crianças do método tradicional à prática transformadora

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Artes marciais para crianças: do método tradicional à prática transformadora Artes marciales para niños: del método tradicional a la práctica transformadora Martial arts for children: from traditional method to changer practice http://www.efdeportes.com/efd143/artes-marciais-para-criancas.htm *Graduando em Educação Física - UNIBH **Mestre em Ciências da Educação - UNIBH (Brasil) Adriana Carolina Cunha Rezende* Aroldo Luis Ibiapino Cantanhede* Eduardo Nascimento** Resumo As artes marciais têm sido historicamente, ensinadas por meio de práticas de um modelo tradicional que por muitas vezes tem se mostrado autoritário, impedindo reflexões e questionamentos por parte dos seus praticantes. Esse mesmo método, ainda hoje é usado para o ensino de crianças das mais diversas faixas etárias que muitas vezes não conseguem compreender de maneira crítica o que as artes marciais têm a oferecer. O modelo tradicional pode ainda trazer riscos à formação social, psicológica, afetiva e motora se não for delineado de maneira a evitá-los. Por serem ensinadas, em sua maioria por professores que não possuem embasamento científico, as artes marciais ainda carecem de um maior uso de elementos lúdico-pedagógicos e de uma docência voltada à democracia. Este artigo propõe então a utilização de metodologias disponíveis que levem a uma prática que intervenha de maneira profunda na participação da criança nas artes marciais. Discute as artes marciais para crianças em alguns aspectos centrais e a formação em Educação Física dos professores que ministram artes marciais. Este estudo é o resultado da busca por novas propostas de ensino selecionadas de forma a darem subsídios metodológicos para o ensino de artes marciais para crianças. Unitermos: Artes marciais. Criança. Educação. Educação Física Abstract The martial arts have been historically, taught trough practices of a traditional model which for several times has shown itself authoritarian, hindering reflections and questionings from its practitioners. This same method is still used for the education of children of different ages and many times they can’t understand in a critical way what the martial arts have to offer. The traditional model can also can bring risks to the social, psychological and affective formation if it is not be delineated in way to prevent them. This article proposes the utilization of available methodologies that interfere, in an intense way, in child participation of martial arts. It discusses martial arts for children in some central aspects and the physical education graduation of teachers who teach martial arts. This study is the result of the search for new proposals of teaching which were selected in order to give methodological subsidies for the teaching of martial arts for children. Keywords: Martial arts. Children. Education. Physical Education http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 15 - Nº 143 - Abril de 2010

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As artes marciais têm sido historicamente, ensinadas por meio de práticas de um modelo tradicional que por muitas vezes tem se mostrado autoritário, impedindo reflexões e questionamentos por parte dos seus praticantes. Esse mesmo método, ainda hoje é usado para o ensino de crianças das mais diversas faixas etárias que muitas vezes não conseguem compreender de maneira crítica o que as artes marciais têm a oferecer. O modelo tradicional pode ainda trazer riscos à formação social, psicológica, afetiva e motora se não for delineado de maneira a evitá-los. Por serem ensinadas, em sua maioria por professores que não possuem embasamento científico, as artes marciais ainda carecem de um maior uso de elementos lúdico-pedagógicos e de uma docência voltada à democracia. Este artigo propõe então a utilização de metodologias disponíveis que levem a uma prática que intervenha de maneira profunda na participação da criança nas artes marciais. Discute as artes marciais para crianças em alguns aspectos centrais e a formação em Educação Física dos professores que ministram artes marciais. Este estudo é o resultado da busca por novas propostas de ensino selecionadas de forma a darem subsídios metodológicos para o ensino de artes marciais para crianças.

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Artes marciais para crianças: do método

tradicional à prática transformadora Artes marciales para niños: del método tradicional a la práctica transformadora

Martial arts for children: from traditional method to changer practice http://www.efdeportes.com/efd143/artes-marciais-para-criancas.htm

*Graduando em Educação Física - UNIBH

**Mestre em Ciências da Educação - UNIBH (Brasil)

Adriana Carolina Cunha Rezende* Aroldo Luis Ibiapino Cantanhede*

Eduardo Nascimento**

Resumo As artes marciais têm sido historicamente, ensinadas por meio de práticas de um modelo tradicional que por muitas

vezes tem se mostrado autoritário, impedindo reflexões e questionamentos por parte dos seus praticantes. Esse mesmo método, ainda hoje é usado para o ensino de crianças das mais diversas faixas etárias que muitas vezes não conseguem compreender de maneira crítica o que as artes marciais têm a oferecer. O modelo tradicional pode ainda trazer riscos à formação social, psicológica, afetiva e motora se não for delineado de maneira a evitá-los. Por serem

