Árvore : folhas de poesia, fascículo 1, Outono de 1951

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  • folhas de poesia

    Outono de 1951

  • Al\f7GOS

    DE

    ARVORE ALFRl!DO MARGARIDO

    ANtNIO CARLOS

    Al\TTNIO SI/.fOES SARAH' A

    ANTNIO VlElRA ALVES

    CRISTV AM PAVIA

    EGITO GONALVES r

    ERNESTO Cl!SAR DOS SANTOS SILVA

    FERNANDO LU/S DE CASTRO R. CABRAL

    'FERNANDO SIJ\fOES BARROSO

    FERNANDO VlEIJA

    INCIO /OSF. .ALVES Jl}NJOR

    JOAQUIM MO~'TEZUMA DE CARVALHO

    JOSP. ANTNIO VERA DE AZEVEDO

    JOSll BAJVMDAS CAEIRO

    /OSP. TOMAS DA COSTA PINTO

    LUIS AMARO DE OLIVEIRA

    1\fANUEI. ANTUNES

    \ 1\IASUEL PINTO

    1\1A1'ILDE ROSA .ARAVJO

    ROGERIO FERNANDES

    SEBASTIO DA GAMA

    F ASCO DE OLIVEIRA GRANJA

    l'JTERBO FONSECA MORENO

    VlrOR MATOS E SA

  • 1t ou.

    ARVORE folhas de poesia

    Direco e Edio de

    Antnio Lus Moita, Antnio Ramos Rosa, Jos Terra, Lus Amaro, Raul de Carvalho

    Correspondncia para: Apartado 857 - LISBOA

    Of1cma.s Grficas de Ramos, Afonso & Moita, Lda.-R. Voz do Operrio-S. Vicente de Fora-l,isboa

    Dmnco GRFICA DE Lus MorrA

    1. Fascculo Outono

    A 11ece11idade da Poesia .................... . Esfinge ou a Poesia, por Ed11ardo Lou-

    re11co ....................................... . Viagem atravs duma nebulosa, de Ant-

    nio Ramos Rosa .......................... . Sobre os partidarismos em Poesia, por

    A/varo Sal ema ............................. . Poemas de Antnio Vera ................. . Poemas de Cristvam Pavia ........... ... . Pgina~. de Dirio, por Matilde Rosa

    Ara1110 ...................................... . Ave perseguida, de ]o.r Terra ........... . Nocturno, de Ferna11do Vieira ........... . Encontros Europeus de Poesia - En-

    trevista com Adolfo Casais Monteiro rvore, de Ra11/ de Carvalho .......... _, .. . Largo do Esprito Santo, 2, 2.0 , de Se-

    bastio da Gama .......................... .

    "' POETAS ESTRANGEIROS:

    Apresentao de algumas tradues de Stephen Spender, por j orge de Sena .. .

    Poemas de Stephen Spender . ............. . A margem duma leitura de Ren Char,

    por Antnio Ramos Rosa .............. .

    ,

    Sumrio Po.

    2

    5

    10

    13 15 17

    19 22 28

    29 34

    36

    38 41

    45

    PO.

    Poemas de Ren Char........................ 48

    * Poema de Alberto de l.Acerda.. .. . .. .. . .. 53 Poemas de Amnio Lus Afoita . . . . . . . . . 54 Poemas de Egilo Gonalves . . . . . . . .. .. . . . . 57 Poemas de L11s Amaro .. . . . . . . . .. . . .. . . . . . 59 Mos de Me, por Maria Guilhermina 61

    Nota s,~bre a A11tora, por Matilde Rosa Arauio ................................... 62

    Os Perigos da Poesia e a Pedra Filo-sofal de Jorge de Sena, por V asco ll1irmrda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64

    AJguns livros de Poesia (crtic.:1), por A. R. R., Dtu id l11011ro-Ferreira, /. T. 69

    LIVROS CRITICADOS:

    dlora Entendida>, de Maria da Encarnao Baptista; Dez Odes ao Teio, de Armindo Rodrigues; A8 Coorde~ Lricas. de Fer-nanda Botelho; A Viglia e o Sonho. de Jos Fernandes Fafe; As Palavras Interditas, do Eugnio de Andrade; Corpo Visvel, de M-rio Ccsariny de Vasconcelos; Coral, de Sofia de Mello Breyner Andresen ; Poemas, de Alberto de Lacerda; Linha do Horizonte>, de Aguinaldo Fonseca.

    Desenho de Lima de Freitar Extra-texto a seguir pg. lG

  • A necessidade da Poesia

    ean Cassou afirma que a poesia a mais perfeita expresso do

    homem, a sua mais alta operao espiritual e que o seu fim

    explicar o homem, acompanh-Lo, exalt-Lo no decurso da

    sua prodigiosa ascenso.

    grandeza das contradies defla prodigiosa ascenso nao

    pode deixar de opor a poesia o seu rofio resplandecente ainda que

    torturado, roflo onde se reflele e reconhece, nos seus abisma del-

    rios, nas suas fugas, nas suas vitrias e derrotas, a vida dramtica do

    homem que a todo o cuflo procura humanizar o mundo, mudar a vida.

    A poesia confronta-se Luz crua e radical da tragdia, supera-a e, no mais aceso da luta, na tenso mxima das contradies, ela que

    promete e afiana a sntese em que todos os valores do homem se

    possam encontrar sem sacrifcios mutiladores. Como no mito de

    A nteu, efl ligada terra dos homens para atingir os mais altos momen-tos do humano em que a vida criao, potncia, pura virtualidade,

    vibrao do desejo decantado, catrsis.

    O seu fim eminentemente social mesmo quando a sua men-sagem pessimifla. E Ren Bertel quem, num seu conhecido ensaio

    sobre Henri Michaux, repete a crena num pessimismo tnico .

    E diz-nos da finalidade social da poesia: dar fora ao homem, per-

  • mitir-lhe agir sobre o mundo. Desenvolvendo todas as leis da ima-

    ginao, reivindicando a su~ difcil singularidade, exaltando-a para melhor e mais concretamente se integrar no universal- assim que o poeta age. J em alguns poetas a poesia ultrapassa o efldio de recusa

    de um mundo convencional (fase destrutiva mas necessria, cujo

    perigo consiflia em levar a negao a extremos onde o humano se

    dissolvia)- e uma nova poesia surge lucidamente empenhada na

    epopeia do nosso tempo, revalorizando tudo o que une essencialmente

    os homens, vivendo da comunho dos grandes ideais, toda voltada para

    o futuro e a esperana. Sob o signo da angflia ou da esperana - que

    tantas vezes se fundem no poema - o certo que o poeta procura sempre afirmar a sua diferena, a originalidade do seu canto, numa relao vlida com o universo, definida como experincia.

    Nada tem a ver a poesia com a fico homem comum. A s111a

    condio de a mais alta operao espiritual obriga-a ao desenvolvi-

    mento mximo das faculdades humanas, na sua maioria amortecidas

    pela exiflncia degradante. No pode haver razes de ordem social

    que limitem a altitude ou a profundidade dum universo potico, que

    se oponham liberdade de pesquiza e apropriao dum contedo cuja complexidade exige novas formas, o ir-at-ao-fim das possibilidades

    '

  • '

    criadoras e expressivas - porque a poesia e a arte tambm obedecem

    a um prindpio de extenso. Livre, a palavra mais querida dos poetas, a mais vital para a poesia.

    A tentos multiplicidade do real e maravilhosa diversidade dos deflinos poticos, a nossa posio a da total iseno a tudo quanto

    a poesia der voz e pela poesia se realizar. Nosso primeiro critrio:

    o da autenticidade.

    Renegando a gratuitidade como inteno (e no como resultado

    ldico do momento criador), consideramos a superior necessidade da

    poesia tanto no plano da criao como no da demanda social. Lutando

    pela dignificao da nossa condio de poetas, no esqueceremos nunca

    que o sentido da verdadeira poesia o da prodigiosa trscenso do

    homem. O miflerioso triunfo dos versos s se eflabelece quando as foras da vida subjugam as da morte-quando a poesia uma per-

    ptua conquifla.

  • Esfinge ou a Poesia

    (para M. N. C.)

    por duardo Loureno

    EM face da sua imagem ou da sua sombra, o homem realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites. A aventura misteriosa de Narciso repete-se desde a infncia em frente de cada espelho. Gostaramos de nos tocar do lado de l sem quebrar o vidro nem turvar a gua. E como Peter Schlemihl, pouco importaria vender a sombra ao diabo, se com isso o tempo se detivesse sobre o nosso rosto e pudssemos ser, fosse um s instante, a absurda criatura imvel e transparente que nos sonhamos.

    A aventura impossvel pois a imagem e a sombra so reais. Isso significa que um mundo nos cerca, nos divide e nos limita. Jamais sere-mos esse que pode ver-se face a face. Mas o jogo demasiado srio para u perdermos ao primeiro gesto. Se no nos podemos olhar procuremos entre os monstros, os demnios e os deuses que crimos, esse rosto impas-svel que o vento e a chuva de cada dia no nos consentem.

    Foi assim que o encontro com um monstro nos ofereceu aquilo que as divindades excessivamente magnficas e as potncias infernais no nos puderam dar: a expresso mais rara dum ser que no chega ao fim dos prprios braos, como um homem. E impossvel reconhecer um homem em Anbis de focinho de chacal ou uma mulher em Isis, a virgem-me de face de lua. Mas fcil reconhec-los nesse ser ambguo que os antigos egpcios talharam na rocha do deserto e os gregos geis deixaram errar perigosamente pelos caminhos de Tebas a Corinto. Esp-rito da Terra capaz de romper atravs da vida obscura da inrcia animal

    / para oferecer uma face de deus ao apelo universal da luz, a Esfinge incarnao perfeita da ambiguidade radical da situao humana. E ao

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  • \

    l

    mesmo tempo a realizao plstica mais concreta do acto original do homem: a poesia.

    Chamaram-lhe misteriosa e enigmtica. E ela no seno ambgua. O seu mistrio o mesmo do homem: no poder ser para outro homem um objecto como todos os outros e, sobretudo, no ser jamais para si prprio seno sujeito, vida original atravs da qual ascendem existncia todas as coisas que contemplamos: mundo, histria, valores e os outros homens.

    E todavia difcil suportar continuamente a ideia de que o mundo, a histria, os valores e os outros so para ns a criao do acto de liberdade pelo qual os aceitamos ou combatemos. A tentao suprema a de nos despirmos dessa terrvel liberdade, alienando-se para descansar no mundo dos objectos ou no mundo dos deuses. Fcil ser definitivamente animal ou deus. D ifcil assumir a realidade monstruosa de superar um e com-bater com outro, como uma esfinge, como um homem.

    Como admirarmo-nos se a histria terrestre da esfinge encerrar a mesma tentao? Criatura humana, mal sada das nossas mos, apresen-tou-se-nos como a imagem definitiva do mistrio e do enigma. Criatura nossa, colocou-se um dia nas encruzilhadas de Tebas para nos exigir a nica palavra necessria da salvao humana. Porqu? Por que motivo um rosto silencioso riscado dum sorriso nos confinou com a mais obscura das dificuldades? Por que razo uma face de mulher se revestiu da cruel-dade necessria para nos devorar? Como uma obra de homem, um homem, se tornou deus para outros homens? Como um deus humano se tornou na essncia mesma do terror e da morte? Pode a poesia ser mortal ?

    Interroguemos a mais antiga, a esfinge silenciosa. Faamos exacta-mente o contrrio do que fizeram os homens que depararam com o seu sorriso e imaginaram que era esse sorriso quem os interrogava. Ora a Esfinge no uma interrogao seno no esprito dos arquelogos (do corao e da inteligncia, no dos verdadeiros, que so magnficos poetas) .

    No esprito do seu criador, a Esfinge uma resposta. A poesia expresso de origens. Solicitado peia noite animal e a plenitude solar, um poeta talhou na rocha uma forma visvel da sua condio. Com-preender a Esfinge, compreender a poesia olh-la sem a tentao de lhe perguntar nada. E aceitar o ncleo de silncio donde todas as formas se destacam. A obra vale pela densidade de silncio que nos impe. Por isso os poetas que imaginam dizer tudo so to vos como as esttuas gesticulantes.

    Agora fcil compreender como pde nascer o mistrio da esfinge. O enigma da poesia. Ele existe para homens incapazes de acolher esse

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  • silncio original. Gente que no compreende, enquanto no substitui a irredutvel figura de uma obra, a mpar forma de um poema, por uma palavra, por um discurso. S o criador sabe que no lugar de uma forma no havia outra forma e que o dicionrio impotente para os fillogos quanto mais -para os poetas. Mas h os outros, os arquelogos do corao e da inteligncia, outros que podem ser os prprios poetas quando dei-xam de estar vigilantes. Assim aconteceu ao criador da Esfinge (daquilo a que os outros chamariam Esfinge).

    E humano sentir-se cansado ao fim duma obra. O nosso poeta cansou-se e adormeceu entre as patas poderosas da sua criatura. Durante a noite o vento do deserto (e todos os criadores sero conduzidos ao deserto em certas horas, como o Cristo) arrastou a areia e cobriu com ela as razes da criatura e o seu criador. Quando veio a manh foi assim, sem autor e desfigurada, que a obra apareceu aos o~tros que por acaso a encontraram no caminho.

    Ento puseram-se a interrog-la longamente pelo dia adiante. A interrogar o silncio. Como admirarmo-nos se o silncio no respondeu? Mas esses homens eram professores, crticos, gente imensamente sensata que no tem descanso enquanto no encontra um nome para se livrar de tudo quanto grave e inquietante e para quem grave e inquietante tudo quanto no tem um nome.

    Professores, no sentido de Kierkegaard. Desesperados do estranho animal silencioso, ao fim do dia concluram estar na presena no dum enigma qualquer, mas da essncia mesma do enigma. Era o mistrio abrupto dum monstro sem sentido e sem autor. Seria excelente se tives-sem ido embora em silncio. Teriam respeitado o silncio. Mas era necessrio catalogar o fenmeno. Chamaram-lhe ento Esfinge que significa mistrio.

    Como progresso era notvel. Assemelha-se ao da logstica nos nossos tempos felizes. Mas ficaram satisfeitos porque imaginaram com razo que o seu autor (se tinha autor) no encontrara m nome para a sua obra. Na verdade ningum tem nome para si prprio.

    O resto a histria banal dum equvoco com excelente propaganda como a dos professores. Eles desertaram o deserto para anunciar por toda a parte que surgira um enigma novo. Como poderiam imaginar (esses homens sem imaginao) que a resposta ao sorriso feminino da obra jazia sob eles, no poeta adormecido por uma s noite em que no pde vigiar a sua criatura?

    A segunda histria, a da esfinge grega, mais estranha. N o podemos dizer agora que o mistrio nasce apenas por haver homens

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  • obrigados por profisso a inventar enigmas e a fazer perguntas absurdas. E a prpria esfinge quem nos prope uma questo. A todos, aos profes-sores e aos poetas. A poesia no somente aceitao de silncio. A esfinge interroga os jovens tebanos e f-lo atravs de palavras que toda a gente compreende mas a quem ningum responde. O enigma agora real e os jovens mortos testemunham da seriedade do mistrio.

