A Defesa Das Inquisições

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  • A defesa das inquisies

    Os alegados horrores da Inquisio geralmente encabeam a lista dos argumentos dos

    inimigos da Igreja. Voltaire falava sobre aquele tribunal sanguinrio, aquelas exposies pavorosas de poder monacal[1]. A lenda negra da Inquisio impregnou nossas mentes a um ponto tal que, hoje, a maioria dos Catlicos incapaz de defender esta fase da histria da

    Igreja. Na melhor das hipteses, a justificam invocando os usos e costumes do perodo, que

    seriam muito mais brbaros do que aqueles da nossa era iluminada. Mais freqentemente, fazem coro com os anticlericais no ataque ao Tribunal do Santo Ofcio.

    Em sua carta sobre o Jubileu do Ano 2000, o prprio Santo Padre denuncia

    Outro captulo doloroso, sobre o qual os filhos da Igreja no podem deixar de tornar com esprito aberto ao arrependimento, a condescendncia manifestada, especialmente nalguns

    sculos, perante mtodos de intolerncia ou at mesmo de violncia no servio verdade.

    (35)[2]. (grifo do documento)

    No entanto, os santos que viveram na era da Inquisio nunca a criticaram, exceto para

    reclamar que ela no reprimia a heresia com a severidade suficiente. O Santo Ofcio

    escrutinou os escritos de Santa Teresa d`vila para checar se seria possivelmente o caso de

    uma falsa mstica, porque havia naquela poca muitos falsos msticos entre

    os Alumbrados[3] da Espanha. Longe de v-la como um sistema de intolerncia, a Santa

    depositou toda sua confiana no julgamento do tribunal, que, de fato, no encontrou qualquer

    heresia em seus escritos. Agora, os santos nunca tiveram receio em censurar os abusos do

    clero: na verdade esta uma de suas funes principais. Como algum pode explicar o fato de

    que os santos nada disseram contra a Inquisio? Como algum pode explicar que a Igreja

    tenha canonizado no menos que quatro Grandes Inquisidores: Pedro Mrtir (1252), Joo

    Capistrano (1456), Pedro Arbues (1485) e Pio V (1572)? So Domingos foi, na verdade, um

    associado do tribunal do legado da Inquisio.

    Na realidade, crticas Inquisio por autores Catlicos s vieram aparecer a partir do sculo

    dezenove, e nesta poca apenas entre os catlicos liberais, depois que os ultramontinos

    (clrigos que criam fortemente e apoiavam uma poltica papal mais vigorosa em assuntos

    eclesisticos e polticos) estavam apoiando vigorosamente o tribunal[4]. Antes da Revoluo

    Francesa, o discurso antiinquisitorial era caracterstico dos Protestantes. O historiador Jean

    Dumont, que o maior apologista da Inquisio na atualidade[5], aponta que as gravuras do

    sculo 16, que ilustram cenas dos autos-de-f (geralmente pblicos, nos quais aqueles

    submetidos Inquisio tinham suas sentenas pronunciadas) eram, costumeiramente,

    pintados na empena[6] das construes.

    Naquela poca, este tipo de arquitetura era encontrada nos Pases Baixos e no vale do Reno, mas

    no na Espanha. Este detalhe revela a origem protestante dessas gravuras. Com efeito, a lenda

    negra da Inquisio produto da propaganda protestante, que foi passado ao sculo 18 pela

    filosofia do Iluminismo, ao sculo 19 pela maonaria anticlerical, e ao sculo 20 pela Democracia

    Crist.

  • Contudo, os estudos histricos mais srios tm atualmente reconhecido que a Inquisio foi um

    tribunal honesto, que desejava converter os herticos mais do que puni-los, que condenou

    relativamente poucas pessoas fogueira, e que empregou tortura em casos excepcionais[7]. No

    entanto, o mito antiinquisitorial ainda circula na opinio pblica. Voltaire disse que uma mentira

    repetida mil vezes torna-se uma verdade. Mas a razo fundamental para a persistncia do mito de

    outra natureza. Se trabalhar em vo para provar que a Inquisio no era to terrvel quanto se

    quer crer. No se convencer a mente moderna, uma vez que o princpio da intolerncia

    religiosa como tal que inaceitvel hoje em dia. (grifo do autor) Por conseguinte, para se

    compreender o evento histrico da Inquisio, deve-se primeiramente entender a doutrina

    tradicional da Igreja sobre a liberdade religiosa.

