falta de financiamento pblico em Cincia e Tecnologia e o pequeno nmero de pesquisadores com Doutorado no pas. Em seguida sero analisadas algumas conseqncias desta poltica. </p> <p>A constatao da existncia de uma pedra no meio do caminho pode representar um primeiro passo para superar um dos obstculos que podem explicar a posio que o pas ocupa entre as naes que usam tecnologia a servio do crescimento e desenvolvimento. </p> <p>Primeira RazoUma das razes apresentadas comumente para justificar este quadro relaciona-se com o baixo investimento pblico em Cincia e Tecnologia (C&amp;T). A questo que se apresenta, ento a seguinte: Ser que o Brasil investe pouco em Cincia &amp; Tecnologia? Segundo dados disponveis no site do Ministrio de Cincia e Tecnologia, consultado durante a elaborao deste artigo, na ltima dcada o Brasil manteve uma mdia de investimento em C&amp;T entre 1,3% e 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB), cf. quadro abaixo. Quadro III</p> <p>Dispndio nacional em cincia e tecnologia (C&amp;T)</p> <p>% em relao ao PIB / Bilhes de ReaisAno 2000200120022003200420052006200720082009 </p> <p>%1,301,331,301,261,241,271,281,381,471,63</p> <p>Bilhes15.217.219.221.324.027.230.336.644.251.1</p> <p>http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/29140.html</p> <p>Este percentual pode ser considerado baixo se for comparado ao da Coria do Sul (3%), Austrlia (1,5%), Cingapura (2,2%) e Israel (3,5%). Entretanto, se for contabilizado o dispndio por pesquisador em tempo integral o quadro modifica-se radicalmente. Para se ter uma idia da magnitude deste oramento basta mencionar que o Brasil investiu US$ 193 mil por pesquisador em tempo integral em 2000 (Brando, 2006). Este valor equivalente ao adotado nos Estados Unidos da Amrica e superior ao de diversos pases desenvolvidos como o Canad (US$ 162 mil), o Japo (US$ 153 mil), o Reino Unido (US$152 mil) ou a Austrlia (US$ 118 mil). Este valor cresceu ainda mais durante a ltima dcada, sobretudo pelo fato de muitos Governos Estaduais estarem destinando parte significativa de sua receita suas respectivas Fundaes de Amparo Pesquisa. Cruz e Chaimovich (2010), em artigo publicado no Relatrio da Unesco afirmam que: </p> <p>Uma fatia significativa do financiamento governamental de P&amp;D sai dos governos estaduais que por meio das fundaes custeiam institutos com misses especficas, institutos estaduais e instituies estaduais de educao superior. Em 2008, cerca de 32% do gasto pblico em P&amp;D se originou dos fundos estaduais. (Cruz e Chaimovich, 2010:38).</p> <p>O investimento pblico em Cincia e Tecnologia, no , portanto, desprezvel.</p> <p>E por que razo este investimento no se transforma em tecnologias a servio do crescimento e desenvolvimento do pas? A poltica de avaliao da produo cientfica e tecnolgica representa uma pedra no meio do caminho. O critrio de avaliao de produtividade, que esta poltica utiliza, valoriza exclusivamente a produo bibliogrfica em veculos acadmicos reconhecidos pela comunidade cientfica. Esta poltica no reconhece qualquer outro tipo de produo ou atividade. A criao de um produto ou processo inovador que se transforme em uma patente no utilizada como indicador na atual poltica de avaliao da produo cientfica e tecnolgica adotada pelas agncias de fomento da atividade cientfica em nosso pas. A grande maioria dos pesquisadores em tempo integral no Brasil trabalha em instituies pblicas de ensino superior. Alguns em laboratrios e centros de pesquisa vinculados a ministrios ou rgos pblicos. Todos so avaliados com o mesmo indicador de produtividade: a publicao de artigos cientficos em revistas acadmicas de circulao internacional. Esta poltica explica por que razo o nmero de patentes estagnou enquanto o nmero de artigos no para de crescer. Em 1981 o Brasil havia produzido 0,8% da produo bibliogrfica acadmica internacional. Em 2008 este ndice atingiu a casa dos 1,92%, ou seja, duplicou (Meirelles, 2008). Cruz e Chaimovich (2010) apresentam dados neste sentido. Segundo eles: </p> <p>Os cientistas brasileiros publicaram 26.482 artigos cientficos em peridicos indexados pelo Thomson Reuters Science Citation Index em 2008, fazendo do pas o 13 maior produtor de cincia do mundo. Mais de 90% desses artigos foram gerados em universidades pblicas (Cruz e Chaimovich, 2010:33).Se esta cifra representa o esforo de muitos cientistas em divulgar sua produo em peridicos internacionais ela tambm uma resposta aos critrios de produtividade estabelecidos pela Capes e CNPq. Cabe salientar, ainda, que a produo destes artigos no feita de qualquer forma e em qualquer veculo de divulgao. Ela obedece a normas rgidas e universalmente aceitas pela comunidade acadmica nacional. O cientista brasileiro deve publicar seus artigos, exclusivamente, em peridicos bem avaliados pela Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel Superior (CAPES). Para tanto foi criado pela CAPES um conjunto de procedimentos visando a estratificao da qualidade da