    Os poetas oficiais de Tebas (e os sacerdotes) no compreendiam como a poesia se pudera tornar mortal. Como o deus silencioso do antigo Egipto adquirira poderes para devorar o seu criador. Cada poeta sabia que se repetisse novamente o gesto original da criao o monstro se tornaria humano, mas esquecera-se dele. A esfinge parecia-lhe at mais divina que ele prprio e acabavam como os outros 1perguntando-se o que que ela significava e quem seria.

    Impotentes, imaginaram dominar o monstro repetindo os antigos encantamentos, fazendo poesia da poesia. Isto , gaguejando. S os mais lcidos viram que a hora do seu destino solar tinha passado. H aviam cometido o pecado radical olhando para trs como a mulher de Loth. Assim o seu passado os alcanou, mineralizando-os como mulher bblica. Os seus poemas, a esfinge criada, vinham novamente ter com eles. No podiam renovar-se.

    Quem afrontaria o monstro, o deus da inrcia, do hbito, da morte? Um poeta novo, com armas novas, capaz de recordar ao deus as suas crigens. Quando j ningum sabia dizer quem era a esfinge, que estranho ser era esse da poesia, o jovem Edipo passou por acaso nos arredores de Tebas. No era sequer aquilo a que os outros chamavam um poeta. Era apenas um adolescente que no olhava para o passado, porque todo o passado caminhava nos seus passos para dias magnficos. Ignorava as virtudes do silncio e as suas palavras tinham um jeito brbaro, mas o pobre deus humano duvidou dos seus poderes quando encontrou os seus olhos inflexveis. Edipo s sabia uma nica coisa: que todos os enigmas so enigmas do homem. Logo o HOMEM devia ser a resposta a todos os enigmas. Mesmo aos dos deuses que se lhes escapam das mos para o perder.

    Acertou. O homem era a resposta. O deus precipitou-se no mar quando um adolescente disse a palavra inimiga de todos os deuses. Um futuro puramente humano ia edificar-se sobre um mistrio sepulto. O terror e a morte que viessem seriam dominados por uma s palavra.

    Contudo, o resto da histria trouxe um prmio diferente ao assas-sino dos deuses. A engi:enagem mais bem montada da fatalidade caiu sobre os seus ombros hericos e aniquilou-o entre os seus anis. Casar

    8

  • com a me, assassinar o pai, arrancar os olhos, esse o prmio de assumir um destino puramente humano?

    Curioso ns termos a tentao de aceitar que tudo devia ser assim. E de repetir por nossa conta o destino de :Edipo. Contudo, se aceitamos que a esfinge o homem e a resposta ao seu enigma uma resposta humana, como no tentar descobrir a fonte donde jorrou novamente a fatalidade vencida? Uma vez mais ela nasceu dum esquecimento. De uma ten-tao renovada de olhar para trs procura dum crime imaginrio, que Edipo devia ter assumido, ou antes, rejeitado, com uma coragem de homem. Edipo pensou que uma frmula era uma soluo. E ela era s uma dificuldade. Que bastava dizer uma s vez HOMEM e o terror e os monstros se sumiriam para sempre. Foi o primeiro humanista sincero mas abstracto.

    A verdade que os monstros voltam sempre. O combate com o anjo de todas as horas. Servirmo-nos do escudo do homem assumir a sua ambiguidade. E saber que nada existe nossa frente seno o que consentimos criar com as nossas mos. A cada hora o mundo o que fazemos dele. A histria o que fizermos dela. E os valores. E os encon-tros. Impossvel aceitar como Edipo que tudo est feito s porque des-cobrimos a frmula que permite que tudo se faa.

    Tudo se est fazendo. Se cruzamos os braos, as coisas e as ideias voltam ao caos, e os fantasmas da necessidade e da morte adquirem novo alento pela nossa desistncia. Era indecente que um s tivesse carregado a cruz uma s vez. O cristo sabe que deve lev-la todos os dias. A cada hora basta a sua pena, mas cada hora precisa duma dor nossa para se sentir acordada. A Esfinge no um enigma resolvido nem a resolver nos sculos futuros. A Poesia no uma rvore morta nem a fazer florir nas colinas de amanh. E a resoluo que damos histria, aos encontros, s promessas de cada vez que cons~ntimos descer das palavras dificul-dade dos actos. Ou subimos dos actos corola mgica das palavras com que os arrancamos certa desolao do tempo e da morte. ,

    Como na hora em que concebemos a Esfinge para nos tocarmos melhor, continuamos sendo aqueles que procuram danadamente uma autntica face de homem, uma existncia em busca duma essncia. Ou uma essncia descontente de si mesma buscando-se entre possibili-dades mltiplas de existir. Por isso sabemos hoje que no teremos uma face diferente daquilo que fizermos. Mas fazer de novo continuar a criao e criar ser poeta. O que significa finalmente no ter outro rosto seno o que a Poesia nos modelar.

    9

  • 10

    VIAGE)I atravs duma nebulosa

    de ..Antnio 'R,amos 'Rosa

    Noite r oblqua

    toda olhos flor da nvoa o trilo move-se perde-se repete-se pisca como a estrelinha o hlito da lua orienta-me numa nebulosa de constelaes tranquilas

    Que areo e esttico silncio harmoni:t de plpebras e pupilas a redondez das estrelas foi feita para minhas mos navegadoras a poalha cintilante e fluida dos cus corre no meu sangue ondas e barcas contradanam substituem-se umas s outras

    Os grandes animais silenciosos da terra sonham com um pssaro de barrn a memria reencontra o seu palcio de homens a torre emerge do menino

    Alm mais para alm que calma de navios

    sobre um porto sem nome sobre um cais qualquer transporto por contgio o sonho da rapariga janela do mundo

    ..

  • o adolescente que fui encomra a sua nona que sortilgio de mos e tranquila voz antiga de inexplorados sonhos que confiana interplanetria me leva para alm dos contactos vis \eis chego ao limite onde a aurora ainda derme

    Os rios torceram-me todas as hesitaces >

    as montanhas reacenderam toda a minha coragem sobre ventres de grvidas fmeas silenciosas retomei o gosto de distribuir meus sonhos nova moeda de futuros seres os lisos cavalos da bruma lanam-me a rosa do seu bafo escuro bem o cheiro da madrugada

    Sobre todos os mortos de que me nutro em segredo desenha-se a rapariga da revolta do sol a tradio de seus braos uma carcia de futuro presente sangrando em cada poro 17 milhes de mortos comprovam a grvida linha ascensional

    Todos os jovens mortos correm no fogo candente das tuas veias consteladas eterna rapariga o rumor que foz a amizade atravs dos pases submersos o sussurro claro germinando da descoberta mcessance eis o ritmo do teu corao

    Dia a dia o teu grvido ventre se estende plancie dia a dia os homens te forjam na conscincia renovando-se dormes agora

    a rua cabeleira de horizontes o fulvo ondear do tep corpo de bandeira acena-nos um novo passo em cada espera forada as sombras do martrio as mil e uma moscas do carnaval ptrido em vo tentam sugar o cadver que resiste o cadver que resiste

    11

  • 12

    no chegam a formar a sombra que oculte o esplendor que ressalta em cada face humilde

    O arsenal do estupro lento as orquestras do caos os benfeitores dos monstros em vo tentam amortecer o dinamismo da paisagem as mquinas delicadas dos turistas acenam bom senso

    ,., em vao

    A redondez das estrelas um. apelo s minhas mos as minhas mos navegadoras correm em arrepio~ teu corpo em formao

    Deito-me no horizonte tudo se faz mais claro

  • Sobre os Partidarismos em Poesia

    ,

    por ..Alvaro Salema

    Parnaso foi outrora silencioso e calmo. Os poetas eram serenos criado-res de ideal, intrpretes de vozes misteriosas que estavam fora e alm do

    tumulto das paixes comuns, alheias na essncia e na expresso aos rudes

    debates da histria. Os romnticos introduziram na poesia - e por vezes :om muito boa poesia - as inquietaes individuais, as ansiedades mundanas,

    :i. trivialidade expressa em harmonias; e a poesia declinou insensivelmente para

    o plano das adeses e dos repdios, perdendo a inviolabilidade das coisas

    sagradas e associando-se com ardor combativo ao destino dos homens, como

    outro instrumento, entre muitos, para forar esse destino. Co!D gosto ou sem ele, ter de reconhecer-se que a poesia verdadeiramente moderna a que tra-

    duz, por formas mais ou menos directas, este sentido inevitvelmente parti-

    drio da arte da palavra na sua acepo mais pura. Um velho patriarca

    frequentemente esquecido, Tolstoi, afirmou sem reticncias que o penhor de

    toda a vocao artstica verdadeira o amor da humanidade e no o amor da arte; que s ardentemente trespassado de amor pelos homens se pode atingir

    em arte o plano da criao superior; e outro profeta que nada tinha qe patriarca

    dos tempos novos, Andr Gide, no hesitou em proclamar que a Beleza tem

    um papel activo a desempenhar no mundo, que a aco tem de ser bela, que

    a arte tem de encorporar-se no mundo e viver com ele o destino que o espera.

    No h obstinao que resista a estas realidades da poesia de hoje - e a

    prpria poesia que arvora como misso intransigente o anti-partidarismo se

    apresenta irremedivelmente partidtia. A nica defesa possvel, sem ser

    hipcrita ou ficrcia, dos puros valores poticos a que se situa neste plano da realidade espiritual contempornea acolhendo como genuna poesia, sem

    estreitezas de bando, a que exprimir com sinceridade e beleza a verdade dos

    13

    -'-------~-J

  • homens de hoje - e que no podem deixar de ser de hoje. Batalham os partidos poticos em torno de frmulas, como se os dividisse a ambio de um mundo muito acanhado; mas o seu mau partidarismo, ainda quando o repudiam, o de negarem a possibilidade da autntica poesia sob esta ou aquela frmula adversa, como se atravs de todas no se exprimisse, melhor ou pior, a responsabilidade humana do poeta vivendo irredudvelmente no seu tempo. A poesia agora '}1Uito mais um acto do que uma inspirao. S pode desejar-se que o acto potico seja inspirado, que traduza com since-ridade ardente as verdades ntimas ou as inquietaes colectivas - ambas igualmente sociais porque comunicam a verdade do homem inevitvelmente social; que seja bela, quando adere ao tumulto ou quando se insurge contra ele; que condense em beleza ordenada e em significao acessvel os ecos inmeros que a realidade de todos repercute na alma de cada um. Tudo isso estar acima das frmulas e das negaes de frmulas - e ser sempre v :< demonstrao de que a poesia no potica ou mais potica por estar dentro ou fora de quaisquer frmulas. Se a poesia possuir o dom do con-tgio emotivo, quer traduza um estado de alma recndito, quer uma realidade exterior trivial mas profundamente impressionada e impressionvel, estar sempre na linha da poesia de todos os tempos e tambm na linha da poesia de hoje. Toda a verdadeira poesia fiel humanidade e por isso partidria. O debate dos partidarismos, quaisquer que eles sejam, que estranho poesia e ignora-a ainda quando julga afirm-la. Em nome do realismo ou sem ele o gen:.ino poeta ser sempre um fecundo fabricante de ideal, desper-tando no mais profundo das almas individuais o rumor dos sonhos que trans-portam os homens aspirao de outro destino; e numa poca em que a aspirao de forar o destino se comunica temerriamente a camadas cada vez mais numerosas e mais veementes de seres humanos, a poesia criadora de ideal ser tanto mais potica quanto mais profundamente traduzir o mpeto

    interior de cada homem na marcha de todos os homens.

    14

  • Antnio V era

    Dentro de mim cai a pedra ...

    D ENTRO de mim cai a pedra Que me arrasta para o fundo. As pistolas inundadas Deste amor de que me inundo S me pesam. Punhais de ao O que podem contra gua? De tudo quanto era garra Me desentrego e desfao.

    Ficam-me os olhos no espao E o corao por guitarra.

    Mintome entre osis ...

    M1NTO-ME entre osis De um deserto feito De denncia e logro

    Em redes de carne - Meus braos colhidos -Baloio teu corpo De laca e de ltus

    ,

    15

  • 16

    Proibido ter-te, Proibido dar-me, Mas posso inventar-te Do corpo da noite

    Inverter o cu Neste rio escasso Que as areias bebem

    6 deus do silncio No roubes meu bem! No mudes em dor O que s tristeza. Para amor, indcio, Para morte, sono, Meu pedido breve

    Teu lbio de tmara Mordi-o no meu, Entrei pelo rio

    Cinco fusos brancos - Teus dedos cados -Dilucidam luas No cu que subiu

    '

  • Desenho de LIMA OE FREITAS

  • ..

    2

    Cristvam Pavia

    Deslumbrame nto

    A FINAL as tuas lgrimas por mim so as gotas de orvalho N a manh que desponta! ... E o teu sorriso triste e profundo E pr-me de joelhos e beijar a terra hmida.~.

    Quase choro de alegria!

    Regresso a o Pa1aso

    Q u ANDO o meu sangue correr Nas ribeiras frescas do mundo, Descansado o vermelho em gua transparente, Perdida a febre em dbeis flores submersas ...

    Can~o Quah1ue1

    .A. linda e frgi l Andorinha cada Ficou na cano aflorada Como o amor na minha vida ...

    E a breve e flbil Cano que veio aos lbios, A tarde mal a susteve, A brisa a levou sem mgoa ...

    17

  • 18

    Requiem

    A tarde declina com uma luz tnue. Estou grave e calmo. No preciso de ningum Nem a luz da tarde me comove: entendo-a. At as imagens me so inteis porque contemplo tudo.

    Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam E voltam. So os mesmos: Como os conheo desde a infncia! E a terra hmida das tapadas da quinta .. . O estrume da gua morta quando eu tinha seis anos Gira transparente nesta brisa fria ... (Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas ... )

    Oh, no h solido nas neblinas de inverno Pela erma plancie ...

    E foi engano julgar-te morto e to s nas tapadas em silncio ... Agora sei que vives mais Porque comeo a sentir a tua presena, grande como o silncio ... J me no vem a vaga tristeza do teu chamamento longnquo. J me confundo contigo.

  • PAGJl\TAS DE DIARIO

    por cMatilde 'Rosa .Arajo

    No fotgrafo:

    Harmonize. No lhe peo que sorria mas harmonize. Sabe Deus como eu estou aqui... v? Eu sei o que lhe vai na alma. Eu tiro tanto retrato!

    Eu sei como est inquieta. Olhe para o retrato do menino ... V, harmonize. Olhe para a minha mo ... isso, sorria, ento ... isso, sorria ...

    Eu desatei a chorar. Fiquei no retrato a chorar quando ele julgou que ia sorrir, que estava a sorrir.

    Harmonize! Pois , meu pobre amigo, que eu s vi nesse dia ... Ha1vmonizar .. .

    Outro dia

    Sinto-me doente, estranha, cansada. Apetecia-me no ser deste mundo, no ter que comer, beber, pensar.

    Hoje .comeou um dia cinzenito, fim de Outono, prenncio de Inverno, estes dias que dantes me alvoroavam, que me faziam esprei-tar por detrs das janelas o Inverno que nascia. Parece que qualquer ser se desprendia ento da terra, impondervel, imaculado.

    Sinto as mos em parapeitos hmidos, um pouco speros e aquecidos. E .depois h o silncio como o sonho, e em paz podia ver nascer o Inverno pe.Ja janela. E fico-me assim, caipaz de entender todos os mistrios. Dilatam-se-me as narinas com o perfume que se foge da terra. E h ao mesmo tempo o desprendimento do ser, o corpo como uma pluma suavssima, mui.to pequena mas alongada, at tocar o cu.

