Jorge Luis Borges - Outras Inquisies (PDF)(Rev)

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  • Este livro: Outras inquisies, parte integrante da coleo:

    JJOORRGGEE LLUUIISS BBOORRGGEESSOOBBRRAASS CCOOMMPPLLEETTAASS VOLUME II

    1952-1972 Ttulo do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas

    Copyright 1998 by Maria Kodama Copyright 1999 das tradues by Editora Globo S.A.

    1 Reimpresso-9/99 2 Reimpresso-12/OO

    Edio baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas,

    publicada por Emec Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha.

    Coordenao editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emec Editores

    Ilustrao: Alberto Ciupiak Coordenao editorial da edio brasileira: Eliana S

    Assessoria editorial: Jorge Schwartz

    Reviso das tradues: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo

    Preparao de originais: Maria Carolina de Araujo

    Reviso de textos: Mrcia Menin

    Projeto grfico: Alves e Miranda Editorial Ltda.

    Fotolitos: AM Produes Grficas Ltda.

    Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Gimnez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, lida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar,

    Haroldo de Campos, Ida Vitale, Jos Antnio Arantes e Maite Celada

    Direitos mundiais em lngua portuguesa, para o Brasil, cedidos

    EDITORA GLOBO S.A.

    Avenida Jaguar, 1485

    CEP O5346-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, So Paulo, SP

  • e-mail: atendimento@edglobo.com.br

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou eletrnico, fotocpia, gravao

    etc. - nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorizao da editora. Impresso e acabamento:

    Grfica Crculo

    CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte - Cmara Brasileira do Livro, SP Borges, Jorge Luis, 1899-1986.

    Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. - So Paulo : Globo, 2OOO.

    Ttulo original: Obras completas Jorge Luis Borges. Vrios tradutores. v. 1. 1923-1949 / v. 2.1952-1972 ISBN 85-25O-2877-O (v. 1) ISBN 85-25O-2878-9 (v. 2)

    1. Fico argentina 1. Ttulo.

    CDD-ar863.4 ndices para catlogo sistemtico

    1. Fico : Sculo 2O : Literatura argentina ar863.4

    1. Sculo 2O : Fico : Literatura argentina ar863.4

    OUTRAS INQUISIES Otras Inquisiciones

    Traduo de Srgio Molina

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    Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles que no podem compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao totalmente condenvel em qualquer circunstncia. A generosidade e a humildade a marca da distribuio, portanto distribua este livro livremente.

  • OOUUTTRRAASS IINNQQUUIISSIIEESS

    1952 -

    A Margot Guerrero

  • A MURALHA E OS LIVROS

    He, whose long wall the wand ring Tartar bounds...

    Dunciad, II, 76.

    Li, dias atrs, que o homem que ordenou a edificao da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador, Che Huang-ti, que tambm mandou queimar todos os livros anteriores a ele. O fato de as duas vastas operaes as quinhentas a seiscentas lguas de pedra opostas aos brbaros, a rigorosa abolio da histria, isto , do passado procederem da mesma pessoa e serem de certo modo seus atributos inexplicavelmente agradou-me e, ao mesmo tempo, inquietou-me. Indagar as razes dessa emoo o fito desta nota.

    Historicamente, no h mistrio nas duas medidas. Contemporneo das guerras de Anbal, Che Huang-ti, rei de Tsin, reduziu os Seis Reinos a seu poder e aboliu o sistema feudal; erigiu a muralha, porque as muralhas eram defesas; queimou os livros, porque a oposio os invocava para louvar os antigos imperadores. Queimar livros e erigir fortificaes tarefa comum dos prncipes; a nica singularidade de Che Huang-ti foi a escala em que ele atuou. o que do a entender alguns sinlogos, mas eu sinto que os fatos referidos so algo mais que um exagero ou uma hiprbole de disposies triviais. Cercar uma horta ou um jardim comum; no, cercar um imprio. Tampouco rotineiro pretender que a mais tradicional das raas renuncie memria de seu passado, mtico ou verdadeiro. Trs mil anos de cronologia tinham os chineses (e, nesses anos, o Imperador Amarelo, e Chuang Tzu, e Confcio, e Lao-ts), quando Che Huang-ti ordenou que a histria comeasse com ele.

    Che Huang-ti condenara a me ao desterro por libertinagem; em sua dura justia, os ortodoxos no viram seno impiedade; Che Huang-ti talvez quisesse suprimir os livros cannicos porque estes o acusavam; Che Huang-ti talvez quisesse abolir todo o passado para abolir uma nica lembrana: a infmia de sua me. (No de outra sorte um rei, na Judia, mandou matar todas as crianas para matar uma.) Essa conjetura aceitvel, mas nada nos diz da muralha, da segunda face do mito. Che Huang-ti, segundo os historiadores, proibiu qualquer meno morte, e procurou o elixir da imortalidade, e recluiu-se em um palcio figurativo, que constava de tantos aposentos como dias tem o ano; esses dados sugerem que a muralha no espao e o incndio no tempo foram barreiras mgicas destinadas a deter a morte. Todas as coisas querem persistir

  • em seu ser, escreveu Baruch Spinoza; pode ser que o imperador e seus magos acreditassem que a imortalidade intrnseca e que a corrupo no pode entrar em um orbe fechado. Pode ser que o Imperador tenha tentado recriar o princpio do tempo, tenha-se chamado Primeiro para ser realmente o primeiro, e Huang-ti para de certo modo ser Huang-ti, o legendrio imperador que inventou a escrita e a bssola. Este, segundo o Livro dos Ritos, deu s coisas seu nome verdadeiro; semelhantemente, Che Huang-ti jactou-se, em inscries que perduram, de que, sob seu imprio, todas as coisas receberam o nome que lhes convm. Sonhou em fundar uma dinastia imortal; ordenou que seus herdeiros se chamassem Segundo Imperador, Terceiro Imperador, Quarto Imperador, e assem at o infinito... Falei de um propsito mgico; tambm poderamos supor que erigir a muralha e queimar os livros no foram atos simultneos. Isso (segundo a ordem que escolhssemos) dar-nos-ia a imagem de um rei que comeou por destruir e mais tarde resignou-se a conservar, ou a de um rei desiludido que destruiu o que antes defendia. Ambas as conjeturas so dramticas, mas, que eu saiba, carecem de base histrica. Herbert Allen Giles conta que aqueles que ocultaram livros foram marcados a ferro candente e condenados a construir, at o dia de sua morte, a desmedida muralha. Essa notcia favorece ou tolera outra interpretao. Talvez a muralha fosse uma metfora, talvez Che Huang-ti tenha condenado aqueles que adoravam o passado a uma obra to vasta quanto o passado, to nscia e to intil. Talvez a muralha fosse um desafio e Che Huang-ti tenha pensado: "Os homens amam o passado, e contra esse amor nada posso nem podem meus carrascos, mas um dia h de viver um homem que sinta como eu, e ele destruir minha muralha, como eu destru os livros, e ele apagar minha memria e ser minha sombra e meu espelho, e no o saber". Talvez Che Huang-ti tenha amuralhado o imprio porque sabia que este era precrio e destrudo os livros por entender que eram livros sagrados, ou seja, livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a conscincia de cada homem. Talvez o incndio das bibliotecas e a edificao da muralha sejam operaes que de modo secreto se anulam.

    A muralha tenaz que neste momento, e em todos, projeta seu sistema de sombras sobre terras que no verei a sombra de um Csar que ordenou que a mais reverente das naes queimasse seu passado; verossmil que a idia nos toque por si mesma, para alm das conjeturas que permite. (Sua virtude pode estar na oposio entre construir e destruir, em enorme escala.) Generalizando o caso anterior, poderamos inferir que todas as formas tm sua virtude em si mesmas e no em um "contedo" conjeturai. Isso coincidiria com a tese de Benedetto Croce; j Pater, em 1877, afirmou que todas as artes aspiram condio da msica, que apenas forma. A msica, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepsculos e certos lugares querem dizer algo, ou algo disseram que no deveramos ter perdido, ou esto

  • prestes a dizer algo; essa iminncia de uma revelao, que no se produz, talvez o fato esttico.

    Buenos Aires, 1950.

  • A ESFERA DE PASCAL

    Talvez a histria universal seja a histria de algumas metforas. Esboar um captulo dessa histria o fito desta nota.

    Seis sculos antes da era crist, o rapsodo Xenfanes de Colofnio, farto dos versos homricos que recitava de cidade em cidade, condenou os poetas que atriburam traos antropomrficos aos deuses e props aos gregos um nico Deus, que era uma esfera eterna. No Timeu, de Plato, l-se que a esfera a figura mais perfeita e mais uniforme, porque todos os pontos da superfcie eqidistam do centro; Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie, 183) entende que Xenfanes falou analogicamente; o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor, ou menos m, para representar a divindade. Parmnides, quarenta anos depois, repetiu a imagem ("o Ser semelhante massa de uma esfera bem arredondada, cuja fora constante do centro em qualquer direo"); Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita, ou infinitamente crescente, e que as palavras transcritas acima tm um sentido dinmico (Albertelli: Gli Eleati, 148). Parmnides lecionou na Itlia; poucos anos antes de sua morte, o siciliano Empdocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia; h uma etapa em que as partculas da terra, da gua, do ar e do fogo integram uma esfera sem fim, "o Sphairos redondo, que exulta em sua solido circular".

    A histria universal seguiu seu curso, os deuses demasiado humanos que Xenfanes atacara foram rebaixados a fices poticas ou a demnios, mas afirmou-se que um deles, Hermes Trismegisto, ditara um nmero varivel de livros (42, segundo Clemente de Alexandria; 20.000, segundo Jmblico; 36.525, segundo os sacerdotes de Thot, que tambm era Hermes), em cujas pginas estavam escritas todas as coisas. Fragmentos dessa biblioteca ilusria, compilados ou forjados desde o sculo I1, formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum; em um desses fragmentos, ou no Asclpio, tambm atribudo a Trismegisto, o telogo francs Alain de Lille Alanus de Insulis descobriu em fins do sculo XII a seguinte frmula, que as idades vindouras no esqueceriam: "Deus uma esfera inteligvel, cujo centro est em toda a parte e a circunferncia em nenhuma". Os pr-socrticos falaram de uma esfera sem fim; Albertelli (como, antes, Aristteles) pensa que falar assim cometer uma contradictio in adjecto, pois sujeito e predicado se anulam; isso bem pode ser verdade, mas a frmula dos livros hermticos deixa-nos, quase, intuir essa esfera. No sculo XIII, a imagem reapareceu no simblico Roman de la Rose, que a apresenta como sendo de Plato, e na enciclopdia Speculum Triplex; no

  • XVI, o ltimo captulo do ltimo livro de Pantagruel referiu-se a "essa esfera intelectual, cujo centro est em toda a parte e a circunferncia em nenhuma, que chamamos Deus". Para a mente medieval, o sentido era claro: Deus est em cada uma de suas criaturas, mas nenhuma O limita. "O cu, o cu dos cus, no te contm", disse Salomo (I Reis 8, 27); a metfora geomtrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras.

    O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica, que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginao dos homens. A terra ocupa o centro do universo. uma esfera imvel; em torno dela giram nove esferas concntricas. As sete primeiras so os cus planetrios (cus da Lua, de Mercrio, de Vnus, do Sol, de Marte, de Jpiter, de Saturno); a oitava, o cu das estrelas fixas; a nona, o cu cristalino, tambm chamado Primeiro Mvel. Este rodeado pelo Empreo, que feito de luz. Toda essa laboriosa mquina de esferas ocas, transparentes e giratrias (um dos sistemas requeria cinqenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental; De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus o tmido titulo que Coprnico, negador de Aristteles, deu ao manuscrito que transformou nossa viso do cosmos. Para um homem, para Giordano Bruno, a ruptura das abbadas estelares foi uma libertao. Este proclamou, na Ceia das Cinzas, que o mundo o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade est prxima, "pois est dentro de ns mais ainda que ns mesmos estamos dentro de ns". Procurou palavras para explicar o espao copernicano aos homens e em uma pgina famosa estampou: "Podemos afirmar com certeza que o universo todo centro, ou que o centro do universo est em toda a parte e a circunferncia em nenhuma" (Da Causa, do Princpio e da Unidade, V).

    Isso foi escrito com exultao em 1584, ainda luz do Renascimento; setenta anos depois, no restava nem um reflexo desse fervor, e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espao. No tempo, porque, se o futuro e o passado so infinitos, no haver realmente um quando; no espao, porque, se todo ser eqidista do infinito e do infinitesimal, tampouco haver um onde. Ningum est em algum dia, em algum lugar; ningum sabe o tamanho de seu rosto. No Renascimento, a humanidade acreditou que chegara idade viril, e assim o declarou pela boca de Bruno, de Carnpanella e de Bacon. No sculo XVII acovardou-a uma sensao de velhice; para se justificar, exumou a crena em uma lenta e fatal degenerao de todas as criaturas, por obra do pecado de Ado. (No quinto captulo do Gnesis consta que "todos os dias de Matusalm foram novecentos e setenta e nove anos"; no sexto, que "havia gigantes sobre a terra naqueles dias".) O primeiro aniversrio da elegia Anatomy of the World, de John Donne, lamentou a vida brevssima e a estatura mnima dos homens contemporneos, que so como as fadas e os pigmeus; Milton, segundo a biografia de Johnson, temeu que o gnero pico j fosse impossvel na terra;

  • Glanvill entendeu que Ado, "medalha de Deus", desfrutou de uma viso telescpica e microscpica; Robert South famosamente escreveu: "Um Aristteles no foi mais que escombros de Ado, e Atenas, os rudimentos do Paraso". Naquele sculo desanimado, o espao absoluto que inspirou os hexmetros de Lucrcio, o espao absoluto que para Bruno fora uma libertao, foi um labirinto e um abismo para Pascal. Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus, mas Deus, para ele, era menos real que o abominado universo. Deplorou que o firmamento no falasse, comparou nossa vida de nufragos em uma ilha deserta. Sentiu o peso incessante do mundo fsico, sentiu vertigem, medo e solido, e expressou-os em outras palavras: "A natureza uma esfera infinita, cujo centro est em toda a parte e a circunferncia em nenhuma". O texto assim publicado por Brunschvicg, mas a edio crtica de Tourneur (Paris, 1941), que reproduz as rasuras e vacilaes do manuscrito, revela que Pascal comeou a escrever effroyable: "Uma esfera terrvel, cujo centro est em toda a parte e a circunferncia em nenhuma".

    Talvez a histria universal seja a histria da vria entonao de algumas metforas.

    Buenos Aires, 1951.

  • A FLOR DE COLERIDGE

    Por volta de 1938, Paul Valry escreveu: "A histria da literatura no deveria ser a histria dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da carreira de suas obras, e sim a histria do Esprito como produtor ou consumidor de literatura. Essa histria poderia ser levada a termo sem mencionar um nico escritor". No era a primeira vez que o Esprito formulava essa observao; em 1844, no povoado de Concord, outro de seus amanuenses anotara: "Dir-se-ia que uma nica pessoa redigiu quantos livros h no mundo; h neles tal unidade central que inegvel serem obra de um nico cavalheiro onisciente" (Emerson: Essays, 2, VIII). Vinte anos antes, Shelley sentenciou que todos os poemas do passado, do presente e do porvir so episdios ou fragmentos de um nico poema infinito, construdo por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry, 1821).

    Essas consideraes (implcitas, sem dvida, no pantesmo) permitiriam um infindvel debate; eu, agora, invoco-as para executar um modesto propsito: a histria da evoluo de uma idia, por meio dos textos heterogneos de trs autores. O primeiro texto uma nota de Coleridge, ignoro se escrita em fins do sculo XV11I ou princpios do XIX. Diz, literalmente:

    "Se um homem atravessasse o Paraso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que estivera ali, e ao despertar encontrasse essa flor em sua mo... O que pensar?"

    No sei qual ser a opinio de meu leitor acerca dessa imaginao; eu a considero perfeita. Us-la como base de outras invenes felizes parece previamente impossvel; tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem, de uma meta. Claro que o ; na ordem da literatura, como em outras, no h ato que no seja coroao de uma infinita srie de causas e manancial de uma infinita srie de efeitos. Por trs da inveno de Coleridge est a geral e antiga inveno das geraes de amantes que pediram uma flor como prova.

    O segundo texto que alegarei um romance que Wells esboou em 1887 e reescreveu sete anos mais tarde, no vero de 1894. A primeira verso intitulava-se The Chronic Argonauts (neste titulo descartado, chronic tem o valor etimolgico de "temporal"); a definitiva, The Time Machine. Wells, nesse romance, continua e reforma uma antiqssima tradio literria: a previso de fatos futuros. Isaas v a desolao de Babilnia e a restaurao de Israel; Enias, o destino militar de sua posteridade, os romanos; a profetisa de Edda Saemundi, o retorno dos deuses que, depois da cclica batalha em que nossa terra h de perecer, descobriro, espalhadas entre as ervas de uma nova

  • pradaria, as peas de xadrez com que antes jogaram... O protagonista de Wells, ao contrrio desses espectadores profticos, viaja fisicamente ao futuro. Volta exausto, empoeirado e muito abatido; volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espcies que se odeiam (os ociosos eloi, que habitam em palcios dilapidados e ruinosos jardins; os subterrneos e nictalopes morlocks, que se alimentam dos primeiros); volta com as tmporas encanecidas e traz do porvir uma flor murcha. Essa a segunda verso da imagem de Coleridge. Mais inacreditvel que uma flor celestial ou que a flor de um sonho a flor futura, a contraditria flor cujos tomos agora ocupam outros lugares e ainda no se combinaram.