ensinadas, em sua maioria por professores que não possuem embasamento científico, as artes marciais ainda carecem de um maior uso de elementos lúdico-pedagógicos e de uma docência voltada à democracia. Este artigo

propõe então a utilização de metodologias disponíveis que levem a uma prática que intervenha de maneira profunda na participação da criança nas artes marciais. Discute as artes marciais para crianças em alguns aspectos centrais e a formação em Educação Física dos professores que ministram artes marciais. Este estudo é o resultado da busca por novas propostas de ensino selecionadas de forma a darem subsídios metodológicos para o ensino de artes marciais

para crianças. Unitermos: Artes marciais. Criança. Educação. Educação Física

Abstract

The martial arts have been historically, taught trough practices of a traditional model which for several times has shown itself authoritarian, hindering reflections and questionings from its practitioners. This same method is still used for the education of children of different ages and many times they can’t understand in a critical way what the martial arts have to offer. The traditional model can also can bring risks to the social, psychological and affective formation if

it is not be delineated in way to prevent them. This article proposes the utilization of available methodologies that interfere, in an intense way, in child participation of martial arts. It discusses martial arts for children in some central

aspects and the physical education graduation of teachers who teach martial arts. This study is the result of the search for new proposals of teaching which were selected in order to give methodological subsidies for the teaching

of martial arts for children. Keywords: Martial arts. Children. Education. Physical Education

http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 15 - Nº 143 - Abril de 2010

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Introdução

As artes marciais fazem parte do leque de atividades que podem e devem ser trabalhadas no

campo de atuação da Educação Física, sendo que, na maioria das vezes, sua docência é feita por

professores que possuem somente o conhecimento tecnicista da modalidade.

Mesmo cercada de brumas de mistificação, as artes marciais não diferem de outras atividades

de cunho físico e da cultura corporal do movimento e possuem características que devem ser

analisadas de maneira científica.

É objetivo deste estudo a discussão sobre as práticas do ensino de artes marciais para

crianças, propondo perspectivas em relação à sistemática tradicionalmente utilizada e de como

novas metodologias aplicáveis nos dias atuais podem contribuir para a melhoria da prática docente.

Os primeiros anos de vida são decisivos na formação da criança, pois nesse período ela está

construindo sua identidade e grande parte de sua estrutura física, sócio-afetiva e intelectual. Nessa

fase, o educador busca promover o desenvolvimento integral da criança, ampliando suas

experiências e conhecimentos, de maneira que estimule o interesse pela dinâmica da vida social e

contribua para que a sua integração e convivência na sociedade sejam profícuas e determinadas

pelos valores de solidariedade, liberdade, cooperação e respeito (1).

De maneira alguma se tentará com este estudo, cobrir a lacuna que existe de informação

referente ao presente tema, mas procurou-se facilitar o entendimento das práticas de ensino das

artes marciais para crianças atribuindo-lhe valor científico.

Estudos referentes a essa abordagem começaram a ser escritos, mas ainda existe uma

grande carência dos mesmos em Língua Portuguesa. Com isso, a interação deste assunto com as

práticas científicas tem crescido ultimamente, justificando assim este estudo.

Conceituação histórica das artes marciais

A história das Artes Marciais é milenar, suas origens remontam a Índia e ao monge budista

Bodhidarma que levou para China uma prática de combate desarmado chamado Vajramusht

desenvolvendo-a no mosteiro Shaolim (2). No entanto outros autores afirmam que várias outras

artes marciais já existiam anteriormente à chegada de Bodhidarma (3).

Criadas primeiramente com o intuito de autodefesa foram aliadas às praticas das religiões

orientais como o Budismo, o Xintoísmo e o Confucionismo. Tal união fez com que as artes marciais

deixassem de ser meramente uma prática corpórea e se transformassem em uma filosofia, uma

maneira de viver melhor encontrando-se o equilíbrio necessário entre o corpo e a mente.

Após inúmeras fragmentações ocorridas ao longo dos tempos, fragmentações essas

relacionadas aos movimentos, métodos de ataque e defesa, técnicas de combate, uso de armas

brancas, surgiram às artes marciais que conhecemos atualmente. Elas foram moldadas por mestres

das mais diferentes concepções filosóficas e conhecimentos sobre o ser humano (4) são passiveis de

citação, por exemplo: Jigoro Kano, do Judô; Ginchin Funakoshi e Hironori Otsuka, do Karate;

Morihei Ueshiba, do Aikido.

