2 Os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha ? Resumo O presente artigo tem como objetivo discutir

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Gustavo Pinto de Sousa46Navigator 12 Os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha brasileira47Os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha brasileiraGustavo Pinto de SousaMestrando em Histria Poltica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Bolsista Capes. Pesquisa-dor Associado do Laboratrio de Estudos das Diferenas e Desigualdades Sociais LEDDES/UERJ.ResumoO presente artigo tem como objetivo discutir os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha brasileira, entre os anos de 1831 e 1850. O fio condutor dessa trama a aprovao da lei de 7 de novembro de 1831 e os desdobramentos da poltica escravista em relao ao comrcio atlntico. Os navios negreiros aprendidos, os africanos livres e o processo de nacionalidade aparecem como elementos importantes para a compreenso do quadro poltico, social e eco-nmico, no que tange s peripcias do com-plexo sistema escravista. Por fim, o infame comrcio, apreciado nesse trabalho, busca es-tudar as redes de poder que a escravido susci-tou dentro da poltica imperial.Palavras-chave: ilcito comrcio, escravi-do e MarinhaAbstRActThis article aims to discuss the conflicts of the illicit trade and the Brazilian Marine, between the years 1831 to 1850. The thrust of this plot is the approval of the law of 07 november 1831 and the unfolding of policy in relation to the slave trade atlantic. learned slave ships, africans are free and the process of nationality appears as important for the understanding of the political, social and economic, in terms the vicissitudes of the complex system of slavery. Finally, the infamous trade enjoyed this work, explores the networks of power that slavery has raised in the imperial policy.KeywOrds: illicit trade, slavery and MarineNs ento nos alinhamos ao lado dele e olhos vidos examinavam cada pedao do bergantim. Figuras negras e nuas passavam pelo convs removendo qualquer sombra de dvida que pudssemos ter quanto ao gnero da embarcao e mostrava que ela es-tava com sua carga humana a bordo. O escaler tendo sido iado, um oficial foi enviado para tomar posse enquanto a bandeira britnica substitua a brasileira.Pascoe Grenfell Hill1Ao examinar os conflitos do ilcito comrcio e sua relao com a Marinha brasileira, nada melhor do que narrar o cotidiano da apreenso de um tumbeiro. O frei Pascoe Grenfell Hill descreve a captura do Navio negreiro Clepatra nas guas do Atlntico. Sua estadia a bordo do navio por cinquenta dias um exame da situao desgastante que a vida nos ma-res suscitava aos marinheiros e s almas de cor. Em relao ao cotidiano de um tumbeiro, 1 HILL, Pascoe Grenfell. Cinquenta dias a bordo de um navio negreiro. Traduo Marisa Murray. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2006. p.61. Gilson Rambelli argumenta que passar pri-vaes como sede, fome e desconforto no eram caractersticas apenas dos transporta-dos como mercadorias, muitos tripulantes, e tambm passageiros, enfrentavam esses desafios.2 A carga humana destacada pelo frei mostra o problema que as leis e os trata-dos internacionais criaram para o comrcio Atlntico. A presena de diferentes naciona-lidades em torno do ilcito comrcio corro-bora os mltiplos interesses econmicos e polticos que o trfico de escravos concedia s elites mercantis. Em relao ao Brasil e Inglaterra alguns interesses eram ampla-mente direcionados e defendidos. Segundo Leslie Bethel3, as prticas britnicas em re-lao ao trfico de escravos tinham como objetivo a manuteno dos interesses co-merciais na Amrica, especificamente no Brasil. J em relao ao Brasil, o trfico negreiro sustentava todo um complexo sis-tema econmico. Para Manolo Florentino4 esse aparato econmico concatena-se em trs pontos: os sistemas e procedimentos para arrumao dos navios mercantes, indo para a frica; o desembarque e os procedi-mentos para o retorno com as cargas huma-nas para o Brasil; e por