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    Boris Fausto

    Edusp

    HISTRIA DO BRASILHistria do Brasil cobre um perodo de mais de quinhentos anos, desdeas razes da colonizao portuguesa at nossos dias.

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    SUMRIO

    Introduo

    1. As Causas da Expanso Martima e a Chegada dos Portugueses ao Brasil1.1. O gosto pela aventura1.2. O desenvolvimento das tcnicas de navegao. A nova mentalidade1.3. A atrao pelo ouro e pelas especiarias1.4. A ocupao da costa africana e as feitorias1.5. A ocupao das ilhas do Atlntico1.6. A chegada ao Brasil

    2. O Brasil Colonial (1500-1822)2.1. Os ndios2.2. Os perodos do Brasil colonial

    2.3. Tentativas iniciais de explorao2.4. Incio de colonizao - as capitanias hereditrias2.5. O governo geral2.6. A colonizao se consolida2.7. O trabalho compulsrio2.8. A escravido - ndios e negros2.9. O mercantilismo2.10. O "exclusivo" colonial2.11. A grande propriedade e a monocultura de exportao2.12. Estado e Igreja2.13. O Estado absolutista e o "bem comum"2.14. As instituies da administrao colonial2.15. As divises sociais2.16. Estado e Sociedade2.17. As primeiras atividades econmicas2.18. As invases holandesas2.19. A colonizao do Norte2.20. A colonizao do Sudeste e do Centro-Sul2.21. Ouro e diamantes2.22. A crise do Antigo Regime2.23. A crise do sistema colonial2.24. Os movimentos de rebeldia2.25. A vinda da famlia real para o Brasil2.26. A Independncia2.27. O Brasil no fim do perodo colonial

    3. O Primeiro Reinado (1822-1831)3.1. A consolidao da Independncia

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    3.2. Uma transio sem abalos3.3. A Constituinte3.4. A Constituio de 18243.5. A Confederao do Equador3.6. A abdicao de Dom Pedro I

    4. A Regncia (1831-1840)4.1. As reformas institucionais4.2. As revoltas provinciais4.3. A poltica no perodo regencial

    5. O Segundo Reinado (1840-1889)5.1. O "Regresso"5.2. A luta contra o Imprio centralizado5.3. O acordo das elites e o "parlamentarismo"5.4. Os partidos: semelhanas e diferenas5.5. A preservao da unidade territorial5.6. A estrutura scio-econmica e a escravido5.7. A Guerra do Paraguai5.8. A crise do Segundo Reinado5.9. Balano econmico e populacional

    6. A Primeira Repblica (1889-1930)6.1. A primeira Constituio republicana6.2. O Encilhamento6.3. Deodoro na presidncia6.4. Floriano Peixoto6.5. A Revoluo Federalista6.6. Prudente de Morais6.7. Campos Sales6.8. Caractersticas polticas da Primeira Repblica6.9. O Estado e a burguesia do caf6.10. Principais mudanas socioeconmicas - 1890 a 19306.11. Os movimentos sociais6.12. O processo poltico nos anos 206.13. A Revoluo de 1930

    7. O Estado Getulista (1930-1945)7.1. A colaborao entre o Estado e a Igreja7.2. A centralizao7.3. A poltica do caf7.4. A poltica trabalhista7.5. A educao7.6. O processo poltico (1930-1934)7.7. A gestao do Estado Novo

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    7.8. O Estado Novo7.9. As mudanas ocorridas no Brasil entre 1920 e 1940

    8. O Perodo Democrtico (1945-1964)8.1. A eleio de Dutra8.2. A Constituio de 19468.3. O governo Dutra8.4. O novo governo Vargas8.5. A eleio de Juscelino Kubitschek8.6. O governo JK8.7. A sucesso presidencial8.8. O governo Jnio Quadros8.9. A sucesso de Jnio8.10. O governo Joo Goulart

    9. O Regime Militar (1964-1985)9.1. O Ato Institucional n 1 e a represso9.2. O governo Castelo Branco9.3. O governo Costa e Silva9.4. A junta militar9.5. O governo Mdici9.6. O governo Geisel9.7. O governo Figueiredo9.8. Caracterizao Geral do Regime Militar9.9. Morte de Tancredo Neves

    10. Completa-se a Transio: o Governo Sarney (1985-1989)10.1. Poltica econmica10.2. O Plano Cruzado10.3. As eleies de 198610.4. A Assemblia Nacional Constituinte10.5. A transio avaliada

    11. Principais Mudanas Ocorridas no Brasil entre 1950 e 198011.1. Populao11.2. Economia11.3. Indicadores Sociais12. A Nova Ordem Mundial e o Brasil

    Cronologia HistricaGlossrio BiogrficoReferncias BibliogrficasFonte Iconogrfica

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    INTRODUO

    Esta Histria do Brasil se dirige aos estudantes do Ensino 2 grau e das universidades etem a esperana de atingir tambm o pblico letrado em geral. A ambio de abrangnciaparte do princpio de que, sem ignorar a complexidade do processo histrico, a Histria umadisciplina acessvel a pessoas com diferentes graus de conhecimento. Mais do que isso, umadisciplina vital para a formao da cidadania. No chega a ser cidado quem no consegue seorientar no mundo em que vive, a partir do conhecimento da vivncia das geraes passadas.

    Qualquer estudo histrico, mesmo uma monografia sobre um assunto bastantedelimitado, pressupe um recorte do passado, feito pelo historiador, a partir de suasconcepes e da interpretao de dados que conseguiu reunir. A prpria seleo de dados temmuito a ver com as concepes do pesquisador. Esse pressuposto revela-se por inteiro quandose trata de dar conta de uma seqncia histrica de quase quinhentos anos, em algumascentenas de pginas. Por isso mesmo, o que o leitor tem em mo no a Histria do Brasil -tarefa pretensiosa e alis impossvel - mas uma Histria do Brasil, narrada e interpretadasinteticamente, na ptica de quem a escreveu.

    O recorte do passado, seja ele qual for, obedece a um critrio de relevncia e implica oabandono ou o tratamento superficial de muitos processos e episdios. Como todohistoriador, fao tambm um recorte, deixando de lado temas que por si ss mereceriammonografias. Entre tentar "incluir tudo", com o risco da incongruncia, e limitar-me aestabelecer algumas conexes de sentido bsicas, preferi a segunda opo. Com esse objetivo,procurei integrar os aspectos econmicos, poltico-sociais e, em certa medida, ideolgicos daformao social brasileira, deixando de lado as manifestaes da cultura, tomada a expressoem sentido estrito. Essa excluso no se baseou em um critrio de relevncia, mas de outranatureza que necessrio esclarecer. Parti da constatao de que o inter-relacionamentoentre a estrutura scio-econmica e as manifestaes da cultura por si s um problemaespecfico, que demanda seguir outros e difceis caminhos. Como no poderia percorr-los,preferi deixar de lado os fatos da cultura, em vez de simplesmente enumer-los, em umesforo de mera catalogao. Por exemplo: ao falar das Minas Gerais dos ltimos decnios dosculo XVIII, deixei de lado o arcadismo literrio, a arquitetura e a msica barroca; ao lidar comos anos 20 deste sculo, deliberadamente, no cogitei do movimento modernista.

    Cabe ainda lembrar uma razo adicional para esse procedimento: um outro volume dacoleo versar sobre a literatura.

    O leitor poder perceber, no correr da leitura, os pressupostos deste trabalho, mas halguns que convm explicitar. Rejeitei duas tendncias opostas, na exposio do processohistrico brasileiro. De um lado, aquela que v a Histria do Brasil como uma evoluo,caracterizada pelo progresso permanente - perspectiva simplista que os anos mais recentes seencarregaram de desmentir. De outro lado, aquela que acentua na Histria do Brasil os traosde imobilismo, como, por exemplo, o clientelismo, a corrupo, a imposio do Estado sobre asociedade, tanto na Colnia como nos dias de hoje. A ltima tendncia est geralmenteassociada ao pensamento conservador. Por meio dela, fcil introduzir a idia da inutilidadedos esforos de mudana, pois o Brasil e ser sempre o mesmo; conviria assim adaptar-se

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    realidade, tecida pelos males citados e onde se inclui, no por acaso, a imensa desigualdadesocial.

    Na minha exposio, est implcita uma posio oposta a esse tipo de pensamento. Acada passo, na passagem do Brasil Colnia para o Brasil independente, na passagem daMonarquia para a Repblica etc. procurei mostrar que, em meio a continuidades eacomodaes, o pas muda, conforme o caso no plano socioeconmico ou no plano poltico e,s vezes, em ambos.

    No equilbrio entre as vrias partes do livro, dei maior peso fase que se inicia em fins dosculo XIX e vai at os dias de hoje. Deliberadamente, medida que me aproximei da pocaatual, tratei de abrir maior espao narrativa, enfatizando os acontecimentos polticos. Essaopo no indica que considere menos significativo o perodo colonial ou a poca deconstruo do Brasil independente. Pelo contrrio, a devem ser buscadas as "razes do Brasil",na feliz expresso de Srgio Buarque de Holanda. Se dei maior nfase ao perodo mais prximode nossos dias, foi porque ele se encontra em parte presente na nossa memria e porqueincide diretamente nas opes da atualidade. No h como negar, por exemplo, que estamosmais interessados na significao do regime militar do que nas capitanias hereditrias.

    Tratei de tornar explcita a controvrsia entre historiadores sobre questes relevantes dahistria brasileira, por duas razes. Em primeiro lugar, porque esta uma boa maneira de sedemonstrar a inexistncia de uma verdade histrica imutvel, que o historiador vaidescobrindo e sobre a qual pe seu selo. O passado histrico um dado objetivo e no purafantasia, criada por quem escreve. Mas essa objetividade, composta de relaes materiais, deprodutos da imaginao social e da cultura, passa pelo trabalho de construo do historiador.Como disse antes, ele seleciona fatos, processos sociais etc., e os interpreta, de acordo comsuas concepes e as informaes obtidas. Por isso, ao mesmo tempo que no arbitrria, aHistria - tanto ou mais do que outras disciplinas - se encontra em constante elaborao. Emsegundo lugar, procurei destacar as controvrsias por uma razo mais simples - a de colocar oleitor a par do debate mais recente em torno de questes centrais. Em alguns casos, expusapenas as opinies em confronto; em outros, achei necessrio tomar partido, o que nosignifica que o leitor deva concordar com o meu ponto de vista.

    Considerando-se os fins deste livro, no pude incluir notas contendo observaesmarginais e referncias s obras utilizadas. Se isso tornou o livro mais leve, criou ao mesmotempo um problema para o autor. Muito do texto se deve a trabalhos de outros autores queincorporei e selecionei para os meus fins. Como no cit-los, sem fazer injustias e correr orisco de ser acusado de plgio? Procurei resolver o problema atravs das refernciasbibliogrficas finais. As referncias no abrangem todas as fontes consultadas e no contmnecessariamente a bibliografia essencial. Elas abrangem apenas aqueles textos diretamenteutilizados na redao. Obviamente, por utiliz-los, considero-os importantes.

    Por ltimo, desejo agradecer a todas as pessoas que me ajudaram na elaborao do livro.Fernando Antnio Novais e Lus Felipe de Alencastro leram, respectivamente, os captulossobre a Colnia e o Imprio, fazendo vrias sugestes, incorporadas em grande medida notexto final. Pedro Paulo Poppovic leu os originais, fez observaes e colaborou bastante para olivro. Lourdes Sola, Carlos e Srgio Fausto, Amaury G. Bier, Albertina de Oliveira Costa, entreoutros, fizeram sugestes sobre partes do texto ou esclareceram dvidas sobre questes

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    especficas. Devo agradecer tambm a instituies e pessoas que, com sua gentileza econhecimento, possibilitaram o uso das imagens constantes do livro. Com o risco de incorrerem omisses, lembro Mnica Kornis, do Setor de Documentao do CPDOC da FGV (RI);Jlosnio Casalecchi, Diretor do Arquivo do Estado de So Paulo; Cludia Vada Souza Ferreira,coordenadora do acervo da Fundao Maria Luisa-Oscar Americano (SP); ngela Arajo,Diretora do Arquivo Edgard Leuenroth (UNICAMP); Miyoko Makino, historigrafa do MuseuPaulista. Wnia Tavares da Silva digitou, com muito cuidado, os originais. Como se costumadizer, o mrito da ajuda deles; as eventuais falhas do produto final so minhas.

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    AS CAUSAS DA EXPANSO MARTIMA E A CHEGADA

    DOS PORTUGUESES AO BRASIL

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    Desde cedo, aprendemos em casa ou na escola que o Brasil foi descoberto por Pedrolvares Cabral em abril de 1500. Esse fato constitui um dos episdios de expanso martimaportuguesa, iniciada em princpios do sculo XV. Para entend-la, devemos comear pelastransformaes ocorridas na Europa Ocidental, a partir de uma data situada em torno de 1150.Foi nessa poca que a Europa, nascida das runas do Imprio Romano e da presena doschamados povos brbaros, comeou pouco a pouco a se modificar, pela expanso daagricultura e do comrcio.

    Que Europa era essa?

    Uma regio esmagadoramente rural, onde as cidades haviam regredido e as trocaseconmicas diminudo muito, embora sem desaparecerem completamente. Ao mesmo tempo,o poder poltico se fragmentara e se descentralizara, no obstante o mito do Imprio aindaproporcionar certa coerncia cultural e mesmo legal a toda a rea.

    A expanso agrcola foi possvel graas abertura de novas regies cultivadas, com aderrubada de florestas, a secagem de pntanos e o incentivo da expanso comercial. Estaresultou de vrios fatores. Dentre eles, a crescente existncia de produtos agrcolas noconsumidos nos grandes domnios rurais que constituam excedentes econmicos passveis detroca. Outros fatores foram a especializao de funes, demandando a compra de bens noproduzidos em cada domnio rural, e a busca de produtos destinados ao consumo de luxo daaristocracia. As cidades comearam a crescer e a se transformar em ilhas de relativa liberdade,reunindo artesos, comerciantes e mesmo antigos servos que tentavam encontrar a umaalternativa de vida, fugindo dos campos.

    A partir do sculo XIII, foram-se definindo por uma srie de batalhas algumas fronteirasda Europa que, no caso da Frana, da Inglaterra e da Espanha, permanecem aproximadamenteas mesmas at hoje. Dentro das fronteiras foi nascendo o Estado como uma organizaopoltica centralizada, cuja figura dominante - o prncipe - e a burocracia em que se apoiavatomaram contornos prprios que no se confundiam com os grupos sociais mesmo os maisprivilegiados, como a nobreza. Esse processo durou sculos e alcanou seu ponto decisivoentre 1450 e 1550.

    Tambm ocorreu uma expanso geogrfica da Europa crist, antecessora cm outrascondies da expanso martima iniciada no sculo XV, pela reconquista de territrios ou aocupao de novos espaos. A Pennsula Ibrica foi sendo retomada dos mouros; oMediterrneo deixou de ser um "lago rabe", onde os europeus no conseguiam sequercolocar um barquinho; os cruzados ocuparam Chipre, a Palestina, a Sria, Creta e as ilhas doMar Egeu; no noroeste da Europa, houve expanso inglesa na direo do Pas de Gales, daEsccia e da Irlanda; no leste europeu, alemes e escandinavos conquistaram as terras doBltico e as habitadas pelos eslavos.

    Mas todo esse avano no foi, como se poderia pensar, um impulso irresistvel, semmarchas e contramarchas, rumo aos tempos modernos. Pelo contrrio, perdeu o mpeto euma crise profunda se instalou, a pelo incio do sculo XIV. Nessa poca, uma explorao maisintensa dos camponeses provocou vrias rebelies ao longo dos anos, em lugares todiversos como o norte da Itlia na virada do sculo XIV, a Dinamarca (1340) e a Frana (1358).A nobreza dividiu-se internamente em uma srie de guerras. Houve declnio da populao,escassez de alimentos, epidemias, das quais a mais famosa foi a Peste Negra, que grassou

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    entre 1347 e 1351. Grandes extenses de terra ocupadas por camponeses foram abandonadase aldeias inteiras desapareceram. Esse processo ocorreu, tanto em conseqncia da crisecomo do reagrupamento de terras por parte de grandes senhores que visaram suaexplorao comercial, em novos moldes. Houve tambm um retrocesso da expansoterritorial: os mouros permaneceram em Granada, os cruzados foram expulsos do OrienteMdio, os mongis invadiram a plancie russa etc.

    As discusses mais significativas sobre as causas da crise tm salientado o impacto dasepidemias e as caractersticas do meio fsico, como as variaes do clima e as condies dosolo, mas integram esses fatores em uma explicao maior. H historiadores que sustentamque, dadas as limitaes inerentes organizao social feudal, no havia suficientereinvestimento de lucros na agricultura de modo a aumentar significativamente aprodutividade; com isso, os bens disponveis se restringiram, levando s guerras entresenhores e camponeses e, em uma seqncia de fatos, estagnao. Essa explicao, naaparncia distante do nosso tema, importante porque, segundo ela, a nica sada para setirar a Europa Ocidental da crise seria expandir novamente a base geogrfica e de populao aser explorada. Mas isso no quer dizer que fatalmente, em meio crise, um pequeno pas dosudoeste da Europa deveria lanar-se no que viria a ser uma grande aventura martima.

    Por que Portugal iniciou pioneiramente a expanso, no comeo do sculo XV, quase cemanos antes que Colombo, enviado pelos espanhis, chegasse s terras da Amrica?

    A resposta no simples, pois uma srie de fatores devem ser considerados. O prpriopeso atribudo a cada um deles pelos historiadores tem variado, seja pela aquisio de novosconhecimentos dos fatos da poca, seja pela contnua mudana de concepes sobre o que mais ou menos importante para se explicar o processo histrico. Por exemplo, sem ignorar opapel do Infante Dom Henrique (1394-1460) e de sua lendria Escola de Sagres no incentivo expanso, hoje no se acredita que esses fatos tenham sido to relevantes quanto se pensavaat alguns anos atrs.

    Para comear, Portugal se afirmava no conjunto da Europa como um pas autnomo, comtendncia a voltar-se para fora. Os portugueses j tinham experincia, acumulada ao longo dossculos XIII e XIV, no comrcio de longa distncia, embora no se comparassem ainda avenezianos e genoveses, a quem iriam ultrapassar. Alis, antes de os portugueses assumirem ocontrole de seu comrcio internacional, os genoveses investiram na sua expanso,transformando Lisboa em um grande centro mercantil sob sua hegemonia. A experinciacomercial foi facilitada tambm pelo envolvimento econmico de Portugal com o mundoislmico do Mediterrneo, onde o avano das trocas pode ser medido pela crescente utilizaoda moeda como meio de pagamento. Sem dvida, a atrao para o mar foi incentivada pelaposio geogrfica do pas, prximo s ilhas do Atlntico e costa da frica. Dada a tecnologiada poca, era importante contar com correntes martimas favorveis, e elas comeavamexatamente nos portos portugueses ou nos situados no sudoeste da Espanha.

    Mas h outros fatores da histria poltica portuguesa to ou mais importantes do que osj citados. Portugal no escapou crise geral do ocidente da Europa. Entretanto, enfrentou-aem condies polticas melhores do que a de outros reinos. Durante todo o sculo XV, Portugalfoi um reino unificado e menos sujeito a convulses e disputas, contrastando com a Frana, aInglaterra, a Espanha e a Itlia, todas envolvidas em guerras e complicaes dinsticas. A

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    monarquia portuguesa consolidou-se atravs de uma histria que teve um dos seus pontosmais significativos na revoluo de 1383-1385. A partir de uma disputa cm torno da sucessoao trono portugus, a burguesia comercial de Lisboa se revoltou. Seguiu-se uma grandesublevao popular, a "revolta do povo mido", no dizer do cronista Ferno Lopes. A revoluoera semelhante a outros acontecimentos que agitaram o ocidente europeu na mesma poca,mas teve um desfecho diferente das revoltas camponesas esmagadas em outros pases pelosgrandes senhores. O problema da sucesso dinstica confundiu-se com uma guerra deindependncia, quando o rei de Castela, apoiado pela grande nobreza lusa, entrou em Portugalpara assumir a regncia do trono. No confronto, firmaram-se ao mesmo tempo aindependncia portuguesa e a ascenso ao poder da figura central da revoluo, Dom Joo,conhecido como Mestre de Avis, filho bastardo do Rei Pedro I.

    Embora alguns historiadores considerem a revoluo de 1383 uma revoluo burguesa, ofato importante est em que ela reforou e centralizou o poder monrquico, a partir dapoltica posta em prtica pelo Mestre de Avis. Em torno dele, foram se reagrupando os vriossetores sociais influentes da sociedade portuguesa: a nobreza, os comerciantes, a burocracianascente. Esse um ponto fundamental na discusso sobre as razes da expanso portuguesa.Isso porque, nas condies da poca, era o Estado, ou mais propriamente a Coroa, quem podiase transformar em um grande empreendedor, se alcanasse as condies de fora eestabilidade para tanto.

    Por ltimo, lembremos que, no incio do sculo XV, a expanso correspondia aosinteresses diversos das classes, grupos sociais e instituies que compunham a sociedadeportuguesa. Para os comerciantes era a perspectiva de um bom negcio; para o rei era aoportunidade de criar novas fontes de receita em uma poca em que os rendimentos da Coroatinham diminudo muito, alm de ser uma boa forma de ocupar os nobres e motivo deprestgio; para os nobres e os membros da Igreja, servir ao rei ou servir a Deus cristianizando"povos brbaros" resultava em recompensas e em cargos cada vez mais difceis de conseguir,nos estreitos quadros da Metrpole; para o povo, lanar-se ao mar significava sobretudoemigrar, tentar uma vida melhor, fugir de um sistema de opresses. Dessa convergncia deinteresses s ficavam de fora os empresrios agrcolas, para quem a sada de braos do pasprovocava o encarecimento da mo-de-obra. Da a expanso ter-se convertido em umaespcie de grande projeto nacional, ao qual todos, ou quase todos, aderiram e que atravessouos sculos.

    1.1. O GOSTO PELA AVENTURA

    Pela meno dos grupos interessados, podemos perceber que os impulsos para aaventura martima no eram apenas comerciais. No possvel tentar entend-la com os olhosde hoje, e vale a pena, por isso, pensar um pouco no sentido da palavra aventura. H cincosculos, estvamos muito distantes de um mundo inteiramente conhecido, fotografado porsatlites, oferecido ao desfrute por pacotes de turismo. Havia continentes mal ou inteiramentedesconhecidos, oceanos inteiros ainda no atravessados. As chamadas regies ignotasconcentravam a imaginao dos povos europeus, que a vislumbravam, conforme o caso,reinos fantsticos, habitantes monstruosos, a sede do paraso terrestre.

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    Por exemplo, Colombo pensava que, mais para o interior da terra por ele descoberta,encontraria homens de um s olho e outros com focinho de cachorro. Ele dizia ter visto trssereias pularem para fora do mar, decepcionando-se com seu rosto: no eram to belasquanto imaginara. Em uma de suas cartas, referia-se s pessoas que, na direo do poente,nasciam com rabo.

    1. Conquistas e colonizao na Amrica, Theodore de Bry, gravurista belga dosculo XVI que se dedicou principalmente a ilustrao de viagens

    Em 1487, quando deixaram Portugal encarregados de descobrir o caminho terrestre paraas ndias, Afonso de Paiva e Pero da Covilh levavam instrues de Dom Joo II para localizar oreino do Preste Joo. A lenda do Preste Joo, descendente dos Reis Magos e inimigo ferrenhodos muulmanos, fazia parte do imaginrio europeu desde pelo menos meados do sculo XII.Ela se construiu a partir de um dado real - a existncia da Etipia, no leste da frica, onde viviauma populao negra que adotara um ramo do cristianismo.

    No devemos tomar como fantasias desprezveis, encobrindo a verdade representadapelo interesse material, os sonhos associados aventura martima. Mas no h dvida de queo interesse material prevaleceu, sobretudo quando os contornos do mundo foram sendo cadavez mais conhecidos e questes prticas de colonizao entraram na ordem do dia.

    1.2. O DESENVOLVIMENTO DAS TCNICAS DE NAVEGAO. A NOVA MENTALIDADE

    Dois ltimos pontos devem ser notados ao falarmos em termos gerais da expansomartima portuguesa. De um lado, ela representou uma importante renovao das chamadas"tcnicas de marear". Quando principiaram as viagens lusitanas rumo Guin, as cartas denavegao no indicavam ainda latitudes ou longitudes, mas apenas rumos e distncias. Oaperfeioamento de instrumentos como o quadrante e o astrolbio, que permitiam conhecer alocalizao de um navio pela posio dos astros, representou uma importante inovao. Osportugueses desenvolveram tambm um tipo de arquitetura naval mais apropriada, com a

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    construo da caravela, utilizada a partir de 1441. Era uma embarcao leve e veloz para ascondies da poca, de pequeno calado, permitindo por isso aproximar-se bastante da terrafirme e evitar, at certo ponto, o perigo de encalhar. A caravela foi a menina dos olhos dosportugueses, que a empregaram bastante nos sculos XVI e XVII, nas viagens para o Brasil.

    2. Mapa da Amrica em 1596, de Theodote de Bry

    O outro ponto importante da expanso portuguesa diz respeito a uma gradual mudanade mentalidade, notvel em humanistas portugueses como Duarte Pacheco Pereira, DiogoGomes e Dom Joo de Castro. No plano coletivo, as mentalidades no mudam rapidamente, eo imaginrio fantstico continuou a existir, mas a expanso martima foi mostrando cada vezmais como antigas concepes eram equivocadas - por exemplo, a descrio do mundo naGeografia de Ptolomeu - e como era necessrio valorizar o conhecimento baseado naexperincia. Com isso, o critrio de autoridade, ou seja, a aceitao de uma afirmativa comoverdadeira s por ter sido feita por algum que se supe entender do assunto, comeou a serposto em dvida.

    1.3. A ATRAO PELO OURO E PELAS ESPECIARIAS

    Quais os bens mais buscados no curso da expanso portuguesa?

    A dupla formada pelo ouro e pelas especiarias. E fcil perceber o interesse pelo ouro. Eleera utilizado como moeda confivel e empregado pelos aristocratas asiticos na decorao detemplos e palcios e na confeco de roupas. Mas por que as especiarias? Primeiro precisoesclarecer o sentido da palavra. Ela provm do latim especia, termo usado pelos mdicos paradesignar "substncia". O termo ganhou depois o sentido de substncia muito ativa, muito cara,utilizada para vrios fins, como condimento - isto , tempero de comida -, remdio ou

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    perfumaria. Especiaria se associa tambm idia de produto raro, utilizado em pequenasquantidades. Houve produtos, como o acar, que foram especiarias mas, com a introduo deseu consumo em massa, deixaram de ser. So condimentos, entre outros, a noz-moscada, ogengibre, a canela, o cravo e, naqueles tempos, sobretudo a pimenta, a ponto de se usar aexpresso "caro como pimenta".

    Durao aproximada das viagens martimas, a partir deSalvador, nos sculos XVII e XVIII.

    O alto valor das especiarias se explica pelos limites das tcnicas de conservao existentesna poca e tambm por hbitos alimentares. A Europa Ocidental da Idade Mdia foi "umacivilizao carnvora". Grandes quantidades de gado eram abatidas no incio do vero, quandoas forragens acabavam no campo. A carne era armazenada e precariamente conservada pelosal, pela defumao ou simplesmente pelo sol. Esses processos, usados tambm paraconservar o peixe, deixavam os alimentos intragveis, e a pimenta servia para disfarar o quetinham de desagradvel. Os condimentos representavam tambm um gosto alimentar dapoca, como o caf, que bem mais tarde passou a ser consumido em grande escala em todo omundo. Havia mesmo uma espcie de hierarquia no seu consumo: na base, os de cheiro acre,como o alho e a cebola; no alto, os condimentos mais finos, com odores aromticos, suaves,lembrando o perfume das flores.

    Ouro e especiarias foram assim bens sempre muito procurados nos sculos XV e XVI, mashavia outros, como o peixe, a madeira, os corantes, as drogas medicinais e, pouco a pouco, uminstrumento dotado de voz - os escravos africanos.

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    1.4. A OCUPAO DA COSTA AFRICANA E AS FEITORIAS

    Costuma-se considerar a conquista da cidade de Ceuta, no norte da frica, em 1415,como o ponto de partida da expanso ultramarina portuguesa. Esse episdio, porm, poucotpico do que viria depois. Os historiadores portugueses tm verses diversas sobre ele. Paraalguns, a conquista tinha por objetivos principais abrir caminho na busca do ouro do Sudo econtrolar incurses piratas dos rabes nas costas de Portugal. Para outros, foi uma grandeexpedio da nobreza, promovida pelo rei, em busca de saque e aventura.

    A expanso metdica desenvolveu-se ao longo da costa ocidental africana e nas ilhas doOceano Atlntico. Fruto de um mesmo movimento, o contato com esses dois espaosgeogrficos resultou em situaes to diversas, que vale a pena separ-los em nossaexposio. O reconhecimento da costa ocidental africana no se fez da noite para o dia. Levou53 anos, da ultrapassagem do Cabo Bojador por Gil Eanes (1434) at a temida passagem doCabo da Boa Esperana por Bartolomeu Dias (1487). A partir da entrada no Oceano Indico, foipossvel a chegada de Vasco da Gama ndia, a sonhada e ilusria ndia das especiarias.Depois, os portugueses alcanaram a China e o Japo, onde sua influncia foi considervel, aponto de os historiadores japoneses chamarem de "sculo cristo" o perodo compreendidoentre 1540 e 1630.