    A terceira verso que comentarei, a mais trabalhada, inveno de um escritor muito mais complexo que Wells, embora menos dotado dessas agradveis virtudes que se costuma chamar de clssicas. Refiro-me ao autor de A Humilhao dos Northmore, o triste e labirntico Henry James. Este, ao morrer, deixou inacabado um romance de carter fantstico, The Sense of the Past, que uma variante ou elaborao de The Time Machine.1 O protagonista de Wells viaja ao futuro em um inconcebvel veculo, que avana ou recua no tempo como os outros veculos no espao; o de James volta ao passado, ao sculo XVIII, fora de compenetrar-se dessa poca. (Os dois procedimentos so impossveis, mas o de James menos arbitrrio.) Em The Sense of the Past, o nexo entre o real e o imaginrio (entre atualidade e passado) no uma flor, como nas fices anteriores; um retrato que data do sculo XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. Este, fascinado por essa tela, consegue trasladar-se data em que foi executada. Entre as pessoas que encontra, figura, necessariamente, o pintor; este o pinta com temor e averso, pois intui algo de incomum e anmalo nessas feies futuras... James cria, assim, um incomparvel regressos in infinitum, j que seu heri, Ralph Pendrel, traslada-se ao sculo XVIII. A causa posterior ao efeito, o motivo da viagem uma das conseqncias da viagem.

    Wells, verossimilmente, desconhecia o texto de Coleridge; Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. Claro que, se for vlida a doutrina de que todos os autores so um autor,2 tais fatos so irrelevantes. A rigor, no indispensvel ir to longe; o pantesta que declara que a pluralidade dos autores ilusria encontra inesperado apoio no classicista, segundo o qual essa

    1 No li The Sense of Past, mas conheo a suficiente anlise de Stephen Spender, em sua obra The

    Destructive Element (p. 1O5-1O). James foi amigo de Wells; sobre a relao deles pode-se consultar o vasto Experiment in Autobiography, deste ltimo.

    2 Em meados do sculo XVII, o epigramatista do pantesmo Angelus Silesius disse que todos os bem-

    aventurados so um (Cherubinischer Wandersmann, V, 7) e que todo cristo deve ser Cristo (op. cit., V, 9).

  • pluralidade importa muito pouco. Para as mentes clssicas, a literatura o essencial, no os indivduos. George Moore e James Joyce incorporaram, em suas obras, pginas e sentenas alheias; Oscar Wilde costumava dar seus argumentos de presente para que outros os executassem; ambas as condutas, embora superficialmente opostas, podem evidenciar um mesmo sentido da arte. Um sentido ecumnico, impessoal... Outra testemunha da unidade profunda do Verbo, outro pegador dos limites do sujeito, foi o insigne Ben Johnson, que, empenhado na tarefa de formular seu testamento literrio e os ditames favorveis ou adversos que dele mereciam seus contemporneos, limitou-se a combinar fragmentos de Sneca, de Quintiliano, de Justo Lipsio, de Vives, de Erasmo, de Maquiavel, de Bacon e dos dois Escalgeros.

    Uma ltima observao. Aqueles que copiam minuciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal, fazem-no por confundir esse escritor com a literatura, fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto afastar-se da razo e da ortodoxia. Durante muitos anos, eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Caninos-Assns, foi De Quincey.

  • O SONHO DE COLERIDGE

    O fragmento lrico Kubla Khan (cinqenta e tantos versos rimados e irregulares, de refinada prosdia) foi sonhado pelo poeta ingls Samuel Taylor Coleridge, em um dos dias do vero de 1797. Coleridge escreve que se retirara para uma chcara nos confins de Exmoor; uma indisposio obrigou-o a tomar um hipntico; foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma passagem de Purchas que descreve a edificao de um palcio por Kubilai Khan, o imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo. No sonho de Coleridge, o texto lido por acaso principiou a germinar e a se multiplicar; o homem que dormia intuiu uma srie de imagens visuais e, simplesmente, de palavras que as manifestavam; passadas algumas horas, acordou, com a certeza de ter composto, ou recebido, um poema de cerca de trezentos versos. Recordava-os com singular clareza e conseguiu transcrever o fragmento que perdura em suas obras. Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossvel, depois, recordar o restante. "Descobri, com no pequena surpresa e mortificao conta Coleridge , que, embora retivesse de modo vago a forma geral da viso, tudo o mais, salvo umas oito ou dez linhas soltas, tinha desaparecido como as imagens na superfcie de um rio onde se atira uma pedra, mas, ai de mim, sem a ulterior restaurao delas." Swinburne sentiu que os versos resgatados eram o mais alto exemplo da msica do ingls e que o homem capaz de analis-los poderia (a metfora de John Keats) destecer um arco-ris. As tradues ou resumos de poemas cuja virtude fundamental a msica so vos e por vezes prejudiciais; basta-nos reter, por ora, que a Coleridge foi dada em um sonho uma pgina de no discutido esplendor.

    O caso, embora extraordinrio, no nico. No estudo psicolgico The World of Dreams, Havelock Ellis equiparou-o com o do violinista e compositor Giuseppe Tartini, que sonhara que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma prodigiosa sonata; o sonhador, ao despertar, deduziu de sua imperfeita lembrana o Trillo del Diavolo. Outro exemplo clssico de cerebrao inconsciente o de Robert Louis Stevenson, a quem um sonho (segundo ele mesmo contou em seu Chapter on Dreams) deu o argumento de Olalla e outro, em 1884, o de Jekyll & Hide. Tartini quis imitar na viglia a msica de um sonho; Stevenson recebeu do sonho argumentos, isto , formas gerais; mais afim com a inspirao verbal de Coleridge a que Beda, o Venervel, atribui a Caedmon (Historia Ecclesiastica Gentis Anglocum, IV, 24). O caso ocorreu em fins do sculo VII, na Inglaterra missionria e guerreira dos reinos saxes. Caedmon era um rstico pastor e j no era jovem; uma noite, esgueirou-se de

  • uma festa por prever que lhe passariam a harpa, e ele sabia-se incapaz de cantar. Recolheu-se ao estbulo, para dormir entre os cavalos, e no sonho algum o chamou pelo nome e lhe ordenou que cantasse. Caedmon respondeu que no sabia, mas o outro disse: "Canta o princpio das coisas criadas". Caedmon, ento, recitou versos que jamais ouvira. No os esqueceu, ao despertar, e pde repeti-los diante dos monges do vizinho mosteiro de Hild. No aprendeu a ler, mas os monges explicavam-lhe passagens da histria sagrada e ele "as ruminava como um puro animal e as transformava em dulcssimos versos, e assim cantou a criao do mundo e do homem e toda a histria do Gnesis e do xodo dos filhos de Israel e sua entrada na terra prometida, e muitas outras coisas da Escritura, e a encarnao, paixo, ressurreio e ascenso do Senhor, e a vinda do Esprito Santo e o ensinamento dos apstolos, e tambm o terror do Juzo Final, o horror dos castigos infernais, as douras do cu e as mercs e os juzos de Deus". Foi o primeiro poeta sacro da nao inglesa; "ningum igualou-se a ele diz Beda , porque no aprendeu dos homens, e sim de Deus". Anos mais tarde, previu a hora em que morreria e aguardou-a dormindo. Esperemos que tenha reencontrado seu anjo.

    primeira vista, o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. Kubla Khan uma composio admirvel e as nove linhas do hino sonhado por Caedmon quase no apresentam outra virtude exceto sua origem onrica, mas Coleridge j era um poeta, enquanto a Caedmon foi revelada uma vocao. H, entretanto, um fato ulterior, que magnfica at o insondvel a maravilha do sonho em que Kubla Khan foi gerado. Se esse fato for verdadeiro, a histria do sonho de Coleridge antecede Coleridge em muitos sculos e ainda no chegou a seu fim.

    O poeta sonhou em 1797 (outros entendem que em 1798) e publicou seu relato do sonho em 1816, sob a forma de glosa ou justificativa do poema inacabado. Vinte anos depois, apareceu em Paris, fragmentariamente, a primeira verso ocidental de uma dessas histrias universais em que a literatura persa to rica, o Compndio de Histrias, de Rachid ed-Din, que data do sculo XIV. Em uma pgina, l-se: "A leste de Chan-tong, Kubla Khan erigiu um palcio, de acordo com uma planta que vira em sonho e que guardava na memria". Quem escreveu isso era vizir de Ghazan Mahmud, que descendia de Kubla.

    Um imperador mongol, no sculo XIII, sonha um palcio e o edifica conforme a viso; no sculo XVIII, um poeta ingls, que no tinha como saber que essa construo se derivara de um sonho, sonha um poema sobre o palcio. Confrontadas com essa simetria, que trabalha com almas de homens que dormem e abarca continentes e sculos, nada ou muito pouco so, a meu ver, as levitaes, ressurreies e aparies dos livros piedosos.

  • Que explicao preferiremos? Aqueles que de antemo rejeitam o sobrenatural (eu procuro, sempre, incluir-me nesse grupo) julgaro que a histria dos dois sonhos uma coincidncia, um desenho traado pelo acaso, como as formas de lees ou de cavalos que as nuvens por vezes configuram. Outros argiro que o poeta soube de algum modo que o imperador sonhara o palcio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplndida fico, capaz, tambm, de paliar ou justificar o que nele h de truncado e rapsdico.1 Essa conjetura verossmil, mas obriga-nos a postular, arbitrariamente, um texto no identificado pelos sinlogos em que Coleridge pudesse ter lido, antes de 1816, o sonho de Kubla.2 Mais encantadoras so as hipteses que transcendem o racional. Por exemplo, cabvel supor que, destrudo o palcio, a alma do imperador tenha penetrado na alma de Coleridge para que este o reconstrusse em palavras, mais duradouras que mrmores e metais.

    O primeiro sonho acrescentou um palcio realidade; o segundo, que se deu cinco sculos mais tarde, um poema (ou princpio de poema) sugerido pelo palcio; a semelhana dos sonhos deixa entrever um plano; o perodo enorme revela um executor sobre-humano. Indagar o propsito desse imortal ou desse longevo seria, talvez, no menos atrevido que intil, mas lcito suspeitar que ele no teve xito. Em 1691, o padre Gerbillon, da Companhia de Jesus, constatou que do palcio de Kubilai Khan s restavam runas; do poema consta-nos que foram resgatados no mais que cinqenta versos. Tais fatos permitem conjeturar que a srie de sonhos e de trabalhos no chegou ao fim. Ao primeiro sonhador foi oferecida, na noite, a viso do palcio, e ele o construiu; ao segundo, que no soube do sonho do anterior, o poema sobre o palcio. Se o esquema no falhar, algum, em uma noite a sculos de ns, sonhar o mesmo sonho sem suspeitar que outros o sonharam e lhe dar a forma de um mrmore ou de uma msica. Talvez a srie de sonhos no tenha fim, talvez a chave esteja no ltimo.

    J escrita a explicao acima, entrevejo ou creio entrever outra. Quem sabe um arqutipo ainda no revelado aos homens, um objeto eterno (para usar a nomenclatura de Whitehead), esteja ingressando paulatinamente no mundo; sua primeira manifestao foi o palcio; a segunda, o poema. Quem os comparasse teria visto que eram essencialmente iguais.

    1 No incio do sculo XIX ou final do XVIII, julgado por leitores de gosto clssico, Kubla Khan era muito

    mais ousado que hoje. Em 1884, o primeiro bigrafo de Coleridge, Traill, ainda pde escrever: "O extravagante poema onrico Kubla Khan pouco mais que uma curiosidade psicolgica".

    2 Ver John Livingston Lowes: The Road to Xanadu, 1927, p. 358, 585.

  • O TEMPO E J. W. DUNNE

    No nmero 63 da revista Sur (dezembro de 1939), publiquei uma pr-histria, uma primeira histria rudimentar, da regresso infinita. Nem todas as omisses desse esboo eram involuntrias: exclu deliberadamente a meno a J. W. Dunne, que extraiu do interminvel regressus uma doutrina bastante assombrosa do sujeito e do tempo. A discusso (a mera exposio) de sua tese teria excedido os limites dessa nota. Sua complexidade requeria um artigo independente: este que agora ensaiarei. Alenta-me a escrev-lo o exame do ltimo livro de Dunne Nothing Dies (1940, Faber & Faber) , que repete ou resume os argumentos dos trs anteriores.

    O argumento nico, para ser mais exato. Seu mecanismo nada tem de novo; o que quase escandaloso, inslito, so as inferncias do autor. Antes de coment-las, anoto alguns prvios avatares das premissas.

    O stimo dos muitos sistemas filosficos da ndia que registra Paul Deussen1 nega que o eu possa ser objeto imediato do conhecimento, "pois, se nossa alma fosse conhecvel, seria necessria uma segunda alma para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda". Os hindus no tm sentido histrico (isto : perversamente, preferem o exame das idias ao dos nomes e datas dos filsofos), mas consta-nos que essa negao radical da introspeco tem cerca de oito sculos. Por volta de 1843, Schopenhauer a redescobre. "O sujeito conhecedor", repete ele, "no conhecido como tal, pois seria objeto de conhecimento de outro sujeito conhecedor" (Welt als Wille und Vorstellung, tomo 2, captulo 19). Herbart tambm jogou com essa multiplicao ontolgica. Antes dos vinte anos, j deduzira que o eu inevitavelmente infinito, pois o fato de conhecer-se a si mesmo postula outro eu que tambm se conhece a si mesmo, e esse eu postula por sua vez outro eu (Deussen: Die Neuere Philosophie, 1920, p. 367). Exornado de histrias, de parbolas, de boas ironias e de diagramas, esse o argumento em que os tratados de Dunne se baseiam.

    Este (An Experiment with Time, captulo XXII) raciocina que um sujeito consciente no s consciente daquilo que observa, mas de um sujeito A que observa e, portanto, de outro sujeito B que consciente de A e, portanto, de outro sujeito C consciente de B... No sem mistrio, acrescenta que esses inumerveis sujeitos ntimos no cabem nas trs dimenses do espao, e sim

    1 Nachvedische Philosophie der Inder, p. 318.

  • nas no menos inumerveis dimenses do tempo. Antes de esclarecer esse esclarecimento, convido meu leitor para repensarmos o que diz este pargrafo.

    Huxley, como bom herdeiro dos nominalistas britnicos, sustenta que h apenas uma diferena verbal entre o fato de perceber uma dor e o de saber que a percebemos e zomba dos metafsicos puros, que em toda sensao distinguem "um sujeito sensvel, um objeto sensgeno e esse personagem imperioso: o Eu" (Essays, tomo 6, p. 87). Gustav Spiller (The Mind of Man, 1902) admite que a conscincia da dor e a dor so dois fatos distintos, mas considera-os to compreensveis quanto a simultnea percepo de uma voz e de um rosto. Sua opinio parece-me vlida. Quanto conscincia da conscincia, invocada por Dunne para instalar em cada indivduo uma vertiginosa e nebulosa hierarquia de sujeitos, prefiro supor que se trata de estados sucessivos (ou imaginrios) do sujeito inicial. "Se o esprito disse Leibniz tivesse de repensar o pensado, bastaria perceber um sentimento para pensar nele e para depois pensar no pensamento e depois no pensamento do pensamento, e assim at o infinito" (Nouveaux Essais sor lEntendement Humain, livro 2, captulo 1).

    O procedimento criado por Dunne para a obteno imediata de um nmero infinito de tempos menos convincente e mais engenhoso. Assim como Juan de Mena em seu Labyrintho,2 como Uspenski no Tertium Organum, ele postula que o futuro j existe, com suas vicissitudes e pormenores. Para o futuro preexistente (ou do futuro preexistente, como prefere Bradley) flui o rio absoluto do tempo csmico, ou os rios mortais de nossas vidas. Essa translao, esse fluir, exige, como todos os movimentos, um tempo determinado; teremos, portanto, um tempo segundo para o traslado do primeiro; um terceiro para o traslado do segundo, e assim at o infinito...3 Assim a mquina proposta por Dunne. Nesses tempos hipotticos ou ilusrios tm interminvel morada os sujeitos imperceptveis que o outro regressus multiplica.

    No sei qual ser a opinio de meu leitor. No pretendo saber que coisa o tempo (nem mesmo se uma "coisa"), mas intuo que o curso do tempo e o tempo so um nico mistrio, e no dois. Dunne, suspeito, comete um erro semelhante ao dos distrados poetas que falam (digamos) da lua que mostra seu rubro disco, substituindo assim uma indivisa imagem visual por um sujeito, um verbo e um complemento, que no outro seno o prprio sujeito, ligeiramente

    2 Neste poema do sculo XV h uma viso de "trs mui grandes rodas": a primeira, imvel, o passado; a

    segunda, giratria, o presente; a terceira, imvel, o futuro.

