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Boletim nmero 31 da Comisso Maranhense de Folclore Comisso Maranhense de Folclore Boletim da Comisso Maranhense de Folclore - n 31 JUNHO 2005 ISSN - 1516-1781 SUMRIO Editorial .......................................................................................................... 02

Culinria como bem imaterial Zelinda Lima ...................................................................................................02 Janela do Tempo Domingos Vieira Filho .................................................................................. 03 O Maranho e o maranhense no Bim Bum Bum das Caixas do Divino Antnio Evaldo Barros ................................................................................... 04

Ceclio S, arteso do teatro popular do Maranho Roza Santos .................................................................................................... 06 O Fogo Carlos de Lima .............................................................................................. 08 Polticas pblicas e preservao do patrimnio imaterial: uma discusso necessria Margareth Figueiredo .....................................................................................10 A Festa do Divino Esprito Santo Domingos Vieira Filho ....................................................................................12 Notcias .......................................................................................................... 15 Perfil Popular Canuto Santos Mrcia Mendes ...............................................................................................12

COMISSO MARANHENSE DE FOLCLORE - CMF DIRETORIA Presidente: Maria Michol Pinho de Carvalho

Vice-presidente: Mundicarmo Maria Rocha Ferretti Secretria: Roza Maria Santos Tesoureira: Lenir Pereira dos Santos Oliveira

CORRESPONDNCIA CENTRO DE CULTURA POPULAR DOMINGOS VIEIRA FILHO Rua do Giz (28 de Julho), 205/221 Praia Grande CEP 65.075680 So Lus Maranho Fone: (098) 231-1557 As opinies publicadas em artigos assinados so de inteira responsabilidade de seus autores, no comprometendo a CMF. CONSELHO EDITORIAL: Srgio Figueiredo Ferretti Carlos Orlando Rodrigues de Lima Izaurina Maria de Azevedo Nunes

Maria Michol Pinho de Carvalho Mundicarmo Maria Rocha Ferretti Zelinda Machado de Castro Lima Roza Maria Santos

ENDEREO ELETRNICO: www.cmfolclore.ufma.br

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Editorial

Estamos ainda, no Maranho, em tempos do Divino, e inspirada no sabor tradicional da festa que o homenageia desenvolveu-se uma programao com um diversificado conjunto de atividades, onde a Comisso Maranhense de Folclore atuou como parceira do Governo do Maranho-Secretaria de Estado da Cultura/Superintendncia de Cultura Popular-Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho.

O projeto Divino Maranho 2005, ensejando uma significativa experincia de se vivenciar esse saber dos festeiros e devotos do Divino de diferentes maneiras, contribuindo para o processo de preservao/dinamizao do seu rico universo de componentes.

Agora j estamos entrando no pique dos festejos juninos, cuja abertura feita pelo Trduo Joanesco, realizado pela sexta vez, sempre por volta de 13 de junho Dia de Santo Antnio, um dos quatro santos (os outros so So Joo, So Pedro e So Maral), comandantes dos nossos festejos. E, por trs dias (13, 14 e 15 de junho) promove-se uma programao de oficina, exposies, palestra, projeo de vdeo, apresentaes de espetculo teatral e de grupos folclricos, incluindo manifestaes do interior do Estado.

Na carona desse evento, que tem por tema as Cores do Maranho, com destaque para a negritude da nossa gente, estamos lanando o nmero 31 deste Boletim, trazendo um conjunto de artigos de membros e colaboradores da CMF. Que o seu contedo oferea elementos para o nosso processo de reflexo-ao sobre a cultura popular.

Culinria como bem imaterial

Zelinda Lima1

Os grupos primitivos que povoaram as Amricas trouxeram consigo todo um

saber fazer. O fogo um exemplo disso. Na Serra da Canastra, no estado do Piau, foram encontrados restos de fogueiras, trempes e outros, datados de 10.000 anos. Nos sambaquis do Rio de Janeiro e Santa Catarina, restos de alimentos e utenslios datados de 50.000 anos foram resgatados, como tambm na Lagoa Santa (Minas Gerais), onde foram recolhidos at vasilhames usados na fermentao de bebidas com datao bem antigas.

Esses primitivos povos trouxeram, mais do que simplesmente seus gostos alimentares, de um continente a outro, o modo de preparo dos alimentos, sendo esse o principal bem cultural que nos foi legado: o saber fazer, conhecimento transmitido de gerao a gerao; o modo de acender o fogo, de preserv-lo; as prticas de preparao da comida, do fabrico das bebidas, da confeco dos utenslios e (o que mais nos interessa) a arte da culinria, que chegou at ns modificada e aperfeioada com a colaborao de outras tantas culturas que vo se sucedendo na histria da humanidade.