    Sem penetrar profundamente no territrio africano, os portugueses foram estabelecendona costa uma srie de feitorias, que eram postos fortificados de comrcio; isso indica aexistncia de uma situao em que as trocas comerciais eram precrias, exigindo a garantiadas armas. A parte comercial do ncleo era dirigida por um agente chamado feitor. Cabia a elefazer compras de mercadorias dos chefes ou mercadores nativos c estoc-las, at que fossemrecolhidas pelos navios portugueses para a entrega na Europa. A opo pela feitoriapraticamente tornava desnecessria a colonizao do territrio ocupado pelas populaesafricanas, bem organizadas a partir do Cabo Verde.

    Mas se os portugueses no avanaram territorialmente, a Coroa organizou o comrcioafricano, estabelecendo o monoplio real sobre as transaes com ouro, obrigando acunhagem de moeda em uma Casa da Moeda e criando tambm, por volta de 1481, a Casa daMina ou Casa da Guin, como uma alfndega especial para o comrcio africano. Da costaocidental da frica, os portugueses levavam pequenas quantidades de ouro em p, marfim,cujo comrcio se achava at ento em mos de mercadores rabes e era feito atravs do Egito,a variedade de pimenta chamada malagueta e, a partir de 1441, sobretudo escravos. Estesforam, no comeo, encaminhados a Portugal, sendo utilizados em trabalhos domsticos eocupaes urbanas.

    1.5. A OCUPAO DAS ILHAS DO ATLNTICO

    A histria da ocupao das ilhas do Atlntico bem diferente do que ocorreu na frica.Nelas os portugueses realizaram experincias significativas de plantio em grande escala,empregando trabalho escravo. Aps disputar com os espanhis e perder para eles a posse dasIlhas Canrias, conseguiram se implantar nas outras ilhas: na Madeira, por volta de 1420, nosAores, em torno de 1427, nas Ilhas de Cabo Verde, em 1460, e na de So Tome, em 1471. Na

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    Ilha da Madeira, dois sistemas agrcolas paralelos competiram pela predominncia econmica.O cultivo tradicional do trigo atraiu um nmero considervel de modestos camponesesportugueses, que tinham a posse de suas terras. Ao mesmo tempo, surgiram as plantaes decana-de-acar, incentivadas por mercadores e agentes comerciais genoveses e judeus,baseadas no trabalho escravo. A economia aucareira acabou por triunfar, mas seu xito foibreve. O rpido declnio deveu-se tanto a fatores internos como concorrncia do acar doBrasil e de So Tom. De fato, nessa ilha, situada no Golfo da Guin, os portuguesesimplantaram um sistema de grande lavoura da cana-de-acar, com muitas semelhanas aocriado no Brasil. Prxima da costa africana, especialmente das feitorias de So Jorge da Mina eAxim, a ilha contou com um abundante suprimento de escravos. Nela existiram engenhosque, segundo uma descrio de 1554, chegavam a ter de 150 a 300 cativos. So Tome foisempre um entreposto de escravos vindos do continente para serem distribudos na Amrica ena Europa, e esta acabou sendo a atividade principal da ilha, quando no sculo XVII a indstriaaucareira atravessou tempos difceis.

    1.6. A CHEGADA AO BRASIL

    No sabemos se o nascimento do Brasil se deu por acaso, mas no h dvida de que foicercado de grande pompa. A primeira nau de regresso da viagem de Vasco da Gama chegou aPortugal, produzindo grande entusiasmo, em julho de 1499. Meses depois, a 9 de maro de1500, partia do Rio Tejo em Lisboa uma frota de treze navios, a mais aparatosa que at entotinha deixado o reino, aparentemente com destino s ndias, sob o comando de um fidalgo depouco mais de trinta anos, Pedro lvares Cabral. A frota, aps passar as Ilhas de Cabo Verde,tomou rumo oeste, afastando-se da costa africana at avistar o que seria terra brasileira a 21de abril. Nessa data, houve apenas uma breve descida terra e s no dia seguinte a frotaancoraria no litoral da Bahia, em Porto Seguro.

    Desde o sculo XIX, discute-se se a chegada dos portugueses ao Brasil foi obra do acaso,sendo produzida pelas correntes martimas, ou se j havia conhecimento anterior do NovoMundo e Cabral estava incumbido de uma espcie de misso secreta que o levasse a tomar orumo do ocidente. Tudo indica que a expedio de Cabral se destinava efetivamente s ndias.Isso no elimina a probabilidade de navegantes europeus, sobretudo portugueses, teremfreqentado a costa do Brasil antes de 1500. De qualquer forma, trata-se de uma controvrsiaque hoje interessa pouco, pertencendo mais ao campo da curiosidade histrica do que compreenso dos processos histricos.

    No comeo deste livro, falamos em nascimento e descobrimento do Brasil. Chegou a horade dizer que essas expresses se prestam a engano, pois podem dar idia de que no haviapresena humana anterior chegada dos portugueses ao Novo Mundo. Estamos nos referindoobviamente existncia da populao indgena.

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    Principais Rotas Comerciais Portuguesas dos Sculos XVI ao XVIII

    Fonte: CHLA. Vol. I, p. 451.

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    4. Cena de Canibalismo, Theodoro Bry. Exemplo imaginrio europeu sobre o canibalismo, vistocomo tpica expresso da barbrie indgena.

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    O BRASIL COLONIAL

    1500-1822

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    2.1. OS NDIOS

    Quando os europeus chegaram terra que viria a ser o Brasil, encontraram umapopulao amerndia bastante homognea em termos culturais e lingsticos, distribuda aolongo da costa e na bacia dos Rios Paran-Paraguai.

    Podemos distinguir dois grandes blocos que subdividem essa populao: os tupis-guaranisc os tapuias. Os tupis-guaranis estendiam-se por quase toda a costa brasileira, desde pelomenos o Cear at a Lagoa dos Patos, no extremo Sul. Os tupis, tambm denominadostupinambs, dominavam a faixa litornea, do Norte at Canania, no sul do atual Estado deSo Paulo; os guaranis localizavam-se na bacia Paran-Paraguai e no trecho do litoral entreCanania e o extremo sul do que viria a ser o Brasil. Apesar dessa localizao geogrficadiversa dos tupis e dos guaranis, falamos em conjunto tupi-guarani, dada a semelhana decultura e de lngua.

    Em alguns pontos do litoral, a presena tupi-guarani era interrompida por outros grupos,como os goitacases na foz do Rio Paraba, pelos aimors no sul da Bahia e no norte do EspritoSanto, pelos tremembs na faixa entre o Cear e o Maranho. Essas populaes eramchamadas tapuias, uma palavra genrica usada pelos tupis-guaranis para designar ndios quefalavam outra lngua.

    Devemos lembrar que a classificao descrita resulta de estudos recentes dosantroplogos, baseando-se, como dissemos, em afinidades culturais e lingsticas. Osportugueses identificaram de forma impressionista muitas "naes" indgenas, como oscarijs, os tupiniquins, os tamoios etc.

    difcil analisar a sociedade e os costumes indgenas, porque se lida com povos de culturamuito diferente da nossa e sobre a qual existiram e ainda existem fortes preconceitos. Isso sereflete, em maior ou menor grau, nos relatos escritos por cronistas, viajantes e padres,especialmente jesutas. Existe nesses relatos uma diferenciao entre ndios com qualidadespositivas e ndios com qualidades negativas, de acordo com o maior ou menor grau deresistncia oposto aos portugueses. Por exemplo, os aimors, que se destacaram pelaeficincia militar e pela rebeldia, foram sempre apresentados de forma desfavorvel. Deacordo com os mesmos relatos, em geral, os ndios viviam em casas, mas os aimors viviamcomo animais na floresta. Os tupinambs comiam os inimigos por vingana; os aimors,porque apreciavam carne humana. Quando a Coroa publicou a primeira lei em que se proibia aescravizao dos ndios (1570), s os aimors foram especificamente excludos da proibio.

    H tambm uma falta de dados que no decorre nem da incompreenso nem dopreconceito, mas da dificuldade de sua obteno. No se sabe, por exemplo, quantos ndiosexistiam no territrio abrangido pelo que hoje o Brasil e o Paraguai, quando os portugueseschegaram ao Novo Mundo. Os clculos oscilam entre nmeros to variados como 2 milhespara todo o territrio e cerca de 5 milhes s para a Amaznia brasileira.

    Os grupos tupis praticavam a caa, a pesca, a coleta de frutas e a agricultura, mas seriaengano pensar que estivessem intuitivamente preocupados em preservar ou restabelecer oequilbrio ecolgico das reas por eles ocupadas. Quando ocorria uma relativa exausto dealimentos nessas reas, migravam temporria ou definitivamente para outras. De qualquer

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    forma, no h dvida de que, pelo alcance limitado de suas atividades e pela tecnologiarudimentar de que dispunham, estavam longe de produzir os efeitos devastadores da poluiode rios com mercrio, ou da derrubada de florestas com motosserras, caractersticas dasatividades dos brancos nos dias de hoje.

    5. Figura de ndio, segundo o naturalista Spix

    Para praticar a agricultura, os tupis derrubavam rvores e faziam a queimada - tcnica queiria ser incorporada pelos colonizadores. Plantavam feijo, milho, abbora e principalmentemandioca, cuja farinha se tornou tambm um alimento bsico da Colnia. A economia erabasicamente de subsistncia e destinada ao consumo prprio. Cada aldeia produzia parasatisfazer a suas necessidades, havendo poucas trocas de gneros alimentcios com outrasaldeias.

    Mas existiam contatos entre elas para a troca de mulheres e de bens de luxo, como penasde tucano e pedras para se fazer botoque. Dos contatos resultavam alianas em que grupos dealdeias se posicionavam uns contra os outros. A guerra e a captura de inimigos - mortos emmeio celebrao de um ritual canibalstico - eram elementos integrantes da sociedade tupi.Dessas atividades, reservadas aos homens, dependiam a obteno de prestgio e a renovaodas mulheres.

    A chegada dos portugueses representou para os ndios uma verdadeira catstrofe. Vindosde muito longe, com enormes embarcaes, os portugueses, e em especial os padres, foram

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    associados na imaginao dos tupis aos grandes xams (pajs), que andavam pela terra, dealdeia em aldeia, curando, profetizando e falando-lhes de uma terra de abundncia. Osbrancos eram ao mesmo tempo respeitados, temidos e odiados, como homens dotados depoderes especiais.

    Por outro lado, como no existia uma nao indgena e sim grupos dispersos, muitasvezes em conflito, foi possvel aos portugueses encontrar aliados entre os prprios indgenas,na luta contra os grupos que resistiam a eles. Por exemplo, em seus primeiros anos deexistncia, sem o auxlio dos tupis de So Paulo, a Vila de So Paulo de Piratininga muitoprovavelmente teria sido conquistada pelos tamoios. Tudo isso no quer dizer que os ndiosno tenham resistido fortemente aos colonizadores, sobretudo quando se tratou de escraviz-los.

    Os ndios que se submeteram ou foram submetidos sofreram a violncia cultural, asepidemias e mortes. Do contato com o europeu resultou uma populao mestia, que mostra,at hoje, sua presena silenciosa na formao da sociedade brasileira.

    Uma forma excepcional de resistncia dos ndios consistiu no isolamento, alcanadoatravs de contnuos deslocamentos para regies cada vez mais pobres. Em limites muitoestreitos, esse recurso permitiu a preservao de uma herana biolgica, social e cultural. Mas,no conjunto, a palavra "catstrofe" mesmo a mais adequada para designar o destino dapopulao amerndia. Milhes de ndios viviam no Brasil na poca da conquista e apenas cercade 250 mil existem nos dias de hoje.

    2.2. OS PERODOS DO BRASIL COLONIAL

    Podemos dividir a histria do Brasil colonial em trs perodos muito desiguais em termoscronolgicos: o primeiro vai da chegada de Cabral instalao do governo geral, em 1549; osegundo um longo lapso de tempo entre a instalao do governo geral e as ultimas dcadasdo sculo XVIII; o terceiro vai dessa poca Independncia, em 1822. O que justifica essaperiodizao no so os fatos apontados em si mesmos, mas sim aquilo que expressam. Oprimeiro perodo se caracteriza pelo reconhecimento e posse da nova terra e um escassocomrcio. Com a criao do governo geral inicia-se a montagem da colonizao que ir seconsolidar ao longo de mais de dois sculos, com marchas e contramarchas. As ltimasdcadas do sculo XVIII so uma referncia para indicar um conjunto de transformaes naordem mundial e nas colnias, que do origem crise do sistema colonial e aos movimentospela independncia.

    2.3. TENTATIVAS INICIAIS DE EXPLORAO

    O descobrimento do Brasil no provocou, nem de longe, o entusiasmo despertado pelachegada de Vasco da Gama ndia. O Brasil aparece como uma terra cujas possibilidades deexplorao e contornos geogrficos eram desconhecidos. Por vrios anos, pensou-se que nopassava de uma grande ilha. As atraes exticas - ndios, papagaios, araras - prevaleceram, aponto de alguns informantes, particularmente italianos, darem-lhe o nome de terra dos

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    papagaios. O Rei Dom Manuel preferiu cham-la de Vera Cruz e logo de Santa Cruz. O nome"Brasil" comeou a aparecer em 1503. Ele tem sido associado principal riqueza da terra emseus primeiros tempos, o pau-brasil. Seu cerne, muito vermelho, era usado como corante, e amadeira, de grande resistncia, era utilizada na construo de mveis e de navios. E curiosolembrar que as "ilhas Brasil" ou coisa parecida so uma referncia fantasiosa na Europamedieval. Em uma carta geogrfica de 1367, aparecem trs ilhas com esse nome, espalhadasno grupo dos Aores, na latitude da Bretanha (Frana) e na costa da Irlanda.

    As primeiras tentativas de explorao do litoral brasileiro se basearam no sistema defeitorias, adotado na costa africana. O Brasil foi arrendado por trs anos a um consrcio decomerciantes de Lisboa, liderado pelo cristo-novo Ferno de Loronha ou Noronha, querecebeu o monoplio comercial, obrigando-se em troca, ao que parece, a enviar seis navios acada ano para explorar trezentas lguas (cerca de 2 mil quilmetros) da costa e a construiruma feitoria. O consrcio realizou algumas viagens mas, aparentemente, quando em 1505 oarrendamento terminou, a Coroa portuguesa tomou a explorao da nova terra em suas mos.

    Nesses anos iniciais, entre 1500 e 1535, a principal atividade econmica foi a extrao dopau-brasil, obtida principalmente mediante troca com os ndios. As rvores no cresciamjuntas, em grandes reas, mas encontravam-se dispersas. medida que a madeira foi-seesgotando no litoral, os europeus passaram a recorrer aos ndios para obt-la. O trabalhocoletivo, especialmente a derrubada de rvores, era uma tarefa comum na sociedadetupinamb. Assim, o corte do pau-brasil podia integrar-se com relativa facilidade aos padrestradicionais da vida indgena. Os ndios forneciam a madeira e, em menor escala, farinha demandioca, trocadas por peas de tecido, facas, canivetes e quinquilharias, objetos de poucovalor para os portugueses.

    O Brasil foi, inicialmente, muito associado ndia, seja como ponto de descanso na rota jconhecida para esse pas, seja como possvel passagem de um novo caminho, buscadoprincipalmente pelos espanhis. Ao descobrir a Amrica em 1492 chegando s Antilhas,Colombo pensara ter alcanado o Mar da China. A posse da nova terra foi contestada porPortugal, da resultando uma srie de negociaes que desembocaram no Tratado deTordesilhas (1494), nome de uma cidade espanhola onde se deu sua assinatura. O mundo foidividido em dois hemisfrios, separados por uma linha que imaginariamente passava a 370lguas a oeste das Ilhas de Cabo Verde. As terras descobertas a oeste da linha pertenceriam Espanha; as que se situassem a leste caberiam a Portugal.

    A diviso se prestava a controvrsias, pois nunca foi possvel estabelecer com exatidopor onde passava a linha de Tordesilhas. S em fins do sculo XVII os holandeses conseguiramdesenvolver uma tcnica precisa de medio de longitudes. Por exemplo, a foz do Amazonasno norte ou a do Rio da Prata no sul, vistas como possveis rotas no rumo das ndias pela via doOcidente, estariam em territrio portugus ou espanhol? Vrias expedies dos dois pases sesucederam ao longo da costa brasileira na direo sul at que um portugus a servio daEspanha, Ferno de Magalhes, atravessou o estreito que hoje tem seu nome e, navegandopelo Oceano Pacfico, chegou s Filipinas (1521). Esse feito espetacular de navegao foi aomesmo tempo uma decepo para os espanhis. O caminho das ndias pelo Ocidente foraencontrado, mas era demasiado longo e difcil para ser economicamente vantajoso. Os olhos

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    espanhis se fixaram nas riquezas em ouro e prata que iam sendo encontradas nas terrasamericanas sob seu domnio.

    Mas a maior ameaa posse do Brasil por Portugal no veio dos espanhis e sim dosfranceses. A Frana no reconhecia os tratados de partilha do mundo, sustentando o princpiode que era possuidor de uma rea quem efetivamente a ocupasse. Os franceses entraram nocomrcio do pau-brasil e praticaram a pirataria, ao longo de uma costa demasiado extensapara que pudesse ser guarnecida pelas patrulhas portuguesas. Em momentos diversos, iriammais tarde estabelecer-se no Rio de Janeiro (1555-1560) e no Maranho (1612-1615).

    2.4. INCIO DE COLONIZAO - AS CAPITANIAS HEREDITRIAS

    Consideraes polticas levaram a Coroa Portuguesa convico de que era necessriocolonizar a nova terra. A expedio de Martim Afonso de Sousa (1530-1533) representou ummomento de transio entre o velho e o novo perodo. Tinha por objetivo patrulhar a costa,estabelecer uma colnia atravs da concesso no-hereditria de terras aos povoadores quetrazia (So Vicente, 1532) e explorar a terra, tendo em vista a necessidade de sua efetivaocupao.

    H indcios de que Martim Afonso ainda se encontrava no Brasil quando Dom Joo IIIdecidiu-se pela criao das capitanias hereditrias. O Brasil foi dividido em quinze quinhes,por uma srie de linhas paralelas ao equador que iam do litoral ao meridiano de Tordesilhas,sendo os quinhes entregues aos chamados capites-donatrios. Eles constituam um grupodiversificado, no qual havia gente da pequena nobreza, burocratas e comerciantes, tendo emcomum suas ligaes com a Coroa.

    Estavam entre os donatrios o experiente navegador Martim Afonso; Duarte Coelho,militar de destaque no Oriente, sem grandes recursos, cuja histria no Brasil seria ressaltadapelo xito em Pernambuco; Jorge Figueiredo Correia, escrivo da Fazenda Real e grandenegociante, associado a Mem de S e a Lucas Giraldes, da famlia dos Giraldi, negociantes ebanqueiros de origem florentina; e Pero do Campo Tourinho, que vendeu suas propriedadesem Portugal e seguiu para o Brasil com seiscentos colonos. Posteriormente, Tourinho veio aser denunciado Inquisio, aps conflitos com os colonos, e embarcou de volta a Portugal.Antes de 1532, Ferno de Noronha recebeu do rei a primeira capitania do Brasil - a Ilha de SoJoo, que hoje tem seu nome.

    Nenhum representante da grande nobreza se inclua na lista dos donatrios, pois osnegcios na ndia, em Portugal e nas ilhas atlnticas eram por essa poca bem mais atrativos.

    Os donatrios receberam uma doao da Coroa, pela qual se tornavam possuidores masno proprietrios da terra. Isso significava, entre outras coisas, que no podiam vender oudividir a capitania, cabendo ao rei o direito de modific-la ou mesmo extingui-la. A posse davaaos donatrios extensos poderes tanto na esfera econmica (arrecadao de tributos) comona esfera administrativa. A instalao de engenhos de acar e de moinhos de gua e o uso dedepsitos de sal dependiam do pagamento de direitos; parte dos tributos devidos Coroa pelaexplorao de pau-brasil, de metais preciosos e de derivados da pesca cabiam tambm aoscapites-donatrios. Do ponto de vista administrativo, eles tinham o monoplio da justia,

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    autorizao para fundar vilas, doar sesmarias, alistar colonos para fins militares e formarmilcias sob seu comando.

    A atribuio de doar sesmarias importante, pois deu origem formao de vastoslatifndios. A sesmaria foi conceituada no Brasil como uma extenso de terra virgem cujapropriedade era doada a um sesmeiro, com a obrigao - raramente cumprida - de cultiv-lano prazo de cinco anos e de pagar o tributo devido Coroa. Houve em toda a Colnia imensassesmarias, de limites mal-definidos, como a de Brs Cubas, que abrangia parte dos atuaismunicpios de Santos, Cubato e So Bernardo.

    Os direitos reservados pela Coroa, ao instituir as capitanias hereditrias, no se limitarama uma espcie de vigilncia quanto manuteno de sua forma. O rei manteve o monopliodas drogas e especiarias, assim como a percepo de uma parte dos tributos. Assegurou aindao direito de aplicar a justia, quando se tratasse de morte ou retalhamento de partes do corpode pessoas de condio nobre. Nomeou, alm disso, uma srie de funcionrios para garantirque as rendas da Coroa fossem recolhidas.

    As capitanias hereditrias so uma instituio a que freqentemente se referem oshistoriadores, sobretudo portugueses, defensores da tese da natureza feudal da colonizao.Essa tese e a prpria discusso perderam hoje a importncia que j tiveram, cedendo lugar tendncia historiogrfica mais recente, que no considera indispensvel rotular com etiquetasrgidas formaes sociais complexas que no reproduzem o modelo europeu. Sem avanarneste assunto, lembremos que ao instituir as capitanias a Coroa lanou mo de algumasfrmulas cuja origem se encontra na sociedade medieval europia. E o caso, por exemplo, dodireito concedido aos donatrios de obter pagamento para licenciar a instalao de engenhosde acar; esse direito anlogo s "banalidades" pagas pelos lavradores aos senhoresfeudais. Mas, em essncia, mesmo na sua forma original, as capitanias representaram umatentativa transitria c ainda tateante de colonizao, com o objetivo de integrar a Colnia economia mercantil europia.

    Sabemos que, com exceo das Capitanias de So Vicente e Pernambuco, as outrasfracassaram em maior ou menor grau, por falta de recursos, desentendimentos internos,inexperincia, ataques de ndios. No por acaso, as mais prsperas combinaram a atividadeaucareira e um relacionamento menos agressivo com as tribos indgenas.

    As capitanias foram sendo retomadas pela Coroa, ao longo dos anos, atravs de compra esubsistiram como unidade administrativa, mas mudaram de carter, por passarem a pertencerao Estado. Entre 1752 e 1754, o Marqus de Pombal completou praticamente o processo depassagem das capitanias do domnio privado para o pblico.

    2.5. O GOVERNO GERAL

    A deciso tomada por Dom Joo III de estabelecer o governo geral do Brasil ocorreu emum momento em que alguns fatos significativos aconteciam com relao Coroa portuguesa,na esfera internacional. Surgiam os primeiros sinais de crise nos negcios da ndia, sugeridosno uso da expresso "fumos da ndia" - ou seja, fumaa da ndia, pondo em dvida a solidez docomrcio com o Oriente. Portugal sofrer vrias derrotas militares no Marrocos, mas o sonhode um imprio africano ainda no estava extinto. No mesmo ano em que Tome de Sousa foi

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    enviado ao Brasil como primeiro governador geral (1549), fechou-se o entreposto comercialportugus de Flandres, por ser deficitrio. Por ltimo, em contraste com as terras do Brasil, osespanhis tinham crescente xito na explorao de metais preciosos, em sua colniaamericana, e, em 1545, haviam descoberto a grande mina de prata de Potos.

    Se todos esses fatores podem ter pesado na deciso da Coroa, devemos lembrar que,internamente, o fracasso das capitanias tornou mais claros os problemas da precriaadministrao da Amrica lusitana. Assim, a instituio do governo geral representou, de fato,um passo importante na organizao administrativa da Colnia.

    Segundo as crnicas da poca, Tome de Sousa era um fidalgo sisudo, com experincia nafrica e na ndia. Chegou Bahia acompanhado de mais de mil pessoas, inclusive quatrocentosdegredados, trazendo consigo longas instrues por escrito conhecidas como Regimento deTome de Sousa. As instrues revelam o propsito de garantir a posse territorial da nova terra,coloniz-la e organizar as rendas da Coroa. Foram criados alguns cargos para o cumprimentodessas finalidades, sendo os mais importantes o de ouvidor, a quem cabia administrar ajustia, o de capito-mor, responsvel pela vigilncia da costa, e o de provedor-mor,encarregado do controle e crescimento da arrecadao.

    No devemos imaginar porm que, no sculo XVI, o Brasil proporcionasse riquezasconsiderveis aos cofres reais. Pelo contrrio, segundo clculos do historiador VitorinoMagalhes Godinho, em 1558 a arrecadao proveniente do Brasil representava apenas algoem torno de 2,5% das rendas da Coroa, enquanto ao comrcio com a ndia correspondiam26%.

    Vinham com o governador-geral os primeiros jesutas - Manuel da Nbrega e seus cincocompanheiros -, com o objetivo de catequizar os ndios e disciplinar o ralo clero de m famaexistente na Colnia. Posteriormente (1532) criou-se o bispado de So Salvador, sujeito aoarcebispado de Lisboa, caminhando-se assim para a organizao do Estado e da Igreja,estreitamente aproximados. O incio dos governos gerais representou tambm a fixao de umplo administrativo na organizao da Colnia. Obedecendo s instrues recebidas, Tome deSousa empreendeu o longo trabalho de construo de So Salvador, capital do Brasil at 1763.

    A instituio de um governo geral representou um esforo de centralizaoadministrativa, mas isso no significa que o governador geral detivesse todos os poderes, nemque em seus primeiros tempos pudesse exercer uma atividade muito abrangente. A ligaoentre as capitanias era bastante precria, limitando o raio de ao dos governadores. Acorrespondncia dos jesutas d claras indicaes desse isolamento. Em 1552, escrevendo daBahia aos irmos de Coimbra, o Padre Francisco Pires queixa-se de s poder tratar de assuntoslocais, porque "s vezes passa um ano e no sabemos uns dos outros, por causa dos tempos edos poucos navios que andam pela costa e s vezes se vem mais cedo navios de Portugal quedas capitanias". Um ano depois, metido no serto de So Vicente, Nbrega diz praticamente amesma coisa: "Mais fcil vir de Lisboa recado a esta capitania que da Bahia".

    2.6. A COLONIZAO SE CONSOLIDA

    Aps as trs primeiras dcadas, marcadas pelo esforo de garantir a posse da nova terra,a colonizao comeou a tomar forma. Como aconteceu em toda a Amrica Latina, o Brasil

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    viria a ser uma colnia cujo sentido bsico seria o de fornecer ao comrcio europeu gnerosalimentcios ou minrios de grande importncia. A poltica da Metrpole portuguesa consistirno incentivo empresa comercial, com base em uns poucos produtos exportveis em grandeescala e assentada na grande propriedade. Essa diretriz deveria atender aos interesses deacumulao de riqueza na Metrpole lusa, em mos dos grandes comerciantes, da Coroa eseus afilhados. Como Portugal no tinha o controle dos circuitos comerciais na Europa,controlados, ao longo dos anos, principalmente por espanhis, holandeses e ingleses, amencionada diretriz acabou por atender tambm ao conjunto da economia europia.

    A opo pela grande propriedade ligou-se ao pressuposto da convenincia da produoem larga escala. Alm disso, pequenos proprietrios autnomos tenderiam a produzir para asua subsistncia, vendendo no mercado apenas um reduzido excedente, o que contrariaria osobjetivos da Coroa e dos grandes comerciantes.

    2.7. O TRABALHO COMPULSRIO

    Ao lado da empresa comercial e do regime de grande propriedade, acrescentemos umterceiro elemento: o trabalho compulsrio. Tambm nesse aspecto, a regra ser comum atoda a Amrica Latina, ainda que com variaes. Diferentes formas de trabalho compulsriopredominaram na Amrica espanhola, enquanto uma delas - a escravido - foi dominante noBrasil.

    Por que se apelou para uma relao de trabalho odiosa a nossos olhos, que pareciasemimorta, exatamente na poca chamada pomposamente de aurora dos tempos modernos?Uma resposta sinttica consiste em dizer que nem havia grande oferta de trabalhadores emcondies de emigrar como semi-dependentes ou assalariados, nem o trabalho assalariado eraconveniente para os fins da colonizao. Dada a disponibilidade de terras, pois uma coisa era aconcesso de sesmarias, outra sua efetiva ocupao, no seria fcil manter trabalhadoresassalariados nas grandes propriedades. Eles poderiam tentar a vida de outra forma, criandoproblemas para o fluxo de mo-de-obra para a empresa mercantil.

    Dando um salto de vrios sculos no tempo, lembremos que, nas primeiras dcadas dosculo XX, a disponibilidade de terras no Estado de So Paulo representou uma alternativapara que imigrantes europeus e asiticos se transformassem de colonos em pequenosproprietrios.