    3 Meio sculo antes de ser proposta por Dunne, "a absurda conjetura de um segundo tempo, no qual flui,

    rpida ou lentamente, o primeiro", fora descoberta e recusada por Schopenhauer, em uma nota manuscrita anexa a seu Welt als Wille und Vorstellung. Consta na pgina 829 do segundo volume da edio histrico-crtica de Otto Weiss.

  • mascarado... Dunne uma vtima ilustre desse mau hbito intelectual denunciado por Bergson: conceber o tempo como uma quarta dimenso do espao. Postula que o futuro j existe e que devemos trasladar-nos a ele, mas esse postulado basta para transform-lo em espao e para requerer um tempo segundo (que tambm concebido sob forma espacial, sob a forma de linha ou de rio) e depois um terceiro e um milionsimo. Nenhum dos quatro livros de Dunne deixa de propor infinitas dimenses do tempo,4 mas essas dimenses so espaciais. O tempo verdadeiro, para Dunne, o inatingvel ltimo termo de uma srie infinita.

    Que razes haveria para postular que o futuro j existe? Dunne fornece duas: uma, os sonhos premonitrios; outra, a relativa simplicidade que essa hiptese outorga aos inextricveis diagramas tpicos de seu estilo. Ele tambm quer evitar os problemas de uma criao contnua...

    Os telogos definem a eternidade como a simultnea e lcida posse de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. Dunne, surpreendentemente, supe que a eternidade j nos pertence e que isso corroborado pelos sonhos de cada noite. Nestes, segundo ele, confluem o passado imediato e o imediato porvir. Na viglia percorremos o tempo sucessivo a uma velocidade uniforme, no sonho abarcamos uma rea que pode ser vastssima. Sonhar coordenar os vislumbres dessa contemplao e com eles urdir uma histria, ou uma srie de histrias. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma botica e inventamos que uma botica se transforma em esfinge. No homem que amanh conheceremos colocamos a boca de um rosto que nos olhou ontem noite... (Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos so folhas de um mesmo livro e que l-las em ordem viver; folhe-las, sonhar.)

    Dunne garante que na morte aprenderemos o feliz manejo da eternidade. Recuperaremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos como bem entendermos. Deus, e nossos amigos, e Shakespeare colaboraro conosco.

    Diante de uma tese to esplndida, qualquer falcia cometida pelo autor resulta insignificante.

    4 A frase reveladora. No captulo XXI do livro An Experiment with Time, o autor fala de um tempo que

    perpendicular a outro.

  • A CRIAO E P H. GOSSE

    "The man without a Navel yet lives in me" (o homem sem Umbigo perdura em mim), escreve, curiosamente, Sir Thomas Browne (Religio Medici, 1642), para denotar que foi concebido em pecado, por descender de Ado. No primeiro captulo do Ulisses, Joyce tambm evoca o ventre imaculado e liso da mulher sem me: "Heva, naked Eve. She had no navel". O tema (sei bem) corre o risco de parecer grotesco e banal, mas o zologo Philip Henry Gosse vinculou-o ao problema central da metafsica: o problema do tempo. Essa vinculao de 1857; oitenta anos de esquecimento talvez equivalham novidade.

    Duas passagens da Escritura (Romanos 5; 1 Corntios 15) contrapem o primeiro homem, Ado, aquele em que morrem todos os homens, ao derradeiro Ado, que Jesus.1 Essa contraposio, para ser mais que uma simples blasfmia, pressupe certa enigmtica paridade, traduzida em mitos e em simetria. A Lenda urea diz que o lenho da Cruz provm daquela rvore proibida que est no Paraso; os telogos, que Ado foi criado pelo Pai e pelo Filho com a idade exata que o Filho teria ao morrer: trinta e trs anos. Essa insensata preciso certamente influenciou a cosmogonia de Gosse.

    Este a divulgou no livro Omphalos (Londres, 1857), cujo subttulo Tentativa de Desatar o N Geolgico. Em vo vasculhei as bibliotecas em busca desse livro; para redigir esta nota, recorrerei aos resumos de Edmund Gosse (Father and Son, 1907) e de H. G. Wells (All Aboard for Ararat, 1940). Introduzo exemplos ilustrativos que no constam nessas breves pginas, mas que julgo compatveis com o pensamento de Gosse.

    No captulo de sua Lgica que trata da lei da causalidade, John Stuart Mill sustenta que o estado do universo em qualquer instante conseqncia de seu estado no instante precedente e que a uma inteligncia infinita bastaria o conhecimento perfeito de um nico instante para saber a histria do universo, passada e vindoura. (Tambm deduz oh, Louis Auguste Blanqui! oh, Nietzsche! oh, Pitgoras! que a repetio de qualquer estado comportaria a

    1 Na poesia devota, essa conjuno comum. Talvez o exemplo mais intenso esteja na penltima estrofe

    de "Hymn to God, my God, in my sickness", March 23,163O, composto por John Donne:

    We think that Paradise and Calvary, Christs Cross, and Adams tree, stood in one place, Look Lord, and find both Adams met in me; As the first Adams sweat surrounds, my face, May the last Adams blood my soul embrace.

  • repetio de todos os outros e faria da histria universal uma srie cclica.) Nessa moderada verso de certa fantasia de Laplace a de que o estado presente do universo , em teoria, redutvel a uma frmula, da qual Algum poderia deduzir todo o porvir e todo o passado , Mill no descarta a possibilidade de uma futura interveno externa capaz de interromper a srie. Afirma que o estado q fatalmente produzir o estado r; o estado r, o s; o estado s, o t; mas admite que, antes de t, uma catstrofe divina a consummatio mundi, digamos pode aniquilar o planeta. O futuro inevitvel, preciso, mas pode no ocorrer. Deus espreita nos intervalos.

    Em 1857, uma discrepncia preocupava os homens. O Gnesis atribua seis dias seis dias hebreus inequvocos, de ocaso a ocaso criao divina do mundo; os paleontlogos impiedosamente exigiam enormes acumulaes de tempo. Em vo repetia De Quincey que a Escritura tem a obrigao de no instruir os homens em cincia alguma, j que as cincias constituem um vasto mecanismo para desenvolver e exercitar o intelecto humano... Como conciliar Deus com os fsseis, Sir Charles Lyell com Moiss? Gosse, fortalecido pela prece, props uma soluo assombrosa.

    Mill imagina um tempo causal, infinito, que pode ser interrompido por um ato futuro de Deus; Gosse, um tempo rigorosamente causal, infinito, j interrompido por um ato pretrito: a Criao. O estado n fatalmente produzir o estado v, mas antes de v pode ocorrer o Juzo Universal; o estado n pressupe o estado c, mas c no ocorreu, porque o mundo foi criado em f ou em h. O primeiro instante do tempo coincide com o instante da Criao, como dita Santo Agostinho, mas esse primeiro instante comporta no s um infinito porvir, mas tambm um infinito passado. Um passado hipottico, claro, mas minucioso e fatal. Surge Ado, e seus dentes e seu esqueleto contam trinta e trs anos; surge Ado (escreve Edmund Gosse) e ele ostenta um umbigo, embora nenhum cordo umbilical o ligue a uma me. O princpio da razo exige que nenhum efeito carea de causa; essas causas requerem outras causas, que regressivamente se multiplicam,2 todas deixam vestgios concretos, mas s as posteriores Criao existiram realmente. No vale de Lujn perduram esqueletos de gliptodonte, mas jamais houve gliptodontes. Essa a tese engenhosa (e, acima de tudo, inacreditvel) que Philip Henry Gosse props religio e cincia.

    As duas a rejeitaram. Os jornalistas reduziram-na doutrina de que Deus teria escondido fsseis sob a terra para pr prova a f dos gelogos; Charles Kingsley desmentiu que o Senhor tivesse gravado nas rochas "uma suprflua e vasta mentira". De nada adiantou Gosse expor a base metafsica da tese: quo inconcebvel um instante de tempo sem outro instante precedente e outro

    2 Cf. Spencer: Facts and Comments, 1902, p. 148-51.

  • ulterior, e assim at o infinito. No sei se ele conheceu a antiga sentena que consta das pginas iniciais da antologia talmdica de Rafael Caninos-Assns: "No era seno a primeira noite, mas uma srie de sculos j a precedera".

    Duas virtudes quero reivindicar para a esquecida tese de Gosse. A primeira: sua elegncia um tanto monstruosa. A segunda: sua involuntria reduo ao absurdo de uma creatio ex Nihilo, sua demonstrao indireta de que o universo eterno, como pensaram o Vedanta e Herclito, Spinoza e os atomistas... Bertrand Russell atualizou-a. No captulo nove do livro The Analysis of Mind (Londres, 1921), supe que o planeta foi criado h poucos minutos, provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusrio.

    Buenos Aires, 1941.

    Post-Scriptum. Em 1802, Chateaubriand (Gnie du Christianisme, I, 4, 5) formulou, partindo de razes estticas, uma tese idntica de Gosse. Revelou quo inspido, e irrisrio, teria sido um primeiro dia da Criao povoado de filhotes, larvas, crias e sementes. Escreveu: "Sans une vieillesse originaire, la nature dans son innocence et t moins belle quelle ne 1"est aujourdhui dans sa corruption".

  • OS ALARMES DO DOUTOR AMRICO CASTRO1

    A palavra problema pode ser uma insidiosa petio de princpio. Falar em problema judeu postular que os judeus so um problema; vaticinar (e recomendar) as perseguies, a expoliao, o fuzilamento, a degola, o estupro e a leitura da prosa do doutor Rosenberg. Outro demrito dos falsos problemas o de promoverem solues tambm falsas. Plnio (Histria Natural, livro oitavo) no se contenta em observar que os drages atacam os elefantes durante o vero: arrisca a hiptese de que o fazem para beber todo seu sangue, que, como ningum ignora, muito frio. O doutor Castro (La Peculiaridad Lingstica, etc.) no se contenta em observar uma "confuso lingstica em Buenos Aires": arrisca a hiptese do "lunfardismo" e da "mstica gauchofilia".

    Para demonstrar a primeira tese a corrupo do idioma espanhol no Prata , o doutor apela a um procedimento que devemos qualificar de sofstico, para no pr em dvida sua inteligncia; de cndido, para no duvidar de sua probidade. Acumula retalhos de Pacheco, de Vacarezza, de Lima, de Last Reason, de Contursi, de Enrique Gonzlez Tun, de Palermo, de Llanderas e de Malfatti, transcreve-os com infantil gravidade e depois os exibe urbi et orbi como exemplos de nossa degenerada linguagem. No suspeita que tais exerccios ("Con un feca con chele / y una ensaimada / vos te vens pal Centro / de grau bacn)2 so caricaturais; declara-os "sintomas de grave alterao", cuja causa remota so "as conhecidas circunstncias que fizeram dos pases platinos zonas aonde a pulsao do imprio hispnico chegava j sem brio". Com idntica eficcia caberia argumentar que em Madri j no restam vestgios do espanhol, como o demonstram as coplas transcritas por Rafael Salillas (El Delincuente Espaol: Su Lenguaje, 1896):

    El minche de esa rumi dicen no tenela bales; los he dicaito yo, los tenela muy juncales...

    El chibel barba del breje

    1 La Peculiaridad Lingstica Rioplatense y Su Sentido Histrico (Losada, Buenos Aires, 1941).

    2 Traduo literal dos versos, sendo o primeiro em vesre (de al revs, ao contrrio; inverso proposital das

    slabas): "Com um pingado / e um po doce / voc vem para a cidade / bancando o gr-fino". (N. da T.)

  • menjind a los burs: apinchar ararajay y menda la pirab.3

    Diante de sua poderosa treva, quase lmpida esta pobre copla em lunfardo:

    El bacn le acanal el escracho a la minushia; despus espirajushi por temor a la canushia.4

    Na pgina 139, o doutor Castro anuncia-nos outro livro sobre o problema da lngua em Buenos Aires; na 87, jacta-se de ter decifrado um dilogo campestre de Lynch "em que os personagens usam os meios mais brbaros de expresso, que s podem ser inteiramente compreendidos por quem est familiarizado com as grias rio-platenses". As grias: ce pluriel est bien singulier. Com exceo do lunfardo (modesto esboo carcerrio que ningum sequer sonha em comparar ao exuberante cal dos espanhis), no h grias neste pas. No padecemos de dialetos, embora padeamos, sim, de institutos dialetolgicos. Essas corporaes vivem de reprovar os sucessivos jarges que inventam. Improvisaram o gauchesco, baseados em Hernndez; o cocoliche, baseados em um palhao que trabalhou com os Podest; o vesre, baseados nos alunos da terceira srie. Em tais detritos se apiam; tais riquezas lhes devemos e deveremos.

    No menos falsos so "os graves problemas que a fala representa em Buenos Aires". Viajei pela Catalunha, por Alicante, pela Andaluzia, por Castela; morei alguns anos em Valldemosa e um em Madri; guardo gratssimas lembranas desses lugares; jamais observei que os espanhis falassem melhor que ns. (Falam, sim, em voz mais alta, com o aprumo de quem ignora a dvida.) O doutor Castro imputa-nos arcasmo. Seu mtodo curioso: descobre

    3 Traduo literal dos versos em cal (linguagem dos ciganos na Espanha): "O sexo dessa mulher / dizem

    que no tem plos; / eu mesmo os vi, / ela os tem muito vistosos... / / No melhor dia do ano / peguei o touro unha: / conheci uma freira / e me deitei com ela". (N. da T.)

    4 Consta do vocabulrio giriesco de Luis Villamayor: El Lenguaje del Bajo Fondo (Buenos Aires, 1915).

    Castro ignora esse lxico, talvez por ter sido citado por Arturo Costa lvarez em um livro essencial: El Castellano en la Argentina (La Plata, 1928). Desnecessrio advertir que ningum diz minushia [mulher], canushia [polcia], espirajushiar [fugir]. [Traduo literal dos versos em lunfardo: "O gr-fino retalhou / a cara da mulher / e depois fugiu / por medo da polcia". (N. da T.)]

  • que as pessoas mais cultas de San Mamed de Puga, em Orense, esqueceram esta ou aquela acepo desta ou daquela palavra; imediatamente resolve que os argentinos tambm devem esquec-la... fato que o idioma espanhol padece de vrias imperfeies (montono predomnio das vogais, excessivo relevo das palavras, inpcia para formar palavras compostas), mas no da imperfeio que seus desastrados vindicadores lhe assacam: a dificuldade. O espanhol faclimo. S os espanhis julgam-no rduo: talvez porque os perturbem as atraes do catalo, do bable, do maiorquino, do galego, do basco e do valenciano; talvez por um erro da vaidade; talvez por certa rudeza verbal (confundem acusativo com dativo, dizem le mat em vez de lo mat, costumam ser incapazes de pronunciar Atlntico ou Madrid, acham que um livro pode suportar este cacofnico ttulo: La Peculiaridad Lingstica Rioplatense y Su Sentido Histrico).

    O doutor Castro, em cada pgina desse livro, prdigo em supersties convencionais. Despreza Lpez e venera Ricardo Rojas; nega os tangos e refere-se s xcaras com respeito; pensa que Rosas foi um caudilho de guerrilhas, um homem ao estilo de Ramrez ou Artigas, e ridiculamente chama-o "centauro mximo". (Com melhor estilo e juzo mais lcido, Groussac preferiu a definio: "miliciano de retaguarda".) Proscreve entendo que com toda a razo a palavra cachada, por zombaria, mas aceita a tomadura de pelo, que, visivelmente, no mais lgica nem mais encantadora. Condena os idiotismos americanos, por preferir os idiotismos espanhis. No quer que digamos de arriba; quer que digamos de gorra... Esse examinador do "fato lingstico buenairense" registra seriamente que os portenhos chamam o gafanhoto de acrdio; esse inexplicvel leitor de Carlos de la Pa e de Yacar revela-nos que taita significa "pai" no linguajar suburbano.

    Nesse livro, a forma no contradiz o contedo. s vezes o estilo comercial: "As bibliotecas do Mxico possuam livros de alta qualidade" (p. 49); "A alfndega seca... impunha preos fabulosos" (p. 52). Por vezes, a contnua trivialidade do pensamento no exclui o pitoresco dislate: "Surge ento a nica coisa possvel, o tirano, condensao da energia sem rumo da massa, que ele no canaliza porque no guia, e sim corpulncia esmagadora, ingente aparelho ortopdico que mecanicamente, bestialmente, encurrala o rebanho disperso" (p. 71, 72). s vezes o pesquisador de Vacarezza tenta o mot juste: "Pelos mesmos motivos alegados para torpedear a maravilhosa gramtica de A. Alonso e P. Henrquez Urea" (p. 31).

    Os compadritos de Last Reason emitem metforas hpicas;o doutor Castro, mais verstil no erro, conjuga a radiotelefonia com o football: "O pensamento e a arte rio-platense so valiosas antenas para tudo aquilo que no mundo significa valor e esforo, atitude intensamente receptiva que no demorar a converter-se em fora criadora, se o destino no torcer o rumo dos

  • sinais propcios. A poesia, o romance e o ensaio conseguiram muito mais que um goal perfeito. A cincia e o pensamento filosfico tm nomes de extrema distino entre seus cultivadores" (p. 9).

    errnea e mnima erudio o doutor Castro acrescenta o incansvel exerccio da adulao, da prosa rimada e do terrorismo.

