A ESCOLA ATIVA CAPIXABA (1928-1930) “ A A” “V A A ÊA A A” ?· sociologia, educação e instrucção…

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  • Anais Eletrnicos do IX Congresso Brasileiro de Histria da Educao Joo Pessoa Universidade Federal da Paraba 15 a 18 de agosto de 2017

    ISSN 2236-1855 5081

    A ESCOLA ATIVA CAPIXABA (1928-1930) ENTRE ESCOLAS TRISTONHAS E VERDADEIRAS COLMAS DE ALEGRIA

    Rosianny Campos Berto1

    Regina Helena Silva Simes2

    Introduo

    No conjunto de uma ampla e ambiciosa reforma do ensino, com base em princpios da

    Escola Nova, realizada no Estado do Esprito Santo, entre 1928 e 1930, este estudo investiga

    saberes e prticas produzidos na Escola Activa de Ensaio, uma instituio criada com o

    objetivo de divulgar os mtodos ativos e as inovaes pedaggicas por todo o Estado, e seus

    possveis desdobramentos em escolas pblicas capixabas.

    A reforma em questo foi dirigida por Attilio Vivacqua, secretrio de Instruo do

    Estado durante o governo de Aristeu Borges de Aguiar. Na proposta inicial, a Escola Activa de

    Ensaio figurava como instituio modelar, junto da qual se realizou, tambm, a preparao

    dos docentes que atuariam com base nas ideias escolanovistas, por meio do Curso Superior

    de Cultura Pedaggica (CSCP), criado e ministrado pelo educador paulista Pedro Deodato de

    Moraes.

    A composio da Escola Activa de Ensaio, em torno de salas-ambiente e de self

    governement, baseava-se na metodologia proposta por Ovide Decroly, que servira de

    referncia a Adolphe Ferrire, cujas ideias influenciaram, em grande medida, a reforma do

    ensino no Esprito Santo, durante o perodo estudado.

    Para essa anlise, tomamos como fontes relatrios da Secretaria da Instruo Pblica e

    da Inspeo Escolar, mensagens de governo, matrias jornalsticas, imagens e o livro

    Pedagogia Scientifica, no qual Deodato de Moraes, responsvel pelo programa de formao

    de professores expunha as bases cientficas da pedagogia que deveria orientar a formao e a

    prtica docentes. Esses documentos so analisados de modo indicirio, a partir de um

    entrecruzamento que no perca de vista os seus diferentes contextos de produo

    (GINZBURG, 2002).

    1 Doutora em Educao pela Universidade Federal do Esprito Santo (UFES). Professora Adjunta no Departamento de Ginstica da Ufes. E-Mail: .

    2 Doutora em Educao. Professora da Ufes; E-mail: .

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    Escola Ativa de Ensaio: um modelo a ser propagado

    A Escola Activa de Ensaio foi criada com um objetivo claro: ser locus de formao

    docente dentro dos preceitos escolanovistas e ser o centro irradiador desses preceitos pelas

    escolas do Estado. Para isso, foi organizada no novo prdio do Grupo Escolar Gomes Cardim,

    inaugurado em novembro de 1926, durante o governo de Florentino Avidos. Tratava-se de

    um [...] amplo edificio, especialmente construdo, em excelentes condies pedagogicas e

    hygienicas, na Avenida Capichaba (ESPIRITO SANTO, 1927).

    O prdio possua as condies desejadas para colocar em prtica as ideias ativas da

    educao. Nele se criou essa escola modelar, na qual seriam aplicados, com os alunos do

    Grupo Escolar, os princpios da escola activa pelos professores que frequentassem o Curso

    Superior de Cultura Pedaggica (CSCP). Essa instituio destinar-se-ia, tambm, prtica

    dos alunos do 4 ano da Escola Normal Pedro II e das escolas normais particulares.

