Jorge Luis Borges - O ouro dos tigres

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1. O Ouro Dos Tigres*** JORGE LUIS BORGEShttp://groups.google.com/group/digitalsource 2. Este livro: O Ouro Dos Tigres , parte integrante da coleo:JORGE LUIS BORGESOBRAS COMPLETAS VOLUME II1952-1972 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges Obras CompletasCopyright 1998 by Maria KodamaCopyright 1999 das tradues by Editora Globo S.A.1 Reimpresso-9/99 2 Reimpresso-12/OOEdio baseada em Jorge Luis Borges Obras Completas, publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona Espanha.Coordenao editorial: Carlos V. FriasCapa: Joseph Ubach / Emec EditoresIlustrao: Alberto Ciupiak Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S Assessoria editorial: Jorge SchwartzEste livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com ainteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestao do pensamento humano..Reviso das tradues: Jorge Schwartz e Maria Carolina de AraujoPreparao de originais: Maria Carolina de AraujoReviso de textos: Mrcia Menin Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produes Grficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Gimnez, Christopher E Laferl,Edgardo Krebs, lida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, Jos Antnio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos EDITORA GLOBO S.A. 3. Avenida Jaguar, 1485 CEP O534(-9O2 Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SPe-mail: atendimento@edglobo.com.brTodos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravaoetc. nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora. Impresso e acabamento: Grfica CrculoCIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Cmara Brasileira do Livro, SPBorges, Jorge Luis, 1899-1986.Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. So Paulo : Globo, 2OOO.Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores.v. 1. 1923-1949 / v. 2.1952-1972 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2)1. Fico argentina 1. Ttulo.CDD-ar863.4ndices para catlogo sistemtico 1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4 1. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4O OURO DOS TIGRESEl Oro de los Tigres Traduo de Josely Vianna Baptista 4. O OURO DOS TIGRES 1972 Prlogo Tamerlo (1336 1405) Espadas O passado Tankas Treze moedas Um poeta Oriental O deserto Chove Asterin Um poeta menor Gnesis, IV: 8 Nortmbria, 900 A. D. Miguel de Cervantes O Oeste Estncia El Retiro O prisioneiro Macbeth Eternidades Susana Bombal A John Keats (1795 1821) Sonha Alonso Quijano A um Csar O cego On His Blindness A busca O perdido H.O. Religio Medici, 1643 1971 Coisas O ameaado Proteu Outra verso de Proteu Fala um busto de Jano O gacho A pantera Tu Poema da quantidade A sentinela Ao idioma alemo 5. Ao triste O mar Ao primeiro poeta da Hungria O Advento A tentao 1891 1929 A promessa O estupor Os quatro ciclos O sonho de Pedro Henrquez Urea O palcio Hengist quer homens (449, A. D.) Episdio do inimigo Islndia Ao espelho A um gato East Lansing Ao coiote Um amanh O ouro dos tigresNotas 6. PRLOGODe um homem que completou os setenta anos recomendados por Davidpouco podemos esperar, salvo o manejo consabido de algumas destrezas, umaque outra ligeira variao e fartas repeties. Para eludir ou ao menos atenuaressa monotonia, optei por aceitar, talvez com temerria hospitalidade, amiscelnea de temas que se ofereceram a minha rotina de escrever. A parbolasucede confidncia, o verso livre ou branco ao soneto. No princpio dostempos, to dcil vaga especulao e s inapelveis cosmogonias, no deveter havido coisas poticas ou prosaicas. Tudo seria um pouco mgico. Thor noera o deus do trovo; era o trovo e o deus. Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria serpotico, j que profundamente o . Que eu saiba, ningum alcanou at hojeessa alta viglia. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualqueroutro; Whitman a props, mas suas deliberadas enumeraes nem semprepassam de catlogos insensveis.Descreio das escolas literrias, que considero simulacros didticos parasimplificar o que ensinam, mas, se me obrigassem a declarar de onde procedemmeus versos, diria que do simbolismo, essa grande liberdade, que renovou asmuitas literaturas cujo instrumento comum o castelhano e que chegou, porcerto, at a Espanha. Conversei mais de uma vez com Leopoldo Lugones,homem solitrio e soberbo; este costumava desviar o curso do dilogo parafalar de "meu amigo e mestre, Rubn Daro". (Creio, tambm, que devemossublinharas afinidades de nosso idioma, no seus regionalismos.) Meu leitor notar em algumas pginas a preocupao filosfica. Foiminha desde menino, quando meu pai revelou-me, com a ajuda do tabuleiro dexadrez (que era, lembro-me, de cedro), a corrida de Aquiles e da tartaruga.Quanto s influncias que sero percebidas neste volume... Em primeirolugar, os escritores que prefiro j citei Robert Browning ; depois, os que li erepito; depois, os que nunca li, mas que esto em mim. Um idioma umatradio, um modo de sentir a realidade, no um arbitrrio repertrio desmbolos.J. L. B.Buenos Aires, 1972. 7. ____________________O O URO DO STI G R ES____________________(1972) 8. TAMERLO1 (1336-14O5)Meu reino deste mundo. CarcereirosE crceres e espadas executamA ordem que no repito. Minha palavraMais nfima de ferro. At o secretoCorao das pessoas que no ouviramjamais meu nome em seus confins longnquos instrumento dcil a meu arbtrio.Eu, que fui um rabado da pradaria,Icei minhas bandeiras em PerspolisE mitiguei a sede dos cavalosNas guas do rio Ganges e do Oxus.Quando nasci, caiu do firmamentoUma espada com signos talismnicos;Eu sou, eu serei sempre, aquela espada.J derrotei o grego e o egpcioE devastei as muitas, incansveis,Lguas da Rssia com meus duros trtaros,Pirmides de crnios erigi,Jungi a minha carroa quatro reisQue no quiseram acatar meu cetroE atirei s chamas em AlepoEsse Livro dos Livros, o Alcoro,Anterior aos dias e s noites.Eu, o rubro Tamerlo, tive em meu abraoA branca Zencrate do Egito,Casta como a neve das alturas.Recordo as pesadas caravanasE as nuvens de poeira do deserto,Recordo uma cidade de fumaaE candeeiros de leo nas tabernas.Sei tudo e posso tudo. Um agourentoLivro ainda no escrito revelou-meQue morrerei como os outros morremE que, por entre a plida agonia,Ordenarei que meus arqueiros lancemFlechas de ferro contra o cu adverso 9. E embandeirem de negro o firmamentoPara no haver um homem que no saibaQue os deuses esto mortos. Sou os deuses.Que outros recorram astrologiaJudiciria, ao compasso e ao astrolbio,Para saber quem so. Eu sou os astros.Em alvoradas incertas me perguntoPor que no saio nunca desta cmara,Por que no condescendo homenagemDo clamoroso Oriente. s vezes sonhoCom escravos, intrusos que desdouramO Tamerlo com dedos temerriosE lhe dizem que durma e que no deixeDe tomar toda noite as pastilhasEncantadas da paz e do silncio.A cimitarra busco e no a encontro.Busco no espelho o meu rosto; outro.Por isso o quebrei e me puniram.Por que no compareo aos suplcios,Por que no vejo o machado e a cabea?Essas coisas me inquietam, porm nadaPode ocorrer se Tamerlo se opeE Ele, talvez, as queira sem saber.E eu sou Tamerlo. Rejo o PoenteE o Oriente de ouro, e no entanto... 