    P.S. Leio na pgina 136: "Tentar escrever como Ascasubi, Del Campo ou Hernndez, a srio, sem ironia, algo que d o que pensar". Transcrevo aqui as ltimas estrofes do Martn Fierro:

    Cruz e Fierro numa estncia Uma tropilha apanharam, frente os bichos tocaram Como crioulos bem curtidos E logo, sem serem ouvidos, A fronteira atravessaram.

    E depois de ter passado Numa madrugada clara, Disse Cruz ao camarada Que olhasse pros casarios; E pelo rosto do amigo Duas lgrimas rolaram.

    E seguindo o fiel do rumo, Adentraram no deserto, Eu no sei se, em campo aberto, Tombaram nas correrias Mas espero, algum dia, Saber deles algo certo.

    E j com estas notcias Minha cano terminei, Por ser verdade contei Todas as desgraas ditas: um tear de desditas Todo gacho de lei.

    Mas ponha sua esperana No Deus que tudo assinou, Eu me despeo e j vou Que aqui cantei a meu modo,

  • Males que conhecem todos Mas quinda ningum contou.

    "A srio, sem ironia", eu pergunto: Quem mais dialetal? O cantor das lmpidas estrofes que repeti acima ou o incoerente redator dos aparelhos ortopdicos que encurralam rebanhos, dos gneros literrios que jogam football e das gramticas torpedeadas?

    Na pgina 122, o doutor Castro enumerou alguns escritores cujo estilo considera correto; apesar da incluso de meu nome nesse catlogo, no me julgo totalmente incapacitado para falar de estilstica.

  • NOSSO POBRE INDIVIDUALISMO

    As iluses do patriotismo no tm fim. No primeiro sculo de nossa era, Plutarco zombou daqueles que declaram ser a lua de Atenas melhor que a lua de Corinto; Milton, no XVII, reparou que Deus tinha por hbito revelar-se primeiro a Seus ingleses; Fichte, no incio do XIX, declarou que ter carter e ser alemo so, evidentemente, a mesma coisa. Aqui os nacionalistas pululam; o que os move, segundo eles, o compreensvel ou inocente propsito de fomentar os melhores traos argentinos. Ignoram, porm, os argentinos; na polmica, preferem defini-los em funo de algum fato exterior; dos conquistadores espanhis (digamos), ou de uma imaginria tradio catlica, ou do "imperialismo saxo".

    O argentino, ao contrrio dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, no se identifica com o Estado. Isso pode ser atribudo circunstncia de que, neste pas, os governos costumam ser pssimos ou ao fato geral de que o Estado uma inconcebvel abstrao,1 a verdade que o argentino um indivduo, no um cidado. Aforismos como o de Hegel "O Estado a realidade da idia moral" parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood costumam oferecer admirao o caso de um homem (geralmente um jornalista) que busca a amizade de um criminoso para depois entreg-lo polcia; o argentino, para quem a amizade uma paixo e a polcia uma maffia, sente que esse "heri" um incompreensvel canalha. Sente, como Dom Quixote, que "cada qual que se avenha com seu pecado" e que "no certo o homem honrado ser algoz de outros homens, sem que nada lhe v nisso" (Quixote, l, XXII). Mais de uma vez, em face das vs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos irremediavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me de meu erro; so como o smbolo tranqilo e secreto de nossa afinidade. Algo que profundamente confirmado por uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da polcia rural gritou que no ia consentir o delito de matarem um valente e ps-se a lutar contra seus prprios soldados, ao lado do desertor Martn Fierro.

    O mundo, para o europeu, um cosmos em que cada um corresponde intimamente funo que exerce; para o argentino, um caos. O europeu e o americano do Norte entendem que h de ser bom um livro que mereceu um

    1 O Estado impessoal: o argentino s concebe relaes pessoais. Por isso, para ele, roubar dinheiro

    pblico no crime. Apenas constato um fato; no o justifico nem desculpo.

  • prmio qualquer; o argentino admite a possibilidade de no ser ruim, apesar do prmio. Em geral, o argentino descr das circunstncias. Pode ignorar a fbula de que a humanidade sempre inclui trinta e seis homens justos os Lamed Wufniks que no se conhecem entre si, mas que secretamente sustentam o universo; quando a ouvir, no estranhar que esses benemritos sejam obscuros e annimos... Seu heri popular o homem s que luta contra a partida, seja em ato (Fierro, Moreira, Hormiga Negra), seja em potncia ou no passado (Segundo Sombra). Outras literaturas no registram fatos anlogos. Tomemos, por exemplo, dois grandes escritores europeus: Kipling e Franz Kafka. A primeira vista, nada h em comum entre os dois, mas o tema do primeiro a vindicao da ordem, de uma ordem (a estrada em Kim, a ponte em The Bridge-Builders, a muralha romana em Puck of Pooks Hill); o do segundo, a insuportvel e trgica solido de quem carece de um lugar, por humilssimo que seja, na ordem do universo.

    Diro que os traos que assinalei so meramente negativos ou anrquicos; acrescentaro que no comportam explicao poltica. Ouso sugerir o contrrio. O mais urgente dos problemas de nossa poca (j denunciado com proftica lucidez pelo quase esquecido Spencer) a gradual intromisso do Estado nos atos do indivduo; na luta contra esse mal, cujos nomes so comunismo e nazismo, o individualismo argentino, talvez intil ou prejudicial at agora, h de encontrar justificativa e deveres.

    Sem esperana e com nostalgia, penso na abstrata possibilidade de um partido que tivesse alguma afinidade com os argentinos; um partido que nos prometesse (digamos) um severo mnimo de governo.

    O nacionalismo pretende embair-nos com a viso de um Estado infinitamente incmodo; essa utopia, uma vez alcanada na terra, teria a providencial virtude de fazer com que todos almejassem, e por fim construssem, sua anttese.

    Buenos Aires, 1946.

  • QUEVEDO

    Assim como a outra, a histria da literatura prdiga em enigmas. Nenhum deles inquietou-me, nem me inquieta, tanto quanto a estranha glria parcial que coube por sorte a Quevedo. Nos censos de nomes universais, o dele no consta. Muito tentei inquirir as razes dessa extravagante omisso; certa vez, em uma conferncia esquecida, julguei encontr-las no fato de suas duras pginas no fomentarem, nem sequer tolerarem, o menor desabafo sentimental. ("Abusar do sentimentalismo ter xito", observou George Moore.) Para alcanar a glria, eu dizia, no indispensvel que um escritor se mostre sentimental, mas indispensvel que sua obra ou alguma circunstncia biogrfica estimulem o patetismo. Nem a vida nem a arte de Quevedo, ponderei, prestam-se a essas ternas hiprboles cuja repetio faz a glria...

    Ignoro se essa explicao correta; hoje eu a complementaria com esta: virtualmente, Quevedo no inferior a ningum, mas no encontrou um smbolo que se apoderasse da imaginao das pessoas. Homero tem Pramo, que beija as homicidas mos de Aquiles; Sfocles tem um rei que decifra enigmas e que os orculos levam a decifrar o horror de seu prprio destino; Lucrcio tem o infinito abismo estelar e a discrdia dos tomos; Dante, os nove crculos infernais e a Rosa paradisaca; Shakespeare, seus mundos de violncia e de msica; Cervantes, o venturoso vaivm de Sancho e Quixote; Swift, sua repblica de cavalos virtuosos e de Yahoos bestiais; Melville, a abominao e o amor da Baleia Branca; Franz Kafka, seus crescentes e srdidos labirintos. No h escritor de fama universal que no tenha cunhado um smbolo; este, convm lembrar, nem sempre objetivo e externo. Gngora ou Mallarm, Verbi gratia, perduram como tipos do escritor que laboriosamente elabora uma obra secreta; Whitman, como protagonista semidivino de Leaves of Grass. De Quevedo, ao contrrio, perdura apenas uma imagem caricatural. "O mais nobre estilista espanhol transformou-se em um prottipo de trocista", observa Leopoldo Lugones (El Imperio jesutico, 1904, p. 59).

    Lamb disse que Edmund Spencer era the poets poet, o poeta dos poetas. De Quevedo, teria de resignar-se a dizer que o literato dos literatos. Para gostar de Quevedo preciso ser (em ato ou em potncia) um homem de letras; inversamente, ningum que tenha vocao literria pode no gostar de Quevedo.

    A grandeza de Quevedo verbal. Julg-lo um filsofo, um telogo ou (como pretende Aureliano Fernndez Guerra) um homem de Estado um erro que podem permitir os ttulos de suas obras, no o contedo. Seu tratado

  • Providencia de Dios, Padecida de los que la Niegan y Gozada de los que la Confiesan: Doctrina Estudiada en los Gusanos y Persecuciones de Job prefere a intimidao ao argumento. Como Ccero (De Natura Deorum, II, 40-44), prova uma ordem divina mediante a ordem observada nos astros, "ingente repblica de luzes", e, expedida essa variante estelar do argumento cosmolgico, acrescenta: "Poucos foram os que absolutamente negaram haver Deus; exporei vergonha os que pouca tiveram, e so: Digoras de Mileto, Protgoras de Abdera, discpulos de Demcrito e Teodoro (vulgarmente chamado Ateu), e Bio de Boristenas, discpulo do imundo e desatinado Teodoro", o que no passa de terrorismo. Na histria da filosofia h doutrinas, provavelmente falsas, que exercem obscuro encanto sobre a imaginao dos homens: a doutrina platnica e pitagrica do trnsito da alma por muitos corpos, a doutrina gnstica de que o mundo obra de um deus hostil ou rudimentar. Quevedo, apenas estudioso da verdade, invulnervel a esse encanto. Escreve que a transmigrao das almas uma "bestial bobagem" e uma "loucura bruta". Empdocles de Agrigento afirmou: "J fui criana, moa, touceira, pssaro e mudo peixe que surge do mar"; Quevedo anota (Providencia de Dios): "Revelou-se juiz e legislador deste enredo Empdocles, homem to insensato que, afirmando ter sido peixe, mudou-se em to contrria e oposta natureza que morreu borboleta do Etna; e vista do mar, do qual fora povo, precipitou-se no fogo". Os gnsticos, Quevedo moteja de infames, malditos, loucos e inventores de disparates (Zahurdas de Plutn, in fine).

    Sua Poltica de Dios y Gobierno de Cristo Nuestro Seor deve ser considerada, segundo Aureliano Fernndez Guerra, "um completo sistema de governo, o mais atinado, nobre e conveniente". Para estimar o valor dessa sentena, basta-nos lembrar que os quarenta e sete captulos desse livro ignoram todo e qualquer fundamento que no seja a curiosa hiptese de que os atos e palavras de Cristo (que foi, como se sabe, Rex Judaeorum) so smbolos secretos a cuja luz o poltico deve resolver seus problemas. Fiel a esse cabalstico pressuposto, Quevedo depreende, do episdio da samaritana, que os tributos exigidos pelos reis devem ser leves; do episdio dos pes e dos peixes, que os reis devem remediar as necessidades; da repetio da frmula sequebantur, que "o rei deve conduzir os ministros, e no os ministros o rei"... O assombro vacila entre a arbitrariedade do mtodo e a trivialidade das concluses. Entretanto, Quevedo tudo salva, ou quase, com a dignidade da linguagem.1 O leitor distrado pode julgar-se edificado por essa obra. Anloga

    1 Reyes certeiramente observa (Captulos de Literatura Espaola, 1939, p.133): "As obras polticas de

    Quevedo no propem uma nova interpretao dos valores polticos nem tm, agora, nenhum valor alm do retrico... Ou so panfletos circunstanciais, ou so obras de declamao acadmica. A Poltica de Dios, apesar de sua ambiciosa aparncia, no passa de um arrazoado contra os maus ministros. Mas entre essas pginas podem encontrar-se alguns dos traos mais caractersticos de Quevedo".

  • discrepncia percebe-se no Marco Bruto, onde o pensamento no memorvel, embora as clusulas o sejam. Nesse tratado, o mais imponente dentre os estilos exercidos por Quevedo atinge a perfeio. O espanhol, em suas pginas lapidares, parece regressar ao rduo latim de Sneca, de Tcito e de Lucano, ao atormentado e duro latim da idade de prata. O ostentoso laconismo, o hiprbato, o quase algbrico rigor, a oposio de termos, a aridez, a repetio de palavras do a esse texto uma preciso ilusria. Muitos perodos merecem, ou exigem, ser julgados de perfeitos. Verbi gratia, este que transcrevo: "Honraram com folhas de louro uma linhagem; pagaram grandes e soberanas vitrias com as aclamaes de um triunfo; recompensaram vidas quase divinas com esttuas; e, para que no descassem de prerrogativas de tesouro os ramos, as ervas, o mrmore e as vozes, no as permitiram pretenso, e sim ao mrito". Outros estilos freqentou Quevedo com no menos felicidade: o estilo aparentemente oral do Buscn, o estilo desmesurado e orgistico (mas no ilgico) de La Hora de Todos.

    "A linguagem observou Chesterton (G. F. Watts, 1904, p. 91) no um fato cientifico, e sim artstico; foi inventada por guerreiros e caadores e muito anterior cincia." Quevedo nunca a entendeu assim; para ele a linguagem foi, essencialmente, um instrumento lgico. As trivialidades ou eternidades da poesia guas equiparadas a cristais, mos equiparadas a neve, olhos que brilham como estrelas e estrelas que fitam como olhos incomodavam-no por serem fceis, mas muito mais por serem falsas. Esqueceu-se, ao censur-las, de que a metfora o contato momentneo de duas imagens, no a metdica assimilao de duas coisas... Tambm execrou os idiotismos. Com o propsito de "exp-los vergonha", urdiu com eles a rapsdia intitulada Cuento de Cuentos; muitas geraes, fascinadas, preferiram ver nessa reduo ao absurdo um museu de primores, divinamente destinado a salvar do esquecimento as locues zurriburi, abarrisco, cochite hervite, qutame all esas pajas e a trochi-moche.2

    Quevedo foi equiparado, em mais de uma ocasio, a Luciano de Samsata. H uma diferena fundamental: Luciano, combatendo as divindades olmpicas no sculo II, faz uma obra de polmica religiosa; Quevedo, ao repetir esse ataque no sculo XVI de nossa era, limita-se a observar uma tradio literria.

    Examinada, ainda que brevemente, sua prosa, passo a discutir sua poesia, no menos mltipla.

    Considerados documentos de uma paixo, os poemas erticos de Quevedo so insatisfatrios; considerados jogos de hiprboles, deliberados

    2 Zurriburi: 1. sujeito desprezvel, canalha; 2. confuso. Abarrisco, ou a barrisco: conjuntamente e sem

    distino. Cochite y hervite: 1. feito rpida e atabalhoadamente; 2. pessoa precipitada. Qutame all esas pajas (en un): num timo. Trochi-moche(a), ou a troche y moche: s tontas; sem eira nem beira. (N. da T.)

  • exerccios de petrarquismo, costumam ser admirveis. Quevedo, homem de apetites veementes, nunca deixou de aspirar ao ascetismo estico; tambm deve ter achado insensato depender de mulheres ("bem-avisado aquele que usa de suas carcias e nestas no se fia"); esses motivos bastam para explicar o artificialismo voluntrio daquela Musa IV de seu Parnaso, que "canta faanhas de amor e formosura". O acento pessoal de Quevedo est em outros poemas; naqueles que lhe permitem publicar sua melancolia, sua coragem ou seu desengano. Por exemplo, neste soneto que ele enviou, de sua Torre de Juan Abad, a Dom Jos de Salas (Musa, H, 109):

    Recolhido na paz destes desertos, Com poucos, porm doutos, livros juntos, Eu vivo dialogando coos defuntos E os mortos com os olhos ouo ao perto.

    Se nem sempre entendidos, sempre abertos, Emendam e secundam meus assuntos, Em msicos, calados contrapontos Ao sonho desta vida oram despertos.

    As grandes almas que a morte ausenta, Das injrias dos anos, vingadora, Livra, bom dom Joseph, a douta Imprensa.

    Em fuga irrevogvel corre a hora; E aquela o melhor clculo assenta, Que na lio e estudo nos melhora.

    No faltam traos cultistas ao poema anterior (ouvir com os olhos, orar despertos ao sonho da vida), mas o soneto eficaz a despeito deles, no por causa deles. No direi que se trata de uma transcrio da realidade, porque a realidade no verbal, mas sim que suas palavras importam menos que a cena que evocam ou que o acento viril que parece anim-las. Nem sempre ocorre o mesmo; no mais ilustre soneto desse volume "Memoria inmortal de don Pedro Girn, duque de Osuna, muerto en la prisin" , a esplndida eficcia do dstico

    Sua Tumba so de Flandres as Campanhas e seu Epitfio a sangrenta Lua

  • anterior a toda interpretao e no depende dela. Digo o mesmo da seguinte expresso: o pranto militar, cujo sentido no enigmtico, e sim corriqueiro, o pranto dos militares. Quanto sangrenta Lua, melhor ignorar que se trata do smbolo dos turcos, eclipsado por no sei que piratarias de Dom Pedro Tllez Girn.

