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A RELIGIÃO NA VIDA DO POVO INDIANO

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Religio

para Hanuman Das

. A Religio VdicaA Religio VdicaGeneralidades O vedismo ou religio do Veda constitui o aspecto mais antigo sob o qual nos so apresentadas as formas religiosas na ndia. Os textos vdicos, que so os primeiros monumentos literrios da ndia (e dos mais antigos da humanidade), proporcionam simultaneamente o testemunho mais arcaico da religio a que se chama ora bramanismo, ora hindusmo. Se houvesse que limitar as duas palavras, bramanismo deveria designar a religio das pocas antigas e confundir-se depois, em parte ou na totalidade, com o vedismo, enquanto o hindusmo visaria mais a evoluo religiosa no seu conjunto, quer a partir do Veda, quer aps o perodo vdico. A religio vdica a que os invasores arianos levaram consigo quando irromperam no Noroeste da ndia (o Panjb, bacia do alto Indo), entre 2100 e 1500 antes da nossa era. O fundo remonta a dados que se deixam caracterizar como indo-iranianos. Voltamos a encontr-los quando observamos o que, no Iro, anterior reforma de Zoroastro e, ao mesmo tempo, homlogo aos fatos conhecidos na ndia vdica: a crena em certas noes fundamentais, numa dupla hierarquia divina -os daivas e os asuras; por outro lado, o culto do Fogo, os sacrifcios animais, os sacrifcios de soma. Mas, para alm desta religio indo-iraniana, que no passou de uma etapa, existe um plano Indo-europeu. A religio Indo-europeia consistia numa rede de crenas j complexas, ao mesmo tempo naturalistas, rituais e sociais. Sob um deterrminado ngulo, estavam repartidas em funes: uma propriamente religiosa, sacerdotal e jurdica, outra representativa do poder temporal e uma terceira de tipo econmico. Mas a religio vdica s se explica numa medida muito reduzida por essa dupla herana indo-iraniana ou indo-europeia. Em contacto com elementos autctones ou pelo efeito de uma rpida evoluo interna, as formas antigas foram enriquecidas ou alteradas.

Absorveram uma parte daquilo a que se pode chamar o hindusmo primitivo -de que nada conhecemos, parte precisamente os vestgios que se encontram na religio vdica e esclarecem quando comparados com fatos atestados na ndia ulterior. Os Textos Os nicos monumentos da religio vdica so textos, de data e inspirao variadas. Esses textos formam um conjunto excepcionalmente amplo e importante, embora o que se conservou at n6s represente apenas, segundo a tradio, urna pequena parte do que existia na origem. Com efeito, essa literatura foi-nos transmitida repartida por escolas, a que a tradio chama ramos, as quais comearam por ser em nmero de quatro, em virtude da funo qudrupla dos celebrantes, e depois cindiram-se noutros ramos devido aos ensinamentos particulares a que deu origem o desenvolvimento progressivo da prtica religiosa e sua extenso atravs de toda a ndia. Ora, nem todas as escolas primitivas, nem todos os ramos secundrios (nem a totalidade ou a integridade dos textos num mesmo ramo) chegaram at ns, muito longe disso. Os textos mais importantes e, de resto, os mais antigos so as quatro compilaes (Samhita) que formam aquilo a que se chama os quatro Vedas. O termo veda, que significa saber, tambm se emprega, num sentido amplo, para designar toda ou uma parte da literatura ulterior, fundada numa ou noutra das quatro Samhits. So: 1) O Rig-Veda ou Veda das Estrofes, o documento das literaturas indianas mais antigo: reunio de cerca de mil hinos s divindades, que prefigura uma espcie de antologia obtida compilando as peas conservadas por velhas famlias sacerdotais; a maior parte desses hinos refere-se mais ou menos diretamente ao sacrifcio de soma; no entanto, alguns tm urna relao muito reduzida ou mesmo nula com o culto; 2) O Yajur-Veda ou Veda das Frmulas, que nos transmitido em vrias recenses: urnas combinam-se com as frmulas que acompanham a liturgia dos elementos de um comentrio em prosa - aquilo a que se chama o Yajur Veda Negro-, enquanto outras apenas do as frmulas e trata-se ento do Yajur-Veda Branco; 3) o Sma-Veda ou veda das Melodias urna coletnea de estrofes como o Rig-Veda, no qual, alias, essas estrofes se inspiram na quase totalidade, mas esto dispostas com vista execuo do cntico sagrado e comportam notaes musicais; 4) Finalmente, o Atharva-Veda tambm uma compilao anloga ao Rig-Veda, mas de carter em parte mgico e em parte especulativo. A tradio fala com freqncia de trs Vedas ou da tripla cincia, porque considera implicitamente o Atharva estranho alta dignidade prpria dos trs Vedas. Seguem-se, na ordem cronolgica, os Brahmanas ou Interpretaes sobre o brama, comentrios em prosa que explicam quer os ritos, quer as frmulas que os acompanham. H os ligados aos diferentes Vedas e at dois ou mais de dois para todos os Vedas, exceto para o Atharva. Estes dois primeiros ramos da literatura vdica formam aquilo a que se chama a ruti ou revelao; por outras palavras, passam por ser de origem divina, resultar de uma comunicao por vidncia feita a determinados seres humanos privilegiados. A ruti comporta ainda textos mais breves, completamente naturais dos Brhmanas, os ranyakas ou Tratados Florestais, prprios para serem recitados longe das aglomeraes, e os Upanishads ou Concepes, que se envolvem no vivo das especulaes. Os outros documentos do vedismo pertencem smriti ou tradio memorizada: tratase, em primeiro lugar, dos Sutras ou Aforismos, isto , textos redigidos num estilo muito hermtico, destinados a ser aprendidos de cor pelos novios liturgistas. Foi compilado um nmero elevado deles, para os diferentes ramos, quer na ordem das cerimnias solenes, quer na ordem do ritual domstico; outros ainda resumem

