Jorge Luis Borges - O Ouro Dos Tigres

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O Ouro Dos Tigres***

JORGE LUIS BORGES

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Este livro: O Ouro Dos Tigres , parte integrante da coleo:

JORGE LUIS BORGESOBRAS COMPLETAS VOLUME II1952-1972 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges Obras Completas Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1999 das tradues by Editora Globo S.A. 1 Reimpresso-9/99 2 Reimpresso-12/OO Edio baseada em Jorge Luis Borges Obras Completas, publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona Espanha. Coordenao editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emec Editores Ilustrao: Alberto Ciupiak Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S Assessoria editorial: Jorge Schwartz Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifestao do pensamento humano.. Reviso das tradues: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparao de originais: Maria Carolina de Araujo Reviso de textos: Mrcia Menin Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produes Grficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Gimnez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, lida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, Jos Antnio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos EDITORA GLOBO S.A.

Avenida Jaguar, 1485 CEP O534(-9O2 Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP e-mail: atendimento@edglobo.com.br Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao etc. nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora. Impresso e acabamento: Grfica Crculo CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Cmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986. Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. So Paulo : Globo, 2OOO. Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores. v. 1. 1923-1949 / v. 2.1952-1972 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2) 1. Fico argentina 1. Ttulo. CDD-ar863.4 ndices para catlogo sistemtico 1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4 1. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4

O OURO DOS TIGRES El Oro de los Tigres Traduo de Josely Vianna Baptista

O OURO DOS TIGRES 1972 Prlogo Tamerlo (1336 1405) Espadas O passado Tankas Treze moedas Um poeta Oriental O deserto Chove Asterin Um poeta menor Gnesis, IV: 8 Nortmbria, 900 A. D. Miguel de Cervantes O Oeste Estncia El Retiro O prisioneiro Macbeth Eternidades Susana Bombal A John Keats (1795 1821) Sonha Alonso Quijano A um Csar O cego On His Blindness A busca O perdido H.O. Religio Medici, 1643 1971 Coisas O ameaado Proteu Outra verso de Proteu Fala um busto de Jano O gacho A pantera Tu Poema da quantidade A sentinela Ao idioma alemo

Ao triste O mar Ao primeiro poeta da Hungria O Advento A tentao 1891 1929 A promessa O estupor Os quatro ciclos O sonho de Pedro Henrquez Urea O palcio Hengist quer homens (449, A. D.) Episdio do inimigo Islndia Ao espelho A um gato East Lansing Ao coiote Um amanh O ouro dos tigres Notas

PRLOGODe um homem que completou os setenta anos recomendados por David pouco podemos esperar, salvo o manejo consabido de algumas destrezas, uma que outra ligeira variao e fartas repeties. Para eludir ou ao menos atenuar essa monotonia, optei por aceitar, talvez com temerria hospitalidade, a miscelnea de temas que se ofereceram a minha rotina de escrever. A parbola sucede confidncia, o verso livre ou branco ao soneto. No princpio dos tempos, to dcil vaga especulao e s inapelveis cosmogonias, no deve ter havido coisas poticas ou prosaicas. Tudo seria um pouco mgico. Thor no era o deus do trovo; era o trovo e o deus. Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser potico, j que profundamente o . Que eu saiba, ningum alcanou at hoje essa alta viglia. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a props, mas suas deliberadas enumeraes nem sempre passam de catlogos insensveis. Descreio das escolas literrias, que considero simulacros didticos para simplificar o que ensinam, mas, se me obrigassem a declarar de onde procedem meus versos, diria que do simbolismo, essa grande liberdade, que renovou as muitas literaturas cujo instrumento comum o castelhano e que chegou, por certo, at a Espanha. Conversei mais de uma vez com Leopoldo Lugones, homem solitrio e soberbo; este costumava desviar o curso do dilogo para falar de "meu amigo e mestre, Rubn Daro". (Creio, tambm, que devemos sublinharas afinidades de nosso idioma, no seus regionalismos.) Meu leitor notar em algumas pginas a preocupao filosfica. Foi minha desde menino, quando meu pai revelou-me, com a ajuda do tabuleiro de xadrez (que era, lembro-me, de cedro), a corrida de Aquiles e da tartaruga. Quanto s influncias que sero percebidas neste volume... Em primeiro lugar, os escritores que prefiro j citei Robert Browning ; depois, os que li e repito; depois, os que nunca li, mas que esto em mim. Um idioma uma tradio, um modo de sentir a realidade, no um arbitrrio repertrio de smbolos. J. L. B. Buenos Aires, 1972.

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O O URO DO S TI G R ES____________________(1972)

TAMERLO1 (1336-14O5)

Meu reino deste mundo. Carcereiros E crceres e espadas executam A ordem que no repito. Minha palavra Mais nfima de ferro. At o secreto Corao das pessoas que no ouviram jamais meu nome em seus confins longnquos instrumento dcil a meu arbtrio. Eu, que fui um rabado da pradaria, Icei minhas bandeiras em Perspolis E mitiguei a sede dos cavalos Nas guas do rio Ganges e do Oxus. Quando nasci, caiu do firmamento Uma espada com signos talismnicos; Eu sou, eu serei sempre, aquela espada. J derrotei o grego e o egpcio E devastei as muitas, incansveis, Lguas da Rssia com meus duros trtaros, Pirmides de crnios erigi, Jungi a minha carroa quatro reis Que no quiseram acatar meu cetro E atirei s chamas em Alepo Esse Livro dos Livros, o Alcoro, Anterior aos dias e s noites. Eu, o rubro Tamerlo, tive em meu abrao A branca Zencrate do Egito, Casta como a neve das alturas. Recordo as pesadas caravanas E as nuvens de poeira do deserto, Recordo uma cidade de fumaa E candeeiros de leo nas tabernas. Sei tudo e posso tudo. Um agourento Livro ainda no escrito revelou-me Que morrerei como os outros morrem E que, por entre a plida agonia, Ordenarei que meus arqueiros lancem Flechas de ferro contra o cu adverso

E embandeirem de negro o firmamento Para no haver um homem que no saiba Que os deuses esto mortos. Sou os deuses. Que outros recorram astrologia Judiciria, ao compasso e ao astrolbio, Para saber quem so. Eu sou os astros. Em alvoradas incertas me pergunto Por que no saio nunca desta cmara, Por que no condescendo homenagem Do clamoroso Oriente. s vezes sonho Com escravos, intrusos que desdouram O Tamerlo com dedos temerrios E lhe dizem que durma e que no deixe De tomar toda noite as pastilhas Encantadas da paz e do silncio. A cimitarra busco e no a encontro. Busco no espelho o meu rosto; outro. Por isso o quebrei e me puniram. Por que no compareo aos suplcios, Por que no vejo o machado e a cabea? Essas coisas me inquietam, porm nada Pode ocorrer se Tamerlo se ope E Ele, talvez, as queira sem saber. E eu sou Tamerlo. Rejo o Poente E o Oriente de ouro, e no entanto...

ESPADASJoyeuse, Excalibur, Gram, Durendal. Suas velhas guerras andam pelo verso, Que a nica memria. O universo Ao Norte e ao Sul as vai semeando igual. Persiste na espada a ousadia Da destra mo viril, hoje p e nada; No ferro ou no bronze, a estocada Que foi sangue de Ado num primo dia. Cestas enumerei dessas distantes Espadas cujos homens deram morte A reis e a serpentes. H outra sorte De espadas, as murais e as reinantes. Deixa-me, espada, usar contigo a arte; Eu, que no mereci isso, manejar-te.