    A partir disso, a escola activa comeava a ganhar forma no Esprito Santo. A Escola

    Activa de Ensaio era uma iniciativa que representaria mais tarde [...] uma interessante e

    auspiciosa experiencia pedagogica (VIVACQUA, 1930, p. 18), onde aconteciam as aulas

    prticas e tcnicas do CSCP. Essa era a Escola Activa de tipo transitrio, que seria destinada

    aplicao dos professores e inspetores que deveriam multiplicar os conhecimentos adquiridos

    nas escolas do Estado. Daquele espao deveria emanar um modo ativo de se ensinar, mas que

    tambm se pretendia como um modo local. Dali sairiam os [...] vanguardeiros das idas e

    praticas da pedagogia activa (VIVACQUA, 1930, p. 3).

    Do ponto vista da organizao curricular, o que deveria ser ensinado s crianas

    integrava o programa do curso de formao, que era ministrado em aulas tericas, prticas e

    tcnicas. As aulas tericas aconteciam em conferncias pblicas e tomavam como ilustrao

    uma vasta documentao, chamada de cientfica, baseada em grficos, diagramas, esquemas

    e projees cinematogrficas (VIVACQUA, 1930).

    As aulas prticas e tcnicas eram de responsabilidade dos prprios cursistas, sempre

    orientados por Deodato de Moraes. A ideia que aplicassem os novos mtodos pedaggicos.

    Nas aulas tcnicas, os alunos do curso aprenderiam a trabalhar com exames escolares, entre

    os quais estavam: [...] anamnese, antrophoscopia, cephalometria, espirometria,

    reflectividade, motilidade, linguagem, dynamometria, presso arterial, estatura, peso,

    acuidade sensorial, predisposies mentaes (VIVACQUA, 1930, p. 12). Nomenclaturas que

    indicavam a cientificidade da proposta.

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    Para o desenvolvimento das aulas e, tendo em vista a criao de um modelo a ser

    irradiado, a Escola Activa de Ensaio teve sua organizao baseada no sistema de salas-

    ambiente, conforme o Quadro 1:

    QUADRO 1

    AS SALAS AMBIENTE DA ESCOLA ACTIVA DE ENSAIO

    SALAS DESTINAO

    1 - Sala de Expresso comprehendendo o ensino da lngua, sob os seus mltiplos aspectos: leitura, escripta, declamao, representaes, correio escolar, clubes. Folk-lore, brasilidade. Musica, orpheo. Desenho, decorao

    2. - Sala de Medida para o desenvolvimento do raciocnio (arithmetica e geometria), a pratica dos oramentos e das construces em geral: os jogos de domin, dama, moinho, xadrez, manhuau. Bancos e cooperativas escolares

    3. - Sala de Observao - Terra e Vida

    para o ensino das sciencias physicas e naturaes, com laboratorios, aquarios, viveiros, terrarios, museus e lbuns

    4. - Sala da Observao - Espao e Tempo

    para o ensino da geographia, anthropogeographia, ethnographia, historia, sociologia, educao e instruco civica. Museu geographico e historico, lbuns, taboleiros de areia e machinas de projeco. Circulo de Paes

    5 - Sala da Saude comprehendendo o ensino e a pratica da hygiene e da cultura physica. Fichamento dos alumnos. Museu de hygiene. Pelotes de sade. Escola de mezinhas. Escotismo

    6. - Sala de Documentao Biblioteca, filmotheca, diapositivos. Archivo 7. - Sala dos Trabalhos modelagem, cartonagem, pintura, empalhao, tecelagem, photographia,

    sapataria, typographia, carpintaria e costura em geral. Fonte: Vivacqua (1930, p. 18-19).

    A organizao das salas-ambiente estava fundamentada no chamado mtodo Decroly.