    O Poder do Constrangimento Religioso

    O Conclio Vaticano II proclamou o princpio de liberdade religiosa:

    Esta liberdade consiste em que todos os homens devem estar imunes de coero, tanto por parte de

    indivduos como de grupos sociais e de qualquer poder humano, e isto de tal maneira que, em

    matria religiosa, nem se obrigue a ningum a intentar contra sua conscincia, nem se a impea

    que atue conforme ela em privado e em pblico, s ou associado com outros, (Dignitatis Humanae,

    art. 2).

    Em oposio a esta doutrina, fica evidente que o prprio princpio da Inquisio, que fez da heresia

    um crime sujeito a lei comum, s poderia ser rejeitado.

    No entanto, o princpio de liberdade religiosa est em completa ruptura com a tradio da Igreja. O

    Syllabus de Erros (1864) condena (grifo do autor) as seguintes proposies:

    24) A Igreja no tem poder de empregar a fora nem poder algum temporal, direto ou indireto.

    77) Na nossa poca j no til que a Religio Catlica seja tida como a nica Religio do Estado,

    com excluso de quaisquer outros cultos.

    79) falso que a liberdade civil de todos os cultos e o pleno poder concedido a todos de

    manifestarem clara e publicamente as suas opinies e pensamentos produza corrupo dos costumes

    e dos espritos dos povos, como contribua para a propagao da peste do Indiferentismo.

    A doutrina do Syllabus, que reconheceu para a Igreja e para o Estado o poder de constrangimento

    em matria religiosa, estava de acordo com a tradio Catlica. O Papa Leo X (1513 1521)

    condenou especificamente as proposies de Martinho Lutero que afirmavam que a Igreja no tinha

    o direito de queimar os herticos. Belarmino e Suarez tambm defenderam o direito da Igreja de

    impor a pena de morte, sob a condio de que a sentena fosse executada pelo poder secular, isto

    , pelo Estado[8]. So Toms de Aquino apoiou o uso do constrangimento, mesmo o fsico, para

    combater a heresia. Santo Agostinho apelou autoridade Imperial (Romana) para suprimir o cisma

    donatista pela fora. O Antigo Testamento punia com a morte idlatras e blasfemeadores.

    O poder de constrangimento em questes religiosas assenta-se sobre o princpio dos deveres do

    Estado voltados para a religio autntica. A lei divina no se aplica apenas aos indivduos; ela deve

    incluir toda a vida social. O Cardial Ottaviani sumariou as conseqncias desta doutrina[9]:

    1) A profisso social, e no meramente privada, da religio das pessoas; 2) A legislao inspirada

    pelo conceito pleno de associao em Cristo; 3) A defesa do patrimnio religioso das pessoas,

  • contra a todo o assalto que tenha o objetivo de priv-las da riqueza de sua f e de sua paz

    religiosa. (Duties of the Catholic State in Regard to Religion, C. S. sp., p.7.)

    Os partidrios da liberdade religiosa sempre invocaram a pacincia e a caridade evanglica em

    oposio a doutrina tradicional da Igreja sobre o dever de intolerncia para com a falsa religio.

    Esta oposio, no entanto, simplesmente um sofisma. Com toda certeza, nosso Senhor Jesus Cristo

    era tolerante com o pecador, mas demonstrou uma severidade implacvel para com os herticos de

    seu tempo, que eram os fariseus. Os modernistas evitam citar as passagens do Evangelho que

    mostram a firmeza divina. No a condenao eterna, que a retribuio por no crer (Mc 16,16),

    uma desgraa muitssimo mais pavorosa que a pior punio que um tribunal humano possa impor?

    So Joo probe mesmo saudar o hertico (II Jo 10). So Paulo miraculosamente cega Bar-Jesus, o

    mgico e falso profeta[10]. So Pedro no hesita em condenar mortalmente Ananias e Safira que

    roubaram a comunidade (Atos 5, 1-11).