O PASSADO

Tudo era fcil, nos parece agora, Naquele plstico ontem irrevogvel: Scrates, que, apurada a cicuta, Discorre sobre a alma e seu caminho, Enquanto a morte azul lhe vai subindo Pelos ps regelados; a implacvel Espada que retumba na balana; Roma, que impe o numeroso hexmetro Ao obstinado mrmore dessa lngua Que manejamos hoje, espedaada; Os piratas de Hengist que atravessam A remo o temerrio Mar do Norte E com as fortes mos e a coragem Fundam um reino que ser o Imprio; O rei saxo que oferta ao da Noruega Sete palmos de terra e que cumpre, Antes que o sol decline, a promessa Na batalha de homens; os cavaleiros Do deserto, que cobrem o Oriente E ameaam as cpulas da Rssia; Um persa que relata a primeira Das Mil e Uma Noites e no sabe Que deu incio a um livro que os sculos Das outras geraes, ulteriores, No entregaro ao quieto esquecimento; Snorri, que salva em sua perdida Tule, Sob a luz de crepsculos morosos Ou na noite propcia memria, As letras e os deuses da Germnia; O jovem Schopenhauer, que descobre Um projeto geral do universo; Whitman, que numa redao do Brooklin, Entre o cheiro de tinta e de tabaco, Toma e a ningum conta a infinita Resoluo de ser todos os homens E de um livro escrever que seja todos; Arredondo, que mata Idiarte Borda

Em certa manh de Montevidu E se entrega justia, declarando Ter agido sozinho e no ter cmplices; O soldado que morre em cho normando, O que na Galilia encontra a morte. Essas coisas podiam no ter sido. Quase no foram. Ns as concebemos Em um ontem fatal e inevitvel. No h outro tempo que o agora, este pice Do j ser e do foi, daquele instante Em que a gota cai na clepsidra. O ontem ilusrio um recinto De imutveis figuras de cera Ou de reminiscncias literrias Que o tempo ir perdendo em seus espelhos. Carlos Doze, Breno, rico, o Vermelho, E a tarde inapreensvel que foi tua Na eternidade so, no na memria.

TANKAS2

1 Alto no cimo Todo o jardim lua, Lua de ouro. Mais precioso o roar De tua boca na sombra. 2 A voz da ave Que a penumbra esconde Emudeceu. Andas por teu jardim. E algo, eu sei, te falta. 3 A alheia taa, A espada que foi espada Em outra mo, A lua do caminho, Dize, acaso no bastam? 4 Sob a lua O tigre de ouro e sombra Olha suas garras. No sabe que na aurora Destroaram um homem. 5 Triste essa chuva

Que cai sobre o mrmore, Triste ser terra. Triste no ser os dias Do homem, o sonho, o alvorecer. 6 No ter tombado, Como outros de meu sangue, Na batalha. Ser na intil noite O que conta as slabas.

TREZE MOEDAS

UM POETA ORIENTAL

Durante cem outonos divisei Teu tnue disco. Durante cem outonos divisei Teu arco sobre as ilhas. Durante cem outonos os meus lbios No foram menos silenciosos.

O DESERTO

O espao sem tempo. A lua da cor da areia. Agora, exatamente agora, Morrem os homens do Metauro e de Trafalgar.

CHOVE

Em que ontem, em que ptios de Cartago, Cai tambm esta chuva?

ASTRION

O ano me tributa meu pasto de homens E na cisterna h gua. Em mim se estreitam os caminhos de pedra. De que posso queixar-me? Nos entardeceres Pesa-me um pouco a cabea de touro.

UM POETA MENORA meta o esquecimento. Eu cheguei antes.

GNESIS 4, 8

Foi no primeiro deserto. Dois braos atiraram uma grande pedra. No houve um grito. Houve sangue. Houve pela primeira vez a morte. J no me lembro se foi Abel ou Caim.

NORTMBRIA, 9OO A.D.

Que antes do alvorecer o despojem os lobos; A espada o caminho mais curto.

MIGUEL DE CERVANTES

Cruis estrelas e propcias estrelas Presidiram a noite de minha gnese; Devo s ltimas o crcere Em que sonhei o Quixote.

O OESTE

O beco final com seu poente. Inaugurao do pampa. Inaugurao da morte.

ESTNCIA EL RETIRO

O tempo joga um xadrez sem peas Ali no ptio. O rangido de uma rama Rasga a noite. L fora a plancie Lguas de p e sonho esparrama. Sombras os dois, copiamos o que ditam Outras sombras: Herclito e Gautama.

O PRISIONEIRO

Uma lima. A primeira das pesadas portas de ferro. Um dia serei livre.

MACBETH

Nossos atos prosseguem seu caminho, Que no conhece fim. Matei meu rei para que Shakespeare Urdisse sua tragdia.

ETERNIDADES

A serpente que cinge o mar e o mar, O repetido remo de Jaso, a jovem espada de Sigurd. S perduram no tempo as coisas Que no foram do tempo.

SUSANA BOMBAL

Alta na tarde, altiva e louvada, Cruza o casto jardim e est na exata Luz do instante irreversvel e puro Que nos d este jardim e a alta imagem, Silenciosa. Vejo-a aqui, nesta hora, Mas tambm a diviso num antigo Fulgor crepuscular da Ur dos Caldeus, Ou ento descendo a lenta escadaria De um templo, que inumervel p Do planeta e que foi pedra e soberba, Ou decifrando o mgico alfabeto Das estrelas de outras latitudes, Ou aspirando uma rosa na Inglaterra. Est onde houver msica, no leve Azul, e no hexmetro do grego, Em nossas solides que a procuram, No liso espelho de gua de uma fonte, No mrmore do tempo, numa espada, Nessa serenidade do terrao Que divisa poentes e jardins. E por detrs dos mitos e das mscaras, A alma, que est s. Buenos Aires, 3 de novembro de 197O.

A JOHN KEATS (1795-1821)

Desde o princpio at a jovem morte A terrvel beleza te espreitava Como os outros a propcia sorte Ou a adversa. Nas alvas te esperava De Londres, e nas pginas casuais De um dicionrio de mitologia, Nas costumeiras ddivas do dia, Num rosto, numa voz, e nos mortais Lbios de Fanny Brawne. Oh, sucessivo E arrebatado Keats, que o tempo cega, O alto rouxinol e a uma grega Sero tua eternidade, oh, fugitivo. Foste o fogo. Na pnica memria Hoje no s as cinzas. s a glria.

SONHA ALONSO QUIJANO

Desperta aquele homem de um indistinto Sonho de alfanjes e de campo cho, Toca de leve a barba com a mo Duvidando se est ferido ou extinto. No iro persegui-lo os feiticeiros Que juraram seu mal por sob a lua? Nada. O frio apenas. Apenas sua Amargura nos anos derradeiros. Foi o fidalgo um sonho de Cervantes E Dom Quixote um sonho do fidalgo. O duplo sonho os confunde e algo Est ocorrendo que ocorreu muito antes. Quijano dorme e sonha. Uma batalha: Os mares de Lepanto e a metralha.

A UM CSAR

Na noite favorvel a esses lmures E a larvas que fustigam os defuntos, Quartearam inutilmente os profundos Espaos das estrelas os teus ugures. Do touro jugulado na penumbra As vsceras em vo tm indagado; Em vo o sol desta manh alumbra A espada fiel do pretoriano armado. No real palcio tua garganta espera Assustada o punhal. J os confins Do imprio que regem teus clarins Pressentem as plegrias e a fogueira. De tuas montanhas o horror sagrado Tem o tigre de ouro e sombra profanado.