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  • E sinto a harpa misterwsa. Um nascer de Inverno assim. Umas gotas que caram por acaso, no chuva ainda, e escorregam no vidro grosso da janela, a custo, soluadas. Frio no est l fora. mais o que se pressente. o verdadeiro anncio.

    Outro dia

    Nunca me hei-de esquecer do casal, hoje, do carro elctrico. Ela muito pintada, a ipintura sem poder esconder a palidez que grita e uma franja que no lhe esconde os olhos e uma pluma negra cada que no lhe esconde a cara. Toda vestida e enchapelada de cinzento claro Como uma pomba. Uma pomba com uma pena negra em vez de bico. E uma borracha de gua quente debaixo do ,casaco. Ia a falar do corao com o marido, tambm muito plido, que levava uma radiografia presa nos dedos engelhados.

    Ela 1parecia que andava a fingir de viva com a pluma negra e ele que era a sombra .daquele fingimento. A borracha de gua quente para o corao no anefecer. Um dos mistrios misteriosos da vida ia ali. A pomba cinzenta a que apetece fechar as asas.

    Outro dia

    Uma garotinha suja, como um pingo de gua dum beiral, ps-se ao p de mim:

    - Minha senhora leve estes garfinhos para a sua menina ... (Era um talherzinho de plstico cor de rosa num carto vermelho) .

    - Eu no tenho men.ina nenhuma ... (e ela no ipodia entender o abandono das minhas palavras).

    - Ento leve este balo para o seu menino! - Eu no tenho menino ... -No tem? - No. Porqu? Achas que tenho? - Acho. A senhora podia ser minha me ... Podia ser minha me! Um balo amarelo na mo e, na outra,

    um cartozinho vermelho com um talher cor de rosa. Coisas eom que no brinca. E eu ainda me lembro, de quando

    era pequena, do encanto que tinham para mim uns talherzinhos assim, de metal, presos por um cordel.

    - Crianas industriadas ... , houve quem dissesse. Ser esta. Sero muitas. No acredito, que sei

  • Mas que seja. Que sejam muitas. A culpa nossa que as deixamos assim, 1procura de uma maternidade que lhes devemos inteira. E o pior de tudo que grande parte das crianas com pai e me pre-cisam dela.

    - Podia ser minha me! H poemas que nascem assim como este, trgicos e imaculados.

    E to curtos que ningum d por eles.

    Outro dia

    Que coisa bela pela Avenida acima! (Gosto 1tanto da Avenida!) Um Almeida .cinzento com um .carrinho cinzento pela mo : a arranhar pelo cho a roda do carrinho e a vassoura de varr,er as folhas e os papis. Triste, silencioso, s o barulho do carro. Parece um deus do Outon0 a.qui, pobre, desterrado. E contudo h-de haver uma varinha mgica no mundo que o possa tocar. E ele havia de abandonar o carrinho. havia de rir at as rvores se tornarem verdes. E mais.

    Outro dia

    Montanhas longe alagadas de rosa plido. O sol j se ps aqui, as nrores esto mais escuras, os prdios indecisos parece que vo cair. Em baixo passa uma menina de branco, chapu e vestido brancos, numa bicicleta. Um chapu de abas largas. Ali mais para a esquerda os montes esto azuis. Uma tristeza enorme me torna prisioneira solitria duma ilha e mesmo assim sinto-me senhora do mundo. A minha janela aJ.ta e a beleza deste morrer do dia tama-nha. J a menina deslizou e sumiu-se como uma flor pelo asfalto cinzento a rolar. E eu fui assim como uima gota que de mim inteira resvalasse.

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  • 22

    A-ve perseguida

    D AS ancas da noite ei-la eternamente renascida com o corpo do nosso pensamento!

    A que violou o gnio de Picasso e roou a tela como um trino abrindo a madrugada.

    A que esvoaa na natureza duma rapariga floridamente espera nos boulevards do mundo.

    A menina dos olhos #

    da me que a embala para alm do tempo e do amor.

    A do corpo de silncio lanceado por estas aeronaves da Trans World Airlines. Deste silncio onde estive quase a descobrir-me e morri assim, comprido de retalhos como vias frreas.

    )

    de Jos CJ' erra

  • A que perpassa no muro das escolas rente pureza das almas infantis com olhos mansos como fontes, pintada a sonhos e a sorrisos.

    A que desliza como cisne tona do infinito rio, lendria trirreme onde a estuante equipagem tenta ultrapassar o Cabo Irrealizvel.

    A que sinto nascer, cerrando os olhos, da sombra 1pr-histrica do homem, alma da flor do ltus, do Indo e do Ganges, das cinzas de Tria.

    Aconchegam-na ao peito os rapsodos da querida Hlade. Seu olhar um abismo de beleza. Com Homero canta.

    T olhida a um canto da nau de Aquiles, vai depois embalde repoisar em Alba Longa.

    Ao seu canto germinam as sementeiras e as geraes. E, por sua eternidade modelados, nascem esttuas, templos e obeliscos.

    Quando Mron tacteava o mrmore, surgia ela vigilante sobre os ombros do Discbolo.

    lbis lhe chamavam os doces filhos do Nilo.

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  • 24

    E ela aparecia no Partnon, no templo de Diana, nas Olimpadas, f!S festas de Dionisos.

    Com suas asas os atletas corriam atravs da tica, mais cleres que os deuses. E, ao seu calor gensico, em pedra, som ou palavra floria o pensamento.

    Ah! quem lhe pudera ouvir os colquios profundos, insondveis, com Plato ou Virglio, Confcio ou Zoroastro.

    Ah! quem pudera compreender seus queixumes de carne viva ao luar com os apodrecentes mortos nos campos da T esslia ! E auscultar-lhe as ltimas pulsaes do corao exnime, sangrando na apoteose dos combates! Quem pudera penetrar seu fino esprito e suavizar-lhe o sofrimento!

    *

    Mas hoje despertei em sobressalto e com olhos de alma vi-a voar, frentica, em torno do meu quarto. Ou em torno da minha alma palpitar de corao intranquilo contra a bruma e o silncio da manh.

    ... 1

  • Senti-a flor ou rio ou barco ou nuvem de incgnito destino. Quis tactear-lhe as vivas cicatrizes e trouxe os dedos feridos de vcuo. S o rufiar de asas frenticas em torno da minha inquieta alma.

    Como ferida de morte, ela batia contra a minha vida, ela batia contra a perspectiva de vagas festas, risos, viagens inexistentes ou irrealizadas ...

    * Por el Duero descia Antnio Machado de costas para Collioure ! Fcderico representava um entremez de um estranho cantor assassinado e havia festa en la Barraca! Soeiro Gomes ia pelo mundo procura do pai de Gaitinhas. Z Lobo floria todas as noites o futuro do filho por nascer. Minha me no me avivava em suas cartas tanta misria junta e impossvel! Em la Cit brilhava ainda o corao de Romain Rolland.

    E o pobre Bob no alimentava com seu corpo as tulipas da Holanda e a vnia das naes. Eu estava lendo Paul Eluard no Pere-Lachaise com o meu camarada Max Jacob. E ns no andvamos aqui, no verdade, Raul ?, no verdade, Amaro, lvaro, Jacinto?,

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  • 26

    a curar de longnquas esperanas estas indelveis cicatrizes.

    * Ah ! o ruflar de asas de distncia sobre esta agonia geogrfica! E tu, Bob, criana sem passado, pra e pensa!

    Com os ps na plancie, no vale, na montanha, existe um homem lendrio, de latentes foras e energia, que olha o cu e o mar, saudoso do tempo em que amor era a nica palavra.

    Esse homem -sente a alma enojada de tanto slogan, tanta novidade de artifcios de morte, tanta raiva e mentira e dio e sede de extermnio.

    Esse homem tem uma esfinge de medo a persegui-lo nas notcias sensacionais lanadas pela T. S. F.

    Esse homem v um sudrio no papel impresso dos peridicos la page e deita-se com as estatsticas dos mortos navegando no rio Marte.

    Esse homem com um estremecimento de alma todas as manhs espreita o horizonte espera da ave perseguida.

  • Esse homem, sentado no cadver duma nau, ainda possui o sangue ardente e audaz dos velhos timoneiros descobridores.

    De olhar longnquo, no seu ombro poisa a etrea ave roubada por seus antepassados ao Eden, s florestas.

    * Mas hoje dele e, Bob !, amigo Bob !, a de quem lhe tocar!

    Estou a v-lo, seus msculos reteses, seu olhar mergulhado nas guas misteriosas de estranho fogo iluminar-se, e, veloz, saltar e, indomvel, a braos defender, a corpo, a alma, a desmantelada nau e a inefvel ave de corpo de msica vibrando em tudo, neste sonho de delrio, nestes campos onde mpende o galope das parcas, nesta pura e ameaada luz de violino, nestes jovens que passam a assobiar para o trabalho, nestas rvores de vertical destino!

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  • 28

    Nocturno

    As rvores danam No espao nevoento. So cordas vibrando Nos dedos do vento.

    Desfolham-se os ramos, Destelham-se as casas. E sobem s nuvens Razes com asas.

    fria do vento, Vazios, cansados, Os homens ent regam Os sonhos frustrados.

    rle Fernando Vieira

    Destroos sem vida De vidas incalmas, Evolam-se os corpos : S ficam as almas.

    E as almas esfriam Na noite assombrada. Sedentas de tudo J no pedem nada:

    Nem mal que lhes doa, Nem bem que as conforte: So cordas vibrando Nos dedos da morte.

  • ENCONTROS EUROPEUS DE POESIA))

    Entre"fista

    com

    Adolfo Casais 1tlonteiro

    Um encontro de poetas de catorze diferentes pases . Concebe-se? Pois verdade." Realizou-se na Blgica, em Knokke-Le-.ZOute,

    de 7 a 1 1 de Setembro de 1951 . Para ele foram convidados, represen-tando os poetas portugueses, Adolfo Casais Monteiro e Miguel T orga.

    No pode, cremos, passar despercebido o significado e impor-tncia de tal acontecimento. E no que compete precisamente Poesia promover e fortificar um encontro entre os homens?

    O interesse que para ns reveste o facto de, representados por to prestigiosas figuras das nossas letras, ter sido ma.reado o lugar de Portugal e da poesia portuguesa, igualmente nos parece que no pode passar sem registo. Quisemos por isso ouvir Adolfo Casais Monteiro, o poeta e ensasta que nos habitumos a admirar, e qut> amvelmente respondeu s nossas perguntas.

    - Pode dizer-nos de q111em partiu a iniciativa destas Rencontres de Posie e quem a secundou?

    - Para responder com exactido, direi que as Rencontres se devem a um feliz concurso de circunstncias : a de existir h vinte anos na Blgica esse admirvel rgo internacional da poesia que o Journal des Poetes; a de este ser, essencialmente, fruto da persistn-cia de Pierre-Louis Flouquet, poeta que pensa mais na eX'panso da obra alheia do que na sua, e mais na da poesia do que na obra de qualquer poeta em particular; a de o lugar de Comissrio Geral do Turismo ser ocupado, na Blgica, pelo poeta Artur Haulot; a de

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  • haver na Blgica um Ministrio da Educao Nacional e, de uma maneira geral, um governo, capaz de encarar com simpatia e de patro-cinar oficial e eficazmente essa coisa absurda que uma reunio de poetas para se ocuparem de poesia!

    A ideia inicial foi de Artur Haulot, e nada mais justo do que afirmar que a ele e Flouq uet se deve essencialmente a realizao desta singular reunio. Contudo, sendo iniciativa particular, as Ren-contres tiveram o apoio oficial, mas desinteressado. f uma bela lio, que no vejo probabilidades de ser seguida por muitos pases. O Go-verno belga no perguntou aos organizadores das Rencontres qual a ideologia de cada poeta convidado: limitou-se a tornar materialmente possvel que eles fossem convidados, consciente de que essa era a forma prpria de intervir. ,_

    - E o que pensa quanto sua organizao? - perguntamos a Casais Monteiro.

    - Embora de breve durao, as Rencontres produziram bom e farto trabalho. Foram presididas por Jean Cassou, .e o seu belo discurso inaugural deu bem a medida do esprito de livre discusso que as caracterizaria. Depois, divididos os participantes em comisses - nas quais cada um se inscreveu segundo as suas preferncias - estas discutiram os problemas propostos a cada uma, elaborando relatrios que foram lidos e postos em discusso .na J:ieunio final conjunta. Eis os temas : Poesia e Europa ; A poesia no ensino; A poesia e a crtica; As edies; Os arquivos de poesia; Tradues; Difuso da poesia; A poesia e os poderes pblicos. Como espero que uma parte destes relatrios possa ser brevemente publicada em Portugal, no entro em pormenores sobre eles. Os participantes das Rencontres aprovaram ainda uma resofuo, cujo texto j foi dado a pblico entre ns,

    /

    e que e este :

    s participantes dos Encontros Europeus de Poesia, reunidos em Knokke-Le-Zoute, de 7 a l l de Setembro de 1951 , e pertencentes a 14 pases da Europa,

    30

  • AFIRMAM a sua vontade de trabalhar pela unidade espiritual da Europa, baseada num idntico apego liberdade de pensamento, liberdade, para o homem, de se ater ao seu prprio juzo, independentemente de qualquer imperativo que lhe seja exterior;

    DECLARAM

    AFIRMAR a sua f na poesia como elemento de irradiao espiritual de todos os pases;

    AFIRMAR a necessidade exclusiva para o poeta de se exprimir sincera-mente e de procurar a qualidade na sua obra, de defender a sua prpria liberdade e de recusar qualquer espcie de servido;

    E El\'TENDEM serem estas condies primordiais para que a poesia de todos os pases possa representar o papel que lhe cabe na irradiao da espi-ritualidade humana.

    -Diga-nos, Casais l\-1onteiro, quais foram os principais temas discutidos e a que resultados chegaram?

    - Embora creia que o mais importante resultado das Rencon-tres tenha sido o convvio entre poetas, julgo que muitas das con-cluses a que se chegou possam ter influncia directa sobre as possibili-dades de expanso e de comunicao da poesia. Para citar apenas um exemplo, que nos interessa directamente: a Antologia da Poesia Viva, que se publicar anualmente, sob a gide das Rencontres, ser um instrumento de difuso notvel para a poesia, de que beneficiaro particularmente as literaturas menos difundidas, e o caso da nossa. A comisso organizadora desta antologia decidiu que o seu primeiro volume incluiria a!penas poetas de mais de 50 anos, e vivos. Embora discorde (pois assim nem um Pessoa nem um S-Carneiro poderri ser includos), compreendo o que ditou esta discriminao. Cabendo-me escolher os poetas portugueses, indiquei Pascoaes, Afonso Duarte e Jos Rgio. Se a condio de s incluir vivos no permite a incluso de Fernando Pessoa, consolemo-nos, todavia, com a certeza de que brevemente se publicar em Frana um pequeno volume com tra-dues de poesias de Fernando Pessoa . Aqui est um exemplo da eficincia destas reunies : certo que pude conseguir este resultado em Paris, e que ele independente das Rencontres; a verdade

    31

  • porm ter sido em Knokke que pude falar longamente com Alain Bosquet, a quem o editor Pierre Seghers encarregou de organizar a seco de tradues de poesia que deve lanar brevemente no mercado, mais ou menos no tipo dos simpticos volumezinhos quinzenais que vem publicando, e nos qu
  • Insisto porm em que o melhor resultado est ainda no esta-belecimento de contactos entre poetas de diversas nacionalidades. Pelo que particularmente nos toca, posso afirmar que Portugal ter doravante um lugar menos ocasional no Journal des Poetes, o qual passar a ser impresso em diversas lnguas, conforme proposta do seu director, Flouquet; encarou-se tambm a hiptese da criao de edies do mesmo jornal em vrios pases, e embora tal ideia tenha ficado no vago, no creio impossvel realiz-la, se as publicaes j existentes em cada pas derem o apoio necessrio.