    No poucas vezes, o ponto de partida de Quevedo um texto clssico. Assim, a memorvel linha (Musa, IV, 31):

    Sero p, porm p apaixonado

    uma recriao, ou exaltao, de uma de Proprcio, (Elegias, 1, 19):

    Ut meus oblito pulvis amore vacet.3

    Grande o mbito da obra potica de Quevedo. Compreende pensativos sonetos, que de algum modo prefiguram Wordsworth; opacas e rangentes severidades,4 bruscas magias de telogo ("Com os doze ceei: eu fui a ceia"); gongorismos intercalados, para provar que ele tambm era capaz de jogar esse jogo,5 urbanidades e douras da Itlia ("humilde solido verde e sonora");

    3 "Que a minha cinza fique livre de um amor que me esqueceu." (N. da T.)

    4 Tremeram fundamente umbrais e portas

    Ali onde a majestade negra e obscura As frias dessangradas sombras mortas Oprime em lei desesperada e dura; Co"as trs gargantas ao latido prontas, Ao ver a nova luz divina e pura, O Crbero calou-se, e de repente, Fundos suspiros deu a negra gente.

    O solo sob os ps gemeu inteiro, Desertos montes como cs cendrados, Que no merecem ver do cu luzeiros, E em nossa palidez cegam os prados. Acrescentavam desconsolo e medo Os roucos ces, que em reinos vos e baldos Perturbam o silncio e os ouvidos, Confundindo lamentos e latidos.

    (Musa, IX)

    5 dura lide um animal nascido

    E smbolo zeloso dos mortais, De Jove foi disfarce, e foi vestido, Que um tempo empederniu as mos reais, E por trs dele os cnsules gemeram, E luz rumina em campos celestiais.

    (Musa, II)

  • variantes de Prsio, de Sneca, de Juvenal, das Escrituras, de Joachim de Bellay; brevidades latinas; troas;6 escrnios de curioso artifcio;7 lgubres pompas da aniquilao e do caos.

    Farta j a Toga do veneno trio, Ou todo em ouro rgido e palente, Cobre-te em tesouros dOriente, Mas no descansa, oh Lias!, teu martrio.

    Padeces um magnfico delrio, Quando a felicidade delinqente O horror obscuro em esplendor te mente, Vbora em rosicler, spide em lrio.

    Crs que em Palcio a Jove porfiar podes, Pois a seu modo Estrelas mente o ouro, Ali onde vives, sem saber que morres.

    E tu, senhor de tudo e tantos louros, Para quem sabe examinar-te, s podre E pura vilania, o nojo, o lodo.

    Os melhores poemas de Quevedo existem para alm da moo que os gerou e das comuns idias que os animam. No so obscuros; evitam o erro de perturbar, ou distrair, com enigmas, ao contrrio de outros de Mallarm, de Yeats e de George. So (para diz-lo de algum modo) objetos verbais, puros e independentes como uma espada ou um anel de prata. Este, por exemplo: "Farta j a Toga do veneno trio".

    6 A Mndez chegou berrando

    De azeites bem suarenta, Derramando pelos ombros O balano de suas lndeas.

    (Musa, V)

    7 Este Dom Fbio cantava

    Para gradis e sacadas De Aminta, que de esquec-lo Disseram que no se lembra.

    (Musa, VI)

  • Trezentos anos completou a morte corporal de Quevedo, mas ele continua sendo o primeiro artfice das letras hispnicas. Como Joyce, como Goethe, como Shakespeare, como Dante, como nenhum outro escritor, Francisco de Quevedo menos um homem que uma vasta e complexa literatura.

  • MAGIAS PARCIAIS DO QUIXOTE

    verossmil que estas observaes tenham sido enunciadas alguma vez, e quem sabe muitas vezes; a discusso de sua novidade interessa-me menos que a de sua possvel verdade.

    Cotejado com outros livros clssicos (a Ilada, a Eneida, a Farslia, a Comdia dantesca, as tragdias e comdias de Shakespeare), o Quixote realista; esse realismo, entretanto, difere essencialmente daquele que foi exercido no sculo XIX. Joseph Conrad pde escrever que exclua de sua obra o sobrenatural, porque admiti-lo parecia negar que o cotidiano fosse maravilhoso: ignoro se Miguel de Cervantes compartilhou dessa intuio, mas sei que a forma do Quixote levou-o a contrapor um mundo real e prosaico a um mundo imaginrio. Conrad e Henry James romancearam a realidade por julg-la potica; para Cervantes o real e o potico so antinomias. As vastas e vagas geografias do Amads ele ope os poeirentos caminhos e as srdidas estalagens de Castela; imaginemos um romancista de nosso tempo que, com seu senso pardico, destacasse os postos de gasolina. Cervantes criou para ns a poesia da Espanha do sculo XVII, mas nem aquele sculo nem aquela Espanha eram para ele poticos; homens como Unamuno, ou Azorn, ou Antonio Machado, enternecidos pela evocao de La Mancha, seriam para ele incompreensveis. O plano de sua obra vedava o maravilhoso; este, porm, devia nela figurar, ao menos de maneira indireta, como os crimes e o mistrio em uma pardia de romance policial. Cervantes no podia recorrer a talisms nem a sortilgios, mas insinuou o sobrenatural de modo sutil e, por isso mesmo, mais eficaz. Intimamente, Cervantes amava o sobrenatural. Paul Groussac, em 1942, observou: "Com certa tintura mal fixada de latim e italiano, a colheita literria de Cervantes provinha sobretudo dos romances pastoris e de cavalaria, embaladoras fbulas do cativeiro". O Quixote menos um antdoto dessas fices que uma secreta despedida nostlgica.

    Na realidade, cada romance um plano ideal; Cervantes compraz-se em confundir o objetivo e o subjetivo, o mundo do leitor e o mundo do livro. Nos captulos em que se discute se a bacia do barbeiro um elmo e a albarda um jaez, o problema tratado de modo explcito; em outras passagens, como j anotei, apenas insinuado. No sexto captulo da primeira parte, o padre e o barbeiro revistam a biblioteca de Dom Quixote; assombrosamente, um dos livros examinados a Galatia, de Cervantes, e eis que, por coincidncia, o barbeiro amigo do autor e no o admira muito, dizendo que este mais versado em desgraas que em versos e que o livro tem algo de boa inveno,

  • prope algo, mas no conclui nada. O barbeiro, sonho de Cervantes, ou forma de um sonho de Cervantes, julga Cervantes... Tambm surpreende saber, no incio do nono captulo, que o romance inteiro foi traduzido do rabe e que Cervantes adquiriu o manuscrito em um mercado de Toledo, tendo encomendado a traduo a um mourisco, que viveu mais de um ms e meio em sua casa, enquanto conclua a tarefa. Pensamos em Carlyle, que fingiu que o Sartor Resartus era a verso parcial de uma obra publicada na Alemanha pelo doutor Digenes Teufelsdroeckh; pensamos no rabino castelhano Moiss de Len, que escreveu o Zohar ou Libro del Esplendor e o publicou como obra de um rabino palestino do sculo III.

    Esse jogo de estranhas ambigidades culmina na segunda parte: os protagonistas leram a primeira, os protagonistas do Quixote so, tambm, leitores do Quixote. Aqui inevitvel lembrar o caso de Shakespeare, que inclui no cenrio de Hamlet outro cenrio, onde se representa uma tragdia que mais ou menos a de Hamlet; a correspondncia imperfeita entre a obra principal e a secundria diminui a eficcia dessa incluso. Um artifcio anlogo ao de Cervantes, e ainda mais assombroso, figura no Ramayana, poema de Valmiki que narra as proezas de Rama e sua guerra contra os demnios. No ltimo livro, os filhos de Rama, que no sabem quem seu pai, procuram abrigo em uma selva, onde um asceta os ensina a ler. Esse mestre , estranhamente, Valmiki; o livro em que eles estudam, o Ramayana. Rama ordena um sacrifcio de cavalos; a essa festa comparece Valmiki com seus alunos. Estes, acompanhados pelo alade, cantam o Ramayana. Rama ouve sua prpria histria, reconhece seus filhos e em seguida recompensa o poeta... Algo semelhante operou o acaso nas Mil e Uma Noites. Essa compilao de histrias fantsticas duplica e reduplica at a vertigem a ramificao de um conto central em contos adventcios, mas no procura graduar suas realidades, e o efeito (que devia ser profundo) superficial, como um tapete persa. E bem conhecida a histria liminar da srie: o desolado juramento do rei, que a cada noite desposa uma virgem que manda decapitar ao alvorecer, e a resoluo de Scherazade, que o entretm com fbulas, at que sobre os dois giraram Mil e Uma Noites e ela lhe mostra seu filho. A necessidade de completar mil e uma sees obrigou os copistas da obra a todo tipo de interpolaes. Nenhuma to perturbadora quanto a da noite DCII, mgica entre as noites. Nessa noite, o rei ouve a prpria histria da boca da rainha. Ouve o incio da histria, que abrange todas as outras e tambm de monstruoso modo a si mesma. Intui o leitor claramente a vasta possibilidade dessa interpolao? Seu curioso perigo? O fato de a rainha persistir e o imvel rei escutar para sempre a truncada histria das Mil e Uma Noites, agora infinita e circular... As invenes da filosofia no so menos fantsticas que as da arte: Josiah Royce, no primeiro volume da obra The World and the Individual (1899), formulou a seguinte: "Imaginemos que

  • uma poro do solo da Inglaterra foi perfeitamente nivelada e que nela um cartgrafo traa um mapa da Inglaterra. A obra perfeita; no h detalhe do solo da Inglaterra, por menor que seja, que no esteja registrado no mapa; tudo a tem seu correspondente. Desta sorte, tal mapa deve conter um mapa do mapa, que deve conter um mapa do mapa do mapa, e assim at o infinito".

    Por que nos inquieta que o mapa esteja includo no mapa e as Mil e Uma Noites no livro das Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor do Quixote, e Hamlet, espectador de Hamlet? Creio ter encontrado a causa: tais inverses sugerem que, se os personagens de uma fico podem ser leitores ou espectadores, ns, seus leitores ou espectadores, podemos ser fictcios. Em 1833, Carlyle observou que a histria universal um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem, e lem, e procuram entender, e no qual tambm so escritos.

  • NATHANIEL HAWTHORNE1

    Comearei a histria das letras americanas com a histria de uma metfora; ou melhor, com alguns exemplos dessa metfora. No sei quem a inventou; talvez seja um erro supor que as metforas possam ser inventadas. As verdadeiras, as que formulam ntimas conexes entre duas imagens, sempre existiram; as que ainda podemos inventar so as falsas, as que no vale a pena inventar. Esta a que me refiro a que liga os sonhos a uma apresentao teatral. No sculo XVII, Quevedo formulou-a no incio do Sueo de la Muerte; Luis de Gngora, no soneto "Varia imaginacin", onde lemos:

    O sonho, autor de representaes, em seu teatro sobre o vento armado, sombras usa vestir de vulto belo.

    No sculo XVIII, Addison a enunciar com mais preciso. "A alma, quando sonha escreve Addison , teatro, atores e pblico." Muito antes, o persa Omar Khayyam escrevera que a histria do mundo uma representao que Deus, o numeroso Deus dos pantestas, planeja, representa e contempla, a fim de distrair sua eternidade; muito depois, o suo Jung, em encantadores e, sem dvida, exatos volumes, equipara as invenes literrias s invenes onricas, a literatura aos sonhos.

    Se a literatura um sonho, um sonho dirigido e deliberado, mas fundamentalmente um sonho, bom que esta nossa histria das letras americanas tenha os versos de Gngora por epgrafe e seja inaugurada com a anlise de Hawthorne, o sonhador. Pouco anteriores no tempo, h outros escritores americanos Fenimore Cooper, uma espcie de Eduardo Gutirrez infinitamente inferior a Eduardo Gutirrez; Washington Irving, urdidor de agradveis espanholadas , mas podemos ignor-los sem risco algum.

    Hawthorne nasceu em 1804, no porto de Salem. Salem padecia, j ento, de dois traos anmalos na Amrica: era uma cidade, apesar de pobre, muito velha; era uma cidade em decadncia. Nessa velha e decadente cidade de honesto nome bblico, Hawthorne viveu at 1836; amou-a com o triste amor que inspiram, nas pessoas que no nos amam, os fracassos, as doenas, as manias; em essncia, no falso dizer que nunca se afastou dela. Cinqenta anos depois, em Londres ou em Roma, continuava em sua aldeia puritana de

    1 Texto de uma conferncia proferida no Colegio Libre de Estudios Superiores em maro de 1949.

  • Salem; por exemplo, quando desaprovou que os escultores, em pleno sculo XIX, esculpissem esttuas nuas...

    Seu pai, o capito Nathaniel Hawthorne, morreu em 1808, nas ndias Orientais, no Suriname, de febre amarela; um de seus antepassados, John Hawthorne, foi juiz nos processos de feitiaria de 1692, em que dezenove mulheres, entre elas uma escrava, Tituba, foram condenadas forca. Nesses curiosos processos (agora o fanatismo assume outras formas), Justice Hawthorne procedeu com severidade e, sem dvida, com sinceridade. "To conspcuo foi escreveu Nathaniel, o nosso Nathaniel no martrio das bruxas que lcito pensar que o sangue dessas desventuradas tenha deixado nele uma mancha. Uma mancha to profunda que deve perdurar em seus velhos ossos, no cemitrio de Charter Street, se ainda no forem p." Depois desse arroubo pictrico, Hawthorne acrescenta: "No sei se meus maiores se arrependeram e suplicaram a misericrdia divina; agora, eu o fao em nome deles e peo que qualquer maldio que se tenha abatido sobre minha raa seja-nos, desde o dia de hoje, perdoada". Quando o capito Hawthorne morreu, sua viva, a me de Nathaniel, recluiu-se em seu quarto, no segundo andar da casa. No mesmo andar estavam os quartos das irms, Louisa e Elizabeth; no ltimo, o de Nathaniel. Essas pessoas no comiam juntas e quase no se falavam; a refeio de cada um era deixada em uma bandeja, no corredor. Nathaniel passava os dias escrevendo contos fantsticos; na hora do crepsculo vespertino, saa para caminhar. Esse furtivo regime de vida durou doze anos. Em 1837, escreveu a Longfellow: "Vivi recludo, sem o menor propsito de faz-lo, sem a menor suspeita de que isso me ocorreria. Converti-me em prisioneiro, tranquei-me em um calabouo, e agora j no encontro a chave, e, mesmo que a porta estivesse aberta, quase teria medo de sair". Hawthorne era alto, bonito, magro, moreno. Tinha o andar balanado dos homens do mar. Naquele tempo no existia (para felicidade das crianas, sem dvida) literatura infantil; Hawthorne leu aos seis anos o Pilgrims Progress; o primeiro livro que ele comprou com o prprio dinheiro foi The Faerie Queen: duas alegorias. Tambm, embora seus bigrafos no o digam, a Bblia; talvez a mesma que o primeiro Hawthorne, William Hawthorne de Wilton, trouxera da Inglaterra junto com uma espada, em 1630. Acabei de pronunciar a palavra alegorias; essa palavra importante e, em se tratando da obra de Hawthorne, talvez imprudente ou indiscreta. Sabe-se que Edgar Allan Poe acusou Hawthorne de alegorizar e que aquele opinava serem tal atividade e gnero indefensveis. Duas tarefas nos deparam: a primeira, indagar se o gnero alegrico , de fato, ilcito; a segunda, indagar se Nathaniel Hawthorne incorreu nesse gnero. Que eu saiba, a melhor refutao das alegorias a de Croce; a melhor vindicao, a de Chesterton. Croce acusa a alegoria de ser um enfadonho pleonasmo, um jogo de vs repeties, que primeiro nos mostra (digamos) Dante guiado por Virglio e Beatriz para depois

  • explicar, ou dar a entender, que Dante a alma, Virglio a filosofia, ou a razo, ou a luz natural, e Beatriz a teologia ou a graa. Segundo Croce, segundo o argumento de Croce (o exemplo no dele), Dante primeiro teria pensado: "A razo e a f operam a salvao das almas" ou "A filosofia e a teologia nos conduzem ao cu" e depois, onde pensou razo ou filosofia, ps Virglio e, onde pensou teologia ou f, ps Beatriz, o que seria uma espcie de mascarada. A alegoria, segundo essa interpretao desdenhosa, viria a ser uma adivinhao, mais extensa, mais lenta e muito mais incmoda que as outras. Seria um gnero brbaro ou infantil, uma distrao da esttica. Croce formulou essa refutao em 1907; em 1904, Chesterton j a refutara sem que aquele o soubesse. To incomunicada e to vasta a literatura! A pgina pertinente de Chesterton aparece em uma monografia sobre o pintor Watts, ilustre na Inglaterra em fins do sculo XIX e acusado, como Hawthorne, de alegorismo. Chesterton admite que Watts produziu alegorias, mas nega que esse gnero seja condenvel. Argumenta que a realidade ,de uma interminvel riqueza e que a linguagem dos homens no esgota esse vertiginoso caudal. Escreve: "O homem sabe que h na alma matizes mais desconcertantes, mais inumerveis e mais annimos que as cores de um bosque outonal... Cr, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fuses e converses, podem ser representados com preciso por meio de um mecanismo arbitrrio de grunhidos e chiados. Cr que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem rudos que significam todos os mistrios da memria e todas as agonias do desejo...". Da infere Chesterton a possibilidade de haver diversas linguagens que de algum modo correspondam inapreensvel realidade; entre muitas outras, a das alegorias e das fbulas.

