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  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXI Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao Natal, RN 2 a 6 de setembro de 2008

    Gestalt das Organizaes: A percepo da imagem institucional influenciando na relao organizao-pblicos em uma anlise comparativa de dois bairros de Salvador/Bahia com

    realidades antagnicas 1

    Mrcia Carvalhal 2

    Marcello Chamusca 3

    Resumo

    Pretende-se promover, luz do conhecimento sistematizado por autores da teoria da Gestalt, uma discusso sobre o grau de influncia que a percepo tem nas relaes organizao-pblicos e como as empresas tm se apropriado desse conhecimento para desenvolver suas estratgias de comunicao e relacionamento. Foi utilizado como mtodo de trabalho fotografar e analisar as caractersticas de dois bairros de Salvador/Bahia com realidades antagnicas: Pituba - habitado na sua maioria por pessoas das classes A e B; e, Vale da Murioca - habitado por pessoas das classes D e E. Os nossos pressupostos iniciais de que as organizaes desenvolvem estratgias de comunicao e relacionamento diferenciadas para as tambm diferentes percepes da realidade por esses pblicos foram confirmadas, na medida em que articulamos comparativamente os tipos e categorias de organizaes que esto presente nos dois bairros pesquisados.

    Palavras-chave: Gestalt; Percepo; Organizao; Pblicos.

    Introduo

    A proposta desse trabalho tentar entender como a percepo que se tem de uma

    organizao pode influenciar na sua relao os seus mais diversos pblicos, utilizando para isso a

    noo de imagem institucional que, em ltima anlise, a percepo que se tem sobre o conjunto

    de caractersticas de uma determinada organizao do ponto de vista institucional.

    O nosso estudo utilizou para fundamentar-se a Teoria da Gestalt, corrente da psicologia

    que se apia no fenmeno da percepo humana sobre as formas e suas configuraes, tentando

    adaptar seus conceitos para a anlise do processo comunicacional, que envolve as relaes

    estabelecidas entre as organizaes do nosso universo de pesquisa e os seus pblicos prioritrios,

    contextualizadas nos seus ambientes especficos.

    Utilizamos o processo metodolgico da anlise comparativa de fotografias para o

    levantamento das caractersticas das organizaes de dois bairros de Salvador que tm realidades

    completamente antagnicas: a Pituba, um bairro que se encontra na orla martima habitado por

    pessoas de classe mdia com um nvel de consumo altamente elevado; e o Vale da Murioca,

    uma transversal da Avenida Vasco da Gama, constitudo por favelas originrias de grandes 1 Trabalho apresentado na NP Relaes Pblicas e Comunicao Organizacional, do VIII Nupecom Encontro dos Ncleos de Pesquisas em Comunicao, evento componente do XXXI Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao. 2 Mestranda em Planejamento e Desenvolvimento Social (UCSal), professora da Faculdade Isaac Newton, pesquisadora da rea de cibercultura vinculada ao CNPq e diretora do Portal RP-Bahia. 3 Mestrando em Planejamento e Desenvolvimento Social (UCSal), professor da Universidade Salvador (UNIFACS), coordenador do curso de relaes pblicas da Faculdade Isaac Newton, pesquisador da rea de cibercultura vinculado ao CNPq e diretor geral do Portal RP-Bahia.

  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXI Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao Natal, RN 2 a 6 de setembro de 2008

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    invases, que rene uma populao bastante carente. Para determinarmos as classes sociais da

    populao que habita os dois bairros utilizamos o Critrio Brasil4 e conclumos que no Vale da

    Murioca a populao deve encontrar-se entre as classes D e E e na Pituba, em sua grande

    maioria, entre as classes A e B.

    Partimos do pressuposto que a percepo da populao da Pituba seria diferenciada da

    percepo da populao do Vale da Murioca na sua relao com as organizaes, visto que h

    uma srie de variveis do meio ambiental para diferenciar essa percepo, tais como a adaptao

    social, o preconceito e a cultura prpria desses locais. Nesse sentido, as organizaes deveriam

    promover estmulos tambm diferenciados para adaptarem-se a percepo desenvolvida pela

    populao do local em que est inserida, em busca de estar em harmonia com essa populao e,

    conseqentemente, formar e manter uma imagem institucional e corporativa positiva.

    A psicologia da Gestalt e a sua crtica ao Behaviorismo

    Para um melhor entendimento do nosso estudo, que visa a anlise das configuraes

    estticas organizacionais a partir da percepo desenvolvida por meio dos estmulos visuais

    promovidos pelas organizaes tanto no bairro da Pituba quanto no Vale da Murioca, vamos

    trabalhar os conceitos dos autores gestaltianos, bem como as suas crticas ao Behaviorismo, uma

    corrente da psicologia que se apia no comportamento dos indivduos, acreditando que este

    passvel de observao, mensurao e reproduo.