ltimo, a chegada dos tumbeiros nos portos brasileiros, que aglutinava uma srie de servios e empre-gados para recepo das almas de cor.No entanto, o que levou a embarcao Clepatra ter sua bandeira substituda? Por que as figuras negras e nuas identificavam certo tipo de embarcao? O frei Pascoe Grenfell Hill apresenta o desenvolvimento da execuo dos conjuntos de tratados in-ternacionais, desde 1815, contra o trfico de escravos. Indo alm, Hill denuncia as mati-zes da Lei de 7 de novembro de 1831. Co-nhecida na historiografia do assunto como lei para ingls ver, o caput da lei era claro e objetivo: Declara livres todos os escravos vindos de fora do imprio, e impe penas aos importadores dos mesmos escravos.5 S que a represso do trfico de escravos no aconteceu de forma to rpida e efi-ciente. Vrios jogos de interesses e disputas polticas esto no epicentro das tramas em pr da escravido. O conturbado contexto do perodo regencial no tinha a escravido como carro-chefe de suas preocupaes. As tramas polticas regenciais direcionavam-se para a construo da nacionalidade e aos ajustes da Carta de 1824. Assim, a Lei de 7 de novembro de 1831 cria novos agentes hist-ricos, como os africanos livres e obscurece a aplicao das penas, pois era comedida a punio dos embarcadores. Os africanos livres apontam como sujeitos histricos das disputas polticas e econmicas do ilcito comrcio. Sua condio de liberdade era atrofiada por mecanismo e dispositivos cria-dos pelo Governo Imperial para manter sua mo de obra cativa aos interesses polticos, sociais e econmicos. Beatriz Galloti Mami-gonian em relao aos africanos livres dis-corre que ser juridicamente livre no garan-te aos africanos livres mobilidade espacial ou direito autodeterminao.6Deste modo, procuro expor neste traba-lho uma anlise dos conflitos criados no decorrer da Lei de 7 de novembro de 1831. Procurando mapear e identificar as em-barcaes ilcitas apreendidas, sem oblite-rar, claro, o papel da Marinha. Pensando tambm a cultura poltica das bandeiras e a representao poltica de suas naes no trfico negreiro. Buscando, por fim, levantar a questo diplomtica, que o policiamento martimo construa no dilogo de acusaes entre Brasil e Inglaterra. A documentao eleita para o trabalho so os relatrios do Mi-nistrio da Justia elaborados entre os anos de 1831 e 1850. Vale ressaltar que cada re-latrio elaborado pelos ministros da justia 2 RAMBELLI, Gilson. Trfico e navios negreiros: contribuio da Arqueologia Nutica e Subaqutica. Revista Naviga-tor. Rio de Janeiro: vol 2, no 4, p.63.3 BETHEL, Leslie. A abolio do trfico de escravos no Brasil. So Paulo: Edusp, 1976.4 FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma histria: uma histria do trfico de escravos entre a frica e o Rio de Janeiro: sculos XVIII e XIX. So Paulo: Companhia das Letras, 1997.5 Arquivo Pblico do Estado do Rio de Janeiro, cdice 348.81 CLB 27. Mas tal fragmento encontra-se disponvel para download em < http://www2.camara.gov.br/legislacao/publicacoes/doimperio>6 MAMIGONIAN, Beatriz Galloti. Revisitando o problema da transio para o trabalho livre no Brasil: a experincia de trabalho dos africanos. Disponvel em http://www.labhstc.ufsc.br/jornadaI.htm, acessado em 14 de agosto de 2007.p.1.Gustavo Pinto de Sousa48Navigator 12 Os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha brasileira49corresponde produo poltica do perodo. Pois mister que a elite poltica que com-punha os quadros do mundo do governo tinha influncias de suas faces polticas. Deste modo, a documentao empreendida no trabalho lida com as referncias e valores polticos esquematizados e defendidos pe-los grupos polticos no perodo regencial. O lugar de produo dos relatrios corrobora a tese de defesa dos interesses dos estratos sociais. Por fim, o balano anual desses re-latrios contribui para situar a viso do Go-verno brasileiro e seus interesses martimos na poltica escravista. A leitura pblica dos balancetes no Senado dividia e acirrava os conflitos polticos, pois uma parcela da eli-te poltica se beneficiava com a no imple-mentao