Muito desse bem imaterial - o saber fazer - atravessou sculos e sculos e algumas dessas prticas permanecem quase no seu estado original nas tribos indgenas remanescentes e nas coletividades caboclas do Interior. E no s o procedimento exclusivo de cozinhar, mas todo um complexo cultural associado alimentao, como a tcnica do corte de lenha, o modo de fazer os utenslios, a arte dos temperos, de conservao da gua e modos de seu uso,

1 Zelinda Machado de Castro e Lima pesquisadora da cultura popular maranhense e autora do livro Pecados da Gula: Comeres e beberes das gentes do Maranho.

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o cultivo e escolha dos ingredientes, as tcnicas da caa e da pesca, enfim, todo o universo imaterial de como e em que poca atuar, deixando mil ensinamentos sobre o melhor modo de proceder.

A cultura nativa recebeu influncias vrias de muitos exploradores, mesmo fortuitos, que nos visitaram, haja vista o banquete que Jacques Rifaux ofereceu a La Ravardire, "como no haver igual na Frana", conforme os elogios feitos.

Outros tero infludo e sido influenciados, reciprocamente, at a implantao dos gostos portugueses e o requinte do paladar, com a colaborao africana.

Desse cadinho de experincias, desses mltiplos saberes, corporificou-se a verdadeira cozinha brasileira, ainda pouco prezada pelo mau costume de nosso tropismo para coisas estrangeiras.

Algumas prticas antigas caram em desuso, ou porque trabalhosas, ou porque substitudas por outras mais convenientes e rpidas (embora com a decadncia do sabor), ou por terem simplesmente sido esquecidas.

Assar e moquear so modos de preparar a carne sobre brasas ainda em uso, seno nas velhas grelhas, em modernas churrasqueiras e assemelhados foges. Os sucos evoluram na forma de fazer com o uso dos liquidificadores e centrfugas, mas permanecem os mesmos com nossas frutas tradicionais.

A pressa, no turbilho da vida moderna, o desencontro dos diversos compromissos, com a quase eliminao da reunio da famlia em torno da mesa, privou-nos desse costume salutar dos almoos e jantares e das comidas prprias de tais ocasies, satisfao de apetites e convvio harmonioso que dava suporte instituio do lar. Era, alm do saber fazer, o saber viver. Reformulamos todo um modo de vida e, com a mudana, perdemos, no h duvida, muito do sabor da felicidade.

Com a introduo de prticas modernas, sofisticando a comida, tiramos dela muito do seu sabor natural e puro, s vezes, com graves conseqncias que, agora, procuramos artificialmente remediar com complementos alimentares.

O grande antroplogo Darcy Ribeiro observa que "extravagncias alimentares" dos ndios, jamais admitidas pelos civilizados, que lhes dava corpos sadios e bem desenvolvidos.

A essa culinria frugal trouxe o portugus as experincias de uma cozinha milenar, por sua vez influenciada pelos rabes, com seus cheiros, sabores, ervas e toda uma nova maneira de preparar os alimentos, com outros condimentos e segredos. S o acar recriou aqui uma doaria monumental.

"A arte de preparar doces foi de tal sorte modificada, no s quanto tcnica de confeco, mas tambm quanto associao de frutas nativas, que se pode afirmar que a doaria uma arte eminentemente brasileira, j apurada e altamente diversificada desde os tempos das escravas e quituteiras e mesmo das senhoras-donas mais cheias de caprichos pelo bom padro de sua casa", ressalta Roberto Simonsen.

Por seu lado, o escravo negro, apesar da opresso e sofrimento (e talvez por isso mesmo) nunca esqueceu seus pagos natais, a religio concorrendo para a preservao dos seus costumes e crenas, funcionando seus cultos como centro irradiador de uma culinria especial que, sendo comida de santo, espalhou-se por toda a populao. Foram novos modos de como fazer e o que fazer e a temos incorporados tantos pratos to apreciados: o bob, o acaraj, o catraio, o caruru, o vatap e toda uma cultura do dend...

Como se no bastassem as influncias dos povos formadores do Brasil, dentro do territrio nacional a culinria foi sendo adaptada e adquirindo caractersticas peculiares de cada regio geogrfica. Assim, a cozinha litornea, assumindo os frutos do mar, desenvolve-se de forma totalmente distinta da culinria das regies centrais do pas, no apenas por alguma diversidade de gneros, mas por uma maneira nova de trat-los, um modo diferente de fazer.

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Todo esse aprendizado foi como que abafado pela distribuio crescente dos produtos industrializados. "Desnaturalizou-se", na expresso feliz do professor Jos Ribamar Trovo. No h mais necessidade de criar e de fazer, tudo j chega pronto, enlatado, engarrafado, congelado. Como no se faz, perde-se o conhecimento de como fazer.

O resgate des