    Perdoem-me ter afinal dito to pouco, mas espero que a publi-cao provvel, conforme disse, das mais importantes concluses das Rencontres se tornar dentro em breve realidade, e satisfar a curiosidade de todos.

    J.~ 3

  • l

    \

    34

    ,,, Arvore

    de 'Raul de Carv~lho

    I

    NUNCA estou s porque tu me acompanhas,

    amorvel lentido dos dias.

    II

    PRESENA vagabunda, astro difuso, palpitao cingida dos sentidos. Aonde ocorre a tua carne, freme o meu desejo alerta, insatisfeito.

    III

    s insensveis coraes reais terminam nos meus olhos deslumbrados

    em que se espelha a toda a hora claro o sornso que os despe e ilumina.

    IV

    D !FERENTE rumo, pequeninas barcas que seguem para o mar, secretamente, assim ns nos ammos. Cegamente enleados na promessa ir revelada; feitos de carne os sonhos passageiros;

  • altivos, generosos, ignotos. Tendo na mo a rosa e no sorriso a duvidosa fonte do mistrio. Acreditando em tudo, ignorando a promissora morte, a nossa morte. Ingnuos, solitrios e confusos um ao outro escondemos, mesmo quando das palavras suspensas, das palavras se erguia a claridade impossuda. Fomos escravos sempre; a nossa vida paralela seguiu, inexperiente. Se te chamava Amor ou se o teu nome preso na minha boca emudecia, aroma e vento unidos o levavam para longe de mim, da tua boca.

    35

  • 36

    Largo do Esprito Santo, 2, 2.

    de Sebaftio da ama

    NEM mais, nem menos : tudo tal e qual o sonho desmedido que mantinhas.

    S no sonharas estas andorinhas

    que temos no beiral.

    E moramos num largo.. . E o nome lindo que o nosso largo tem !

    Com isto no contramos tambm

    (l~ramos dois sonhando e exigindo.).

    Da nossa casa o Alentejo verde . .b atirar os olhos : so searas, so olivais, so hortas... E pensaras que haviam nossos olhos de ter sede!

    E o po da nossa mesa ! . . . E o pucarinho que nos d de beber! . . . E os mil desenhos

    da nossa loia: flores, peixes castanhos,

    dois pssaros cantando sobre um ninho ...

  • E o nosso quarto?... Agora podes dar-me

    teu corpo sem receio ou amargura.

    Olha como a Senhora da moldura

    sorri nossa alma e nossa carne !

    Em tudo, Companheira,

    a nossa casa bem a nossa casa. At nas flores. At no azinho em brasa

    que geme na lareira.

    Deus quis. E ns ao Sonho erguemos muros,

    rasguei janelas eu e tu bordaste

    as cortinas. Depois, flor na haste,

    foi 'colher-te e ficarmos ambos puros.

    Puros, Amor-e espera. E serenos. Tambm a nossa casa

    (H-

  • POETAS ESTRANGEIROS

    A presentao de algumas tradues de

    STEPHEN SPENDER

    por Jorge de Sena

    EM 1940, h cerca de dez anos e sete anos depois da estreia de S. Spender 1 , dizia John Lehmann 2 :

  • ingleses e americanos como T. S. Eliot, James Joyce, Virginia Woolf, D. H. Lawrence, os Sicwell, Ezra Pound, Hemingway, Wilfred Owen,

    Y eats, Housman, E. Thomas, um Gerard Manlcy Hopkins, cuja poesia. come-

    ava a ser apreciada, etc.) e, como diz o prprio Spender, a absorvente preo.-

    cupao desta poca com o seu prprio tempo.

    A lista, estabelecida quase ao acaso, dos nomes acima citados, por si

    s documenta quo difcil atribuir um denominador comum prodigiosa florao de personalidades notveis que antecedera ou ainda evolua contem-

    porneamente com os poetas dos anos 30. Um Eliot ou uma Edith Sicwell, to influentes, ainda recentemente publicaram poemas que so do mais alto

    que a sua poesia atingiu; e ser pelo menos arbitrrio criar uma plataforma

    em que se encontrem figuras to dispares como Gerard Manley Hopkins, o

    jesuita morto em 1886, Wilfred Owen, que morreu em 1918 na 1 .'1 Grande Guerra, e o truculento e erudito Ezra Pound.

    Tambm no possvel generalizar levianamente a afirmao de que a morte da arte literria como tal o que caracteriza a maioria dessas obras,

    quando, a par de um Lawrence para quem a expresso literria apenas um

    meio, est um Joyce para quem essa arte Literria supremamente um meio e um fim que se identificam. Do mesmo modo no basta acenruar a livre

    entrada na expresso potica de uma .naruralidade de sentimentos e de uma

    irnica e desesperada realizao dessa naruralidade, quanqo, ao lado de um

    Owen e de um Edward Thomas, so plain, aparecem um Y eats, com toda

  • o anarquista Hemingway, trazem literatura a conscincia de, pelos mais diversos meios, ser possvel atingir-se a mais alta expresso da pouca huma-

    nidade que ainda possumos ou possuiremos. Neste nosso meio sculo gene-

    ralizou-se a audcia de, fora dos quadros estabelecidos para a criao, criar-se

    uma obra prpria - aquela audcia anteriormente reservada s aos muito

    grandes, que, em face de uma sociedade e de uma cultura pelo menos na

    aparncia solidamente estabelecidas, talvez no a tivessem nem a exercessem

    em plena conscincia. Daqui uma diversidade, que ela mesma o denomi-nador comum.

    No caso particular da Inglaterra, alm dos factores sociais que condicio-

    nam a evoluo geral das culturas, h naturalmente factores prprios que

    determinam a ecloso dos mais recentes movimentos e o fim que tiveram.

    A Inglaterra, insular e imperial, sai da 1. Grande Guerra ciente de que uma

    e outra dessas situaes qualificativas so precrias, e entra na 2. Grande

    Guerra, perfeitamente conhecedora de que ::imbas vo terminar. voz pre-

    monitria de The waste land, de T. S. Eliot, suceder-se-iam a interveno

    em Espanha, que caracteriza a gerao de Auden e Spender, a ressonncia

    dos bombardeamentos que veio ecoar nos grandes poemas da Sicwell, e a

    desiluso de um Auden, aderindo ao anglicanismo, ou de um Spender,

    regressando amargurado tentativa de penetrar o exacto sentido da existn-cia humana>>.

    Quando, depois da lio de individualismo colhida nos seus maiores, a

    condio europeia levou um Auden, um Spender, um MacNeice a introduzir,

    em tamanha liberdade de poder ser, a trgica certeza de um colectivo a

    que se pertence no apenas pela cultura que se recebeu e pela cultura que

    se acrescenta, era inevitvel que, entre uma prestigiosa florao de individua-

    lidades que pareciam livremente e eficazmente actuantes, e a descoberta de

    que nenhuma actuao cultural hoje mais do que um protesto que fica - esses poetas se achassem dolorosamente aquilo que eram: eles prprios

    elementos epigonais de toda uma literatura insular, entregue pesquisa, por vezes to inexcedlvelmente conseguida, do exacto sentido da existncia

    humana.

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  • POE:.\1AS de

    STEPHEN SPENDER

    Regum Ultima Ratio

    As armas inscreveram a ltima razo do dinheiro A letras de chumbo na encosta primaveril. Mas o rapaz que est morto sob as oliveiras Era jovem demais e por demais incauto Para ter sido notvel a seus olhares importantes Era melhor alvo para um beijo.

    Enquanto viveu nunca esguios apitos de fbrica o convocaram Nem portas envidraadas de restaurante rodaram para que ele entrasse O nome dele nunca veio nos jornais. O mundo mantinha a tradicional muralha Em torno dos mortos com seu oiro no fundo do poo Enquanto a vida dele, intangvel como um rumor, flutuava ao largo.

    Oh com que leviandade ele atirou ao cho o barrete Um dia em que das rvores a brisa tirava ptalas. Da muralha sem flores brotavam armas ; A metralhadora colrica ceifava velozmente as ervas; Bandeiras e folhas tombavam das mos e das rvores; O barrete de pano apodrece nas urtigas.

    Considerai-lhe a vida, que era sem valor Em termos de emprego, registos de hotel, notcias cLe jornal.

    4.1

  • Considerai : uma bala em dez mil que mata um homem. E perguntai: era justificada uma tamanha despesa Com a morte de algum to incauto e jovem Estirado sob as oliveiras, mundo, morte?

    42

    ... Trad. integral

    FRAGMENTOS DE Oli'veiro Decides

    PALOMA

    F ECHA os olhos. Deita a cabea no meu seio.

    0LIVEIRO

    Querido corao, 1que dentro do vestido bates, Pssaro no centro de um dia 'azul, Eu no queria espantar-te para longe.

    PALOMA

    Esculpida cabea que me s cara, como pedra pousas Sobre o meu corpo. Eu amo-te. Os traos Que uma doce paixo gravou na tua testa So os mais suaves que jamais vi. Se ao menos repousasses. E se ao menos Os pensamentos que martelam no teu crebro Te deixassem em paz, ainda que menos nobre, Mais inteiramente minha.

  • LIVEIRO

    Paloma, eu amo-te, eu amo-te. Mas o prprio tempo que me afasta E a cabea enche-se-me de tantas vozes Que me acusam ou desculpam. Espera, espera, Amor, at que eu saiba conhecer a paz.

    PALOMA

    Paz ? Quando?

    LIVEIRO

    Um dia ... Depois disto ...

    PALOMA

    Querido amor, deixa-me dizer-te Que para sempre ,que te amo. Mas, por favor, tu tens de compreender Que tal como reajes tu me assustas.

    Eu desejaria voltar sempre para junto de tl Mesmo que me fosse embora At ter aprendido mais coragem.

    LIVEIRO

    Como posso eu modificar A minha natureza? Porque me no deixas ser

    E me no amas s pelo que sou?

    PALOMA

    Mas no s nada quando s assim. J:s um objecto, uma causa, uma caverna Cheia de vozes que profetizam . .. . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

    43

  • .... Eu penso continuamenie ...

    Eu penso condnuamente nos que foram em verdade grandes, Nos que, desde a matriz, se lembraram de uma histria de alma Em corredores de luz onde as horas so s6is. Sem fim, cantando. Cuja doce ambio Fora que seus lbios, do fogo sem cessar tocados, Anunciassem o Esprito coberto de cnticos, da cabea aos ps. E que dos ramos primaveris colheram Os desejos to1nba.ndo por seus corpos como flores.

    O que precioso no esquecer nunca A alegria essencial do sangue que flui de fontes sem idade Brotando de uma rocha em mundos anteriores terra. Nunca negar o prazer dele claridade simples da manh Nem a sua grave e nocrurna exigncia de amor. Nunca permitir que gradualmente o trfego amacie Com rudo e nvoas o florescer do esprito.

    Perto da neve, perto do sol, nos mais altos campos , Vde como a esses nomes festejam ondulantes ervas E flmulas de nuvem branca E sussurros do vento no cu que escuta. Os nomes daqueles que em suas vidas pela vida lutaram, Q ue usaram nos seus coraes o centro do fogo. Nascidos do sol viajaram um momento breve ao encontro do sol, E deixaram o ar vvido assinado a honra.

    JoRGE DE SENA trad.

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  • ' A 1VIA RGE'l D U'fA L EITURA

    de /

    RENE CHAR

    por .Antnio 7?.amos 'Rosa

    A presso dos factores anestticos e a sua quase exclusividade como mbil da existncia, torna o perodo em que vivemos particularmente difcil e dramtico

    para a cultura e a arte. Mas um perodo difcil no inevitvelmente um perodo

    estril ; pode ser at excepcionalmente fecundo no plano da criao artstica e da qualidade das obras. Na figura solitria dum poeta que no procura a comuni-

    cao pelo nvel mais baixo da expresso mas pelo mais alto da explorao dum

    legado formal que de todos e se recompe e enriquece vivamente por cada um

    - pode ser que a imagem duma poca mais fecunda e rigorosamente se desenhe. Rigor e fecundidade: o eterno conflito entre a razo e a emoo, entre a

    expresso racional da vida e a complexidade dum real de difcil apreenso.

    No plano da arte e da poesia esse conflito ganha uma expresso original por nelas

    a vida atingir uma forma de conscincia sensvel, isto , uma sntese criadora do

    real que se religa complexidade da vida por meio dum trabalho sobre uma mat-ria em que a imaginao livremente se exerce, organizando e explorando os dados

    sensveis. Quer dizer, a poesia j por si mesma uma expontnea tentativa (pelo menos) de resoluo do conflito entre o rigor e a fecundidade e a achega mais

    preciosa e mais concreta que os homens produziram para aproximar a vida dum seu entendimento que no exclua o melhor do seu contedo.

    Mas tem havido, sem dvida, um grande parti-pt na poesia, a que poderemos chamar a sua tendncia romntica para viver prolixamente e numa grande disperso a fecundidade mgica da vida, a informe e mltipla riqueza dum ines-

    gotvel real. A emoo vence a inteligncia, a pureza lrica transpe o real expres-sando a vibrao duma alma que se constri e vive margem, no da vida, mas

    pelo menos dum poder de coisas que hoje mais do que nunca avassalam o homem

    e lhe exigem ateno, conscincia, organizao. O mundo h111nanizo11-se no sen-tido de que se props na sua totalidade como objecto controlvel, transformvel,

    45

  • dirigvel. Humanizou-se (e no uma trgica ironia diz-lo apesar de tudo) ainda

    que o inumano tenha atingido hoje graus de barbaridade civilizada desconhecidos antes; conscincia do homem todo o mal deixou de ser fatalidade invencvel por maior que se lhe apresente. Inclusivamente, a possibilidade real da extino

    da humanidade no se lhe apresenta sob o signo da fatalidade: apenas um dra-mtico risco, uma tremenda contingncia de que no est l ivre mas que lhe

    possvel evitar. A poesia no um domnio encantado e fechado, margem do real.

    Uma fortaleza, um reduto, um segredo, uma alma. Hoje mais do que nunca ela se< abre ao mundo e se defronta com ele e quer equivaler-se-lhe numa corres-

    pondncia criadora. A poesia elabora o conflito entre o rigor e a fecundidade num plano especial em que um dos ngulos mais dramticos o de indivduo-sociedade,

    homem-mundo, ser-comunidade. D esde os Baudelaire e os Rimbaud at aos Eliot,

    aos Eluard, aos Char, a poesia toma conscincia desse dilogo cujo fim a inte-grao num mundo fraternal e livre, qualitativamente lerarquizado. A poesia

    ps-se margem dum mundo de essncia venal, refugiou-se na solido para a elaborar, por vezes no desvario e no maior desespero, o supremo apelo da frater-

    nidade e do amor. Na solido - porque no h lugar fora dela. Mas o poeta no ama a solido seno enquanto momento e, na nossa poca, se a aceitou como

    indispensvel condio, por trgica fatalidade o fez. O fim da poesia a vida, a verdade prtica, como teve a coragem de o dizer Eluard . O poeta o mais

    saudoso e o mais futuro de todos os homens: saudoso pelo carinho das origens, futuro pela possibilidade do amor que vive como realidade de amanh. O amanh

    recuperar as origens do ser, restabelecer o amor, concentrar a essncia humana,

    viv-la-, talvez, na existncia. Assim o mundo o objecto do poeta como do homem: o mundo humano.