da Lei de 7 de novembro de 1831, assim como a outra parcela, que se privile-giava com o servio dos africanos livres, ins-taurados a partir da aprovao da lei. A exploso dA lei de 7 de novembro de 1831O Ministro Diogo Feij, na efervescncia poltica dos acordos internacionais a favor da abolio do comrcio de escravos, as-sina no Brasil a extino da escravido. Os dilogos internacionais fortalecidos a partir do Congresso de Viena e dos acordos bila-terais entre as naes brasileira e britnica marcam uma nova dinmica para o fim da escravido. O trfico negreiro cada vez mais limitado em reas internacionais extinto no Brasil em plena ambincia de construo da nacionalidade. O Imprio do Brasil en-trava na agenda dos pases civilizados e em constante progresso. Como escreve Ilmar Rohllof de Mattos fundadores e consolida-dores do Imprio do Brasil tinham os olhos na Europa e os ps na Amrica eis o se-gredo da trajetria de individuao de uma classe, e que se revestia da forma de cons-truo de um Corpo Poltico soberano.7 A ideia dos olhos na Europa como argumenta Mattos lembra o desejo de construir um Esta-do soberano semelhante aos Estados nacio-nais europeus, que simbolizavam os ideais do progresso. Enquanto os ps na Amrica eram mais uma condio geogrfica do que influncia, pois, ao contrrio do Imprio do Brasil, as demais naes latino-americanas constituam-se em repblicas federativas diferentes do caso brasileiro o que segundo Manoel Lus Salgado Guimares:Na medida em que Estado, Monarquia e Nao configuram uma totalidade para a discusso do problema nacional brasileiro, externamente define-se o outro desta Nao a partir do critrio poltico das diferenas quanto s formas de organizao do Estado. Assim, os grandes inimigos exter-nos do Brasil sero as repblicas latino-americanas, corporificando a forma republicana de governo, ao mesmo tempo, a representao da barbrie.8Ajustado o ideal do que seria uma nao e a oposio dela, a boa sociedade passa configurar os modelos de construo da identidade brasileira. Cidadania e liberdade so as condies fundamentais para se en-tender a construo das formas de cidada-nia no Brasil. O processo de afirmao da nacionalidade agrupa cada segmento social em seu devido lugar. O thos senhorial re-vestido pelo vis aristocrtico ordena os dis-tintos grupos sociais, tais como define Mat-tos entre cidado ativo boa sociedade , os cidados no ativos a arraia-mida e os no cidados execrados da liberdade, constituindo o mundo do trabalho e da desordem. So os escravos e os ndios no catequizados. O processo de constru-o da nacionalidade admitia a questo da cidadania em consonncia com os limites da liberdade.Mas no mundo da desordem, do tra-balho que repousa a seguinte indagao: o que de fato a lei de 1831 modificava para os sujeitos histricos desse segmento? Em termos das relaes do cotidiano pouco a lei 7 MATTOS,Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: formao do. Estado imperial. So Paulo: Hucitec, 1990, p. 139.8 GUIMARES, Manoel Luis Lima Salgado. Nao e Civilizao nos Trpicos: o Instituto Histrico Geogrfico Bra-sileiro e o projeto de uma histria nacional. Revista Estudos Histricos CPDOC/FGV. Rio de Janeiro: vol 1, p. 3. Disponvel em < http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp_edicao.asp?cd_edi=5>. Acessado em 5/3/2007.de 1831 alterou a sociedade brasileira. Sua inveno foi somente criar um novo qua-dro para a escravido no Brasil, ou seja, a condio dos africanos livres. Os africanos livres institudos a partir de tal lei eram um grupo social juridicamente livre. No entan-to, a liberdade e a cidadania para as almas de cor eram cerceadas pelos mecanismos e dispositivos, que procuravam subordinar os africanos livres ao complexo sistema do governo. O problema do emprego da mo de obra dos africanos livres no Brasil gerou elo-quentes debates dos ministros no Senado do Imprio. Destaco e comparo os balanos ministeriais de Diogo Feij, autor da Lei de 7 de novembro de 1831, e Antonio Paulino Limpo de Abreo, que protagoniza com o representante de Sua Majestade britnica acusaes