    Mas se a introduo do trabalho escravo se explica resumidamente dessa forma, por quese optou preferencialmente pelo negro e no pelo ndio? Em primeiro lugar, lembremos quehouve uma passagem da escravido do ndio para a do negro, que variou no tempo e noespao. Essa passagem foi menos demorada no ncleo central e mais rentvel da empresamercantil, ou seja, na economia aucareira, em condies de absorver o preo da compra doescravo negro, bem mais elevado do que o do ndio. Custou a ser feita nas regies perifricas,como o caso de So Paulo, que s no incio do sculo XVIII, com a descoberta das minas deouro, passou a receber escravos negros em nmero regular e considervel.

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    2.8. A ESCRAVIDO - NDIOS E NEGROS

    As razes da opo pelo escravo africano foram muitas. melhor no falar em causas,mas em um conjunto de fatores. A escravizao do ndio chocou-se com uma srie deinconvenientes, tendo em vista os fins da colonizao. Os ndios tinham uma culturaincompatvel com o trabalho intensivo e regular e mais ainda compulsrio, como pretendidopelos europeus. No eram vadios ou preguiosos. Apenas faziam o necessrio para garantirsua subsistncia, o que no era difcil em uma poca de peixes abundantes, frutas e animais.Muito de sua energia e imaginao era empregada nos rituais, nas celebraes e nas guerras.As noes de trabalho contnuo ou do que hoje chamaramos de produtividade eramtotalmente estranhas a eles.

    Podemos distinguir duas tentativas bsicas de sujeio dos ndios por parte dosportugueses. Uma delas, realizada pelos colonos segundo um frio clculo econmico, consistiuna escravizao pura e simples. A outra foi tentada pelas ordens religiosas, principalmentepelos jesutas, por motivos que tinham muito a ver com suas concepes missionrias. Elaconsistiu no esforo em transformar os ndios, atravs do ensino, em "bons cristos",reunindo-os em pequenos povoados ou aldeias. Ser "bom cristo" significava tambm adquiriros hbitos de trabalho dos europeus, com o que se criaria um grupo de cultivadores indgenasflexvel s necessidades da Colnia.

    As duas polticas no se equivaliam. As ordens religiosas tiveram o mrito de tentarproteger os ndios da escravido imposta pelos colonos, nascendo da inmeros atritos entrecolonos e padres. Mas estes no tinham tambm qualquer respeito pela cultura indgena. Aocontrrio, para eles chegava a ser duvidoso que os ndios fossem pessoas. Padre Manuel daNbrega, por exemplo, dizia que "ndios so ces em se comerem e matarem, e so porcos nosvcios e na maneira de se tratarem".

    Os ndios resistiram s vrias formas de sujeio, pela guerra, pela fuga, pela recusa aotrabalho compulsrio. Em termos comparativos, as populaes indgenas tinham melhorescondies de resistir do que os escravos africanos. Enquanto estes se viam diante de umterritrio desconhecido onde eram implantados fora, os ndios se encontravam em suacasa.

    Outro fator importante que colocou em segundo plano a escravizao dos ndios foi acatstrofe demogrfica. Esse um eufemismo erudito para dizer que as epidemias produzidaspelo contato com os brancos liquidaram milhares de ndios. Eles foram vtimas de doenascomo sarampo, varola, gripe, para as quais no tinham defesa biolgica. Duas ondasepidmicas se destacaram por sua violncia entre 1562 e 1563, matando mais de 60 mil ndios,ao que parece, sem contar as vtimas do serto. A morte da populao indgena, que em partese dedicava a plantar gneros alimentcios, resultou em uma terrvel fome no Nordeste e emperda de braos.

    No por acaso, a partir da dcada de 1570 incentivou-se a importao de africanos, e aCoroa comeou a tomar medidas atravs de vrias leis, para tentar impedir o morticnio e aescravizao desenfreada dos ndios. As leis continham ressalvas e eram burladas comfacilidade. Escravizavam-se ndios em decorrncia de "guerras justas", isto , guerrasconsideradas defensivas, ou como punio pela prtica de antropofagia. Escravizava-setambm pelo resgaste, isto , a compra de indgenas prisioneiros de outras tribos, que

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    estavam para ser devorados em ritual antropofgico. S em 1758 a Coroa determinou alibertao definitiva dos indgenas. Mas, no essencial, a escravido indgena fora abandonadamuito antes pelas dificuldades apontadas e pela existncia de uma soluo alternativa.

    Como vimos, ao percorrer a costa africana no sculo XV, os portugueses haviamcomeado o trfico de africanos, facilitado pelo contato com sociedades que, em sua maioria,j conheciam o valor mercantil do escravo. Nas ltimas dcadas do sculo XVI, no s ocomrcio negreiro estava razoavelmente montado como vinha demonstrando sualucratividade.

    Os colonizadores tinham conhecimento das habilidades dos negros, sobretudo por suarentvel utilizao na atividade aucareira das ilhas do

    Atlntico. Muitos escravos provinham de culturas em que trabalhos com ferro e a criaode gado eram usuais. Sua capacidade produtiva era assim bem superior do indgena. Ohistoriador americano Stuart Schwartz calcula que, durante a primeira metade do sculo XVII,nos anos de apogeu da economia do acar, o custo de aquisio de um escravo negro eraamortizado entre treze e dezesseis meses de trabalho e, mesmo depois de uma forte alta nospreos de compra de cativos aps 1700, um escravo se pagava em trinta meses.

    Os africanos foram trazidos do chamado "continente negro" para o Brasil em um fluxo deintensidade varivel. Os clculos sobre o nmero de pessoas transportadas como escravosvariam muito. Estima-se que entre 1550 e 1855 entraram pelos portos brasileiros 4 milhes deescravos, na sua grande maioria jovens do sexo masculino.

    A regio de provenincia dependeu da organizao do trfico, das condies locais nafrica e, em menor grau, das preferncias dos senhores brasileiros. No sculo XVI, a Guin(Bissau e Cacheu) e a Costa da Mina, ou seja, quatro portos ao longo do litoral do Daom,forneceram o maior nmero de escravos. Do sculo XVII em diante, as regies mais ao sul dacosta africana - Congo e Angola - tornaram-se os centros exportadores mais importantes, apartir dos portos de Luanda, Benguela e Cabinda. Os angolanos foram trazidos em maiornmero no sculo XVIII, correspondendo, ao que parece, a 70% da massa de escravos trazidospara o Brasil naquele sculo.

    Costuma-se dividir os povos africanos em dois grandes ramos tnicos: os sudaneses,predominantes na frica ocidental, Sudo egpcio e na costa norte do Golfo da Guin, e osbantos, da frica equatorial e tropical, de parte do Golfo da Guin, do Congo, Angola eMoambique. Essa grande diviso no nos deve levar a esquecer que os negros escravizadosno Brasil provinham de muitas tribos ou reinos, com suas culturas prprias. Por exemplo: osiorubas, jejes, tapas, haus, entre os sudaneses; e os angolas, bengalas, monjolos,moambiques, entre os bantos.

    Os grandes centros importadores de escravos foram Salvador e depois o Rio de Janeiro,cada qual com sua organizao prpria e fortemente concorrentes. Os traficantes baianosutilizaram-se de uma valiosa moeda de troca no litoral africano, o fumo produzido noRecncavo. Estiveram sempre mais ligados Costa da Mina, Guin e ao Golfo de Benin, nesteltimo caso aps meados de 1770, quando o trfico da Mina declinou. O Rio de Janeirorecebeu sobretudo escravos de Angola, superando a Bahia com a descoberta das minas de

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    ouro, o avano da economia aucareira e o grande crescimento urbano da capital, a partir doincio do sculo XIX.

    Seria errneo pensar que, enquanto os ndios se opuseram escravido, os negros aaceitaram passivamente. Fugas individuais ou em massa, agresses contra senhores,resistncia cotidiana fizeram parte das relaes entre senhores e escravos, desde os primeirostempos. Os quilombos, ou seja, estabelecimentos de negros que escapavam escravido pelafuga e recompunham no Brasil formas de organizao social semelhantes s africanas,existiram s centenas no Brasil colonial. Palmares - uma rede de povoados situada em umaregio que hoje corresponde em parte ao Estado de Alagoas, com vrios milhares dehabitantes - foi um desses quilombos e certamente o mais importante. Formado no incio dosculo XVII, resistiu aos ataques de portugueses e holandeses por quase cem anos, vindo asucumbir, em 1695, s tropas sob o comando do bandeirante Domingos Jorge Velho.

    Admitidas as vrias formas de resistncia, no podemos deixar de reconhecer que, pelomenos at as ltimas dcadas do sculo XIX, os escravos africanos ou afro-brasileiros notiveram condies de desorganizar o trabalho compulsrio. Bem ou mal, viram-se obrigados ase adaptar a ele. Dentre os vrios fatores que limitaram as possibilidades de rebeldia coletiva,lembremos que, ao contrrio dos ndios, os negros eram desenraizados de seu meio,separados arbitrariamente, lanados em levas sucessivas em territrio estranho.

    Por outro lado, nem a Igreja nem a Coroa se opuseram escravizao do negro. Ordensreligiosas como a dos beneditinos estiveram mesmo entre os grandes proprietrios de cativos.Vrios argumentos foram utilizados para justificar a escravido africana. Dizia-se que setratava de uma instituio j existente na frica e assim apenas transportavam-se cativos parao mundo cristo, onde seriam civilizados e salvos pelo conhecimento da verdadeira religio.Alm disso, o negro era considerado um ser racialmente inferior. No decorrer do sculo XIX,teorias pretensamente cientficas reforaram o preconceito: o tamanho e a forma do crniodos negros, o peso de seu crebro etc. "demonstravam" que se estava diante de uma raa debaixa inteligncia e emocionalmente instvel, destinada biologicamente sujeio.

    6. Domingos Jorge Velho e Seu Lugar-tenente AntnioFernandes, de Benedito Calixto (1853-1927), que nasceu emSo Paulo e decorou muitos teatros e igrejas.

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    Lembremos tambm o tratamento dado ao negro na legislao. O contraste com osindgenas nesse aspecto evidente. Estes contavam com leis protetoras contra a escravido,embora, como vimos, fossem pouco aplicadas e contivessem muitas ressalvas. O negroescravizado no tinha direitos, mesmo porque era considerado juridicamente uma coisa e nouma pessoa.

    Vejamos alguns aspectos da questo demogrfica. Embora os nmeros apurados variem,h dados sobre a alta taxa de mortalidade dos escravos negros do Brasil, especialmente dascrianas e dos recm-chegados, quando comparada, por exemplo, da populao escrava nosEstados Unidos. Observadores de princpios do sculo XIX calculavam que a populao escravadeclinava a uma taxa entre 5 e 8% ao ano. Dados recentes revelam que a expectativa de vidade um escravo do sexo masculino, ao nascer, em 1872, era de 18,3 anos, enquanto a dapopulao como um todo era de 27,4 anos. Por sua vez, um cativo homem nascido nos EstadosUnidos em torno de 1850 tinha uma expectativa de vida de 35,5 anos.

    Apesar desses nmeros gritantes, no se pode dizer que os escravos negros tenham sidoatingidos por uma catstrofe demogrfica to grande como a que dizimou os ndios.Aparentemente, negros provenientes do Congo, do norte de Angola e do Daom - atual Benim- eram menos suscetveis ao contgio de doenas como a varola. De qualquer forma, mesmocom a destruio fsica prematura dos negros, os senhores de escravos tiveram sempre apossibilidade de renovar o suprimento pela importao. A escravido brasileira se tornoumesmo totalmente dependente dessa fonte. Com raras excees, no houve tentativas de seampliar o crescimento da populao escrava j instalada no Brasil. A fertilidade das mulheresescravas era baixa. Alm disso, criar uma criana por doze ou catorze anos era considerado uminvestimento de risco, tendo-se em conta as altas taxas de mortalidade, decorrentes dasprprias condies de existncia.

    2.9. O MERCANTILISMO

    A forma pela qual, ao longo de alguns sculos, a Coroa portuguesa tratou de assegurar osmaiores ganhos do empreendimento colonial relaciona-se com as concepes de polticaeconmica vigentes na poca, abrangidas pela expresso "mercantilismo". Falamos em"concepes" no plural porque seria equivocado imaginar que houve uma poltica econmicados Estados europeus, sempre idntica, entre os sculos XV e XVIII. Ela variou muito, de pas apas, de perodo a perodo, mas alguns traos essenciais podem ser definidos. Antes de fazerisso, lembremos que a doutrina mercantilista no era, em si mesma, uma teoria econmicabaseada em conceitos, mas um receiturio de normas de poltica econmica. Foi a partir daprtica e para justific-la que se chegou formulao de uma teoria.

    Tanto a prtica como a teoria partiam do princpio de que no h ganho para um Estadosem prejuzo de outro. Como alcanar o ganho? Atraindo para si a maior quantidade possveldo estoque mundial de metais preciosos e tratando de ret-lo. Isso deveria ser alcanado poruma poltica de proteo dos produtos do pas atravs de uma srie de medidas: reduzir pelatributao elevada, ou proibir a entrada de bens manufaturados estrangeiros e facilitar oingresso de matrias-primas; inversamente, proibir a sada de matrias-primas produzidas nopas e estimular a exportao de manufaturados quando estes concorressem vantajosamenteno mercado internacional.

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    Pelo conjunto de medidas, verifica-se que a poltica mercantilista pressupunha uma amplainterveno do Estado, seja assumindo diretamente certas atividades econmicas, seja criandocondies favorveis a determinados grupos para alcanar os objetivos visados. No se tratavade uma poltica absurda, como poderia parecer por sua obsesso pelos metais preciosos. Pelocontrrio, era coerente com as possibilidades de ao dos Estados nacionais em via de criaoe crescimento, em um perodo no qual a moeda metlica tinha uma grande importncia paraconsolidar o Estado.

    2.10. O "EXCLUSIVO" COLONIAL

    Qual o significado e o papel das colnias nesse contexto?

    Elas deveriam contribuir para a auto-suficincia da metrpole, transformando-se emreas reservadas de cada potncia colonizadora, na concorrncia internacional com as demais.Para isso, era preciso estabelecer uma srie de normas e prticas que afastassem osconcorrentes da explorao das respectivas colnias. Esse conjunto de normas e prticas,criado de acordo com as concepes mercantilistas, constitua o sistema colonial. Seu eixobsico consistia no "exclusivo" metropolitano, segundo a expressiva linguagem da poca, ouseja, na exclusividade do comrcio externo da colnia em favor da metrpole.

    Tratava-se de impedir ao mximo que navios estrangeiros transportassem mercadorias dacolnia, sobretudo para vender diretamente em outros pases da Europa. Inversamente,procurava-se tambm impedir que mercadorias, em especial as no produzidas na metrpole,chegassem colnia em navios desses pases. Em termos simplificados, buscava-se deprimir,at onde fosse possvel, os preos pagos na colnia por seus produtos, para vend-los commaior lucro na metrpole. Buscava-se tambm obter maiores lucros da venda na colnia, semconcorrncia, dos bens por ela importados. O "exclusivo" colonial teve vrias formas:arrendamento, explorao direta pelo Estado, criao de companhias privilegiadas decomrcio, beneficiando determinados grupos comerciais metropolitanos etc.

    Tomando agora o caso portugus, que nos interessa de perto, seria equivocado pensarque os preceitos mercantilistas foram aplicados sempre consistentemente. Se insistimos emlhes dar grande importncia, porque eles apontam para o sentido mais profundo dasrelaes Metrpole-Colnia, embora no contem toda a histria dessas relaes.Curiosamente, a aplicao mais conseqente da poltica mercantilista s se deu em meados dosculo XVIII, sob o comando do Marqus de Pombal, quando seus princpios j eram postos emdvida no resto da Europa Ocidental.

    A Coroa lusa abriu brechas nesses princpios, principalmente devido aos limites de suacapacidade de imp-los. No estamos falando apenas da existncia do contrabando, pois ocontrabando era uma quebra pura e simples das regras do jogo. Estamos falando sobretudo daposio de Portugal no conjunto das naes europias. Os portugueses estiveram navanguarda da expanso martima, mas no tinham os meios de monopolizar seu comrciocolonial. J durante o sculo XVI, as grandes praas comerciais no se situavam em Portugal,mas na Holanda. Os holandeses foram importantes parceiros comerciais de Portugal,transportando sal e vinho portugueses e acar brasileiro, em troca de produtosmanufaturados, queijos, cobre e tecidos. Obtiveram com isso muitas facilidades.

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    Posteriormente, ao longo do sculo XVII, a Coroa seria levada a estabelecer relaesdesiguais com uma das novas potncias emergentes: a Inglaterra. Dessas condies resultaque o "exclusivo" colonial luso oscilou de acordo com as circunstncias, ficando entre a relativaliberdade e um sistema centralizado e dirigido, combinado com concesses especiais. Essasconcesses representavam, no fundo, a participao de outros pases no usufruto daexplorao do sistema colonial portugus.

    Resumindo todo esse longo processo de oscilaes do "exclusivo" colonial, podemos dizerque houve uma fase de relativa liberdade comercial de 1530 at 1571, data em que o Rei DomSebastio decretou a exclusividade dos navios portugueses no comrcio da Colnia,coincidindo, alis, a medida com os anos iniciais da grande expanso da economia aucareira.O perodo da chamada unio das duas Coroas (1580-1640), quando o rei da Espanha ocupoutambm o trono de Portugal, caracterizou-se por crescentes restries participao deoutros pases no comrcio colonial, visando especialmente a Holanda, que estava em guerracom a Espanha. Mesmo assim, h notcias de um trfego regular e direto entre o Brasil eHamburgo na Alemanha, por volta de 1590.

    Aps o fim do domnio espanhol, com a aclamao de Dom Joo IV como rei de Portugal,seguiu-se uma breve fase de "livre comrcio", com pouca regulamentao e ausncia decontrole sobre o mercado colonial de importao. Mas, em 1649, passou-se a um novo sistemade comrcio centralizado e dirigido, por meio de frotas. Com capital obtido principalmente decristos-novos, foi criada a Companhia Geral do Comrcio do Brasil. A companhia deveriamanter uma frota de 36 navios armados para comboiar navios mercantes que saam do Brasil eaqui chegavam, duas vezes por ano; em troca, usufruiria do monoplio das importaes devinho, farinha, azeite de oliva e bacalhau e do direito de estabelecer os preos para essesartigos. A partir de 1694, a companhia foi transformada em rgo governamental.

    Entretanto, a criao da empresa no impediu concesses feitas por Portugal Holanda eespecialmente Inglaterra. Em poucas palavras, a Coroa buscava a proteo poltica inglesa,dando em troca vantagens comerciais. Um bom exemplo disso o tratado imposto porCromwell em 1654, em que se garantia aos ingleses o direito de negociar com a colniabrasileira, exceto no tocante aos produtos monopolizados pela Companhia Geral do Comrcio.O sistema de frotas s foi abandonado em 1765, quando o Marqus de Pombal resolveuestimular o comrcio e restringir o crescente papel dos ingleses. Isso se fez atravs da criaode novas companhias (Companhia do Gro-Par e Maranho; Companhia de Pernambuco eParaba), que representaram as ltimas expresses ntidas da poltica mercantilista no Brasil.

    2.11. A GRANDE PROPRIEDADE E A MONOCULTURA DE EXPORTAO

    Dissemos que o sentido mais profundo da colonizao, pelo menos at a descoberta dosmetais preciosos, foi dado pela grande propriedade, onde se cultivava predominantementeum gnero destinado exportao, com base no trabalho escravo. A expresso da lnguainglesa plantation, de uso cada vez mais corrente, sintetiza essa descrio.

    A afirmativa de que a plantation foi a forma bsica da colonizao portuguesa no Brasil setornou clssica a partir dos trabalhos de Caio Prado Jnior. Em anos mais recentes, ela vem

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    sendo criticada por historiadores como Francisco Carlos Teixeira da Silva e Ciro FlamarionCardoso. Teixeira considera que o projeto "plantacionista" era assumido pela classe dominantecolonial, mas a Coroa sempre se preocupou em diversificar a produo e garantir o plantio degneros alimentcios para consumo na prpria Colnia. Cardoso assinala que a obsesso com oconceito de plantation fez com que se deixassem de lado alguns fatos importantes dacomplexa realidade econmico-social brasileira. Assim, no se deu o necessrio relevo s reasgeogrficas perifricas e houve uma excessiva reduo da estrutura social a senhores, em umplo, e escravos, em outro, esquecendo-se a importncia dos brancos e ignorando-se aexistncia de um campesinato, ou seja, de pequenos proprietrios, na sociedade rural.

    A crtica significativa, especialmente porque rediscute concepes assentes, com novoselementos e outro ngulo de viso. Ela chama a ateno para o fato de que o Brasil colonialno foi s acar, ouro, grande propriedade e escravos, mas parece-nos excessivo dizer que oprojeto de colonizao de tipo plantation fosse um empreendimento sobretudo da classedominante colonial - senhores de engenho, lavradores de cana e de fumo, comerciantesexportadores - e no da Coroa portuguesa.

    Por certo, havia diferenas entre essas duas esferas, mas elas no nasciam de umdesinteresse da Coroa pela plantation. Derivavam, sim, do fato de que de um lado apareciamdiretamente interesses privados; de outro, a principal instituio responsvel pela organizaogeral da vida na Colnia. Da, por exemplo, o contnuo interesse do governo portugus naproduo de alimentos e as resistncias opostas pelos proprietrios rurais a utilizar terras comesse objetivo menos rentvel.

    A concepo definidora da colonizao pela grande empresa monocultura escravista,adaptada aos interesses da Metrpole, um modelo cujo valor consiste em dar as linhasbsicas de entendimento de um sistema que caracterizou o Brasil na Colnia e deixou suasmarcas aps a Independncia.

    Que marcas so essas?

    A grande propriedade, a vinculao com o exterior atravs de uns poucos produtosprimrios de exportao, a escravido e suas conseqncias.

    O contraste com a histria dos Estados Unidos revelador. Destaquemos aqui o fato deque as condies do clima e outras no permitiram a instalao no nordeste dos EstadosUnidos - a Nova Inglaterra - de uma colonizao do tipo plantation. Estabeleceram-se alipequenos proprietrios que produziam, a princpio, para a sua subsistncia e depois, pouco apouco, para as plantaes escravistas do sul do pas e para a rea das Antilhas. A produo nofoi a tpica da plantation, mas bastante diversificada - madeiras, cereais, manufaturados -, e,o que mais importante, os lucros tenderam a se concentrar na colnia. Foi a partir dessencleo, no sem enormes abalos, que os Estados Unidos se diferenciaram em termossocioeconmicos, polticos e culturais do que viria a ser o Terceiro Mundo latino-americano.

    2.12. ESTADO E IGREJA

    As duas instituies bsicas que, por sua natureza, estavam destinadas a organizar acolonizao do Brasil foram o Estado e a Igreja Catlica. Embora se trate de instituies

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    distintas, naqueles tempos uma estava ligada outra. No existia na poca, como existe hoje,o conceito de cidadania, de pessoa com direitos e deveres com relao ao Estado,independentemente da religio. A religio do Estado era a catlica e os sditos, isto , osmembros da sociedade, deviam ser catlicos.

    Em princpio, houve uma diviso de trabalho entre as duas instituies. Ao Estado coube opapel fundamental de garantir a soberania portuguesa sobre a Colnia, dot-la de umaadministrao, desenvolver uma poltica de povoamento, resolver problemas bsicos, como oda mo-de-obra, estabelecer o tipo de relacionamento que deveria existir entre Metrpole eColnia. Essa tarefa pressupunha o reconhecimento da autoridade do Estado por parte doscolonizadores que se instalariam no Brasil, seja pela fora, seja pela aceitao dessaautoridade, ou por ambas as coisas.

    Nesse sentido, o papel da Igreja se tornava relevante. Como tinha em suas mos aeducao das pessoas, o "controle das almas" na vida diria, era um instrumento muito eficazpara veicular a idia geral de obedincia e, em especial, a de obedincia ao poder do Estado.Mas o papel da Igreja no se limitava a isso. Ela estava presente na vida e na morte daspessoas, nos episdios decisivos do nascimento, casamento e morte. O ingresso nacomunidade, o enquadramento nos padres de uma vida decente, a partida sem pecadodeste "vale de lgrimas" dependiam de atos monopolizados pela Igreja: o batismo, a crisma, ocasamento religioso, a confisso e a extremauno na hora da morte, o enterro em umcemitrio designado pela significativa expresso "campo-santo".

    Na histria do mundo ocidental, as relaes entre Estado e Igreja variaram muito de pas apas e no foram uniformes no mbito de cada pas, ao longo do tempo. No caso portugus,ocorreu uma subordinao da Igreja ao Estado atravs de um mecanismo conhecido comopadroado real. O padroado consistiu em uma ampla concesso da Igreja de Roma ao Estadoportugus, em troca da garantia de que a Coroa promoveria e asseguraria os direitos e aorganizao da Igreja em todas as terras descobertas. O rei de Portugal ficava com o direito derecolher o tributo devido pelos sditos da Igreja conhecido como dzimo, correspondente a umdcimo dos ganhos obtidos em qualquer atividade. Cabia tambm Coroa criar dioceses enomear os bispos.

    Muitos dos encargos da Coroa resultavam, pelo menos em tese, em maior subordinaoda Igreja, como o caso da incumbncia de remunerar o clero e construir e zelar pelaconservao dos edifcios destinados ao culto. Para supervisionar todas essas tarefas, ogoverno portugus criou uma espcie de departamento religioso do Estado: a Mesa daConscincia e Ordens.

    O controle da Coroa sobre a Igreja foi em parte limitado pelo fato de que a Companhia deJesus at a poca do Marqus de Pombal (1750-1777) teve forte influncia na Corte. NaColnia, o controle sofreu outras restries. De um lado, era muito difcil enquadrar asatividades do clero secular - aquele que existe fora das ordens religiosas -, disperso peloterritrio; de outro, as ordens religiosas conseguiram alcanar maior grau de autonomia. Amaior autonomia das ordens dos franciscanos, mercedrios, beneditinos, carmelitas eprincipalmente jesutas resultou de vrias circunstncias. Elas obedeciam a regras prprias decada instituio e tinham uma poltica definida com relao a questes vitais da colonizao,como a indgena. Alm disso, na medida em que se tornaram proprietrias de grandes

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    extenses de terra e empreendimentos agrcolas, as ordens religiosas no dependiam daCoroa para sua sobrevivncia.

    Padres seculares buscaram fugir ao peso do Estado e da prpria Igreja, quando haviaoportunidade, por um caminho individual. Exemplo clebre o de alguns padres participantesda Inconfidncia Mineira, que se dedicavam a grandes lavouras, a trabalhos de minerao, aotrfico de escravos e diamantes. A presena de padres pode ser constatada praticamente emtodos os movimentos de rebelio, a partir de 1789, prolongando-se aps a independncia doBrasil at meados do sculo XIX.

    As razes dessa presena esto pouco estudadas. O historiador Jos Murilo de Carvalho,analisando a poca imperial, contrastou o procedimento conservador dos magistrados com ocomportamento rebelde dos padres. Sugeriu que a rebeldia destes tinha origem em suaextrao social, nas dificuldades de ascenso na carreira, na atuao mais prxima populao. De qualquer forma, seria engano estender a todo o clero essa caracterstica derebeldia, visvel mas excepcional. Na atividade do dia-a-dia, silenciosamente e s vezes compompa, a Igreja tratou de cumprir sua misso de converter ndios e negros, e de inculcar napopulao a obedincia aos seus preceitos, assim como aos preceitos do Estado.

    2.13. O ESTADO ABSOLUTISTA E O "BEM COMUM"

    O Estado portugus na poca da colonizao um Estado absolutista. Em teoria, todos ospoderes se concentram por direito divino na pessoa do rei. O reino - ou seja, o territrio, ossditos e seus bens - pertence ao rei, constitui seu patrimnio. Da o uso da expresso "Estadopatrimonialista" para definir o Estado absolutista, utilizada por muitos autores, a partir daconceituao do socilogo alemo Max Weber.

    No Estado absolutista no h - sempre em teoria - distino entre a esfera pblica, comocampo de atividade do Estado, e a esfera privada, como campo de ao dos indivduos comdireitos maiores ou menores. Nele, tudo pblico, pois no h limites preestabelecidos aopoder real. Por exemplo, quando em 1446, na poca do Rei Afonso V, foi efetuada uma revisoe organizao das leis do reino, seu autor dizia que "o rei tem seu poder das mos de Deus ecomo seu vigrio tenente (isto , como delegado de Deus) livre de toda lei humana".

    Tudo isso no quer dizer que o rei no devesse levar em conta os interesses dosdiferentes estratos sociais - nobres, comerciantes, clero, gente do povo - nem que governassesozinho. A preferncia pela expresso "Coroa" em vez de "Rei" para designar o poder damonarquia portuguesa significativa nesse sentido. Se a palavra decisiva cabia ao rei, tinhamuito peso na deciso uma burocracia por ele escolhida, formando um corpo de governo.Mesmo a indefinio das fronteiras entre o pblico e o privado no foi completa; pelo menosno reinado de Dom Joo IV (1640-1656), uma srie de medidas foram tomadas, principalmenteno mbito fiscal, com o objetivo de estabelecer limites ao do rei. O "bem comum" surgiacomo uma idia nova que justificava a restrio aos poderes reais de impor emprstimos ou seapossar de bens privados para seu uso.