    Em Ren Char, o conflito entre o rigor e a fecundidade resolvido no plano

    duma poesia que uma criao rigorosa de arte, inteligncia e emoo. A audcia

    de expresso parece no ter limites seno os que impem as exigncias duma intuio que no se deixa submergir pelo automatismo. A sua poesia, como a de ragon

    e Eluard, ultrapassou a fatalidade da impulso surrealista, a conscincia toma nela

    toda a sua claridade vigilante; o poeta de olhos bem abertos explora o filo da

    emoo potica at facet-la e puli-la a um rigor diamantino. A graa que o poeta experimenta , em parte, o produto dum olhar puro e atento, capaz de enfrentar

    as perigosas luminosidades do raio.

    A misso desta poesia - que a de toda a poesia - definiu-a Pierre Berger quando afi rmou que o poema tem a finalidade de produzir uma alegria e uma plenitude que possam ir de encontro ao maior sofrimento em qualquer poca

    e tempo, por maior que ele seja. ~ a misso social, religiosa do poema. Porque este canto dum homem para milhes de homens presentes e futu ros, simultnea-

    46

  • mente pessoal e universal, dirigido a cada um deles, sua frgil e real persona-lidade humana. A todos o poema atinge e inclui, excepto queles que j se des-figuraram para sempre. Assim, a poesia faz justia antes dos homens a cumprirem.

    As terrveis contradies duma poca que apresenta dum lado a venalidade que ir correr todos os riscos tendo talvez como nico travo o medo das incal-culveis consequncias que adviriam duma catstrofe universal - e do outro lado as colectividades que comeam a tomar conscincia da sua existncia e das suas aspiraes, essas terrveis contradies esto talvez em vias de se resolverem. Mas o poeta tem que lutar com todos os que no entendem nem valorizam a sua misso e que so muitos dos que combatem esta forma civilizacional de explorao humana, pois parecem tocados tambm da abjeco geral pelo desvalor que do vida e aos destinos da poesia. A reconstruo duma comunidade h que ser feita pelos alicerces, sem dvida; o poeta, porm, no deve reduzir a sua voz ao nvel deles; ele ajudar a edificar a seu modo, livremente, no extremo mais avanado do real possvel, ao fim do qual, como no poema de Char, h um homem de p. O seu servio de imaginao e liberdade, indirigvel de fora, se bem que no arbitrrio - e s assim melhor se dar nao, ao povo, ao mundo. O poeta no ama a liberdade pela liberdade, pelo desafogo pessoal, pelo proveito humano; ama-a como condio de se dar ao mundo, de mais puro e mais total se definir perante ele. Servindo doutra maneira - a si, a tudo e a todos essencialmente trai.

    A lio de Char, entre outras, a de que os altos momentos do humano (que tm de se ver sempre numa dramtica -relao com o mundo) exigem uma estratosfera que envolva e no perca de vista a atmosfera histrica. Se a arte, a poesia e a literatura mergulham fundas razes na vida, necessitam para se realizarem de atingir as altitudes onde a realidade e a vida se encontram mais humanamente relacionadas com elas mesmas do que no plano onde todos vivemos ansiosos, movidos pelos atrozes pequenos problemas que raramente nos possibilitam aquelas

    condies de entendimento de qualquer superior mensagem artstica.

    47

  • 48

    REN CHAR .

    POE M AS

    Pre s e n -;a Comum

    Tu ests com pressa de escrever Como se estivesses atrazado para a vida Se assim acompanha as tuas fontes

    Apressa-te Apressa-te a transmitir A tua parte de maravilhoso de rebelio de bondade Efectivamente tu ests atrazado para a vida A vida inexprimvel A nica no fim de contas qual tu aceitas unir-te A que te recusada todos os dias pelos seres e pelas coisas

    ..

    De que tu obtns penosamente aqui e ali fragmentos descarnados Ao fim de combates implacveis Fora dela tudo agonia submissa fim grosseiro Se encontrares a morte durante o teu labor Recebe-a como a nuca em suor acha bom o leno rido

    Inclinando-te Se queres rir Oferece a tua submisso Nunca as tuas armas

    Tu foste criado para momentos pouco comuns Modifica-te desaparece sem remorso Ao gosto do rigor suave

    Bairro a bairro prossegue-se a liquidao do mundo

    --

  • Sem int~rru po Sem desvios

    Espalha o p Ningum revelar nossa unio

    Jacquemard e Jlia

    {1935-1936)

    uTRORA, no momento em que as estradas se harmonizavam no seu declnio, a erva erguia ternamente as suas hastes e alumiava as suas claridades. Os cavaleiros diurnos nasciam ao olhar do seu amor e os castelos das bem-amadas contavam tantas janelas como no seio do abismo as tnues tempestades.

    Outrora a erva conhecia mil insgnias que no se contrariavam. Era a providncia dos rostos banhados de lgrimas. Encantava os animais e abrigava o erro. E era to extensa como o cu que venceu o medo do tempo e reduziu a dor.

    Outrora a erva era bondosa para os loucos e hostil para o carrasco, ligava-se em renovado amor ao limiar de sempre, inventava jogos palpi-tantes de asas no sorriso (to perdoados quo fugitivos jogos ... ) , no era dum para os que tendo perdido o caminho o desejassem perdido para sempre.

    Outrora a erva tinha estabelecido que a noite vale menos que o seu poder, que as nascentes no complicam por capricho o seu percurso, que o gro ajoelhado est j a meio caminho do bico do pssaro. Outrora terra e cu odiavam-se, mas terra e cu viviam.

    A inextinguvel secura escoa-se. O homem um estrangeiro para a aurora. No entanto, a caminho da vida que no pode ser ainda imagi-nada, h vontades que fremem, murmrios que vo afrontar-se e crianas ss e salvas - que descobrem.

    O junquilho

    Eu protegi a sorte do casal e segui-o na sua obscura lealdade. A ve-lhice da torrente tinha-me lido a sua pgina de gratido. Anunciava-se

    49 4

  • uma jovem tempestade. A luz da Terra roava-me ao de leve. E enquanto se reconstitua no vidro a infncia do justiceiro (a clemncia extinguira-se) , exausto, rompi a soluar.

    Comunho Formal

    A imaginao consiste em expulsar da realidade vrias pessoas incom-pletas utilizando as potncias mgicas e subconscientes do desejo, para obter o seu retorno sob a forma duma presena inteiramente satisfatria. E ento que nos encontramos no inextinguvel real incriado .

    O que faz sofrer mais o poeta nas suas relaes com o mundo a falta de justia interna. O vidro-cloaca de Caliban por detrs do qual os olhos todo-poderosos e sensveis de Ariel se irritam .

    O poeta transforma indiferentemente a derrota em vitria, a vitria em derrota, imperador pr~natal unicamente preocupado com a colheita do zul.

    Mago da insegurana, o poeta s tem satisfaes adoptivas. Cinza sempre inacabada.

    O poeta deve manter a balana igual entre o mundo fsico da viglia e o -vontade terrvel do sonho, de modo que as linhas do conhecimento nas quais deita o corpo subtil do poema vo indistintamente dum ao outro destes estados diferentes de vida .

    O poema sempre nupcial.

    Homem da chuva e do bom tempo, as tuas mos de derrota e de progresso so-me igualmente necessrias.

    50

  • O poeta o homem da estabilidade unilateral.

    O poema emerge duma imposio subjectiva e duma escolha objectiva. O poema um conjunto em movimento de valores originais deter-

    minantes em relaes contemporneas com algum que esta circunstncia tomou inicial.

    O poema o amor realizado do desejo que no finda .

    Um ser que se ignora um ser infinito, susceptvel com a sua inter-veno de mudar a nossa angstia e o nosso fardo em aurora arterial.

    Entre inocncia e conhecimento, amor e nada, o poeta estende a sua sade todos os dias.

    O poeta a gnese dum ser que projecta e dum ser que retm. Ao amante pede o vazio, bem-amada a luz. Este par formal, esta dupla sentinela, do-lhe pateticamente a sua voz .

    Cada um vive at ao crepsculo que completa o amor. Sob a harmoniosa autoridade dum prodgio comum a todos, o destino particular cumpre-se at solido, at ao orculo .

    Convm poesia ser inseparvel do previsvel. Do previsvel no formulado ainda.

    E da vossa necessidade e da vossa volpia apenas que depende que eu tenha ou no o Rosto da comunicao .

    No limiar da inrcia, o poeta constri como a aranha a sua estrada

    no ar. Em parte oculto a si mesmo, aparece aos outros, nos raios do seu singular ardil, mortalmente visvel.

    51

  • /

    Ser poeta ter o apetite por uma angstia que ao consumar-se, entre os turbilhes das coisas existentes e pressentidas, provoca, no momento de se encerrar, a felicidade.

    Se11Js Deme11rent, 1945.

    O Fogo dos Matinais

    I MPE a tua chance, cerra a tua felicidade e corre o teu risco. Vendo-te, eles habituar-se-o.

    A sabedoria no aglomerar-se, mas na criao e natureza comuns encontrar o nosso nmero, a nossa reciprocidade, as nossas diferenas, a nossa passagem, a nossa verdade - e esse pouco

  • Poema

    POR que pairas? Por que insistes?

    de ..Alberto de Lacerda

    Por que pairas se deixaste que te prendessem terrenas falsas tranquilidades? Por que negaste o que eras -nuvem ntegra, real, sobre as mentiras do mundo? As vezes cantas em tudo. Mas to triste e to tarde. Meu amor, por que vieste? Nunca tivera sabido como se nasce e se morre de repente ao mesmo tempo para sempre, arrastada humana deusa frustrada gua irm da minha sede 1 uz de toda a claridade que s em ti neste mundo para mim era verdade.

    I

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  • 54

    Antnio Lus Moita

    Uma tnue esperana

    UMA tnue esperana: Mastro de navio ... Virs nele, acaso, do confim do mar? Estou tua espera. S em ti confio. Estou h dois mil anos para te encontrar.

    Estou rtua espera. Desde Jesus Cristo ... J morri mil vezes. Sempre renasci. E se -aps mil anos de iluso resisto, que tu existes! Fala-me de ti ...

    Fala-me de ti, minha terna amiga, companheira eterna! S em ti confio. Faz que alguma coisa me engrandea a vida .. . Faz que eu te consiga, pra que me consiga .. .

    D-me a tua esperana, mastro de navio 1

    Simples apontamento

    F ossE eu um Deus e no houvesse vida, fosse eu um Deus e no houvesse nada -eu ce faria igual a ti, minha amada: humana e resumida!

  • Rumor

    H ! , que no venham, lcidos, falar, localizar a fonte da torrente ... Como podem sentir

  • 56

    Mas ah! de um: sonho gelado a noite irrompe, infinita! ...

    E neste quarto alugado, teu lindo corpo, a meu lado, completo, adulto e alado, recomea, ressuscita . . .

    Manh

    TRAGO no ar que respiro tua beleza sem forma. Sou branco potro correndo livremente na campina!

    Quem tu s, no me atormenta. De onde tu vens, que me importa? As crinas soltas ao vento, sou da manh que desponta!

    Sers estrela cadente ou histria da minha infncia? M aito a minha eterna sede bebendo da tua mo ...

  • Egito Gonalves

    Outubro Ao Ledo Ivo

    s mortos esto esperando o frio de Nvembro enquanto as ptalas dos crisntemos se vo definindo neste meio de Outubro, hereditriamente mortio. Os mortos esto esperando! Os cardacos, os fuzilados, os arrogan tes, os tube~culosos, os suicidas esto eSiperando as suas flores, o seu pretexto para se imporem ao corao dos existentes e manejarem saudade 1como um ltego, rasgando a carne dos joelhos que amaram. a hora de nos ditarem a contemplao de pequenos objectos sepultados1 no fundo 1de 1gavetas incmodas .. . a hora .de se transfonmarem em flechas e apresentarem os retratos fidelssimos para serem 1Salgados1 de 'lgrimas veementes. Ridculo 1oferecer-lhes passeios sobre o rio, constelaes em mareha, -conferncias sobre o sexo, magazines ilustrados, coloridos foguetes luminosos. O choro essencial; Novembro no esquece, refora os seus 1pilares, no tardar a erguer-se. Com QS relgios quebrados 1contra o tempo os mortos aguardam, embrulhados nas horas que no tm, enquanto as ptalas dos crisntemos j se torcem, disformes, como a dor que depositaremos sobre os tmulos.

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  • 58

    Viagem

    CoM um sobressalto cessa o realejo ... Outra vez o pequeno quarto, outra vez as paredes, as sujas paredes albergando objectos familiares de utilidade definida, visveis a olho nu. Outra vez tudo como antes da viagem. Agora a escada ,de corda atravessou a claraboia, rparou no meio do quarto, desci por ela - Aqui estou ! A mulher 1que se desprende de mim e se levanta uma estranha e nua criatura... De onde a recordo? Um odor irritante apossa-se do ar, um odor acre sem nada de sobrenatural mas que dissolve a escada ,de corda como um cido. Tudo est completo dentro da sua dimenso; vem de longe o ,eco de risos, e de vozes; o sonho est cicatrizado. A mulher aitravessa o quarto e grita para alm da porta, numa estridncia aguda : -GUA.

  • Lus Amaro

    Cano ef m era

    MEu sonho dum momento Que o engano teceu E um imperceptvel vento Nas asas envolveu ...

    Nem fixei a imagem Ora desfeita e v: Ondula na aragem, Faz parte da manh.

    Quando passou seu rosto Impressentido, breve, Que a nuvem dum desgosto No fixou nem teve,

    Logo uma luz ardente Em minha alma nasceu: Imagem finda, ausente, Dum sonho que foi meu!

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  • '

    60

    Retrato

    UM silncio, um olhar, uma palavra : Nasceste assim na minha vida, Inesperada flor de aroma denso, To casual e breve ...

    J te visionara no meu sonho, Imagem de segredo, esparsa ao vento Da noite rubra, delicada, intacta. E pressentira teu hlito na 'Sombra Que minhas mos desenham, inquietas.

    Existias em mim ... O teu olhar Onde cintila, pura, a madrugada, Guardara-o no meu peito, invisvel, Flutuante apelo das razes Que teimam em prender-te, minha vida!

  • por
  • A garota afastou-se, e eu fiquei pensando : A imaginao cndida de uma criana multiplicando as mos

    da me com a certeza de que s duas no conseguiriam trabalhar tanto, aj1udar tanto, valer a tantos, maravilhosa.

    Abrem-se horizonte( de ternura, horizontes santos. Mos de me desdobram-se prodigiosas e, sendo efuctivamente s duas, tra-balham todo o dia e erguem-se noite em prece que chega a Deus.