sobre o estado dos africanos li-vres no Brasil em 1845. Nos dizeres de Feij:A Administrao da Justia ci-vil He desgraada: hum grito uni-sono se houve de todos os pontos do Imperio: os Magistrados em grande parte ignorantes, frouxos, e omissos deixo que as deman-das se eternisem; [...] Outro tanto, e ainda acontece com esses des-graados Africanos conduzidos nossos portos por contrabandos: no tendo parentes, ou amigos interessados na sua sorte, vo ser perpetuamente reduzidos escra-vido: ignora-se at o poder em que se acho, e no ha meios de remediar similhante falta.9De forma enrgica Feij publicita a situa-o dos africanos livres no Brasil. Ao denun-ciar a desobedincia da legislao brasileira contra o trfico de escravos, ele assume a falncia das instituies imperiais na fisca-lizao e no cumprimento das resolues. Seu julgamento ferrenho aos magistrados confirma-se pelos interesses que os gran-des proprietrios detinham sobre tal profis-so. Ele prossegue afirmando que a sorte dos africanos o smbolo da passividade brasileira perante o vergonhoso e infame comrcio no Atlntico. Feij enrijece suas crticas aos magistrados escrevendo que, na estrutura do Imprio, muitos continuam insensveis e ignorantes aos novos tem-pos contra a escravido.No mesmo relatar de Feij, Antonio Pau-lino Limpo de Abreo, em 1835, delata as insuficincias da aplicao da lei de 1831. Para o ministro:Com o fim de acabar o deshu-mano, e brbaro trafico de Africa-nos se confeccionou a Lei de 7 de Novembro de 1831, que pareceo sufficiente para isto se conseguir. Com tudo ella srvio somente para excitar a cobia dos especulado-res, que nella enxergaro meios de promover melhor os seus lucros e interesses, os quaes podio bem compensar todos os riscos da empresa. A necessidade de bra-os para a agricultura associou o lavrador ao especulador, e no tendo os Juizes empregado prin-cipio todo o vigor para evitar o con-trabando, elle se generalisou den-tro em pouco tempo, e hoje ser impossvel remediar os males, e a continuao desta introduco por meio da Lei, que me refiro.10Como diz o Ministro Abreo, a banaliza-o e sistematizao do trfico negreiro preexistiam no Brasil de forma intensa. O comrcio ilcito no Atlntico fomentava os pilares da mo de obra no Pas. O problema central era a questo da fora de trabalho empregada nas grandes fazendas. preci-so destacar que o Ministro Antonio Paulino Limpo de Abreo props ao governo o reen-vio dos africanos livres para frica ou que se criasse uma colnia. Seu pedido foi negado, com base que os cofres pblicos no supor-tariam tal nus econmico. A insuficincia da lei esbarrava no potente interesse das eli-tes mercantis, emperrando a aplicabilidade da lei. O interessante destacar a afirmao de um ministro de Estado assumindo a debi-9 Arquivo Nacional, Srie Justia IJ1- Gabinete do ministro. Relatrio da gesto Diogo Feij (1831) p. 6-7.10 Arquivo Nacional, Srie Justia IJ1- Gabinete do ministro. Relatrio da gesto Antonio Paulino de Limpo Abreo (1835) p.29.Gustavo Pinto de Sousa50Navigator 12 Os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha brasileira51lidade do governo em reprimir as peripcias dos tumbeiros no Brasil. O lavrador e espe-culador corrompiam os magistrados atravs de sua influncia, afrouxando a escrita dos termos da lei.Aps o reconhecimento da falncia do Estado nas questes repressoras do trfico, oportuno levantar a questo: Quem sai perdendo com a extino da escravido? Se-gundo Gilson Rambelli, o comrcio negreiro entre Brasil e frica fomentava um quadro informal na economia. Para ele, essa prtica comercial envolvia uma considervel parce-la de prestadores de servios, que garantia o soldo do segmento de pobres livres da popu-lao. Analisando a organizao comercial no Brasil, Rambelli observa:Para a viagem de ida frica, por exemplo, era preciso: o recru-tamento da tripulao, que exigia experincia nesse tipo de mari-nharia, o carregamento organiza-do do navio com gua, vveres e produtos para serem trocados por escravos, como tecido, plvora, ar-mas de fogo e aguardente.11 O trfico de escravos