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Ministério Público do Estado de Pernambuco Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara da Fazenda Pública da Capital. Ministério Público do Estado de Pernambuco, representado pelos Promotores de Justiça que a presente subscrevem, no uso de suas atribuições legais em defesa dos interesses difusos, coletivos e individuais indisponíveis, notadamente do patrimônio público, diante do que consta das peças de informação em anexo (Inquérito Civil Conjunto nº 04/2007), na forma e com fundamento nos artigos 37, 127 e 129, III, da Constituição da República combinados com os artigos 1º, inciso IV e 5º da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985 (Lei da Ação Civil Pública); 1º e 25, inciso IV, alínea a da Lei nº 8.625, de 12 de fevereiro de 1993 (Lei Orgânica Nacional do Ministério Público); 1º e 4º, inciso IV, alínea a da Lei Complementar nº 12, de 27 de dezembro de 1994 (Lei Orgânica do Ministério Público do Estado de Pernambuco) e nos dispositivos legais adiante invocados, vem à presença de Vossa Excelência propor a presente AÇÃO CIVIL PÚBLICA pelas razões de fato e de direito adiante aduzidas contra Maria Luiza Martins Aléssio, Secretária de Educação da Cidade do Recife, casada, inscrita no CPF/MF sob o número 074.706.494-68; Edna Maria Garcia da Rocha Pessoa, Assessora Executiva da Secretaria de Educação da Cidade do Recife, casada, inscrita no CPF/MF sob o número 166.336.444-34; Marília Lucinda Santana de Siqueira Bezerra, ex-Diretora Administrativa e Financeira da Secretaria de Educação da Cidade do Recife, casada, inscrita no CPF/MF sob o número 024.918.314-57; Gustavo Luiz Leite, ex-Gerente de Engenharia e Obras da Secretaria de Educação da Cidade do Recife, casado, inscrito no CPF/MF sob o número 931.997.084-04; Rua 1º de Março nº 100 – Santo Antonio – Recife/PE – CEP: 50010-070 – Fone (81) 3419-7195 1 de 13

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Ministério Público do Estado de PernambucoPromotoria de Justiça de Defesa da Cidadania da Capital

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da Vara da Fazenda Pública da Capital.

Ministério Público do Estado de Pernambuco, representado pelos Promotores deJustiça que a presente subscrevem, no uso de suas atribuições legais em defesa dosinteresses difusos, coletivos e individuais indisponíveis, notadamente do patrimôniopúblico, diante do que consta das peças de informação em anexo (Inquérito CivilConjunto nº 04/2007), na forma e com fundamento nos artigos 37, 127 e 129, III, daConstituição da República combinados com os artigos 1º, inciso IV e 5º da Lei nº 7.347,de 24 de julho de 1985 (Lei da Ação Civil Pública); 1º e 25, inciso IV, alínea a da Lei nº8.625, de 12 de fevereiro de 1993 (Lei Orgânica Nacional do Ministério Público); 1º e4º, inciso IV, alínea a da Lei Complementar nº 12, de 27 de dezembro de 1994 (LeiOrgânica do Ministério Público do Estado de Pernambuco) e nos dispositivos legaisadiante invocados, vem à presença de Vossa Excelência propor a presente AÇÃOCIVIL PÚBLICA pelas razões de fato e de direito adiante aduzidas contra

Maria Luiza Martins Aléssio, Secretária de Educação da Cidade do Recife, casada,inscrita no CPF/MF sob o número 074.706.494-68;

Edna Maria Garcia da Rocha Pessoa, Assessora Executiva da Secretaria de Educaçãoda Cidade do Recife, casada, inscrita no CPF/MF sob o número 166.336.444-34;

Marília Lucinda Santana de Siqueira Bezerra, ex-Diretora Administrativa eFinanceira da Secretaria de Educação da Cidade do Recife, casada, inscrita no CPF/MFsob o número 024.918.314-57;

Gustavo Luiz Leite, ex-Gerente de Engenharia e Obras da Secretaria de Educação daCidade do Recife, casado, inscrito no CPF/MF sob o número 931.997.084-04;

Rua 1º de Março nº 100 – Santo Antonio – Recife/PE – CEP: 50010-070 – Fone (81) 3419-7195 1 de 13

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Alexandre El Deir, Gerente de Serviços e Obras de Engenharia da Secretaria deEducação da Cidade do Recife, casado, inscrito no CPF/MF sob o número252.463.994-00; e

JV & F Construções Ltda, inscrita no CNPJ/MF sob o número 05.020.483/0001-00.