O CEGOA Mariana Grondona I Foi despojado do diverso mundo E dos rostos, que so o que eram antes, Das ruas prximas, hoje distantes, E do cncavo azul, ontem profundo. Resta dos livros o que lhe consente A memria, essa forma de olvido Que retm o formato, no o sentido, E que reflete os ttulos somente. O desnvel espreita. Cada passo Pode ser uma queda. Sou o lento Prisioneiro de um tempo sonolento Que no marca sua aurora nem seu ocaso. noite. No h outros. Com o verso Devo lavrar meu inspido universo.

II Desde meu nascimento, no ano noventa e nove Das cncavas parreiras e do algibe profundo, O tempo minucioso, que na memria breve, Foi me furtando as formas visveis deste mundo. Os dias e as noites limaram os perfis Dessas letras humanas e dos rostos amados; Em vo interrogaram meus olhos fatigados As vazias bibliotecas e os vazios atris. O azul e o vermelho so agora cerrao, Duas palavras inteis. O espelho que miro uma coisa cinzenta. No jardim eu aspiro, Amigos, uma lgubre rosa da escurido. Agora s perduram contornos amarelos, E s consigo ver para ver pesadelos.

ON HIS BLINDNESS

Indigno dos astros e da ave Que sulca o azul profundo, ora secreto, Dessas linhas que so o alfabeto Que outros ordenam e do mrmore grave Cujo lintel meus fatigados olhos Perdem em sua penumbra, dessas rosas Invisveis e das silenciosas Profuses de ouros e de vermelhos Sou, mas no das Mil Noites e Uma Que abrem em minha sombra o mar e o alvor Nem de Walt Whitman, esse Ado nomeador Das crianas que existem sob a lua, Nem desses brancos dons do esquecimento Nem do amor que espero sem um lamento.

A BUSCA

No fim de sua terceira gerao Regresso s plancies dos Acevedo, Os meus antepassados. Vagamente Procurei-os por esta velha casa Branca e retangular, entre o frescor Das duas galerias, e na sombra Crescente que projetam as colunas, Naquele intemporal grito do pssaro, Na chuva que ensombrece a varanda, Entre o crepsculo de seus espelhos, Num reflexo, um eco, que foi seu E que agora meu, sem que eu o saiba. Olhei para as ferragens do gradil Que fez parar as lanas do deserto, A palmeira partida pelo raio, Os negros touros de Aberdeen, a tarde, As casuarinas que eles nunca viram. Aqui foram a espada e o perigo, As duras proscries e os levantes; Firmes sobre o cavalo, aqui regeram A sem princpio e a sem fim planura Os estanceiros das longnquas lguas. Pedro Pascual, Miguel, Judas Tadeo... Quem me dir se misteriosamente, Sob esse teto de uma nica noite, E para alm dos anos e do p, Para alm do cristal da relembrana, No nos unimos e nos confundimos, Eu s no sonho, mas eles na morte.

O PERDIDO

Onde estar minha vida, a que tudo Pde ser e no foi, a venturosa Ou a de triste horror, essa outra coisa Que pde ser a espada ou o escudo E que no foi? Onde estar o perdido Antepassado persa ou noruegus, Onde o acaso de no me enceguecer, Onde a ncora e o mar, onde o olvido De ser quem sou? Onde estar a pura Noite que ao rude lavrador confia O iletrado e laborioso dia, Conforme pede a literatura? Penso tambm naquela companheira Que me queria, e quem sabe ainda queira.

H. O.

Em certa rua h certa firme porta Com a campainha e o nmero preciso E um sabor de perdido paraso, Que nos entardeceres no est aberta A minha passagem. Finda a jornada, Uma esperada voz me esperaria Na desagregao de cada dia E no sossego da noite enamorada. Essas coisas no so. Outra minha sorte: As vagas horas, a memria impura, O exagero da literatura E no limite a indesejada morte. S desejo essa pedra. Meu pedido So duas datas abstratas e o olvido.

RELIGIO MEDICI, 1643

Defende-me, Senhor. (O vocativo No implica Ningum. s uma palavra Deste exerccio que o enfado lavra E que na tarde do temor cultivo.) Defende-me de mim. J o disseram Montaigne e Browne e um espanhol que ignoro; Algo me resta ainda de todo esse ouro Que meus olhos de sombra recolheram. Defende-me, Senhor, do impaciente Desejo de ser mrmore e olvido; Defende-me de ser o j vivido, O que j fui irreparavelmente. No da espada ou da vermelha lana Defende-me, mas sim da esperana.

1971

Dois homens caminharam pela lua. Outros depois. O que pode a palavra, O que pode o que a arte sonha e lavra, Ante sua real e quase irreal fortuna? brios de horror divino e de aventura, Esses filhos de Whitman haviam pisado O pramo lunar, o inviolado Orbe que, antes de Ado, passa e perdura. O amor de Endmion em sua montanha, O hipogrifo, a curiosa esfera De Wells, que em minha recordao vera, Confirmam-se. De todos a faanha. No h na terra um homem que no seja Mais valente hoje e mais feliz. O dia Imemorial se exalta de energia Pelo valor que essa Odissia enseja, A dos amigos mgicos. A lua, Que o amor secular busca no firmamento Com triste rosto e insatisfeito intento, Ser seu monumento, eterna e una.

COISAS

O volume cado que os outros Escondem ali no fundo da estante E que os dias e as noites cobrem De lento p silencioso. A ncora De Sdon que os mares da Inglaterra Oprimem em seu abismo cego e brando. O espelho que no repete ningum Quando a casa permaneceu sozinha. As limalhas de unha que deixamos No decorrer do tempo e do espao. O p indecifrvel que foi Shakespeare. As modificaes de uma nuvem. A simtrica rosa momentnea Que deu o acaso certa vez aos vidros Ocultos do infantil caleidoscpio. Os remos de Argos, a primeira nave. As pegadas de areia que a onda Sonolenta e fatal desfaz na praia. Os matizes de Turner quando as luzes Apagam-se na reta galeria E no ressoa um passo na alta noite. O inverso do prolixo mapa-mndi. A tnue teia de aranha na pirmide. A pedra cega e a mo curiosa. O sonho que eu tive antes da aurora E que esqueci ao clarear o dia. O princpio e o fim da epopia De Finsburh, hoje alguns contados versos De ferro, no comido pelos sculos. A letra inversa no mata-borro. A tartaruga no fundo do algibe. O que no pode ser. O outro corno Do unicrnio. O Ser que Trs e Uno. O disco triangular. O inapreensvel Instante em que a flecha do eleata, No ar imobilizada, acerta o alvo.

A flor entre as pginas de Bcquer. O pndulo que o tempo fez parar. O ao que Odin cravou na rvore. O texto de umas no cortadas folhas. O ressoar dos cascos no assalto De Junn, que de algum eterno modo No cessou e parte dessa trama. A sombra de Sarmiento nas caladas. A voz que na montanha ouviu o pastor. Os ossos branqueando no deserto. A bala que matou Francisco Borges. O outro lado do tapete. As coisas Que ningum olha, salvo o Deus de Berkeley.