10. ESPADASJoyeuse, Excalibur, Gram, Durendal.Suas velhas guerras andam pelo verso,Que a nica memria. O universoAo Norte e ao Sul as vai semeando igual.Persiste na espada a ousadiaDa destra mo viril, hoje p e nada;No ferro ou no bronze, a estocadaQue foi sangue de Ado num primo dia.Cestas enumerei dessas distantesEspadas cujos homens deram morteA reis e a serpentes. H outra sorteDe espadas, as murais e as reinantes.Deixa-me, espada, usar contigo a arte;Eu, que no mereci isso, manejar-te. 11. O PASSADOTudo era fcil, nos parece agora,Naquele plstico ontem irrevogvel:Scrates, que, apurada a cicuta,Discorre sobre a alma e seu caminho,Enquanto a morte azul lhe vai subindoPelos ps regelados; a implacvelEspada que retumba na balana;Roma, que impe o numeroso hexmetroAo obstinado mrmore dessa lnguaQue manejamos hoje, espedaada;Os piratas de Hengist que atravessamA remo o temerrio Mar do NorteE com as fortes mos e a coragemFundam um reino que ser o Imprio;O rei saxo que oferta ao da NoruegaSete palmos de terra e que cumpre,Antes que o sol decline, a promessaNa batalha de homens; os cavaleirosDo deserto, que cobrem o OrienteE ameaam as cpulas da Rssia;Um persa que relata a primeiraDas Mil e Uma Noites e no sabeQue deu incio a um livro que os sculosDas outras geraes, ulteriores,No entregaro ao quieto esquecimento;Snorri, que salva em sua perdida Tule,Sob a luz de crepsculos morososOu na noite propcia memria,As letras e os deuses da Germnia;O jovem Schopenhauer, que descobreUm projeto geral do universo;Whitman, que numa redao do Brooklin,Entre o cheiro de tinta e de tabaco,Toma e a ningum conta a infinitaResoluo de ser todos os homensE de um livro escrever que seja todos;Arredondo, que mata Idiarte Borda 12. Em certa manh de MonteviduE se entrega justia, declarandoTer agido sozinho e no ter cmplices;O soldado que morre em cho normando,O que na Galilia encontra a morte.Essas coisas podiam no ter sido.Quase no foram. Ns as concebemosEm um ontem fatal e inevitvel.No h outro tempo que o agora, este piceDo j ser e do foi, daquele instanteEm que a gota cai na clepsidra.O ontem ilusrio um recintoDe imutveis figuras de ceraOu de reminiscncias literriasQue o tempo ir perdendo em seus espelhos.Carlos Doze, Breno, rico, o Vermelho,E a tarde inapreensvel que foi tuaNa eternidade so, no na memria. 13. TANKAS2 1Alto no cimoTodo o jardim lua,Lua de ouro.Mais precioso o roarDe tua boca na sombra. 2A voz da aveQue a penumbra escondeEmudeceu.Andas por teu jardim.E algo, eu sei, te falta. 3A alheia taa,A espada que foi espadaEm outra mo,A lua do caminho,Dize, acaso no bastam? 4Sob a luaO tigre de ouro e sombraOlha suas garras.No sabe que na auroraDestroaram um homem. 5Triste essa chuva 14. Que cai sobre o mrmore,Triste ser terra.Triste no ser os diasDo homem, o sonho, o alvorecer. 6No ter tombado,Como outros de meu sangue,Na batalha.Ser na intil noiteO que conta as slabas. 15. TREZE MOEDAS UM POETA ORIENTALDurante cem outonos diviseiTeu tnue disco.Durante cem outonos diviseiTeu arco sobre as ilhas.Durante cem outonosos meus lbiosNo foram menos silenciosos.O DESERTOO espao sem tempo.A lua da cor da areia.Agora, exatamente agora,Morrem os homens do Metauro e de Trafalgar. 16. CHOVEEm que ontem, em que ptios de Cartago,Cai tambm esta chuva? ASTRIONO ano me tributa meu pasto de homensE na cisterna h gua.Em mimse estreitam os caminhos de pedra.De que posso queixar-me?Nos entardeceresPesa-me um pouco a cabea de touro. UM POETA MENORA meta o esquecimento.Eu cheguei antes. 17. GNESIS 4, 8Foi no primeiro deserto.Dois braos atiraram uma grande pedra.No houve um grito. Houve sangue.Houve pela primeira vez a morte.J no me lembro se foi Abel ou Caim. NORTMBRIA, 9OO A.D.Que antes do alvorecer o despojem os lobos;A espada o caminho mais curto. MIGUEL DE CERVANTESCruis estrelas e propcias estrelasPresidiram a noite de minha gnese;Devo s ltimas o crcereEm que sonhei o Quixote. 18. O OESTEO beco final com seu poente.Inaugurao do pampa.Inaugurao da morte.ESTNCIA EL RETIROO tempo joga um xadrez sem peasAli no ptio. O rangido de uma ramaRasga a noite. L fora a plancieLguas de p e sonho esparrama.Sombras os dois, copiamos o que ditamOutras sombras: Herclito e Gautama. O PRISIONEIROUma lima.A primeira das pesadas portas de ferro.Um dia serei livre. 19. MACBETHNossos atos prosseguem seu caminho,Que no conhece fim.Matei meu rei para que ShakespeareUrdisse sua tragdia. ETERNIDADESA serpente que cinge o mar e o mar,O repetido remo de Jaso, a jovem espada de Sigurd.S perduram no tempo as coisasQue no foram do tempo. 20. SUSANA BOMBALAlta na tarde, altiva e louvada,Cruza o casto jardim e est na exataLuz do instante irreversvel e puroQue nos d este jardim e a alta imagem,Silenciosa. Vejo-a aqui, nesta hora,Mas tambm a diviso num antigoFulgor crepuscular da Ur dos Caldeus,Ou ento descendo a lenta escadariaDe um templo, que inumervel pDo planeta e que foi pedra e soberba,Ou decifrando o mgico alfabetoDas estrelas de outras latitudes,Ou aspirando uma rosa na Inglaterra.Est onde houver msica, no leveAzul, e no hexmetro do grego,Em nossas solides que a procuram,No liso espelho de gua de uma fonte,No mrmore do tempo, numa espada,Nessa serenidade do terraoQue divisa poentes e jardins.E por detrs dos mitos e das mscaras,A alma, que est s.Buenos Aires, 3 de novembro de 197O. 21. A JOHN KEATS (1795-1821)Desde o princpio at a jovem morteA terrvel beleza te espreitavaComo os outros a propcia sorteOu a adversa. Nas alvas te esperavaDe Londres, e nas pginas casuaisDe um dicionrio de mitologia,Nas costumeiras ddivas do dia,Num rosto, numa voz, e nos mortaisLbios de Fanny Brawne. Oh, sucessivoE arrebatado Keats, que o tempo cega,O alto rouxinol e a uma gregaSero tua eternidade, oh, fugitivo.Foste o fogo. Na pnica memriaHoje no s as cinzas. s a glria. 22. SONHA ALONSO QUIJANODesperta aquele homem de um indistintoSonho de alfanjes e de campo cho,Toca de leve a barba com a moDuvidando se est ferido ou extinto.No iro persegui-lo os feiticeirosQue juraram seu mal por sob a lua?Nada. O frio apenas. Apenas suaAmargura nos anos derradeiros.Foi o fidalgo um sonho de CervantesE Dom Quixote um sonho do fidalgo.O duplo sonho os confunde e algoEst ocorrendo que ocorreu muito antes.Quijano dorme e sonha. Uma batalha:Os mares de Lepanto e a metralha. 