1. DOS FATOS

Em face de representação formulada pelo Sindicato dos Professores da Rede Municipaldo Recife - Simpere, a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania – Defesa eProteção do Patrimônio Público e Promoção e Defesa do Direito Humano à Educação –instaurou o Inquérito Civil Conjunto nº 04/2007 para apurar as condições em que seencontravam a estrutura física (conservação e adequação) dos prédios onde funcionamas escolas e creches da rede pública municipal de ensino; a superlotação das salas deaula (m2 por aluno); o fornecimento e a qualidade da merenda oferecida aos alunos darede pública municipal de ensino.

Na instrução do citado procedimento, foram requisitadas à Secretaria de Educação,Esportes e Lazer do Município do Recife informações sobre os processos de reformade escolas e creches municipais, bem como foram ouvidos os engenheiros Alexandre ElDeir e Gustavo Luiz Leite, além das gestoras Maria Luiza Martins Aléssio e MaríliaLucinda Santana de Siqueira Bezerra.

De igual modo, foram solicitados documentos constantes da Auditoria Especial nº0602025-2 (Relatório Preliminar de Auditoria - DOC. 01), ora em tramitação noTribunal de Contas do Estado, a qual tem por objeto a contratação direta de empresas deengenharia para serviços de reformas das escolas e creches municipais no exercíciofinanceiro de 2006. Tal solicitação foi atendida através do Processo de Destaque nº0704182-2 (Decisão TC nº 1402/07- DOC. 02).

Do conjunto probatório verifica-se que, no exercício financeiro de 2006, a Secretaria deEducação emitiu 239 Notas de Empenho em favor de 92 empresas para a reforma de195 unidades educacionais, no valor total de R$ 2.010.921,14 (dois milhões, dez mil,novecentos e vinte e um reais e catorze centavos), conforme relação de notas deempenho emitidas no referido exercício financeiro para contratação direta de serviços eobras de engenharia com fundamento no art. 24, inciso I, da Lei nº 8.666/93 (DOC. 03). O Relatório da Auditoria Especial nº 0602025-2 tem a seguinte conclusão:

Diante da existência das irregularidades relatadas ao longo deste relatório e tendo emvista o que dispõe o art. 7º da Lei 8.429/92 (Lei de Improbidade Administrativa), osautos deste processo deverão ser encaminhados ao Ministério Público. Além disso, asirregularidades relatadas, independente da devolução, são passíveis de aplicação demulta prevista no artigo 73, da Lei Orgânica do TCE/PE nº 12.600/2004, alterada pelaLei nº 12.640/2004.

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4. Quadro de detalhamento de débitos

Item Irregularidade Legislação Infringida Valor passível dedevolução (R$)

3.1

Estabelecimentos queapresentaram os serviçosliquidados e pagos, mas nãoexecutados.

3.2

Estabelecimentos queapresentaram os serviçosliquidados e pagos, masexecutados parcialmente.

CF, a Lei 10.172/01 que aprova oPlano Nacional de Educação, a Lei deDiretriz e Bases da EducaçãoNacional, os Princípios daAdministração Pública e a Lei4.320/64.

145.360,67

41.214,40

3.3 Outras irregularidades

3.4 Contratação de empresas semcomprovação da RegularidadeFiscal

Lei nº 9.012/95 e o art. 195, § 3º daCF/88.

Total 186.575,07

Entre tais contratações, foi realizada a cotação relativa aos serviços de engenharia parareforma da Escola Municipal Karla Patrícia. Para tanto, a Gerência de Engenharia eObras coletou proposta da empresa JV & F Construções Ltda.

