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  • Biologia da conservao: cincia da crise

    261Semina: Cincias Agrrias, Londrina, v. 23, n. 2, p. 261-272, jul./dez. 2002

    Biologia da Conservao: cincia da crise

    Conservation Biology; a crisis science

    Efraim Rodrigues, Ph.D.1

    Resumo

    A cincia da Biologia da Conservao foi desenvolvida como uma resposta crise de extino deespcies que o mundo enfrenta atualmente. A Biologia da Conservao uma sntese de diferentesdisciplinas, como Ecologia, Biologia de Populaes, Antropologia, Taxonomia, e outras, todas enfocadasna preveno da extino de espcies. O Desenvolvimento de uma Biologia da Conservao Brasileiradepende de encontrar um compromisso entre os problemas sociais e a grande biodiversidade no pas.Trs projetos que conseguiram alcanar bons resultados no Brasil so descritos. O Projeto TAMAR, oMamirau, e um livro texto sobre biologia da conservao.Palavras-Chave: Biologia da conservao, espcies brasileiras

    Abstract

    The science of conservation biology has been developed as an answer to the extinction crisis the worldis currently facing. Conservation Biology is a synthesis of many different subjects, like Ecology, PopulationBiology, Anthropology, Taxonomy, all of them focused on preventing species extinction. The developmentof a Brazilian Conservation Biology depends on finding a compromise between the social problems andthe large biodiversity in the country. Three projects that managed to achieve good results in Brazil aredescribed: TAMAR, Mamirau, and a text book on conservation biology.Key-Words: Conservation Biology, species Brazil

    1 Professor Adjunto do Departamento de Agronomia da Universidade Estadual de Londrina.

    A extino de espcies e suas conseqncias

    O vasto patrimnio que o conjunto de todas asespcies e comunidades naturais da Terra est sobrisco iminente. Extintas as espcies, sero afetadostambm todos os processos naturais que que guardamrelaes com estas espcies, como ciclagem denutrientes, eroso, polinizao e disperso de sementes.

    O evento de mega-extino por que passa nossoplaneta coloca todo estes processos em risco, e jun-to com eles, muitas atividades humanas que depen-dem deles. A extino de espcies implica em lti-

    ma instncia, em acelerao do aquecimento global,em menor eficincia da agricultura e na reduo dopotencial turstico de muitas reas.

    Assim, o que negativo para a diversidade biol-gica ser mais cedo ou mais tarde negativo para aespcie humana.

    O que Biologia da Conservao

    A biologia da conservao uma cinciamultidisciplinar que foi desenvolvida como resposta

    COMUNICAES / COMMUNICATIONS

  • Rodrigues, E.

    Semina: Cincias Agrrias, Londrina, v. 23, n. 2, p. 261-272, jul./dez. 2002262

    crise com a qual a diversidade biolgica se con-fronta atualmente (Figura 1). Ela surgiu uma vez quenenhuma das disciplinas tradicionais aplicadas soabrangentes o suficiente, para tratar das srias ame-aas diversidade biolgica. A biologia da agricultu-ra, silvicultura, de gerenciamento da vida selvageme da piscicultura ocupam-se basicamente do desen-volvimento de mtodos para gerenciar umas poucasespcies para fins mercadolgicos e de recreao.Essas disciplinas geralmente no tratam da proteode todas as espcies encontradas nas comunidadesou as tratam como um assunto secundrio. A biolo-gia da conservao complementa as disciplinas apli-cadas fornecendo uma abordagem mais terica egeral para a proteo da diversidade biolgica; eladifere das outras disciplinas porque leva em consi-derao, em primeiro lugar, a preservao a longoprazo de todas as comunidades biolgicas e colocaos fatores econmicos em segundo plano.

    As disciplinas de biologia populacional, taxonomia,ecologia e gentica constituem a base da biologia da

    conservao e muitos biologistas de conservaoprocedem dessas disciplinas. Alm disso, muitos dosespecialistas em biologia da conservao foram trei-nados inicialmente em zoolgicos e jardins botnicostrazendo consigo experincia em manter e reprodu-zir espcies em cativeiro. Uma vez que grande partedas extines de espcies tem origem na pressoexercida pelo homem, a biologia da conservao tam-bm incorpora idias e especificidades de vrias ou-tras reas, alm da biologia (Figura 1). Por exemplo,legislao e poltica ambiental do sustentao pro-teo governamental de espcies raras e ameaadase de habitats em situao crtica. A tica ambientaloferece fundamento lgico para a preservao dasespcies. As cincias sociais tais como antropolo-gia, sociologia e geografia fornecem a percepo decomo as pessoas podem ser encorajadas e educadaspara proteger as espcies encontradas em seu am-biente imediato. Os economistas ambientais anali-sam o valor econmico da diversidade biolgica parasustentar argumentos em favor da preservao. Eco-

    Figura 1 A Biologia da Conservao realiza uma nova sntese a partir de diversas reas (esquerda) que ofereceprincpios e novos enfoques para o manejo de recursos (direita). A experincia acumulada na rea por sua vez orientaa direo da pesquisa acadmica.