23. A UM CSARNa noite favorvel a esses lmuresE a larvas que fustigam os defuntos,Quartearam inutilmente os profundosEspaos das estrelas os teus ugures.Do touro jugulado na penumbraAs vsceras em vo tm indagado;Em vo o sol desta manh alumbraA espada fiel do pretoriano armado.No real palcio tua garganta esperaAssustada o punhal. J os confinsDo imprio que regem teus clarinsPressentem as plegrias e a fogueira.De tuas montanhas o horror sagradoTem o tigre de ouro e sombra profanado. 24. O CEGO A Mariana Grondona IFoi despojado do diverso mundoE dos rostos, que so o que eram antes,Das ruas prximas, hoje distantes,E do cncavo azul, ontem profundo.Resta dos livros o que lhe consenteA memria, essa forma de olvidoQue retm o formato, no o sentido,E que reflete os ttulos somente.O desnvel espreita. Cada passoPode ser uma queda. Sou o lentoPrisioneiro de um tempo sonolentoQue no marca sua aurora nem seu ocaso. noite. No h outros. Com o versoDevo lavrar meu inspido universo. IIDesde meu nascimento, no ano noventa e noveDas cncavas parreiras e do algibe profundo,O tempo minucioso, que na memria breve,Foi me furtando as formas visveis deste mundo.Os dias e as noites limaram os perfisDessas letras humanas e dos rostos amados;Em vo interrogaram meus olhos fatigadosAs vazias bibliotecas e os vazios atris.O azul e o vermelho so agora cerrao,Duas palavras inteis. O espelho que miro uma coisa cinzenta. No jardim eu aspiro,Amigos, uma lgubre rosa da escurido.Agora s perduram contornos amarelos,E s consigo ver para ver pesadelos. 25. ON HIS BLINDNESSIndigno dos astros e da aveQue sulca o azul profundo, ora secreto,Dessas linhas que so o alfabetoQue outros ordenam e do mrmore graveCujo lintel meus fatigados olhosPerdem em sua penumbra, dessas rosasInvisveis e das silenciosasProfuses de ouros e de vermelhosSou, mas no das Mil Noites e UmaQue abrem em minha sombra o mar e o alvorNem de Walt Whitman, esse Ado nomeadorDas crianas que existem sob a lua,Nem desses brancos dons do esquecimentoNem do amor que espero sem um lamento. 26. A BUSCANo fim de sua terceira geraoRegresso s plancies dos Acevedo,Os meus antepassados. VagamenteProcurei-os por esta velha casaBranca e retangular, entre o frescorDas duas galerias, e na sombraCrescente que projetam as colunas,Naquele intemporal grito do pssaro,Na chuva que ensombrece a varanda,Entre o crepsculo de seus espelhos,Num reflexo, um eco, que foi seuE que agora meu, sem que eu o saiba.Olhei para as ferragens do gradilQue fez parar as lanas do deserto,A palmeira partida pelo raio,Os negros touros de Aberdeen, a tarde,As casuarinas que eles nunca viram.Aqui foram a espada e o perigo,As duras proscries e os levantes;Firmes sobre o cavalo, aqui regeramA sem princpio e a sem fim planuraOs estanceiros das longnquas lguas.Pedro Pascual, Miguel, Judas Tadeo...Quem me dir se misteriosamente,Sob esse teto de uma nica noite,E para alm dos anos e do p,Para alm do cristal da relembrana,No nos unimos e nos confundimos,Eu s no sonho, mas eles na morte. 27. O PERDIDOOnde estar minha vida, a que tudoPde ser e no foi, a venturosaOu a de triste horror, essa outra coisaQue pde ser a espada ou o escudoE que no foi? Onde estar o perdidoAntepassado persa ou noruegus,Onde o acaso de no me enceguecer,Onde a ncora e o mar, onde o olvidoDe ser quem sou? Onde estar a puraNoite que ao rude lavrador confiaO iletrado e laborioso dia,Conforme pede a literatura?Penso tambm naquela companheiraQue me queria, e quem sabe ainda queira. 28. H. O.Em certa rua h certa firme portaCom a campainha e o nmero precisoE um sabor de perdido paraso,Que nos entardeceres no est abertaA minha passagem. Finda a jornada,Uma esperada voz me esperariaNa desagregao de cada diaE no sossego da noite enamorada.Essas coisas no so. Outra minha sorte:As vagas horas, a memria impura,O exagero da literaturaE no limite a indesejada morte.S desejo essa pedra. Meu pedidoSo duas datas abstratas e o olvido. 29. RELIGIO MEDICI, 1643Defende-me, Senhor. (O vocativoNo implica Ningum. s uma palavraDeste exerccio que o enfado lavraE que na tarde do temor cultivo.)Defende-me de mim. J o disseramMontaigne e Browne e um espanhol que ignoro;Algo me resta ainda de todo esse ouroQue meus olhos de sombra recolheram.Defende-me, Senhor, do impacienteDesejo de ser mrmore e olvido;Defende-me de ser o j vivido,O que j fui irreparavelmente.No da espada ou da vermelha lanaDefende-me, mas sim da esperana. 30. 1971Dois homens caminharam pela lua.Outros depois. O que pode a palavra,O que pode o que a arte sonha e lavra,Ante sua real e quase irreal fortuna?brios de horror divino e de aventura,Esses filhos de Whitman haviam pisadoO pramo lunar, o invioladoOrbe que, antes de Ado, passa e perdura.O amor de Endmion em sua montanha,O hipogrifo, a curiosa esferaDe Wells, que em minha recordao vera,Confirmam-se. De todos a faanha.No h na terra um homem que no sejaMais valente hoje e mais feliz. O diaImemorial se exalta de energiaPelo valor que essa Odissia enseja,A dos amigos mgicos. A lua,Que o amor secular busca no firmamentoCom triste rosto e insatisfeito intento,Ser seu monumento, eterna e una. 31. COISASO volume cado que os outrosEscondem ali no fundo da estanteE que os dias e as noites cobremDe lento p silencioso. A ncoraDe Sdon que os mares da InglaterraOprimem em seu abismo cego e brando.O espelho que no repete ningumQuando a casa permaneceu sozinha.As limalhas de unha que deixamosNo decorrer do tempo e do espao.O p indecifrvel que foi Shakespeare.As modificaes de uma nuvem.A simtrica rosa momentneaQue deu o acaso certa vez aos vidrosOcultos do infantil caleidoscpio.Os remos de Argos, a primeira nave.As pegadas de areia que a ondaSonolenta e fatal desfaz na praia.Os matizes de Turner quando as luzesApagam-se na reta galeriaE no ressoa um passo na alta noite.O inverso do prolixo mapa-mndi.A tnue teia de aranha na pirmide.A pedra cega e a mo curiosa.O sonho que eu tive antes da auroraE que esqueci ao clarear o dia.O princpio e o fim da epopiaDe Finsburh, hoje alguns contados versosDe ferro, no comido pelos sculos.A letra inversa no mata-borro.A tartaruga no fundo do algibe.O que no pode ser. O outro cornoDo unicrnio. O Ser que Trs e Uno.O disco triangular. O inapreensvelInstante em que a flecha do eleata,No ar imobilizada, acerta o alvo. 32. A flor entre as pginas de Bcquer.O pndulo que o tempo fez parar.O ao que Odin cravou na rvore.O texto de umas no cortadas folhas.O ressoar dos cascos no assaltoDe Junn, que de algum eterno modoNo cessou e parte dessa trama.A sombra de Sarmiento nas caladas.A voz que na montanha ouviu o pastor.Os ossos branqueando no deserto.A bala que matou Francisco Borges.O outro lado do tapete. As coisasQue ningum olha, salvo o Deus de Berkeley. 