    No verdadeiro Evangelho no h nada que se assemelhe a lassido moral e doutrinal que os

    modernistas qualificam como tolerncia ou como liberdade de conscincia. Cristo era paciente

    e misericordioso com o pecador arrependido, mas Ele nunca reconheceu qualquer direito ao erro e

    Ele exps os obstinados propagadores de erro a condenao pblica. A Inquisio adotou uma

    atitude com relao aos herticos comparvel quela de nosso Senhor.

    A argumentao antiinquisitorial assenta-se tambm sobre uma confuso entre liberdade de

    conscincia e liberdade religiosa. O ato de f deve ser livremente consentido, uma vez que constitui

    indiscutivelmente um ato de amor para com Deus. Um amor forado no pode ser um amor

    verdadeiro. Esta a razo porque a Igreja sempre se ops a converso forada. A famosa imagem

    de Espinal do monge espanhol que apresenta um crucifixo para um ndio enquanto o conquistador

    ameaa-o com sua espada ainda um outro fruto da propaganda protestante. Se alguns prncipes

    ocasionalmente foraram o batismo de povos conquistados como, por exemplo, Charlemagne fez na

    Saxnia (por volta de 780), tal foi feito contra a vontade da Igreja.

    Mas se a Igreja reconhece a liberdade de conscincia do indivduo no mais ntimo do seu corao, se

    o indivduo livre, correndo perigo a sua salvao, de recusar a f, no se segue que ele possa

    propagar seus erros e portanto levar outras almas para o inferno (grifo do autor). Dessa maneira,

    a Igreja respeita a liberdade de conscincia do indivduo, mas no a liberdade de expresso de

    falsas doutrinas.

    Contudo, enquanto a Igreja nega em princpio de direito a expresso pblica de falsas religies, ela,

    no necessariamente, as persegue na prtica. Com o intuito de evitar um mal maior, como uma

    guerra civil, a Igreja pode tolerar as seitas. Isto foi o que Henrique IV fez ao promulgar o Edito de

    Nantes (1598) que garantiu uma certa liberdade para os protestantes na Frana. Mas esta tolerncia

    no se constituiu um direito. Quando as circunstncias polticas permitem, o Estado tem o dever de

    restabelecer os direitos exclusivos do Catolicismo, como Luiz XIV fez quando ele revogou o Edito de

    Nantes em 1685. Alm do mais, o Papa congratulou o Rei Sol por ter tomado esta ao.

    Naturalmente, a doutrina tradicional Catlica sobre a intolerncia religiosa somente aplicvel

    naqueles pases onde o Estado oficialmente Catlico. A harmonia entre o sacerdcio e o imprio

    a ordem normal das coisas nas sociedades. Sob este aspecto, a Inquisio era um modelo de acordo

    entre a Igreja e o Estado, uma vez que o tribunal exercia uma jurisdio mista, tanto religiosa

    quanto civil.

    A idia central que justifica a Inquisio que a heresia professada em pblico um crime similar

    ao qualquer outro crime contra a lei comum[11].Sendo a religio o fundamento da moralidade, e a

    moralidade sendo o fundamento da ordem social, segue-se que a falsificao da f leva, em ltima

  • instncia, a uma ofensa contra a ordem social. Santo Toms comparou os herticos aos falsrios,

    que, durante a Idade Mdia, eram condenados a fogueira. Portanto, o Estado, como guardio da

    ordem pblica, tinha o dever de combater a heresia. Mas no seu papel de poder temporal, ele no

    tinha competncia para distinguir entre heresia e ortodoxia. Para isto, o Estado tinha que confiar

    num tribunal eclesistico.

    bom ter em mente, sobretudo, que a Inquisio no se ocupava com as opinies pessoais dos

    herticos, mas somente com a propagao pblica da heresia. A Inquisio realmente no cometeu

    qualquer ofensa contra a conscincia individual, mas agiu somente contra as atividades exteriores

    dos herticos.