    Dito de outro modo: Beatriz no um emblema da f, um trabalhoso e arbitrrio sinnimo da palavra f; a verdade que no mundo h uma coisa um sentimento peculiar, um processo ntimo, uma srie de estados anlogos que possvel indicar por meio de dois smbolos: um, assaz pobre, o som "f"; outro, Beatriz, a gloriosa Beatriz que desceu do cu e deixou suas pegadas no Inferno para salvar Dante. No sei se a tese de Chesterton vlida; sei que, quanto menos uma alegoria for redutvel a um esquema, a um frio jogo de abstraes, melhor ela ser. H o escritor que pensa por meio de imagens (Shakespeare, ou Donne, ou Victor Hugo, digamos) e o escritor que pensa por meio de abstraes (Benda ou Bertrand Russell); a priori, uns valem tanto quanto outros, mas quando um abstrato, um raciocinador, quer ser tambm imaginativo, ou fazer-se passar por tal, ocorre o denunciado por Croce. Percebemos que um processo lgico foi enfeitado ou disfarado pelo autor, "para desonra do entendimento do leitor", como disse Wordsworth. , para citar um exemplo notrio desse mal, o caso de Jos Ortega y Gasset, cujo bom pensamento obstrudo por laboriosas e adventcias metforas; , muitas vezes, o de Hawthorne. No mais, os dois escritores so antagnicos. Ortega pode

  • raciocinar, bem ou mal, mas no imaginar; Hawthorne era homem de contnua e curiosa imaginao; mas refratrio, digamos assim, ao pensamento. No digo que ele fosse pouco inteligente; digo que pensava por meio de imagens, de intuies, como costumam pensar as mulheres, no por meio de mecanismo dialtico. Foi prejudicado por um erro esttico: o desejo puritano de fazer de cada imaginao uma fbula levava Hawthorne a acrescentar-lhes moralidades e, s vezes, a false-las e a deform-las. Conservaram-se os cadernos onde ele concisamente tomava nota de seus argumentos. Em um deles, de 1836, est escrito: "Uma serpente admitida no estmago de um homem e alimentada por ele, dos quinze aos trinta e cinco anos, atormentando-o terrivelmente". Isso j basta, mas Hawthorne se v na obrigao de completar: "Poderia ser um emblema da inveja ou de outra paixo maligna". Outro exemplo, este de 1838: "Que ocorram fatos estranhos, misteriosos e atrozes que destruam a felicidade de uma pessoa. Que essa pessoa os impute a inimigos secretos e que, por fim, descubra que ela a nica culpada e a causa. Moral: a felicidade est em ns mesmos". Mais um, do mesmo ano: "Um homem, durante a viglia, pensa bem de outro e confia nele plenamente, mas inquietam-no sonhos em que esse amigo age como inimigo mortal. Revela-se, por fim, que o carter sonhado era o verdadeiro. Os sonhos tinham razo. A explicao seria a percepo instintiva da verdade". So melhores aquelas fantasias puras que no procuram justificativa nem moralidade e que parecem no ter outro fundo alm de um obscuro terror. Esta, de 1838: "Imaginar no meio da multido um homem cujo destino e cuja vida esto sob o poder de outro, como se os dois estivessem em um deserto". Esta, que uma variante da anterior e que Hawthorne anotou cinco anos depois: "Um homem de forte vontade ordena a outro, moralmente submisso a ele, que execute uma ao. O que ordena morre, e o outro continua executando aquela ao at o fim de seus dias". (No sei de que maneira Hawthorne teria desenvolvido esse argumento; no sei se ele teria decidido que o ato executado fosse trivial, ou levemente horrvel, ou fantstico, ou talvez humilhante.) Ou este, cujo tema tambm a escravido, a sujeio ao outro: "Um homem rico deixa em testamento sua manso a um casal pobre. Os herdeiros mudam-se para a; encontram um criado sombrio que o testamento probe demitir. Este os atormenta; descobre-se, por fim, que se trata do homem que legou a casa". Citarei mais dois esboos, bastante curiosos, cujo tema (no ignorado por Pirandello nem por Andr Gide) a coincidncia ou a confuso do plano esttico e do plano comum, da realidade e da arte. Eis aqui o primeiro: "Duas pessoas encontram-se na rua, espera de um acontecimento e da apario dos principais atores. O acontecimento j est ocorrendo, e so elas mesmas os atores". O outro mais complexo: "Que um homem escreva um conto e constate que este se desenrola contra suas intenes; que os personagens no se comportem como ele queria; que ocorram fatos no

  • previstos por ele e que se aproxime uma catstrofe que ele tentar, em vo, evitar. Esse conto poderia prefigurar seu prprio destino, e um dos personagens ser ele mesmo". Tais jogos, tais momentneas confluncias do mundo imaginrio e do mundo real do mundo que no decorrer da leitura fingimos ser real so, ou parecem-nos, modernos. Sua origem, sua antiga origem, talvez esteja naquela passagem da Ilada em que Helena de Tria tece seu tapete, e o que ela tece so batalhas e desventuras da prpria guerra de Tria. Esse aspecto deve ter impressionado Virglio, pois na Eneida consta que Enias, guerreiro da guerra de Tria, chegou ao porto de Cartago e viu cenas dessa guerra esculpidas no mrmore de um templo e, entre tantas imagens de guerreiros, tambm sua prpria imagem. Hawthorne gostava desses contatos entre o imaginrio e o real, como reflexos e duplicaes da arte; tambm se nota, nos esboos que citei, que ele propendia noo pantesta de que um homem os outros, de que um homem todos os homens.

    Percebe-se nos esboos algo mais grave que as duplicaes e o pantesmo, mais grave vindo de um homem que aspira a ser romancista, quero dizer. Percebe-se que o estmulo de Hawthorne, que o ponto de partida de Hawthorne eram, em geral, situaes. Situaes, no personagens. Hawthorne primeiro imaginava, quem sabe involuntariamente, uma situao para s depois procurar personagens que a encarnassem. No sou romancista, mas suspeito que nenhum romancista procede dessa forma: "Creio que Schomberg real", escreveu Joseph Conrad sobre um dos personagens mais memorveis de seu romance Victory, e o mesmo poderia honestamente afirmar qualquer romancista sobre qualquer personagem. As aventuras do Quixote no esto muito bem idealizadas, os lentos e antitticos dilogos "arrazoados", acho que o autor os chama assim pecam por inverossmeis, mas no resta dvida de que Cervantes conhecia bem Dom Quixote e podia acreditar nele. Nossa crena na crena do romancista salva todas as negligncias e falhas. Pouco importam fatos inacreditveis ou grosseiros se nos consta que o autor os idealizou, no para surpreender nossa boa-f, e sim para definir seus personagens. Pouco importam os pueris escndalos e os confusos crimes da suposta Corte da Dinamarca se acreditamos no prncipe Hamlet. Hawthorne, ao contrrio, primeiro concebia uma situao, ou uma srie de situaes, e depois elaborava as pessoas que seu plano requeria. Esse mtodo pode produzir, ou permitir, contos admirveis, porque neles, dada sua brevidade, a trama mais visvel que os atores, mas nunca romances admirveis, onde a forma geral (quando existe) s visvel ao final e onde um nico personagem mal inventado pode contaminar de irrealidade aqueles que o acompanham. Das razes acima poder-se-ia deduzir, de antemo, que os contos de Hawthorne valem mais que os romances de Hawthorne. Eu entendo que assim. Os vinte e quatro captulos que compem A Letra Escarlate contm muitas passagens

  • memorveis, redigidas em boa e sensvel prosa, mas nenhum deles comoveu-me tanto quanto a singular histria de Wakefield, includa nos Twce-Told Tales. Hawthorne lera no jornal, ou fingiu, com fins literrios, ter lido no jornal, o caso de um senhor ingls que abandonou a mulher sem motivo algum, instalou-se a um passo de sua casa e a, sem ningum suspeitar, passou vinte anos escondido. Durante esse longo perodo, passou todos os dias diante de sua casa ou olhou-a da esquina, e muitas vezes avistou sua mulher. Quando j o davam por morto, quando fazia muito tempo que sua mulher se resignara a ser viva, o homem, um dia, abriu a porta de casa e entrou. Simplesmente, como se tivesse se ausentado por algumas horas. (Foi, at o dia de sua morte, um marido exemplar.) Hawthorne leu com inquietude o curioso caso e procurou entend-lo, imagin-lo. Refletiu sobre o tema; o conto "Wakefield" a histria conjetura) desse desterrado. As interpretaes do enigma podem ser infinitas; vejamos a de Hawthorne.

    Este imagina Wakefield como um homem pacato, timidamente vaidoso, egosta, propenso a mistrios pueris, a guardar segredos insignificantes; um homem acanhado, de grande proeza imaginativa e mental, mas capaz de longas, ociosas, incompletas e vagas meditaes; um marido constante, defendido pela preguia. Wakefield, no entardecer de um dia de outubro, despede-se da mulher. Diz a ela no podemos esquecer que estamos no incio do sculo XIX que vai tomar a diligncia e que voltar, no mais tardar, dentro de alguns dias. A mulher, que o sabe aficionado a inofensivos mistrios, no lhe pergunta as razes da viagem. Wakefield est de botas, de cartola, de sobretudo; leva guarda-chuva e malas. Wakefield acho isto admirvel ainda no sabe o que lhe acontecer fatalmente. Sai, com a resoluo mais ou menos firme de inquietar ou assombrar a mulher, ausentando-se de casa por toda uma semana. Sai, fecha a porta da rua, em seguida a entreabre e, por um instante, sorri. Anos mais tarde, a mulher recordar esse sorriso ltimo. Imaginar o marido no caixo com o sorriso gelado no rosto, ou ento no paraso, na glria, sorrindo com astcia e serenidade. Todos acreditaro que est morto, e ela recordar esse sorriso e pensar que talvez no seja viva. Wakefield, depois de dar algumas voltas, chega ao esconderijo que tinha preparado. Acomoda-se junto lareira e sorri; est a um passo de sua casa e tinha chegado ao fim da viagem. Duvida, congratula-se, custa a acreditar que j est a, teme que o tenham observado e que o denunciem. Quase arrependido, deita-se; na grande cama vazia, estende os braos e repete em voz alta: "No dormirei sozinho outra noite". No dia seguinte, acorda mais cedo que de costume e, perplexo, pergunta-se o que fazer. Sabe que tem um propsito, mas custa-lhe defini-lo. Descobre, por fim, que seu propsito investigar a impresso que uma semana de viuvez causar exemplar senhora Wakefield. A curiosidade o impele para a rua. Murmura: "Espiarei minha casa a distncia". Caminha, distrai-se; de

  • repente percebe que o hbito, traioeiro, levou-o prpria porta e que est a ponto de entrar. Ento recua, aterrorizado. Ser que algum o viu? Ser que algum o persegue? Chegando esquina, volta-se para olhar sua casa; esta parece-lhe diferente, porque ele j outro, porque, embora no o saiba, uma nica noite causou nele uma transformao. Em sua alma operou-se a mudana moral que o condenar a vinte anos de exlio. Nesse ponto comea, de fato, a longa aventura. Wakefield compra uma peruca ruiva. Muda seus hbitos; passado algum tempo, j estabelecera uma nova rotina. Aflige-o a suspeita de que sua ausncia no causara suficiente comoo senhora Wakefield. Decide no voltar antes de pregar-lhe um bom susto. Um dia o boticrio entra na casa; outro dia, o mdico. Wakefield preocupa-se, mas teme que sua brusca reapario possa agravar o mal. Possudo, deixa o tempo correr; antes pensava: "Voltarei dentro de tantos dias", agora, "dentro de tantas semanas". E assim passam-se dez anos. J h muito deixou de saber que sua conduta estranha. Com todo o morno afeto de que seu corao capaz, Wakefield continua amando sua mulher, e ela o vai esquecendo. Numa manh de domingo, os dois se cruzam na rua, em meio multido de Londres. Wakefield emagreceu; caminha obliquamente, como que se ocultando, como que fugindo; sua fronte baixa parece sulcada de rugas; seu rosto, antes comum, agora extraordinrio, graas ao extraordinrio intento que executou. Seus olhos midos espreitam ou se perdem. A mulher engordou; leva na mo um missal e ela inteira parece um emblema de plcida e resignada viuvez. Acostumou-se tristeza, e talvez no a trocasse pela felicidade. Cara a cara, os dois olham-se nos olhos. A multido os separa e os perde. Wakefield foge para seu esconderijo, tranca a porta com duas voltas de chave e joga-se na cama, onde um soluo o estremece. Por um instante, enxerga a miservel singularidade de sua vida. "Wakefield! Wakefield! Voc est louco!", diz a si mesmo. Talvez esteja. No centro de Londres, desligou-se do mundo. Sem ter morrido, renunciou a seu lugar e a seus privilgios entre os homens vivos. Mentalmente, ele continua vivendo ao lado da mulher em seu lar. No sabe, ou quase nunca sabe, que outro. Repete "logo voltarei", sem se dar conta de que h vinte anos vem repetindo a mesma coisa. Na memria, os vinte anos de solido parecem-lhe um interldio, um mero parntese. Uma tarde, uma tarde igual a outras tardes, a milhares de tardes anteriores, Wakefield fita a prpria casa. Pela janela v que no primeiro andar a lareira est acesa; contra o adornado forro, as chamas lanam grotescamente a sombra da senhora Wakefield. Comea a chover; Wakefield sente uma rajada de frio. Parece-lhe ridculo molhar-se quando sua casa, seu lar, est bem ali. Sobe pesadamente a escada e abre a porta. Em seu rosto brinca, espectral, o matreiro sorriso que conhecemos. Wakefield voltou, enfim. Hawthorne no nos conta seu destino ulterior, mas deixa adivinhar que ele j estava, de certo modo, morto. Transcrevo as palavras finais: "Na desordem

  • aparente de nosso misterioso mundo, cada homem vive ajustado a um sistema com to refinado rigor e os sistemas entre si, e todos a tudo que o indivduo que se desvia, por um momento que seja, corre o terrvel risco de perder seu lugar para sempre. Corre o risco de ser, como Wakefield, o Pria do Universo".

    Nessa breve e ominosa parbola que data de 1835 j estamos no mundo de Herman Melville, no mundo de Kafka. Um mundo de castigos enigmticos e de culpas indecifrveis. Diro que isso nada tem de singular, pois o orbe de Kafka o judasmo, e o de Hawthorne, as iras e os castigos do Velho Testamento. A observao justa, mas seu alcance no excede a tica, e entre a horrenda histria de Wakefield e muitas histrias de Kafka no h apenas uma tica comum, mas uma retrica. H, por exemplo, a profunda trivialidade do protagonista, que contrasta com a magnitude de sua perdio e que o entrega, ainda mais desvalido, s Frias. H o fundo nebuloso, contra o qual se perfila o pesadelo. Em outras narraes, Hawthorne invoca um passado romntico; nesta limita-se a uma Londres burguesa, cujas multides lhe servem, alis, para ocultar o heri.

    Aqui, sem nenhum demrito de Hawthorne, eu gostaria de intercalar uma observao. A circunstncia, a estranha circunstncia, de sentir em um conto de Hawthorne, redigido no incio do sculo XIX, o sabor mesmo dos contos de Kafka, que trabalhou no incio do sculo XX, no deve fazer-nos esquecer que o sabor de Kafka foi criado, foi determinado por Kafka. "Wakefield" prefigura Franz Kafka, mas este modifica, e afina, a leitura de "Wakefield". A dvida mtua; um grande escritor cria seus precursores. Cria-os e de certo modo os justifica. Assim, o que seria de Marlowe sem Shakespeare?

    O tradutor e crtico Malcom Cowley v em "Wakefield" uma alegoria da curiosa recluso de Nathaniel Hawthorne. Schopenhauer escreveu, famosamente, que no h ato, nem pensamento, nem doena que no sejam voluntrios; se h verdade nessa opinio, seria possvel conjeturar que Nathaniel Hawthorne retirou-se por muitos anos da sociedade dos homens para que no faltasse ao universo, cujo fim talvez a variedade, a singular histria de Wakefield. Se Kafka tivesse escrito essa histria, Wakefield jamais conseguiria voltar para casa; Hawthorne permite-lhe voltar, mas sua volta no menos lamentvel nem menos atroz que sua longa ausncia.