O AMEAADO

o amor. Terei de me esconder ou fugir. Crescem as paredes de seu crcere, como em um sonho atroz. A bela mscara mudou, mas como sempre a nica. De que me serviro meus talisms: o exerccio das letras, a vaga erudio, o aprendizado das palavras que usou o spero Norte para cantar seus mares e suas espadas, a serena amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os hbitos, o jovem amor de minha me, a sombra militar de meus mortos, a noite intemporal, o gosto do sonho? Estar contigo ou no estar contigo a medida de meu tempo. O cntaro j se quebra sobre a fonte, j se levanta o homem voz da ave, j escureceram os que olham pelas janelas, mas a sombra no trouxe a paz. , eu sei, o amor: a ansiedade e o alvio de ouvir tua voz, a espera e a memria, o horror de viver no sucessivo. E o amor com suas mitologias, com suas pequenas magias inteis. H uma esquina pela qual no me atrevo a passar. Agora os exrcitos me cercam, as hordas. (Este quarto irreal; ela no o viu.) O nome de uma mulher me delata. Di-me uma mulher por todo o corpo.

PROTEU

Antes que os remeiros de Odisseu Fatigassem os mares cor de vinho, As inapreensveis formas adivinho Daquele deus cujo nome foi Proteu. Um pastor dos rebanhos desses mares Que possua o dom da profecia Preferia ocultar o que sabia E entretecer uns orculos dspares. Urgido pela gente, assumia A forma de um leo, de uma fogueira Ou de rvore que ensombra a ribeira Ou de gua que na gua se perdia. Com Proteu, o egpcio, no te assombres, Tu, que s um e ao mesmo tempo muitos homens.

OUTRA VERSO DE PROTEUHabitante de areias receosas, Meio deus, meio fera marinha, Ignorou a memria, que definha Sobre o ontem e as perdidas coisas. Outro tormento padeceu Proteu No menos cruel, saber o que encerra O futuro: uma porta que se cerra Para sempre, o troiano e o aqueu. Capturado, tomava a inapreensvel Forma do furaco ou da fogueira Ou do tigre de ouro ou da pantera Ou de gua que na gua invisvel. Tu tambm ests feito de inconstantes Ontens e amanhs. No entanto, antes...

FALA UM BUSTO DE JANO

Ningum abra nem feche qualquer porta Sem honrar a memria de Bifronte, Que as preside. Abarco o horizonte De incertos mares e de terra certa. Minhas duas faces divisam o que passou E o porvir. Posso v-los similares Aos ferros, s discrdias e aos males Que Algum pde apagar mas no apagou Nem apagar. As duas mos me faltam E sou de pedra imvel. No poderia Precisar se contemplo uma porfia Futura ou a de ontens que se afastam. Vejo minha runa: a coluna truncada E as faces, que no vo se ver por nada.

O GACHO

Filho de algum extremo dessa planura Aberta, elementar, quase secreta, Puxava o firme lao que aquieta O firme touro de cerviz escura. Com o ndio e o godo antes lutou, Morreu em rixas de baralho e tava; Deu a vida ptria, que ignorava, E, assim perdendo, nada lhe restou. Hoje p de tempo e de planeta; Nomes no ficam, mas o seu perdura. Foi tantos outros e hoje uma quieta Pea que move a literatura. Foi o matreiro, o sargento e a partida. Foi quem cruzou a herica cordilheira. Foi soldado de Urquiza ou de Rivera, Tanto faz. Foi quem acabou com Laprida. Deus lhe estava distante. Professaram A antiga f do ferro e da coragem, Que a splica ou a soldo no do margem. Por essa f morreram e mataram. Entre os acasos de uma montonera Pereceu pela cor de uma divisa; Foi quem nada pediu, nem a efmera Glria, feita de alarde e de brisa. Foi o homem cinzento que, obscuro na pausada Penumbra do galpo, sonha e mateia, Enquanto no oriente j clareia A luz de outra deserta madrugada. Nunca disse: Sou gacho. Foi sua sorte No imaginar a sorte que dos outros. No menos ignorante que ns, outros, No menos solitrio, entrou na morte.

A PANTERA

Atrs das fortes grades a pantera Repetir o enfadonho itinerrio, Que (mas no o sabe) seu fadrio De negra jia, aziaga e prisioneira. Vo e vm aos milhares, em desfiles Infindveis, mas s uma e eterna A pantera fatal que em sua caverna Traa a reta que um eterno Aquiles Traa no sonho que sonhou o grego. No sabe que h prados e montanhas De cervos cujas trmulas entranhas Deleitariam seu apetite cego. Em vo vrio o orbe. A jornada Que cumpre cada qual j foi fixada.

TUUm s homem nasceu, um s homem morreu na terra. Afirmar o contrrio mera estatstica, uma adio impossvel. No menos impossvel que somar o cheiro da chuva e o sonho que anteontem noite sonhaste. Esse homem Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou as constelaes, o homem que erigiu a primeira pirmide, o homem que escreveu os hexagramas do Livro das Mutaes, o forjador que gravou runas na espada de Hengist, o arqueiro Einar Tamberskelver, Luis de Len, o livreiro que engendrou Samuel Johnson, o jardineiro de Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na cmara letal, com o tempo, tu e eu. Um s homem morreu em lion, no Metauro, em Hastings, em Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg. Um s homem morreu nos hospitais, em barcos, na rdua solido, na alcova do hbito e do amor. Um s homem fitou a vasta aurora. Um s homem sentiu no paladar o frescor da gua, o gosto das frutas e da carne. Falo do nico, do uno, do que est sempre s. Norman, Oklahoma.

POEMA DA QUANTIDADE

Penso nesse parco cu puritano De solitrias e perdidas luzes Que Emerson olharia tantas noites Em meio neve e ao rigor de Concord. Aqui so excessivas as estrelas. O homem excessivo. As geraes Inmeras de aves e de insetos, Do jaguar constelado e da serpente, De galhos que se tecem e entretecem, Do caf, da areia e das folhas Oprimem as manhs e nos prodigam Seu minucioso labirinto intil. Talvez cada formiga que pisamos Seja nica ante Deus, que a define Para a execuo das regulares Leis que regem Seu curioso mundo. No fosse assim, o universo inteiro Seria um erro e um oneroso caos. Os espelhos do bano e da gua, O espelho inventivo de um sonho, Os liquens e os peixes, as madrporas, Tartarugas alinhadas no tempo, Os vaga-lumes de uma nica tarde, As araucrias e suas dinastias, As perfiladas letras de um volume Que a noite no apaga so sem dvida No menos pessoais e enigmticas Que eu, que as confundo. No me atrevo A julgar nem a lepra nem Calgula. So Paulo, 197O.

A SENTINELA

Entra a luz e eu me lembro; est ali. Comea por dizer-me seu nome, que (logo se entende) o meu. Volto escravido que durou mais de sete vezes dez anos. Impe-me sua memria. Impe-me as misrias de cada dia, a condio humana. Sou seu velho enfermeiro; obriga-me a lavar os seus ps. Espreita-me nos espelhos, no mogno, nos vidros das lojas. Uma ou outra mulher o rejeitou e devo compartilhar sua angstia. Dita-me agora este poema, que no me agrada. Exige-me o nebuloso aprendizado do duro anglo-saxo. Converteu-me ao culto idoltrico de militares mortos, com os quais talvez no pudesse trocar uma nica palavra. No ltimo lano de escada sinto que est a meu lado. Est em meus passos, em minha voz. Minuciosamente o odeio. Percebo com prazer que quase no v. Estou em uma cela circular e a infinita parede se estreita. Nenhum dos dois engana o outro, mas ns dois mentimos. Conhecemo-nos demais, inseparvel irmo. Bebes a gua de meu copo e devoras meu po. A porta do suicida est aberta, mas os telogos afirmam que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me esperando.