    A montagem da administrao colonial desdobrou e enfraqueceu o poder da Coroa. Porcerto, era na Metrpole que se tomavam as decises centrais, mas os administradores doBrasil tinham de improvisar medidas, diante de situaes novas, e ficavam muitas vezes se

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    equilibrando entre as presses imediatas dos colonizadores e as instrues emanadas dadistante Lisboa.

    2.14. AS INSTITUIES DA ADMINISTRAO COLONIAL

    Vejamos em sntese quais foram as principais instituies e rgos da administraoportuguesa no Brasil, a partir do governo geral. Antes, lembremos que no haviaespecializao clara dos diferentes rgos como hoje ocorre. Atividades executivas ejudicirias, por exemplo, no estavam delimitadas. Existiam autoridades que tanto realizavamtarefas de administrar como de julgar questes surgidas entre as pessoas.

    Entre as figuras de cpula, destacavam-se os governadores de capitania, especialmente osdas mais importantes. Acima deles, ficava o governador-geral. A partir de 1763, quando a sededo governo foi transferida da Bahia para o Rio de Janeiro, tornou-se comum a outorga aogovernador-geral, pelo rei, do ttulo de Vice-Rei e Capito-General do Mar e Terra do Estadodo Brasil. Os vice-reis tinham extensas atribuies, dispondo do conjunto das foras armadas.Representavam e encarnavam, distncia, a pessoa do monarca portugus, o que no erapouco, em uma poca de contatos e comunicaes difceis.

    Os demais rgos administrativos podem ser agrupados em trs setores: o Militar, o daJustia e o da Fazenda. As foras armadas de uma capitania compunham-se da tropa de linha,das milcias e dos corpos de ordenana. A primeira constitua um contingente regular eprofissional permanentemente em armas. Era quase sempre composta de regimentosportugueses. Para completar os efetivos, as autoridades coloniais deveriam engajar gentebranca da Colnia. Mas como poucas pessoas queriam voluntariamente ingressar na tropa emseus nveis mais baixos, as autoridades lanavam mo do recrutamento, que se tornou oespantalho da populao. Na Bahia, por exemplo, em fins do sculo XVIII, logo que comeava aao violenta dos agentes recrutadores, constatava-se a carestia dos gneros alimentciosporque os lavradores abandonavam as roas.

    As milcias eram tropas auxiliares, recrutadas, entre os habitantes da Colnia, para servioobrigatrio e no-remunerado. Quase no se apresentavam voluntrios, e o mtodo dorecrutamento forado, principalmente dos pobres, a imperava.

    Por ltimo, existiam as ordenanas, formadas por todo o resto da populao masculinaentre dezoito e sessenta anos, exceto os padres. Ao contrrio das milcias, as ordenanasconstituam uma fora local e para elas no havia recrutamento. Sua atividade militar limitava-se a exerccios peridicos e a agir quando surgissem na localidade tumultos ou outrosacontecimentos extraordinrios.

    Os rgos de Justia, s vezes com funes administrativas, eram representados pelosvrios juzes, entre os quais se destacava o ouvidor da comarca, nomeado pelo soberano portrs anos. Para julgar recursos das decises, existiam os Tribunais da Relao, presididos pelogovernador ou pelo vice-rei, a princpio s na Bahia e depois na Bahia e no Rio de Janeiro. Porsua vez, o principal rgo encarregado de arrecadar tributos e determinar a realizao dedespesas era a Junta da Fazenda, presidida tambm pelo governador de cada capitania.

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    Devemos por ltimo fazer referncia especial a um rgo de poder constitudo demembros da sociedade: as Cmaras Municipais, com sede nas vilas e nas cidades. Elas eramcompostas de membros natos, ou seja, no-eleitos, e de representantes eleitos. Votavam naseleies, que eram geralmente indiretas, os "homens bons", ou seja, proprietrios residentesna cidade, excludos os artesos e os considerados impuros pela cor e pela religio, isto ,negros, mulatos e cristos-novos. O campo de atividade das Cmaras Municipais variou muito.Nos primeiros tempos da Colnia, Cmaras como as de So Lus, Rio de Janeiro e So Paulotornaram-se de fato a principal autoridade das respectivas capitanias, sobrepondo-se aosgovernadores e chegando mesmo, em certos casos, a destitu-los. Posteriormente, seu poderdiminuiu, refletindo a concentrao da autoridade nas mos dos representantes da Coroa.

    As Cmaras possuam finanas e patrimnio prprios. Arrecadavam tributos, nomeavamjuzes, decidiam certas questes, julgavam crimes como pequenos furtos e injrias verbais,cuidavam das vias pblicas, das pontes e chafarizes includos no seu patrimnio. Elas foramcontroladas, sobretudo at meados do sculo XVII, pela classe dominante dos proprietriosrurais e expressavam seus interesses. As Cmaras dc Belm e So Paulo, por exemplo,procuraram garantir o direito de organizar expedies para escravizar os ndios, e as do Rio deJaneiro e Bahia muitas vezes estabeleceram moratria para as dvidas dos senhores deengenho e combateram os monoplios comerciais. Graas ao seu enraizamento na sociedade,as Cmaras Municipais foram o nico rgo que sobreviveu por inteiro e at se reforou, apsa Independncia.

    2.15. AS DIVISES SOCIAIS

    Passemos a uma anlise de sociedade, lidando principalmente com suas divises.

    2.15.1. A PUREZA DE SANGUE

    Um princpio bsico de excluso distinguia determinadas categorias sociais, pelo menosat uma carta-lei de 1773. Era o princpio de pureza dc sangue. Impuros eram os cristos-novos, os negros, mesmo quando livres, os ndios em certa medida e as vrias espcies demestios. Eles no podiam ocupar cargos de governo, receber ttulos de nobreza, participar deirmandades de prestgio etc. A carta-lei de 1773 acabou com a distino entre cristos antigose novos, o que no quer dizer que da para a frente o preconceito tenha se extinguido.

    2.15.2. LIVRES E ESCRAVOS

    O critrio discriminatrio se referia essencialmente a pessoas. Mais profundo do que eleera o corte que separava pessoas e no-pessoas, ou seja, gente livre e escravos, consideradosjuridicamente coisa. A condio de livre ou de escravo estava muito ligada etnia e cor, poisescravos eram, em primeiro lugar, negros, depois, ndios e mestios. Toda uma nomenclaturase aplicava aos mestios, distinguindo-se os mulatos, os mamelucos, curibocas ou caboclos,nascidos da unio entre branco e ndio; os cafuzos, resultantes da unio entre negro e ndio.

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    7. Uma Cafusa da Provncia de So Paulo, na concepo do naturalista Spix

    8. Uma Mameluca da Provncia de So Paulo, na concepo do naturalista Spix

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    Convm distinguir porm entre escravido indgena e negra. Do incio da colonizao ata extino formal da escravido indgena, houve ndios cativos e os chamados forros ouadministrados. Estes eram ndios que, aps a captura, tinham sido colocados sob a tutela doscolonizadores. Sua situao no era muito diversa dos cativos. Entretanto, se em geral asituao do ndio era muito penosa, no equivalia do negro. A proteo das ordens religiosasnos aldeamentos indgenas imps limites explorao pura e simples. A prpria Coroaprocurou estabelecer uma poltica menos discriminatria. Um alvar de 1755, por exemplo,chegou mesmo a estimular os casamentos mistos de ndios e brancos, considerando taisunies sem "infmia alguma". O mesmo alvar previa uma preferncia em "empregos ehonras" para os descendentes dessas unies e proibia que eles fossem chamados de"caboclos" ou outros nomes semelhantes que pudessem ser "injuriosos". Tratamento muitodiferente recebiam as unies de ndio com negro. Por exemplo, o vice-rei do Brasil mandou darbaixa do posto de capito-mor a um ndio, porque "se mostrara de to baixos sentimentos quecasou com uma preta, manchando seu sangue com esta aliana e tornando-se assim indignode exercer o referido posto".

    A significativa presena de africanos e afro-brasileiros na sociedade brasileira pode serconstatada pelos indicadores de populao no fim do perodo colonial. Negros e mulatosrepresentavam cerca de 75% da populao de Minas Gerais, 68% de Pernambuco, 79% daBahia e 64% do Rio de Janeiro. Apenas So Paulo tinha uma populao majoritariamentebranca (56%). Cativos trabalhavam nos campos, nos engenhos, nas minas, na casa-grande.Realizavam nas cidades tarefas penosas, no transporte de cargas, de pessoas, de dejetosmalcheirosos ou na indstria da construo. Foram tambm artesos, quitandeiros,vendedores de rua, meninos de recado etc.

    As relaes escravistas no se resumiram a um vnculo direto entre senhor e escravo, semenvolver outras pessoas. Houve cativos alugados para a prestao de servios a terceiros e,nos centros urbanos, existiram os "escravos de ganho" - uma figura comum no Rio de Janeirodos primeiros decnios do sculo XIX. Os senhores permitiam que os escravos fizessem seu"ganho", prestando servios ou vendendo mercadorias e cobravam deles, em troca, umaquantia fixa paga por dia ou por semana. Escravos de ganho foram utilizados em pequena eem larga escala, de um nico cativo at trinta ou quarenta. Se a maioria deles exercia suaatividade nas ruas, caindo inclusive na prostituio e na mendicncia, com o assentimento deseus senhores, existiram tambm escravos de ganho que eram barbeiros instalados em lojas,ou operrios.

    2.15.3. ESCRAVOS E ESCRAVOS

    Mas entre os escravos existiram distines. Algumas se referiam ao trabalho exercido,pois havia diferenas entre servir na casa-grande ou trabalhar no campo, ser escravo nagrande propriedade ou "escravo de ganho" nas cidades. Outras distines referiam-se nacionalidade, ao tempo de permanncia no pas ou cor da pele. "Boal" era o cativo recm-chegado da frica, ignorante da lngua e dos costumes; "ladino", o que j estava relativamente"adaptado", falando e entendendo portugus; "crioulo" era o nascido no Brasil. Uma coisa erao preto retinto, em um extremo, e o mulato claro, em outro. Em geral, mulatos e crioulos eram

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    preferidos para as tarefas domsticas, artesanais e de superviso, cabendo aos escuros,sobretudo aos africanos, os trabalhos mais pesados.

    2.15.4. LIVRES E LIBERTOS

    Alm das distines no mbito da massa escrava, devemos considerar que houve no Brasilcolonial um grande nmero de africanos ou afro-brasileiros livres ou libertos. Dados referentesao fim do perodo indicam que cerca de 42% da populao negra ou mulata eram constitudaspor essa categoria. Sua condio era ambgua. Considerados formalmente livres, voltavam naprtica a ser escravizados de forma arbitrria. No podiam pertencer ao Senado da Cmara oua prestigiosas irmandades leigas, como a Ordem Terceira de So Francisco. Mesmo a liberdadede um ex-escravo podia ser revogada, por atitudes de desrespeito para com seu antigo senhor.

    A escravido foi uma instituio nacional. Penetrou toda a sociedade, condicionando seumodo de agir e de pensar. O desejo de ser dono de escravos, o esforo por obt-los ia daclasse dominante ao modesto arteso branco das cidades. Houve senhores de engenho eproprietrios de minas com centenas de escravos, pequenos lavradores com dois ou trs, laresdomsticos, nas cidades, com apenas um escravo. O preconceito contra o negro ultrapassou ofim da escravido e chegou modificado a nossos dias. At pelo menos a introduo em massade trabalhadores europeus no centro-sul do Brasil, o trabalho manual foi socialmentedesprezado como "coisa de negro".

    2.15.5. NOBREZA, CLERO E POVO

    Em teoria, as pessoas livres da Colnia foram enquadradas em uma hierarquia de ordens(nobreza, clero e povo), uma caracterstica do Antigo Regime. A transplantao desse modelo,vigente em Portugal, teve pouco efeito prtico no Brasil. Os ttulos de nobreza foramambicionados pela elite branca, mas no existiu uma aristocracia hereditria. Os fidalgos eramraros, e muita gente comum tinha pretenses a nobreza.

    A populao livre e pobre abrangia pessoas de condio diversa. Roceiros, pequenoslavradores, trabalhadores povoaram os campos; as poucas cidades reuniram vendedores derua, pequenos comerciantes, artesos. Lembremos, de passagem, que esse quadro no foiesttico. A descoberta do ouro e dos diamantes em Minas Gerais, Gois e Mato Grosso, apartir de princpios do sculo XVIII, e a vinda da famlia real para o Rio de Janeiro, no incio dosculo XIX, foram, cada um sua maneira, fatores de diversificao social e de alterao dasrelaes entre campo e cidade. Na regio mineira e nos centros urbanos, como Salvador e oRio de Janeiro, existiam burocratas e administradores, letrados e gente dedicada s chamadasprofisses liberais, especialmente a advocacia.

    2.15.6. HIERARQUIA DAS PROFISSES

    As diferentes atividades eram desigualmente valorizadas. A de maior prestgio, sobretudonos primeiros tempos, era no propriamente uma atividade, mas "o ser senhor de engenho".Na famosa expresso do Padre Antonil, em sua obra Cultura e Opulncia do Brasil por SuasDrogas e Minas, escrita no incio do sculo XVIII, "o ser senhor de engenho ttulo a que

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    muitos aspiram porque traz consigo o ser servido e respeitado de muitos. E [...] bem se podeestimar no Brasil o ser senhor de engenho, quanto proporcionadamente se estimam os ttulosentre os fidalgos do reino".

    O comrcio era considerado uma profisso menos digna e, em teoria, os homens denegcios estavam excludos das Cmaras e das honrarias. O fato de que muitos deles fossemcristos-novos, ou seja, de ascendncia judaica, acrescentava outro elemento dediscriminao. Os artesos tambm eram depreciados, pois considerava-se o trabalho manualuma atividade inferior. Quase sempre sem representao nas Cmaras, conseguiam s vezesse fazer ouvir pela voz do "juiz de fora", magistrado profissional indicado pela Coroa quepresidia a Cmara nas cidades maiores. A partir de um reduzido nmero, o grupo cresceutanto quantitativamente como em sua expresso social, a ponto de alguns alfaiates secolocarem frente de uma rebelio contra a Coroa, na Bahia, em fins do sculo XVIII.

    2.15.7. Os QUE MANDAM

    No alto da pirmide social da populao livre ficavam os grandes proprietrios rurais e oscomerciantes voltados para o comrcio externo. Esse era um quadro tpico do litoral doNordeste e, mais tarde, do Rio de Janeiro. Desempenhando um papel estratgico na vida daColnia, os grandes comerciantes no foram includos na discriminao imposta, em teoria, sua atividade. Ao contrrio, descreveram uma curva de ascenso social e poltica, a partir demeados do sculo XVII. Participaram cada vez mais das Cmaras e irmandades de prestgio eocuparam postos elevados nas milcias.

    Entre os dois setores de cpula, houve pontos de aproximao e de rivalidade. De umlado, eles constituam, em conjunto, as foras socialmente dominantes da Colnia, diante damassa de escravos e homens livres de condio inferior. A ascenso econmica doscomerciantes facilitou seu ingresso na elite colonial. Atravs do casamento e da compra deterras, muitos comerciantes se tornaram tambm senhores de engenho no Nordeste, com issodesfazendo em parte a distino entre os dois setores.

    De outro lado, existiam razes potenciais de conflito. Os grandes comerciantes influamnos preos dos produtos de exportao e importao, sobretudo quando conseguiam ocuparpostos nas companhias privilegiadas de comrcio, organizadas pela Coroa. Alm disso,adiantavam recursos aos grandes proprietrios rurais para financiar o plantio e a compra deescravos e equipamentos, com garantia de hipoteca sobre as terras. As questes de dvidas eas controvrsias sobre pedidos de moratria foram freqentes na rea dos engenhos deacar do Nordeste. As disputas se acirravam quando vinham acompanhadas de uma divisode origem entre senhores rurais nativos e comerciantes portugueses.

    Um exemplo extremo das divergncias foi a chamada Guerra dos Mascates, ocorrida emPernambuco em 1710-1711, que ops os senhores de engenho, de Olinda e os "mascates"(que, na verdade, pouco tinham de mascates) do Recife. Tratava-se, na realidade, de grandescomerciantes, alguns dos quais aumentaram seu poder ao arrematar, em leiles realizadospela Coroa, o direito de cobrar impostos.

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    2.15.8. DISCRIMINAO RELIGIOSA

    Uma diviso da sociedade diretamente relacionada com o princpio de pureza de sanguedizia respeito religio. Os sditos da Coroa residentes no Brasil eram, por definio, catlicos.Mas havia os mais e os menos catlicos. Estes eram os cristos-novos, judeus ou seusdescendentes, obrigados a converter-se ao cristianismo por deciso da monarquia lusa (1497).Sobre eles pesava a suspeita adicional de praticar em segredo a religio judaica. Os cristos-novos tiveram um papel relevante, desde os primeiros tempos da Colnia, como mercadores,artesos, senhores de engenho, ocupando tambm cargos civis e eclesisticos. Em 1603, aMesa da Conscincia, em Lisboa, determinou que o bispado do Brasil, com sede em Salvador,s apontasse "cristos de velha cepa" para os ofcios religiosos em Pernambuco, porque amaioria deles eslava nas mos de cristos-novos.

    Apesar desse papel relevante, e talvez por isso mesmo, os cristos-novos foramdiscriminados, alguns deles presos e mortos nas mos de inquisidores. Comparativamente,entretanto, as perseguies no tiveram a eficincia das desencadeadas na Amricaespanhola. A Inquisio no se instalou em carter permanente no Brasil, e suas aterrorizantesvisitas, com exceo da realizada ao Estado do Gro-Par em 1763-1769, ocorreram na pocaem que a Coroa portuguesa esteve nas mos dos reis da Espanha. O Santo Ofcio inquisitrioesteve na Bahia e em Pernambuco entre 1591 e 1595, voltando Bahia em 1618.

    2.15.9. DISCRIMINAO SEXUAL

    Por ltimo, lembremos a diviso entre homens e mulheres, o que nos leva anlise dafamlia. Tradicionalmente, sobretudo por influncia dos estudos de Gilberto Freyre, quandofalvamos em famlia na Colnia logo vinha mente o modelo patriarcal: o de uma famliaextensiva, constituda por parentes de sangue e afins, agregados e protegidos, sob a chefiaindiscutvel de uma figura masculina. A famlia patriarcal teve grande importncia, marcandoinclusive, como logo veremos, as relaes entre sociedade e Estado. Mas ela foi caractersticada classe dominante, mais exatamente da classe dominante do Nordeste. Entre a gente decondio social inferior a famlia extensiva no existiu, e as mulheres tenderam a ter maiorindependncia, quando no tinham marido ou companheiro. Em Ouro Preto de 1804, porexemplo, considerando-se 203 unidades domsticas, apenas 93 eram encabeadas porhomens.

    Mesmo em relao s famlias de elite, o quadro de submisso das mulheres tinhaexcees. Em determinadas circunstncias, elas desempenharam um relevante papel nasatividades econmicas. Isso ocorreu na regio de So Paulo, onde as mulheres, descritas porum governador da capitania por volta de 1692 como "formosas e varonis", assumiam aadministrao da casa e dos bens, quando os homens se lanavam por vrios anos sexpedies no serto.

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    2.15.10. CIDADE E CAMPO

    A populao da Colnia viveu em sua grande maioria no campo. As cidades cresceram aospoucos e eram dependentes do meio rural. A prpria capital da Colnia foi descrita por FreiVicente do Salvador, no sculo XVI, como "cidade esquisita, de casas sem moradores, pois osproprietrios passavam mais tempo em suas roas rurais, s acudindo no tempo das festas. Apopulao urbana constava de mecnicos que exerciam seus ofcios, de mercadores, deoficiais de Justia, de Fazenda, de Guerra, obrigados residncia". Um padre jesuta refere-se pobreza da pequena So Paulo, no sculo XVII, como resultado da constante ausncia doshabitantes porque "fora por ocasio de trs ou quatro festas principais eles ficam cm suasherdades ou andam por bosques e campos, em busca de ndios, no que gastam suas vidas".

    Esse quadro modificou-se, em parte, pela crescente influncia dos grandes comerciantese pelo crescimento do aparelho administrativo, o que aumentou o peso qualitativo dascidades. Fatos como a invaso holandesa e sobretudo a vinda da famlia real para o Rio deJaneiro tiveram tambm importncia no desenvolvimento dos centros urbanos.

    2.16. ESTADO E SOCIEDADE

    Como definir as relaes entre Estado e sociedade?

    Comecemos identificando duas interpretaes radicalmente opostas. A primeira, que temem Raimundo Faoro um de seus representantes mais significativos, localiza no Estado o plodominador; a origem da dominao estaria na formao do Estado portugus que, desde osculo XIV, caracterizava-se pela centralizao precoce e pela vigncia de um corpo de leis,como um Estado patrimonialista. Na Colnia, o poder estatal, representado por uma poderosaburocracia, teria iniciado sua obra centralizadora, reforando os mecanismos de dominao ede represso. Seus braos atingiriam at mesmo o serto distante, por meio de caudilhos ebandeirantes que, em ltima anlise, agiam em nome do Estado.

    A orientao oposta, mais antiga, se encontra em autores como Oliveira Viana e NestorDuarte, que escreveram seus trabalhos nas dcadas de 1920 e 1940. Para eles, um setor dasociedade imperava na Colnia diante de um Estado frouxo e sem expresso. Os dominadoresteriam sido os grandes proprietrios de terras, o senhoriato rural, no s atravs dadescentralizao do poder como da modificao de sua natureza, a qual deixou de ser o dafuno poltica para servir a interesses privados. Seriam eles quem governavam, legislavam,faziam justia, guerreavam contra as tribos do interior, em defesa das populaes prximas ssuas fazendas. Em suma, agiam como verdadeiros senhores feudais.

    Penso que no possvel colocar-se na linha de uma ou outra dessas interpretaes, porduas razes principais: 1. elas se apresentam como um modelo imposto a espaos emomentos histricos diversos; 2. ao separar radicalmente Estado de um lado e sociedade deoutro, tendem a excluir a possibilidade de entrelaamento dos dois nveis.

    Comeando pela primeira dessas razes, podemos dizer que a ausncia do Estado e opreenchimento de suas funes por grupos privados ocorreu em certas reas, como no sertonordestino voltado para a pecuria, mas no serve para definir o quadro mais geral da Colnia.Por outro lado, o Estado portugus no se ajusta idia de uma mquina burocrtica

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    esmagadora, transposta com xito para a Colnia. A tentativa de transpor a organizaoadministrativa lusa para o Brasil chocou-se com inmeros obstculos, dada a extenso daColnia, a distncia da Metrpole e a novidade dos problemas a serem enfrentados. O Estadofoi estendendo seu alcance ao longo do tempo, diramos melhor ao longo dos sculos, sendomais presente nas regies que eram o ncleo fundamental da economia de exportao. Atmeados do sculo XVII, a ao das autoridades somente se exerceu com eficcia na sede dogoverno geral e das capitanias sua volta. Nas outras regies, predominaram as ordensreligiosas, especialmente a dos jesutas, considerada um Estado dentro do Estado, ou osgrandes proprietrios rurais e apresadores de ndios.

    O bandeirismo paulista no foi uma iniciativa do Estado. Compatibilizou-se em regra comos interesses do governo portugus, definindo-se, porm, ao mesmo tempo, como umainiciativa da sociedade local, independentemente da vontade do poder metropolitano.

    Com a descoberta das minas de ouro e diamantes no incio do sculo XVIII, o Estadoaumentou seus controles, com o objetivo de organizar uma sociedade em rpido crescimentoe assegurar a percepo dos tributos sobre as novas riquezas. Mas mesmo a s o DistritoDiamantino, instalado em Minas Gerais na Comarca do Serro Frio, correspondeu imagem deum Estado sobreposto sociedade, amputando todos os membros que resistissem a seudomnio.

    Isso no quer dizer que seja invivel estabelecer um padro geral das relaes entreEstado e sociedade no Brasil colonial, respeitadas as diferenas de tempo e espao. Emprimeiro lugar, sobretudo quando nos referimos aos nveis mais altos da atividade do Estado,ser quase sempre possvel distinguir entre a ao do Estado e os interesses dominantes dasociedade. A Coroa e seus prepostos no Brasil assumiram um papel de organizador geral davida da Colnia que no correspondia necessariamente a esses interesses. Por exemplo,medidas tendentes a limitar a escravizao dos ndios, ou garantir o suprimento de gnerosalimentcios por meio do plantio obrigatrio nas fazendas, foram recebidas at com revoltapelos apresadores de ndios e proprietrios rurais.

    Mas Estado e sociedade no so dois mundos estranhos. Pelo contrrio, h um duplomovimento do Estado em direo sociedade e desta em direo ao Estado. Esse movimentose caracteriza pela indefinio dos espaos pblico e privado.

    Que significa isso?

    Significa que, se por um lado o Estado penetrado por interesses particulares, por outrosua ao no tem limites claros, decorrentes de garantias individuais dos cidados. Os traosdo Estado patrimonial luso, onde tudo, em ltima anlise, patrimnio do rei, ajustam-se aostraos da sociedade colonial, na qual predomina a solidariedade familiar.

    A famlia ou as famlias em aliana - e aqui estamos falando de famlias da classedominante - surgem como redes formadas no apenas por parentes de sangue mas porpadrinhos e afilhados, protegidos e amigos. Para a Coroa, o Estado um patrimnio rgio e osgovernantes devem ser escolhidos entre os homens leais ao rei. Por sua vez, os setoresdominantes da sociedade tratam de abrir caminho na mquina estatal ou receber as graasdos governantes em benefcio da rede familiar.

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    Por caminhos diversos, resulta disso um governo que se exerce no de acordo compadres de impessoalidade e respeito lei, mas segundo critrios de lealdade. A expresso"para os amigos tudo, para os inimigos a lei" resume a concepo e a prtica que descrevemos.O fato de que ela tenha sido atribuda a um presidente da Repblica mostra que estamosdiante de um padro de comportamento com longa vida na histria do Brasil.

    2.17. AS PRIMEIRAS ATIVIDADES ECONMICAS

    Hoje, o Brasil se caracteriza por conter regies muito diferentes entre si, mas esse fato eraainda mais acentuado nos tempos coloniais, quando, alm de tudo, as comunicaes eramdifceis e existiam reas inexploradas ou desconhecidas.

    2.17.1. O ACAR

    Na sua faixa litornea, o Nordeste representou o primeiro centro de colonizao e deurbanizao da nova terra. A atual situao do Nordeste no fruto da fatalidade, mas de umprocesso histrico. At meados do sculo XVIII, a regio nordestina, que era designada como o"Norte", concentrou as atividades econmicas e a vida social mais significativa da Colnia;nesse perodo, o Sul foi uma rea perifrica, menos urbanizada, sem vinculao direta com aeconomia exportadora. Salvador foi a capital do Brasil at 1763 e, por muito tempo, sua nicacidade importante. Embora no haja dados de populao seguros at meados do sculo XVIII,calcula-se que tinha 14 mil habitantes em 1585, 25 mil em 1724 e cerca de 40 mil em 1750, ametade dos quais eram escravos. Esses nmeros podem parecer modestos, mas tm muitasignificao quando confrontados com os de outras regies: So Paulo, por exemplo, tinhamenos de 2 mil habitantes em 1600.

    A empresa aucareira foi o ncleo central da ativao socioeconmica do Nordeste. Oacar tem uma longa e variada histria, tanto no que se refere a seu uso quanto localizaogeogrfica. No sculo XV, era ainda uma especiaria, utilizada como remdio ou condimentoextico. Livros de receitas do sculo XVI indicam que estava ganhando lugar no consumo daaristocracia europia. Logo passaria de um produto de luxo para o que hoje chamaramos deum bem de consumo de massa.

    Sob o aspecto geogrfico, a cana-de-acar teve um grande deslocamento no espao.Originria da ndia, alcanou a Prsia e dali foi levada pelos conquistadores rabes costaoriental do Mediterrneo. A seguir, os rabes a introduziram na Siclia e na Pennsula Ibrica.J em 1300, vendia-se em Bruges (Blgica) o acar produzido na Espanha. No sculo XV, aproduo das vrzeas irrigadas de Valncia e do Algarve (sul de Portugal) era comercializadano sul da Alemanha, nos Pases Baixos e na Inglaterra. Vimos como a produo aucareira foidominante nas ilhas do Atlntico, onde se fez um verdadeiro ensaio do que viria a ser oempreendimento implantado no Brasil.

    No se conhece a data em que os portugueses introduziram a cana-de-acar no Brasil.Foi nas dcadas de 1530 e 1540 que a produo se estabeleceu em bases slidas. Em suaexpedio de 1532, Martim Afonso trouxe um perito na manufatura do acar, bem comoportugueses, italianos e flamengos com experincia na atividade aucareira da Ilha da

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    Madeira. Plantou-se cana e construram-se engenhos em todas as capitanias, de So Vicente aPernambuco.

    Um dos objetivos centrais da criao do governo geral foi incentivar a produo naabandonada Capitania da Bahia. O Regimento de Tome de Sousa continha uma srie depreceitos destinados a estimular o plantio e a moenda de cana, concedendo, entre outrasvantagens, iseno de impostos por um certo tempo. Alm disso, o governador-geral, aindapor determinao do regimento, construiu um engenho de propriedade da Coroa em Piraj,prximo a Salvador.