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Todos esses mestres conseguiram, através dos métodos de lutas ensinados por eles,

aceitação por parte da sociedade, não só pelas habilidades que possuíam, mas, por terem em seus

processos de ensino, uma contextualização filosófico-social, educacional, política e pedagógica.

Para se ter idéia disso a própria UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a

Ciência e a Cultura) declarou que o Judô é uma das práticas físicas mais aconselhadas dos 5 aos

14 anos (5); e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN's) vislumbram a prática de lutas nas aulas

de Educação Física em nosso país (6). Essas citações corroboram para a contextualização das artes

marciais como elemento da cultura corporal de movimento e área de atuação do profissional de

Educação Física (7).

O método tradicional de ensino das artes marciais

Muito embora haja um flagrante desenvolvimento nas áreas de atividades físicas relacionadas

às artes marciais como campo da Educação Física, que deu cunho mais científico á prática, a

metodologia tradicional ainda é a vertente mais adotada pelos senseis (professores). As aulas

ainda são cópias das que são ministradas nos dojôs (locais de treinamento) orientais (8). E é nessa

contextualização que podem ocorrer erros de metodologia que ultrapassam o campo do ensino e

se transformam em perigos para a vida, como exemplo a proibição da hidratação durante uma

seção de treinamento.

Outro aspecto muito comum nesta metodologia é a falta de interação e diálogo professor-

aluno que pode, segundo pensa o método tradicional, acarretar a quebra da disciplina. Há uma

falta de reflexão ou questionamento dos alunos que se tornam, “cegos discípulos de seus mestres” (9).

Quanto à transmissão dos conhecimentos, na metodologia tradicional ela se torna bancária,

onde o professor é possuidor dos métodos e do conhecimento e o aluno deve “sacá-los” ao invés

de construir formas particulares de aprendizagem (10).

O método tradicional de ensino de artes marciais: herança das sociedades

orientais

Muito do que é feito como prática de ensino de artes marciais no nosso país se deve ao fato

das mesmas estarem atreladas ao modus vivendi das culturas orientais nas quais foram trazidas

para o Brasil. Um perigo muito comum a esta prática e merecedor de cuidados é o fato do aluno se

afastar completamente da realidade sócio-cultural do seu país e tentar se apropriar de outra, (no

caso as orientais), o que transformaria a prática em uma alienação. E é esse um dos equívocos

recorrentes no ensino das artes marciais, a alienação dos educandos do contexto sócio-cultural de

sua própria nação. Ao adentrar a sala de treinamento passa-se por uma “porta mágica” que nos

leva para um Japão, China ou Coréia diminutos, onde a cultura desses países se torna mais

importante que a cultura pátria, tanto para o aluno como para o professor.

Por causa desta alienação, ainda há práticas autoritárias advindas do método tradicional de

ensino de artes marciais (11), tais quais: rituais mecanizados sem uma abordagem pedagógica sobre

a ação que está sendo realizada, relação Sempai-Kohai (professor-aluno) vertical, misticismo nas

práticas filosóficas, inaplicabilidade do conhecimento adquirido para a vida, etc.

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Artes marciais para crianças e especialização precoce

Foi constatado em estudo (12) que há um processo de especialização precoce nas crianças em

função do processo de orientalização já discutido, pois existe uma constante necessidade de se

demonstrar através da vitória sobre alguém o conhecimento aprendido no dojô. Esse processo é

resultante das características dos métodos tradicionais de ensino que levam seus praticantes ao

pensamento competitivo muito cedo e sem a estrutura psicológica necessária.

Em decorrência cria-se uma cobrança muito alta em torno de resultados como se as crianças

fossem adultos em miniatura prontos a suportar uma carga psicológica além de sua preparação.

Fatores importantes neste contexto são o treinamento e as competições em si que se moldam

a forma dos adultos sem levar em consideração o desenvolvimento biológico, social, psicológico e

motor da criança (13,14).

A precocidade esportiva em crianças pode acarretar inúmeras injúrias de ordem psicossocial e

fisiológica como, por exemplo: medo exagerado, ansiedade, agressividade, perda do apetite

alterações do humor, lacunas no desenvolvimento motor, aumento de lesões e afastamento do

círculo de amigos e familiares (14). Alteração nos estágios maturacionais da criança também podem

ocorrer ao se tentar alcançar um alto nível (15).

Freire (16) discorre assim sobre a competição colocada como foco central na vida de uma

criança:

“Ao envolver a criança em propostas de competição, no entanto, é necessário, não criar um

clima competitivo exacerbado, que possa deteriorar a qualidade do movimento. Se a competição

pode acarretar maior empenho das crianças em acertar, os exageros, por sua vez podem

prejudicar a aprendizagem motora, pois a ênfase exclusiva na competição faz com que

desconsidere o gesto que está realizando...”.