    A viso ingnua da pequena Maria na nu comprida e cheia de sombras leva-me em sonhos ao longo do tempo, leva-me at ao paraso onde vivem, aconchegadas em luz, todas as mos que sobre a terra lutaram, trabalharam, rogaram-abriram o caminho para ns podermos existir.

    Mos de me, movidas pelo ardente amor, pela santa memria aberta no corao dos vossos filhos, dominais a vida, e tendes poder na morte.

    NOTA SOBRE A AUTORA

    por e.Matilde 'R.osa .Arajo

    PODEMOS considerar Mos de Me um poema autntico. Ns sabemos que poder haver quem o ache um pouco artificial, desenrai-

    zado da pureza que faz escrever uma menina de catorze anos. Mas nesta idade que o artifcio, como uma espcie de manto que cobre ombros nus, tem ::i. sua verdadeira pureza, uma casta poesia verdadeiramente natural.

  • criana. At no desdobramento das mos h muito de parbola de raiz lon-gnqua duma verdadeira religio de amor.

    Um dia, estava eu dando aula de portugus, esta menina levantou-se de repente e veio abraar-se a mim a chorar.

    - Que tens, Maria Guilhermina? - Minha senhora, seja boa para mim. Sou to infeliz! No se pergunta a uma criana porque infeliz. Ela pode s-lo, sem

    motivo algum aparente, infinitamente. Aquela nsia de ternura, aquela cabea que se encostou ao meu peito

    a chorar, so o anncio bem verdadeiro de Mos de Me. nsia de ternura to pura como a gua que jorra duma fonte, porque

    duma fonte tem de jorrar. Nada emendmos do seu poema. E lendo-o, hoje, de novo, que a sua

    publicao se proporciona, ns pensmos uma vez mais e sempre na ddiva maravilhosa que a alma da criana que nos d a graa de se confiar a ns. Pensmos no muito amor que todos no damos, na muita inteligncia para entender que todos no temos.

    Talvez na mensagem que ela nos manda e que a nossa sabedoria expe-riente endureceu para a poder ouvir, esteja o verdadeiro segredo da harmonia, o verdadeiro encontro do 1Mty1do.

    E se, como adulto, ain(fo digo talvez, bem posso medir por esta dvida a adulta imperfeio.

    I 63

  • OS PERIGOS DA POESIA E A

    PEDRA FILOSOFAL DE JORGE DE SENA

    por V asco V'vliranda

    P ORQUE trgicamente elucidativa, e bem claro o patenteiam os versos

    de alguns dos mais representativos poetas de hoje, a poesia, muito embora pese aos fazedores de imitaes vazias de sentido e inteiramente despro-vidas de personalidade, uma actividade perigosa, arriscada, que no se compadece com convencionalismos de qualquer ordem, desde o convencio-nalismo insincero de determinadas criaes clssicas, ao convencionalismo no menos petulante de certas achegas do prprio modernismo. E por isso mesmo se nota j hoje uma reaco eficaz contra o que, de entre o que se diz moderno, apenas superficial ou, ento, ineficazmente o representa. E essa parte da produo literria, sobretudo potica, - for-oso reconhec-lo - a mais abundante. Os vaidosos, os satisfeitos de si mesmos, os que nem sequer chegam a atingir a craveira do indis-pensvel, mesmo elogiados pela crtica (ai, as inconscincias e as facili-dades da crtica!) enxameiam por a. De onde o termos de concluir, para mal dos nossos 1pecados, por um grande nmero de documentos do modernismo, contra um pequeno nmero de obras genuna, autntica-mente modernas. E obras dessa tmpera que os tempos decorrentes exigem.

    A carncia de significao de bom nmero de livros de poemas que por a circulam, quando no faz deles autnticos pastches, transfor-ma-os em veculos de uma mercadoria amorfa, de aparncia ligeiramente potica, destinados a engrossar uma corrente que nunca consegue des-bordar das margens pr-delimitadas. Ora, precisamente nesse desbordar das margens, que reside a fora virulenta, o perigo, o risco de toda a poesia que queira resistir ao tempo, por mais que no tempo ela enraze ou com o tempo se confunda.

    64

  • Perigo de uma trgica seduo, portador de responsabilidades gra-ves em face do pblico, e sobretu
  • do homem-poeta, que no redunde no conformismo das aproximaes, mas o force viso integral de si mesmo e da vida atravs de si, numa aventura lrica que v, se possvel for, ao esgotamento do sentido magn-tico de cada vocbulo, para alm mesmo do valor dos smbolos e de toda a imagstica, e exigir logo o assentimento quem sabe se at de alguns dos mais desconfiados.

    Vem tudo isto a propsito da poesia de Jorge de Sena e em especial do seu livro Pedra Filosofai, j pelo que em si, j pelo que representa no quadro da jovem poesia portuguesa.

    Duas notas caractersticas saltam aos olhos, logo aps uma primeira leitura: por um lado, o desapontamento do crtico em face da ausncia de elementos que permitam filiar os seus poemas em qualquer corrente potica e, por outro, a preocupao ntida do reajustamento da sua cons-cincia artstica sua conscincia humana. Um fenmeno idntico, salva-guardadas as devidas distncias e as caractersticas peculiares a cada um, ao que se vem passando com o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. claro que o facto da ausncia de dados que nos permitam encontrar-lhe qualquer elo de ligao com outros poetas, mesmo modernos, longe de o diminuir ou de gerar em ns a desconfiana, confere-lhe um sentido de dignidade que muito grato nos registar. Pois precisamente isso, esse abandono s suas prprias foras, que permite sua poesia correr o risco audacioso da aventura lrica em que se embrenhou. Risco que, 'Para o leitor profano, gera normalmente a desclassificao potica imediata. Aquela desclassificao que a primeira reaco oportuna, em que pese aos vaidosos de adjectivos mirabolantes nas colunas dos peridicos, para a consagrao do futuro. E o caso de Fernando Pessoa, entre outros, sobremaneira o ilustra.

    Por outro lado, a tendncia surrealizante da poesia de Jorge de Sena, m~is equilibrada talvez, neste, do que nos dois volumes anteriores (Perseguio e Coroa da Terra) , dado precisamente o esforo de reajus-tamento da sua arte potica com a sua conscincia de homem, demonstra que a sua poesia se orienta no sentido de uma reaco salutar contra o que chamarei o fingido moderno. Digo, dado o esforo de harmoni-zao cabal da sua arte com a sua conscincia de homem, porque esse esforo que faz do surrealismo latente nos seus versos, mais que um processo de investigao potica, como queria Andr Breton, tambm um instrumento de criao potica. Valha a verdade que o mesmo Andr Breton, por mais importncia que tenha ligado ao automatismo psquico, libertao de toda e qualquer espcie de peias que pudessem obstar expresso do funcionamento real do pensamento, foi o pri-

    66

  • meiro a reconhecer que jamais surgiria um texto surrealista como exem-plo perfeito de automatismo verbal.

    Quer dizer: .no fundo, o surrealismo no era to anti-esttico como o Manifesto parecia demonstrar. E Aragon, por exemplo, Supervielle ou Paul Eluard, bem o confirmam.

    Quererei, ento, afirmar que Jorge de Sena um poeta revolu-cionrio? Sim e no. No, se na sua poesia no virmos, como de facto no vemos, um espcimen daquela poesia que, por excesso de significao, releva de um plano que no j o potico, mas o poltico, ou quejandos. E a isso no obsta que, aqui e alm, nalguns dos seus poemas, no surja uma ponta de subtil ironia combativa. Essa ironia, porm, filha da angstia. D a angstia de que tecida toda a verdadeira poesia. Sim, se nela considerarmos, e parece-me justo que o faamos, o esforo de quem, enquanto poeta, se a expresso vlida, autocdticamente procura refa-zer-se nas suas criaes. Criaes repassadas de um misterioso gosto amargo, que prende, no meio do verbalismo descarnado, ia a dizer asc-tico, que nos d a ideia, no raro, de nos encontrarmos em face de um neo-classicismo, feito de paixo e angstia, mistura com a violncia e a ironia contidas de certos momentos dramticos da existncia. Tudo isto, creio, nos revela o seu Pedra Filosofal. :E claro que este livro, por elucidativo que seja, e realmente , nos mostra um poeta ainda em evolu-o. E bem que assim acontea. Porque ... ai dos poetas quando atingem os estdios definitivos da sua vida potica! :E que a maturao artstica, como regra, coisa transitria. O poeta, atingido o cume las suas vir-tualidades criadoras, subsequentemente, ou entra em manifesta decadn-cia ou ingloriamente se repete. Ou no fossem to raros os que sabem chegado o momento de depor a pena!

    Jorge de Sena, em Pedt'a Filosofai, se bem se mantenha dentro de uma fase evolutiva, d-nos j a medida ele si mesmo, cria o seu prprio espao. Apesar de um certo sentido de frustrado que se evola de alguns dos seus versos. Aquilo que o leva a exclamar:

    Desisti, regresso, aqui me tens, coberto de vergonha e de maus versos, para continuar lutando, continuar morrendo, continuar perdendo-me de tudo e todos, mas tua sombra nenhuma e tutelar.

    Seja, porm, como for, quando um poeta cria o seu prprio espao, quando atinge aquele plano em que se sente ser ele prprio e no outro,

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  • quando a sua poesia nos conduz a uma apreenso mais ntida e profunda do mundo sensvel, distancie-se ou no da nossa maneira de ser e das nossas concepes ideolgicas, exige o nosso respeito.

    E merece a admirao, nesta hora de quase retorno, por parte de diletantes de diversa natureza e feitio, a modismos que j deram todos os seus frutos, daqueles que, com ou sem sacrifcio, ainda so capazes de admirar.

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  • ALGUNS

    Ll''ROS DE POESIA

    Hora Entendida

    de f4aria da encamafO 'Baptifl.a e~)

    Quando surge um verdadeiro poeta, alm da felicidade e do alvoroo do encontro, alm da surpresa, sentimos tambm que essa voz vem de longe, dos confins duma longnqua intimidade. A surpresa a dum reencontro. A poe-sia, porque no gratuita e infundada, um restabelecer da perptua virgin-dade da vida e do ser.

    As origens reconhecem-se quando se descobrem, a poesia velha como o mundo; viver e, sobretudo, viver em poesia, reatar a mvel eternidade d~ tudo e inserir-se na totalidade dum unt-verso que se recompe a todo o instante.

    O ser total alm do termo a que aspiramos e com que o poeta dialoga, alm da sua idealidade, a sua consubs-tanciao humana oa poesia criada ou, antes, a sua recriao pela poesia. Pouco importa, se quisermos apenas consider~r a validade deste dilogo como expressao e recriao da essncia humana, saber se esse ser total existe independentemente do homem; a sublimidade ou transcen-dncia da poesia no est ligada foro-

    (*) Editorial Inqurito, Lda. - Lisboa, 1951.

    sarnente ao reconhecimento ou pressen-timento dum sobrenatural; a grandeza duma voz no se mede com um atestado de crena divina. O ser desconhecido ainda o homem. A sua essncia, pres-tes algum dia a tornar-se existncia, ainda lhe estranha, escapa-se-lhe; pe-rante si mesmo o homem pretende re-cuperar-se, atingir-se l no extremo do desenvolvimento das suas faculdades. A sua integrao s poder ser universal, total pelo melhor e mais alto de si mesmo.

    Talvez esteja condenado a no atin-gi-la nunca, no importa!, nunca desis-tir nunca se conformar com se deter,

    ' . -com satisfazer-se numa mtegraao super-ficial. Sempre e sem fim, como disse um poeta portugus.

    Mas ser poeta defrontar-se tambm com os monstros da negao, sentir-se continuamente tentado a dar razo ao temvel contraditor, no-Poesia, Morte, ao cansao de todas as virtuali-dades que por tragdia se traem insu-portvelmente. E, contudo, ganhar a partida - provisoriamente no plano ~a vida, definitivamente no plano da poesia que atestar a vitria para sempre. Tal a terrvel liberdade que exige o exer-ccio da poesia, essa mesma liberdade

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  • que uma contnua criao do ser, o refazer do mundo, a vitria do poeta sobre a Babel que o absorve, o esmaga e o pode aniquilar. Nada mais trgico nem mais terrivelmente vergonhoso do que a derrota do poeta quando se deixa ser a voz do seu contraditor - o mundo sobre que a sua poesia deve ser uma vitria. O poeta ento a caverna onde ressoa a demonaca voz da negao que se afirma, que se proclama triunfante. 1! a suprema traio liberdade e poe-sia, a tentao absoluta. E a angustiosa raiva da voz que trai o sinal da morte.

    Curioso que seja a propsito da admirvel estreia de Maria da Encarna-o Baptista que me tenham sado da pena estas generalidades sobre poesia. A razo no ser devida apenas ao facto do poeta usar uma ou duas vezes a expresso ser to/a/; a razo ser a sua poesia desde j a lcida expresso, pro-fundamente consciente, dum drama de poeta que possui, como diz Casais Mon-teiro no seu belo prefcio a este livro, o segredo de invocar as secretas vises e de evocar as figuras ocultas do des-tino. Drama essencialmente potico e universal, porquanto o poeta, sem des-dizer a sua concreta realidade humana, tanto pela expresso como pelo contedo, se situa na vanguarda dos que, sem arti-fcios de modernismo superficial, sem desvios de procuras expressionais, pers-crutam, profundamente atentos, as rea-lidades do ser e lhe iluminam as vir-tualidades.

    Estamos, iniludivelmente, diante dum poeta perfeitamente maturo, revelando uma segurana e um equilbrio raros. O que impressiona Jogo sentir-se o comando imperioso e irrecusvel do con-tedo emocional a ganhar a forma mais adequada, inteligentemente aprendida na lio de Pessoa e Casais Monteiro. No h quase hesitaes, tentames, desvios de procura na maior parte destes poe-mas; o pensamento e a emoo potica

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    fluem numa forma dctil, malevel, des-carnada quase, que literria sem lite-ratura a mais e concentradamente potica.

    A complexidade do poema no advm da dificuldade da forma, porque esta a mais adequada a um complexo contedo psicolgico que se quer lcido. A poesia de Maria da Encarnao Bap-tista situa-se no polo oposto ao dos nossos lricos sentimentais ou dos puros lricos para quem a poesia uma reali-. zao fugaz em que a inteligncia vencida pela emoo, ou ainda dos poetas para quem a forma dir-se-ia ter um valor potico em si. Uma intuio que no quer abdicar do papel clarifi-cador da conscincia ou um pensamento que se religa constantemente ao senti-mento, eis o que d a esta poesia um tom de gravidade psicolgica que ainda nenhuma mulher atingiu nas nossas letras e que mesmo difcil encontrar n nossa poesia moderna.

    E, no entanto, sente-se a cada passo que a maturidade deste livro provm duma seiva fresca que o mistrio da poesia empolgou em todo o seu esplen-dor. Trago nos lbios, o poema que abre H ora Entendida (um ttulo bastante significativo e exacto) o melhor con-vite intimidade da sua poesia, a reve-lao irrecusvel dum entusiasmo e duma fora autnticas. Simplesmente essa fora e essa juvenilidade j foram provadas por experincias entendidas que se-ro em grande parte fruto duma intuio potica que se defronta com a existn-cia, corajosamente, sem pretender fugir s humanas responsabilidades de qual-quer vida. E por aqui se deve ligar a poesia de Maria da Encarnao Baptista de Casais Monteiro. A humanidade dum, que se traduz na preocupao duma integrao humana na vida e na fideli-dade angustiosa que ela exige, encontra no outro esse mesmo tom de virili-dade ( ?) amargurada, de desiluso que se mistura inextricvelmente ao da espe-

  • rana, como se por mais fiel ser vida a poesia devesse atestar o positivo e o negativo numa torturada e sempre con-tingente superao.