Em conseqüência, em 1º de agosto de 2006, através da NEOP 2006NE06791 (DOC.04), foi realizada a contratação da empresa JV & F Construções Ltda para a realizaçãodos seguintes serviços de engenharia na Escola Municipal Karla Patrícia:

Quantidade Valor Unitário Descrição 310,0 3,11 demolicao de cobertura com telha ceramica

5,0 5,97 demolicao de revestimento de piso cimentado 5,8 4,87 demolicao de alvenaria de 1/2 vez

11,8 15,26 alvenaria de tijolos de 8 furos 8,6 45,97 fornecimento e assentamento de divisoria 1,5 153,53 fornecimento e assentamento de porta de 0,80 x 2,10

50,0 22,97 cobertura com telha ceramica tipo colonial 260,0 10,05 retelhamento com telha ceramica 23,6 3,17 chapisco com argamassa de cimento e areia 23,6 13,48 revestimento com argamassa de cimento e areia 6,0 32,76 revestimento em azulejo branco classe c

31,4 33,60 fornecimento e instalacao de forro em pvc 5,0 14,14 lastro de piso com 5 cm de espessura 5,0 35,04 piso em lencol de granito artificial

17,6 5,47 pintura latex em paredes internas inclusive selador e sem massa corrida 2,0 55,45 fornecimento e assentamento de caixa de ar condicionado

15,0 4,30 eletroduto de pvc rigido rosqueavel 30,0 2,67 cabo de cobre (1 cond) tempera mole 6,0 8,02 disjuntor monopolar termomagnetico 2,0 46,53 disjuntor tripolar termomagnetico 1,0 63,74 quadro de distribuicao metalico 4,0 37,02 ponto de luz em teto ou parede

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2,0 31,56 ponto de interruptor de 1 seccao 6,0 93,43 ponto de tomada universal (2p+1t) 2,0 114,92 ponto de tomada para ar condicionado 2,0 85,00 ponto de tomada para computador 4,0 77,91 luminaria tipo sobrepor aberta 1,0 34,90 assentamento de haste de aterramento 2,0 35,68 ponto de esgoto para bacia sanitaria 2,0 30,49 ponto de esgoto para lavatorio ou mictorio 4,0 25,20 ponto de agua inclusive tubulacoes e conexoes 2,0 93,86 fornecimento e assentamento de bacia sanitaria 2,0 65,78 fornecimento e assentamento de lavatorio 2,0 59,54 fornecimento de caixa de descarga de sobrepor 4,0 26,16 fornecimento de torneira de pressao 1,0 283,40 diagnostico do balanceamento das cargas 8,0 155,19 fornecimento de acrilico transparente 1,0 2.962,55 bdi

A execução de tais serviços foi atestada pelos Engenheiros Gustavo Leite e AlexandreEl Deir e, em razão disto, ocorreu a liquidação e pagamento da despesa,respectivamente em 03 de agosto de 2006.

Contudo, conforme consta do Relatório Preliminar de Auditoria elaborado pelosAuditores do Tribunal de Contas do Estado nos autos da Auditoria Especial nº0602025-2, parte de tais serviços, embora pagos, não foram executados.

No item 3.2 do referido Relatório consta o seguinte:

Escola Municipal Karla Patrícia – Boa Viagem (fls. 88 a 112) (Nota de Empenho:2006.06791; Valor: 14.812,78; Empresa: JV & F Construções Ltda; Data daLiquidação: 03/08/2006; Data da Visita: 29/11/2006)

Os serviços descriminados na nota de empenho não foram executados, com exceçãodos serviços de retelhamento e aplicação de chapisco, que custaram respectivamente R$ 2.613,00 e R$ 74,01. Dessa forma, os serviços que não foram realizados totalizam R$12.124,97 (doze mil, cento e vinte e quatro reais e noventa e sete centavos), sendopassíveis de devolução aos cofres públicos.

Dentre os serviços que deveriam ter sido executados está a instalação de forro de PVCque não foi colocado.

Constatou-se também, que o piso da escola possui rachaduras e que as salas de aulatêm pouca ventilação, devido a inexistência de janelas.

