Jorge Luis Borges - O Ouro Dos Tigres

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O Ouro Dos Tigres***

JORGE LUIS BORGES

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Este livro: O Ouro Dos Tigres , parte integrante da coleo:

JORGE LUIS BORGESOBRAS COMPLETAS VOLUME II1952-1972 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges Obras Completas Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1999 das tradues by Editora Globo S.A. 1 Reimpresso-9/99 2 Reimpresso-12/OO Edio baseada em Jorge Luis Borges Obras Completas, publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona Espanha. Coordenao editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emec Editores Ilustrao: Alberto Ciupiak Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S Assessoria editorial: Jorge Schwartz Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestao do pensamento humano.. Reviso das tradues: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparao de originais: Maria Carolina de Araujo Reviso de textos: Mrcia Menin Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produes Grficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Gimnez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, lida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, Jos Antnio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos EDITORA GLOBO S.A.

Avenida Jaguar, 1485 CEP O534(-9O2 Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP e-mail: atendimento@edglobo.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao etc. nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora. Impresso e acabamento: Grfica Crculo CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Cmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. So Paulo : Globo, 2OOO. Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores. v. 1. 1923-1949 / v. 2.1952-1972 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2) 1. Fico argentina 1. Ttulo. CDD-ar863.4 ndices para catlogo sistemtico 1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4 1. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4

O OURO DOS TIGRES El Oro de los Tigres Traduo de Josely Vianna Baptista

O OURO DOS TIGRES 1972 Prlogo Tamerlo (1336 1405) Espadas O passado Tankas Treze moedas Um poeta Oriental O deserto Chove Asterin Um poeta menor Gnesis, IV: 8 Nortmbria, 900 A. D. Miguel de Cervantes O Oeste Estncia El Retiro O prisioneiro Macbeth Eternidades Susana Bombal A John Keats (1795 1821) Sonha Alonso Quijano A um Csar O cego On His Blindness A busca O perdido H.O. Religio Medici, 1643 1971 Coisas O ameaado Proteu Outra verso de Proteu Fala um busto de Jano O gacho A pantera Tu Poema da quantidade A sentinela Ao idioma alemo

Ao triste O mar Ao primeiro poeta da Hungria O Advento A tentao 1891 1929 A promessa O estupor Os quatro ciclos O sonho de Pedro Henrquez Urea O palcio Hengist quer homens (449, A. D.) Episdio do inimigo Islndia Ao espelho A um gato East Lansing Ao coiote Um amanh O ouro dos tigres Notas

PRLOGODe um homem que completou os setenta anos recomendados por David pouco podemos esperar, salvo o manejo consabido de algumas destrezas, uma que outra ligeira variao e fartas repeties. Para eludir ou ao menos atenuar essa monotonia, optei por aceitar, talvez com temerria hospitalidade, a miscelnea de temas que se ofereceram a minha rotina de escrever. A parbola sucede confidncia, o verso livre ou branco ao soneto. No princpio dos tempos, to dcil vaga especulao e s inapelveis cosmogonias, no deve ter havido coisas poticas ou prosaicas. Tudo seria um pouco mgico. Thor no era o deus do trovo; era o trovo e o deus. Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser potico, j que profundamente o . Que eu saiba, ningum alcanou at hoje essa alta viglia. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a props, mas suas deliberadas enumeraes nem sempre passam de catlogos insensveis. Descreio das escolas literrias, que considero simulacros didticos para simplificar o que ensinam, mas, se me obrigassem a declarar de onde procedem meus versos, diria que do simbolismo, essa grande liberdade, que renovou as muitas literaturas cujo instrumento comum o castelhano e que chegou, por certo, at a Espanha. Conversei mais de uma vez com Leopoldo Lugones, homem solitrio e soberbo; este costumava desviar o curso do dilogo para falar de "meu amigo e mestre, Rubn Daro". (Creio, tambm, que devemos sublinharas afinidades de nosso idioma, no seus regionalismos.) Meu leitor notar em algumas pginas a preocupao filosfica. Foi minha desde menino, quando meu pai revelou-me, com a ajuda do tabuleiro de xadrez (que era, lembro-me, de cedro), a corrida de Aquiles e da tartaruga. Quanto s influncias que sero percebidas neste volume... Em primeiro lugar, os escritores que prefiro j citei Robert Browning ; depois, os que li e repito; depois, os que nunca li, mas que esto em mim. Um idioma uma tradio, um modo de sentir a realidade, no um arbitrrio repertrio de smbolos. J. L. B. Buenos Aires, 1972.