    Para se compreender a lgica da Inquisio, deve-se libertar da mentalidade naturalista peculiar da

    cultura contempornea. Nas sociedades crists do Ancien Rgime, a vida sobrenatural era mais

    importante que a natural. Se era permitido condenar a morte um assassino que matava o corpo,

    com muito mais razo podia-se condenar a morte o hertico que estava levando almas para o

    inferno, uma vez que a perda da vida eterna um mal muito maior do que a perda da vida

    temporal.

    Obviamente, a viso do mundo que subjaz a lgica da Inquisio fundamenta-se sobre o princpio da

    realidade objetiva da verdade e do erro, na certeza da f Catlica, e na crena na condenao

    eterna. Essas idias so muito simplesmente incapazes de serem assimiladas pelas mentes modernas

    encharcadas no relativismo. De fato, um relativista incapaz de compreender o fenmeno da

    Inquisio. Ele se escandalizar pela barbaridade das pocas passadas e pelo obscurantismo da

    Igreja; ele se satisfar em fazer julgamentos inapropriados para as pocas em questo. Mas os

    historiadores devem tanto entender como explicar. Para faz-lo, devem sair dos sistemas de

    pensamento atuais e colocarem-se no estado mental da poca que se est estudando[12]. O

    historiador ser ento capaz de compreender o fenmeno da Inquisio, e isto o levar quase

    inevitavelmente, como veremos, a justificar as aes desse tribunal.

    Geralmente, se faz a distino entre dois tipos de Inquisio. H a Inquisio Medieval (1233

    sculo 18) e a Inquisio Espanhola (1480 1834). Freqentemente, a primeira qualificada de

    Inquisio pontifcia e a ltima de real, mas isso no se justifica, uma vez que estes tribunais

    sempre foram criaes articuladas da Igreja e do Estado. Foram alguns autores Catlicos que,

    embora bem intencionados, eram pobremente informados, que estabeleceram esta distino com o

    intuito de colocar os horrores da Inquisio sobre os reis da Espanha, ao invs de sobre os

    papas[13]. De acordo com eles, houve uma boa Inquisio Medieval que pretendeu apenas proteger

    a f, e a cruel Inquisio Espanhola que visava mais reforar o absolutismo real. Porm, esta

    distino no bem fundamentada. A Inquisio Espanhola no era nem mais violenta ou mais

    poltica que a Inquisio Medieval. As duas inquisies so melhores distinguidas, uma da outra,

    pela natureza de seus inimigos que elas tinham que combater: o Catarismo e os Marranos.

    O Perigo Ctaro

    O Catarismo se espalhou por toda a Europa entre os sculos 11 e 13. Ele floresceu particularmente

    em Languedoc (sul da Frana, da o nome albigense oriundo da cidade de Albi pelo qual a heresia

    tambm designada). A palavra catar vem do Grego katharos que significa puro. Na

    realidade, catarismo no propriamente uma heresia crist, mais uma outra religio[14]. Sua

    origem permanece obscura, mas sua doutrina estranhamente aproxima-se das filosofias Gnstica e

    Maniquia que circulavam no Oriente Mdio durante o terceiro e o quarto sculos. Observe-se

    tambm que a Maonaria reivindica ser o herdeiro dos mistrios iniciticos do Catarismo, por

    intermdio dos Templrios.

  • De acordo com os Ctaros, dois princpios eternos dividiram o universo. O bom que criou o mundo

    dos espritos, e o mau que criou o mundo material. O Homem apenas a juno dois dos princpios.

    Ele era um anjo cado, emprisionado em um corpo. Sua alma originou-se no bom princpio, mas o

    seu corpo foi formado do mau princpio. O objetivo do Homem era, portanto, liberar-se da matria

    por uma purificao espiritual, que freqentemente necessitava de uma srie de reincarnaes.

    Como todos os herticos, os Ctaros reivindicavam que sua doutrina era o Cristianismo verdadeiro.

    Eles guardavam a terminologia crist enquanto distorciam a essncia dos dogmas. Eles diziam que o

    Cristo era o mais perfeito dos anjos e que o Esprito Santo era uma criatura inferior ao Filho. Eles

    puseram em oposio o Antigo Testamento, obra do princpio mal, ao Novo Testamento...

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