    Na Capitania de So Vicente, Martim Afonso foi scio, com portugueses e estrangeiros, deum engenho que talvez tenha sido o maior do sul do pas - o So Jorge dos Erasmos -, nomederivado do alemo Erasmo Schetz, que o comprou dos scios originais. Hoje, existem apenasas runas do engenho. A produo de cana no Rio de Janeiro, especialmente na regio deCampos, teve tambm expresso, mas at o sculo XVIII a cachaa e no o acar foi oprincipal produto obtido, sendo utilizada sobretudo como moeda de troca no comrcio deescravos com Angola.

    Os grandes centros aucareiros na Colnia foram Pernambuco e Bahia. Fatores climticos,geogrficos, polticos e econmicos explicam essa localizao. As duas capitanias combinavam,na regio costeira, boa qualidade de solos e um adequado regime de chuvas. Estavam maisprximas dos centros importadores europeus e contavam com relativa facilidade deescoamento da produo, na medida em que Salvador e Recife se tornaram portosimportantes.

    O ENGENHO

    A instalao de um engenho constitua um empreendimento considervel. Em regra,abrangia as plantaes de cana, o equipamento para process-la, as construes, os escravos eoutros itens, como gado, pastagens, carros de transporte, alm da casa-grande. A operao deprocessamento de cana at chegar ao acar era complexa. J nos primeiros tempos,importava-se em capacidade administrativa e uso de tecnologia, aprimorada ao longo dosanos. Vrias fases se sucediam, passando pela extrao do lquido, sua purificao e purgao.A cana era moda por um sistema de tambores, impulsionado por fora hidrulica ou poranimais. Os engenhos movidos a gua, por seu maior tamanho e produtividade, ficaramconhecidos como engenhos reais.

    Tanto no Brasil como em Portugal no foram instaladas refinarias no perodo colonial. Oacar do Brasil era chamado de barreado porque utilizava-se barro na sua preparao. Issono significa que fosse de m qualidade. O acar barreado resultava tanto no acar branco,muito apreciado na Europa, como no mascavo, de cor pardacenta, considerado, na poca, dequalidade inferior. Desse modo, a tcnica de se obter acar branco com o emprego de barrocompensava, em parte, a inexistncia de refinarias.

    A instalao e a atividade de um engenho eram operaes custosas que dependiam daobteno de crditos. No sculo XVI, pelo menos parte desses crditos provinha deinvestidores estrangeiros, flamengos e italianos, ou da prpria Metrpole. Posteriormente, nosculo XVII, essas fontes parecem ter-se tornado pouco significativas. Pelo menos na Bahia, as

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    duas principais fontes de crdito vieram a ser as instituies religiosas e beneficentes, emprimeiro lugar, e os comerciantes. Antes de 1808 no existiam bancos no Brasil. Instituiescomo a Misericrdia, a Ordem Terceira de So Francisco, o Convento de Santa Clara doDesterro, alm de suas funes especficas, cumpriram o papel de financiar a atividadeprodutiva atravs de emprstimos a juros.

    Os comerciantes tinham com os senhores de engenho um relacionamento especial.Financiavam instalaes, adiantavam recursos para se tocar o negcio e, pela prpria posioque ocupavam, tinham facilidade de fornecer bens de consumo importados. As contas entre asduas partes eram acertadas no fim da safra. Muitas vezes os comerciantes aceitavam receberacar em pagamento das dvidas, mas a preo abaixo do mercado. A histria final docomrcio aucareiro escapava de mos locais e mesmo de mos portuguesas. Os grandescentros importadores estavam em Amsterdam, Londres, Hamburgo, Gnova e tinham grandepoder na fixao dos preos, por maiores que fossem os esforos de Portugal no sentido demonopolizar o produto mais rentvel de sua colnia americana.

    Vejamos agora alguma coisa sobre a estrutura social do engenho, comeando pelos doisextremos: escravos de um lado, senhores de outro. Foi no mbito da produo aucareira quese deu com maior nitidez a gradativa passagem da escravido indgena para a africana. Nasdcadas de 1550 e 1560, praticamente no havia africanos nos engenhos do Nordeste. A mo-de-obra era constituda por escravos ndios ou, em muito menor escala, por ndiosprovenientes das aldeias jesuticas, que recebiam um salrio nfimo. Tomando o exemplo deum grande engenho - Sergipe do Conde, na Bahia -, cujos registros sobreviveram at hoje,podemos ter uma idia de como se deu a transio. Em 1574, os africanos representavamapenas 7% da fora de trabalho escrava; em 1591 eram 37% e, em torno de 1638, africanos eafro-brasileiros compunham a totalidade da fora de trabalho.

    Os cativos realizavam um grande nmero de tarefas, sendo concentrados em sua maiorianos pesados trabalhos do campo. A situao de quem trabalhava na moenda, nas fornalhas enas caldeiras podia ser pior. No era incomum que escravos perdessem a mo ou o brao namoenda. Muitos observadores que escreveram sobre os engenhos brasileiros notaram aexistncia de um p-de-cabra e uma machadinha prximos moenda para, no caso de umescravo ser apanhado pelos tambores, estes serem separados e a mo ou brao amputado,salvando-se a mquina de maiores estragos.

    Fornalhas e caldeiras produziam um calor insuportvel, e os trabalhadores se arriscavam asofrer queimaduras. Muitos cativos eram treinados desde cedo para esse servio, consideradotambm um castigo para os rebeldes. Apesar de tudo, excepcionalmente, escravos subiam nahierarquia de funes e chegavam a "banqueiros", um auxiliar do mestre-de-acar, oumesmo a mestre. Este era um trabalhador especializado, responsvel pelas operaes finais e,em ltima anlise, pela qualidade do acar.

    Os senhores de engenho tiveram um considervel poder econmico, social e poltico navida da Colnia. Eles formavam uma aristocracia de riqueza e poder, mas no uma nobrezahereditria do tipo que existia na Europa. O rei concedia ttulos de nobreza por serviosprestados ou mediante pagamento. Entretanto, esses ttulos no passavam aos herdeiros. Nodevemos, alis, exagerar a estabilidade dos senhores de engenho e mesmo sua riqueza,generalizando para o conjunto de uma classe social aquilo que foi caracterstica de algumas

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    famlias. O negcio da cana trazia riscos, dependendo da oscilao de preos, de uma boaadministrao, do controle da massa escrava. Os engenhos foram mais permanentes do queseus senhores. Existiram com os mesmos nomes por centenas de anos, porm mudaram vriasvezes de mos.

    Quem eram os senhores de engenho nos primeiros tempos?

    Algumas famlias de origem nobre ou com altos cargos na administrao portuguesa,imigrantes com posses, comerciantes que se dedicavam ao mesmo tempo atividadecomercial e produo. Bem poucos eram fidalgos e nem todos catlicos de longa data.Cristos-novos estiveram bem representados entre os primeiros senhores de engenhobaianos. De 41 engenhos cujos proprietrios puderam ter suas origens identificadas noperodo de 1587 a 1592, doze pertenciam a cristos-novos. Com o correr do tempo, a partir demuitos casamentos realizados entre as mesmas famlias, os senhores de engenho seconverteram em uma classe homognea. Seus membros mais prestigiosos trataram ento detraar uma genealogia que estabelecesse suas razes nobres em Portugal.

    Os senhores de engenho no viviam isolados na plantation. Pela prpria natureza elocalizao de sua atividade, geralmente prxima a um porto, estavam em contato com omundo urbano e com um olho no mercado internacional. Afinal de contas, sua riquezadependia no s da capacidade de tocar o negcio no Brasil mas dos preos fixados do outrolado do Atlntico, nos grandes centros importadores.

    Entre os dois extremos de senhores e escravos ficavam os libertos e os trabalhadoresbrancos que trabalhavam em servios especializados como artesos (ferreiros, carpinteiros,serralheiros etc.) e mestres-de-acar. O grupo mais numeroso de homens livres cujasatividades ligavam-se ao engenho era o dos plantadores de cana, produtores independentesque no possuam recursos para montar um engenho. Dependiam portanto dos senhores, mass vezes tinham algum poder de negociar quando a produo de cana nos engenhos eraescassa. Raramente mulatos ou negros libertos foram plantadores de cana. Admitida essaexcluso racial, o poder econmico do setor variou muito. Havia desde homens humildes,cultivando pequenas extenses de terra com dois ou trs escravos, at outros que possuamvinte ou trinta cativos e eram candidatos a senhor de engenho.

    ALTOS E BAIXOS DA ATIVIDADE AUCAREIRA

    No exato falar de um ciclo histrico da produo aucareira, como foi tradicional entreos historiadores. "Ciclo" d idia de surgimento, ascenso e fim de uma atividade econmica, oque certamente no foi o caso do acar ou de outros produtos, como o caf. O avano daexplorao do ouro no sculo XVIIT, por exemplo, no significou o fim da economia aucareira.E mais adequado falar em conjunturas, ou seja, fases melhores ou piores, embora possamosdizer que, em meados do sculo XIX, o acar deixou de cumprir papel dominante naeconomia do pas.

    Sem entrar nas mincias dos vaivns do negcio aucareiro, podemos distinguir algumasfases bsicas de sua histria no perodo colonial, demarcadas pelas guerras, invasesestrangeiras e pela concorrncia. Entre 1570 e 1620 houve uma conjuntura de expanso, dadoo crescimento da demanda na Europa e por no haver praticamente concorrncia. A partir da,

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    os negcios se complicaram como conseqncia do incio da Guerra dos Trinta Anos nocontinente europeu (1618) e, depois, por causa das invases holandesas no Nordeste.

    As invases tiveram em geral um efeito muito negativo, embora seja necessrio fazeralgumas distines. A ocupao de Salvador em 1624-1625 foi desastrosa para a economiaaucareira do Recncavo Baiano, mas no para Pernambuco. Por sua vez, enquantoPernambuco sofria as conseqncias das lutas resultantes de uma nova invaso holandesaentre 1630 e 1637, a Bahia beneficiou-se da escassez do produto no mercado internacional eda conseqente elevao de preos.

    Na dcada de 1630, surgiu a concorrncia. Nas pequenas ilhas das Antilhas, a Inglaterra, aFrana e a Holanda iniciaram o plantio em grande escala, provocando uma srie de efeitosnegativos na economia aucareira do Nordeste. A formao de preos fugiu ainda mais dasmos dos comerciantes portugueses e dos produtores coloniais no Brasil. A produoantilhana, tambm com base no trabalho de escravos, gerou uma elevao do preo destes eincentivou a concorrncia de holandeses, ingleses e franceses no comrcio negreiro da costaafricana. Nunca mais a economia aucareira do Brasil voltaria aos "velhos bons tempos".

    Mas no perodo colonial a renda das exportaes do acar sempre ocupou o primeirolugar. Mesmo no auge da exportao do ouro, o acar continuou a ser o produto maisimportante, pelo menos no comrcio legal. Assim, em 1760 correspondeu a 50% do valor totaldas exportaes e o ouro a 46%. Afora isso, no fim do perodo colonial a produo teve umnovo alento, no s na rea nordestina. Medidas tomadas pelo Marqus de Pombal e umasrie de acontecimentos internacionais favoreceram a expanso. Dentre essesacontecimentos, devemos destacar a grande rebelio de escravos ocorrida em 1791 em SoDomingos, colnia francesa nas Antilhas. Durante dez anos de guerra, So Domingos - grandeprodutor de acar e caf - saiu da cena internacional. No incio do sculo XIX, produziamacar, por ordem de importncia, a Bahia, Pernambuco e o Rio de Janeiro. So Paulocomeava a despontar, mas ainda como modesto exportador.

    Do ponto de vista econmico e social, o Nordeste colonial no foi s acar, at porque oprprio acar gerou uma diversificao de atividades, dentro de certos limites. A tendncia especializao no cultivo da cana trouxe como conseqncia uma contnua escassez dealimentos, incentivando a produo de gneros alimentcios, especialmente da mandioca. Acriao de gado esteve tambm em parte vinculada s necessidades da economia aucareira.Houve ainda outras atividades, como a extrao da madeira e o cultivo do fumo.

    2.17.2. O FUMO

    O fumo foi uma significativa atividade destinada exportao, embora estivesse muitolonge de competir com o acar. A grande regio produtora localizou-se no Recncavo Baiano,em especial na rea em torno da hoje cidade histrica de Cachoeira. Produziram-se vriostipos de fumo, desde os mais finos, exportados para a Europa, at os mais grosseiros, queforam importantes como moeda de troca na costa da frica.

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    A produo de fumo era vivel em pequena escala, e isso criou um setor de pequenosproprietrios, formado por antigos produtores de mandioca ou imigrantes portugueses compoucos recursos. Ao longo dos anos, esse setor cresceu ao mesmo tempo que crescia nele apresena de mulatos. Uma amostra de 450 lavradores de fumo baianos, entre 1684 e 1725,revelou que somente 3% eram mulatos, enquanto em um estudo semelhante realizado no fimdo sculo XVIII, esse percentual subiu para 27%.

    Seria equivocado porm pensar que nas plantaes de fumo se concentrou umaverdadeira classe mdia rural, ou seja, um campesinato vivendo do trabalho familiar. Houvegrandes proprietrios que combinaram o fumo com outras atividades. Nmeros levantados apartir de recenseamentos locais indicam que pelo menos a metade dos lavradores eracomposta de escravos.

    2.17.3. A PECURIA

    A criao de gado comeou nas proximidades dos engenhos, mas a tendncia ocupaodas terras mais frteis para o cultivo da cana foi empurrando os criadores para o interior. Em1701, a administrao portuguesa proibiu a criao em uma faixa de oitenta quilmetros dacosta para o interior. A pecuria foi responsvel pelo desbravamento do "grande serto". Oscriadores penetraram no Piau, Maranho, Paraba, Rio Grande do Norte, Cear e, a partir darea do Rio So Francisco, chegaram aos Rios Tocantins e Araguaia. Mais do que o litoral,foram essas regies que se caracterizaram por imensos latifndios, onde o gado seesparramava a perder de vista. No fim do sculo XVII, existiam propriedades no serto baianomaiores do que Portugal, e um grande fazendeiro chegava a possuir mais de 1 milho dehectares.

    Por muito tempo os historiadores acreditaram que, pelas caractersticas mais livres domanejo do gado, a populao do serto fosse composta sobretudo de ndios e mestios.Estudos recentes constataram tambm a a presena de escravos de origem africana, ao ladoda gente livre pobre.

    2.18. AS INVASES HOLANDESAS

    As invases holandesas que ocorreram no sculo XVII foram o maior conflito poltico-militar da Colnia. Embora concentradas no Nordeste, elas no se resumiram a um simplesepisdio regional. Ao contrrio, fizeram parte do quadro das relaes internacionais entre ospases europeus, revelando a dimenso da luta pelo controle do acar e das fontes desuprimento de escravos.

    A resistncia s invases representou um grande esforo financeiro e militar com base emrecursos no s externos como locais. Foi um indcio das possibilidades de ao autnoma dagente da Colnia, embora estivesse ainda longe a existncia de uma identidade separada daMetrpole. Como diz o historiador Evaldo Cabral de Mello, a guerra foi uma luta pelo acar e,sobretudo em seu ltimo perodo, sustentada pelo acar, atravs dos impostos cobrados pelaCoroa.

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    A histria das invases liga-se passagem do trono portugus coroa espanhola, comoresultado de uma crise sucessria que ps fim dinastia de Avis (1580). Na medida em quehavia um conflito aberto entre a Espanha e os Pases Baixos, o relacionamento entre Portugal eHolanda iria inevitavelmente mudar. Sobretudo, os holandeses no poderiam mais continuar aexercer o papel predominante que tinham na comercializao do acar.

    Eles iniciaram suas investidas pilhando a costa africana (1595) e a cidade de Salvador(1604). Mas a Trgua dos Doze Anos entre a Espanha e os Pases Baixos (1609-1621) deixouPortugal em situao relativamente calma. O fim da trgua e a criao da CompanhiaHolandesa das ndias Ocidentais marcam a mudana do quadro. Formada com capitais doEstado e de financistas particulares, a companhia teria como seus alvos principais a ocupaodas zonas de produo aucareira na Amrica portuguesa e o controle do suprimento deescravos.

    As invases comearam com a ocupao de Salvador, em 1624. Os holandeses levarampouco mais de 24 horas para dominar a cidade, mas praticamente no conseguiram sair deseus limites. Os chamados homens bons refugiaram-se nas fazendas prximas capital eorganizaram a resistncia, chefiada por Matias de Albuquerque, novo governador por elesescolhido, e pelo bispo Dom Marcos Teixeira. Utilizando-se da ttica de guerrilhas e comreforos chegados da Europa, eles impediram a expanso dos invasores. Uma frota compostade 52 navios e mais de 12 mil homens juntou-se, a seguir, s tropas combatentes. Depois deduros combates, os holandeses se renderam, em maio de 1625. Tinham permanecido na Bahiapor um ano.

    O ataque a Pernambuco se iniciou em 1630, com a conquista de Olinda. A partir desseepisdio, a guerra pode ser dividida em trs perodos distintos. Entre 1630 e 1637, travou-seuma guerra de resistncia, que terminou com a afirmao do poder holands sobre toda aregio compreendida entre o Cear e o Rio So Francisco. Nesse perodo, destacou-se deforma negativa, na viso luso-brasileira, a figura de Domingos Fernandes Calabar, nascido emPorto Calvo (Alagoas), perfeito conhecedor do terreno onde se travavam os combates. Calabarpassou das foras luso-brasileiras para as holandesas, tornando-se um eficaz colaboradordestas, at ser preso e executado.

    O segundo perodo, entre 1637 e 1644, caracteriza-se por relativa paz, relacionada com ogoverno do prncipe holands Maurcio de Nassau, que foi o responsvel por uma srie deimportantes iniciativas polticas e realizaes administrativas. Visando pr fim paralisao daeconomia e estabelecer vnculos com a sociedade local, Nassau mandou vender a crdito osengenhos abandonados pelos donos que haviam fugido para a Bahia. Preocupou-se cmenfrentar as crises de abastecimento, obrigando os proprietrios rurais a plantar naproporo do nmero de seus escravos o "po do pas", ou seja, a mandioca. O prncipe, queera calvinista, foi tolerante com os catlicos e, ao que tudo indica, apesar de controvrsias aesse respeito, com os israelitas. Os chamados criptojudeus, isto , os cristos-novos quepraticavam o antigo culto s escondidas, foram autorizados a profess-lo abertamente. Duassinagogas existiram no Recife na dcada de 1640 e muitos judeus vieram da Holanda. Quandoos holandeses se retiraram do Brasil, uma das clusulas da rendio autorizou os judeus quehaviam estado ao lado dos flamengos a emigrar. Eles seguiram para o Suriname, para aJamaica e para Nova Amsterdam (atual Nova Iorque), ou retornaram Holanda.

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    Nassau favoreceu a vinda de artistas, naturalistas e letrados para Pernambuco. Entre osartistas encontrava-se Frans Post, pintor das primeiras paisagens e cenas da vida brasileira. Oprncipe teve ainda seu nome ligado aos melhoramentos feitos no Recife, elevado pelosholandeses categoria de capital da capitania, no lugar de Olinda. Construiu ao lado do velhoRecife a Cidade Maurcia, com traado geomtrico e canais - uma tentativa de rplica tropicalda distante Amsterdam. Por causa de desavenas com a Companhia das ndias Ocidentais,Nassau regressou Europa em 1644.

    O terceiro perodo de guerra, entre 1645 e 1654, se define pela reconquista. O fim dadominao espanhola em Portugal, com a ascenso de Dom Joo IV ao trono portugus(1640), no ps fim guerra. O quadro das relaes entre Portugal e Holanda, anterior aodomnio espanhol, se modificara. As relaes pacficas entre os dois pases, anteriores a 1580,no seriam restabelecidas automaticamente. Os holandeses ocupavam agora parte doterritrio do Brasil e dele no pretendiam sair.

    9. Retrato de Maurcio de Nussau, de autor desconhecido, s. d.

    O principal centro da revolta contra a presena holandesa localizou-se em Pernambuco,onde se destacaram as figuras de Andr Vidal de Negreiros e Joo Fernandes Vieira, esteltimo um dos mais ricos proprietrios da regio. A eles se juntaram o negro Henrique Dias e ondio Filipe Camaro. Depois de alguns xitos iniciais dos luso-brasileiros, a guerra entrou emum impasse, prolongando-se por vrios anos. Enquanto os revoltosos dominavam o interior,Recife permanecia em mos holandesas. O impasse foi quebrado nas duas Batalhas deGuararapes, com a vitria dos insurretos (1648 e 1649). Alm disso, uma srie decircunstncias complicou a situao dos invasores. A Companhia das ndias Ocidentais entraraem crise e ningum queria mais investir nela seus recursos. Existia na Holanda um grupofavorvel paz com Portugal, sob a alegao de que o comrcio do sal de Setbal era bsicopara a indstria pesqueira holandesa e de maior importncia econmica do que os lucrosduvidosos da colnia ultramarina. Por ltimo, o incio da guerra entre a Holanda e a Inglaterra,em 1652, tornou escassos os recursos para operaes militares no Brasil. No ano seguinte,

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    uma esquadra portuguesa cercou o Recife por mar, chegando-se afinal capitulao dosholandeses em 1654.

    A histria da ocupao flamenga um claro exemplo das relaes entre produo coloniale trfico de escravos. To logo conseguiram estabilizar razoavelmente a indstria aucareirano Nordeste, os holandeses trataram de garantir o suprimento de escravos, controlando suasfontes na frica.

    Na verdade, houve duas frentes de combate, muito distantes geograficamente, masinterligadas. Vrios pontos da Costa da Mina foram ocupados em 1637. Uma trguaestabelecida entre Portugal c Holanda, logo aps a Restaurao, foi rompida por Nassau com aocupao de Luanda e Benguela, em Angola (1641). Foram tropas luso-brasileiras, sob ocomando de Salvador Correia de S, as responsveis pela retomada de Angola em 1648. Nopor acaso, homens como Joo Fernandes Vieira e Andr Vidal de Negreiros estiveram frenteda administrao portuguesa naquela colnia africana.

    Os recursos levantados localmente para a guerra no Nordeste representaram dois terosdos gastos, na fase de resistncia, e a quase totalidade, na luta de reconquista. Da mesmaforma, enquanto na primeira fase da guerra, tropas formadas por portugueses, castelhanos emercenrios napolitanos foram amplamente majoritrias, na segunda fase, soldados da terrae, mais ainda, gente de Pernambuco tiveram superioridade numrica. A mesma coisa ocorreucom relao ao comando militar. Foram esses homens os principais responsveis pela ttica deguerra volante, "a guerra do Brasil", de que resultaram vitrias decisivas sobre os holandeses,em oposio "guerra da Europa" do tipo tradicional.

    Isso no quer dizer que os holandeses no contassem com a ajuda de gente da terra. Porsua importncia, Calabar ficou conhecido como o grande traidor na primeira fase da guerra.Mas ele no foi um caso nico. Vrios senhores de engenho e lavradores de cana, cristos-novos, negros escravos, ndios tapuias, mestios pobres e miserveis estiveram ao lado dosholandeses. certo que os ndios de Camaro e os negros de Henrique Dias formaram com osluso-brasileiros, mas a mobilizao dos setores desfavorecidos se deu em nveis reduzidos. Porexemplo, em 1648, o contingente de Henrique Dias contava com trezentos soldados, o queequivalia a 10% do total dos homens em armas e a 0,75% da populao escrava da regio. Asforas luso-brasileiras estavam assim longe de constituir um modelo de unio das trs raas.

    A forma pela qual se deu a expulso dos holandeses impulsionou o nativismopernambucano. Ao longo de duzentos anos, at a Revoluo Praieira (1848), Pernambucotornou-se um centro de manifestaes de autonomia, de independncia e de aberta revolta.At a Independncia, o alvo principal das rebelies era a Metrpole portuguesa; depois dela,preponderou a afirmao de autonomia da provncia em relao ao governo central, muitasvezes colorida com tintas dc reivindicao social. O nativismo de Pernambuco teve contedosvariados, ao longo dos anos, de acordo com as situaes histricas especficas e os grupossociais envolvidos, mas manteve-se como referncia bsica no imaginrio pernambucano.

    Uma pergunta que sempre surge quando se estuda a presena holandesa no Brasil aseguinte: o destino do pas seria diferente se tivesse ficado nas mos da Holanda e no dePortugal?

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    No h uma resposta segura para essa questo, pois ela envolve uma conjectura, umapossibilidade que no se tornou real. Quando se compara o governo de Nassau com a rudezalusa e a natureza muitas vezes predatria de sua colonizao, a resposta parece ser positiva.Mas convm lembrar que Nassau representava apenas uma tendncia e a Companhia dasndias Ocidentais outra, mais prxima do estilo do empreendimento colonial portugus. Vista aquesto sob esse ngulo, e quando se constata o que aconteceu nas colnias holandesas dasia e das Antilhas, as dvidas crescem. A colonizao dependeu menos da nacionalidade docolonizador e mais do tipo de colonizao implantado. Os ingleses, por exemplo,estabeleceram colnias bem diversas nos Estados Unidos e na Jamaica. Nas mos deportugueses ou holandeses, com matizes certamente diversos, o Brasil teria mantido a mesmacondio de colnia de explorao integrada no sistema colonial.

    2.19. A COLONIZAO DO NORTE

    Longe do centro principal da vida da Colnia, o Norte do Brasil viveu uma existncia muitodiversa do Nordeste. A colonizao ocorreu a lentamente, a integrao econmica com omercado europeu foi precria at fins do sculo XVIII e predominou o trabalho compulsrioindgena. Para simplificar, estamos falando da regio como se fosse um todo, mas nodevemos esquecer as profundas diferenas entre o Maranho de um lado e a Amaznia , deoutro.

    At 1612, quando os franceses se estabeleceram no Maranho, fundando So Lus, osportugueses no tinham demonstrado maior interesse por se instalar na regio. Os riscos deperda territorial levaram luta contra os franceses que ali se tinham instalado e, em 1616, fundao de Belm. Essa foi a base de uma gradual penetrao pelo Rio Amazonas, percorridona viagem de Pedro Teixeira (1637) at o Peru. Em 1690, os portugueses instalaram umpequeno posto avanado, perto de onde hoje se localiza Manaus, na boca do Rio Negro. ACoroa, nas mos da Espanha, estabeleceu uma administrao parte do Norte do pas, criandoo Estado do Maranho e Gro-Par, com governador e administrao separados do Estado doBrasil. O Estado do Maranho teve existncia pelo menos formal e intermitente at 1774.

    A influncia indgena foi ntida, tanto em termos numricos como culturais. A lnguadominante em pleno sculo XVIII era a "lngua franca", uma variante do tupi. Houve umaextensa mestiagem da populao, mesmo porque as mulheres brancas eram raras, apesardos esforos de enviar emigrantes dos Aores para So Lus.

    Se todas as regies do Brasil colonial tiveram problemas de escassez de moeda, no Norteesse fato seria ainda mais acentuado. At meados do sculo XVIII, foram freqentes as trocasdiretas de produtos, ou a utilizao de pano de algodo ou de cacau como moeda. Astentativas de implantar uma agricultura exportadora, baseada no acar e no algodo, emgrande medida fracassaram at as ltimas dcadas do sculo XVIII. Por essa poca, oMaranho transformou-se rapidamente em importante regio produtora de algodo e o seuplantio se estendeu ao Nordeste. No seu conjunto, a produo do Norte baseou-se nosprodutos da floresta, as chamadas "drogas do serto", como a baunilha, a salsaparrilha esobretudo o cacau nativo, colhido por ndios e mestios ao longo dos rios e trazido at Belm.

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    A grande presena de indgenas fez do Norte um dos principais campos de atividademissionria das ordens religiosas, com os jesutas frente. Estima-se que, em torno de 1740,cerca de 50 mil ndios viviam em aldeias jesuticas e franciscanas. Foi importante a ao doPadre Antnio Vieira, que chegou ao Brasil em 1653 como provincial da Ordem dos Jesutas edesenvolveu intensa pregao no sentido de limitar os abusos cometidos contra os ndios.

    Conflitos entre representantes da Coroa, colonizadores e religiosos foram constantes naregio. Os jesutas eram muito visados, pois tinham, como vimos, um projeto de aculturao econtrole dos indgenas diverso dos colonizadores. Alm disso, possuam extensas fazendas degado, plantaes de algodo, engenhos e participavam ativamente do comrcio das drogas doserto. Muito antes da poca do Marqus de Pombal, eles enfrentaram uma srie deproblemas, sendo expulsos do Maranho em 1684. Com o apoio da Coroa, voltaram dois anosdepois, mas o equilbrio entre missionrios e colonos seria sempre precrio at a expulsodefinitiva dos jesutas, em 1759.

    2.20. A COLONIZAO DO SUDESTE E DO CENTRO-SUL

    Escrevendo a primeira Histria do Brasil, em 1627, Frei Vicente do Salvador lamentava ocarter predatrio da colonizao e o fato de que os portugueses tinham sido at entoincapazes de povoar o interior da nova terra, "arranhando as costas como caranguejos". Estaltima afirmao era em boa parte verdadeira, mas comeava a ser contrariada em algumasregies, especialmente no que hoje chamamos o Centro-Sul do pas.