    Em muitos dos seus poemas, sem que haja influncia despersonalizante, Maria da Encarnao nos faz lembrar a voz do poeta de Sempre e sem fim, ascetica-mente eloquente, heroicamente desespe-ranada e, no entanto, j prenuncia-dora duma manh que nos penetra do seu frescor rido. Como este passo do belo poema Voz na Encruzilhada :

    Vem! Traz o cansao, a dor e essa aparente [dvida

    que s tua Revolta! Traz o peso do mundo atado s costas e as mos rasgadas e pendentes e vazias ... Traz todas as misrias que te deformaram ... O amor e o dio ... As nsias afogadas ... O vcio e o crime ... As esperanas derrota-

    [ das ... Os belos gestos sem razo e o desespero de

    [quantas cobardias! .. . Vem degradado, sublimado, transfigurado .. . Inteiro - tu! - homem da Terra: escravo e senhor da Terra - e sem receio passa a linha da cancela que sempre em mim a tua Afirmao ... Ouves os sinos longe? Depressa ! Mostra sem medo o riso da caveira e vem meu filho ...

    Vem amanhecer minha beira !

    Manh sem fim, diz o poeta num dos seus melhores poemas, Para o Dia Unificado:

    Manh sem fim a leiva do porvir no adubo dos passos. Manh sem fim onde eu e tu mais do que os frutos do nosso cansao para esta fome colheremos uma promessa sempre renovada.

    A manh ser sempre, mesmo num mundo mais humano e mais justo, o fruto duma liberdade constantemente ensaiada, uma promessa renovada,

    tanto mais que a extino do homo eeconomims tornar essa fome muito maior, muito mais lUcidamente faminta de integrao fraternal e livre numa comunidade essencialmente humana.

    A. R. R.

    D ez Odes ao Tejo

    de ..Armindo 'R.odrig11es (*)

    E Armindo Rodrigues um poeta que sabe do seu ofcio. Isto dito ao mesmo tempo com ironia e sem ironia. Estas dez odes lavadas e escorridas tm versos harmoniosos, clssicos, e aqui e alm alguma poesia, por virtude do Tejo e at do poeta. No queremos ser injustos para um autor que estimamos como um dos mais individuados da moderna poe-sia portuguesa, mas no podemos deixar de censurar-lhe os visveis defeitos desta obra por tantos lados superficial e apres-sada.

    Lemos e relemos o livro no desejo de vencer a sensao que nos ficava de uma sucesso rtmica de palavras que, embora bem timbrada e indicando um contedo de fcil leitura e adeso inte-lectual, logo e rpidamente se dissolvia como se se tratasse afinal e apenas de palavras. Sensao curiosa, talvez para-doxal, se atentarmos em que Armindo Rodrigues se mostra um poeta to preo-cupado com o contedo ideolgico dos seus poemas.

    Sucederia isto por virtude da beleza clssica dos seus versos, da sua trans-parncia, da sua facilidade? Seria o caso de sermos ns os prevertidos por uma poesia cheia de ressonncias amb-guas, menos voluntariosa, mais abando-nadamente autntica?

    () Cancioneiro Geral - Centro Bibliogr-ico:o - Lisboa, 1961.

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  • A verdade, porm, que, apesar de comungarmos com o poeta em certas suas reivindicaes humanas, no lograra a leitura do seu livro despertar-nos a expectativa sempre anelante e apaixo-nada que precede e acompanha a comu-nicao potica.

    E - retomando a dvida - o mal estaria em ns?

    Vimos que no. Vimos que, delibe-radamente, sem que se sentisse solicitado por nenhuma autntica necessidade de comunicao potica, o poeta se resolvera a cantar o. Tejo por ach-lo um belo tema e que para isso se servira dum ins-trumento de poetizao bastante super-ficial, ainda quando colhido no prprio arsenal potico da sua obra e com um tom que sempre Armindo Rodrigues. O tom duma voluntariedade que nos piores momentos duma retrica dema-siado pessoal. Vontade de potncia ou de liberdade, mas to pessoalmente ela mesma, que chega a confranger o esforo de integrao social que o poeta em-preende numa dialctica pobre em que a sntese artificialmente criada ou sim-plesmente iludida. O resultado de to visvel excesso de personalidade no sentirmos nenhuma real e profunda per-sonalidade potica, que sem dvida Armindo Rodrigues possui. E nem os ideais foram defendidos, que s def en-d-los no os defende, nem o poeta rea-lizado: o que ficou foram alguns belos versos, harmonias verbais, ideias procla-madas com certa vibrao rtmica, mas o que ns teimamos em chamar poesia -no.

    No estamos condenando a interven-o da conscincia, da vontade no plano da criao potica: o que condenamos que a poesia se reduza quase apenas a um projecto que se cumpre risca, numa inspirao cuidada de palavra-pu-xa-palavra, subordinada a um outro mbil anterior ao essencial: o duma impulso meldica, subjectiva, o duma

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    experincia total irrecusvel que depois - e s depois - a conscincia do poeta poder vontade elaborar.

    Uma reaco tradio modernista da poesia, canto de profundidades que delas parte ou sempre a elas se liga atravs de planos mltiplos de sensibi-lidade ou neles se adentrando total-mente?

    Todas as reaces so fecundas; esta, em alguns aspectos, regressiva. Ainda que haja aqui e alm um aproveitamento imagstico da poesia moderna combi-nando-se aos ritmos e expresses classi-cizantes num todo bem fundido, o plano superficial e descritivo em que o poeta se coloca parece-nos pobre.

    Na verdade, Armindo Rodrigues tem ocasio de se comover vrias vezes ao ponto de afirmar :

    . . . do ambiente possudo, temo que o corao me v parar.

    Acreditemos, como de resto em tudo o que Armindo Rodrigues diz. Mas acreditar, em poesia, muito pouco, nada. Ns preferiramos que o poeta nos comovesse realmente em vez de descrever, e por tal forma, a sua emo-o; que os seus versos a transmitissem e no a relatassem.

    A construo formal dos poemas consegue habilidosamente suportar, por exemplo, esta referncia ao homem, que s extra-poeticamente pode interessar ao leitor:

    Sou eu, de facto, outra vez, felizmente, um homem, e no uma sombra imaginada, que estou aqui, tua beira, Tejo, a olhar-te com enlevo e a olhar com enlevo a lua, mas capaz sempre de regressar ao mnimo

    (apelo de proximidade, ao humano calor da humana linguagem.

  • A perigosa facilidade de fazer ver-sos ilustra-a o seguinte trecho, em que o prosaico e o descritivo se chocam num aflitivo contraste com o ritmo cantabile e donairoso do poema :

    Carlos de Oliveira, repara como isto belo at ao fundo da observao mais atenta. No h atmosfera mais clara, nem menos complicado mundo, nem riqueza mais opulenta.

    Queremos no entanto assinalar o que de audacioso e positivo esta reaco por-ventura possui. A vida quotidiana, que grande parte da arte e poesia modernas tm degradado, aqui restituda sua dignidade, ainda que, dum ponto de vista mais exigente, tanto humanstico como potico, nos surja demasiado res-trita, demasiado particularizada para que triunfe at integrao.

    A. R. R.

    As Coordenadas Lricas

    de Fernanda 'Botelho (*)

    As Coordenadas Lricas. No se chega a saber o qu~ mais aJmirar neste ttulo : se a rigorosa preciso em que se exprime, se o estranho sortilgio que o envolve. Estes dois termos, assim auda-ciosamente reunidos, definem um certo e negligenciado aspecto da criao - e subentendem todo um destino de Poeta.

    Antes de mais, Fernanda Botelho sugere-nos que um poema , tambm, e alm de tudo o resto que possa ser, um documento topogrfico, Hricamente topogrfico. Cada uma das suas poesias

    () Edies T vola. Redondo. - Lisboa, 1951.

    nos deixa entrever um conjunto de li-nhas, atravs de cujo encontro se deter-minam lugares emocionais.

    Em esquema, poderemos dizer que h Poetas de momentos puros e Poetas de momentos referenciados: os primei-ros tocados e arrebatados pelo aparente isoamento, inteireza e independncia de cada instante, so principalmente ms-ticos e eleaacos; os segundos, mais incr-dulos e ~enos apaixonados, raci.ocin~m sobre e no prprio momento da msptra-o - e, tentados a sit11ar esse r11:omento em conjuntos mais vastos e mais co1?1-plexos, denunciam certo fundo e~s~1stico, ou certo fogo satrico e dramatic~. Entre os primeiros, incluir-se-ia um Tei-xeira de Pascoaes, um Afonso Duarte, uma Ceclia Meireles; entre os segundos, um Pessoa, um Casais Monteiro, um Drummond de Andrade. Na mais mo-derna gerao de Poetas portugueses, poderemos considerar Sebastio da Gama ou Sofia de Mello Breyner Andresen como exemplos desses Poetas de momen-tos puros; na outra categoria, na de Poetas de momentos referenciados, ocor-rem-me imediatamente os nomes de An-tnio Manuel Couto Viana - e de Fer-nanda Botelho.

    Evidentemente que esta diviso arbitrria como todas as divises; evi-dentemente que em qualquer dos Poetas referidos se h-de encontrar Poesia dos dois tipos assinalados. , Mas, com. esta diviso, pretende-se somente sublmhar dois modos fundamentais de criao - e suaerir, em certos Poetas, a obedincia,

    o , 'd mais constante ou mais nitl a, a um ou outro desses modos. - Neste primeiro livro de Fernanda Botelho, deparamos, sem dvida, com certas composies que so a pura e gratuita transcrio lrica de momentos isolados: poesias como as intituladas Altura, Despedida, Pa-raso Perdido ou Do outro lado do rio atestam-no bem claramente. Mas a mai~r parte do volume constituda por

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  • poemas de outra natureza, por momentos um tanto elaborados - s atingidos por meio de (e no obstante) algumas coor-denadas prvias, determinadas de forma um pouco intencional.

    Em Fernanda Botelho, tudo se con-verte em linhas, figuras, sombras e vo-lumes, num desejo inconsciente de geo-metrizao. (E note-se que tal obsesso geomtrica dever corresponder a qual-quer dado ntimo bastante iniludvel : Fernanda Botelho promete-nos, certa-mente para breve, um romance - O 11g11to Raso - onde, a avaliar pelo ttulo, essa mesma obsesso permane-cer). Uma das grandes originalidades da sua Poesia, aquela que mais perturbou e encantou os leitores do nmero um da T vo/a Redonda (onde, pela primeira vez, apareceu a pblico o nome de Fer-nanda Botelho) , sem dvida, a de essa tendncia geometrizante se exercer no tanto sobre a forma (que, no geral, a-geomtrica) mas sim sobre a prpria matria - os sentimentos, as emoes, as magens- e sobre si mesma:

    . . . pareo uma pirmide truncada com sobrecasaca de frio.

    Esta imagem, para l da audcia e do aspecto inslito que a caracteriza, revela algo de muito importante : Fer-nanda Botelho v-se a si prpria sob uma forma geomtrica, depurada, redu-zida s suas linhas essenciais. O aci-dental no a preocupa; e, por detrs de todas as aparncias, dir-se-ia que ela apenas descobre, ou entrev, estruturas geomtricas, umas vezes frgeis, outras vezes densas - sempre, todavia, mas fecundas do que todas as coisas gue as envolvem.

    Mas, nesta Poesia em que vidas que se encontraram so comparveis aos ponteiros dum relgio meia-noite, onde as mentiras so cartas h idrogr-ficas, onde h suspeitas perpendi-

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    culares, onde a manh se apresenta com esquinas brancas e as pessoas com a melancolia tosca e enrodilhada de bales vazios - nada, contudo, chega a ser agreste, seco ou despojado de calor humano. A arte de Fernanda Botelho exerce-se em dois sentidos; ou melhor : por meio de dois movimentos aparente-mente inversos. Atravs do primeiro, ela desnuda-nos a realidade, at no-la entregar reduzida s suas linhas esque-mticas; e s depois a sua fora lrica preenche de sortilgio esses vazios, de sonho ou espanto essas linhas, figuras e volumes. Pirmide truncada? Sim; mas logo a seguir coberta por uma sobre-casaca de frio- que , afinal, mgica-mente clida, daquele potico e enter-necido calor das coisas confrangidas.

    Vidas que se encontraram: ponteiros dum relgio meia-noite.

    Porqu, e para qu, tanta secura? Mas no nos esqueamos de que :

    Depois, os tempos pararam, antes de vir a manh incolor.

    E firmaram a eternidade p~g dum momento de amor.

    Toda a Poesia de Fernanda Botelho feita destas mgicas compensaes: de coordenadas - lricas.

    A geomtrica forma de meus passos procura um mar redondo.

    Fernanda Botelho sabe que a liber-dade perfeita e ltima - o mar re-dondo - , que o objectivo de toda a

  • Arte, se pode atingir, e se atinge, atravs de passos que no sejam desordenados nem informes.

    DAVID MOURO-FERREIRA

    A Viglia e o Sonho

    de Jos Fernandes Fafe (*)

    Mrio de Andrade aconselhava a que se no fizessem ou pelo menos no se publicassem versos antes dos vinte e cinco anos. Segundo ele, a poesia de antes dessa idade seria quase um mero fe?meno fisiolgico, uma brotoeja que a idade da razo fcilmente neutraliza. Em Portugal, o mtodo no me parece excessivo : a poesia na maior parte dos casos s teria a ganhar.

    Ignoro se Jos Fernandes Fafe j atingiu os vinte e cinco anos. Seja como for, a sua estreia prematura, no obs-tante a informao potica que deve ter, a avaliar pelas vozes que se entrecruzam nos seus versos: Carlos de Oliveira, Armindo Rodrigues, Eugnio de An-drade, Jos Gomes Ferreira, Sidnio Muralha... Muita literatura, ressaibas clssicos e anacronismos vocabulares intolerveis. Quer o poeta reabilitar palavras como: paladino, peregrino, sideral, aurola, prola, etc.? Talvez seja possvel - na poesia tudo poss-vel! - mas Jos Fernandes Fafe no o conseguiu.

    O que tanto mais de lamentar porquanto pressentimos em Poma datado e Vamos nus de promessas um poeta que talvez j se anuncie.

    A. R. R.

    (*) Cancioncfro Geral - Centro Bibliogr-fico!> - Lisboa, 1961.

    As Palavras Interditas

    de ugnio de ...Andrade (*)

    Se entendermos a palavra clssico na acepo que lhe d Valery quando afirma que os clssicos so os que vm depois, Eugnio de Andrade ser um clssico pelo sbio equilbrio da sua arte, da mais autntica modernidade. Em reaco s geraes da Presena e do Novo Can-cioneiro, na medida em que a uns inte-ressava mais o contedo psicolgico do poeta e, a outros, a sua integrao social, do que propriamente a construo do poema, o autor de As Mos e os Pr11tos apresentava-se confirmando definitiva-mente em Portugal a tendncia para valorar o poema como realidade objec-tiva, em torn-lo, como disse outro poeta, um objecto.