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O O URO DO S TI G R ES____________________(1972)

TAMERLO1 (1336-14O5)

Meu reino deste mundo. Carcereiros E crceres e espadas executam A ordem que no repito. Minha palavra Mais nfima de ferro. At o secreto Corao das pessoas que no ouviram jamais meu nome em seus confins longnquos instrumento dcil a meu arbtrio. Eu, que fui um rabado da pradaria, Icei minhas bandeiras em Perspolis E mitiguei a sede dos cavalos Nas guas do rio Ganges e do Oxus. Quando nasci, caiu do firmamento Uma espada com signos talismnicos; Eu sou, eu serei sempre, aquela espada. J derrotei o grego e o egpcio E devastei as muitas, incansveis, Lguas da Rssia com meus duros trtaros, Pirmides de crnios erigi, Jungi a minha carroa quatro reis Que no quiseram acatar meu cetro E atirei s chamas em Alepo Esse Livro dos Livros, o Alcoro, Anterior aos dias e s noites. Eu, o rubro Tamerlo, tive em meu abrao A branca Zencrate do Egito, Casta como a neve das alturas. Recordo as pesadas caravanas E as nuvens de poeira do deserto, Recordo uma cidade de fumaa E candeeiros de leo nas tabernas. Sei tudo e posso tudo. Um agourento Livro ainda no escrito revelou-me Que morrerei como os outros morrem E que, por entre a plida agonia, Ordenarei que meus arqueiros lancem Flechas de ferro contra o cu adverso

E embandeirem de negro o firmamento Para no haver um homem que no saiba Que os deuses esto mortos. Sou os deuses. Que outros recorram astrologia Judiciria, ao compasso e ao astrolbio, Para saber quem so. Eu sou os astros. Em alvoradas incertas me pergunto Por que no saio nunca desta cmara, Por que no condescendo homenagem Do clamoroso Oriente. s vezes sonho Com escravos, intrusos que desdouram O Tamerlo com dedos temerrios E lhe dizem que durma e que no deixe De tomar toda noite as pastilhas Encantadas da paz e do silncio. A cimitarra busco e no a encontro. Busco no espelho o meu rosto; outro. Por isso o quebrei e me puniram. Por que no compareo aos suplcios, Por que no vejo o machado e a cabea? Essas coisas me inquietam, porm nada Pode ocorrer se Tamerlo se ope E Ele, talvez, as queira sem saber. E eu sou Tamerlo. Rejo o Poente E o Oriente de ouro, e no entanto...

ESPADASJoyeuse, Excalibur, Gram, Durendal. Suas velhas guerras andam pelo verso, Que a nica memria. O universo Ao Norte e ao Sul as vai semeando igual. Persiste na espada a ousadia Da destra mo viril, hoje p e nada; No ferro ou no bronze, a estocada Que foi sangue de Ado num primo dia. Cestas enumerei dessas distantes Espadas cujos homens deram morte A reis e a serpentes. H outra sorte De espadas, as murais e as reinantes. Deixa-me, espada, usar contigo a arte; Eu, que no mereci isso, manejar-te.

