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Page 1: desconto que CUSTA SANGUE cem mil oitavo de mercadoria roubada costumam carregar caixas ou fardos in-teiros, tal qual a carga é armazenada pelas transportadoras. As promoções são

REPORTAGEMLUÃ MARINATTOMARCOS NUNESPOLLYANNA BRÊTAS

EDIÇÃOGIAMPAOLOMORGADOBRAGA

ARTEIVAN LUIZE WILLIAMBATISTA

1

2

3

(Em especial nas zonas metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro)

Brasília-Santos

Rio de Janeiro – Belo Horizonte

Curitiba - Rio de Janeiro

RJ

GO

SP 1BR-116

Rodovias maisperigosas do Brasil

2BR-050

3BR-040

1

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Produto Local e data Local Data Local DataCompramos

porCusta nomercado

Leite semi-desnatado (1L)

Minas Gerais, 17/01/2017

Av. Brasil (alturade Cordovil)

12/02 Entre as estações TomásCoelho e Cavalcanti

14/02, às 10h40

R$2 R$3,99

Leite em póintegral (400g)

Santa Catarina,29/11/2016

Dutra (altura da Pavuna)

08/03, às 14h

Altura da EstaçãoMercadão de Madureira

08/03, às 20h

R$5 R$9,98

Óleo de sojarefinado (900g)

Paraná (semdata)

* 11/03 Entre as estações BarrosFilho e Honório Gurgel

13/03, às 10h30

R$2,50 R$3,49

Manteiga(pote, 200g)

Minas Gerais,05/03/2017

Av. Brasil (alturade Coelho Neto)

13/03 Entre as estações Rocha Mirandae Mercadão de Madureira

14/03, às 10h20

R$2,50 R$7

Sardinha(250g)

Santa Catarina,24/06/2016

Av. Brasil(altura da Pavuna)

16/03(TARDE)

Entre as estações Rocha Mirandae Mercadão de Madureira

16/03, às 20h40

R$2,50 R$6,05

Manteiga(barra, 200g)

Minas Gerais,10/03/2017

Dutra (altura de Comendador Soares)

17/03(MADRUGADA)

Entre as estações Pilares e Tomás Coelho

17/03, às 11h50

R$2,50 R$4,79

Leitedesnatado (1L)

Minas Gerais,15/03/2017

Dutra (altura de Comendador Soares)

17/03(MADRUGADA)

Entre as estações Tomás Coelho e Cavalcanti

17/03, às 11h55

R$2 R$2,80

Balas de frutassortidas (500g)

São Paulo (semdata)

Dutra (entre Pavuna e São João de Meriti)

20/03, às 5h

Entre as estações BarrosFilho e Honório Gurgel

20/03, às 10h35

R$2 R$4,90

Bombom(300g)

São Paulo (semdata)

Dutra (entre Pavuna e São João de Meriti)

20/03, às 5h

Entre as estações BarrosFilho e Honório Gurgel

20/03, às 10h35

R$2 R$3,90

Queijo ralado(50g)

Minas Gerais,20/02/2017

Dutra (altura de Queimados)

22/03 (FIM

DA MADRUGADA)

Entre as estações SãoCristóvão e Triagem

23/03, às 16h40

R$1,25/R$1**

R$1,99

Leite condensa-do (395g)

Minas Gerais,27/01/2017

Av. Brasil (altura de Guadalupe)

29/03(NOITE)

Entre as estações CostaBarros e Barros Filho

30/03, às 10h45

R$3,33 R$5,99

Milho(lata, 200g)

Goiás (semdata)

* 01/04, às 11h40m

Entre as estações CostaBarros e Barros Filho

03/04, às 10h40

R$1 R$1,79

Ovo de codorna(30 unidades)

São Paulo,04/04/2017

Dutra (altura de SãoJoão de Meriti)

06/04, às 7h

Entre as estações Rocha Mirandae Mercadão de Madureira

06/04, às 17h

R$2 R$4,99

Macarrão(500g)

* Estr. da Água Branca(altura de Padre Miguel)

06/04, às 18h

Entre as estações Coelhoda Rocha e Agostinho Porto

06/04, às 19h35

R$1,67 R$2,75

Jujuba (500g) 03/05/2016 (sem local)

Madureira Julhode 2016

Entre as estações Pilarese Tomás Coelho

07/04, às 11h

R$3 R$6,60

Molho de tomate (340g)

Três Rios (RJ) (sem data)

Av. Brasil (alturade Deodoro)

* Entre as estações Costa Barrose Barros Filho

12/04, às 10h

R$2 R$0,99

FABRICAÇÃO ROUBO COMPRAPREÇO

(por unidade)