Ou seja: quando da visita dos auditores à referida unidade de ensino (quatro meses apósa liquidação da despesa), os serviços não haviam sido concluídos pela empresa JV & FConstruções Ltda (Termo de Inspeção nº 11/06 - DOC. 05). Outro ponto indicado pelo Relatório da Auditoria Especial do Tribunal de Contas doEstado diz respeito à contratação de empresas sem comprovação de RegularidadeFiscal.

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Consta do citado Relatório:

Durante a análise da prestação de contas das despesas realizadas com as reformas dosestabelecimentos objeto dessa auditoria, constatou-se que estavam ausentes entre osdocumentos de liquidação das despesas as Certidões Negativas de Débitos e osCertificados de Regularidade Fiscal das empresas contratadas.

A equipe de auditoria verificou, através dos sites da Receita Federal e da Dataprev,que a maioria destas empresas não possuía a Certidão Conjunta de Débitos Relativos aTributos Federais (DOC. 06) e a Certidão Negativa de Débito da Previdência Social(DOC. 07):

Estabelecimento Empresa contratada CNPJ

CertidãoConjunta(ReceitaFederal)

CertidãoNegativa(Previdência)

EM Karla Patrícia JV & F Construções Ltda. 50204830001-00 não possui (fls.111)

não possui (fls.112)

Notadamente em relação à medição fictícia ocorrida é importante ressaltar oconhecimento e a aprovação das mesmas pelas demandadas.

Maria Luiza Martins Aléssio1 (DOC. 08) afirmou que o que de fato ocorreu foi aexecução de serviços de engenharia em outras unidades escolares conforme Quadro 1constante da sua defesa junto ao TCE.

Marília Lucinda Santana de Siqueira Bezerra2 (DOC. 09), por seu turno, informouperante esta Promotoria de Justiça que [ela depoente] em conjunto com a SecretáriaMaria Luiza Martins Aléssio e Edna Garcia autorizaram o procedimento acimareferido.

1 Depoimento prestado por Maria Luiza Martins Aléssio: que reintera neste momento os termosapresentados na defesa apresentada junto ao TCE, no sentido de que de fato embora constassena nota de empenho como se o serviço de engenharia tivesse sido executado nas escolasreferidas, o que de fato ocorreu foi a execução de serviços de engenharia em outras unidadesescolares conforme Quadro 1 constante da sua defesa junto ao TCE (...)

Que a tomada de decisão em relação à substituição de escolas era da depoente a partir doslevantamentos realizados pela gerência de engenharia e encaminhada pela DiretoriaFinanceira, professora Marília.

2 Depoimento prestado por Marília Lucinda Santana de Siqueira: que embora constando oatesto dos engenheiros Alexandre El Deir e Gustavo Leite nas notas fiscais relativas aosempenhos destacados pelo TCE o serviço não foi executado naquelas unidades referidas nanota de empenho; que o procedimento acima adotado fora guiado pela emergência narestauração das unidades elencadas (...) Que em face desta motivação a depoente em conjunto com a Secretária Maria Luiza MartinsAléssio e Edna Garcia autorizaram o procedimento acima referido.

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Relevante também a motivação de tais atos: Fugir ao controle interno exercido pelaSecretaria Municipal de Finanças3 ou contornar a realização de carta convite para talserviço de engenharia4 5.

Como conseqüência, restou o absoluto descontrole sobre o que, quanto, onde e quandofoi feito em termos de manutenção física das unidades de ensino municipais. Estecontrole, se houve, por certo não constou da liquidação da despesa – resumindo-se adeclaração das empresas de que fizeram o serviço e, ainda, declaração dos engenheirosno sentido de que o atesto originalmente dado nos documentos fiscais não sãoverdadeiros e que os serviços teriam ocorrido em outra unidade de ensino.

Tais fatos são reconhecidos inclusive nos próprios depoimentos prestados por MariaLuiza Martins Aléssio6 e Marília Lucinda Santana de Siqueira Bezerra7 peranteesta Promotoria de Justiça.

3 Depoimento prestado por Maria Luiza Martins Aléssio: que em razão disto houve a opção dese determinar a realização do serviço e não a anulação de empenho e elaboração de novoempenho para seu atendimento; que acrescenta que o tempo médio de empenhamento junto àSecretaria de Finanças é de aproximadamente 15 dias e, na hipótese de cancelamento, quandose faz necessário a apresentação de justificativa junto à Secretaria de Finanças este tempo tendea aumentar significativamente.