ensinamentos mais gerais, traando o esboo de um direito civil e penal que sai gradualmente da matriz das prescries sacerdotais. A literatura termina com sries de textos, escritos ora em estilo de aforismo, ora em prosa corrente, eventualmente em versculos: completam o que se deve saber para ser um ritualista completo - tratados de mtrica, de fontica, de astronomia, listas diversas e tabelas das matrias metdicas, etc. O conjunto est redigido em snscrito*, mas num snscrito arcaico que contm numerosas particularidades mais tarde perdidas. Os Hinos e as frmulas em geral (o que se engloba sob a designao de mantra) so de um arcasmo muito mais pronunciado que a prosa subseqente. Mas, no conjunto, a cronologia interna no fcil de estabelecer. *[Pronncia das palavras snscritas: u pronuncia-se como na nossa lngua; c e j pronunciam-se respectivamente tch e dj; g tem sempre o som gu; P equivale ao som do ich. Nesta traduo, utilizamos o para representar o som X ou Sh.] Quanto cronologia absoluta, tambm no muito segura. A redao do Rig-Veda pode situar-se, por hiptese, nos sculos X ou XII antes da nossa era. Os ltimos textos vdicos, ou seja, os anexos do Veda e os grandes Upanishads devem ser do sculo VI ou V. No obstante, a sua preparao remonta a muito mais atrs, e os tratados vdicos isolados foram compilados mais tarde. A transmisso e mesmo a confeco foram orais ou, pelo menos, s comportaram a escrita a titulo de auxiliar. Ainda hoje os recitadores que subsistem atravs da ndia conservam oralmente vastas pores do Veda, em condies de uma exatido surpreendente. As Crenas e a Mitologia A religio vdica consiste, antes de mais, numa mitologia muito elaborada. Os deuses do Veda, como os descreve principalmente o Rig-veda, so seres ativos que intervm com naturalidade nos assuntos humanos. Convenientemente invocados, gratificados com belas oferendas, so prestveis, de contrrio perigosos, e vrios deles naturalmente ambivalentes. Enumeram-se em geral trinta e trs, divididos, desde a Antiguidade, em deuses terrestres, do espao intermdio (atmosfera) e celestes. Uma diviso mais pertinente seria por funes-deuses soberanos, guerreiros e patronos da funo econmica (agricultura, criao de gado e artesanato), mas isto apenas abarca urna pequena parte dos fatos. Na realidade, as atribuies so mltiplas, e o prprio formulrio e exigncias do panegrico contriburam para as diversificar. Dotou-se a divindade que se celebrava num momento determinado de todas ou parte das funes aferentes aos outros deuses, pelo que a mitologia vdica se tomou uma coisa confusa, mal decifrvel primeira vista. No fundo do panteo reside Dyaush Pitar, o Cu Pai, equivalente ao Jpiter romano, mas trata-se de uma figura muito plida, como a deusa Terra ou o casal Cu-Terra, invocados com freqncia apesar disso. Mais perto, mas ainda recolhida, encontra-se a figura impressionante de Varuna, deus soberano, conservador das leis csmicas e morais, espiador dos culpados, que amarra com os seus lacetes, possuidor de uma faceta perigosa, quase sinistra. Associam-lhe com freqncia outro soberano, Mitra, deus dos contratos e da majestade jurdica. Varuna e Mitra so os primeiros de entre os dityas, seqncia de sete ou oito entidades que passam por descendentes de Aditi, esboo vago de uma Deusa-Me. O papel proeminente est reservado a Indra, cujas proezas maravilhosas nos so descritas incessantemente: venceu multides de inimigos humanos ou demonacos, auxiliado por prncipes aliados. Num plano mais naturalista, matou, com o seu raio, o drago que bloqueava as guas, conquistou o Sol, libertou as auroras prisioneiras, etc. A

origem de Indra, em que alguns viram o tpico deus ariano, mantm-se duvidosa. Entre os seus aliados figuram os Marutes, grupo de homens jovens que cavalgam nas nuvens e provocam a tempestade e a chuva, aos quais tambm chamam Rudras, ou seja, filhos de Rudra. Este dado conduz-nos a uma das figuras mais estranhas do vedismo: Rudra, deus essencialmente temvel, mesmo (e, sobretudo) quando lhe chamam iva o benfeitor. certo que, por outro lado, se revela milagreiro, e as invocaes que lhe dirigem emprestam a essa dupla qualidade uma natureza muito especial. Outras personalidades, em geral tambm aliadas de Indra, so o casal dos Avins ou Nsatyas, que percorrem o cu no seu carro, marcando pela sua passagem a aurora e o crepsculo. So equivalentes aos Discuros da mitologia grega. No se sabe ao certo se