    No livro A lei biogentica e a escola activa,3 Adolphe Ferrire recomenda salas especiais para

    cada um dos ramos de atividade na escola. Para isso, ele cita como referncia a escola de

    Ovide Decroly em Bruxelas, organizada a partir dos princpios por ele aplicados, apoiados

    nos centros de interesse. Assim, a estruturao do espao, conforme as indicaes de

    Ferrire, deveria ter: uma sala da vida, uma sala das medidas, uma sala de historia e

    geografia, uma oficina de carpintaria, uma sala para desenho e artes plsticas. Alm

    disso, seria necessrio um refeitrio, uma biblioteca escolar, um museu geral e uma

    biblioteca para os professores.

    O modo como a escola se configurou, tendo por orientao as salas-ambiente, traz

    elementos para reflexes sobre o que deveria ser ensinado em uma escola que tivesse por

    direcionamento as prticas ativas. As aulas deveriam cuidar da preparao dos sujeitos para a

    vida, tendo em vista as funes que assumiriam quando adultos. Esto implcitos e, por

    vezes, explcitos, os aspectos que constituiriam a formao do homem e da mulher por meio

    3 O livro A lei biogenetica e a escola activa foi publicado no Brasil em 1929, como parte da Coleo Biblioteca de Educao, organizada por Loureno Filho.

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    da preparao para o trabalho nas indstrias, para o trabalho manual, para o

    empreendimento e, no caso especfico das meninas, para serem mes e donas de casa.

    O trabalho aparece no programa e na organizao da escola como uma das temticas

    centrais, juntamente com a sade e a higiene, cujo espao era privilegiado na Escola Activa de

    Ensaio, dadas as necessidades de se ensinar ao povo os salutares preceitos de hygiene, a

    comear pela criana na escola. Desse modo, na configurao proposta, [...] a Sala de Saude

    a sala das salas, onde se ensinam e applicam os principios hygienicos, dos novos

    programmas, e donde parte a orientao para a educao physica e intellectual da creana,

    como resultado dos exames que ali se fazem (ESPIRITO SANTO, 1930, p. 86).

    Em busca de purificar e de aumentar as energias da raa, a escola deveria preparar a

    criana para uma vida com hbitos sadios, visando sade individual. Essa era uma das

    maiores preocupaes do governo e, por isso, para a Secretaria, a educao sanitria era a

    parte principal dos programas escolares. Alm disso, como complemento ao CSCP, foi

    organizado um curso especial de higiene e educao sanitria, ministrado por Americo de

    Oliveira, no Departamento de Saude Publica (VIVACQUA, 1930).

    Figura 1 Exame technico-scientifico na Sala de Saude da Escola Activa de Ensaio

    Fonte: Vivacqua (1930, s/p).

    Naquele perodo, a sade era tema de debates em mbito nacional em plena

    disseminao para os mbitos regionais, por meio, principalmente, dos departamentos

    estaduais da Associao Brasileira de Educao (ABE). Deodato de Moraes era membro da

    ABE carioca, da qual foi integrante do Conselho Diretor em 1928 (CARVALHO, 1998). Ele j

    defendia a incluso da sade nos programas escolares antes mesmo de integrar a equipe da

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    Reforma da Instruo no Esprito Santo. Conforme expunha no artigo, A escola activa a

    escola da sade, publicado originalmente como parte de uma tese sobre a escola nova

    defendida na I CNE,

    A lei biogenetica segundo a qual o individuo deve ser antes um bom animal para ser mais tarde um bom civilizado a pedra angular da Escola Activa. Que importam methodos, processos, livros e aparelhagem optimos quando a materia prima no est em condies de ser preparada? Ningum pode ensinar uma pessoa doente. Sade em primeiro logar e depois sabedoria (MORAES, 1929, p. 1).

    A partir desses preceitos, o funcionamento da escola pretendia alterar, tambm, o

    trabalho do professor que deveria ser [...] apenas, o guia intelligente dos alumnos. Elles

    proprios que organizam o seu estudo de accordo com as observaes feitas nesses varios

    departamentos da escola (REZENDE, 1930, p. 12).