AO IDIOMA ALEMO

Meu destino a lngua castelhana, O bronze de Francisco de Quevedo, Mas pela lenta noite caminhada Exaltam-me outras msicas mais ntimas. Umas me foram dadas pelo sangue Oh, voz de Shakespeare e da Escritura , E outras pelo acaso dadivoso, Mas a ti, doce lngua da Alemanha, Solitrio elegi e procurei. Por entre viglias e gramticas, Em meio selva das declinaes, Do dicionrio, que jamais atina Com o matiz preciso, me aproximei. Minhas noites so repletas de Virglio, Disse uma vez; e diria tambm De Hlderlin e de Angelus Silesius. Heine me deu seus altos rouxinis; Goethe, a ventura de um amor tardio, A um s tempo indulgente e mercenrio; Keller, a rosa que certa mo deixa Na mo daquele morto que a amava E que no vai saber se branca ou rubra. Tu, lngua da Alemanha, s tua obra Capital: esse amor entrelaado Das palavras compostas, as vogais Abertas, e esses sons que condescendem Com o estudioso hexmetro do grego, Com teu rumor de selvas e de noites. Foste minha algum dia. Hoje, no linde De meus anos cansados, te diviso Longnqua como a lgebra e a lua.

AO TRISTE

A est o que foi: a dura espada Do saxo e sua mtrica de ferro, Os mares e as ilhas do desterro Do filho de Laertes, a dourada Lua do persa e os infindos jardins, Os da filosofia e os da histria, O ouro sepulcral que h na memria E sob a sombra o cheiro dos jasmins. E nada disso importa. O resignado Exerccio do verso no te salva, Nem as guas do sonho nem a estrela Que na arruinada noite esquece a alva. Uma nica mulher teu cuidado, Igual s outras todas, mas que ela.

O MAR

O mar. O mar de Ulisses. Jovem mar. E o daquele outro Ulisses que a gente Do Isl alcunhou famosamente De Es-Sindibad do Mar. Do gris ondear De rico, o Vermelho, alto em sua proa, E o do tal cavaleiro que escrevia A um s tempo a epopia e a elegia De sua ptria, no pntano de Goa. O mar de Trafalgar. O que a Inglaterra Cantou ao longo de sua longa histria, O rduo mar que ensangentou de glria No dirio exerccio da guerra. Esse incessante mar que na afvel Manh segue sulcando a areia infindvel.

AO PRIMEIRO POETA DA HUNGRIA

Neste perodo para ti futuro Que desconhece o ugure que a forma Proibida do porvir v nos planetas Ardentes ou nas vsceras do touro, Nada me custaria, irmo e sombra, Buscar teu nome nas enciclopdias E descobrir que rios refletiram Teu rosto, que hoje perdio e p, E que reis, que dolos, que espadas, Que resplendor de tua infinita Hungria Elevaram tua voz ao primo canto. As noites e os mares nos separam, As seculares modificaes, Os climas, os imprios e os sangues. Porm nos une indecifravelmente O misterioso amor pelas palavras, Nosso costume de sons e de smbolos. Semelhante ao arqueiro do eleata, Um homem s numa tarde vazia Deixa correr sem fim esta impossvel Saudade, que tem por alvo uma sombra. No nos veremos nunca face a face, Oh, antepassado que minha voz no alcana. Eu para ti no sou sequer um eco; Para mim sou um tormento e um arcano, Uma ilha de encanto e temores, Como talvez o sejam os homens todos, E como o foste tu, sob outros astros.

O ADVENTO

Sou o que fui na aurora, entre a tribo. Deitado em meu canto da caverna, Lutava por afundar nas obscuras guas do sonho. Espectros de animais Feridos pelo estilhao da flecha Davam horror negrura. Mas algo, Talvez a execuo de uma promessa, A morte de um rival sobre a montanha, Talvez o amor, ou uma pedra mgica, Me fora outorgado. Perdi tudo. Pelos sculos gasta, a memria S guarda essa noite e sua manh. Sentia desejo e medo. Bruscamente Ouvi o surdo tropel interminvel De um rebanho atravessando a aurora. Arco de roble, flechas que se cravam, Deixei-os e corri at a greta Que se abre no extremo da caverna. Foi ento que os vi. Brasa avermelhada, Cruis os cornos, montanhoso o lombo, A crina lgubre como os seus olhos Que espreitavam malvados. Aos milhares. So os bises, eu disse. A palavra Nunca antes passara por meus lbios, Mas senti que talvez fosse seu nome. Era como se eu nunca houvesse visto, Como se houvesse estado cego e morto No tempo antes dos bises da aurora. Eles surgiam da aurora. Eram a aurora. No quis que os outros profanassem Aquele denso rio de bruteza Divina, de ignorncia, de soberba, Indiferente como as estrelas. Pisotearam um co do caminho; Teriam feito o mesmo com um homem. Depois os traaria na caverna

Com ocre e cinbrio. Foram os Deuses Do sacrifcio e das preces. Nunca Disse minha boca o nome de Altamira. Foram muitas minhas formas e mortes.

A TENTAO

O general Quiroga vai a seu enterro; Convida-o o mercenrio Santos Prez E sobre Santos Prez est Rosas, A recndita aranha de Palermo. Rosas, a for de bom covarde, sabe Que no h entre os homens um sequer Mais vulnervel e frgil que o valente. Juan Facundo Quiroga temerrio At a insensatez. O fato pode Merecer o exame de seu dio. Resolveu-se a mat-lo. Pensa e hesita. Por fim, d com a arma que buscava. Ser a sede e a fome de perigo. Quiroga busca o Norte. O prprio Rosas O adverte, quase ao p da carroa, Que circulam rumores de que Lpez Premedita sua morte. Recomenda Que no empreenda a ousada travessia Sem uma escolta. Ele mesmo a oferece. Facundo sorriu. Pois no carece De ladeiros. Ele se basta. A rangente Carroa deixa as vilas para trs. Lguas de longa chuva a entorpecem, Neblina e lodo e as guas transbordadas. Por fim, avistam Crdoba. So vistos Como se fossem seus fantasmas. Todos j os davam por mortos. Noites antes, Crdoba inteira vira Santos Prez Distribuindo espadas. A partida de trinta cavaleiros da serra. Nunca se urdiu um crime de maneira Mais descarada, escrever Sarmiento. Juan Facundo Quiroga no se altera. Busca o Norte. Em Santiago del Estero Se entrega s cartas e a seu belo risco. Entre o ocaso e a aurora perde

Ou recebe centenas de onas de ouro. Recrudescem os alarmes. Bruscamente Decide regressar e d a ordem. Por esses descampados e esses montes Retomam os caminhos do perigo. Em um stio chamado Ojo de Agua O maestro de posta lhe revela Que por ali j passou a partida Encarregada de assassin-lo E que o espera em um lugar que nomeia. Ningum deve escapar. Esta a ordem. A determinao de Santos Prez, O capito. Facundo no se arreda. Est por nascer o homem que se atreva A acabar com Quiroga, lhe responde. Os outros ficam plidos e calam. Sobrevm a noite, em que somente Dorme o fatal, o forte, que confia Em seus obscuros deuses. Amanhece. No voltaro a ver outra manh. Por que concluir a histria que j foi Contada para sempre? A carroa Toma o rumo de Barranca Yaco.