Outro estigma que a precocidade acarreta é a especialização em uma ou duas técnicas,

impedindo que o praticante vislumbre a motricidade de maneira ampla em inúmeras situações.

Isso se torna prejudicial tanto para o seu desenvolvimento motor (17) como para uma possível

condição de atleta, pois a variabilidade de técnicas aumenta a imprevisibilidade das ações (18) o que

conseqüentemente também aumentará a possibilidade do sucesso de um atleta que treina de

maneira mais completa. Há um encurtamento do tempo competitivo do atleta em função da

especialização precoce, que acarreta também, limitação técnica e maior suscetibilidade a lesões (19).

A especialização precoce pode impedir a aquisição de padrões fundamentais do movimento o

que pode levar a um déficit em outras fases do desenvolvimento motor da criança (20).

Outra questão a ser levantada a respeito da ótica tradicionalista é o do ensino de técnicas

complexas, ou seja, como determinados golpes, rolamentos, defesas, esquivas, devem ser

ensinados e para qual faixa-etária devem ser ensinados. Muitas das vezes algo muito complexo é

ensinado em fases de desenvolvimento que não são próprias, submetendo (21) a criança a

problemas de ordem psicológica, comportamentais, físicas e de cognição.

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Deve-se ter sempre em mente o alerta de pensadores do processo ensino- aprendizagem:

ensinar do simples para o complexo (22,23).

Artes marciais para crianças: qualidade de vida ou perigo iminente?

Muito se tem falado na atualidade na melhoria da qualidade de vida, e obviamente esse

discurso também se refere às crianças (24). Esse fato faz com que inúmeros pais busquem nas artes

marciais uma forma de atrelar a tão sonhada qualidade de vida a métodos disciplinadores para

seus filhos. Afinal, na visão dos pais e, também de uma parcela da literatura, “esporte é fator de

grande importância para a formação do indivíduo” (25). Essa busca é então remetida às artes

marciais.

Cabe entender se esta ação traz realmente as benesses procuradas ou apenas escondem

armadilhas tanto psicológicas, como sócio-afetivas e motoras.

As artes marciais foram criadas com intuito de guerra e dentro de uma conjuntura que pouco

poderia ser associada a um discurso pacificador e de qualidade de vida. Pois ao se falar de artes

marciais temos em foco atividades físicas predominantemente de contato, com uma historicidade

de confrontação (26). Essas atividades podem levar as lesões ortopédicas graves (27), lesões crânio-

faciais (28) em função do contato físico (chutes e socos) com o adversário, e ainda o risco de

contaminação por contato com o sangue (29).

É preciso então repensar qual a representatividade da arte marcial para uma criança. O que

se quer e o que se espera que ela aprenda como praticante. Muito do que se vê nos dias atuais

são pais satisfeitos pela promoção para o próximo nível do seu filho sem que isso revele algo

transformador para a criança.

Com isso é necessário que o ensino de artes marciais esteja pautado no direcionamento do

desenvolvimento físico e psicológico, fazendo com que os jovens possam ter a capacidade de agir

de maneira racional e positiva (27).

Artes marciais para crianças: uma visão pedagógica

O professor de artes marciais para crianças deve sempre ter em mente que faz parte do

processo de desenvolvimento social, cognitivo, psicológico e afetivo dos seus alunos e através do

processo ensino-aprendizagem, que requer sempre dois personagens em atividade para que

ocorra, deve procurar metodologias que levem a autonomia do praticante objetivando assim esse

desenvolvimento (30).

Ao elaborar atividades, dentro de um processo de ensino-aprendizagem, o professor pode

associar as práticas de artes marciais ao cotidiano do aluno buscando assim valorizar seu

conhecimento prévio (31). Torna-se importante então, trazer ao educando informações,

fundamentação ética e princípios que o ajudem na sua vida. Ou seja, o professor deve mostrar ao

aluno, por exemplo, que as artes marciais sempre estiveram alinhadas a contextos belicosos, mas

que sofreram transformações em busca do desenvolvimento físico, mental e espiritual. Levar o

aluno a pensar criticamente também deve ser um objetivo no “dojô” (31). O ensino de artes

marciais requer uma atenção especial na sua interação pedagógica. O objetivo está muito além do

embate físico e “da dimensão corporal visível da luta” (33).