*Sem informação **Algumas horas depois, e pelos dias seguintes, o preço foi reajustado para R$ 1

OBS.: Os produtos foram rastreados com o auxílio das empresas sob a condição de que elas não tivessem seus nomes ou o das marcas divulgados

TOTAL DEPRODUTOS

COMPRADOS NÃO-RASTREADOS: 11 ROUBADOS: 16 NÃO-ROUBADOS: 229HISTÓRICODOS PRODUTOS

(todos no ramal Belford Roxo da SuperVia)

Diferençamédia de 50%

Foram 9.862 roubos de carga no Estado do Rio em 2016 – um a cada 54 minutos, em

média

O Rio alcançou no ano passado, pela

primeira vez, o patamar de São

Paulo em números absolutos de ocorrências

Proporcionalmente, porém, está à frente: são

59 casos para cada

cem mil habitantes,quase três vezes mais

do que o estado vizinho

A Cidade do Rio de Janeiro perde

R$ 852 mil por dia com esse tipo de crime. O rombo

no ano passado foi de

R$ 311 milhões

Em nível nacional, o prejuízo é de

R$ 161 mil por hora, superando

R$ 1,4 bilhão em 2016

A cada 88veículos de carga

que circulam pelo Brasil, um já

foi alvo de assalto

Numa lista de 57 países, o Brasil é apontado como o

oitavo mais perigosopara transporte de carga, à frente de Paquistão, Eritreia

e Sudão do Sul

MAISNO SITEe x t r a . g l o b o . c o m / v i d e o s

8 ⟩ extra.globo.com Terça-feira, 2 de maio de 2017 Terça-feira, 2 de maio de 2017 extra.globo.com ⟨ 9

te em que o motorista foi rendido,quase sempre em vias expressas ourodovias, como a Avenida Brasil e aDutra, e a venda nos vagões.

Essas revelações vêm à tona noprimeiro dia da série “O Rio sem en-trega”, que destrincha os fatores queenvolvem a modalidade de crimeque mais cresceu no estado nos últi-mos anos. Entre policiais, promoto-res, empresários, representantes detransportadoras e seguradoras, polí-ticos, motoristas, moradores e am-bulantes, 75 pessoas foram ouvidaspara compor o material exclusivosobre roubos de carga que começa aser publicado hoje.

CUSTA SANGUEdesconto que

e

EM ALGUNS casos, entre o roubo e a venda nos vagÕes se passam menos de duas horas

u sou um ovo. Minha mãe,uma codorna, se perde emmeio às 20 milhões de avespoedeiras da cidade de Bas-tos, no interior de São Pau-

lo, onde nasci em 4 de abril desteano. Com um dia de vida, percorriquase mil quilômetros para chegarà Ceasa, no Rio de Janeiro. Logoapós desembarcar, já numa cami-nhonete com destino à Baixada Flu-minense, no início da manhã, ban-didos renderam o motorista na Ro-dovia Presidente Dutra e levaramtoda a carga, eu inclusive. Dez horasmais tarde, quando a caixa em queeu estava foi aberta por mãos estra-nhas, me vi dentro de um vagão detrem, sendo ofertado aos passagei-ros. Fui comprado, numa embala-gem com 29 irmãos, por míseros R$2 — menos da metade do preço ha-bitual. Para que o freguês economi-zasse ao me degustar com molho ro-sé, porém, um trabalhador honestoteve uma arma apontada para si eviu a morte de perto.

A história desse solitário ovo serepete com outras dezenas de pro-dutos. Macarrão, leite, sardinha...Numa lista de roubos que se confun-de com a de compras do mês. Du-rante dois meses, o EXTRA fez cercade cem viagens em todos os oito ra-mais da SuperVia, adquirindo mer-cadoria que aparentava ter proce-dência duvidosa — fosse pela pos-tura dos camelôs, fosse pelo perfilou preço dos itens comercializados.

Ao fim da apuração, de 18 produ-tos rastreados a partir de informa-ções como lote, fabricação e valida-de, 16 (ou 88,9%) eram fruto deroubos de carga. A logística crimino-sa de escoamento que faz a merca-doria chegar à malha ferroviária é dedar inveja a qualquer gigante do se-tor de entregas: metade dos itens ha-via sido roubada no mesmo dia emque os ambulantes os ofereciam notrem. Em alguns casos, passaram-semenos de duas horas entre o instan-

Ambulante vende, no trem, ovos de codorna roubados horas antes

REPRODUÇÃO DE VÍDEO

Ambulantes vendem carga roubada e transformamos trens da SuperVia em feirão de produtos ilegais

B Todos os produtos alvo de roubo com-prados pelo EXTRA nos trens estavamsendo comercializados no ramal BelfordRoxo, que passa entre as comunidadesdo Chapadão e da Pedreira, reduto dasprincipais quadrilhas de assaltantes decarga do estado. Em algumas situações— com um leite e uma manteiga, e comduas embalagens de doces — os itens,mesmo adquiridos com camelôs diferen-tes, em momentos distintos, eram frutode um único roubo de carga. Em ambosos casos, crimes ocorridos horas antes.