  • Biologia da conservao: cincia da crise

    263Semina: Cincias Agrrias, Londrina, v. 23, n. 2, p. 261-272, jul./dez. 2002

    logistas e climatologistas de ecossistemas monitoramas caractersticas fsicas e biolgicas do meio ambi-ente e desenvolvem modelos para prever as respos-tas ambientais a distrbios.

    Sob vrios aspectos, a biologia da conservao uma disciplina de crise. As decises sobre assuntosrelativos conservao so tomadas todos os dias,muitas vezes com informao limitada e fortementepressionadas pelo tempo. A biologia de conservaotenta fornecer respostas a questes especficas apli-cveis a situaes reais. Tais questes so levanta-das no processo de determinar as melhores estrat-gias para proteger espcies raras, conceber reser-vas naturais, iniciar programas de reproduo paramanter a variao gentica de pequenas populaese harmonizar as preocupaes conservacionistas comas necessidades do povo e governo locais. Os bilo-gos e outros conservacionistas de reas afins, sopessoas adequadas para fornecer a orientao queos governos, as empresas e o pblico em geral ne-cessitam quando tm de tomar decises cruciais.Embora alguns bilogos conservacionistas possamhesitar em fazer recomendaes sem ter conhecimen-to detalhado das especificidades de um caso, a urgn-cia de muitas situaes pede decises com base emdeterminados princpios fundamentais de biologia.

    A biologia da conservao fundamenta-se emalguns pressupostos bsicos (SOUL, 1985). Essespressupostos representam um conjunto de asseresticas e ideolgicas que sugerem abordagens cient-ficas e aplicaes prticas. Embora nem todas es-sas asseres sejam aceitas inequivocamente, a acei-tao de uma ou duas j razo suficiente para jus-tificar os esforos em favor da conservao.

    1. A diversidade dos organismos positiva. Em ge-ral, as pessoas gostam da diversidade biolgica.As centenas de milhares de pessoas que visitamos zoolgicos, parques naturais, jardins botnicose aqurios a cada ano, so prova do interesse dopblico em geral na diversidade biolgica. A va-riao gentica das espcies tambm tem apelopopular, como demonstrado nas exposies de

    ces e gatos, exposies agropecurias e de flo-res. Tem-se especulado, inclusive, que os sereshumanos tm uma predisposio gentica paragostar da diversidade biolgica, chamada biofilia(WILSON, 1984; KELLERT e WILSON, 1993).A biofilia teria sido vantajosa para o estilo de vidacaa e coleta que o ser humano viveu durantecentenas de milhares de anos antes da invenoda agricultura. Uma grande diversidade biolgicateria lhe proporcionado uma variedade de alimen-tos e outros recursos, protegendo-o das catstro-fes naturais e da fome.

    2. A extino prematura de populaes e espcies negativa. A extino de espcies e populaescomo conseqncia de processos naturais umacontecimento normal. Atravs dos milnios dotempo geolgico, as extines das espcies tmsido equilibradas pela evoluo de novas espci-es. Da mesma forma, a perda local de uma popu-lao geralmente compensada pelo estabeleci-mento de uma nova populao atravs de disper-so. Entretanto, a atividade humana aumentou milvezes o ndice de extino. No sculo vinte, vir-tualmente todas as centenas de extines conhe-cidas de espcies de vertebrados, assim como ospresumveis milhares de extines de espcies deinvertebrados, foram causadas pelo ser humano.

    3. A complexidade ecolgica positiva. Muitas daspropriedades mais interessantes da diversidadebiolgica aparecem apenas em ambientes natu-rais. Por exemplo, as relaes ecolgicas e decoevoluo existentes entre as flores tropicais,beija-flores e caros que vivem nas flores. Oscaros utilizam os bicos dos beija-flores como umveculo de transporte para ir de flor em flor(COLWELL, 1986). Tais relacionamentos nuncateriam sido descobertos se os animais e as plan-tas estivessem morando isoladamente em zool-gicos e jardins botnicos. As estratgias fasci-nantes de animais do deserto para obter gua noteriam sido conhecidas se os animais estivessemvivendo em jaulas com gua vontade. Emboraseja possvel preservar a diversidade biolgica das

  • Rodrigues, E.

    Semina: Cincias Agrrias, Londrina, v. 23, n. 2, p. 261-272, jul./dez. 2002264

    espcies em zoolgicos e jardins, a complexidadeecolgica que existe nas comunidades naturaisestaria em grande parte perdida.

    4. A evoluo positiva. A adaptao evolucionria o processo que eventualmente leva a novasespcies e ao aumento da diversidade biolgica.Portanto, permitir as populaes evoluir in-situ positivo. As atividades humanas que limitam ahabilidade das populaes de evoluir, tais comoreduzir severamente o tamanho de uma popula-o de espcies atravs da extrao excessiva,so negativas.

    5. A diversidade biolgica tem valor em si. As es-pcies tm seu prprio valor, independentementede seu valor material para a sociedade humana.Este valor conferido pela sua histriaevolucionria e funes ecolgicas nicas e tam-bm pela sua prpria existncia.

    3) A Biologia da Conserv

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