33. O AMEAADO o amor. Terei de me esconder ou fugir.Crescem as paredes de seu crcere, como em um sonho atroz.A bela mscara mudou, mas como sempre a nica. De que me serviro meus talisms: oexerccio das letras, a vaga erudio, o aprendizadodas palavras que usou o spero Norte para cantar seusmares e suas espadas, a serena amizade, as galerias daBiblioteca, as coisas comuns, os hbitos, o jovemamor de minha me, a sombra militar de meus mortos,a noite intemporal, o gosto do sonho?Estar contigo ou no estar contigo a medida de meu tempo.O cntaro j se quebra sobre a fonte, j se levantao homem voz da ave, j escureceram os queolham pelas janelas, mas a sombra no trouxe a paz., eu sei, o amor: a ansiedade e o alvio de ouvir tua voz,a espera e a memria, o horror de viver no sucessivo.E o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inteis.H uma esquina pela qual no me atrevo a passar.Agora os exrcitos me cercam, as hordas.(Este quarto irreal; ela no o viu.)O nome de uma mulher me delata.Di-me uma mulher por todo o corpo. 34. PROTEUAntes que os remeiros de OdisseuFatigassem os mares cor de vinho,As inapreensveis formas adivinhoDaquele deus cujo nome foi Proteu.Um pastor dos rebanhos desses maresQue possua o dom da profeciaPreferia ocultar o que sabiaE entretecer uns orculos dspares.Urgido pela gente, assumiaA forma de um leo, de uma fogueiraOu de rvore que ensombra a ribeiraOu de gua que na gua se perdia.Com Proteu, o egpcio, no te assombres,Tu, que s um e ao mesmo tempo muitos homens. 35. OUTRA VERSO DE PROTEUHabitante de areias receosas,Meio deus, meio fera marinha,Ignorou a memria, que definhaSobre o ontem e as perdidas coisas.Outro tormento padeceu ProteuNo menos cruel, saber o que encerraO futuro: uma porta que se cerraPara sempre, o troiano e o aqueu.Capturado, tomava a inapreensvelForma do furaco ou da fogueiraOu do tigre de ouro ou da panteraOu de gua que na gua invisvel.Tu tambm ests feito de inconstantesOntens e amanhs.No entanto, antes... 36. FALA UM BUSTO DE JANONingum abra nem feche qualquer portaSem honrar a memria de Bifronte,Que as preside. Abarco o horizonteDe incertos mares e de terra certa.Minhas duas faces divisam o que passouE o porvir. Posso v-los similaresAos ferros, s discrdias e aos malesQue Algum pde apagar mas no apagouNem apagar. As duas mos me faltamE sou de pedra imvel. No poderiaPrecisar se contemplo uma porfiaFutura ou a de ontens que se afastam.Vejo minha runa: a coluna truncadaE as faces, que no vo se ver por nada. 37. O GACHOFilho de algum extremo dessa planuraAberta, elementar, quase secreta,Puxava o firme lao que aquietaO firme touro de cerviz escura.Com o ndio e o godo antes lutou,Morreu em rixas de baralho e tava;Deu a vida ptria, que ignorava,E, assim perdendo, nada lhe restou.Hoje p de tempo e de planeta;Nomes no ficam, mas o seu perdura.Foi tantos outros e hoje uma quietaPea que move a literatura.Foi o matreiro, o sargento e a partida.Foi quem cruzou a herica cordilheira.Foi soldado de Urquiza ou de Rivera,Tanto faz. Foi quem acabou com Laprida.Deus lhe estava distante. ProfessaramA antiga f do ferro e da coragem,Que a splica ou a soldo no do margem.Por essa f morreram e mataram.Entre os acasos de uma montoneraPereceu pela cor de uma divisa;Foi quem nada pediu, nem a efmeraGlria, feita de alarde e de brisa.Foi o homem cinzento que, obscuro na pausadaPenumbra do galpo, sonha e mateia,Enquanto no oriente j clareiaA luz de outra deserta madrugada.Nunca disse: Sou gacho. Foi sua sorteNo imaginar a sorte que dos outros.No menos ignorante que ns, outros,No menos solitrio, entrou na morte. 38. A PANTERAAtrs das fortes grades a panteraRepetir o enfadonho itinerrio,Que (mas no o sabe) seu fadrioDe negra jia, aziaga e prisioneira.Vo e vm aos milhares, em desfilesInfindveis, mas s uma e eternaA pantera fatal que em sua cavernaTraa a reta que um eterno AquilesTraa no sonho que sonhou o grego.No sabe que h prados e montanhasDe cervos cujas trmulas entranhasDeleitariam seu apetite cego.Em vo vrio o orbe. A jornadaQue cumpre cada qual j foi fixada. 39. TUUm s homem nasceu, um s homem morreu na terra.Afirmar o contrrio mera estatstica, uma adio impossvel.No menos impossvel que somar o cheiro da chuva e o sonho que anteontem noite sonhaste.Esse homem Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou as constelaes,o homem que erigiu a primeira pirmide, o homem que escreveu os hexagramas doLivro das Mutaes, o forjador que gravou runas na espada de Hengist, oarqueiro Einar Tamberskelver, Luis de Len, o livreiro que engendrou SamuelJohnson, o jardineiro de Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na cmaraletal, com o tempo, tu e eu.Um s homem morreu em lion, no Metauro, em Hastings, em Austerlitz, emTrafalgar, em Gettysburg.Um s homem morreu nos hospitais, em barcos, na rdua solido, naalcova do hbito e do amor.Um s homem fitou a vasta aurora.Um s homem sentiu no paladar o frescor da gua, o gosto das frutase da carne.Falo do nico, do uno, do que est sempre s.Norman, Oklahoma. 40. POEMA DA QUANTIDADEPenso nesse parco cu puritanoDe solitrias e perdidas luzesQue Emerson olharia tantas noitesEm meio neve e ao rigor de Concord.Aqui so excessivas as estrelas.O homem excessivo. As geraesInmeras de aves e de insetos,Do jaguar constelado e da serpente,De galhos que se tecem e entretecem,Do caf, da areia e das folhasOprimem as manhs e nos prodigamSeu minucioso labirinto intil.Talvez cada formiga que pisamosSeja nica ante Deus, que a definePara a execuo das regularesLeis que regem Seu curioso mundo.No fosse assim, o universo inteiroSeria um erro e um oneroso caos.Os espelhos do bano e da gua,O espelho inventivo de um sonho,Os liquens e os peixes, as madrporas,Tartarugas alinhadas no tempo,Os vaga-lumes de uma nica tarde,As araucrias e suas dinastias,As perfiladas letras de um volumeQue a noite no apaga so sem dvidaNo menos pessoais e enigmticasQue eu, que as confundo. No me atrevoA julgar nem a lepra nem Calgula. So Paulo, 197O. 41. A SENTINELAEntra a luz e eu me lembro; est ali.Comea por dizer-me seu nome, que (logo se entende) o meu.Volto escravido que durou mais de sete vezes dez anos.Impe-me sua memria.Impe-me as misrias de cada dia, a condio humana.Sou seu velho enfermeiro; obriga-me a lavar os seus ps.Espreita-me nos espelhos, no mogno, nos vidros das lojas.Uma ou outra mulher o rejeitou e devo compartilhar sua angstia.Dita-me agora este poema, que no me agrada.Exige-me o nebuloso aprendizado do duro anglo-saxo.Converteu-me ao culto idoltrico de militares mortos, com osquais talvez no pudesse trocar uma nica palavra.No ltimo lano de escada sinto que est a meu lado.Est em meus passos, em minha voz.Minuciosamente o odeio.Percebo com prazer que quase no v.Estou em uma cela circular e a infinita parede se estreita.Nenhum dos dois engana o outro, mas ns dois mentimos.Conhecemo-nos demais, inseparvel irmo.Bebes a gua de meu copo e devoras meu po.A porta do suicida est aberta, mas os telogos afirmam que nasombra ulterior do outro reino estarei eu, me esperando. 