    A Marcha do Povoamento e a Urbanizao - Sculo XVI

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    A colonizao da Capitania de So Vicente comeou, como a do Nordeste, pelo litoral,com o plantio de cana e a construo de engenhos. Essa atividade no foi muito longe. Oacar produzido concorria desvantajosamente com o do Nordeste, seja pela qualidade dosolo, seja pela maior distncia dos portos europeus.

    Por outro lado, a existncia de ndios, em grande nmero, atraiu para a regio osprimeiros jesutas. Padres e colonizadores, com objetivos diferentes, iriam se atirar a umagrande aventura no rumo do interior: a escalada da Serra do Mar, abrindo caminho por trilhasindgenas at chegar ao Planalto de Piratininga a uma altura de oitocentos metros. Nada maiscontrastante com esse imenso esforo do que, hoje, uma banal viagem do litoral a So Paulopela Rodovia dos Imigrantes. Em 1554, os padres Nbrega e Anchieta fundaram no planalto apovoao de So Paulo, convertida em vila em 1561, a instalando o colgio dos jesutas.Separados da costa pela barreira natural, os primeiros colonizadores e os missionrios sevoltaram cada vez mais para o serto, percorrendo caminhos com a ajuda dos ndios eutilizando-se da rede fluvial formada pelo Tiet, o Paranaba e outros rios.

    Houve algumas semelhanas entre a regio paulista em seus tempos mais remotos e aperiferia do Norte do Brasil: fraqueza de uma agricultura exportadora, forte presena dendios, disputa entre colonizadores e missionrios pelo controle daqueles, escassez de moedae freqente uso da troca nas relaes comerciais. Particularmente notvel foi a influnciaindgena. Um extenso cruzamento, incentivado pelo nmero muito pequeno de mulheresbrancas, deu origem ao mestio de branco com ndio, chamado de mameluco. O tupi era umalngua dominante at o sculo XVIII. Os portugueses de So Paulo adotaram muitos doshbitos e habilidades indgenas, tornando-se to capazes de usar o arco e a flecha como asarmas de fogo.

    Mais uma vez, missionrios e colonizadores se chocaram, dados os seus mtodos eobjetivos diversos na subordinao dos ndios. Por exemplo, decises do papa e da Coroa(1639-1640) reiterando os limites escravizao indgena provocaram violentas reaes no Riode Janeiro, em Santos e em So Paulo. Os jesutas foram expulsos da regio, s retornando aSo Paulo em 1653.

    2.20.1. A EXPANSO DA AGROPECURIA

    Apesar das semelhanas iniciais com o Norte, a regio de So Paulo teria, j a partir defins do sculo XVI, uma histria bem peculiar. Os povoadores combinaram o plantio da uva, doalgodo e sobretudo do trigo com outras atividades que os levaram a uma profundainteriorizao nas reas desconhecidas ou pouco exploradas do Brasil. Criadores de gadopaulistas espalharam-se pelo Nordeste, penetrando no Vale do Rio So Francisco at chegarao Piau. No Sul, o atual Paran - onde ocorreram algumas tentativas de minerao - tornou-seuma extenso de So Paulo. O gado esparramou-se por Santa Catarina, o Rio Grande do Sul e aBanda Oriental (Uruguai).

    Iniciativas individuais combinaram-se com a ao da Coroa, interessada em assegurar aocupao da rea e estender o mais possvel a fronteira com a Amrica espanhola. Imigrantestrazidos do Arquiplago dos Aores e paulistas fundaram Laguna em Santa Catarina (1684).Alguns anos antes (1680), os portugueses haviam estabelecido s margens do Rio da Prata, em

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    frente a Buenos Aires, a Colnia do Sacramento, pretendendo com isso interferir no comrciodo alto Peru, especialmente da prata, que transitava pelo rio, no rumo do exterior.

    2.20.2. AS BANDEIRAS E A SOCIEDADE PAULISTA

    A grande marca deixada pelos paulistas na vida colonial do sculo XVII foram asbandeiras. Expedies que reuniam s vezes milhares de ndios lanavam-se pelo serto, apassando meses e s vezes anos, em busca de indgenas a serem escravizados e metaispreciosos. No difcil entender que ndios j cativos participassem sem maiores problemasdessas expedies, pois, como vimos, a guerra - ao contrrio da agricultura - era uma atividadeprpria do homem nas sociedades indgenas. O nmero de mamelucos e ndios sempresuperou o dos brancos. A grande bandeira de Manuel Preto e Raposo Tavares que atacou aregio do Guara em 1629, por exemplo, era composta de 69 brancos, 900 mamelucos e 2 milindgenas.

    Rumos das Principais Entradas e Bandeiras

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    As bandeiras tomaram as direes de Minas Gerais, Gois, Mato Grosso e as regies ondese localizavam as aldeias de ndios guaranis organizadas pelos jesutas espanhis. Dentre elas,destacava-se o Guara, situado no oeste do Paran, entre os Rios Paranapanema e Iguau,regio onde os bandeirantes empreenderam seguidas campanhas de saques, destruio eapresamento de ndios. Algumas bandeiras realizaram imensas viagens, em que a atrao poruma grande aventura se mesclava aos objetivos econmicos. J veterano, Raposo Tavarespercorreu, entre 1648 e 1652, um roteiro de 12 mil quilmetros: caminhou em direo aoParaguai at os contrafortes dos Andes, seguiu depois no rumo nordeste atravessando o atualEstado de Rondnia, para depois descer os Rios Mamor e Madeira e, pelo Amazonas, chegarafinal a Belm.

    A figura do bandeirante e as qualidades da sociedade paulista do sculo XVII foramexaltadas principalmente por historiadores de So Paulo como Alfredo Ellis Jr. e AfonsoTaunay, que escreveram suas obras entre 1920 c 1950. Ellis Jr. escreveu um livro intituladoRaa de Gigantes para exaltar a superioridade racial dos paulistas. Essa superioridade derivariada existncia, em nmero pondervel, de uma populao branca, do xito do cruzamento como ndio e da tardia entrada do negro na regio. Tudo no passava dc fantasias, com pretensescientficas.

    Os dois autores acentuaram a independncia dos paulistas com relao Coroa e ocarter democrtico de sua organizao social. A origem burguesa ou plebia dos brancos quepovoaram a regio, a mestiagem com as ndias, a pequena propriedade, a administraopopular, as bandeiras abertas a gente de qualquer condio teriam sido os principaiselementos componentes do organismo democrtico. Valorizaram tambm as faanhas dospaulistas, por estenderem as fronteiras do Brasil muito alm da linha de Tordesilhas.

    A exaltao dos bandeirantes, em So Paulo, est presente na nomenclatura de estradas,avenidas e monumentos. Monumentos que vo desde a bela obra do escultor Brecheret juntoao Parque do Ibirapuera at o assustador Borba Gato, gigante de botas plantado no bairro deSanto Amaro. A esttua, alis, muito pouco realista, pois existem boas indicaes dc quemuitos bandeirantes marchavam descalos, por terras, montes e vales, trezentas equatrocentas lguas, como se passeassem nas ruas dc Madri, na expresso de um jesutaespanhol.

    Na verdade, os paulistas no constituram uma "raa especial", mas um grupo de origemportuguesa ou mestia que, por uma srie de condies geogrficas, sociais e culturais, sedistinguiram de outros grupos. Sua coragem e arrojo, ou o fato de que tenham contribudopara a extenso territorial do Brasil, esto fora de dvida, mas o simples relato de suasfaanhas mostra que eles no tinham nada a ver com a imagem de heris civilizadores. Doponto de vista da organizao social, os paulistas construram uma sociedade rstica, commenor distino entre brancos e mestios, influenciada pela cultura indgena. No devemosporm confundir essa sociedade rstica com uma sociedade democrtica, pois uma hierarquiadas melhores famlias e a dominao sobre os ndios prevaleceram.

    A independncia dos paulistas precisa ser qualificada. Sem dvida, no tiveram umcomportamento subserviente com relao Coroa, cujas determinaes muitas vezesdesafiaram. Foram inclusive chamados por um governador-geral de gente que "no conhecianem Deus, nem Lei, nem Justia". No se pode dizer, porm, que os interesses da Coroa e o

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    bandeirismo estivessem inteiramente divorciados. Houve bandeiras que contaram com odireto incentivo da administrao portuguesa e outras, no. De um modo geral, a busca demetais preciosos, o apresamento de ndios em determinados perodos c a expanso territorialeram compatveis com os objetivos da Metrpole. Os bandeirantes serviram tambm aospropsitos de represso de populaes submetidas, no Norte e Nordeste do pas. DomingosJorge Velho e outro paulista, Matias Cardoso de Almeida, participaram do combate no RioGrande do Norte longa rebelio indgena conhecida como Guerra dos Brbaros (1683-1713).O mesmo Domingos Jorge Velho conduziu a campanha final de liquidao do Quilombo dosPalmares em Alagoas (1690-1695).

    Observadores jesutas estimaram em 300 mil o nmero de ndios capturados apenas nasmisses do Paraguai. Este nmero pode ser exagerado, mas outras estimativas tambm sosempre elevadas. O que teria sido feito desses ndios? Os indcios mais fortes vo no sentidode que muitos foram vendidos como escravos em So Vicente e principalmente no Rio deJaneiro, onde a produo de acar desenvolveu-se ao longo do sculo XVII. Segundo dados daCongregao de So Bento, de um tero a um quarto da fora de trabalho dos engenhosbeneditinos do Rio de Janeiro era constituda de ndios. Devemos tambm levar em conta aconjuntura de escassez de suprimento de escravos africanos, entre 1625 e 1650, emconseqncia da interveno dos holandeses. No uma simples coincidncia que naquelesanos tenha ocorrido uma ativao das bandeiras.

    Em anos recentes, demonstrou-se que uma parte considervel dos ndios apresados foiutilizada na prpria economia paulista, em especial no cultivo do trigo. O fato se concentrouno sculo XVII, ligando-se s invases holandesas. Com a destruio da frota portuguesa, aimportao de trigo se tornou precria. Ao mesmo tempo, a presena numerosa de tropasestrangeiras no Nordeste ampliou as possibilidades de consumo.

    Com o fim da guerra, o cultivo do trigo decaiu e acabou se extinguindo, diante do declniodas reservas de ndios e da concorrncia do produto importado.

    2.21. OURO E DIAMANTES

    Em suas andanas pelos sertes, os paulistas iriam afinal realizar velhos sonhos econfirmar um raciocnio lgico. O raciocnio continha uma pergunta: se a parte do continenteque pertencia Amrica espanhola era rica em metais preciosos, por que estes no existiriamem abundncia tambm na colnia lusa? Em 1695, no Rio das Velhas, prximo s atuais Sabare Caet, ocorreram as primeiras descobertas significativas de ouro. A tradio associa a essasprimeiras descobertas o nome de Borba Gato, genro de Ferno Dias. Durante os quarenta anosseguintes, foi encontrado ouro em Minas Gerais, na Bahia, Gois e Mato Grosso. Ao lado doouro, surgiram os diamantes, cuja importncia econmica foi menor, descobertos no SerroFrio, norte de Minas, por volta de 1730.

    A explorao de metais preciosos teve importantes efeitos na Metrpole e na Colnia. NaMetrpole, a corrida do ouro provocou a primeira grande corrente imigratria para o Brasil.Durante os primeiros sessenta anos do sculo XV111, chegaram de Portugal e das ilhas doAtlntico cerca de 600 mil pessoas, em mdia anual de 8 a 10 mil, gente da mais variadacondio, desde pequenos proprietrios, padres, comerciantes, at prostitutas e aventureiros.

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    Por outro lado, os metais preciosos vieram aliviar momentaneamente os problemasfinanceiros de Portugal. Na virada do sculo XVIII, a dependncia lusa com relao Inglaterraera um fato consumado. Para ficar em um exemplo apenas, o Tratado de Methuen, firmadopelos dois pases em 1703, indica a diferena entre um Portugal agrcola, de um lado, e umaInglaterra em pleno processo de industrializao, de outro. Portugal obrigou-se a permitir alivre entrada de tecidos ingleses de l e algodo em seu territrio, enquanto a Inglaterracomprometeu-se a tributar os vinhos portugueses importados com reduo de um tero doimposto pago por vinhos de outras procedncias. bom lembrar que a comercializao dovinho do Porto estava nas mos dos prprios ingleses.

    O desequilbrio da balana comercial entre Portugal e Inglaterra foi, por muitos anos,compensado pelo ouro vindo do Brasil. Os metais preciosos realizaram assim um circuitotriangular: uma parte ficou no Brasil, dando origem relativa riqueza da regio das minas;outra seguiu para Portugal, onde foi consumida no longo reinado de Dom Joo V (1706-1750),em especial nos gastos da Corte e em obras como o gigantesco Palcio-Convento de Mafra; aterceira parte, finalmente, de forma direta, via contrabando, ou indireta, foi parar em mosbritnicas, acelerando a acumulao de capitais na Inglaterra.

    H exagero em dizer que a extrao do ouro liquidou a economia aucareira do Nordeste.Ela j estava em dificuldades vinte anos antes da descoberta do ouro e, como vimos, nomorreu. Mas no h dvida de que foi afetada pelos deslocamentos de populao e,sobretudo, pelo aumento do preo da mo de obra escrava, dada a ampliao da procura. Emtermos administrativos, o eixo da vida da Colnia deslocou-se para o Centro-Sul,especialmente para o Rio de Janeiro, por onde entravam escravos e suprimentos, e por ondesaa o ouro das minas. Em 1763, a capital do Vice-Reinado foi transferida de Salvador para oRio. As duas cidades tinham aproximadamente a mesma populao (cerca de 40 milhabitantes), mas uma coisa era ser a capital e outra, apenas a principal cidade do Nordeste.

    A economia mineradora gerou uma certa articulao entre reas distantes da Colnia.Gado e alimentos foram transportados da Bahia para Minas e um comrcio se estabeleceu emsentido inverso. Do Sul, vieram no apenas o gado mas as mulas, to necessrias aocarregamento de mercadorias. Sorocaba, com sua famosa feira, transformou-se, no interior deSo Paulo, na passagem obrigatria dos comboios de animais, distribudos principalmente emMinas.

    2.21.1. A COROA EO CONTROLE DAS MINAS

    A extrao de ouro e diamantes deu origem interveno regulamentadora mais amplaque a Coroa realizou no Brasil. O governo portugus fez um grande esforo para arrecadar ostributos. Tomou tambm vrias medidas para organizar a vida social nas minas e em outraspartes da Colnia, seja em proveito prprio, seja no sentido de evitar que a corrida do ouroresultasse em caos. Na tentativa de reduzir o contrabando e aumentar suas receitas, a Coroaestabeleceu formas de arrecadao dos tributos que variaram no curso dos anos.

    De um modo geral, houve dois sistemas bsicos: o do quinto e o da capitao. O primeiroconsistia na determinao de que a quinta parte de todos os metais extrados devia pertencerao rei. O quinto do ouro era deduzido do ouro em p ou em pepitas levado s casas de

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    fundio. A capitao, lanada pela Coroa em busca de maiores rendas, em substituio aoquinto, era bem mais abrangente. Ela consistia, quanto aos mineradores, em um impostocobrado por cabea de escravo, produtivo ou no, de sexo masculino ou feminino, maior dedoze anos. Os faiscadores, ou seja, os mineradores sem escravos, tambm pagavam o impostopor cabea, no caso sobre si mesmos. Alm disso, o tributo era cobrado sobreestabelecimentos, como oficinas, lojas, hospedadas, matadouros etc.

    Outra preocupao da Coroa foi a de estabelecer limites entrada na regio das minas.Nos primeiros tempos da atividade mineradora, a Cmara de So Paulo reivindicou, junto aorei de Portugal, que somente aos moradores da Vila de So Paulo, a quem se devia adescoberta do ouro, fossem dadas concesses de explorao do metal. Os fatos seencarregaram de demonstrar a inviabilidade do pretendido, diante do grande nmero, no sde portugueses, mas tambm de brasileiros, sobretudo baianos, que chegava regio dasminas. Disso resultou a guerra civil conhecida como Guerra dos Emboabas (1708-1709),opondo paulistas de um lado, estrangeiros e baianos de outro. Os paulistas no tiveram xitona sua pretenso, mas conseguiram que se criasse a Capitania de So Paulo e Minas do Ouro,separada do Rio de Janeiro (1709), e a elevao da Vila de So Paulo categoria de cidade(1711). Em 1720, Minas Gerais se tornaria uma capitania separada.

    Se os paulistas no conseguiram o monoplio das minas, a Coroa procurou evitar que elasse transformassem em territrio livre. Tentou impedir o despovoamento de Portugal,estabelecendo normas para a emigrao. A entrada de frades foi proibida e uma ordem regiaao governador da capitania determinou a priso de todos os religiosos que nela estivessem"sem emprego ou licena" (1738). Desde as primeiras exploraes, os frades eram suspeitos decontrabando. Um documento da poca dizia ser "grande a multido de frades que sobem sminas e que sobre no quintarem seu ouro ensinam e ajudam os seculares a que faam omesmo". Os ourives foram tambm muito visados pela prpria natureza de sua profisso,sendo obrigados a renunciar a ela sob pena de serem expulsos das reas de minerao.

    Outros esforos da Coroa buscaram impedir um grande desequilbrio entre a regio dasminas e outras regies do pas. Foi proibida a exportao interna, da Bahia para as minas, demercadorias importadas de Portugal; tomaram-se medidas no sentido de assegurar osuprimento de escravos para o Nordeste, estabelecendo-se cotas de entrada de cativos naregio mineira.

    Arrecadar impostos e organizar a sociedade das minas foram os dois objetivos bsicos daadministrao portuguesa, relacionados alis entre si. Para isso, era necessrio estabelecernormas, transformar acampamentos de garimpeiros em ncleos urbanos, criar um aparelhoburocrtico com diferentes funes. Em 1711, o governador de So Paulo e Minas elevou osacampamentos de Ribeiro do Carmo, Ouro Preto e Sabar condio de vila. Depois, vieramCaet, Pitangui, So Joo del Rei e outros. Ribeiro do Carmo foi a primeira vila a setransformar em cidade, recebendo o nome de Mariana (1745).

    Na tentativa de assegurar "a lei e a ordem", a Coroa criou juntas de julgamento e nomeououvidores. Estes foram muitas vezes incumbidos no s de julgar questes como desupervisionar a arrecadao do quinto do ouro, tarefa que, em princpio, devia caber aoprovedor mor. Para controlar escravos, escoltar o transporte do ouro e reprimir distrbiosvieram de Portugal para Minas Gerais, em 1719, duas companhias de Drages, foras militares

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    profissionais. Criaram-se tambm milcias para enfrentar casos de emergncia, lideradas porbrancos e compostas no s de brancos como de negros e mulatos livres.

    No devemos concluir da breve descrio de todas essas medidas que a administraoportuguesa tenha alcanado plenamente seus objetivos bsicos na regio das minas. Asgrandes distncias, a corrupo das autoridades locais, a posio dessas autoridades entre aCoroa e o mundo da Colnia, os conflitos de atribuio dos funcionrios foram alguns dosfatores que dificultaram a ao do governo portugus. Alm disso, seria equivocado pensarque as diretrizes provenientes de Lisboa representassem um todo coerente. Dvidas, demoras,mudanas de rumo contriburam para introduzir uma grande distncia entre as intenes e arealidade.

    2.21.2. A SOCIEDADE DAS MINAS

    No foi apenas de Portugal que gente de toda condio afluiu para Minas. A partir dachegada dos paulistas acompanhados de seus escravos ndios, houve migrao de vrias partesdo Brasil. Nasceu assim uma sociedade diferenciada, constituda no s de mineradores comode negociantes, advogados, padres, fazendeiros, artesos, burocratas, militares. Muitas dessasfiguras tinham seus interesses estreitamente vinculados Colnia e no por acaso ocorreu emMinas uma srie de revoltas e conspiraes contra as autoridades coloniais.

    Embora os setores mais ricos da populao fossem s vezes proprietrios de fazendas einvestissem na minerao em locais distantes, a vida social concentrou-se nas cidades, centrode residncia, de negcios, de festas comemorativas. Nelas ocorreram manifestaes culturaisnotveis, no campo das artes, das letras e da msica. A proibio de ingresso das ordensreligiosas em Minas incentivou o surgimento de associaes religiosas leigas - as Irmandades eOrdens Terceiras. Elas patrocinaram a construo das igrejas barrocas mineiras, onde sedestacou a figura do mulato Antnio Francisco Lisboa - o Aleijadinho -, filho ilegtimo de umconstrutor portugus e de uma escrava.

    Minas Gerais no Incio do Sculo XVIII

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    Na base da sociedade estavam os escravos. O trabalho mais duro era o da minerao,especialmente quando o ouro do leito dos rios escasseou e teve de ser buscado nas galeriassubterrneas. Doenas como a disenteria, a malria, as infeces pulmonares e as mortes poracidente foram comuns. H estimativas de que a vida til de um escravo minerador nopassava de sete a doze anos. Seguidas importaes atenderam s necessidades da economiamineira, inclusive no sentido de substituir a mo-de-obra inutilizada. O nmero de cativosexportados para o Brasil cresceu entre 1720 e 1750, apesar da crise do acar. Os dados depopulao da Capitania de Minas, levantados em 1776, mostram a esmagadora presena denegros e mulatos. Dos cerca de 320 mil habitantes, os negros representavam 52,2%; osmulatos, 25,7%; e os brancos, 22,1%.

    Brasil colnia, por volta de 1800

    Ao longo dos anos, houve intensa mestiagem de raas, cresceu a proporo de mulheres,que em 1776 era de cerca de 38% do total, e ocorreu um fenmeno cuja interpretao umponto de controvrsia entre os historiadores: o grande nmero de alforrias, ou seja, delibertao de escravos. Para se ter uma idia da sua extenso, enquanto nos anos 1735-1749os libertos representavam menos de 1,4% da populao de descendncia africana, em tornode 1786 passaram a ser 41,4% dessa populao e 34% do nmero total de habitantes dacapitania. A hiptese mais provvel para explicar a magnitude dessas propores, que

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    superam por exemplo as da Bahia, c de que a progressiva decadncia da minerao tornoudesnecessria ou impossvel para muitos proprietrios a posse de escravos.

    A sociedade das minas foi uma sociedade rica?

    Aparentemente, como associamos ouro riqueza, a resposta pareceria fcil. Mas no bem assim. Para comear, devemos distinguir entre o perodo inicial de corrida para o ouro e afase que se seguiu. No perodo inicial, isto , na ltima dcada do sculo XVII e no inicio dosculo XVIII, a busca de metais preciosos sem o suporte de outras atividades gerou falta dealimentos e uma inflao que atingiu toda a Colnia. A fome chegou a limites extremos emuitos acampamentos foram abandonados. Com o correr do tempo, o cultivo de roas e adiversificao das atividades econmicas mudaram esse quadro de privaes. A sociedademineira acabou por acumular riquezas, cujos vestgios esto nas construes e nas obras dearte das hoje cidades histricas.

    Lembremos porm que essas riquezas ficaram nas mos de uns poucos: um grupodedicado no s extrao incerta do ouro mas aos vrios negcios e oportunidades que seformaram em torno dela, inclusive o da contratao de servios com a administrao pblica.Abaixo desse grupo, a ampla camada de populao livre foi constituda de gente pobre ou depequenos funcionrios, empreendedores ou comerciantes, com limitadas possibilidadeseconmicas. Certamente, a sociedade mineira foi mais aberta, mais complexa do que a doacar. Mas nem por isso deixou de ser, em seu conjunto, uma sociedade pobre.

    Se no cabe falar em um ciclo do acar, podemos falar de um ciclo do ouro, no sentidode que houve fases marcadas de ascenso e de decadncia. O ouro no deixou de existir emMinas, porm sua extrao se tornou economicamente pouco atraente. O perodo de apogeusituou-se entre 1733 e 1748, comeando a partir da o declnio. No incio do sculo XIX, aproduo aurfera j no tinha maior peso no conjunto da economia brasileira. O retrocesso daregio das minas foi ntido, bastando lembrar que cidades de uma vida to intensa setransformaram em cidades histricas com o sentido tambm de estagnadas. Ouro Preto, porexemplo, tinha 20 mil habitantes em 1740 e apenas 7 mil em 1804.

    Mas o retrocesso no atingiu toda a Capitania de Minas Gerais. Nela, nem tudo eraminerao. Mesmo nos tempos de glria do ouro, a fazenda mineira muitas vezes combinava apecuria, o engenho de acar, a produo de farinha com a lavra de ouro. Graas pecuria,aos cereais e mais tarde manufatura, Minas no regrediu como um todo. Pelo contrrio, nocorrer do sculo XIX iria expandir essas atividades e manter um constante fluxo de importaode escravos. A provncia mineira representaria uma curiosa combinao de regime escravistacom uma economia que no era de plantation, nem estava orientada principalmente para omercado externo.

    2.22. A CRISE DO ANTIGO REGIME

    As ltimas dcadas do sculo XVIII se caracterizaram por uma srie de transformaes nomundo ocidental, tanto no plano das idias como no plano dos fatos. O Antigo Regime, ouseja, o conjunto de monarquias absolutas imperantes na Europa desde o incio do sculo XVI, aque estavam ligadas determinadas concepes e prticas, entrou em crise.

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    2.22.1. O PENSAMENTO ILUSTRADO E O LIBERALISMO

    As novas idias vinham sendo gestadas desde o incio do sculo ou mesmo antes eficaram conhecidas pela expresso "pensamento ilustrado". Os pensadores ilustrados, homenscomo Montesquieu, Voltaire, Diderot, Rousseau, apesar de divergirem muito entre si, tinhamcomo ponto comum o princpio da razo. Segundo eles, pela razo atingem-se osconhecimentos teis ao homem e atravs dela podemos chegar s leis naturais que regem asociedade. A misso dos governantes consiste em procurar a realizao do bem-estar dospovos, pelo respeito s leis naturais e aos direitos naturais de que os homens so portadores.O no-cumprimento desses deveres bsicos d aos governados o direito insurreio.

    As concepes ilustradas deram origem no campo sociopoltico ao pensamento liberal,em seus diferentes matizes. Um fundo comum s vrias correntes do liberalismo se encontrana noo de que a histria humana tende ao progresso, ao aperfeioamento do indivduo e dasociedade, a partir de critrios propostos pela razo. A felicidade - uma idia nova no sculoXVIII - constitui o objetivo supremo de cada indivduo, e a maior felicidade do maior nmerode pessoas o verdadeiro desgnio da sociedade. Esse ideal deve ser alcanado atravs daliberdade individual, criando-se condies para o amplo desenvolvimento das aptides doindivduo e para sua participao na vida poltica.

    No plano econmico, em sua verso extremada, o liberalismo sustenta o ponto de vistade que o Estado no deve interferir na iniciativa individual, limitando-se a garantir a seguranae a educao dos cidados. A concorrncia e as aptides pessoais se encarregariam deharmonizar, como uma mo invisvel, a vida em sociedade.

    No plano poltico, a doutrina liberal defende o direito de representao dos indivduos,sustentando que neles, e no no poder dos reis, se encontra a soberania. Esta entendidacomo o direito de organizar a nao a partir de uma lei bsica - a Constituio. O alcance darepresentao traou uma linha divisria entre liberalismo e democracia ao longo do sculoXIX. As correntes democrticas defendiam o sufrgio universal, ou seja, o direito derepresentao conferido a todos os cidados de um pas, independentemente de condiosocial, sexo, cor ou religio, ou mesmo a democracia direta, isto , o direito de participar davida poltica sem conferir mandato a algum. Os liberais trataram em regra de restringir arepresentao, segundo critrios sobretudo econmicos: para eles, s os proprietrios, comum certo nvel de renda, poderiam votar ou ser votados, pois s demais pessoas faltavaindependncia para o exerccio desses direitos.

    Na Europa ocidental, o liberalismo deu base ideolgica aos movimentos pela queda doAntigo Regime, caracterizado por privilgios corporativos e pela monarquia absoluta. Nascolnias americanas, justificou as tentativas de reforma e o "direito dos povos insurreio". Eimportante observar que na obra que se tornou a bblia do liberalismo econmico - Riquezadas Naes, escrita por Adam Smith em 1776 - h uma crtica ao sistema colonial, acusado dedistorcer os fatores de produo e o desenvolvimento do comrcio como promotor da riqueza.A escravido parece a Adam Smith uma instituio anacrnica, incapaz de competir com amo-de-obra livre.

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    2.23. A CRISE DO SISTEMA COLONIAL

    Alguns fatos significativos balisaram as transformaes do mundo ocidental, a partir demeados do sculo XVIII. Em 1776, as colnias inglesas da Amrica do Norte proclamaram suaindependncia. A partir de 1789, a Revoluo Francesa ps fim ao Antigo Regime na Frana, oque repercutiu em toda a Europa, inclusive pela fora das armas.

    Ao mesmo tempo, ocorria na Inglaterra uma revoluo silenciosa, sem data precisa, toou mais importante do que as mencionadas, que ficou conhecida como Revoluo Industrial. Autilizao de novas fontes de energia, a inveno de mquinas, principalmente para a indstriatxtil, o desenvolvimento agrcola, o controle do comrcio internacional so fatores que iriamtransformar a Inglaterra na maior potncia mundial da poca. Na busca pela ampliao dosmercados, os ingleses impem ao mundo o livre comrcio e o abandono dos princpiosmercantilistas, ao mesmo tempo que tratam de proteger seu prprio mercado e o de suascolnias com tarifas protecionistas. Em suas relaes com a Amrica espanhola e portuguesa,abrem brechas cada vez maiores no sistema colonial, por meio de acordos comerciais,contrabando e aliana com os comerciantes locais.