1891

Assim que o vislumbro, j o perco. Ajustado o decente traje preto, A testa estreita, o bigode ralo, E um leno no pescoo como todos, Vai caminhando entre a gente da tarde Ensimesmado e sem fitar ningum. Em uma das esquinas da rua Piedras Pede uma pinga brasileira. O hbito. Algum grita um adeus. No lhe responde. H em seus olhos um rancor antigo. Outra quadra. Rajadas de milonga Vm de um ptio e o alcanam. Essas charangas Esto sempre amolando a pacincia, Mas seu andar balana e ele nem nota. Levanta a mo e apalpa a firmeza Do punhal que h na cava do colete. Vai cobrar uma dvida. Est perto. Mais alguns passos e o homem pra. H uma flor de cardo no saguo. Ouve o golpe do balde no algibe E uma voz que conhece muito bem. Empurra o porto que ainda est aberto Como se o esperassem. Esta noite Talvez j esteja morto.

1929

Antes, a luz avanava mais cedo Na pea que d para o ltimo ptio; Agora o sobrado que fica ao lado Encobre o sol, mas na difusa sombra Seu modesto inquilino est desperto Desde o amanhecer. E em silncio, Para no perturbar os seus vizinhos, O homem est mateando e esperando. Outro dia vazio, como todos. E os ardores constantes de sua lcera. J no h mulheres em minha vida, pensa. Os amigos o enfadam. Imagina Que os enfade tambm. Falam de coisas Que no entende, de arqueiros e de quadros. No viu que horas so. Sem pressa alguma Levanta-se e barbeia-se com intil Esmero. preciso encher o tempo. O rosto que o espelho lhe devolve Guarda o aprumo que antes era seu. Envelhecemos mais que nosso rosto, Pensa, mas a esto as comissuras, O bigode grisalho, a boca murcha. Pega o chapu e sai. J no vestbulo V um jornal aberto. L as grandes letras, Crises ministeriais em pases Que so apenas nomes. Em seguida Nota a data da vspera. Um alvio; No h mais motivo para seguir lendo. L fora, a manh logo lhe depara Sua iluso habitual de que algo est Comeando e os preges dos vendedores. Em vo o homem intil dobra esquinas E passagens e tenta se perder. V com aprovao as casas novas, Algo, o vento sul, talvez, o anima. Cruza a Rivera, hoje chamada Crdoba,

E nem lembra que faz muitos anos Que seus passos a eludem. Duas, trs quadras. Reconhece uma longa balaustrada, Os redondis da sacada de ferro, Um muro eriado de pedaos De vidro. Nada mais. Tudo mudou. Tropea na calada. Ouve a troa De alguns garotos. No lhes d ateno. Agora est andando lentamente. De repente pra. Algo aconteceu. A onde agora h uma sorveteria, Havia o Almacn de la Figura. (A histria conta quase meio sculo.) A um desconhecido de ar avesso Ganhou-lhe um longo truco, quinze e quinze, E ele insinuou que o jogo no era limpo. Evitou discutir, mas disse a ele: Vou lhe dar at o ltimo centavo, Mas depois disso vamos para a rua. O outro respondeu que com o ferro No ia se dar melhor que com as cartas. No havia uma estrela. Benavides Lhe emprestou sua faca. A peleja Foi dura. Na memria s um instante, Um s imvel fulgor, vertiginoso. Lanou-se numa longa punhalada, Que bastou. Depois, na dvida, em outra. Ouviu o cair do corpo e do ao. E ento sentiu pela primeira vez O corte em seu pulso e viu o sangue. Foi ento que brotou de sua garganta Uma palavra grosseira, que reunia A exultao, a ira e o assombro. Tantos anos e ele enfim resgatou A sorte de ser homem e ser valente Ou, pelo menos, a de t-lo sido Algum dia, num dos ontens do tempo.

A PROMESSA

Em Pringles, o doutor Isidro Lozano me contou a histria. Fez isso com taleconomia que compreendi que j o fizera antes, como era previsvel, muitas vezes; acrescentar ou alterar um pormenor seria um pecado literrio. "O fato aconteceu aqui, em mil novecentos e vinte e tantos. Eu tinha voltado de Buenos Aires com meu diploma. Certa noite, mandaram me chamar, do hospital. Levantei-me de mau humor, vesti-me e atravessei a praa deserta. Na sala de espera, o doutor Eudoro Ribera me disse que um dos malfeitores do comit, Clemente Garay, tinha sido trazido com uma punhalada no ventre. Ns o examinamos; agora estou endurecido, mas na poca mexeu comigo ver um homem com os intestinos de fora. Estava com os olhos fechados e a respirao era difcil. " O doutor Ribera me disse: No h mais nada a fazer, meu jovem colega. Vamos deixar que este porqueira morra. Respondi-lhe que tinha me arrastado at ali depois das duas da manh e que faria o possvel para salv-lo. Ribera deu de ombros; lavei os intestinos, coloquei-os no lugar e costurei o ferimento. No ouvi uma nica queixa. No dia seguinte voltei. O homem no havia morrido; olhou-me, apertou minha mo e disse: Para o senhor, obrigado, e meu cabo de prata para Ribera. Quando deram alta a Garay, Ribera j partira para Buenos Aires. "Desde essa data, todos os anos recebi um cordeirinho no dia de meu aniversrio. Por volta de quarenta o presente cessou."

O ESTUPOR

Um vizinho de Morn me contou o caso: "Ningum sabe muito bem por que Moritn e o Pardo Rivarola se inimizaram e de modo to rancoroso. Os dois eram do partido conservador e acho que se conheceram no comit. No me lembro de Moritn porque eu era muito pequeno quando morreu. Dizem que a famlia era de Entre Ros. O Pardo sobreviveu a ele muitos anos. No era um caudilho ou coisa parecida, mas tinha toda a pinta. Mais baixo do que alto, era pesado e muito pomposo no vestir. Nenhum dos dois era frouxo, mas o mais reflexivo era Rivarola, como logo se viu. H muito tempo ele tinha jurado Moritn, mas quis agir com prudncia. Dou-lhe razo; se algum mata algum e tem de penar na priso, est agindo como um sonso. O Pardo tramou bem o que ia fazer. " "Deviam ser sete horas da tarde, um domingo. A praa transbordava de gente. Como sempre, a estava Rivarola caminhando devagar, com seu cravo na lapela e a roupa preta. Ia com a sobrinha. De repente afastou-a, sentou-se de ccoras no cho e se ps a adejar e cacarejar como se fosse um galo. As pessoas lhe abriram cancha, assustadas. Um homem de respeito como o Pardo, fazendo uma coisa dessas, vista e pacincia de todo o Morn e num dia de domingo! Meia quadra depois ele virou e, sempre cacarejando e esvoejando, enfiou-se na casa de Moritn. Empurrou o porto e de um salto entrou no ptio. A multido se aglomerava na rua. Moritn, que ouviu a balbrdia, veio l do fundo. Ao ver esse monstruoso inimigo investindo contra ele, quis ganhar os quartos, mas um balao o alcanou e depois outro. Rivarola foi levado entre dois guardas. O homem forcejou, cacarejando. " "Um ms depois estava em liberdade. O mdico forense declarou que ele fora vtima de um sbito ataque de loucura. Por acaso o povo inteiro no o tinha visto, comportando-se como um galo?"