trazia consigo uma movimentao econmica nas regies por-turias do Brasil. Como analisou Florentino, alm dos produtos para subsistncia e es-cambo, as organizaes das embarcaes negreiras ainda reuniam a necessidade de trmites burocrticos, tais como: taxas al-fandegrias, seguros e gastos extras para eventuais cobranas em portos. Ento a restrio do trfico escravo atingia direta-mente a economia imperial. O fim do trfico negreiro, portanto, prejudicaria os homens e mulheres residentes nas regies portu-rias. Os lavradores estavam convencidos de que o trabalho no campo era por excelncia exercido pelos africanos em comparao com os braos livres do Pas. Portanto, a aprovao da lei no inibiu a importao de escravos do comrcio negreiro. As almas de cor continuaram a entrar pelos litorais do Imprio garantindo o prestgio econmico e social das elites.A mArinhA no jogo do escrAvismo Reconhecida a debilidade e morosida-de de lidar com as resolues dos acordos contra a escravido, os ministros da justia reconhecem a dificuldade do Estado em reprimir as embarcaes negreiras pelo territrio nacional. Assumir a ineficincia de fiscalizao do governo no representa a associao da falncia das instituies bra-sileiras. Ao contrrio, os ministros da justia no medem esforos para valorizarem as aes empreendidas pelas instituies bra-sileiras nas represlias contra os tumbeiros. Os conflitos entre especuladores e institui-es fiscalizadoras o meio do governo afir-mar que apresenta medidas contra o trfico de escravos. Os grupos polticos imbudos pelo projeto de nacionalidade criam diver-sos projetos para modernizar o Pas, tais como a construo da Casa de Correo, o Colgio Pedro II, o Hospcio, entre outras instituies. As obras da Casa de Correo, por exemplo, servem para destacar, em tese, a valorizao do trabalho. Produzindo na priso correcional uma espcie de reserva de mo de obra na sociedade escravista. A construo da nao o fio condutor para a conclamao das obras. Vangloriadas pe-los contemporneos como smbolo do pro-gresso e da humanidade do Imprio.Dessa maneira, no poderia ser diferen-te a importncia da Marinha brasileira nos conflitos do ilcito comrcio. Manoel Alves Branco em 1834, na apresentao de seu relatrio ao Senado da Corte, descreve a ne-cessidade da Marinha contra os especula-dores da escravido. Em seu balancete diz o ministro:Se huma ideia ha neste nego-cio a todos os amigos do Brasil, e He que a Marinha Brasileira no so tem rivalisado, mas at exce-dido Estrangeira na actividade e empenho, que tem mostrado de combater o crime desse trafico deshumano. Das apprehenses de 1834 duas so Brasileiras, e duas Inglezas; das deste anno de 11 RAMBELLI, Gilson. Trfico e navios negreiros: contribuio da Arqueologia Nutica e Subaqutica. Revista Navi-gator. Rio de Janeiro: vol. 2, no 4, p. 66.1835 duas so Brasileiras, e huma so Ingleza: he neste facto, Senho-res, que eu espero, mais ver hum dia extirpada pela raiz a tendncia viciosa, e horrivel de vidos especu-ladores: e daqui se mostra a conve-niencia da continuao do cruzeiro em toda a Costa do Brasil.12Alves Branco celebra o sucesso da Ma-rinha na apreenso de uma embarcao a mais do que a Marinha britnica. O esforo da Marinha brasileira em fiscalizar as cos-tas do litoral do Pas mostra a eficincia dos brasileiros em proteger o territrio nacional. A ideia de rivalidade martima potencializa as discusses entre as nacionalidades bra-sileiras e britnicas. As disputas martimas encenadas pela Marinha brasileira e brit-nica acirravam os debates nas Comisses Mistas estabelecidas entre os dois pases desde a aprovao do Ato Adicional em 1817. Segundo Jaime Rodrigues:Logo depois da promulgao da Lei de novembro de 1831, o Po-der Legislativo passou a discutir diversos pontos dela, tais como a atuao das comisses mistas an-glo-brasileiras e a prpria inefici-ncia da lei, e o trfico continuava motivado por uma maldita sede de torpes ganhos e realizado por pessoas malvadas.13O papel da Comisso Mista era arbitrar sobre a punio e o destino que as embarca-es apreendidas teriam em terra. Assim