4 Depoimento prestado pelo engenheiro Gustavo Luiz Leite (DOC. 10): que acrescenta ainda odepoente que não foram emitidas notas fiscais e empenhos em relação a estas últimasunidades porque somando-se os serviços já executados em tais unidades com os serviços pagosmediante as notas de empenho acima referidas ultrapassariam o valor de R$ 15.000,00; quepara assim proceder seria necessário carta convite e não seria possível a contratação direta.

5 Depoimento prestado pelo engenheiro Alexandre El Deir (DOC. 11): que o depoente afirma queas escolas onde os serviços foram efetivamente executados provavelmente já tinham atingido acota de R$ 15.000,00 (quinze mil reais) relativos à contratação direta de obra e serviços deengenharia sem a necessidade de carta convite.

6 Depoimento prestado por Maria Luiza Martins Aléssio: que a depoente não recorda se juntocom a defesa do TCE consta cópia de ofício de diretores das unidades escolares referidas noQuadro 1 solicitando reparos de engenharia nos respectivos prédios.

7 Depoimento prestado por Marília Lucinda Santana de Siqueira: que a depoente não recordase tais relatórios de engenharia foram anexados à Auditoria Especial do TC quando daapresentação da sua defesa (...)

Que em relação às medições relativas aos serviços elencados na Auditoria Especial do TC acimareferida, a depoente esclarece que os controles provavelmente se davam de maneira interna do Setorde Engenharia, não acompanhando os documentos de liquidação de despesas; que não sabe informarcomo se dava exatamente o ajuste entre o valor constante nas notas de empenho e o valor do serviçoefetivamente executado nas outras escolas.

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2. DO DIREITO

A realização de despesas públicas é regida pela Lei nº 4.320/648, a qual determina asetapas de prévio empenho9, liquidação10, ordem de pagamento11 e o pagamentopropriamente dito12.

Segundo Kiyoshi Harada, a realização de despesas, além de observar os princípiosconstitucionais pertinentes, deve ser presidida pelo princípio da legalidade. [...] Aprimeira providência para efetuar uma despesa é seu prévio empenho, que significa oato emanado de autoridade competente que cria para o Estado obrigação depagamento pendente de implemento de condição (art. 58). O empenho visa garantir osdiferentes credores do Estado, na medida em que representa reserva de recursos narespectiva dotação inicial ou no saldo existente. É importante lembrar que o empenho,por si só, não cria obrigação de pagar, podendo ser cancelado ou anuladounilateralmente. O empenho limita-se a diminuir do determinado item orçamentário aquantia necessária ao pagamento do débito, o que permitirá à unidade orçamentária(agrupamento de serviços com dotações próprias) o acompanhamento constante daexecução orçamentária, não só evitando as anulações por falta de verba, como tambémpossibilitando o reforço oportuno de determinada dotação, antes do vencimento dadívida13.

8 Art. 58. O empenho de despesa é o ato emanado de autoridade competente que cria para o Estadoobrigação de pagamento pendente ou não de implemento de condição.

9 Art. 60. É vedada a realização de despesa sem prévio empenho. § 1º Em casos especiais previstos na legislação específica será dispensada a emissão da nota deempenho. § 2º Será feito por estimativa o empenho da despesa cujo montante não se possa determinar. § 3º É permitido o empenho global de despesas contratuais e outras, sujeitas a parcelamento.

10 Art. 62. O pagamento da despesa só será efetuado quando ordenado após sua regular liquidação.

Art. 63. A liquidação da despesa consiste na verificação do direito adquirido pelo credor tendo porbase os títulos e documentos comprobatórios do respectivo crédito. § 1° Essa verificação tem por fim apurar: I - a origem e o objeto do que se deve pagar; II - a importância exata a pagar; III - a quem se deve pagar a importância, para extinguir a obrigação. § 2º A liquidação da despesa por fornecimentos feitos ou serviços prestados terá por base: I - o contrato, ajuste ou acordo respectivo; II - a nota de empenho; III - os comprovantes da entrega de material ou da prestação efetiva do serviço.