O PASSADO

Tudo era fcil, nos parece agora, Naquele plstico ontem irrevogvel: Scrates, que, apurada a cicuta, Discorre sobre a alma e seu caminho, Enquanto a morte azul lhe vai subindo Pelos ps regelados; a implacvel Espada que retumba na balana; Roma, que impe o numeroso hexmetro Ao obstinado mrmore dessa lngua Que manejamos hoje, espedaada; Os piratas de Hengist que atravessam A remo o temerrio Mar do Norte E com as fortes mos e a coragem Fundam um reino que ser o Imprio; O rei saxo que oferta ao da Noruega Sete palmos de terra e que cumpre, Antes que o sol decline, a promessa Na batalha de homens; os cavaleiros Do deserto, que cobrem o Oriente E ameaam as cpulas da Rssia; Um persa que relata a primeira Das Mil e Uma Noites e no sabe Que deu incio a um livro que os sculos Das outras geraes, ulteriores, No entregaro ao quieto esquecimento; Snorri, que salva em sua perdida Tule, Sob a luz de crepsculos morosos Ou na noite propcia memria, As letras e os deuses da Germnia; O jovem Schopenhauer, que descobre Um projeto geral do universo; Whitman, que numa redao do Brooklin, Entre o cheiro de tinta e de tabaco, Toma e a ningum conta a infinita Resoluo de ser todos os homens E de um livro escrever que seja todos; Arredondo, que mata Idiarte Borda

Em certa manh de Montevidu E se entrega justia, declarando Ter agido sozinho e no ter cmplices; O soldado que morre em cho normando, O que na Galilia encontra a morte. Essas coisas podiam no ter sido. Quase no foram. Ns as concebemos Em um ontem fatal e inevitvel. No h outro tempo que o agora, este pice Do j ser e do foi, daquele instante Em que a gota cai na clepsidra. O ontem ilusrio um recinto De imutveis figuras de cera Ou de reminiscncias literrias Que o tempo ir perdendo em seus espelhos. Carlos Doze, Breno, rico, o Vermelho, E a tarde inapreensvel que foi tua Na eternidade so, no na memria.

TANKAS2

1 Alto no cimo Todo o jardim lua, Lua de ouro. Mais precioso o roar De tua boca na sombra. 2 A voz da ave Que a penumbra esconde Emudeceu. Andas por teu jardim. E algo, eu sei, te falta. 3 A alheia taa, A espada que foi espada Em outra mo, A lua do caminho, Dize, acaso no bastam? 4 Sob a lua O tigre de ouro e sombra Olha suas garras. No sabe que na aurora Destroaram um homem. 5 Triste essa chuva

Que cai sobre o mrmore, Triste ser terra. Triste no ser os dias Do homem, o sonho, o alvorecer. 6 No ter tombado, Como outros de meu sangue, Na batalha. Ser na intil noite O que conta as slabas.

TREZE MOEDAS

UM POETA ORIENTAL

Durante cem outonos divisei Teu tnue disco. Durante cem outonos divisei Teu arco sobre as ilhas. Durante cem outonos os meus lbios No foram menos silenciosos.

O DESERTO

O espao sem tempo. A lua da cor da areia. Agora, exatamente agora, Morrem os homens do Metauro e de Trafalgar.

CHOVE

Em que ontem, em que ptios de Cartago, Cai tambm esta chuva?

ASTRION

O ano me tributa meu pasto de homens E na cisterna h gua. Em mim se estreitam os caminhos de pedra. De que posso queixar-me? Nos entardeceres Pesa-me um pouco a cabea de touro.

UM POETA MENORA meta o esquecimento. Eu cheguei antes.

GNESIS 4, 8

Foi no primeiro deserto. Dois braos atiraram uma grande pedra. No houve um grito. Houve sangue. Houve pela primeira vez a morte. J no me lembro se foi Abel ou Caim.

NORTMBRIA, 9OO A.D.

Que antes do alvorecer o despojem os lobos; A espada o caminho mais curto.

MIGUEL DE CERVANTES

Cruis estrelas e propcias estrelas Presidiram a noite de minha gnese; Devo s ltimas o crcere Em que sonhei o Quixote.

O OESTE

O beco final com seu poente. Inaugurao do pampa. Inaugurao da morte.