    A principal crtica da Gestalt ao Behaviorismo que esta ltima ao estudar o

    comportamento isola o estmulo da resposta esperada, ou seja, acredita que para um certo

    estmulo sempre se ter uma determinada resposta, desprezando as nuances da percepo, que

    podem ser pensadas como algo ligado ao valor da conscincia e por sua vez fazer muita

    diferena no comportamento, podendo, inclusive, modificar o seu sentido.

    Para os gestaltianos o comportamento deve ser estudado em uma viso mais generalizada,

    mais ampla, levando em considerao os aspectos que podem modificar a percepo e alterar

    completamente a resposta dada aos estmulos, ou seja, no se pode desprezar a informao de

    que entre um estmulo e uma resposta h o fenmeno da percepo, que pode levar a

    comportamentos diferenciados.

    Segundo Joo Gomes Filho (2003, p.23), Gestalt no seu sentido mais amplo, significa

    uma integrao de partes em oposio soma do todo, entendendo o todo como o resultado de

    uma relao organizada entre as partes. Esse conceito nos remete a idia de que a Gestalt a

    4 Critrio utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE) para classificao social da populao pesquisada, que se baseia, dentre outras coisas, no acesso das pessoas as tecnologias disponveis a sociedade.

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    busca pela superao do desequilbrio, assimetria e possveis irregularidades estticas, no sentido

    de encontrar a boa forma para o fechamento da viso do todo.

    Vejamos a imagem abaixo, em que numa oficina no Vale da Murioca, um jovem

    mecnico se encontra debaixo de um carro erguido por um macaco, consertando-o.

    Foto 1. Oficina Val Car Vale da Murioca

    Na foto acima conseguimos enxergar apenas um pneu do carro, o outro vemos apenas

    uma pequena parte. A lanterna do lado direito do carro vemos muito maior que a do lado

    esquerdo. Contudo, pela necessidade que temos de compreenso do todo, passamos por um

    processo em que na tentativa de fechamento da Gestalt compensamos mentalmente o

    desequilbrio dos elementos irregulares, como a falta de parte do segundo pneu e os elementos

    assimtricos, como o tamanho diferente das lanternas direita e esquerda.

    Por outro lado, a percepo ainda traz muitas outras questes que envolvem a

    subjetividade humana. Ao olhar para a foto acima cada um de ns pode ter percepes

    totalmente diferenciadas em relao aos estmulos nela contidos. Para um jovem do Vale da

    Murioca, que sonha em ser um mecnico de automveis e tenta um estgio no remunerado

    numa dessas oficinas como a Val Car, por exemplo, essa imagem pode representar algo muito

    positivo, pois, ele gostaria de estar na posio daquele mecnico, debaixo do carro, consertando-

    o. Para o dono do carro, um morador da Pituba, essa mesma imagem pode representar algo

    totalmente diferente, pois, se ele estiver, por exemplo, esperando h vrias horas pelo veculo e o

    fato daquele mecnico ainda estar debaixo do carro significa que vai ter que esperar muito mais,

    ou seja, ao contrrio do garoto que contemplaria com grande entusiasmo aquela cena, o dono do

    carro pode no estar nada satisfeito e percebendo-a de forma totalmente diferente. So respostas

    diferenciadas pela percepo para os mesmos estmulos.

    Faz-se ainda necessrio lembrarmos que a percepo obtida do todo, independentemente

    de ser a do garoto do Vale da Murioca ou a do dono do carro e morador da Pituba, s foi

    possvel pela composio de cada um dos elementos daquela imagem de forma nica, pois, o

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    carro sozinho representa algo, o mecnico debaixo dele tambm, mas, quando h uma

    compreenso do todo, a percepo criada, fechando-se a Gestalt.

    Esse fechamento, entretanto, s ser possvel se os elementos que compem aquela

    imagem fizerem parte do repertrio do indivduo, ou seja, se nas suas experincias ele j entrou

    em contato com esses elementos e eles tm significao para ele, pois, s assim vai poder

    compor a viso do todo. Uma pessoa que nunca viu um carro, por exemplo, no conseguir

    fechar a Gestalt com a imagem acima, pois, o carro no tem significado para essa pessoa, no faz

    parte do seu repertrio e, portanto, no poder compreender que aquela imagem representa um

    mecnico consertando um carro, ele no