11 Art. 64. A ordem de pagamento é o despacho exarado por autoridade competente, determinando que adespesa seja paga. Parágrafo único. A ordem de pagamento só poderá ser exarada em documentos processados pelosserviços de contabilidade

12 Art. 65. O pagamento da despesa será efetuado por tesouraria ou pagadoria regularmente instituídospor estabelecimentos bancários credenciados e, em casos excepcionais, por meio de adiantamento.

13 Kiyoshi Harada, in Direito Financeiro e Tributário, Editora Atlas, 16ª Edição, página 56-57

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No caso concreto, a Secretaria de Educação do Município desconsiderou por completo aLei nº 4.320/64.

Segundo o servidor Alexandre El Deir, em alguns casos as empresas iniciavam osserviços de reparos mesmo antes da elaboração da nota de empenho; que afirma odepoente ter conhecimento de que tal procedimento não corresponde à sistemáticaestabelecida pela legislação para a execução de despesa orçamentária (empenhamentoprévio, realização do serviço e liquidação da despesa), contudo, as urgênciasenfrentadas na gestão dos imóveis relativos às unidades de ensino municipais impeliamos gestores municipais, mesmo conscientes do não cumprimento do disposto nalegislação pertinente, a executar a despesa de tal forma.

Ainda de acordo com os depoimentos colhidos, observa-se que, em decorrência daausência de planejamento para obras de engenharia, era comum autorizar-se a execuçãode serviços para uma Escola A e, por critérios não muito claros de urgência, optar-sepela realização de serviços em uma Escola B.

Nestes casos, ao invés de anular a Nota de Empenho dos serviços de engenharia naEscola A e confeccionar uma nova Nota de Empenho para execução dos serviços deengenharia na Escola B, ocorria a “opção” por realizar os (outros e diferentes) serviçosde engenharia na Escola B, para tal fazendo uso do Laudo, Orçamento e Nota deEmpenho confeccionados para Escola A.

Tal agir, assumidamente, tinha o escopo de burlar a necessidade de justificar, perante aSecretaria de Finanças, a alteração das Escolas destinatárias dos serviços de engenharia,procedendo à anulação da primeira Nota de Empenho e a emissão de uma segunda Notade Empenho.

Ora, a correta liquidação das despesas públicas não é uma alternativa a ser seguida ounão pelo Administrador Público.

É dever, munus, obrigação daquele que administra recursos públicos seguir os ditamesda Lei nº 4320/64, por força do princípio da legalidade previsto no artigo 37 daConstituição da República.

A ausência de planejamento acerca dos serviços de engenharia e a ausência de critériosclaros para o atendimento das unidades de ensino, em conjunto com a promiscuidadeescancarada na escolha das empresas (materializada nas propostas de preço inidôneas egrosseiras, apresentadas pela firmas e aceitas sem cerimônia pelos gestores), além doabsoluto descontrole na medição dos serviços e na execução orçamentário-financeirarevelou-se terreno fértil para o malbaratamento de recursos públicos no montante de R$186.575,07 (cento e oitenta e seis mil, quinhentos e setenta e cinco reais e setecentavos), conforme verificado na Auditoria Especial nº 0602025-2 do Tribunal deContas do Estado.

Afinal é conseqüência lógica que, utilizando-se planilha de serviços de uma escola paraproceder à medição e pagamento de serviços (supostos e diversos) realizados em outraunidade de ensino, paga-se pelo que não foi feito em nítido prejuízo ao erário público.

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Da Improbidade Administrativa

O artigo 37, da Constituição Federal dispõe que a administração pública direta,indireta ou fundacional de qualquer dos poderes da União, dos Estados e dosMunicípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade,publicidade e (...) § 4º - Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensãodos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e oressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da açãopenal cabível.

Regulamentando citado dispositivo constitucional, foi promulgada em 02 de junho de1992, a Lei nº 8.429/92, que, em seu artigo 10, afirma que constitui ato de improbidadeadministrativa que causa lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa,que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação, malbaratamento ou dilapidação dosbens e haveres das entidades referidas no artigo 1º desta Lei, e notadamente:

XI – liberar verba pública sem a estrita observância das normas pertinentes ou influirde qualquer forma para a sua aplicação irregular;

XII – permitir, facilitar ou concorrer para que terceiro se enriqueça ilicitamente.