OS QUATRO CICLOS

Quatro so as histrias. Uma, a mais antiga, a de uma forte cidadecercada e defendida por homens valentes. Os defensores sabem que a cidade ser entregue ao ferro e ao fogo e que sua batalha intil; o mais famoso dos agressores, Aquiles, sabe que seu destino morrer antes da vitria. Os sculos foram acrescentando elementos de magia. J se disse que Helena de Tria, pela qual os exrcitos morreram, era uma bela nuvem, uma sombra; j se disse que o grande cavalo oco no qual se ocultaram os gregos era tambm uma aparncia. Homero no deve ter sido o primeiro poeta a referir a fbula; algum, no sculo catorze, deixou esta linha que anda em minha memria: "The borgh brittened and brent to brontes and askes".3 Dante Gabriel Rossetti iria imaginar que a sorte de Tria foi selada naquele instante em que Pris arde de amor por Helena; Yeats eleger o instante em que se confundem Leda e o cisne que era um deus. Outra, que se vincula primeira, a de um regresso. O de Ulisses, que, ao fim de dez anos errando por mares perigosos e demorando-se em ilhas de encantamento, volta a sua taca; o das divindades do Norte que, uma vez destruda a terra, vem-na surgir do mar, verde e lcida, e encontram perdidas no gramado as peas de xadrez com que antes jogaram. A terceira histria a de uma busca. Podemos ver nela uma variante da forma anterior. Jaso e o Velocino; os trinta pssaros do persa, que cruzam montanhas e mares e vem o rosto de seu Deus, o Simurgh, que cada um deles e todos. No passado, todo cometimento era venturoso. Algum roubava, no fim, as proibidas mas de ouro; algum, no fim, merecia a conquista do Graal. Agora, a busca est condenada ao fracasso. O capito Ahab d com a baleia e a baleia o desfaz; os heris de James ou de Kafka s podem esperar a derrota. Somos to pobres de coragem e de f que agora o happy-ending no passa de um mimo industrial. No podemos acreditar no cu, mas sim no inferno. A ltima histria a do sacrifcio de um deus. tis, na Frgia, se mutila e se mata; Odin, sacrificado a Odin, Ele mesmo a Si Mesmo, pende da rvore nove noites a fio, ferido com uma lana; Cristo crucificado pelos romanos.

Quatro so as histrias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrlas, transformadas.

O SONHO DE PEDRO HENRQUEZ UREA

O sonho que Pedro Henrquez Urea teve no alvorecer de um dos dias de1946 curiosamente no constava de imagens, mas de pausadas palavras. A voz que as dizia no era a sua, mas se parecia com a sua. O tom, no obstante as possibilidades patticas que o tema permitia, era impessoal e comum. Durante o sonho, que foi breve, Pedro sabia que estava dormindo em seu quarto e que sua mulher estava a seu lado. Na escurido, o sonho lhe disse: H algumas noites, em uma esquina da rua Crdoba, discutiste com Borges a invocao do Annimo Sevilhano "Oh, Morte, vem calada como costumas vir na seta". Suspeitaram que era o eco deliberado de algum texto latino, j que essas translaes correspondiam aos hbitos de uma poca, totalmente alheia a nosso conceito de plgio, sem dvida menos literrio que comercial. O que no suspeitaram, o que no podiam suspeitar, que o dilogo era proftico. Dentro de algumas horas, andars apressado pela ltima plataforma de Constitucin, para dar tua aula na Universidad de La Plata. Alcanars o trem, pors a pasta na rede e te acomodars em teu assento, junto janela. Algum, cujo nome no conheo mas cujo rosto estou vendo, dirigir a ti algumas palavras. No lhe responders, porque estars morto. j te ters despedido, como sempre, de tua mulher e de tuas filhas. No lembrars este sonho, porque teu esquecimento necessrio para que se cumpram os fatos.

O PALCIO

O Palcio no infinito.Os muros, os aterros, os jardins, os labirintos, as grades, as varandas, os parapeitos, as portas, as galerias, os ptios circulares ou retangulares, os claustros, as encruzilhadas, os algibes, as antecmaras, as cmaras, as alcovas, as bibliotecas, os desvos, os crceres, as celas sem sada e os hipogeus no so menos numerosos que os gros de areia do Ganges, mas seu nmero tem um fim. Dos terraos, em direo ao poente, no falta quem divise as forjas, as carpintarias, as cavalarias, os lenheiros e os casebres dos escravos. A ningum dado percorrer mais que uma parte infinitesimal do palcio. Alguns conhecem apenas os pores. Podemos perceber alguns rostos, algumas vozes, algumas palavras, mas o que percebemos nfimo. nfimo e precioso ao mesmo tempo. A data que o ao grava na lpide e que os livros paroquiais registram posterior a nossa morte; j estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memria. Eu sei que no estou morto.

HENGIST QUER HOMENS (449 A.D.)

Hengist quer homens. Eles viro dos confins de areia que se perdem em vastos mares, de casebres enfumaados, de terras pobres, de profundos bosques de lobos, em cujo centro indefinido est o Mal. Os lavradores deixaro o arado e os pescadores as redes. Deixaro suas mulheres e seus filhos, porque o homem sabe que em qualquer lugar da noite pode encontr-las e faz-los. Hengist, o mercenrio, quer homens. Ele os quer para debelar uma ilha que ainda no se chama Inglaterra. Vo segui-lo submissos e cruis. Sabem que sempre foi o primeiro na batalha de homens. Sabem que uma vez esqueceu seu dever de vingana e que lhe deram uma espada nua e que a espada fez sua obra. Atravessaro a remo os mares, sem bssola e sem mastro. Traro espadas e broquis, elmos com a forma do javali, conjuros para que se multipliquem as messes, vagas cosmogonias, fbulas dos hunos e dos godos. Conquistaro a terra, mas nunca entraro nas cidades que Roma abandonou, porque so coisas demasiado complexas para sua mente brbara. Hengist os quer para a vitria, para o saque, para a corrupo da carne e para o esquecimento. Hengist os quer (mas no o sabe) para a fundao do maior imprio, para que o cantem Shakespeare e Whitman, para que dominem o mar as naus de

Nelson, para que Ado e Eva se afastem, de mos dadas Q silenciosos, do Paraso que perderam. Hengist os quer (mas no o saber) para que eu trace estas letras.

EPISDIO DO INIMIGO

Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela o vi subir penosamente pelo spero caminho do cerro. Ajudava-se com um basto, com o torpe basto que em suas velhas mos no podia ser uma arma, e sim um bculo. Custou-me perceber o que esperava: a batida fraca na porta. Fitei, no sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompido e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, livro um tanto anmalo a, j que no sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Temi que o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o basto, que no voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido. Minha ansiedade o imaginara muitas vezes, mas s ento notei que se parecia, de modo quase fraternal, com o ltimo retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde. Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse. Pensamos que os anos passam apenas para ns disse-lhe , mas passam tambm para os outros. Aqui nos encontramos, por fim, e o que aconteceu antes no tem sentido. Enquanto eu falava, ele desabotoara o casaco. A mo direita estava no bolso do palet. Assinalava-me algo e senti que era um revlver. Disse-me ento com voz firme: Para entrar em sua casa, recorri compaixo. Agora o tenho a minha merc e no sou misericordioso. Ensaiei algumas palavras. No sou um homem forte e s as palavras podiam salvar-me. Atinei a dizer: verdade que h tempos maltratei um menino, mas voc j no aquele menino nem eu aquele insensato. Alm disso, a vingana no menos ftua e ridcula que o perdo. Justamente porque j no sou aquele menino replicou-me tenho de mat-lo. No se trata de uma vingana, mas de um ato de justia. Seus

argumentos, Borges, so meros estratagemas de seu terror para que eu no o mate. Voc no pode fazer mais nada. Posso fazer uma coisa respondi. O qu? perguntou-me. Acordar. E foi o que fiz.