produo intelectual, denominado QUALIS. Todos os peridicos cientficos, nacionais ou estrangeiros, so avaliados por diferentes comits de pesquisadores da CAPES que concedem uma nota que pode ser A1, A2, B1, B2, B3, B4 e B5. O mesmo peridico, ao ser classificado por duas ou mais reas distintas, pode receber diferentes graus: um para cada rea. Para a CAPES esta diferena no constitui inconsistncia, mas expressa o valor atribudo, em cada rea, pertinncia do contedo veiculado. Por isso, no se pretende com esta classificao, que especfica para o processo de avaliao de cada rea, definir qualidade de peridicos de forma absoluta. A Revista Gesto e Produo, por exemplo, recebeu o grau A2 pelo Comit de Administrao e B5 pelos comits de Matemtica. J os Comits Psicologia e Economia deram respectivamente grau B2 e B4. A estratificao da qualidade da produo seguindo este indicador realizada de forma indireta. Dessa forma, o Qualis afere a qualidade dos artigos a partir da anlise da qualidade dos veculos de divulgao, ou seja, os peridicos cientficos. A pontuao do artigo obedece a seguinte ordem: Quadro IVTipo de publicaoPontos</p> <p>Artigo publicado em peridico cientfico classificado como A1100</p> <p>Artigo publicado em peridico cientfico classificado como A285</p> <p>Artigo publicado em peridico cientfico classificado como B170</p> <p>Artigo publicado em peridico cientfico classificado como B250</p> <p>Artigo publicado em peridico cientfico classificado como B330</p> <p>Artigo publicado em peridico cientfico classificado como B415</p> <p>Artigo publicado em peridico cientfico classificado como B55</p> <p>No final de um ano o pesquisador contabiliza quantos pontos fez de acordo com o nmero de artigos publicados no respectivo peridico cientfico, seguindo a pontuao acima. Se o pesquisador atuar, por exemplo, em um Programa de Ps-Graduao de Matemtica no dever enviar seu artigo para ser publicado na Revista Gesto e Produo. Esta revista tem avaliao B5, para os professores de programas de ps-graduao de Matemtica. Neste caso o artigo valer apenas 5 pontos. Este pesquisador dever tentar publicar na American Journal of Mathematics que A1 nesta rea. Assim este mesmo artigo valer 100 pontos. Este mecanismo de avaliao dos peridicos exerce, portanto, um papel indutor da produo cientfica e inibe a interdisciplinariedade. Alem disso, qualquer outro tipo de produo intelectual no recebe qualquer ordem de avaliao ou pontuao. Assim a elaborao de cartilhas, revistas ou livros publicados em editoras comerciais no tem qualquer valor mesmo que seja muito bem aceito pelo pblico e pela crtica. Todo o produto em web tambem no contabiliza nada na produo de um cientista, mesmo que seja acessado por milhares de pessoas. Todas as revistas indexadas com o grau mximo (A1) so norte-americanas ou europias. Pressupe-se com isso que exista uma comunidade cientfica internacional homognea e abstrata e uma cincia neutra a servio de si mesma regulada por critrios universais de qualidade e de excelncia (CHAU, 1997). Uma breve anlise da produo bibliogrfica presente nas revistas cientficas norteamericanas, que representam o conhecimento hegemnico, seria suficiente para desmontar esta lgica. Muitos cientistas de pases em desenvolvimento destacam alguns obstculos estruturais e preconceitos sutis que prejudicam a divulgao de pesquisas realizadas nas naes mais pobres no mundo desenvolvido (GIBBS, 1995). Este aspecto, entretanto, no o foco deste artigo. O que interessa reiterar neste momento que investir cerca de 1% do PIB no to pouco dinheiro assim. O principal problema no o valor absoluto ou relativo do investimento e sim seu objetivo e finalidade. Atualmente todo o pesquisador brasileiro tem sua produtividade medida exclusivamente pela quantidade de artigos publicados em revistas indexadas e avaliadas pelo sistema QUALIS da CAPES. A apresentao, sob a forma de uma patente, de um resultado concreto para o desenvolvimento do pas ou para a resoluo dos graves problemas que afetam a grande maioria dos brasileiros no tem valor. Por esta razo, os impactos econmicos e sociais deste investimento no so perceptveis pela sociedade. Por esta razo a produo de patentes estagnou enquanto a de artigos continua crescendo. Esta uma pedra que est no meio do caminho da inovao tecnolgica do Brasil. O problema central no est, portanto, na falta de investimento. claro que o Pas poderia investir mais em Cincia e Tecnologia! Entretanto, o principal problema no est no montante investido, mas sim na sua finalidade. Ele no incentiva a pesquisa que busca resolver os problemas vitais e estratgicos para a Nao. Ele visa transformar este investimento em artigos publicados em revistas indexadas que pouco impacto geram na sociedade. Esta a pedra que est no meio do caminho. </p> <p>Segunda Razo </p> <p>A segunda razo aventada que impediria a inovao tecnolgica no Brasil est associada idia de que existiriam poucos profissionais com Doutorado no Brasil. Alguns especialistas justificam que...</p>