Emerson Garcia, com maestria, sustenta que não raras vezes se constatará que aregularidade formal do procedimento licitatório e do contrato administrativo que osucedeu rivaliza com a inexistência do objeto contratado, apresentado-se como merosadminículos para encobrir a prática de um ato simulado. Tal ocorrerá quando o objetodo contrato já tiver sido executado pelo Poder Público ou mesmo por terceiro,destinando-se o segundo contrato unicamente a conferir ares de legitimidade aorepasse de receitas públicas ao contratado, simulando-se o pagamento de uma obra oude um serviço que nunca foi executado.

Adiante, conclui que, ainda sob a ótica da modalidade de ilicitude ora estudada, não sepode deixar de mencionar um ato dotado de imoralidade ímpar, qual seja, acontratação de empresa para a execução de determinada obra ou serviço quando, emverdade, o objeto do contrato será executado pelos próprios servidores municipais.Com isto, a empresa se locupleta às custas do Poder Público14.

À vista do relatado, a liquidação, sem a efetiva prestação dos serviços de engenhariacontratados através da Nota de Empenho 2006NE06791, configura ato de improbidadeadministrativa, previstos nos artigos 10, incisos XI e XII, da Lei 8.429/92.

14

Emerson Garcia, in Improbidade Administrativa, Lumem Juris, página 376

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A punição para aqueles que cometem atos de improbidade administrativa como osmencionados acima está definida no artigo 12, inciso II, da Lei nº 8.429/92:

Art. 12. Independentemente das sanções penais, civis e administrativas, previstas nalegislação específica, está o responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintescominações:

II - na hipótese do art. 10, ressarcimento integral do dano, perda dos bens ou valoresacrescidos ilicitamente ao patrimônio, se concorrer esta circunstância, perda dafunção pública, suspensão dos direitos políticos de cinco a oito anos, pagamento demulta civil de até duas vezes o valor do dano e proibição de contratar com o PoderPúblico ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ouindiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sóciomajoritário, pelo prazo de cinco anos;

Da Responsabilidade dos Réus

Os cinco primeiros demandados, na qualidade de servidores públicos, respondem portodos os atos de improbidades administrativas praticados por força dos artigos 1º e 2º daLei nº 8.429/92.

Pelo apurado, os demandados são responsáveis por todas as ilegalidades cometidas, asquais redundaram em prejuízo da ordem de R$ 12.124,97 (doze mil, cento e vinte equatro reais e noventa e sete centavos).

As demandadas Maria Luiza Martins Aléssio, Edna Maria Garcia da Rocha Pessoae Marília Lucinda Santana de Siqueira Bezerra, na qualidade de ordenadoras dedespesas determinaram e autorizaram a liquidação da despesa sem a execução dosserviços.

Os demandados Gustavo Luiz Leite e Alexandre El Deir, por seu turno, atestaramcomo executados serviços de engenharia não realizados.

A empresa JV & F Construções Ltda também responde por ato de improbidadeadministrativa ex vi o disposto no artigo 3º da Lei nº 8.429/9215, vez que foi beneficiadadiretamente através do pagamento da NEOP sem a realização do serviço de engenhariaou antes da sua execução.

15 Art. 3º. As disposições desta Lei são aplicáveis, no que couber, àquele que, mesmo não sendo agentepúblico, induza ou concorra para a prática do ato de improbidade ou dele se beneficie sob qualquerforma direta ou indireta.