Ao contrário dos ambulantes que tra-balham com produtos legítimos, os dis-tribuidores de mercadoria roubadacostumam carregar caixas ou fardos in-teiros, tal qual a carga é armazenadapelas transportadoras. As promoçõessão uma estratégia comum, com váriasunidades sendo vendidas por um valorcheio, como R$ 5 ou R$ 10. E não há omenor constrangimento em, volta emeia, evidenciar a procedência ilegaldos itens: “O caminhão tombou, o pre-ço baixou”, diz um dos bordões mais re-petidos por vendedores nos vagões.

Todos os produtos comprados peloEXTRA, assim como as filmagens e fotosregistradas dentro das composições, se-rão entregues à Delegacia de Roubos eFurtos de Cargas (DRFC) para auxiliarna investigação dos crimes. s

t

‘O CAMINHÃOTOMBOU, OPREÇO BAIXOU’

O camelÔ do crime costuma carregar caixas e fardos inteiros dos produtos

Rastreio foi feito via lote, fabricação e validade

ROBERTO MOREYRA

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AMANHÃFavelas já lucram mais comroubo do que com tráfico.

Há alguma investigação sobre ambu-lantes que vendem carga roubada?Temos um inquérito aberto que obje-tiva justamente identificar esses re-ceptadores de menor escala, quetambém alimentam o mercado crimi-noso. E, aqui na DRFC, nós temos umlema: receptador não é trabalhador.Isso é lenda. Receptador é criminoso.

Quem compra um produto roubadono trem pode responder por isso?Sim. Quem adquire esse tipo de mer-cadoria também é um receptador. Aspessoas têm de ter em mente quealimentam um ciclo vicioso. Estãoestimulando que uma arma sejaposta na cabeça de um trabalhador.

Como diferenciar o produto roubado?Não é crível que alguém esteja ven-dendo, dentro de um vagão, um pro-duto perecível que deveria estar ar-mazenado. O risco de perda do mate-rial é enorme. Outra coisa é o preço.Não é possível que a pessoa não per-ceba que o produto está sendo ofere-cido por um valor muito abaixo domercado. A conta não fecha.

Por que a explosão, nos últimos anos,no número de roubos de carga?Houve uma mudança muito grandede 2013 para cá, porque foi o mo-mento em que o tráfico de drogaspassou a ter interesse nesta modali-dade criminosa. O tráfico entrou(para roubar cargas) porque perce-beu que era um tipo de crime ondenão era necessário investimento paraobter um grande retorno financeiro.

‘QUEM ADQUIREESSE TIPO DEMERCADORIATAMBÉM É UMRECEPTADOR’

ENTREVISTAMAURÍCIO MENDONÇADelegado titular da Delegacia deRoubos e Furtos de Cargas (DRFC)

GIO

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I SA

NF

ILIP

PO

SUPERVIAA SuperVia diz entender que “a venda deprodutos roubados dentro dos trens eestações se configura como um problemade segurança pública”. De acordo com aconcessionária, sua equipe de segurança“não tem poder de polícia e, por isso, osagentes não podem apreender e nemmesmo atestar a origem dos produtos”.....................

FLUXO DE PASSAGEIROSPor dia, segundo a SuperVia, cerca de 700mil pessoas circulam pelos trens doestado. A concessionária se negou a

repassar o número de passageiros apenaspara o ramal Belford Roxo. Dados de 2015,porém, apontam para uma média de 27mil usuários diariamente nessa linha.....................

POLÍCIA MILITARJá a PM informou que o Grupamento dePoliciamento Ferroviário (GPFER),responsável por patrulhar a malhaferroviária, teve seu efetivo dobrado eredistribuído, em maio, para atuar,principalmente, em áreas de grande fluxode pessoas, como as estações deMadureira, Deodoro e Belford Roxo.

POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERALA Polícia Rodoviária Federal afirmou terintensificado ações de inteligência cominvestimentos em tecnologia eacrescentou que utiliza um helicópterono policiamento. A íntegra de todas asrespostas está no site do EXTRA.....................

EMPRESASAo todo, 14 empresas, de diferentesportes, colaboraram com a reportagemdo EXTRA. Os produtos foram rastreadossob a condição de que elas não tivessemseus nomes ou os das marcas divulgados.

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RESPOSTAS........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................

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