as comisses eram criadas em cada localidade onde houvesse o apresamento de mercado-rias ilcitas. Para alm do Brasil, existiram comisses mistas em Havana, Cabo da Boa Esperana, Luanda, Ilha de Santa Helena, entre outros locais. Em sua composio as comisses eram distribudas por um comis-sionrio juiz, um comissionrio rbitro e um secretrio oficial, nomeados pelo chefe de Estado onde a comisso estava estabele-cida. Para alm da ordem burocrtica das comisses, interessante destacar que o julgamento das embarcaes capturadas pelos navios de represso ao trfico marca a polaridade dos interesses das naes em relao escravido. Ana Flvia Cicchelli Pires analisa que a funo das comisses mistas era destinada a julgar, sem apela-o, sobre a legalidade da deteno dos na-vios empregados no trfico de escravos14, ou seja, cabia s comisses estabelecer as indenizaes e as punies aos tumbeiros. Assim, as capturas no mar logo estavam presentes nas mesas do tribunal das comis-ses, onde os jogos de interesse tangencia-vam as decises.Outro problema poltico que se apresenta-va em relao Marinha brasileira contra os conflitos do ilcito comrcio era a questo das bandeiras dos navios apreendidos. As ban-deiras das embarcaes serviam como um mecanismo de identidade dos navios, isto , uma pertena da embarcao a uma nao. Dentro do caloroso debate da Lei de novem-bro de 1831 em relao ao contrabando de africanos, o Governo brasileiro problematiza-va o internacionalismo do trfico negreiro. O Ministro Aureliano de Souza e Oliveira Couti-nho expressa a cultura poltica brasileira na questo do combate do trfico. Ele enfatiza:Como o julgamento summario pela Comisso mixta Brasileira, e Ingleza rezidente nesta Crte em virtude da Conveno de 23 de No-vembro de 1826, s pode ter lugar a respeito dos Subditos das duas Potencias Contractantes, tem acontecido, que to deshumano trafico he quase sempre protegido pela Bandeira Portugueza. Navios cobertos com a referida Bandeira partem continuadamente de nos-sos Portos para as Costas dAfrica, a pretexto de irem ali carregar marfim, cera, azeite, e outros g-12 Arquivo Nacional, Srie Justia IJ1- Gabinete do ministro. Relatrio da gesto Manoel Alves Branco (1834) p. 7-8.13 RODRIGUES, Jaime. O Infame Comrcio. Campinas, SP: Editora da Unicamp, Cecult, 2000. p. 109.14 CICCHELLI PIRES, Ana Flvia. A abolio do Comrcio Atlntico de Escravos e os Africanos Livres no Brasil. En publicacion: Los estudios afroamericanos y africanos en Amrica Latina: herencia, presencia y visiones del otro. Lechini, Gladys Centro de Estudios Avanzados, Programa de Estudios Africanos, Crdoba; CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Buenos Aires. 2008. p. 93.Gustavo Pinto de Sousa52Navigator 12 Os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha brasileira53neros de comercio; porem so com o fim de importarem os infelizes negros, que lhes affiano hum melhor lucro.15 Ao culpar os portugueses pelas aes ilcitas do trfico de escravos, Oliveira Cou-tinho traz tona a necessidade de associar o comrcio ilcito aos portugueses ps de chumbo, que atrasavam os ideais brasi-leiros. Lcia Bastos Pereira das Neves dis-cute em Corcundas e Constitucionais a cultura poltica entre portugueses e brasi-leiros na poca da independncia. Para ela, a carga pejorativa de corcundas ou ps de chumbo estava associada ao elemento portugus que remetia ao atraso do perodo colonial. Assim, a pungente nacionalidade brasileira precisava eleger uma forma de negao das estruturas coloniais. Pois a presena dos portugueses trazia a mem-ria s definies dos corcundas. Segundo Neves: [...] em 1823, a expresso [corcunda] passava a designar correntemente o por-tugus, por associ-lo ao Antigo Regime e ao desejo de ainda ver no Brasil a ban-deira de Portugal.16 A bandeira portuguesa vinculada aos interesses especuladores foi um mote encontrado pelo segmento polti-co para responsabilizar a perpetuao do trfico negreiro. Os polticos brasileiros des-tacando as mercadorias do comrcio portu-gus marfim, azeite e leo denunciavam que tais produtos eram