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Artes marciais para crianças: a necessidade de embasamento acadêmico

Enfoque de importância sem precedentes é de que o “sensei” que quer ministrar aulas de

artes marciais para crianças deve ter sempre em mente a docência de maneira científica. Para que

isso aconteça nada mais acertado do que a formação em Educação Física, afinal as artes marciais

fazem parte da cultura corporal do movimento (6) e com o advento da Lei 9696/98 elas deveriam

ser ensinadas por Profissional possuidor de Diploma nessa área do conhecimento, ou seja, o

Profissional de Educação Física (34). Tal atitude culminaria na exclusão de indivíduos que não

possuem bases sócio-científicas necessárias à docência das artes marciais.

Muito embora, o meio acadêmico tenha demorado ou falhado em relação à contextualização

das artes marciais (35) e em tê-las dentro da Universidade, não se pode negar de forma alguma que

a formação acadêmica é de vital importância para o ensino.

Argumenta-se que muitos profissionais de artes marciais com anos de ensino foram deixados

à margem da Lei que regulamentou a profissão de Educação Física e ainda que, as Universidades

não possuem professores aptos ao ensino de artes marciais (36). Entretanto a própria lei que

regulamentou a Educação Física continuou a dar espaço àqueles que outrora trabalhavam na área

e podiam comprovar tal situação (9,34).

No entanto a formação superior em Educação Física está acima de critérios apenas técnicos,

chegando ao limiar da questão ética, sociológica, pedagógica, biológica, entre outros pressupostos

temáticos.

Conclusão

Conclui-se então que o método tradicional de ensino de artes marciais é uma metodologia em

uso nos dias atuais. Sua utilização ainda tem levado às atitudes perigosas quando do ensino para

crianças. Isso se dá em função da referida metodologia trazer consigo resquícios das sociedades

orientais onde as artes marciais se desenvolveram. A precocidade competitiva, a alienação cultural,

o autoritarismo e práticas não democráticas no dojô, lesões e problemas de ordem motora e

psicológica, e finalmente, a não valorização da ação crítica do aluno são exemplos de como a

metodologia tradicional é exercida negativamente. O método tradicional, também deixa uma

lacuna gigantesca entre o professor e o aluno, lacuna esta que nos dias atuais se torna inaceitável.

O respeito ao mestre e as tradições das Artes Marciais devem ser considerados, no entanto esse

respeito não pode nunca advir de práticas autoritárias, mas da relação pedagógica e afetiva do

aluno em relação ao professor (37).

A transferência do método de ensino oriental para o modus vivendi brasileiro deve conter

modificações afetivas e pedagógicas, adaptadas a realidade educacional brasileira, para que as

crianças não se sintam reprimidas e saturadas (38).

Há possibilidades imensuráveis na prática das artes marciais, no entanto, a sua total

associação a cultura oriental, desvalorizando a cultura nacional onde ela está inserida, continua a

trazer sérias dificuldades para um ensino voltado à democracia.

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Assim sendo faz-se necessária uma reflexão sobre essa metodologia de ensino, rejeitando

toda e qualquer forma de autoritarismo que ainda esteja presente no ensino de qualquer arte

marcial.

Conhecimentos pedagógicos, didáticos e organizacionais podem e devem ser utilizados pelos

professores de maneira a facilitar o processo ensino-aprendizagem. Uma diversidade de materiais

está ao alcance da criatividade do professor para o ensino tais como cordas, bolas, cones, balões,

etc.(5)

Conclui-se também que a Graduação em Educação Física é essencial para o professor de artes

marciais para criança. É no meio acadêmico que o mesmo poderá obter subsídios para uma melhor

práxis, visando assim à docência de maneira mais completa. Entende-se que a iniciação esportiva

das lutas deveria ser dada, principalmente, pelos professores que além do domínio técnico da

modalidade possuíssem também a formação de licenciatura em Educação Física. A Lei 9696/98,

que regulamenta as atividades próprias dos Profissionais de Educação Física, obriga o profissional

(formado ou não formado) que trabalha com a luta obter uma formação mais profunda para (39)

desenvolver um melhor trabalho, sinalizando positivamente para os profissionais das lutas para as

futuras gerações (40).

Finalmente, conclui-se que o ensino de artes marciais para crianças tem de ter como objetivo

principal transformações de ordem holísticas, integrais. Onde o pensamento crítico deve integrar as

ações pedagógicas nos dojôs, estabelecendo situações polêmicas, que reflitam conflitos de idéias,

frente a uma realidade, levando os alunos a ter um conhecimento mais elaborado, crítico e

reflexivo. Visando assim o desenvolvimento do ser humano em todos os seus aspectos. Caso isso

não seja a premissa, o ensino se perde em práticas mecânicas sem valor.

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