    Na Escola Activa de Ensaio e nas prticas de escola activa que se pretendia

    consolidar nas demais escolas do Estado , os professores seriam responsveis pelas

    matrias a serem ministradas, de acordo com sua especialidade. Eles esperavam nas salas e

    os alunos que faziam o movimento rotativo. As aulas deveriam obedecer orientao do

    ensino ativo, respeitando as individualidades, mas culminando nas prticas coletivas. Alunos

    e professores cumpririam um programa flexvel que considerasse o regime de self

    governement de maneira que a criana desenvolvesse, desde cedo, o senso de

    responsabilidade, com possibilidade de progredir sem ter que passar por exames. O

    programa incluiria, ainda, excurses e visitas que tivessem um carter educativo e instrutivo.

    A orientao terica que respaldaria o trabalho dos professores pode ser encontrada no

    livro Pedagogia scientifica, produzido por Deodato de Moraes a partir dos contedos e das

    lies ministrados na primeira parte do programa do CSCP.

    O contedo do livro indica a preocupao em instruir os professores sobre as bases da

    Pedagogia que se pretendia ensinar a eles. Com relao a isso, o sumrio do primeiro captulo

    do livro detinha-se em trs aspectos: o carter cientfico da moderna pedagogia; os estudos

    fisiopsquicos da criana e a rvore pedaggica. Desse modo, o primeiro contedo

    ministrado aos cursistas do CSCP pretendia apontar as relaes existentes entre a Pedagogia

    e a cincia:

    A pedagogia, sciencia da educao, de militar que era no seu comeo, pois, s preparava homens para a guerra, de religiosa que foi mais tarde, toma vulto com as ultimas applicaes cientificas, com os ltimos trabalhos de Kant, de Fichte, Herbart, Bain, Spencer e tantos outros, e desgarrando-se dos ferreos laos da metaphysica, vae, pouco a pouco, perdendo a sua parte mysteriosa e dogmatica, deixando de ser um feixe de regras e de preceitos, para se

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    constituir sciencia concreta, essencialmente pratica e eminentemente moral e social (MORAES, s/d, p. 17).

    Os aconselhamentos de Deodato de Moraes passavam pela ideia de que o conhecimento

    cientfico da criana deveria partir de exames especiais que tivessem como foco desde os

    fatores hereditrios, colhidos na famlia, at anamneses do estado fsico e psquico de cada

    criana. Para todos esses exames, Moraes (s/d) apresenta, passo a passo, as fichas e clculos

    que deveriam ser feitos baseados em estudos j desenvolvidos sobre essas questes. Sobre

    isso o livro traz, tambm, os exerccios realizados pelos alunos do CSCP na Escola Activa de

    Ensaio, como o caso dos grficos produzidos a partir dos exames e anamneses feitos alguns

    alunos do curso e, em anexo no livro, as fichas e exerccios correspondentes ao contedo

    estudado, ou seja, todo o material que deveria ser usada na aplicao da escola activa

    cientfica pelo Estado.

    Com isso, a nova Pedagogia confiava ao professor o papel de investigador da vida da

    criana por meio de anlises, as mais variadas, que envolviam exames somticos diversos,

    cuja realizao contribuiria para compreender a criana e conduzi-la ao ensino que levasse

    em conta as suas particularidades. Os exames poderiam ajudar a conduzir as crianas ao

    desenvolvimento intelectual, de acordo com as suas necessidades.

    As medidas serviriam principalmente para orientar o professor na organizao do

    ensino, pois, por meio dos exames, seria possvel produzir fichas das crianas, o que

    constituiria suas carteiras biogrficas: uma ficha completa que conteria todos os dados

    biomtricos dos alunos. Esses registros poderiam contribuir para a diviso das crianas em

    grupamentos homogneos. Para Monarcha (2009, p. 236):

    [...] as prticas biomtricas, de uma parte, institucionalizavam os testes de rendimento escolar (ou pedaggicos) em matrias como linguagem, aritmtica, estudos sociais e cincias naturais; de outra parte, intentam dar conta da heterogeneidade dos contingentes, identificando a variedade de tipos mentais revelados pela escola [...].

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