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A Princesa, a Gata e a Borralheira: construo de imaginrios sobre o casamento

Marina Blank Virgilio da Silva1

Resumo:

O principal objetivo desta pesquisa refletir sobre a construo de imaginrios

que envolvem o casamento, aprofundando a figura da noiva e a associao com o ideal

romntico personalizado na princesa, relao central a um imaginrio sobre

matrimnio e esttica marcado pelos contos de fada. Destaca-se a memria e o papel da

fotografia no ritual.

noiva so atribudas as caractersticas valorizadas das princesas Disney

clssicas: beleza, graa, elegncia. Existe a necessidade de vnculo conjugal da princesa

com um prncipe para a constituio do prprio status de princesa, no uma

conceituao fixa, se faz por imagens cambiantes, est compreendida no imaginrio

sobre o que ser noiva, assim como o inverso.

A construo social que a preparao do casamento importante para a noiva,

devendo ser realizada por ela, analisada. Para o noivo, tomar decises poderia ser

opcional. A mulher criada para desejar casar e ser uma princesa, mas para o homem o

casamento seria seu "game over". Esta reflexo norteia-se pela desconstruo do

sistema obrigatoriamente toda mulher deveria desejar se casar/ todo homem deveria

fugir deste compromisso.

Faz parte deste imaginrio figuras como a graciosa Julia de Balzac, oprimida

pelas obrigaes sociais, cujo casamento (colocado pelo autor como um dos pilares da

sociedade burguesa) um longo sofrimento iniciado em uma ideia de amor romntico

juvenil, em criancices com um vu nupcial, ou as protagonistas de Jane Austen e o

modelo de casamento aristocrtico, base para entendermos o ritual nos dias atuais.

Reflexes como as apresentadas por Dostoivski em O Eterno Marido e Tolsti em A

Sonata a Kreutzer tambm so frutferas para a pesquisa em um desencantamento de

um universo encantado.

Palavras-chaves: Casamento; Imaginrio; Noiva; Princesa; Conto de Fada

1 Mestranda do Programa de Ps-Graduao em Antropologia da Universidade Federal da Paraba. Bacharela em Cincias Sociais pela Universidade de So Paulo.

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Ter um casamento completo, com cerimnia e festa o sonho de muitas

mulheres, e de vrios homens tambm, claro, mas no em proporcional nmero. O

romantismo est ligado a esse ritual, alimentado pelos contos de fada. A associao

entre ser noiva e querer ser uma princesa, mesmo que por um dia, foi desenvolvida

nesta pesquisa.

socialmente aceito que um casal inicie uma vida conjugal, morem juntos, at

mesmo tenham filhos, sem estarem casados. Ento, por que muitos no abrem mo da

celebrao do casamento? Que relaes, redes de afinidade e parentesco o casamento

est criando? O casamento legitimador desse estado, da unio. Passa- se de um estado

liminar, em que no se solteiro, mas que ainda no se tem a confirmao social de sua

posio para a de casal estvel. Os status de esposa e de marido so importantes na

sociedade moderna. Com o casamento, a posio social do casal se reestabelece.

O casamento como ritual de passagem, como rito simblico, est de certa forma

no imaginrio dos noivos, famlias, madrinhas, padrinhos, convidados, cerimonialistas,

fornecedores. Mas no s entre os diretamente envolvidos neste processo, essa uma

ideia presente no senso comum, no que poderamos chamar de imaginrio coletivo, de

uma forma rudimentar. H uma aparente tenso, no interior do prprio ritual do

casamento, entre imaginrios construdos, expectativas dos noivos, das famlias e dos

convidados. Esta aparente tenso e a construo dela so foco desta pesquisa. A

abordagem principal atravs do uso da fotografia, utilizando a tcnica de foto-

elicitao, e de elementos como filmes, livros e programas de televiso.

Esta pesquisa desenvolvida no mestrado fruto de pesquisas anteriormente

realizadas durante a graduao. A primeira, para a disciplina de metodologia e pesquisa

de campo em Antropologia, possibilitou interessantes reflexes sobre o casamento e

verificou a falta de pesquisas contemporneas na rea das Cincias Sociais sobre o

tema. A partir desta, que abordava de forma ampla cerimnia e festa como ritual, uma

posterior foi desenvolvida em disciplina de Antropologia Visual, conjuntamente ao

incio da pesquisa de Iniciao Cientfica, recortando o objeto casamento, iniciando a

reflexo sobre a construo de imaginrios sobre este tema e inovando a metodologia. A

reflexo parte da necessidade de se compreender por que e como o ritual do casamento

perdura at a modernidade e, apesar da reconfigurao da instituio famlia

contempornea, se fortalece.

