AS FOLHAS DO OUTONO

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Conto criado por Tzio Silvestre. Nenhuma parte pode ser reproduzidas sem a autorizao dele.

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  • AS FOLHAS DO OUTONO

    As folhas, alaranjadas e dobradias nas pontas, de outono caem dos galhos secos e

    finos das rvores; algumas vo embora com o vento, danando graciosamente pelo ar,

    enquanto outras formam um montante sobre a terra mida.

    desse jeito que comeo a velar a minha histria. dessa forma que a interpreto. As

    folhas pertencem s lembranas do passado as quais foram guardadas todos esses anos,

    em minha mente, enclausuradas. quelas que danam com o vento so as que vo

    embora de mim, como se fossem se apagando lentamente com as guas do mar; elas no

    pertencem mais a mim. Nunca. As outras, as folhas do montante, so as que me restam.

    Olho para as minhas mos enrugadas, as veias aparecendo assim como os ossos, e

    lembro-me de anos atrs. Lembro no s das mos, mas dos dias mais viris, mais claros

    e reluzentes. Dos sonhos que nunca desisti, embora pensasse em abandon-los, algumas

    vezes. Das promessas de ser eterno. Das aventuras juvenis. Naquele tempo, remoto, eu

    posso dizer, talvez eu fosse infinito. Mas, de verdade, o que ser infinito?

    difcil dizer. A cada novo dia, a cada raio resplandecente do sol de uma nova

    manh, o meu conceito mudava. Meus planos eram outros, alguns tomavam um rumo

    consciente. Mas quem eu quero enganar? Eu tinha sonhos, no entanto, poucos deles

    foram totalmente realizados. Concretizados. E, hoje, eles no fazem mais parte de mim.

    Fazem parte de um passado do qual vivi. Do qual lembrei. Do qual sinto saudades.

    Para sempre.

    Creio que, embora devido a minha idade avanada, eu posso ser infinito. Isso

    depende apenas de mim. Apenas do ser humano. Pois, como dito em certo livro, temos

    que acreditar em ns mesmo. Temos de acreditar que momentos, alguns deles claro

    sero eternos, no no dia-a-dia, mas, sim, em lembranas fragmentadas. E essas

    lembranas fragmentadas no iro se apagar, pois iremos sentir, ao lembrar, o aperto no

    corao. Ora, ns somos apenas espectadores de nossas vidas! Ela passa diante de

    nossos olhos, e no podemos fazer nada para pausar determinados momentos.

    Quando se lembrar de memrias assim, recorde das folhas do outono, pois elas so

    iguais a voc. As lembranas podem ir embora com o tempo, mas sabers que ela esteve

  • ali, na sua mente, durante um longo tempo, assim como as folhas, que danam no ar e

    deixam sua marca, enquanto outras, ao cair no cho, deixam tambm uma marca.

    Cravo e canela.

    Esse o gosto da lembrana que sinto.

    Eu quero ser infinito.

    E serei.

    Sempre.