42. AO IDIOMA ALEMOMeu destino a lngua castelhana,O bronze de Francisco de Quevedo,Mas pela lenta noite caminhadaExaltam-me outras msicas mais ntimas.Umas me foram dadas pelo sangue Oh, voz de Shakespeare e da Escritura ,E outras pelo acaso dadivoso,Mas a ti, doce lngua da Alemanha,Solitrio elegi e procurei.Por entre viglias e gramticas,Em meio selva das declinaes,Do dicionrio, que jamais atinaCom o matiz preciso, me aproximei.Minhas noites so repletas de Virglio,Disse uma vez; e diria tambmDe Hlderlin e de Angelus Silesius.Heine me deu seus altos rouxinis;Goethe, a ventura de um amor tardio,A um s tempo indulgente e mercenrio;Keller, a rosa que certa mo deixaNa mo daquele morto que a amavaE que no vai saber se branca ou rubra.Tu, lngua da Alemanha, s tua obraCapital: esse amor entrelaadoDas palavras compostas, as vogaisAbertas, e esses sons que condescendemCom o estudioso hexmetro do grego,Com teu rumor de selvas e de noites.Foste minha algum dia. Hoje, no lindeDe meus anos cansados, te divisoLongnqua como a lgebra e a lua. 43. AO TRISTEA est o que foi: a dura espadaDo saxo e sua mtrica de ferro,Os mares e as ilhas do desterroDo filho de Laertes, a douradaLua do persa e os infindos jardins,Os da filosofia e os da histria,O ouro sepulcral que h na memriaE sob a sombra o cheiro dos jasmins.E nada disso importa. O resignadoExerccio do verso no te salva,Nem as guas do sonho nem a estrelaQue na arruinada noite esquece a alva.Uma nica mulher teu cuidado,Igual s outras todas, mas que ela. 44. O MARO mar. O mar de Ulisses. Jovem mar.E o daquele outro Ulisses que a genteDo Isl alcunhou famosamenteDe Es-Sindibad do Mar. Do gris ondearDe rico, o Vermelho, alto em sua proa,E o do tal cavaleiro que escreviaA um s tempo a epopia e a elegiaDe sua ptria, no pntano de Goa.O mar de Trafalgar. O que a InglaterraCantou ao longo de sua longa histria,O rduo mar que ensangentou de glriaNo dirio exerccio da guerra.Esse incessante mar que na afvelManh segue sulcando a areia infindvel. 45. AO PRIMEIRO POETA DA HUNGRIANeste perodo para ti futuroQue desconhece o ugure que a formaProibida do porvir v nos planetasArdentes ou nas vsceras do touro,Nada me custaria, irmo e sombra,Buscar teu nome nas enciclopdiasE descobrir que rios refletiramTeu rosto, que hoje perdio e p,E que reis, que dolos, que espadas,Que resplendor de tua infinita HungriaElevaram tua voz ao primo canto.As noites e os mares nos separam,As seculares modificaes,Os climas, os imprios e os sangues.Porm nos une indecifravelmenteO misterioso amor pelas palavras,Nosso costume de sons e de smbolos.Semelhante ao arqueiro do eleata,Um homem s numa tarde vaziaDeixa correr sem fim esta impossvelSaudade, que tem por alvo uma sombra.No nos veremos nunca face a face,Oh, antepassado que minha voz no alcana.Eu para ti no sou sequer um eco;Para mim sou um tormento e um arcano,Uma ilha de encanto e temores,Como talvez o sejam os homens todos,E como o foste tu, sob outros astros. 46. O ADVENTOSou o que fui na aurora, entre a tribo.Deitado em meu canto da caverna,Lutava por afundar nas obscurasguas do sonho. Espectros de animaisFeridos pelo estilhao da flechaDavam horror negrura. Mas algo,Talvez a execuo de uma promessa,A morte de um rival sobre a montanha,Talvez o amor, ou uma pedra mgica,Me fora outorgado. Perdi tudo.Pelos sculos gasta, a memriaS guarda essa noite e sua manh.Sentia desejo e medo. BruscamenteOuvi o surdo tropel interminvelDe um rebanho atravessando a aurora.Arco de roble, flechas que se cravam,Deixei-os e corri at a gretaQue se abre no extremo da caverna.Foi ento que os vi. Brasa avermelhada,Cruis os cornos, montanhoso o lombo,A crina lgubre como os seus olhosQue espreitavam malvados. Aos milhares.So os bises, eu disse. A palavraNunca antes passara por meus lbios,Mas senti que talvez fosse seu nome.Era como se eu nunca houvesse visto,Como se houvesse estado cego e mortoNo tempo antes dos bises da aurora.Eles surgiam da aurora. Eram a aurora.No quis que os outros profanassemAquele denso rio de brutezaDivina, de ignorncia, de soberba,Indiferente como as estrelas.Pisotearam um co do caminho;Teriam feito o mesmo com um homem.Depois os traaria na caverna 47. Com ocre e cinbrio. Foram os DeusesDo sacrifcio e das preces. NuncaDisse minha boca o nome de Altamira.Foram muitas minhas formas e mortes. 48. A TENTAOO general Quiroga vai a seu enterro;Convida-o o mercenrio Santos PrezE sobre Santos Prez est Rosas,A recndita aranha de Palermo.Rosas, a for de bom covarde, sabeQue no h entre os homens um sequerMais vulnervel e frgil que o valente.Juan Facundo Quiroga temerrioAt a insensatez. O fato podeMerecer o exame de seu dio.Resolveu-se a mat-lo. Pensa e hesita.Por fim, d com a arma que buscava.Ser a sede e a fome de perigo.Quiroga busca o Norte. O prprio RosasO adverte, quase ao p da carroa,Que circulam rumores de que LpezPremedita sua morte. RecomendaQue no empreenda a ousada travessiaSem uma escolta. Ele mesmo a oferece.Facundo sorriu. Pois no careceDe ladeiros. Ele se basta. A rangenteCarroa deixa as vilas para trs.Lguas de longa chuva a entorpecem,Neblina e lodo e as guas transbordadas.Por fim, avistam Crdoba. So vistosComo se fossem seus fantasmas.Todos j os davam por mortos. Noites antes,Crdoba inteira vira Santos PrezDistribuindo espadas. A partida de trinta cavaleiros da serra.Nunca se urdiu um crime de maneiraMais descarada, escrever Sarmiento.Juan Facundo Quiroga no se altera.Busca o Norte. Em Santiago del EsteroSe entrega s cartas e a seu belo risco.Entre o ocaso e a aurora perde 49. Ou recebe centenas de onas de ouro.Recrudescem os alarmes. BruscamenteDecide regressar e d a ordem.Por esses descampados e esses montesRetomam os caminhos do perigo.Em um stio chamado Ojo de AguaO maestro de posta lhe revelaQue por ali j passou a partidaEncarregada de assassin-loE que o espera em um lugar que nomeia.Ningum deve escapar. Esta a ordem.A determinao de Santos Prez,O capito. Facundo no se arreda.Est por nascer o homem que se atrevaA acabar com Quiroga, lhe responde.Os outros ficam plidos e calam.Sobrevm a noite, em que somenteDorme o fatal, o forte, que confiaEm seus obscuros deuses. Amanhece.No voltaro a ver outra manh.Por que concluir a histria que j foiContada para sempre? A carroaToma o rumo de Barranca Yaco. 50. 