    A unidade do estilo, a riqueza ima-gstica, o sentido da consistncia interna do poema e da sua contextura formal faziam desse livro, com que Eugnio de Andrade revelava a medida do seu gnio potico, uma ob.sa de rara qualidade esttica que colocava o seu autor na dianteira dos jovens poetas post-presen-cistas . Clssico pelo sentido da medida, pelo apuro e acabado da factura, ro-mntico pelo fundo ardente e melanc-lico, se notvamos quanto a sua arte devia a um estudo atento e apaixonado da obra de Rilke, de Keats, de Shelley e a uma subtil permeabilidade poesia de Torga, ramos forados a render justa homenagem a um original poder criador e uma verdadeira fora potica.

    Depois de Amantes sem Dinheiro, um livro em que a grave e melanclica plenitude de As Mos e os Fmtos se perdia um pouco para dar lugar a uma defrontao mais angustiosa com um

    (*) Cancioneiro Geral - Centro Bibliogr-fico - 1951.

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  • mundo hostil ao universo dos amantes, depois desse livro, sem dvida mais fraco e menos uno, d-nos agora Eug-nio de Andrade este, magnfico, que int itulou As Palavras Interditas. N ele encontramos alguns dos mais belos poe-mas da lngua portuguesa, como Re-trato com Sombra, Litania, Via-gem, Cano e Rosto afogado.

    Se a obra no consegue apresentar a mesma unidade que As Mos e os Frutos, se h mesmo alguns poemas onde falta a fora duma certa necessidade interna que os unifique, no h dvida que Eugnio de Andrade se est re-novando e procurando aprofundar e alargar a sua poesia, num esforo dra-mtico de superao que nos seus me-lhores momentos maravilhosamente obtida. Nunca o amor encontrou em Portugal uma voz to subtil e apaixo-nadamente imaginativa, capaz de con-trastar os mnimos imponderveis, como nessa pequena e maravilhosa Cano; uma voz em que a plenitude nostl-gica, a ardncia vital desesperada e ao mesmo tempo triunfante, sempre arre-batadamente humana mas tambm sem-pre sensualmente dominadora das for-mas, dos ritmos e das imagens mais deslumbrantes.

    A imaginao no inimiga da poesia quando se funda na paixo e no sentimento, quando, verdadeira dimen-so verbal do desejo e do sonho, ela completa a vida sem a iludir. Por isso que o poeta a compara com o sonho de Ado, que ao acordar achou a ver-dade. Porque se encontrou nela, porque a poesia o homem.

    I Mas nem sempre a beleza destes ver-

    sos se articula internamente com o con-tedo do poema; dir-se-ia que, por ve-zes, se destacam parte do todo-poema

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    e vivem por si. Ora isto antolha-se-nos g rave defeito porque pensamos que a poesia de Eugnio de Andrade no tende necessriamente a uma libertao imagstica, ou seja, a uma independncia

    ' total das imagens em relao interna unidade do poema. .f'. possvel que ns estejamos erradamente a focar este livro dum ponto de vista demasiado enfeu-dado realizao esttica mais cabal do seu autor: As Mos e os F1'11tos - onde tudo se funde na unidade do poema, numa plenitude formal e emotiva que uma e a mesma.

    Notamos, por exemplo, em poemas como Procuro-te e Os olhos rasos de gua, que a autenticidade humana e desesperada deles no se funde to bem com a realizao artstica como sucede nos melhores poemas atrs citados. O tom mais directo do desespero, ou da acusao, ou da indignao compa-dece-se menos com um verso meldico, exige um verso de ngulos mais desta-cados e mais duro. E isso que Eug-nio de Andrade tenta com um pouco menos de felicidade. Por outro lado, um poema como No verdade no consegue impor-se absolutamente, talvez porque o ritmo meldico e clssico desa-jude na medida em que musicaliza e suaviza o vigor verberativo do poema.

    Sempre dentro da sua ptica de amante, condio essencial deste poeta, a poesia de Eugnio de Andrade, como toda a verdadeira poesia, envolve uma crtica da existncia que neste livro mais se aclara. O universo dos amantes acusa a ignomnia dum mundo que lhe hos-til : toda a poesia tambm um processo, pela imaginao e pelo desejo. A s Pa-lavras Interditas so uma magnfica pea dum processo sempre em curso.

    A. R. R.

  • Corpo VlsTel

    de Urio [esariny de V as-concelos ()

    O principal defeito que podemos criticar num poeta surrealista portugus no ter havido em Portugal, e na hora prpria, um movimento surrealista. O surrealismo, l fora, desapareceu como movimento, as fortes personalidades que dele fizeram parte evoluram para cami-nhos que, embora conservando certas suas aquisies vlidas, o superaram e at o negaram.

    Mrio Cesariny de Vasconcelos em-prega o automatismo com a fora e a impulso duma personalidade potica. O que esta liberdade implica de arbi-trariedade, o que ela arrasta de ganga verbal, de associaes onde apenas o bizarro prevalece, o defeito de que podemos acusar qualquer obra surrea-lista, isto , a que no se imponha a escolha objectiva sobre a matria subjectiva da inspirao.

    No Corpo Visvel um poema gratu ito onde se no sinta o clamor dum mundo profundamente alienado; matria cintilante da emoo potica que explode em imagens desligadas de qualquer unidade temtica, parece o poeta querer referir um ponto de par-tida no real. Podemos considerar sin-tomtico que este poema comece numa localizao na cidade e ao longo dele a realidade exterior seja evocada nos seus aspectos quotidianos, ainda que tra-vestida por uma imaginao verbal sur-realista.

    O melhor do poema est m passa-gens isoladas, como esta onde o poeta desenvolve a imagem dum canto de cigarra numa maravilhosa correspondn-cia imagstica, que se impe para alm

    () Lisboa -1950.

    do que caballsticamente queira signi-ficar:

    Comea a ouvir o canto da cigarra sinal de que foi pisado o boto entre os !imos

    No meio de muito delrio verbal e imagstico, encontram-se convincentes vi-braes humanas. O quotidiano -nos singularmente evocado, no seguinte passo, num tom que diramos quase bblico, proveniente da repetio da copulativa, de o homem e a mulher, daqueles tempos ridos :

    Agora somos pequenos e inmeros e percor-[ remos o espao com gangrenas nas mos

    e intentamos chamadas telefnicas e marcamos de novo e desligamos depressa e tu pes uma charpe sobre os ombros e eu visto o meu casaco e samos de vez porque ns somos a multido a que eu chamo o homem e a mulher de todos os tempos

    [ridos e como sempre no h lugar para ns nesta

    [cidade esta ou outra qualquer que de perto ou de

    [longe a esta se parea.

    Atente-se no ritmo sufocante em harmonia com a sucesso das imagens reais e repare-se como ele d gravi-dade do trgico enunciado dos versos finais um acento de irreprimvel confis-so e de transcendente urgncia. :e um belo momento potico.

    E, mais adiante, o humanismo do poeta confessa-se num tom que gosta-ramos de ver mais repetido, porque iniludivelmente generoso e autntico :

    Convenhamos meu amor convenhamos que estamos bem longe de ver pago todo o

    (tributo devido misria deste tempo e que enquanto um s homem um s que

    [seja e ainda que seja o ltimo existir (DESFIGURADO

    no haver Figura Humana sobre a terra

    Corpo Visvel essencialmente um canto de amor que se pretende definir

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  • p_erante um mundo inumano e que por fim regressa a si mesmo como nica realidade possvel. Preferamo-lo, con-tudo, mais liberto de tanto desvio ima-ginativo, um canto mais livre e mais consciente. Preferamo-lo ... mas o poeta preferir-se- a si mesmo.

    Coral

    A. R. R.

    de Sofia de l1.ello 'Breyner ...A.ndresen (*)

    lrico puro, de razes trgicas, Sofia ~e Mello Breyner Andresen atinge neste livro uma altitude e pureza poticas tal-Yez nicas na nossa mais jovem poesia.

    Antes de mais, a forma deste uni-verso potico de maravilhosa monotonia impe-se-nos como linguagem, ritmo e imagem. A transposio alcana um alto grau expressivo. Um reduzidssimo mas cristalino vocabulrio lhe basta para nos da~ o seu espao povoado de aragens e bnsas, folhagens e deuses, e essa luz to pura, to grega, que parece iluminar cada verso seu.

    . Poesia da alma e do corpo, no espi-ntual nem fantstica nem fantasmtica

    ' o menos puro espiritual possvel, po-der-se-ia dizer que Sofia aspira a ser terrenamente divina.

    Poesia da alma e do corpo nas suas relaes sensveis com o universo num

    ' plano de imaginao potica predomi-nantemente verbal e visual.

    O visualismo deste poeta acompa-nhado das exigncias dum tacto afina-dssimo: seria fcil exemplificar, e abun-dantemente, esta sua caracterstica que s uma mulher capaz de desenvolver

    (*) Livraria Simes Lopes - Porto, 1960.

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    to bem. Feminilidade que se desprende de cada palavra e lhe d essa vibratili-dade subtil, essa transparncia de gua em que se transmuda o seu finssimo sensualismo.

    Espiritualidade provinda duma ex-trema delicadeza de sentidos e que se traduz num visualismo geometrizado, pa-tente na recolha de palavras como: hori-zonte, ngulos, arcos, inteiro, branco, nus, espaos, cncavo, etc.

    Poder-se-ia diminuir esta poesia pelo que ela no reflecte de calor humano, de situao histrica, de circunstancial; pelo que o seu universo tem de puro, de ve-dado ao otttro m11ndo, o nosso mundo vulgar. E poder-se-ia razoar que a grande poesia no dispensa, nunca, o concurso de uma voz menos ludicamente desen-raizada.

    Talvez por isso este poeta no atinja a grandeza que, por outras importantes razes, a sua arte lhe permitiria alcan-ar. Mas esta observao ultrapassa, cre-mos, o papel do crtico de poesia, a quem compete reconhecer, antes de mais, se est ou no em presena duma autn-tica realizao potica. No caso de Sofia, ela existe. Este seu livro Coral o con-firma.

    Se perde em humanidade, vemos que ganha em trgica beleza transfiguradora. Um pouco fria, sensvel doura fan-tstica das coisas, -lhe permitido evo-car com lmpida nostalgia

    o azul e o fresco duma idade morta mas que regressa com os seus claros cavalos de cristal que se vo esbarrar no horizonte.

    Que este regresso seja apenas imagi-nativo, nem por isso deixa de ser menos real como sugesto potica e como su-premo anseio duma superior sensibili-dade artstica.

    - .

  • O poeta que diz:

    Creio na nudez da minha vida

    tambm um corpo sepultado que afirma com o acento duma simplicidade trgica:

    H muitas coisas que eu no quero ver.

    A essncia do lirismo de Sofia de Mello Breyner Andresen o pceta no-la d nestes versos :

    Nesta pgina s h: angstia a destruir um desejo de lisura e branco, um arco que se curve - at que o pranto de todas as palavras me liberte.

    A. R. R.

    Poemas

    de ..Alberto de Lacerda (*)

    Os Cademos de Poesia, que feliz-mente reiniciaram a sua magnfica tarefa de divulgao e dignificao da poesia, aps uma interrupo de cerca de dez anos, publicaram no seu fascculo oito um jovem poeta digno de ateno.

    Voz amarguradamente nostlgica, dominada pela perdida infncia, sequiosa de perfeio e de pureza, mas num tom de queixa pudica, de ressentimento ao magoado mundo do adolescente. Alguns dos seus poemas so patticos pela tris-teza excessiva, a ponto de recearmos que o poeta se deixe entregar a qualquer solicitao mais negativa ou mstica que o perca para a poesia; mas, por outro lado, o que h de caracteristicamente adolescente e um pouco de literrio nesta poesia alerta-nos para uma inter-pretao mais conformemente dialctica,

    (*) Cadernos de Pocai4 - Fascculo oito, segunda srie - Lisboa , 195 l.

    superadora do apontado perigo. O que no quer dizer que a entranhada tris-teza de que est repassada a sua poesia no possa vir a ser, mesmo superada, uma constante do temperamento lrico de Alberto de Lacerda. Diotima, o poema final desta recolha, confirma-nos neste parecer. A recompensa fa lta dum carinho perfeito encontra superior ex-presso num poema como rfo.

    Pressente-se em Alberto de Lacerda uma autntica vocao de lrico a cami-nho de realizao.

    A. R. R.

    Llnha do Horizonte

    de ..Aguinaldo Fonseca (*)

    Sou ainda dos que afirmam que a escola literria dita neo-realista cons-tituiu uma experincia de resultados no-tveis e que dar, decerto, melhor conta de si, uma vez que se renove, se aper-feioe e evolucione, no se negando a uma mais funda e vasta integrao.

    H, no entanto, um certo neo-rea-lismo j ultrapassado que nos confrange pela sua insinceridade, pela sua incon-sistente verdade. Um neo-realismo de intenes, aparentemente humano, e, no fim de tudo, condenado s coisas inteis.

    No serei eu quem exija ao poeta este ou aquele figurino. Poderei, e certo, ter as minhas preferncias poti-cas, o que no me impede, contudo, de reconhecer a autenticidade dos autn-ticos poetas. O que se exige ao poeta , no fim de contas, que o seja. E, para isso, que se identifique com a sua ver-dade. E a desvende.

    Ora, este livro de Aguinaldo Fon-seca, j desde a dedicatria (simptica

    (*) Edio da Seco de Cabo Verde da Casa dos Estudantes do Imprio - Lisboa, 1951.

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  • pela inteno, mas brigando aflitiva-mente com o bom gosto artstico) e atravs de todos os seus poemas, um livro frio, incaracterstico, sem emoo. A inteno no chega. A. F. quis poeti-camente realizar o seu drama de homem que vai fi cando pelo caminho ainda que revestido duma longe esperana, mas, ou por no encontrar o instrumento ade-quado, ou por no ter sido submetido a uma funda vivncia desse mesmo drama, o seu livro epidrmico, inco-municativo, conquanto roado aqui e alm por uma dedada de beleza. Pobre a sua imagstica e nada malevel a sua linguagem, dum prosasmo deselegante:

    O mundo est estragado ! O mundo est cheio de ladres!

    Nesta vida - teatro de mil cenas -

    Quando a frustrao aflora, d-a em lugares-comuns, em expresses incolores, tais como :

    - Um silncio a ferver em beijos que no te dei nem me deste.

    Sobre um tema - e o caso de Revolta - desenvolve algumas estro-fes cantadas, como quem pretende sal-var atravs do ritmo a pobreza do contedo potico.

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    ..

    As suas invocaes so confrangedo-ramente insinceras: .

    tu que s a mim falas,

    estrela, planeta ou cometa,

    Em face disto (e as citaes multi-plicar-se-iam) vemo-nos perplexos sobre o futuro deste estreante.

    Acusando um ou outrq toque de Sidnio Muralha, uma ou outra rara sugesto de Antnio Botto, Aguinaldo Fonseca no consegue dar-nos um ind-cio do seu pretenso mundo potico.

    Talvez que, caldeando a sua lingua-gem, perscrutando melhor a sua verdade (e esta parece andar aliada aos motivos, aos ambientes da sua terra natal, como no-lo faz pensar o seu poema mal aca-bado Magia Negra :

    Abro De par em par, a janela Ao convite da noite tropical. E a noite enche o meu quarto de estrelas

    (vivas.),

    talvez assim A. F. consiga apresentar-nos um livro que seja verdadeiramente a sua estreia potica.

    J. T.

  • .

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