O apoio na trajetria de mudanas nesse ritual j descrita pela literatura e

contexto em que os casamentos so ou no realizados colaboraram para a possibilidade

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de enxergar um cenrio em que as categorias conceituais e smbolos esto inseridos,

alm de servir como campo propcio para reflexo sobre a inter-relao entre

indivduos, espao e tempo, mas no so focos para a pesquisa a ser desenvolvida,

apenas pontos de apoio anlise. Desta forma, no o objetivo abarcar toda a

diversidade de formas de expresso desse ritual de passagem notadamente presente em

praticamente todas as sociedades e diversas pocas e sim contribuir para o entendimento

antropolgico e sociolgico deste importante ritual.

Turner, refletindo sobre a experincia, lembrando do que Dewey chamou de

uma iniciao e uma consumao, d como exemplo a cerimnia de casamento como

uma experincia formativa e transformativa, uma sequncia distinguvel de eventos

externos e reaes internas a ele tais como iniciaes em novos modos de vida (Turner,

2005). Essa experincia interrompe o comportamento rotinizado, no um mero

momento, mas um momento, quando a vida pode ser sentida de forma mais intensa e as

trocas so ampliadas. Da podemos entender a relevncia do dia mais importante na

vida dos noivos, ou pelo menos um deles, e como o comportamento dos envolvidos

nesse ritual se transforma durante o perodo de preparao e celebrao.

Ainda pensando com Turner (1974), noiva e noivo se tornam personae

liminares, h um contraste entre seu estado e a transio, um perodo ambguo,

no possuem ainda o status de casados e, portanto, inclusive legalmente, de marido e

mulher, mas por outro lado no so indivduos separados e nem correspondem aos

papis de mulher e homens solteiros. No ritual da cerimnia e festa, os convidados

vivenciam momentos de communitas, em que h algo de sacralidade.

Nas cincias sociais existe uma percepo de que a relevncia dos fenmenos

reside na sua significao, tanto para o observador quanto para os que dele participam.

Por isso importante destacar que o ritual malevel, a variabilidade dos ritos de

casamento est no s na diferena entre regies e religies, mas entre tradio,

renovao e adaptao, entre imaginrios compartilhados. M. Segalen coloca que

perceber a plasticidade dos ritos e se interrogar sobre as condies sociais dessa

variabilidade significa compreender melhor as causas de sua manuteno na sociedade

moderna. (Segalen, 2002). A plasticidade do ritual do casamento impressiona.

Combinada com o seu alto grau de fragmentao possvel que cada elemento se

transforme seguindo uma orientao e no necessariamente quebrando a tradio. A

noiva pode entrar danando e de vermelho na igreja, mas ainda assim manter uma ideia

romntica de casamento.

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Atentamos s tenses entre a importncia do dar, principalmente compreendido

como gastar, e o receber na celebrao do ritual. Busca-se uma articulao terica entre

o simbolismo tradicional, a plasticidade de rito e a reciprocidade da troca entre os

noivos e convidados. E a dupla dimenso possvel neste ritual: por um lado pode ser

compreendido como um momento de desprendimento e, por outro, como uma

demarcao social e demonstrao de status.

O casamento como negcio e o negcio de casamentos

Este ritual tambm uma demonstrao de status no sentido prximo de

ranking, prestgio social, como Mauss aponta ao analisar o Potlatch do noroeste

americano. A pompa da celebrao mostra abundncia para se compartilhar e ser

mostrada. No importa se esse status real ou no, se o casamento foi pago vendendo o

que for preciso no relevante no momento em que est ocorrendo a celebrao. No

incio da festa do casamento do casal Lontra, antes do aguardado jantar, os noivos,

agora marido e mulher, fizeram um discurso, aps agradecer a presena de todos e

ressaltarem o quanto estavam felizes neste dia to especial, a noiva declarou s ns

sabemos os sacrifcios que tivermos que fazer para ter tudo isso hoje, s ns. Com

direito a helicptero, Rolls Royce, fogos de artifcio, tapete vermelho e banquete, o

casamento de princesa e estrela de cinema fez valer um oramento da realeza de

Hollywood.

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E viveram felizes para sempre, assim que terminaram de pagar as parcelas

Alm dessa dimenso de pompa e demonstrao de poder, tambm h outra, o

verdadeiro desprendimento, a communitas. Noivos e convidados compartilham

momentos de verdadeira comunidade.