1891Assim que o vislumbro, j o perco.Ajustado o decente traje preto,A testa estreita, o bigode ralo,E um leno no pescoo como todos,Vai caminhando entre a gente da tardeEnsimesmado e sem fitar ningum.Em uma das esquinas da rua PiedrasPede uma pinga brasileira. O hbito.Algum grita um adeus. No lhe responde.H em seus olhos um rancor antigo.Outra quadra. Rajadas de milongaVm de um ptio e o alcanam. Essas charangasEsto sempre amolando a pacincia,Mas seu andar balana e ele nem nota.Levanta a mo e apalpa a firmezaDo punhal que h na cava do colete.Vai cobrar uma dvida. Est perto.Mais alguns passos e o homem pra.H uma flor de cardo no saguo.Ouve o golpe do balde no algibeE uma voz que conhece muito bem.Empurra o porto que ainda est abertoComo se o esperassem. Esta noiteTalvez j esteja morto. 51. 1929Antes, a luz avanava mais cedoNa pea que d para o ltimo ptio;Agora o sobrado que fica ao ladoEncobre o sol, mas na difusa sombraSeu modesto inquilino est despertoDesde o amanhecer. E em silncio,Para no perturbar os seus vizinhos,O homem est mateando e esperando.Outro dia vazio, como todos.E os ardores constantes de sua lcera.J no h mulheres em minha vida, pensa.Os amigos o enfadam. ImaginaQue os enfade tambm. Falam de coisasQue no entende, de arqueiros e de quadros.No viu que horas so. Sem pressa algumaLevanta-se e barbeia-se com intilEsmero. preciso encher o tempo.O rosto que o espelho lhe devolveGuarda o aprumo que antes era seu.Envelhecemos mais que nosso rosto,Pensa, mas a esto as comissuras,O bigode grisalho, a boca murcha.Pega o chapu e sai. J no vestbuloV um jornal aberto. L as grandes letras,Crises ministeriais em pasesQue so apenas nomes. Em seguidaNota a data da vspera. Um alvio;No h mais motivo para seguir lendo.L fora, a manh logo lhe deparaSua iluso habitual de que algo estComeando e os preges dos vendedores.Em vo o homem intil dobra esquinasE passagens e tenta se perder.V com aprovao as casas novas,Algo, o vento sul, talvez, o anima.Cruza a Rivera, hoje chamada Crdoba, 52. E nem lembra que faz muitos anosQue seus passos a eludem. Duas, trs quadras.Reconhece uma longa balaustrada,Os redondis da sacada de ferro,Um muro eriado de pedaosDe vidro. Nada mais. Tudo mudou.Tropea na calada. Ouve a troaDe alguns garotos. No lhes d ateno.Agora est andando lentamente.De repente pra. Algo aconteceu.A onde agora h uma sorveteria,Havia o Almacn de la Figura.(A histria conta quase meio sculo.)A um desconhecido de ar avessoGanhou-lhe um longo truco, quinze e quinze,E ele insinuou que o jogo no era limpo.Evitou discutir, mas disse a ele:Vou lhe dar at o ltimo centavo,Mas depois disso vamos para a rua.O outro respondeu que com o ferroNo ia se dar melhor que com as cartas.No havia uma estrela. BenavidesLhe emprestou sua faca. A pelejaFoi dura. Na memria s um instante,Um s imvel fulgor, vertiginoso.Lanou-se numa longa punhalada,Que bastou. Depois, na dvida, em outra.Ouviu o cair do corpo e do ao.E ento sentiu pela primeira vezO corte em seu pulso e viu o sangue.Foi ento que brotou de sua gargantaUma palavra grosseira, que reuniaA exultao, a ira e o assombro.Tantos anos e ele enfim resgatouA sorte de ser homem e ser valenteOu, pelo menos, a de t-lo sidoAlgum dia, num dos ontens do tempo. 53. A PROMESSA Em Pringles, o doutor Isidro Lozano me contou a histria. Fez isso com taleconomia que compreendi que j o fizera antes, como era previsvel, muitasvezes; acrescentar ou alterar um pormenor seria um pecado literrio."O fato aconteceu aqui, em mil novecentos e vinte e tantos. Eu tinhavoltado de Buenos Aires com meu diploma. Certa noite, mandaram me chamar,do hospital. Levantei-me de mau humor, vesti-me e atravessei a praa deserta.Na sala de espera, o doutor Eudoro Ribera me disse que um dos malfeitores docomit, Clemente Garay, tinha sido trazido com uma punhalada no ventre. Nso examinamos; agora estou endurecido, mas na poca mexeu comigo ver umhomem com os intestinos de fora. Estava com os olhos fechados e a respiraoera difcil. " O doutor Ribera me disse: No h mais nada a fazer, meu jovem colega. Vamos deixar que esteporqueira morra.Respondi-lhe que tinha me arrastado at ali depois das duas da manh e quefaria o possvel para salv-lo. Ribera deu de ombros; lavei os intestinos,coloquei-os no lugar e costurei o ferimento. No ouvi uma nica queixa. No dia seguinte voltei. O homem no havia morrido; olhou-me, apertouminha mo e disse: Para o senhor, obrigado, e meu cabo de prata para Ribera. Quando deramalta a Garay, Ribera j partira para Buenos Aires."Desde essa data, todos os anos recebi um cordeirinho no dia de meuaniversrio. Por volta de quarenta o presente cessou." 54. O ESTUPOR Um vizinho de Morn me contou o caso:"Ningum sabe muito bem por que Moritn e o Pardo Rivarola seinimizaram e de modo to rancoroso. Os dois eram do partido conservador eacho que se conheceram no comit. No me lembro de Moritn porque eu eramuito pequeno quando morreu. Dizem que a famlia era de Entre Ros. OPardo sobreviveu a ele muitos anos. No era um caudilho ou coisa parecida,mas tinha toda a pinta. Mais baixo do que alto, era pesado e muito pomposo novestir. Nenhum dos dois era frouxo, mas o mais reflexivo era Rivarola, comologo se viu. H muito tempo ele tinha jurado Moritn, mas quis agir comprudncia. Dou-lhe razo; se algum mata algum e tem de penar na priso,est agindo como um sonso. O Pardo tramou bem o que ia fazer. ""Deviam ser sete horas da tarde, um domingo. A praa transbordava degente. Como sempre, a estava Rivarola caminhando devagar, com seu cravona lapela e a roupa preta. Ia com a sobrinha. De repente afastou-a, sentou-se deccoras no cho e se ps a adejar e cacarejar como se fosse um galo. Aspessoas lhe abriram cancha, assustadas. Um homem de respeito como o Pardo,fazendo uma coisa dessas, vista e pacincia de todo o Morn e num dia dedomingo! Meia quadra depois ele virou e, sempre cacarejando e esvoejando,enfiou-se na casa de Moritn. Empurrou o porto e de um salto entrou no ptio.A multido se aglomerava na rua. Moritn, que ouviu a balbrdia, veio l dofundo. Ao ver esse monstruoso inimigo investindo contra ele, quis ganhar osquartos, mas um balao o alcanou e depois outro. Rivarola foi levado entredois guardas. O homem forcejou, cacarejando. ""Um ms depois estava em liberdade. O mdico forense declarou que elefora vtima de um sbito ataque de loucura. Por acaso o povo inteiro no otinha visto, comportando-se como um galo?" 55. OS QUATRO CICLOS Quatro so as histrias. Uma, a mais antiga, a de uma forte cidadecercada e defendida por homens valentes. Os defensores sabem que a cidadeser entregue ao ferro e ao fogo e que sua batalha intil; o mais famoso dosagressores, Aquiles, sabe que seu destino morrer antes da vitria. Os sculosforam acrescentando elementos