ESTNCIA EL RETIRO

O tempo joga um xadrez sem peas Ali no ptio. O rangido de uma rama Rasga a noite. L fora a plancie Lguas de p e sonho esparrama. Sombras os dois, copiamos o que ditam Outras sombras: Herclito e Gautama.

O PRISIONEIRO

Uma lima. A primeira das pesadas portas de ferro. Um dia serei livre.

MACBETH

Nossos atos prosseguem seu caminho, Que no conhece fim. Matei meu rei para que Shakespeare Urdisse sua tragdia.

ETERNIDADES

A serpente que cinge o mar e o mar, O repetido remo de Jaso, a jovem espada de Sigurd. S perduram no tempo as coisas Que no foram do tempo.

SUSANA BOMBAL

Alta na tarde, altiva e louvada, Cruza o casto jardim e est na exata Luz do instante irreversvel e puro Que nos d este jardim e a alta imagem, Silenciosa. Vejo-a aqui, nesta hora, Mas tambm a diviso num antigo Fulgor crepuscular da Ur dos Caldeus, Ou ento descendo a lenta escadaria De um templo, que inumervel p Do planeta e que foi pedra e soberba, Ou decifrando o mgico alfabeto Das estrelas de outras latitudes, Ou aspirando uma rosa na Inglaterra. Est onde houver msica, no leve Azul, e no hexmetro do grego, Em nossas solides que a procuram, No liso espelho de gua de uma fonte, No mrmore do tempo, numa espada, Nessa serenidade do terrao Que divisa poentes e jardins. E por detrs dos mitos e das mscaras, A alma, que est s. Buenos Aires, 3 de novembro de 197O.

A JOHN KEATS (1795-1821)

Desde o princpio at a jovem morte A terrvel beleza te espreitava Como os outros a propcia sorte Ou a adversa. Nas alvas te esperava De Londres, e nas pginas casuais De um dicionrio de mitologia, Nas costumeiras ddivas do dia, Num rosto, numa voz, e nos mortais Lbios de Fanny Brawne. Oh, sucessivo E arrebatado Keats, que o tempo cega, O alto rouxinol e a uma grega Sero tua eternidade, oh, fugitivo. Foste o fogo. Na pnica memria Hoje no s as cinzas. s a glria.

SONHA ALONSO QUIJANO

Desperta aquele homem de um indistinto Sonho de alfanjes e de campo cho, Toca de leve a barba com a mo Duvidando se est ferido ou extinto. No iro persegui-lo os feiticeiros Que juraram seu mal por sob a lua? Nada. O frio apenas. Apenas sua Amargura nos anos derradeiros. Foi o fidalgo um sonho de Cervantes E Dom Quixote um sonho do fidalgo. O duplo sonho os confunde e algo Est ocorrendo que ocorreu muito antes. Quijano dorme e sonha. Uma batalha: Os mares de Lepanto e a metralha.

A UM CSAR

Na noite favorvel a esses lmures E a larvas que fustigam os defuntos, Quartearam inutilmente os profundos Espaos das estrelas os teus ugures. Do touro jugulado na penumbra As vsceras em vo tm indagado; Em vo o sol desta manh alumbra A espada fiel do pretoriano armado. No real palcio tua garganta espera Assustada o punhal. J os confins Do imprio que regem teus clarins Pressentem as plegrias e a fogueira. De tuas montanhas o horror sagrado Tem o tigre de ouro e sombra profanado.

O CEGOA Mariana Grondona I Foi despojado do diverso mundo E dos rostos, que so o que eram antes, Das ruas prximas, hoje distantes, E do cncavo azul, ontem profundo. Resta dos livros o que lhe consente A memria, essa forma de olvido Que retm o formato, no o sentido, E que reflete os ttulos somente. O desnvel espreita. Cada passo Pode ser uma queda. Sou o lento Prisioneiro de um tempo sonolento Que no marca sua aurora nem seu ocaso. noite. No h outros. Co...

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