a forma de troca por escravos na Costa da frica, pois os negros africanos representavam maior lucro do que os produtos portugueses. Por fim, a apro-priao negativa denominada aos portugue-ses na poca da Independncia retomada no perodo regencial como uma forma de legitimar as aes brasileiras e condenar os portugueses pela manuteno do vil e de-sumano trfico negreiro.nos rAstros dos tumbeiros: As embArcAes ApreendidAs do ilcito comrcioNa iminncia da extino do trfico ne-greiro promovida desde 1815 muitas tti-cas e estratgias foram construdas para a manuteno da lucratividade do ofcio dos comerciantes de grosso trato. Como j foi mencionado anteriormente, o escravismo brasileiro movimentava um complexo siste-ma econmico, tanto aqui como na frica. Como argumenta Ana Flvia Cicchelli Pires temendo o cumprimento destas conven-es os interessados no prolongamento do comrcio negreiro fizeram um grande esfor-o para importar o mximo possvel de afri-canos, o que resultou num aumento brutal do volume dos escravos traficados para o Brasil.17 O fato interessante que, aps as investidas internacionais e nacional contra o comrcio de escravos, o montante das mercadorias das almas de cor aumentou substancialmente nas costas litorneas do Imprio. no bojo desse aquecimento co-mercial que o policiamento martimo entre Brasil e Gr-Bretanha acirrava-se na busca dos navios suspeitos. Em relao captu-ra e aprisionamento dos tumbeiros, Lucia-no Raposo rene em um texto analtico a listagem de embarcaes ilcitas e suas mercadorias no perodo de 1839 a 1841. O trabalho de Raposo traz o detalhamento de informaes como nomes, as embarcaes e a procedncia dos grupos africanos (qui-ta, garanga, soco, ganguela, oariba, barundo, bi, cumba, mungo, dulo, curibindo, sam-ba, mongo, luanda, oanda, damba, dond, dunbo, tiaca, garabgue, ogijunba, benguella, pumbo, pei entre outras).18Os relatrios aqui pesquisados do o ras-tro de alguns tumbeiros capturados, apreen-didos e julgados pela Comisso Mista Brasil 15 Arquivo Nacional, Srie Justia IJ1- Gabinete do ministro. Relatrio da gesto Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho (1833) p. 20.16 NEVES, Lcia Maria Bastos Pereira das. Corcundas e Constitucionais: cultura e poltica (1820-1823). Rio de Janei-ro: Revan: Faperj, 2003. p. 138.17 CICCHELLI PIRES, Ana Flvia. A abolio do Comrcio Atlntico de Escravos e os Africanos Livres no Brasil. En publicacion: Los estudios afroamericanos y africanos en Amrica Latina: herencia, presencia y visiones del otro. Lechini, Gladys Centro de Estudios Avanzados, Programa de Estudios Africanos, Crdoba; CLACSO, Consejo Lati-noamericano de Ciencias Sociales, Buenos Aires. 2008. p. 96.18 FIGUEIREDO, Luciano Raposo. (Org.). Marcas de escravos listas de escravos emancipados vindos a bordo de navios negreiros (1839-1841). Rio de Janeiro: Publicaes Histricas, 1990.a dezembro 26 embarcaes suspeitas, mas que foram liberadas pelo Juiz de Paz. Assim como em 1837 tinham cinco embarcaes com bandeiras portuguesas, que no chega-ram a ser julgadas pela Comisso. Os anos de 1841 e 1848 no foram possveis identificar embarcaes ilcitas devido ausncia dos relatrios. J os perodos de 1842, 1843, 1845, 1846, 1847 e 184919 no constam os nomes das embarcaes apreendidas. Os ministros da justia do perodo apenas mencionam que as atividades ilcitas continuam pelas costas litorneas do Imprio e que o governo continua incessantemente reprimindo tal ati-vidade. Assim, na tabela pode-se visualizar:e Inglaterra. Em seus balanos anuais os mi-nistros destacam a relevncia dos julgamen-tos das embarcaes ilcitas, mostrando que o Governo no descansa em repreender to desumana atividade. Foram identificadas 39 embarcaes entre o perodo de 1831 e 1850, quando se decreta a Lei de 4 de setembro de 1850 (re) extinguindo o trfico de escravos. Entre alguns bergantins, brigues, escunas, iates e patachos capturados foram possveis destacar o lugar da apreenso, assim como a bandeira nacional das embarcaes. Infe-lizmente, algumas informaes no foram identificadas nos relatrios. Como as