    O mundo colonial afetado tambm por outro fator importante: a tendncia a limitar oua extinguir a escravido, manifestada pelas maiores potncias da poca, ou seja, a Inglaterra ea Frana. comum ligar-se essa tendncia ao interesse britnico em ampliar mercadosconsumidores, a partir da vantagem obtida sobre os concorrentes com a Revoluo Industrial.Entretanto, essa afirmao contm apenas uma parte da verdade. A ofensiva antiescravistadecorre tambm dos novos movimentos nascidos nos pases mais avanados da Europa, sob ainfluncia do pensamento ilustrado e mesmo religioso, como o caso da Inglaterra.Acrescente-se a isso, no caso francs, a insurreio de negros libertos e escravos nas Antilhas.Em fevereiro de 1794, a Frana revolucionria decretou o fim da escravido em suas colnias;a Inglaterra faria o mesmo em 1807. Lembremos, porm, quanto Frana, que Napoleorevogou a medida em 1802.

    Essas iniciativas contrastaram com as tomadas pelos colonos americanos aps aindependncia dos Estados Unidos em 1776. Apesar do carter liberal e anticolonialista darevoluo, os interesses dos grandes proprietrios rurais predominou: a escravido s foiextinta em alguns Estados do norte, onde os cativos tinham pouca significao econmica.

    Podemos sintetizar todo o processo acima descrito como uma etapa dc formao docapitalismo industrial que se relaciona com a ascenso da burguesia ao poder. preciso,porm, tomar cuidado com uma associao simplista entre esses dois elementos. O fim daaristocracia e a consolidao da burguesia como classe dirigente foi um processo complexo,varivel de pas a pas, tecido por alianas de classe e pelo papel do Estado.

    2.23.1. A ADMINISTRAO POMBALINA

    Vejamos agora como esse quadro afetou as relaes entre a Coroa portuguesa e suamaior colnia. Em meados do sculo XVIII, Portugal era um pas atrasado, cm relao sgrandes potncias europias. Dependia da Inglaterra, de quem em troca recebia proteodiante da Frana e da Espanha. Ainda assim, a monarquia lusa procurava manter o sistemacolonial e limitar a crescente presena inglesa no Brasil.

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    Um marco importante nesse perodo o da ascenso de Dom Jos I ao trono, em 1750.No propriamente pelo rei, mas por seu ministro Sebastio Jos de Carvalho e Melo, futuroMarqus de Pombal.

    At sua indicao para o ministrio, com mais de cinqenta anos, Pombal tivera umacarreira relativamente obscura como representante de Portugal na Inglaterra e diplomata naCorte austraca. Sua obra, realizada ao longo de muitos anos (1750-1777), representou umgrande esforo no sentido de tornar mais eficaz a administrao portuguesa e introduzirmodificaes no relacionamento Metrpole-Colnia. A reforma constituiu uma peculiarmistura do velho e do novo, explicvel pelas caractersticas de Portugal. Ela combinava oabsolutismo ilustrado com a tentativa de uma aplicao conseqente das doutrinasmercantilistas. Essa frmula geral se concretizou em uma srie de medidas. Vamos salientar asque disseram respeito mais de perto ao Brasil.

    De acordo com as concepes do mercantilismo, Pombal criou duas companhiasprivilegiadas de comrcio - a Companhia Geral do Comrcio do Gro-Par e Maranho (1755) ea Companhia Geral de Pernambuco e Paraba (1759). A primeira tinha por objetivodesenvolver a regio Norte, oferecendo preos atraentes para mercadorias a produzidas econsumidas na Europa, como o cacau, o cravo, a canela, o algodo e o arroz, transportadascom exclusividade nos navios da companhia. Introduziu tambm escravos negros que, dada apobreza regional, foram na sua maior parte reexportados para as minas de Mato Grosso. Asegunda companhia buscou reativar o Nordeste dentro da mesma linha de atuao.

    A poltica pombalina prejudicou setores comerciais do Brasil marginalizados pelascompanhias privilegiadas, mas no teve por objetivo perseguir a elite colonial. Pelo contrrio,colocou membros dessa elite nos rgos administrativos e fiscais do governo, na magistraturae nas instituies militares.

    O programa econmico de Pombal foi em grande medida frustrado porque, em meadosdo sculo XVIII, a Colnia entrou em um perodo de depresso econmica que se prolongouat o fim da dcada de 1770. As principais causas da depresso foram a crise do acar e, apartir de 1760, a queda da produo de ouro. Ao mesmo tempo que as rendas da Metrpolecaam, cresciam as despesas extraordinrias destinadas a reconstruir Lisboa, destruda por umterremoto em 1755, e a sustentar as guerras contra a Espanha, pelo controle da extensa regioque ia do sul de So Paulo ao Rio da Prata.

    Pombal tentou coibir o contrabando de ouro e diamantes e tratou de melhorar aarrecadao de tributos. Em Minas Gerais, o imposto de capitao foi substitudo pelo antigoquinto do ouro, com a exigncia de que deveria render anualmente pelo menos cem arrobasdo metal. Depois de uma srie de falncias, a Coroa se incumbiu de explorar diretamente asminas de diamante (1771). Ao mesmo tempo, procurou tornar a Metrpole menosdependente das importaes de produtos industrializados, incentivando a instalao demanufaturas em Portugal e mesmo no Brasil.

    Uma das medidas mais controvertidas da administrao pombalina foi a expulso dosjesutas de Portugal e seus domnios, com confisco de bens (1759). Essa medida pode sercompreendida no quadro dos objetivos de centralizar a administrao portuguesa e impedirreas de atuao autnoma por ordens religiosas cujos fins eram diversos dos da Coroa. Almdos jesutas, em meados da dcada de 1760, os mercedrios - segunda ordem em

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    importncia na Amaznia - foram expulsos da regio e tiveram suas propriedadesconfiscadas. Mas o alvo principal foi a Companhia de Jesus, acusada de formar "um Estadodentro do Estado".

    No Brasil, a consolidao do domnio portugus nas fronteiras do Norte e do Sul passava,segundo Pombal, pela integrao dos ndios civilizao portuguesa. Se no se contasse comuma populao nascida no Brasil identificada com os objetivos lusos, seria invivel assegurar ocontrole de vastas regies semidespovoadas. Da a adoo de uma srie de medidas comrelao aos indgenas. A escravido dos ndios foi extinta em 1757; muitas aldeias na Amazniaforam transformadas em vilas sob administrao civil; a legislao incentivou os casamentosmistos entre brancos e ndios. Essa poltica de assimilao se chocava com o paternalismojesuta, sendo um ponto central de conflito.

    Ao mesmo tempo, os jesutas espanhis eram acusados de fomentar uma rebelioindgena na regio de Sete Povos das Misses do Uruguai, contra a entrega daquele territrioaos portugueses - a chamada Guerra dos Guaranis, que durou de 1754 a 1756. No podemosesquecer tambm que as extensas propriedades da Companhia de Jesus eram cobiadas porparte dos membros da elite colonial e da prpria Coroa.

    A maioria das propriedades urbanas e rurais confiscadas aos jesutas foi arrematada emleilo por grandes fazendeiros e comerciantes. Suas maiores igrejas passaram para as mosdos bispos no integrados nas ordens religiosas. Muitos dos colgios da companhia setransformaram em palcios dc governadores ou hospitais militares. No todo, houve um grandedesperdcio, em especial de bens culturais, como as bibliotecas, que foram consideradas coisade pouco valor.

    A expulso da ordem abriu um vazio no j pobre ensino da Colnia. A Coroa portuguesa,ao contrrio da espanhola, temia a formao na prpria Colnia de uma elite letrada. J nosculo XVI, a Espanha criou na Amrica vrias universidades: a de So Domingos, em 1538, e asde So Marcos, em Lima, e da Cidade do Mxico, em 1551. Nada disso ocorreu na Amricalusa, durante todo o perodo colonial. Alis, praticamente a mesma coisa aconteceu com aimprensa, que surgiu nas maiores cidades coloniais da Amrica espanhola tambm no sculoXVI. Enquanto isso, ressalvando-se uma oficina grfica aberta em 1747 no Rio de Janeiro e logodepois fechada por ordem real, a imprensa no Brasil s nasceria no sculo XIX, com a vinda deDom Joo VI.

    Para remediar os problemas criados com a expulso dos jesutas na rea do ensino, aCoroa tomou algumas medidas. Foi criado um imposto especial, o subsdio literrio - parasustentar o ensino promovido pelo Estado. O bispo de Pernambuco criou o seminrio deOlinda, que se voltou em parte para as cincias naturais e a matemtica. Pequenos clubes deintelectuais surgiram no Rio de Janeiro e na Bahia.

    As medidas de Pombal contra as ordens religiosas faziam parte de uma poltica desubordinao da Igreja ao Estado portugus. Este tratou porem de evitar conflitos diretos como papa. A Igreja, por sua vez, aceitou a expulso dos jesutas. Mais do que isso, em 1773, oPapa Clemente XIV extinguiu a Companhia de Jesus, convencido de que ela trazia maisproblemas do que vantagens. A ordem dos jesutas s voltaria a existir em 1814.

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    2.23.2. O REINADO DE DONA MARIA

    A grande controvrsia entre os historiadores portugueses a favor e contra Pombal levou viso de um corte profundo entre a poca pombalina e a que a ela se seguiu, o reinado deDona Maria I. A prpria expresso "viradeira", empregada para definir o perodo posterior morte de Dom Jos em 1797 e queda de Pombal, um indcio dessa viso. Muita coisamudou: as companhias de comrcio foram extintas e a Colnia foi proibida de manter fbricasou manufaturas de tecidos, exceto as de pano grosso de algodo para uso dos escravos. Essefato e a represso aos integrantes da Inconfidncia Mineira deixaram na historiografiabrasileira uma imagem muito negativa da poca que se seguiu queda de Pombal.

    Lembremos porm que, nos anos entre 1777 e 1808, a Coroa continuou tentando realizarreformas para se adaptar aos novos tempos e salvar o colonialismo mercantilista. O reinado deDona Maria I e do Prncipe Regente Dom Joo, ao contrrio do anterior, beneficiou-se de umaconjuntura favorvel reativao das atividades agrcolas da Colnia: a produo de acar,como vimos, valorizou-se e se expandiu, favorecida pela insurreio dos escravos em SoDomingos. Alm disso, uma nova cultura ganhou fora. O algodo, desenvolvido pelacompanhia de comrcio pombalina e incentivado pela guerra de independncia dos EstadosUnidos, transformou o Maranho, por algum tempo, na zona mais prspera da Amricaportuguesa.

    2.24. OS MOVIMENTOS DE REBELDIA

    Ao mesmo tempo que a Coroa lusa mantinha uma poltica de reforma do absolutismo,surgiram na Colnia vrias conspiraes contra Portugal e tentativas de independncia. Elastinham a ver com as novas idias e os fatos ocorridos na esfera internacional, mas refletiamtambm a realidade local. Podemos mesmo dizer que foram movimentos de revolta regional eno revolues nacionais. Esse foi o trao comum de episdios diversos como a InconfidnciaMineira (1789), a Conjurao dos Alfaiates (1798) e a Revoluo de 1817 em Pernambuco.

    Discute-se muito sobre o momento em que grupos da sociedade colonial nascidos naColnia, e mesmo alguns portugueses nela residentes, comearam a pensar o Brasil como umaunidade diversa de Portugal. Por outras palavras, em que momento teria surgido a conscinciade ser brasileiro?

    No h resposta rgida para uma pergunta dessa natureza. A conscincia nacional foi sedefinindo na medida em que setores da sociedade da Colnia passaram a ter interessesdistintos da Metrpole, ou a identificar nela a fonte de seus problemas. Longe de constituir umgrupo homogneo, esses setores abrangiam desde grandes proprietrios rurais, de um lado,at artesos ou soldados mal pagos, de outro, passando pelos bacharis e letrados.

    Tambm no tinham em comum exatamente a mesma ideologia. As "idias francesas" ouo liberalismo da revoluo americana eram suas fontes inspiradoras. Mas os setoresdominantes tratavam de limit-las, sendo, por exemplo, muito prudentes no tocante ao temada abolio da escravatura, que viria ferir seus interesses. Pelo contrrio, para as camadasdominadas a idia de independncia vinha acompanhada de propsitos igualitrios de reformasocial.

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    A Guerra dos Mascates em Pernambuco (1710), as rebelies que ocorreram na regio deMinas Gerais a partir da revolta de Filipe dos Santos em 1720 e principalmente as conspiraese revolues ocorridas nos ltimos decnios do sculo XVIII e nos dois primeiros do sculo XIXso freqentemente apontadas como exemplos afirmativos da conscincia nacional. Se possvel dizer que eles indicam essa direo, devemos lembrar que at a independncia, emesmo depois, a conscincia nacional passa pela regional. Os rebeldes do perodo se afirmamcomo mineiros, baianos, pernambucanos e, em alguns casos, como pobres, tanto ou mais doque como brasileiros.

    Vamos examinar agora os dois movimentos de rebeldia mais expressivos nos fins dosculo XVIII, deixando para logo adiante a Revoluo Pernambucana de 1817, que eclodiu j nocontexto da presena da famlia real no Brasil.

    2.24.1. A INCONFIDNCIA MINEIRA

    A Inconfidncia Mineira teve relao direta com as caractersticas da sociedade regional ecom o agravamento de seus problemas, nos dois ltimos decnios do sculo XVIII. Isso nosignifica que seus integrantes no fossem influenciados pelas novas idias que surgiam naEuropa e na Amrica do Norte. Muitos membros da elite mineira circulavam pelo mundo eestudavam na Europa. Em 1787, dentre os dezenove estudantes brasileiros matriculados naUniversidade de Coimbra, dez eram de Minas. Coimbra era um centro conservador mas ficavana Europa, o que facilitava o conhecimento das novas idias e a aproximao com aspersonalidades da poca.

    Por exemplo, um ex-estudante de Coimbra, Jos Joaquim da Maia, ingressou naFaculdade de Medicina de Montpellier na Frana, em 1786. Naquele ano e no ano seguinteteve contatos com Thomas Jefferson, ento embaixador dos Estados Unidos na Frana,solicitando apoio para uma revoluo que, segundo ele, estava sendo tramada no Brasil. Umparticipante da Inconfidncia, Jos lvares Maciel, formou-se em Coimbra e viveu na Inglaterrapor um ano e meio. A aprendeu tcnicas fabris e discutiu com negociantes ingleses aspossibilidades de apoio a um movimento pela independncia do Brasil.

    Ao lado disso, nas ltimas dcadas do sculo XVIII, a sociedade mineira entrara em umafase de declnio, marcada pela queda contnua da produo de ouro e pelas medidas da Coroano sentido de garantir a arrecadao do quinto. Se examinarmos um pouco a histria pessoaldos inconfidentes, veremos que tinham tambm razes especficas de descontentamento. Emsua grande maioria, eles constituam um grupo da elite colonial, formado por mineradores,fazendeiros, padres envolvidos em negcios, funcionrios, advogados de prestgio e uma altapatente militar, o comandante dos Drages, Francisco de Paula Freire de Andrade. Todos elestinham vnculos com as autoridades coloniais na capitania e, em alguns casos (AlvarengaPeixoto, Toms Antnio Gonzaga), ocupavam cargos na magistratura.

    Jos Joaquim da Silva Xavier constitua, em parte, uma exceo. Desfavorecido pela morteprematura dos pais, que deixaram sete filhos, perdera suas propriedades por dvidas e tentarasem xito o comrcio. Em 1775, entrou na carreira militar, no posto de alferes, o grau inicial doquadro de oficiais. Nas horas vagas, exercia o ofcio de dentista, de onde veio o apelido algodepreciativo de Tiradentes.

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    O entrosamento entre a elite local e a administrao da capitania sofreu um abalo com achegada a Minas do governador Lus da Cunha Meneses, em 1782. Cunha Menesesmarginalizou os membros mais significativos da elite, favorecendo seu grupo de amigos.Embora no pertencesse elite, o prprio Tiradentes se viu prejudicado, ao perder o comandodo destacamento dos Drages que patrulhava a estratgica estrada da Serra da Mantiqueira.

    10. Imagem de Tiradentes associada figura feminina da Repblica. Revista Illustrada. 1892.

    A situao agravou-se em toda a regio mineira com a nomeao do Visconde deBarbacena para substituir Cunha Meneses. Barbacena recebeu do ministro portugus Melo eCastro instrues no sentido de garantir o recebimento do tributo anual de cem arrobas deouro. Para completar essa quota, o governador poderia se apropriar de todo o ouro existentee, se isso no fosse suficiente, poderia decretar a derrama, um imposto a ser pago por cadahabitante da capitania. Recebeu ainda instrues no sentido de investigar os devedores daCoroa e os contratos realizados entre a administrao pblica e os particulares. As instruesfaziam pairar uma ameaa geral sobre a capitania e mais diretamente sobre o grupo de elite,onde se encontravam os maiores devedores da Coroa.

    Aqui, abrindo um parnteses, preciso explicar a origem dessas dvidas. Elas seoriginavam, muitas vezes, de contratos feitos com o governo portugus para arrecadarimpostos. Na poca colonial, era comum conceder essa funo pblica a particulares com boasrelaes na administrao. Eles pagavam uma quantia Coroa pelo direito de cobrar osimpostos, ganhando a diferena entre esse pagamento e o que conseguiam arrecadar. Mas,freqentemente, os contratadores nem sequer chegavam a completar o pagamento Coroa,da resultando dvidas que iam se acumulando.

    Os inconfidentes comearam a preparar o movimento de rebeldia nos ltimos meses de1788, incentivados pela expectativa do lanamento da derrama. No chegaram, porm, a prem prtica seus planos. Em maro de 1789, Barbacena decretou a suspenso da derrama,enquanto os conspiradores eram denunciados por Silvrio dos Reis. Devedor da Coroa como

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    vrios dos inconfidentes, Silvrio dos Reis estivera prximo destes, mas optara por livrar-se deseus problemas denunciando o movimento. Seguiram-se as prises em

    Minas e a de Tiradentes no Rio de Janeiro. O longo processo realizado na capital daColnia s terminou a 18 de abril de 1792.

    A partir da, comeou uma grande encenao da Coroa, buscando mostrar sua fora edesencorajar futuras rebeldias. S a leitura da sentena durou dezoito horas! Tiradentes evrios outros rus foram condenados forca. Algumas horas depois, uma carta de clemnciada Rainha Dona Maria transformava todas as penas em banimento, ou seja, expulso do Brasil,com exceo do caso de Tiradentes. Na manh de 21 de abril de 1792, Tiradentes foienforcado num cenrio tpico das execues no Antigo Regime. Entre os ingredientes dessecenrio se incluam a presena da tropa, discursos e acla-maes rainha. Seguiram-se aretalhao do corpo e a exibio dc sua cabea, na praa principal de Ouro Preto.

    Que pretendiam os inconfidentes?

    A resposta no simples, pois a maioria das fontes nossa disposio constituda doque disseram os rus e as testemunhas no processo aberto pela Coroa, no qual se decidia,literalmente, uma questo de vida ou morte. Aparentemente, a inteno da maioria era a deproclamar uma Repblica, tomando como modelo a Constituio dos Estados Unidos. O poetae ex-ouvidor Toms Antnio Gonzaga governaria durante os primeiros trs anos e depois dissohaveria eleies anuais. O Distrito Diamantino seria liberado das restries que pesavam sobreele; os devedores da Coroa, perdoados; a instalao de manufaturas, incentivada. No haveriaexrcito permanente. Em vez disso, os cidados deveriam usar armas e servir, quandonecessrio, na milcia nacional.

    O ponto mais interessante das muitas medidas propostas o da libertao dos escravos,que s excepcionalmente aparece em vrios movimentos de rebeldia no s do Brasil Colniacomo do Brasil independente. De um lado, no plano ideolgico, incompreensvel que ummovimento pela liberdade mantivesse a escravido; de outro, no plano dos interesses, como que membros da elite colonial, dependentes do trabalho escravo, iriam libert-los? Essacontradio surge no processo dos inconfidentes, mas bom ressalvar que nem sempredepoimentos derivados de interesses pessoais predominaram nas declaraes. AlvarengaPeixoto, um dos maiores senhores de escravos entre os conjurados, defendeu a liberdade doscativos, na esperana de que eles assim se tornassem os maiores defensores da Repblica.Outros, como Alvares Maciel, achavam, pelo contrrio, que sem escravos no haveria quemtrabalhasse nas terras e nas minas. Segundo parece, chegou-se a uma soluo decompromisso, pela qual seriam libertados somente os escravos nascidos no Brasil.

    A Inconfidncia Mineira um exemplo de como acontecimentos histricos de alcanceaparentemente limitado podem ter impacto na histria de um pas. Como fato material, omovimento de rebeldia no chegou a se concretizar, e suas possibilidades de xito, apesar doenvolvimento de militares e contatos no Rio de Janeiro, eram remotas. Sob esse aspecto, aRevoluo dc 1817, que a partir de Pernambuco se espraiou por uma grande rea do Nordeste,teve maior importncia.

    Mas a relevncia da Inconfidncia deriva de sua fora simblica: Tiradentes transformou-se em heri nacional, e as cenas de sua morte, o esquartejamento de seu corpo, a exibio de

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    sua cabea passaram a ser evocadas com muita emoo e horror nos bancos escolares. Issono aconteceu da noite para o dia e sim atravs de um longo processo de formao de ummito que tem sua prpria histria. Em um primeiro momento, enquanto o Brasil no se tornouindependente, prevaleceu a verso dos colonizadores. A prpria expresso "InconfidnciaMineira", utilizada na poca e que a tradio curiosamente manteve at hoje, mostra isso."Inconfidncia" uma palavra com sentido negativo que significa falta de fidelidade, no-observncia de um dever, especialmente com relao ao soberano ou ao Estado. Durante oImprio, o episdio incomodava, pois os conspiradores tinham pouca simpatia pela formamonrquica de governo. Alm disso, os dois imperadores do Brasil eram descendentes emlinha direta da Rainha Dona Maria, responsvel pela condenao dos revolucionrios.

    A proclamao da Repblica favoreceu a projeo do movimento e a transformao dafigura de Tiradentes em mrtir republicano. Existia uma base real para isso. H indcios de queo grande espetculo, montado pela Coroa portuguesa para intimidar a populao da Colnia,causou efeito oposto, mantendo viva a memria do acontecimento e a simpatia pelosinconfidentes. A atitude de Tiradentes, assumindo toda a responsabilidade pela conspirao, apartir de certo momento do processo, e o sacrifcio final facilitaram a mitificao de sua figura,logo aps a proclamao da Repblica. O 21 de abril passou a ser feriado, e Tiradentes foi cadavez mais retratado com traos semelhantes s imagens mais divulgadas de Cristo. Assim setornou um dos poucos heris nacionais, cultuado como mrtir no s pela direita e pelaesquerda como pelo povo da rua.

    2.24.2. A CONJURAO DOS ALFAIATES

    A Conjurao dos Alfaiates foi um movimento organizado na Bahia em 1798, por gentemarcada pela cor e pela condio social: mulatos e negros livres ou libertos, ligados sprofisses urbanas como artesos ou soldados, e alguns escravos. Entre eles destacavam-sevrios alfaiates, derivando da o nome da conspirao. Mesmo entre os brancos, predominavaa origem popular, com a importante exceo do mdico Cipriano Barata, que iria participar devrios movimentos revolucionrios do Nordeste, por mais de quarenta anos.

    A conspirao se liga ao quadro geral das rebelies surgidas em fins do sculo XVIII e tema ver tambm com as condies de vida da populao de Salvador. A escassez de gnerosalimentcios e a carestia deram origem a vrios motins na cidade, entre 1797 e 1798. Nosbado de aleluia de 1797, por exemplo, os escravos que transportavam grandes quantidadesde carne destinada ao general-comandante de Salvador foram atacados pela multido famintae seu fardo dividido entre os atacantes e as negras que vendiam quitutes na rua.

    Os conspiradores defendiam a proclamao da Repblica, o fim da escravido, o livrecomrcio especialmente com a Frana, o aumento do salrio dos militares, a punio depadres contrrios liberdade. O movimento no chegou a se concretizar, a no ser pelolanamento de alguns panfletos e vrias articulaes. Aps uma tentativa de se obter apoio dogovernador da Bahia, comearam as prises e delaes. Quatro dos principais acusados foramenforcados e esquartejados. Outros receberam penas de priso ou banimento.

    A severidade das penas foi desproporcional ao e s possibilidades de xito dosconjurados. Nelas transparece a inteno de exemplo, um exemplo mais duro do que o

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    proporcionado pelas condenaes aos inconfidentes mineiros. A dureza se explica pela origemsocial dos acusados e por um conjunto de outras circunstncias ligadas ao temor das rebeliesde negros e mulatos. A insurreio de escravos iniciada em So Domingos, colnia francesa nasAntilhas, em 1791, estava em pleno curso e s iria terminar cm 1801, com a criao do Haiticomo Estado independente. Por sua vez, a Bahia era uma regio onde os motins de negros iamse tornando freqentes. Essa situao preocupava tanto a Coroa como a elite colonial, pois apopulao de cor (negros e mulatos) correspondia, em nmeros aproximados, a 80% dapopulao da capitania.

    A inspirao dos rebeldes baianos veio principalmente da Revoluo Francesa. No cursodo processo, foram apreendidas obras filosficas de autores como Voltaire e Condillac, quevrios inconfidentes mineiros tambm conheciam. Ao lado dessas obras, aparecem pequenostextos polticos, de linguagem direta, definidores de posies. Esses textos atravessaram oAtlntico, chegaram s estantes de livros de gente letrada da Colnia e acabaram por inspiraros "pasquins sediciosos" e os panfletos lanados nas ruas de Salvador, em agosto de 1798.

    No plano dos fatos materiais, a Conjurao dos Alfaiates pouco representou. Assim comoa Inconfidncia Mineira, ela nos interessa pelo seu aspecto simblico. Sem alcanar as glriasda Inconfidncia, o movimento foi posto em destaque na historiografia brasileira a partir dcum livro de Affonso Ruy intitulado de A Primeira Revoluo Social Brasileira, publicado em1942. O ttulo exagerado, mas no h dvida de que a Conjurao dos Alfaiates foi a primeiraexpresso de uma corrente de raiz popular que combinava as aspiraes de independnciacom reivindicaes sociais.

    A Independncia no viria porm pela via de um corte revolucionrio com a Metrpole,mas por um processo de que resultaram mudanas importantes e tambm continuidades comrelao ao perodo colonial. A histria desse processo passa por episdios novelescos, como atransferncia da famlia real para o Brasil, e atos solenes, como a abertura dos portos, pondofim ao sistema colonial.

    2.25. A VINDA DA FAMLIA REAL PARA O BRASIL

    A guerra que Napoleo movia na Europa contra a Inglaterra, em princpios do sculo XIX,acabou por ter conseqncias para a Coroa portuguesa. Aps controlar quase toda a Europaocidental, Napoleo imps um bloqueio ao comrcio entre a Inglaterra e o continente.Portugal representava uma brecha no bloqueio e era preciso fech-la. Em novembro de 1807,tropas francesas cruzaram a fronteira de Portugal com a Espanha e avanaram em direo aLisboa. O Prncipe Dom Joo, que regia o reino desde 1792, quando sua me Dona Maria foradeclarada louca, decidiu-se, em poucos dias, pela transferncia da Corte para o Brasil. Entre 25e 27 de novembro de 1807, cerca de 10 a 15 mil pessoas embarcaram em navios portuguesesrumo ao Brasil, sob a proteo da frota inglesa. Todo um aparelho burocrtico vinha para aColnia: ministros, conselheiros, juzes da Corte Suprema, funcionrios do Tesouro, patentesdo exrcito e da marinha, membros do alto clero. Seguiam tambm o tesouro real, os arquivosdo governo, uma mquina impressora e vrias bibliotecas que seriam a base da BibliotecaNacional do Rio de Janeiro.

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    11. D. Joo VI. Partida do Prncipe Regente de Portugal para o Brasil, 27 de novembro de 1807,lito-gravura de F. Bartolozzi (gravador) e H. L. E. Vque (desenhista).

    Houve muita confuso no embarque, e a viagem no foi fcil. Uma tempestade dividiu afrota; os navios estavam superlotados, da resultando falta de comida e gua; a troca de roupafoi improvisada com cobertas e lenis fornecidos pela marinha inglesa; para completar, oataque dos piolhos obrigou as mulheres a raspar o cabelo. Mas esses aspectos novelescos nopodem ocultar o fato de que, a partir da vinda da famlia real para o Brasil, ocorreu umareviravolta nas relaes entre a Metrpole e a Colnia.

    2.25.1. A ABERTURA DOS PORTOS

    Logo ao chegar, durante sua breve estada na Bahia, Dom Joo decretou a abertura dosportos do Brasil s naes amigas (28 de janeiro de 1808). Mesmo sabendo-se que naquelemomento a expresso "naes amigas" era equivalente Inglaterra, o ato punha fim atrezentos anos de sistema colonial. J no Rio de Janeiro, no ms de abril, o prncipe regenterevogou os decretos que proibiam a instalao de manufaturas na Colnia, isentou de tributosa importao de matrias-primas destinadas indstria, ofereceu subsdios para as indstriasda l, da seda e do ferro, encorajou a inveno e introduo de novas mquinas.