ISLNDIA

De todas as regies da bela terra Que minha carne e sua sombra fatigaram Tu s a mais remota e a mais ntima, ltima Tule, Islndia dos navios, Do firme arado e do constante remo, Das estendidas redes marinheiras, Da curiosa luz de tarde imvel Que efunde o vago cu desde a alvorada E do vento que procura os perdidos Velmenes do viking. Terra sacra Que foste a memria da Germnia E resgataste sua mitologia De uma selva de ferro e de seu lobo E dessa nave que os deuses temem, Lavrada com as unhas dos defuntos. Islndia, eu longamente te sonhei Desde aquela manh em que meu pai Deu criana que fui e no morreu Uma verso dessa Vlsunga Saga Que agora decifra minha penumbra Com a ajuda do lento dicionrio. Quando o corpo se cansa de seu homem, Quando o fogo declina e j cinza, Cai bem a resignada aprendizagem De uma empresa infinita; eu escolhi A de tua lngua, esse latim do Norte Que abarcou as estepes e os mares De um hemisfrio e ressoou em Bizncio E pelas margens virgens desta Amrica. Sei que no vou sab-la, mas me esperam Os privilgios casuais da busca, No o fruto sabiamente inalcanvel. O mesmo vo sentir os que indagam Os astros ou a sucesso dos nmeros... S o amor, o ignorante amor, Islndia.

AO ESPELHO

Por que persistes, incessante espelho? Por que repetes, misterioso irmo, O menor movimento de minha mo? Por que na sombra o sbito reflexo? s o outro eu sobre o qual fala o grego E desde sempre espreitas. Na brunidura Da gua incerta ou do cristal que dura Me buscas e intil estar cego. O fato de no te ver e saber-te Te agrega horror, coisa de magia que ousas Multiplicar a cifra dessas coisas Que somos e que abarcam nossa sorte. Quando eu estiver morto, copiars outro E depois outro, e outro, e outro, e outro...

A UM GATO

No so mais silenciosos os espelhos Nem mais furtiva a aurora aventureira; Tu s, sob a lua, essa pantera, Que divisam ao longe nossos olhos. Por obra indecifrvel de um decreto Divino, buscamos-te inutilmente; Mais remoto que o Ganges e o poente, Tua a solido, teu o segredo. Teu dorso condescende morosa Carcia de minha mo. Sem um rudo, Da eternidade que ora olvido, Aceitaste o amor dessa mo receosa. Em outro tempo ests. Tu s o dono De um espao cerrado como um sonho.

EAST LANSING

Os dias e as noites esto entretecidos (interwoven) de memria e de medo, de medo, que um modo da esperana, de memria, nome que damos s fendas do frreo esquecimento. Meu tempo foi sempre um Jano bifronte que mira o ocaso e a aurora; meu propsito de hoje celebrar-te, oh, futuro imediato. Regies da Escritura e do machado, rvores que olharei e no verei, vento com pssaros que ignoro, gratas noites de frio que iro afundando no sonho e quem sabe na ptria, chaves de luz e portas giratrias que com o tempo sero hbitos, despertares em que me direi "Hoje Hoje", livros que minha mo conhecer, amigos e amigas que sero vozes, areias amarelas do poente, a nica cor que me resta, tudo isso estou cantando e tambm a insofrvel memria de lugares de Buenos Aires nos quais no fui feliz e nos quais no poderei ser feliz. Canto na vspera teu crepsculo, East Lansing, Sei que as palavras que dito talvez sejam precisas, mas sutilmente sero falsas, porque a realidade inapreensvel e porque a linguagem uma ordem de signos rgidos. Michigan, Indiana, Wisconsin, Iowa, Texas, Califrnia, Arizona; j tentarei cant-las. 9 de maro de 1972.

AO COIOTE

Sculo a sculo a areia infindvel Dos diversos desertos tm sofrido Teus passos numerosos e o ganido De chacal cinza ou hiena. insacivel. Por sculos? Eu minto. Essa furtiva Substncia, o tempo, no te alcana, lobo; Teu o puro ser, teu o arroubo, Nossa, a torpe vida sucessiva. Foste um latido quase imaginrio Nos confins do Arizona, nessa areia Onde tudo confim, e se incendeia Teu perdido latido solitrio. Smbolo de uma noite que eu possua, Seja teu vago espelho esta elegia.

UM AMANH

Louvada seja a misericrdia De Quem, completos meus setenta anos E selados meus olhos, Salva-me da venerada velhice E das galerias de precisos espelhos Desses dias iguais E dos protocolos, molduras e ctedras E da assinatura de incansveis papis Para os arquivos do p E dos livros, que so simulacros da memria, E me prodiga o animoso desterro, Que talvez seja a forma essencial do destino argentino, E o acaso e a jovem aventura E a dignidade do perigo, Conforme opinou Samuel Johnson. Eu, que sofri a vergonha De no ter sido aquele Francisco Borges que morreu em 1874 Ou meu pai, que ensinou a seus discpulos O amor psicologia e no acreditou nela, Esquecerei as letras que me deram alguma fama, Serei homem de Austin, de Edimburgo, da Espanha, E buscarei a aurora em meu ocidente. Na ubqua memria sers minha, Ptria, e no na frao de cada dia.

O OURO DOS TIGRES

At a hora do ocaso amarelo Quantas vezes terei contemplado O poderoso tigre de Bengala Ir e vir pelo predestinado caminho Por detrs das barras de ferro, Sem suspeitar que eram seu crcere. Depois viriam outros tigres, O tigre de fogo de Blake; Depois viriam outros ouros, O metal amoroso que era Zeus, O anel que a cada nove noites4 Engendra nove anis e estes, nove, E no h um fim. Com os anos foram me deixando As outras belas cores E agora s me restam A vaga luz, a inextricvel sombra E o ouro do princpio. Oh, poentes, oh, tigres, oh, fulgores Do mito e da pica, Oh, um ouro mais precioso, teus cabelos Que estas mos almejam. East Lansing, 1972.

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NOTAS:TAMERLO. Meu pobre Tamerlo havia lido, no final do sculo XIX, a tragdia de Christopher Marlowe e algum manual de histria. TANKAS. Quis adaptar a nossa prosdia a estrofe japonesa que consta de um primeiro verso de cinco slabas, de um de sete, de um de cinco e de dois ltimos de sete. Quem sabe como soaro estes exerccios a ouvidos orientais? A forma original prescinde tambm de rimas. 3 OS QUATRO CCLOS. O verso em ingls mdio quer dizer "A fortaleza arruinada e reduzida a incndio e cinzas". Pertence ao admirvel poema aliterativo "Sir Gawain and the Green Knight", que guarda a primitiva msica do saxo, embora tenha sido composto sculos depois da conquista comandada por Guilherme, o Bastardo. O ouro Dos Tigres. Para o anel das nove noites, o curioso leitor pode interrogar o captulo 49 da Edda Menor. O nome do anel era Draupnir.4 2 1