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3. DOS PEDIDOS

1. Do Pedido de Mérito

Ante todo o exposto, depois de autuada e recebida a presente petição inicial com osdocumentos que a instruem (arts. 282/283 do Código de Processo Civil), requer oMinistério Público a Vossa Excelência seja julgado procedente pedido:

i. Nos termos do art. 12, inciso II, da Lei n. 8.429/92, para condenar: 1. Os demandados Maria Luiza Martins Aléssio e Edna Maria Garcia

da Rocha Pessoa e Alexandre El Deir na perda da função pública,suspensão dos direitos políticos de cinco a oito anos, pagamento de multacivil equivalente a duas vezes o valor do dano e proibição de contratarcom o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais oucreditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoajurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de cinco anos;

2. Os demandados Marília Lucinda Santana de Siqueira Bezerra eGustavo Luiz Leite na suspensão dos direitos políticos de cinco a oitoanos, pagamento de multa civil equivalente a duas vezes o valor do danoe proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ouincentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que porintermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazode cinco anos;

3. a empresa JV & F Construções Ltda, no pagamento de multa civilequivalente a duas vezes o valor do dano e proibição de contratar com oPoder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios,direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica daqual seja sócio majoritário, pelo prazo de cinco anos;

4. todos os demandados, solidariamente, ao ressarcimento integral do danono valor de R$ 12.124,97 (doze mil, cento e vinte e quatro reais enoventa e sete centavos).

ii. Sejam os valores relativos às multas civis destinados aos cofres da Fazenda doMunicípio do Recife

2. Dos Requerimentos Finais

Como medida de ordem processual, requer a notificação e posterior citação para que,querendo, apresentem respostas, no prazo legal, sob pena de presumirem-se verdadeirosos fatos ora alegados (art. 17 da Lei n. 8.429/1992) dos demandados:

Maria Luiza Martins Aléssio, com endereço na Estrada de Aldeia, Km 6, LoteamentoChã de Peroba, Granja Maturi, s/nº, Aldeia, Camaragibe, PE;

Edna Maria Garcia da Rocha Pessoa, com endereço na Rua Teles Júnior, nº 1558,apartamento 201, Rosarinho, Recife;

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Marília Lucinda Santana de Siqueira Bezerra, com endereço na Rua Casa Forte, 65,apartamento 801, Casa Forte, Recife;

Gustavo Luiz Leite, com endereço na Rua Francisco da Cunha, 359, apartamento 504,Boa Viagem, Recife;

Alexandre El Deir, com endereço na Rua Eládio Ramos, 168, apartamento 101, BoaViagem, Recife; e

JV & F Construções Ltda, na pessoa do seu Sócio-Administrador João CarlosSchettine de Oliveira Filho, inscrito no CPF/MF sob o número 890.299.334-53, comendereço na Rua Lucionese Moura de Melo, 47, Alberto Maia, Camaragibe, PE e naEstrada de Aldeia, Km 15, Lote E, Paudalho, PE;

A intimação do Município do Recife, com sede no Cais do Apolo, 925, Bairro doRecife, nesta cidade, na pessoa do seu Procurador-Chefe, para que, querendo,intervenha nos autos no pólo ativo ou passivo desta ação;

Requer, por derradeiro:

1. O recebimento da presente ação sob o rito ordinário;

2. Isenção de custas, emolumentos, honorários e outras despesas na conformidadedo que dispõe o artigo 18 da LACP;

3. Condenação dos Réus no pagamento das custas processuais, honoráriosadvocatícios, estes calculados à base de 20% (vinte por cento) sobre o valor totalda condenação e demais cominações de direito decorrentes da sucumbência;

4. A produção de todos os meios de prova em direito permitidos.

Dá à causa o valor de R$ 12.124,97 (doze mil, cento e vinte e quatro reais e noventae sete centavos).

Nestes Termos P. Deferimento

Recife, 15 de dezembro de 2008.

Charles Hamilton Santos Lima26º Promotor de Justiça de Defesa da Cidadaniada Capital

Lucila Varejão Dias Martins15ª Promotora de Justiça de Defesa da Cidadania daCapital

Eleonora Marise Silva Rodrigues28ª Promotora de Justiça de Defesa daCidadania da Capital

Katarina Morais de Gusmão29ª Promotora de Justiça de Defesa da Cidadania daCapital com exercício cumulativo no cargo de 22ºPromotor de Justiça de Defesa da Cidadania da Capita

Rua 1º de Março nº 100 – Santo Antonio – Recife/PE – CEP: 50010-070 – Fone (81) 3419-7195 12 de 13

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