    A abertura dos portos foi um ato historicamente previsvel, mas ao mesmo tempoimpulsionado pelas circunstncias do momento. Portugal estava ocupado por tropas francesas,e o comrcio no podia ser feito atravs dele. Para a Coroa, era prefervel legalizar o extensocontrabando existente entre a Colnia e a Inglaterra e receber os tributos devidos.

    A Inglaterra foi a principal beneficiria da medida. O Rio de Janeiro se tornou o porto deentrada dos produtos manufaturados ingleses, com destino no s ao Brasil como ao Rio daPrata e costa do Pacfico. J em agosto de 1808, existia na cidade um importante ncleo de150 a 200 comerciantes e agentes comerciais ingleses. Descrevendo as arbitrariedades daalfndega do Rio de Janeiro, um desses agentes - John Luccock - relatava aliviado, em "que osingleses tinham-se tornado senhores da alfndega, que eles regulavam tudo, e que ordenstinham sido transmitidas aos funcionrios para que dessem particular ateno s indicaes docnsul britnico".

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    A abertura dos portos favoreceu tambm os proprietrios rurais produtores de bensdestinados exportao (acar e algodo principalmente), os quais se livravam do monopliocomercial da Metrpole. Da para a frente, seria possvel vender a quem quer que fosse, semas restries impostas pelo sistema colonial.

    Mas a medida contrariou os interesses dos comerciantes e provocou grandes protestosdeles, no Rio de Janeiro e em Lisboa, a ponto de o prncipe Dom Joo ter de fazer algumasconcesses. Por decreto de junho de 1808, o comrcio livre foi limitado aos portos de Belm,So Lus, Recife, Salvador e Rio de Janeiro; o chamado comrcio de cabotagem, ou seja, entreportos da Colnia, ficou reservado a navios portugueses; o imposto sobre produtosimportados, que fora fixado em 24% do valor da mercadoria, foi reduzido para 16%, quando setratasse de embarcaes portuguesas. S a ltima dessas decises tinha real importncia, maslogo seria ultrapassada pelas concesses feitas Inglaterra.

    12. Retrato de D. Joo VI, gravura em metal de Debret.

    A escalada inglesa pelo controle do mercado colonial brasileiro culminou no Tratado deNavegao e Comrcio, assinado aps longas negociaes em fevereiro de 1810. A Coroaportuguesa tinha pouco campo de manobra. Ela dependia do resultado da guerra contraNapoleo para recuperar o territrio metropolitano, c suas colnias eram protegidas pelaesquadra britnica. A tarifa a ser paga sobre as mercadorias inglesas exportadas para o Brasilfoi fixada em apenas 15% de seu valor, pelo tratado de 1810. Com isso, os produtos inglesesficaram em vantagem at com relao aos portugueses. Mesmo quando, logo depois, as duastarifas foram igualadas, a vantagem inglesa continuou imensa. Sem proteo tarifria, asmercadorias de um pas atrasado, como se tornara Portugal, no mbito do capitalismoeuropeu, no tinham condies de competir em preo e variedade com os produtos ingleses.

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    Os propsitos industrializantes das primeiras iniciativas de Dom Joo tornaram-se tambm,com raras excees, letra morta.

    Um ponto da poltica britnica seria motivo dc preocupaes para os diferentes setoresdominantes da sociedade colonial. Aps ter sido grande beneficiria do comrcio de escravos,a Inglaterra passara, a partir de fins do sculo XVIII, a combater a escravido.

    Esse fato , alis, um bom exemplo de como devemos ter cuidado em no simplificarprocessos histricos: a maior potncia imperialista da poca buscava, ao mesmo tempo, prfim a uma instituio profundamente retrgrada, vigente no mundo colonial.

    Pelo Tratado de Aliana e Amizade, firmado por Portugal e Inglaterra, junto com o Tratadode Navegao e Comrcio, em 1810, a Coroa portuguesa se obrigava a limitar o trfico deescravos aos territrios sob seu domnio e prometia vagamente tomar medidas para restringi-lo.

    Alguns anos mais tarde, quando as potncias vencedoras da guerra contra Napoleo,tendo frente a Inglaterra, se reuniram no Congresso de Viena (1815), o governo portugusassinou novo tratado, concordando com a cessao do trfico ao norte do equador. Emprincpio, deveria assim terminai o trfico de escravos da Costa da Mina para o Brasil. Umaclusula adicional ao tratado concedeu Inglaterra o "direito de visita" em alto-mar a naviossuspeitos de transportar cativos, autorizando sua apreenso. Nenhuma dessas medidasimpediu o trfico que, pelo contrrio, se tornou maior no incio de 1820 do que era no comeodo sculo. Mas desenhava-se no horizonte uma disputa que se tornaria aguda no Brasilindependente: o governo ingls, de um lado, autoridades e setores dominantes no Brasil, deoutro.

    2.25.2. A CORTE NO RIO DE JANEIRO

    A transferncia da sede da monarquia portuguesa para o Brasil mudou o quadro dasrelaes internacionais no contexto da Amrica do Sul. A poltica externa de Portugal passou aser decidida na Colnia, instalando-se no Rio de Janeiro o Ministrio da Guerra e AssuntosEstrangeiros. Alm de realizar uma expedio Guiana Francesa, incentivada pela Inglaterra, aCoroa concentrou sua ao na rea do Prata, especificamente na Banda Oriental - atualUruguai -, regio onde espanhis e portugueses se chocavam desde as ltimas dcadas dosculo XVII.

    Com o objetivo de anexar a Banda Oriental ao Brasil, Dom Joo VI realizou duasintervenes militares, em 1811 e a partir de 1816. A derrota de Artigas - principal figura naluta pela independncia uruguaia - garantiu aos portugueses a posse da regio e aincorporao da Banda Oriental ao Brasil, em 1821, com o nome de Provncia Cisplatina.Entretanto, os conflitos no Prata estavam longe de terminar.

    A vinda da famlia real deslocou definitivamente o eixo da vida administrativa da Colniapara o Rio de Janeiro, mudando tambm a fisionomia da cidade. Entre outros aspectos,esboou-se a uma vida cultural. O acesso aos livros e a uma relativa circulao de idias forammarcas distintivas do perodo. Em setembro de 1808, veio a pblico o primeiro jornal editadona Colnia; abriram-se tambm teatros, bibliotecas, academias literrias e cientficas, para

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    atender aos requisitos da Corte e dc uma populao urbana em rpida expanso. Basta dizerque, durante o perodo de permanncia de Dom Joo VI no Brasil, o nmero de habitantes dacapital dobrou, passando de cerca de 50 mil a 100 mil pessoas. Muitos dos novos habitanteseram imigrantes, no apenas portugueses mas espanhis, franceses e ingleses que viriam aformar uma classe mdia de profissionais e artesos qualificados.

    13. Loja de Negras e Vendedoras de Rua. Aquarela de Jean Baptiste Debret

    Alm deles, vieram ao Brasil cientistas e viajantes estrangeiros, como o naturalista emineralogista ingls John Mawe, o zologo bvaro Spix e o botnico Martius, tambm bvaro,o naturalista francs Saint-Hilaire, autores de trabalhos que so uma fonte indispensvel deconhecimento daquela poca. Em maro de 1816, chegou ao Rio de Janeiro a Misso ArtsticaFrancesa, incluindo, entre outros, o arquiteto Grandjean de Montigny, autor de projetos deedificaes urbanas, e os pintores Taunay e Debret. Estes deixaram desenhos e aquarelas queretratavam paisagens e costumes do Rio de Janeiro nas primeiras dcadas do sculo XIX.

    Se muita coisa mudou, no devemos exagerar o alcance das transformaes. A presenada Corte implicava uma alterao do acanhado cenrio urbano da Colnia, mas a marca doabsolutismo acompanharia a alterao. Um exemplo disso a imprensa. O primeiro jornalbrasileiro - A Gazeta do Rio de Janeiro - tinha carter quase oficial e estava sujeito, como todasas demais publicaes, a uma comisso de censura encarregada de "examinar os papis elivros que se mandassem publicar e fiscalizar que nada se imprimisse contra a religio, ogoverno e os bons costumes". O jornal brasileiro independente dessa poca, que continhacrticas poltica portuguesa, era o Correio Brasiliense de Hiplito Jos da Costa, editado emLondres entre 1808 e 1822.

    2.25.3. A REVOLUO PERNAMBUCANA DE 1817

    A presena da Corte no Rio de Janeiro contribuiu para dar Independncia o carter deuma transio sem grandes saltos. Seria engano supor, porm, que os atritos entre a gente daMetrpole e da Colnia tenham desaparecido porque, por algum tempo, a Colnia se vestiu deMetrpole. Ao transferir-se para o Brasil, a Coroa no deixou de ser portuguesa e favorecer os

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    interesses portugueses no Brasil. Um dos principais focos de descontentamento estava nasforas militares. Dom Joo chamou tropas de Portugal para guarnecer as principais cidades eorganizou o Exrcito, reservando os melhores postos para a nobreza lusa. O peso dos impostosaumentou, pois agora a Colnia tinha de suportar sozinha as despesas da Corte e os gastos dascampanhas militares que o rei promoveu no Rio da Prata.

    Acrescente-se a isso o problema da desigualdade regional. O sentimento imperante noNordeste era o de que, com a vinda da famlia real para o Brasil, o domnio poltico da Colniapassara de uma cidade estranha para outra igualmente estranha, ou seja, de Lisboa para o Riode Janeiro. A revoluo que estourou em Pernambuco em maro de 1817 fundiu essesentimento com vrios descontentamentos resultantes das condies econmicas e dosprivilgios concedidos aos portugueses. Ela abrangeu amplas camadas da populao:militares, proprietrios rurais, juizes, artesos, comerciantes e um grande nmero desacerdotes, a ponto de ficar conhecida como a "revoluo dos padres". Chama a ateno apresena de grandes comerciantes brasileiros ligados ao comrcio externo, os quaiscomeavam a concorrer com os portugueses, em uma rea at ento controlada, em grandemedida, por estes.

    Outro dado importante da Revoluo de 1817 se encontra no fato de que ela passou doRecife para o serto, estendendo-se a Alagoas, Paraba e Rio Grande do Norte. Odesfavorecimento regional, acompanhado de um forte antilusitanismo, foi o denominadorcomum dessa espcie de revolta geral de toda a rea nordestina. No devemos imaginar,porm, que os diferentes grupos tivessem os mesmos objetivos. Para as camadas pobres dacidade, a independncia estava associada idia de igualdade, uma igualdade mais para cimado que para baixo. Uma curiosa carta, escrita no Recife pouco aps o fim da revoluo,descreve como "os cabras, mulatos e crioulos andavam to atrevidos que diziam que ramostodos iguais e no haviam de casar seno com brancas das melhores". Os boticrios, cirurgiese sangradores davam-se ares de importncia e at os barbeiros recusavam-se a fazer a barbadas pessoas, alegando que estavam "ocupados no servio da ptria".

    Para os grandes proprietrios rurais, tratava-se de acabar com a centralizao impostapela Coroa e tomar em suas mos o destino, se no da Colnia, pelo menos do Nordeste.Aquele era, alis, um momento economicamente difcil, combinando a queda do preointernacional do acar e do algodo com a alta do preo dos escravos. Mais uma vez, nodevemos supor que, em quaisquer circunstncias, as posies radicais fossem assumidas pelosmais pobres e as conservadoras, pelos ricos. Por exemplo, um dos membros radicais dolevante, defensor da abolio da escravatura, era o comerciante Domingos Jos Martins,casado com moa nascida em uma famlia ilustre da terra.

    Os revolucionrios tomaram o Recife e implantaram um governo provisrio baseado emuma "lei orgnica" que proclamou a Repblica e estabeleceu a igualdade de direitos e atolerncia religiosa, mas no tocou no problema da escravido. Foram enviados emissrios soutras capitanias em busca de apoio e aos Estados Unidos, Inglaterra e Argentina, em buscatambm de apoio e de reconhecimento. A revolta avanou pelo serto, porm, logo emseguida, veio o ataque das foras portuguesas, a partir do bloqueio do Recife e dodesembarque em Alagoas. As lutas se desenrolaram no interior, revelando o despreparo e asdesavenas entre os revolucionrios. Afinal, as tropas portuguesas ocuparam Recife, em maio

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    de 1817. Seguiram-se as prises e execues dos lderes da rebelio. O movimento duraramais de dois meses e deixou uma profunda marca no Nordeste.

    2.26. A INDEPENDNCIA

    Por volta de 1817, quem dissesse que dentro de cinco anos o Brasil se tornariaindependente estaria fazendo uma previso muito duvidosa. A Revoluo Pernambucana,confinada ao Nordeste, fora derrotada. Por sua vez, a Coroa tomava medidas no sentido deintegrar Portugal e Brasil como partes de um mesmo reino. A guerra terminara na Europa, em1814, com a derrota de Napoleo. As razes da permanncia da Corte no Brasilaparentemente j no existiam. Dom Joo decidiu entretanto permanecer na Colnia c cmdezembro de 1815 elevou o Brasil condio de Reino Unido a Portugal e Algarves. Mesesdepois, aps a morte da rainha, seria sagrado rei de Portugal, do Brasil e Algarves, com o ttulode Dom Joo VI.

    A Independncia se explica por um conjunto de fatores, tanto internos como externos,mas foram os ventos trazidos de fora que imprimiram aos acontecimentos um rumoimprevisto pela maioria dos atores envolvidos, em uma escalada que passou da defesa daautonomia brasileira idia de independncia.

    Em agosto de 1820, irrompeu em Portugal uma revoluo liberal inspirada nas idiasilustradas. Os revolucionrios procuravam enfrentar um momento de profunda crise na vidaportuguesa. Crise poltica, causada pela ausncia do rei e dos rgos de governo; criseeconmica, resultante em parte da liberdade de comrcio de que se beneficiava o Brasil; crisemilitar, conseqncia da presena de oficiais ingleses nos altos postos do exrcito e dapreterio de oficiais portugueses nas promoes. Basta lembrar que, na ausncia de DomJoo, Portugal foi governado por um conselho de regncia presidido pelo marechal inglsBeresford. Depois da guerra, Beresford se tornou o comandante do Exrcito portugus.

    A revoluo portuguesa de 1820 tinha aspectos contraditrios para os brasileiros. Podiaser definida como liberal, por considerar a monarquia absoluta um regime ultrapassado eopressivo e por tratar de dar vida a rgos de representao da sociedade, como o caso dasCortes. Ao mesmo tempo, ao promover os interesses da burguesia lusa e tentar limitar ainfluncia inglesa, pretendia fazer com que o Brasil voltasse a se subordinar inteiramente aPortugal.

    No fim de 1820, os revolucionrios estabeleceram em Portugal uma junta provisria paragovernar em nome do rei e exigiram sua volta Metrpole. Decidiram convocar as Cortes, aserem eleitas em todo o mundo portugus, com o propsito de redigir e aprovar umaConstituio. Estabeleceu-se um critrio de representao de acordo com o nmero dehabitantes, cabendo ao Brasil entre 70 a 75 deputados, em um total de mais de 200. Previu-sea criao no Brasil de juntas governativas leais revoluo nas vrias capitanias, que passavama se chamar provncias.

    Foram os militares descontentes que iniciaram o movimento de 1820 em Portugal. Foitambm entre os militares que ocorreram as primeiras repercusses do movimento no Brasil.As tropas se rebelaram em Belm e em Salvador, instituindo a as juntas governativas. No Riode Janeiro, manifestaes populares e das tropas portuguesas foraram o rei a reformular o

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    ministrio, a criar juntas onde elas no existiam e a preparar as eleies indiretas para asCortes.

    Naquela altura, a principal questo que dividia as opinies era o retorno ou no de DomJoo VI a Portugal. O retorno era defendido no Rio de Janeiro pela "faco portuguesa",formada por altas patentes militares, burocratas e comerciantes interessados em subordinar oBrasil Metrpole, se possvel de acordo com os padres do sistema colonial. Opunha-se aisso e ao retorno do monarca o "partido brasileiro", constitudo por grandes proprietriosrurais das capitanias prximas capital, burocratas e membros do Judicirio nascidos no Brasil.Acrescentem-se a eles portugueses cujos interesses tinham passado a vincular-se aos daColnia: comerciantes ajustados s novas circunstncias do livre comrcio e investidores emterras e propriedades urbanas, muitas vezes ligados por laos de casamento gente daColnia.

    Falamos em "partido brasileiro" entre aspas, porque com essa expresso se designa nopropriamente um partido, mesmo de organizao frouxa como seria caracterstico dospartidos brasileiros, mas uma corrente de opinio. As articulaes polticas se fizeram, nesseperodo, sobretudo atravs das lojas manicas, uma instituio cujo nascimento se deu naEuropa.

    Em seus primeiros tempos, provavelmente em fins da Idade Mdia, a maonaria reuniuprincipalmente artesos ligados construo c da o seu nome derivado de maon, "pedreiro"em francs. A partir do sculo XVII, tomou a forma de um movimento secreto constitudo porgrupos de iniciados, visando a combater as tiranias e a Igreja. No Brasil, onde os padresparticiparam freqentemente de atos de rebeldia, a maonaria teve a feio de um ncleoantiabsolutista, cujos membros mais extremados tendiam a defender a independncia do pas.Por exemplo, um grande nmero de maons participou ativamente da Revoluo de 1817, e ospreparativos revolucionrios foram feitos, em boa parte, em clubes e lojas secretas, emborano se possa afirmar que fossem todos ligados maonaria.

    A questo do regresso ou no de Dom Joo VI logo se esvaziou. Temendo perder o tronocaso no regressasse a Portugal, o rei decidiu-se afinal pelo retorno. Embarcou em abril de1821, acompanhado de 4 mil portugueses. Em seu lugar, ficava como prncipe regente seufilho Pedro, futuro Dom Pedro I. Nos meses seguintes, ocorreram no Brasil as eleies para asCortes. Quase todos os eleitos eram nascidos no Brasil. Entre eles, estavam alguns defensoresradicais ou ex-radicais da Independncia, como Cipriano Barata (Bahia), Muniz Tavares(Pernambuco) e Antnio Carlos Ribeiro de Andrada (So Paulo), que haviam participado daRevoluo dc 1817. Tambm se incluam nomes como o do Padre Feij e Nicolau de CamposVergueiro, polticos de relevo nos anos seguintes da histria do Brasil.

    As Cortes comearam a se reunir em janeiro de 1821, meses antes da chegada dosdeputados eleitos no Brasil. Tomaram-se uma srie de medidas que produziram profundodescontentamento na Colnia. Os governos provinciais passariam a ser independentes do Riode Janeiro, subordinando-se diretamente a Lisboa. Houve uma tentativa nas Cortes de revogaros acordos comerciais com a Inglaterra, que eram do interesse tanto dos ingleses como dosgrandes proprietrios rurais brasileiros e dos consumidores urbanos. Acrescente-se a isso ofato de que os lderes da revoluo liberal punham lenha na fogueira, com suas refernciasdesdenhosas Colnia. Para muitos deles, o Brasil era "uma terra de macacos, de bananas e

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    de negrinhos apanhados na costa da frica" que estava precisando de um co de fila paraentrar nos eixos.

    Entre fins de setembro e outubro de 1821, novas medidas tomadas pelas Cortesfortaleceram no Brasil a opo pela independncia, at a apenas esboada. Decidiu-setransferir para Lisboa as principais reparties instaladas no Brasil por Dom Joo VI,destacaram-se novos contingentes de tropas para o Rio de Janeiro e Pernambuco e, pontodecisivo, determinou-se a volta para Portugal do prncipe regente.

    O "partido brasileiro" concentrou seus esforos no objetivo de conseguir a permannciade Dom Pedro no Brasil. A deciso do prncipe de ficar no pas, solenizada no "dia do fico"(9 de janeiro de 1822), representou a escolha de um caminho sem retorno. Mesmo assim, oregistro do Senado da Cmara do Rio de Janeiro revela que, formalizada a permanncia, opresidente do Senado da Cmara levantou das janelas do palcio uma srie de vivas repetidospelo povo: "Viva a Religio, Viva a Constituio, Viva as Cortes, Viva El-Rei Constitucional, Vivao Prncipe Constitucional, Viva a Unio de Portugal com o Brasil".

    Os atos do prncipe regente posteriores ao "fico" foram atos de ruptura. As tropasportuguesas que se recusaram a jurar fidelidade a Dom Pedro viram-se obrigadas a deixar oRio de Janeiro. Esboava-se a partir da a criao de um exrcito brasileiro. Dom Pedro formouum novo ministrio, composto de portugueses, mas cuja chefia coube a um brasileiro, JosBonifcio de Andrada e Silva.

    Os irmos Andrada - Antnio Carlos, Martim Francisco e Jos Bonifcio -, especialmenteeste ltimo, foram figuras centrais da poltica brasileira naqueles anos. Jos Bonifcio provinhade uma das famlias mais ricas de Santos, onde seu pai se dedicara exportao de acar.Estudou em Coimbra e permaneceu na Europa entre 1783 e 1819. Ocupou cargosadministrativos importantes em Portugal, tendo sido professor universitrio em Coimbra. Devolta ao Brasil, foi chamado a presidir em maro de 1821 a junta provisria de So Paulo.Atribui-se a ele a autoria das Lembranas e Apontamentos, escritas para orientar a ao dosdeputados brasileiros s Cortes, onde, entre outros pontos, se sugere a fundao de "umacidade central no interior do Brasil", com o objetivo de desenvolver o povoamento.

    No fcil rotular o pensamento de Jos Bonifcio. Defendia idias progressistas nocampo social, como a gradativa extino do trfico de escravos e da escravido, uma reformaagrria e a livre entrada de imigrantes no pas. Politicamente, era um liberal conservador,adversrio das "esfarrapadas bandeiras da suja e catica democracia", como disse em certaocasio. Considerava adequada para o Brasil a forma monrquica de governo, sustentada poruma representao dos cidados restrita s camadas dominantes e ilustradas.

    Ao longo dos acontecimentos que resultaram na Independncia, definiram-se comalguma clareza as correntes conservadoras e radicais do "partido brasileiro". Convmesclarecer o significado dessas expresses, pois ele varia de acordo com a situao histricaque estejamos considerando.

    No quadro dos anos imediatamente anteriores Independncia, a corrente conservadoradefendia, em princpio, a maior autonomia do Brasil com relao a Portugal, assumindo s emum segundo momento a idia de independncia. A forma de governo desejvel, segundo osconservadores, era a monarquia constitucional, com representao limitada, como garantia da

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    ordem e da estabilidade social. mais difcil definir a corrente radical, pois nela se incluamdesde monarquistas preocupados em assegurar maior representao popular e as liberdades,especialmente a de imprensa, at os chamados "extremados", para os quais a independnciase associava idia de Repblica, de voto popular e, em alguns casos, de reforma dasociedade.

    Um exemplo concreto das divises se encontra na discusso sobre a convenincia de seeleger no Brasil uma Assemblia Constituinte e sobre a forma de se proceder eleio quedeveria ocorrer na primeira metade de 1822. Jos Bonifcio e todo um grupo eram contrrios convocao, enquanto homens como Gonalves Ledo, Muniz Barreto, Jos Clemente Pereira,Martim Francisco manifestavam-se a favor.

    Quando em junho de 1822 Dom Pedro acolheu a proposta, abriu-se um debate sobre oseguinte tema: a eleio deveria ser direta ou indireta? Gonalves Ledo defendia a eleiodireta, dizendo que se "o maior nmero pede eleio direta, a lei as deve sancionar, [pois] spor ela se pode dizer que o Povo nomeou seus representantes". Ao contrrio, aps terem sidoacolhidas as eleies indiretas, realizadas alis j depois da Independncia, as instrueseleitorais - correspondentes aproximadamente lei eleitoral de nossos dias -"justificaram amedida, tendo em vista as condies brasileiras. No Brasil, diziam as instrues, no havia uma"populao homognea em que esto difundidas as luzes e as virtudes sociais".

    Aps a deciso de se convocar uma Constituinte, aceleraram-se as decises derompimento, mesmo quando se invocava ainda o propsito de "unio com Portugal". Passou-se a exigir como requisito para aproveitamento no servio pblico a adeso causa da unio eindependncia do Brasil; recomendou-se aos governos provinciais no dar posse aempregados vindos de Portugal. Em agosto, o prncipe regente decretou que as tropas vindasda Metrpole seriam consideradas inimigas; Gonalves Ledo e logo depois Jos Bonifciodirigiram manifestos s naes amigas.

    A chegada de despachos de Lisboa que revogavam os decretos do prncipe regente,determinavam mais uma vez seu regresso a Lisboa e acusavam os ministros de traio deualento idia de rompimento definitivo. A Princesa Dona Leopoldina e Jos Bonifcioenviaram s pressas as notcias ao prncipe, em viagem a caminho dc So Paulo. Asrecomendaes ao portador de que arrebentasse uma dzia de cavalos se fosse preciso, parachegar o mais rpido possvel, indica o interesse de Jos Bonifcio em apressar aindependncia e fazer de So Paulo o cenrio da ruptura final.

    Alcanado a 7 de setembro de 1822, s margens do Riacho Ipiranga, Dom Pedro proferiuo chamado Grito do Ipiranga, formalizando a independncia do Brasil. A l9 de dezembro, comapenas 24 anos, o prncipe regente era coroado Imperador, recebendo o ttulo de Dom PedroI. O Brasil se tornava independente, com a manuteno da forma monrquica de governo.Mais ainda, o novo pas teria no trono um rei portugus. Este ltimo fato criava uma situaoestranha, porque uma figura originria da Metrpole assumia o comando do novo pas. Emtorno de Dom Pedro I e da questo de sua permanncia no trono muitas disputas iriamocorrer, nos anos seguintes.

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    2.27. O BRASIL NO FIM DO PERODO COLONIAL

    Antes de entrar na anlise dos anos imediatamente posteriores Independncia, convmdar uma olhada geral no Brasil, tal como se apresentava no fim do perodo colonial. Vamos nosconcentrar no territrio e na populao.

    Desde o incio do sculo XVIII, a extenso geogrfica da Colnia nada mais tinha a ver coma incerta linha de Tordesilhas. A expanso das bandeiras paulistas, para o oeste, e doscriadores de gado e foras militares, para o sudoeste, ampliaram de fato as fronteiras do pas.O avano minerador, a partir do sculo XVIII, deu mais um empurro, de modo que afisionomia territorial do Brasil j se aproximava bastante da atual.

    Restava fazer reconhecer de direito as novas fronteiras, uma questo a ser resolvidaprincipalmente com a Espanha. Isso ocorreu com o Tratado de Madri, firmado entre as Coroasportuguesa e espanhola, que reconheceu o princpio de posse para quem fosse ocupanteefetivo de uma rea. Os portugueses saam ganhando. Houve uma exceo referente sfronteiras do Sul: Portugal renunciou Colnia do Sacramento, fundada no Rio da Prata,prximo a Montevidu, hoje em territrio uruguaio. Em troca, recebeu uma rea na margemesquerda do Rio Uruguai, o chamado Territrio das Sete Misses, ocupado por ndios ejesutas.

    Apesar do acordo, as controvrsias a respeito das fronteiras do Sul no cessaram. Umnovo acordo, datado de 1761, anulou o Tratado de Madri. Em seqncia, o Tratado de SantoIldefonso (1777) restituiu aos espanhis as Sete Misses. Os portugueses mantiveram suaspretenses Colnia do Sacramento, base estratgica para o contrabando da prata trazida daBolvia e do Peru pelo Rio Paran. Durante a presena de Dom Joo VI no Brasil, em duasoportunidades as tropas portuguesas intervieram na regio. Mas, de um modo geral, asfronteiras brasileiras estavam definidas.

    Isso no quer dizer que houvesse em todas as partes de territrio brasileiro umapopulao assentada. Pelo contrrio, vastas regies do pas eram praticamente inexploradas,ou ocupadas por ndios sem contato com os colonizadores. No h nmeros confiveis sobre apopulao do Brasil no fim do perodo colonial. As contagens mandadas realizar pela Coroaexcluam com freqncia os menores de sete anos, os ndios e algumas vezes at os escravos.

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    Brasil Antes e Depois do Tratado de Madri

    Fronteira do Tratado de Tordesilhas (1494)

    Territrio portugus de acordo com o Tratado de Tordesilhas

    Territrio portugus de acordo com o Tratado de Madri (1750)

    - - - Fronteira do Tratado de Santo Ildefonso

    Fonte: CHLA, vol. I.

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    As indicaes mais aproximadas da distribuio regional da populao encontram-se naTabela 1.

    Tabela 1. Populao do Brasil Colonial em 1819

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    Do ponto de vista racial, os dados relativos s principais provncias sugerem que osbrancos representavam menos de 30% da populao total. As estimativas da populao dascidades mais importantes constam da Tabela 2.

    Tabela 2. Estimativas e Contagem das Principais Cidades Brasileiras, 1749-1810

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    A Marcha do Povoamento e a Urbanizao Sculo XVIII

    Essa era, em termos muito gerais, a fisionomia do Brasil no tocante ao territrio e populao, no fim do perodo colonial. Seus habitantes j no se arrastavam comocarangueijos pelo litoral, porm ainda se concentravam - cerca de 74% - em torno dosprincipais portos exportadores e no interior das capitanias costeiras do Rio de Janeiro, Bahia,Pernambuco e Paraba.

    Fim

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