    Uma parbola de Hawthorne que esteve a ponto de ser magistral mas no , prejudicada que foi pela preocupao com a tica, a que se intitula Earths Holocaust: o Holocausto da Terra. Nessa fico alegrica, Hawthorne prev um momento em que os homens, fartos de acumulaes inteis, resolvem destruir o passado. Para tanto, congregam-se ao entardecer em um dos vastos territrios do oeste da Amrica. A essa plancie ocidental chegam homens de todos os confins do mundo. No centro acendem uma altssima fogueira que alimentam com todas as genealogias, com todos os diplomas, com todas as

  • medalhas, com todas as ordens, com todos os ttulos de nobreza, com todos os brases, com todas as coroas, com todos os cetros, com todas as tiaras, com todas as prpuras, com todos os dossis, com todos os tronos, com todos os lcoois, com todas as sacas de caf, com todas as caixas de ch, com todos os charutos, com todas as cartas de amor, com toda a artilharia, com todas as espadas, com todas as bandeiras, com todos os tambores marciais, com todos os instrumentos de tortura, com todas as guilhotinas, com todas as forcas, com todos os metais preciosos, com todo o dinheiro, com todos os ttulos de propriedade, com todas as constituies e cdigos, com todos os livros, com todas as mitras, com todas as dalmticas, com todas as sagradas escrituras que povoam e fadigam a Terra. Hawthorne assiste com assombro e certo escndalo combusto; um homem com ar pensativo diz-lhe que ele no deve alegrar-se nem se entristecer, pois a vasta pirmide de fogo no consumiu seno aquilo que nas coisas consumvel. Outro espectador o demnio observa que os empresrios do holocausto se esqueceram de atirar o essencial, o corao humano, no qual se encontra a raiz de todo pecado, e que somente destruram algumas formas. Hawthorne conclui assim: "O corao, o corao, essa a breve esfera ilimitada onde radica a culpa daquilo que o crime e a misria do mundo so apenas smbolo. Purifiquemos essa esfera interior, e as muitas formas do mal que entenebrecem este mundo visvel fugiro como fantasmas, pois, se no sobrepujarmos a inteligncia e no tentarmos, com esse instrumento imperfeito, discernir e corrigir o que nos aflige, toda nossa obra ser um sonho. Um sonho to insubstancial que pouco importar que a fogueira, aqui to fielmente descrita, seja o que chamamos fato real e um fogo que chamusca as mos em vez de um fogo imaginado e uma parbola". Hawthorne, aqui, deixou-se levar pela doutrina crist, e especificamente calvinista, da depravao ingnita dos homens e no parece ter percebido que sua parbola de uma ilusria destruio de todas as coisas encerra um sentido filosfico e no apenas moral. De fato, se o mundo o sonho de Algum, se h Algum que agora est sonhando-nos e que sonha a histria do universo, como doutrina da escola idealista, a aniquilao das religies e das artes, o incndio geral das bibliotecas no muito mais importante que a destruio dos mveis de um sonho. A mente que uma vez os sonhou voltar a sonh-los; enquanto a mente continuar sonhando, nada se ter perdido. A convico dessa verdade, que parece fantstica, fez com que Schopenhauer, em seu livro Parerga und Paralipomena, comparasse a histria a um caleidoscpio, no qual as figuras mudam, mas no os fragmentos de vidro, a uma eterna e confusa tragicomdia em que mudam os papis e as mscaras, mas no os atores. Essa mesma intuio de que o universo uma projeo de nossa alma e de que a histria universal est em cada homem fez Emerson escrever o poema intitulado "History".

  • Quanto fantasia de abolir o passado, no sei se cabe lembrar que ela foi ensaiada na China, com adversa fortuna, trs sculos antes de Jesus Cristo. Escreve Herbert Allen Giles: "O ministro Li Su props que a histria comeasse com o novo monarca, que tomou para si o ttulo de Primeiro Imperador. Para extirpar as vs pretenses da antigidade, ordenou-se que todos os livros fossem confiscados e queimados, salvo os que ensinassem agricultura, medicina ou astrologia. Aqueles que ocultaram seus livros foram marcados a ferro candente e obrigados a trabalhar na construo da Grande Muralha. Muitas obras valiosas pereceram; abnegao e coragem de obscuros e annimos homens de letras que a posteridade deve a conservao do cnone de Confcio. Tantos literatos, conta-se, foram executados por desacatar as ordens imperiais que no inverno cresceram meles no lugar onde haviam sido enterrados". Na Inglaterra, em meados do sculo XVII, esse mesmo propsito ressurgiu entre os puritanos, entre os antepassados de Hawthorne. "Em um dos parlamentos populares convocados por Cromwell conta Samuel Johnson apresentou-se, muito seriamente, a proposta de que se queimassem os arquivos da Torre de Londres, que se apagasse toda a memria das coisas pretritas e que todo o regime da vida recomeasse." Ou seja, o propsito de abolir o passado j ocorreu no passado e paradoxalmente uma das provas de que o passado no pode ser abolido. O passado indestrutvel; cedo ou tarde, todas as coisas voltam, e uma das coisas que voltam o projeto de abolir o passado.

    Como Stevenson, tambm filho de puritanos, Hawthorne nunca deixou de sentir que a tarefa do escritor era frvola ou, o que pior, culpada. No prefcio de A Letra Escarlate, imagina os espectros de seus antepassados observando-o enquanto escreve o romance. A passagem curiosa. "O que ele estar fazendo? pergunta um antigo espectro aos outros. Est escrevendo um livro de histrias! Que oficio ser esse, que modo de glorificar a Deus ou de ser til aos homens, em seu devido tempo e gerao? O mesmo valeria a esse desnaturado ser violinista." A passagem curiosa, porque encerra uma espcie de confidncia e corresponde a escrpulos ntimos. Corresponde, tambm, ao antigo pleito entre a tica e a esttica ou, se se preferir, entre a teologia e a esttica. Um de seus primeiros testemunhos consta da Sagrada Escritura e probe aos homens adorar dolos. Outro o de Plato, que no dcimo livro da Repblica raciocina deste modo: "Deus cria o Arqutipo (a idia original) da mesa; o marceneiro, um simulacro". Outro o de Maom, que declarou que toda representao de uma coisa viva comparecer perante o Senhor, no dia do Juzo Final. Os anjos ordenaro ao artfice que a anime; este fracassar e ser atirado no Inferno, por certo tempo. Alguns doutores muulmanos postulam que a proscrio vale apenas para as imagens capazes de projetar sombra (as esculturas)... De Plotino, conta-se que quase sentia vergonha de habitar um

  • corpo e que no permitiu aos escultores a perpetuao de seus traos. Certa vez, um amigo suplicou-lhe que se deixasse retratar; Plotino disse: "j muito me pesa ter de arrastar este simulacro em que a natureza me encarcerou. Hei de tolerar, ainda, que seja perpetuada a imagem desta imagem?".

    Nathaniel Hawthorne desatou essa dificuldade (que no ilusria) do modo que sabemos; comps moralidades e fbulas; fez e procurou fazer da arte uma funo da conscincia. Assim, para nos limitarmos a um nico exemplo, o romance The House of the Seven Gables (A casa dos sete telhados) pretende mostrar que o mal cometido por uma gerao perdura e se prolonga nas subseqentes, como uma espcie de castigo herdado. Andrew Lang comparou esse romance com os de mile Zola, ou com a teoria dos romances de mile Zola; salvo um momentneo assombro, no sei que utilidade pode resultar da aproximao desses nomes heterogneos. O fato de Hawthorne perseguir, ou tolerar, propsitos de ndole moral no invalida, no pode invalidar, sua obra. No decorrer de uma vida consagrada menos a viver que a ler, pude muitas vezes verificar que os propsitos e teorias literrias no passam de estmulos e que a obra final costuma ignor-los e at contradiz-los. Se h algo no autor, nenhum propsito, por mais ftil ou errneo que seja, poder afetar de modo irreparvel sua obra. Um autor pode padecer de preconceitos absurdos, mas sua obra, se for genuna, se responder a uma viso genuna, no poder ser absurda. Por volta de 1916, os romancistas da Inglaterra e da Frana acreditavam (ou acreditavam acreditar) que todos os alemes eram demnios; em seus romances, porm, costumavam apresent-los como seres humanos. Em Hawthorne, sempre a viso germinal era verdadeira; o falso, o eventualmente falso, so as moralidades que ele acrescentava no ltimo pargrafo ou os personagens que idealizava, que armava, para represent-las. Os personagens de A Letra Escarlate sobretudo Hester Prynne, a herona so mais independentes, mais autnomos, que os de outras fices de Hawthorne; assemelham-se mais aos habitantes da maioria dos romances e no so meras projees do autor ligeiramente disfaradas. Essa objetividade, essa relativa e parcial objetividade, talvez a razo que levou dois escritores to agudos (e to dspares) como Henry James e Ludwig Lewisohn a considerar A Letra Escarlate a obra-prima de Hawthorne, seu testemunho imprescindvel. Ouso discordar dessas autoridades. Quem desejar objetividade, quem tiver fome e sede de objetividade, que a procure em Joseph Conrad ou em Tolsti; quem quiser o peculiar sabor de Nathaniel Hawthorne o encontrar menos em seus laboriosos romances que em alguma pgina secundria ou nos leves e patticos contos. No sei muito bem como justificar minha discrepncia; nos trs romances americanos e no Fauno de Mrmore vejo apenas uma srie de situaes urdidas com destreza profissional para comover o leitor, no uma espontnea e viva atividade da imaginao. Esta (repito) construiu o argumento

  • geral e as digresses, no o entrelaamento dos episdios nem a psicologia de algum modo temos de cham-la dos atores.

    Johnson observa que nenhum escritor gosta de dever algo a seus contemporneos; Hawthorne ignorou-os at onde lhe foi possvel. Talvez tenha feito bem; talvez nossos contemporneos se paream sempre demais a ns mesmos, e quem esteja em busca de novidades as encontrar com mais facilidade nos antigos. Hawthorne, segundo seus bigrafos, no leu De Quincey, no leu Keats, no leu Victor Hugo que tampouco leram uns aos outros. Groussac no suportava a possibilidade de um americano ser original; em Hawthorne denunciou "a notvel influncia de Hoffmann"; ditame que parece basear-se em uma equnime ignorncia de ambos os autores. A imaginao de Hawthorne romntica; seu estilo, apesar de alguns excessos, corresponde ao sculo XVIII, ao plido fim do admirvel sculo XVIII.

    Li vrios fragmentos do dirio que Hawthorne escreveu para distrair sua longa solido; referi, ainda que brevemente, dois contos; agora lerei uma pgina do Marble Faun para que vocs ouam Hawthorne. O tema aquele poo ou abismo que, segundo os historiadores latinos, abriu-se no centro do Frum e em cujas cegas profundezas atirou-se um romano, armado e a cavalo, para aplacar os deuses. Reza o texto de Hawthorne:

    "Admitamos disse Kenyon que este seja o lugar exato onde se abriu a caverna, aquela em que o heri se atirou com seu bom cavalo. Imaginemos o enorme e escuro buraco, impenetravelmente fundo, com vagos monstros e rostos atrozes olhando c para cima e enchendo de horror os cidados que em sua borda se debruavam. Sem dvida, estava cheio de vises profticas (cominaes de todos os infortnios de Roma), de sombras de gauleses, de vndalos e dos soldados francos. Pena ter sido tapado to depressa! Eu daria qualquer coisa por uma olhada.

    "Penso disse Miriam que no h pessoa que no lance um olhar nessa fenda, em momentos de sombra e abatimento, ou seja, de intuio.

    "Essa fenda disse seu amigo era apenas uma boca do abismo de escurido que est abaixo de ns, em toda a parte. A substncia mais firme da felicidade dos homens uma lmina interposta entre esse abismo e ns e que sustenta nosso mundo ilusrio. No necessrio um terremoto para romp-la; basta apoiar o p. Devemos pisar com muito cuidado. Inevitavelmente, no final afundamos. Foi um tolo alarde de herosmo o de Crcio, quando tomou a dianteira e se atirou nas profundezas, pois Roma inteira, como vemos agora, caiu a. O Palcio dos Csares caiu, com um estrondo de pedras desabando. Todos os templos caram, e depois atiraram milhares de esttuas. Todos os exrcitos e os triunfos caram, marchando, nessa caverna, e soava a msica marcial enquanto se precipitavam..."

  • At aqui, Hawthorne. Do ponto de vista da razo (da mera razo que no deve intrometer-se nas artes), a fervorosa passagem que acabo de traduzir indefensvel. A fenda aberta no meio do frum demasiadas coisas. Ao longo de um nico pargrafo a fenda de que falam os historiadores latinos e tambm a boca do Inferno "com vagos monstros e rostos atrozes", e tambm o horror essencial da vida humana, e tambm o Tempo, que devora esttuas e exrcitos, e tambm a Eternidade, que encerra os tempos. um smbolo mltiplo, um smbolo capaz de muitos valores, talvez incompatveis. Para a razo, para o entendimento lgico, tal variedade de valores pode constituir um escndalo, mas no para os sonhos, que tm sua lgebra singular e secreta, e em cujo ambguo territrio uma coisa pode ser muitas. Esse mundo de sonhos o de Hawthorne. Uma vez, ele props-se escrever um sonho, "que fosse como um sonho verdadeiro e que tivesse a incoerncia, as estranhezas e a falta de propsito dos sonhos", e maravilhou-se de que ningum, at ento, tivesse executado algo semelhante. No mesmo dirio em que registrou esse estranho projeto que toda a nossa literatura "moderna" tenta em vo executar e que talvez s Lewis Carroll tenha realizado , Hawthorne anotou milhares de impresses banais de pequenos aspectos concretos (o movimento de uma galinha, a sombra de um galho na parede) que ocupam seis volumes, cuja inexplicvel abundncia faz a consternao de todos os bigrafos. "Parecem cartas gratas e inteis escreve com perplexidade Henry James dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que por isso tivesse resolvido no dizer nada de comprometedor." Tenho para mim que Nathaniel Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da impresso de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o freqentava.

    Em um dos dias de 1840 escreveu: "Aqui estou em meu quarto habitual, onde me parece sempre estar. Aqui terminei muitos contos, muitos que depois queimei, muitos que, sem dvida, mereciam esse ardente destino. Este um aposento assombrado, porque milhares e milhares de vises povoaram seu mbito, e algumas agora so visveis ao mundo. Por momentos, eu acreditava estar na sepultura, gelado, imvel e intumescido; por momentos, acreditava ser feliz... Agora comeo a entender por que permaneci preso durante tantos anos neste quarto solitrio e por que no podia romper suas grades invisveis. Se tivesse escapado antes, agora seria duro e spero e teria o corao coberto do p terrenal... Na verdade, no passamos de sombras...". Nas linhas que acabo de transcrever, Hawthorne menciona "milhares e milhares de vises". A cifra talvez no seja uma hiprbole; os doze volumes das obras completas de Hawthorne incluem cento e tantos contos, e estes so apenas uma pequena parte dos muitssimos que ele esboou em seu dirio. (Entre os completos h um "Mr. Higginbothams catastrophe" [A morte repetida] que prefigura o

  • gnero policial que Poe inventaria.) Miss Margaret Fuller, que conviveu com ele na comunidade utpica de Brook Farm, escreveu depois: "Daquele oceano recebemos somente algumas gotas", e Emerson, tambm amigo dele, acreditava que Hawthorne nunca mostrara todo seu valor. Hawthorne casou-se em 1842, ou seja, aos trinta e oito anos; sua vida, at essa data, foi quase puramente imaginativa, mental. Trabalhou na alfndega de Boston, foi cnsul dos Estados Unidos em Liverpool, viveu em Florena, em Roma e em Londres, mas sua realidade foi, sempre, o tnue mundo crepuscular, ou lunar, das imaginaes fantsticas.

    No incio desta aula mencionei a doutrina do psiclogo Jung que equipara as invenes literrias s invenes onricas, a literatura aos sonhos. Essa doutrina no parece aplicvel s literaturas que utilizam a lngua espanhola, clientes do dicionrio e da retrica, no da fantasia. Em contrapartida, adequada s letras da Amrica do Norte. Estas (com as da Inglaterra ou da Alemanha) so mais capazes de inventar que de transcrever, de criar que de observar. Desse trao procede a curiosa venerao que os norte-americanos tributam s obras realistas e que os leva a postular, por exemplo, que Maupassant mais importante que Hugo. A razo disso que para um escritor norte-americano possvel ser Hugo, mas no, sem violncia, ser Maupassant. Comparada dos Estados Unidos, que j deu vrios homens de gnio e que influiu na da Inglaterra e na da Frana, nossa literatura argentina corre o risco de parecer um tanto provinciana; entretanto, no sculo XIX, ela produziu algumas pginas de realismo algumas admirveis crueldades de Echeverra, de Ascasubi, de Hernndez, do ignorado Eduardo Gutirrez que, at agora, os norte-americanos no superaram (talvez nem tenham igualado). Faulkner, alegaro, no menos brutal que nossos gauchescos. Sei bem que ele o , mas de um modo alucinatrio. De um modo infernal, no terrestre. Do modo dos sonhos, do modo inaugurado por Hawthorne.