apre-enses do ano de 1836, que teve entre julho tAbelA: nAvios Apreendidos, Ano e AlgumAs informAesNavios Apreendidos Ano InformaoEscuna Destemida 1831Escuna Camilla 1832Barca Maria da Gloria 1833 Navio portugusBrigue Paquete do Sul 1834Escuna Duqueza de Bragana 1834Patacho Dois de Maro 1834Patacho Santo Antonio 1834Bergantim Rio da Prata 1835Brigue Amizade Feliz 1835Escuna Anglica 1835Brigue Orion 1835 Bandeira portuguesa e brasileiraBrigue Ganges 1838Patacho Providencia 1839 Apreendido em PernambucoBrigue Carolina 1839Patacho Especulador 1839Brigue Ganges 1839Patacho Leal 1839Pilot Boat ou Hiate Africano Atrevido 1839 Apreendido em Santa CatarinaGaliota brasileira Alexandre 1840Patacho Paquete de Benguella 1840Brigue portuguez Assiceira 1840Brigue brasileiro Nova Aurora 1840Escuna brasileira Primeiro de Abril 184019 No relatrio de 1849 redigido por Eusbio de Queiroz h apenas os lugares de apreenso, no entanto, inexiste o nome das embarcaes.Gustavo Pinto de Sousa54Navigator 12 Os conflitos do ilcito comrcio e a Marinha brasileira55Entre as embarcaes relatadas pelos ministros da justia a captura do Brigue Orion pela corveta de guerra britnica um pouco curiosa. O Ministro Antonio Paulino Limpo de Abreo ao apresentar o relatrio diz que o Brigue Orion navegava, antes de ser abordado pela corveta britnica, com a ban-deira portuguesa em sua embarcao e que aps a apreenso constatou-se que a em-barcao era brasileira. A tentativa de burlar a fiscalizao martima com bandeiras tro-cadas era uma possibilidade para ludibriar as resolues dos tratados internacionais. Em sua carga constavam 243 africanos. Aps seu julgamento, pelos comissionrios brasileiros e ingleses os africanos foram emancipados e distribudos pelas obras p-blicas do Imprio. E os quatro marinheiros oriundos da embarcao foram reenviados para a Costa dfrica por ordem da polcia. Por fim, os tumbeiros aps 1831 ainda continuaram a cruzar as guas do Atlntico. O contrabando de africanos era um tpico com cuidados especiais nos relatrios mi-nisteriais. Os ministros da justia atentavam que as costas litorneas do Imprio recebiam navios com escravos sequer reconhecidos pelas autoridades competentes. A fiscaliza-o perpassava pela frouxido das relaes polticas, econmicas e sociais. Eusbio de Queiroz, ministro da justia em 1849, com-preende que os esforos da Marinha, das au-toridades judiciais e da polcia foram funda-mentais na atuao contra o trfico, apesar da corrupo muitas vezes denunciada pe-los ministros anteriores. Desta forma, relata Queiroz: Felizmente a nossa Marinha, e as Autoridades de Justia e Policia tem, geral-mente fallado, cumprindo os seus deveres de um modo tanto mais honroso, quanto maio-res tem sido as difficuldades de toda espcie com que ha sido necessrio lutar.20 Entre o perodo de 1831 e 1850, o trfico negreiro criou e aperfeioou as possibilidades de obs-curecer as legislaes antiescravista. Assim, somente com ps 1850 as guas do Atlntico se fecham para as embarcaes com escra-vos para o Brasil. 20 Arquivo Nacional, Srie Justia IJ1- Gabinete do ministro. Relatrio da gesto Eusbio de Queiroz Mattoso Ca-mara (1849) p. 7.Patacho (sem nome) 1844Cato 1850 Apreendido em Santa CatarinaEdelmonda 1850 Apreendido em CananaTrenton 1850 Apreendido em CananaRolha 1850Urania 1850Hiate Jovem Maria 1850Hiate Theresa Maria ou Theresa 1850 Apreendido no porto de IlhosEncantador 1850 Apreendido na BahiaCupido 1850 Apreendido em MarambaiaHiate (sem nome) 1850 Apreendido em ItapemirimEscuna Inocente 1850 Apreendido em AlagoasPatacho Natividade 1850Garopeira 1850Barca Tourville 1850Barca Tentativa 1850 Apreendido em QuissamFonte: Embarcaes apreendidas de acordo com o corpus documental IJ1 Gabinete do Ministro (Arquivo Nacional).fontes bibliogrficAs:Fontes:Arquivo Nacional Srie Justia IJ1Fontes Secundrias:BETHEL, Leslie. A abolio do trfico de escravos no Brasil. So Paulo: Edusp, 1976.CICCHELLI PIRES, Ana Flvia. A abolio do Comrcio Atlntico de Escravos e os Afri-canos Livres no Brasil. 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