de magia. J se disse que Helena de Tria, pelaqual os exrcitos morreram, era uma bela nuvem, uma sombra; j se disse queo grande cavalo oco no qual se ocultaram os gregos era tambm uma aparncia.Homero no deve ter sido o primeiro poeta a referir a fbula; algum, no sculocatorze, deixou esta linha que anda em minha memria: "The borgh brittenedand brent to brontes and askes".3 Dante Gabriel Rossetti iria imaginar que asorte de Tria foi selada naquele instante em que Pris arde de amor porHelena; Yeats eleger o instante em que se confundem Leda e o cisne que eraum deus.Outra, que se vincula primeira, a de um regresso. O de Ulisses, que,ao fim de dez anos errando por mares perigosos e demorando-se em ilhas deencantamento, volta a sua taca; o das divindades do Norte que, uma vezdestruda a terra, vem-na surgir do mar, verde e lcida, e encontram perdidasno gramado as peas de xadrez com que antes jogaram.A terceira histria a de uma busca. Podemos ver nela uma variante daforma anterior. Jaso e o Velocino; os trinta pssaros do persa, que cruzammontanhas e mares e vem o rosto de seu Deus, o Simurgh, que cada umdeles e todos. No passado, todo cometimento era venturoso. Algum roubava,no fim, as proibidas mas de ouro; algum, no fim, merecia a conquista doGraal. Agora, a busca est condenada ao fracasso. O capito Ahab d com abaleia e a baleia o desfaz; os heris de James ou de Kafka s podem esperar aderrota. Somos to pobres de coragem e de f que agora o happy-ending nopassa de um mimo industrial. No podemos acreditar no cu, mas sim noinferno. A ltima histria a do sacrifcio de um deus. tis, na Frgia, se mutila ese mata; Odin, sacrificado a Odin, Ele mesmo a Si Mesmo, pende da rvorenove noites a fio, ferido com uma lana; Cristo crucificado pelos romanos. 56. Quatro so as histrias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narr-las, transformadas. O SONHO DE PEDRO HENRQUEZ UREA O sonho que Pedro Henrquez Urea teve no alvorecer de um dos dias de1946 curiosamente no constava de imagens, mas de pausadas palavras. A vozque as dizia no era a sua, mas se parecia com a sua. O tom, no obstante aspossibilidades patticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Duranteo sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e quesua mulher estava a seu lado. Na escurido, o sonho lhe disse:H algumas noites, em uma esquina da rua Crdoba, discutiste comBorges a invocao do Annimo Sevilhano "Oh, Morte, vem calada comocostumas vir na seta". Suspeitaram que era o eco deliberado de algum textolatino, j que essas translaes correspondiam aos hbitos de uma poca,totalmente alheia a nosso conceito de plgio, sem dvida menos literrio quecomercial. O que no suspeitaram, o que no podiam suspeitar, que o dilogoera proftico. Dentro de algumas horas, andars apressado pela ltimaplataforma de Constitucin, para dar tua aula na Universidad de La Plata.Alcanars o trem, pors a pasta na rede e te acomodars em teu assento, junto janela. Algum, cujo nome no conheo mas cujo rosto estou vendo, dirigira ti algumas palavras. No lhe responders, porque estars morto. j te tersdespedido, como sempre, de tua mulher e de tuas filhas. No lembrars estesonho, porque teu esquecimento necessrio para que se cumpram os fatos. 57. O PALCIO O Palcio no infinito.Os muros, os aterros, os jardins, os labirintos, as grades, as varandas, osparapeitos, as portas, as galerias, os ptios circulares ou retangulares, osclaustros, as encruzilhadas, os algibes, as antecmaras, as cmaras, as alcovas,as bibliotecas, os desvos, os crceres, as celas sem sada e os hipogeus no somenos numerosos que os gros de areia do Ganges, mas seu nmero tem umfim. Dos terraos, em direo ao poente, no falta quem divise as forjas, ascarpintarias, as cavalarias, os lenheiros e os casebres dos escravos.A ningum dado percorrer mais que uma parte infinitesimal do palcio.Alguns conhecem apenas os pores. Podemos perceber alguns rostos, algumasvozes, algumas palavras, mas o que percebemos nfimo. nfimo e precioso aomesmo tempo. A data que o ao grava na lpide e que os livros paroquiaisregistram posterior a nossa morte; j estamos mortos quando nada nos toca,nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memria. Eu sei que no estoumorto. 58. HENGIST QUER HOMENS (449 A.D.) Hengist quer homens.Eles viro dos confins de areia que se perdem em vastos mares, decasebres enfumaados, de terras pobres, de profundos bosques de lobos, emcujo centro indefinido est o Mal. Os lavradores deixaro o arado e os pescadores as redes. Deixaro suas mulheres e seus filhos, porque o homem sabe que emqualquer lugar da noite pode encontr-las e faz-los. Hengist, o mercenrio, quer homens. Ele os quer para debelar uma ilha que ainda no se chama Inglaterra. Vo segui-lo submissos e cruis. Sabem que sempre foi o primeiro na batalha de homens. Sabem que umavez esqueceu seu dever de vingana e que lhe deram uma espada nua e que aespada fez sua obra. Atravessaro a remo os mares, sem bssola e sem mastro. Traro espadas e broquis, elmos com a forma do javali, conjuros paraque se multipliquem as messes, vagas cosmogonias, fbulas dos hunos e dosgodos. Conquistaro a terra, mas nunca entraro nas cidades que Romaabandonou, porque so coisas demasiado complexas para sua mente brbara. Hengist os quer para a vitria, para o saque, para a corrupo da carne epara o esquecimento. Hengist os quer (mas no o sabe) para a fundao do maior imprio, paraque o cantem Shakespeare e Whitman, para que dominem o mar as naus de 59. Nelson, para que Ado e Eva se afastem, de mos dadas Q silenciosos, doParaso que perderam.Hengist os quer (mas no o saber) para que eu trace estas letras. 60. EPISDIO DO INIMIGOTantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa.Da janela o vi subir penosamente pelo spero caminho do cerro. Ajudava-secom um basto, com o torpe basto que em suas velhas mos no podia seruma arma, e sim um bculo. Custou-me perceber o que esperava: a batida fracana porta. Fitei, no sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompidoe o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anmalo a, j queno sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Temique o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o basto,que no voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido. Minha ansiedade oimaginara muitas vezes, mas s ento notei que se parecia, de modo quasefraternal, com o ltimo retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde. Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse. Pensamos que os anos passam apenas para ns disse-lhe , maspassam tambm para os outros. Aqui nos encontramos, por fim, e o queaconteceu antes no tem sentido. Enquanto eu falava, ele desabotoara o casaco. A mo direita estava nobolso do palet. Assinalava-me algo e senti que era um revlver. Disse-me ento com voz firme: Para entrar em sua casa, recorri compaixo. Agora o tenho a minhamerc e no sou misericordioso. Ensaiei algumas palavras. No sou um homem forte e s as palavraspodiam salvar-me. Atinei a dizer: verdade que h tempos maltratei um menino, mas voc j no aquele menino nem eu aquele insensato. Alm disso, a vingana no menosftua e ridcula que o perdo. Justamente porque j no sou aquele menino replicou-me tenho demat-lo. No se trata de uma vingana, mas de um ato de justia. Seus 61. argumentos, Borges, so meros estratagemas de seu terror para que eu no omate. Voc no pode fazer mais nada. Posso fazer uma coisa respondi. O qu? perguntou-me. Acordar. E foi o que fiz. 62. ISLNDIADe todas as regies da bela terraQue minha carne e sua sombra fatigaramTu s a mais remota e a mais ntima,ltima Tule, Islndia dos navios,Do firme arado e do constante remo,Das estendidas redes marinheiras,Da curiosa luz de tarde imvelQue efunde o vago cu desde a alvoradaE do vento que procura os perdidosVelmenes do viking. Terra sacraQue foste a memria da GermniaE resgataste sua mitologiaDe uma selva de ferro e de seu loboE dessa nave que os deuses temem,Lavrada com as unhas dos defuntos.Islndia, eu longamente te sonheiDesde aquela manh em que meu paiDeu criana que fui e no morreuUma verso dessa Vlsunga SagaQue agora decifra minha penumbraCom a ajuda do lento dicionrio.Quando o corpo se cansa de seu homem,Quando o fogo declina e j cinza,Cai bem a resignada aprendizagemDe uma empresa infinita; eu escolhiA de tua lngua, esse latim do NorteQue abarcou as estepes e os maresDe um hemisfrio e ressoou em BizncioE pelas margens virgens desta Amrica.Sei que no vou sab-la, mas me esperamOs privilgios casuais da busca,No o fruto sabiamente inalcanvel.O mesmo vo sentir os que indagamOs astros ou a sucesso dos nmeros...S o amor, o ignorante amor, Islndia. 63. AO ESPELHOPor que persistes, incessante espelho?Por que repetes, misterioso irmo,O menor movimento de minha mo?Por que na sombra o sbito reflexo?s o outro eu sobre o qual fala o gregoE desde sempre espreitas. Na bruniduraDa gua incerta ou do cristal que duraMe buscas e intil estar cego.O fato de no te ver e saber-teTe agrega horror, coisa de magia que ousasMultiplicar a cifra dessas coisasQue somos e que abarcam nossa sorte.Quando eu estiver morto, copiars outroE depois outro, e outro, e outro, e outro... 64. A UM GATONo so mais silenciosos os espelhosNem mais furtiva a aurora aventureira;Tu s, sob a lua, essa pantera,Que divisam ao longe nossos olhos.Por obra indecifrvel de um decretoDivino, buscamos-te inutilmente;Mais remoto que o Ganges e o poente,Tua a solido, teu o segredo.Teu dorso condescende morosaCarcia de minha mo. Sem um rudo,Da eternidade que ora olvido,Aceitaste o amor dessa mo receosa.Em outro tempo ests. Tu s o donoDe um espao cerrado como um sonho. 65. EAST LANSINGOs dias e as noitesesto entretecidos (interwoven) de memria e de medo,de medo, que um modo da esperana,de memria, nome que damos s fendas do frreo esquecimento.Meu tempo foi sempre um Jano bifronteque mira o ocaso e a aurora;meu propsito de hoje celebrar-te, oh, futuro imediato.Regies da Escritura e do machado,rvores que olharei e no verei,vento com pssaros que ignoro, gratas noites de frioque iro afundando no sonho e quem sabe na ptria,chaves de luz e portas giratrias que com o tempo sero hbitos,despertares em que me direi "Hoje Hoje",livros que minha mo conhecer,amigos e amigas que sero vozes,areias amarelas do poente, a nica cor que me resta,tudo isso estou cantando e tambma insofrvel memria de lugares de Buenos Airesnos quais no fui felize nos quais no poderei ser feliz.Canto na vspera teu crepsculo, East Lansing,Sei que as palavras que dito talvez sejam precisas,mas sutilmente sero falsas,porque a realidade inapreensvele porque a linguagem uma ordem de signos rgidos.Michigan, Indiana, Wisconsin, Iowa, Texas, Califrnia, Arizona;j tentarei cant-las. 9 de maro de 1972. 66. AO COIOTESculo a sculo a areia infindvelDos diversos desertos tm sofridoTeus passos numerosos e o ganidoDe chacal cinza ou hiena. insacivel.Por sculos? Eu minto. Essa furtivaSubstncia, o tempo, no te alcana, lobo;Teu o puro ser, teu o arroubo,Nossa, a torpe vida sucessiva.Foste um latido quase imaginrioNos confins do Arizona, nessa areiaOnde tudo confim, e se incendeiaTeu perdido latido solitrio.Smbolo de uma noite que eu possua,Seja teu vago espelho esta elegia. 67. UM AMANHLouvada seja a misericrdiaDe Quem, completos meus setenta anosE selados meus olhos,Salva-me da venerada velhiceE das galerias de precisos espelhosDesses dias iguaisE dos protocolos, molduras e ctedrasE da assinatura de incansveis papisPara os arquivos do pE dos livros, que so simulacros da memria,E me prodiga o animoso desterro,Que talvez seja a forma essencial do destino argentino,E o acaso e a jovem aventuraE a dignidade do perigo,Conforme opinou Samuel Johnson.Eu, que sofri a vergonhaDe no ter sido aquele Francisco Borges que morreu em 1874Ou meu pai, que ensinou a seus discpulosO amor psicologia e no acreditou nela,Esquecerei as letras que me deram alguma fama,Serei homem de Austin, de Edimburgo, da Espanha,E buscarei a aurora em meu ocidente.Na ubqua memria sers minha,Ptria, e no na frao de cada dia. 68. O OURO DOS TIGRESAt a hora do ocaso amareloQuantas vezes terei contempladoO poderoso tigre de BengalaIr e vir pelo predestinado caminhoPor detrs das barras de ferro,Sem suspeitar que eram seu crcere.Depois viriam outros tigres,O tigre de fogo de Blake;Depois viriam outros ouros,O metal amoroso que era Zeus,O anel que a cada nove noites4Engendra nove anis e estes, nove,E no h um fim.Com os anos foram me deixandoAs outras belas coresE agora s me restamA vaga luz, a inextricvel sombraE o ouro do princpio.Oh, poentes, oh, tigres, oh, fulgoresDo mito e da pica,Oh, um ouro mais precioso, teus cabelosQue estas mos almejam.East Lansing, 1972. 69. Esta obra foi revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar, demaneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que nopodem compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos paraler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca porqualquer contraprestao totalmente condenvel em qualquercircunstncia. 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Pertence ao admirvel poemaaliterativo "Sir Gawain and the Green Knight", que guarda a primitiva msicado saxo, embora tenha sido composto sculos depois da conquista comandadapor Guilherme, o Bastardo.4O ouro Dos Tigres. Para o anel das nove noites, o curioso leitor podeinterrogar o captulo 49 da Edda Menor. O nome do anel era Draupnir.