    Este morreu em dezoito de maio de 1864, nas montanhas de New Hampshire. Sua morte foi tranqila e foi misteriosa, pois aconteceu durante o sono. Nada nos impede de imaginar que ele morreu sonhando, e at podemos inventar a histria que ele sonhava a ltima de uma srie infinita e de que maneira foi coroada ou apagada pela morte. Quem sabe, um dia, eu ainda a escreva e tente resgatar, com um conto aceitvel, esta deficiente e por demais digressiva lio.

    Van Wyck Brooks, em The Flowering of New England, D. H. Lawrence, em Studies in Classic American Literature, e Ludwig Lewisohn, em The Story of American Literature, analisam e julgam a obra de Hawthorne. Existem muitas biografias. Eu trabalhei com a que Henry James escreveu em 1879 para a srie English Men of Letters, de Morley.

  • Morto Hawthorne, os demais escritores herdaram sua tarefa de sonhar. Na prxima aula estudaremos, se a indulgncia de vocs tolerar, a glria e os tormentos de Poe, em quem o sonho exaltou-se em pesadelo.

  • VALRY COMO SMBOLO

    Aproximar o nome de Whitman ao de Paul Valry , primeira vista, uma operao arbitrria e (o que pior) inepta. Valry smbolo de infinitas destrezas, mas tambm de infinitos escrpulos; Whitman, de uma quase incoerente mas titnica vocao para a felicidade; Valry personifica ilustremente os labirintos do esprito; Whitman, as interjeies do corpo. Valry smbolo da Europa e de seu delicado crepsculo; Whitman, da manh na Amrica. O orbe inteiro da literatura parece no admitir duas aplicaes mais antagnicas da palavra poeta. Um fato, entretanto, une-os: a obra dos dois menos preciosa como poesia que como signo de um poeta exemplar, criado por essa obra. Assim, o poeta ingls Lascelles Abercrombie pde exaltar Whitman por ter criado, "da riqueza de sua nobre experincia, essa figura vvida e pessoal que uma das poucas coisas realmente grandes da poesia de nosso tempo: a figura dele mesmo". A sentena vaga e superlativa, mas tem a singular virtude de no identificar Whitman, homem de letras e devoto de Tennyson, com Whitman, heri semidivino de Leaves of Grass. A distino vlida; Whitman redigiu suas rapsdias em funo de um eu imaginrio, feito em parte dele mesmo, em parte de cada um de seus leitores. Da as discrepncias que tm exasperado a crtica; da seu costume de datar os poemas em territrios que ele nunca conheceu; da que, em tal pgina de sua obra, ele tenha nascido nos estados do Sul e, em outra (tambm na realidade), em Long Island.

    Um dos propsitos das composies de Whitman definir um homem possvel Walt Whitman de ilimitada e negligente felicidade; no menos hiperblico, no menos ilusrio, o homem definido pelas composies de Valry. Este no magnifica, como aquele, as capacidades humanas da filantropia, do fervor e da ventura; magnifica as virtudes mentais. Valry criou Edmond Teste; esse personagem seria um dos mitos de nosso sculo se todos, intimamente, no o julgssemos um mero Doppelgnger de Valry. Para ns, Valry Edmond Teste. Ou seja, Valry uma derivao do Chevalier Dupin de Edgar Allan Poe e do inconcebvel Deus dos telogos. O que, verossimilmente, no verdade.

    Yeats, Rilke e Eliot escreveram versos mais memorveis que os de Valry; Joyce e Stefan George efetuaram modificaes mais profundas em seu instrumento (talvez o francs seja menos modificvel que o ingls e o alemo); mas por trs da obra desses eminentes artfices no h uma personalidade comparvel de Valry. A circunstncia de que essa personalidade seja, de

  • certo modo, uma projeo da obra no minimiza o fato. Propor lucidez humanidade em uma era baixamente romntica, na melanclica era do nazismo e do materialismo dialtico, dos ugures da seita de Freud e dos comerciantes do surralisme, a benemrita misso que desempenhou (que continua desempenhando) Valry.

    Paul Valry deixa-nos, ao morrer, o smbolo de um homem infinitamente sensvel a todo fato e para quem todo fato um estmulo capaz de suscitar uma infinita srie de pensamentos. De um homem que transcende os traos diferenciais do eu e de quem podemos dizer, como William Hazlitt, de Shakespeare: "He is nothing in himself". De um homem cujos admirveis textos no esgotam, nem sequer definem, suas omnmodas possibilidades. De um homem que, em um sculo que adora os caticos dolos do sangue, da terra e da paixo, preferiu sempre os lcidos prazeres do pensamento e as secretas aventuras da ordem.

    Buenos Aires, 1945.

  • O ENIGMA DE EDWARD FITZGERALD

    Um homem, Umar Ibn Ibrahim, nasce na Prsia, no sculo XI da era crist (esse sculo foi para ele o quinto da Hgira), e aprende o Alcoro e as tradies com Hassan Ibn al-Sabbah, futuro fundador da seita dos Hashishin, ou Assassinos, e com Nizam al-Mulk, que ser vizir de Alp Arslan, o conquistador do Cucaso. Os trs amigos, meio brincando, meio a srio, juram que, se um dia a fortuna houver por bem favorecer um deles, o agraciado no se esquecer dos outros dois. Anos mais tarde, Nizam chega dignidade de vizir: Umar pede-lhe apenas um recanto sombra de sua ventura, para rezar pela prosperidade do amigo e meditar nas matemticas. (Hassan pede e obtm um cargo elevado e, por fim, manda apunhalar o vizir.) Umar recebe do tesouro de Nishapur uma penso anual de dez mil dinares e pode consagrar-se ao estudo. Descr da astrologia judiciria, mas cultiva a astronomia, colabora na reforma do calendrio promovida pelo sulto e compe um famoso tratado de lgebra, que oferece solues numricas para as equaes de primeiro e segundo graus e geomtricas, mediante a interseco de cnicas, para as de terceiro. Os arcanos do nmero e dos astros no esgotam sua ateno; l, na solido de sua biblioteca, os textos de Plotino, que no vocabulrio do Isl o Plato Egpcio ou o Mestre Grego, e as cinqenta e tantas epstolas da hertica e mstica Enciclopdia dos Irmos da Pureza, na qual se argumenta que o universo uma emanao da Unidade, e retornar Unidade... Dizem-no proslito de Alfarabi, que entendeu que as formas universais no existem fora das coisas, e de Avicena, que ensinou que o mundo eterno. Certa crnica diz que ele acredita, ou faz de conta que acredita, nas transmigraes da alma de corpo humano a corpo bestial e que uma vez falou com um asno como Pitgoras falara com um co. ateu, mas sabe interpretar de modo ortodoxo as mais difceis passagens do Alcoro, porque todo homem culto um telogo, e para s-lo no indispensvel ter f. Nos intervalos da astronomia, da lgebra e da apologtica, Umar Ibn Ibrahim al-Khayyami lavra composies de quatro versos, dos quais o primeiro, o segundo e o ltimo rimam entre si; o manuscrito mais copioso atribui-lhe quinhentas dessas quadras, nmero exguo que ser desfavorvel a sua glria, pois na Prsia (como na Espanha de Lope e de Caldern) o poeta deve ser fecundo. No ano 517 da Hgira, Umar est lendo um tratado cujo ttulo O Uno e os Mltiplos; um mal-estar ou uma premonio o interrompe. Levanta-se, assinala a pgina que seus olhos no voltaro a ver e reconcilia-se com Deus, com aquele Deus que talvez exista e cujo favor ele implorou nas rduas pginas de sua lgebra. Morre nesse mesmo

  • dia, hora do pr-do-sol. Por esses anos, em uma ilha ocidental e boreal que os cartgrafos do Isl desconhecem, um rei saxo que derrotou um rei da Noruega derrotado por um duque normando.

    Sete sculos se passam, com suas luzes, agonias e mutaes, e na Inglaterra nasce um homem, FitzGerald, menos intelectual que Umar, porm talvez mais sensvel e mais triste. FitzGerald sabe que seu verdadeiro destino a literatura e a ensaia com indolncia e tenacidade. L e rel o Quixote, que quase lhe parece o melhor de todos os livros (mas no quer ser injusto com Shakespeare e com seu dear old Virgil), e seu amor estende-se ao dicionrio em que procura as palavras. Entende que, se os astros forem propcios, todo homem cuja alma encerre um mnimo de msica pode versificar dez ou doze vezes no curso natural de sua vida, mas resolve no abusar desse mdico privilgio. amigo de pessoas ilustres (Tennyson, Carlyle, Dickens, Thackeray), s quais no se sente inferior, a despeito de sua modstia e cortesia. Publicou um dilogo decorosamente escrito, Euphranor, e medocres verses de Caldern e dos grandes trgicos gregos. Do estudo do espanhol passou ao estudo do persa e comeou uma traduo de Mantiq al-Tayr, a epopia mstica dos pssaros que procuram seu rei, o Simurg, e finalmente arribam a seu palcio, que fica alm dos sete mares, e descobrem que eles so o Simurg e que o Simurg todos e cada um deles. Por volta de 1854, algum lhe empresta uma coleo manuscrita das composies de Umar, feita sem outra lei afora a ordem alfabtica das rimas; FitzGerald verte uma para o latim e entrev a possibilidade de tecer com elas um livro contnuo e orgnico em cujo princpio estejam as imagens da manh, da rosa e do rouxinol e, no fim, as da noite e da sepultura. A esse propsito improvvel e at inverossmil FitzGerald consagra sua vida de homem indolente, solitrio e manaco. Em 1859 publica a primeira verso do Rubaiyat, seguida de outras, ricas em variaes e escrpulos. Acontece um milagre: da fortuita conjuno de um astrnomo persa que condescendeu poesia e de um ingls excntrico que percorre, talvez sem entend-los por completo, livros orientais e hispnicos, surge um extraordinrio poeta, que no se parece com nenhum dos dois. Swinburne escreve que FitzGerald "deu a Omar Khayyam um lugar perptuo entre os maiores poetas da Inglaterra", e Chesterton, sensvel ao que h de romntico e de clssico nesse livro sem par, observa que ao mesmo tempo h nele "uma melodia que escapa e uma inscrio que dura". Alguns crticos entendem que o Omar de FitzGerald , de fato, um poema ingls com referncias persas; FitzGerald interpolou, afinou e inventou, mas seus Rubaiyat parecem exigir que os leiamos como persas e antigos.

    O caso convida a conjeturas de ndole metafsica. Umar professou (sabemos) a doutrina platnica e pitagrica do trnsito da alma por muitos corpos; passados os sculos, a dele talvez tenha reencarnado na Inglaterra para

  • cumprir, em um longnquo idioma germnico entremeado de latim, o destino literrio que em Nishapur as matemticas reprimiram. Isaac Luria, o Leo, ensinou que a alma de um morto pode entrar em uma alma desventurada para apoi-la ou instru-la; talvez a alma de Umar tenha-se hospedado, por volta de 1857, na de FitzGerald. No Rubaiyat l-se que a histria universal um espetculo que Deus concebe, representa e contempla; essa especulao (cujo nome tcnico pantesmo) permitiria pensar que o ingls pde recriar o persa porque ambos eram, essencialmente, Deus ou faces momentneas de Deus. Mais verossmil e no menos maravilhosa que tais conjeturas de ndole sobrenatural a suposio do acaso benfico. As nuvens por momentos configuram formas de montanhas ou lees; analogamente, a tristeza de Edward FitzGerald e um manuscrito de letras purpreas sobre papel amarelo, esquecido em uma estante da Bodeliana de Oxford, configuraram, para nossa felicidade, o poema.

    Toda colaborao misteriosa. Esta, entre o ingls e o persa, mais do que nenhuma, porque os dois eram muito diferentes e provvel que em vida no tivessem entabulado amizade, e a morte, as vicissitudes e o tempo fizeram com que um soubesse do outro e fossem um nico poeta.

  • SOBRE OSCAR WILDE

    Mencionar o nome de Oscar Wilde mencionar um dandy que tambm foi poeta, evocar a imagem de um cavalheiro dedicado ao pobre propsito de causar assombro com gravatas e metforas. Tambm evocar a noo da arte como um jogo seleto ou secreto maneira da tapearia de Hugh Vereker e de Stefan George e do poeta como laborioso monstrorum artifex (Plnio, XXVIII, 2). E evocar o exangue crepsculo do sculo XIX e essa opressiva pompa de hibernculo ou de baile de mscaras. Nenhuma dessas evocaes falsa, mas todas correspondem, afirmo, a verdades parciais e contradizem fatos notrios, ou descuidam deles.

    Consideremos, por exemplo, a noo de que Wilde foi uma espcie de simbolista. Ela se apia em um cmulo de circunstncias: em torno de 1881, Wilde dirigiu os estetas e, dez anos mais tarde, os decadentes; Rebeca West perfidamente o acusa (Henry James, III) de impor "o selo da classe mdia" ltima dessas seitas; o vocabulrio do poema "The sphinx" estudiosamente magnfico; Wilde foi amigo de Schwob e de Mallarm. refutada por um fato capital: em verso ou em prosa, a sintaxe de Wilde sempre simplssima. Dentre os muitos escritores britnicos, nenhum to acessvel aos estrangeiros. Leitores incapazes de decifrar um pargrafo de Kipling ou uma estrofe de William Morris lem Lady Windermeres Fan em uma mesma tarde. A mtrica de Wilde espontnea, ou tenta parecer espontnea; sua obra no encerra um nico verso experimental, como este duro e sbio alexandrino de Lionel Johnson: "Alone with Christ, desolate else, left by mankind".

    A insignificncia tcnica de Wilde pode ser um argumento em prol de sua grandeza intrnseca. Se a obra de Wilde correspondesse natureza de sua fama, conteria meros artifcios como os de Les Palais Nomades ou Los Crepsculos del Jardn. A obra de Wilde povoada desses artifcios basta lembrar o dcimo primeiro captulo de Dorian Gray, ou The Harlots House, ou Symphony in Yellow , mas sua ndole adjetiva notria. Wilde pode prescindir desses purple patches (retalhos de prpura), expresso a ele atribuda por Ricketts e Hesketh Pearson, mas que j aparece no exrdio da Epstola aos Pises. Essa atribuio confirma o hbito de vincular ao nome de Wilde a noo de passagens decorativas.

    Lendo e relendo Wilde ao longo dos anos, percebo algo que seus panegiristas parecem no ter sequer suspeitado: o fato constatvel e elementar de que Wilde, quase sempre, tem razo. The Soul of Man under Socialism no apenas eloqente; tambm justo. As notas miscelneas que ele prodigalizou

  • na Pall Mall Gazette e no Speaker so fartas de perspcuas observaes que excedem as melhores possibilidades de Leslie Stephen ou Saintsbury. Wilde foi acusado de exercer uma sorte de arte combinatria, ao estilo de Ramn Llull; isso talvez seja aplicvel a alguma de suas boutades ("um desses rostos britnicos que, vistos uma vez, sempre se esquecem"), mas no a sentenas como a de que a msica nos revela um passado desconhecido e talvez real (The Critic as Artist), ou aquela de que todos os homens matam aquilo que amam (The Ballad of Reading Gaol), ou aquela outra de que se arrepender de um ato alterar o passado (De Profundis), ou aquela,1 no indigna de Lon Bloy ou de Swedenborg, de que no h homem que no seja, a cada instante, aquilo que foi e que ser (ibidem). No transcrevo essas linhas para a venerao do leitor; alego-as como indcio de uma mentalidade muito diversa daquela que, em geral, se atribui a Wilde. Este, se no me engano, foi muito mais que um Moras irlands; foi um homem do sculo XVIII, que chegou a condescender com os jogos do simbolismo. Como Gibbon, como Johnson, como Voltaire, foi um homem engenhoso que, ainda por cima, tinha razo. Foi, "em suma, para dizer de uma vez as palavras fatais, um clssico".2 Deu ao sculo o que o sculo exigia comdies larmoyantes para muitos e arabescos verbais para poucos e executou coisas to dspares com uma sorte de negligente felicidade. Foi prejudicado pela perfeio; sua obra to harmoniosa que pode parecer inevitvel e at banal. Custa-nos imaginar o universo sem os epigramas de Wilde; essa dificuldade no os faz menos plausveis.

    Uma observao margem. O nome de Oscar Wilde associado s cidades da plancie; sua glria, ao julgamento e priso. Contudo (Hesketh Pearson sentiu-o muito bem), o sabor fundamental de sua obra a felicidade. Ao contrrio de Chesterton, tido como modelo de sade fsica e moral, mas cuja valorosa obra sempre est a ponto de se converter em pesadelo. Nela espreitam o diablico e o horror; pode, na pgina mais incua, assumir as formas do espanto. Chesterton um homem que quer recuperar a infncia; Wilde, um homem que conserva, em que pese aos hbitos do mal e ao infortnio, uma invulnervel inocncia.

    Como Chesterton, como Lang, como Boswell, Wilde daqueles afortunados que podem prescindir da aprovao da crtica e at, s vezes, da aprovao do leitor, pois o prazer que seu trato nos proporciona irresistvel e constante.

    1 Cf. a curiosa tese de Leibniz, que tanto escandalizou Arnauld: "A noo de cada indivduo encerra a

    priori todos os fatos que a este ho de ocorrer". Segundo esse fatalismo dialtico, o fato de Alexandre, o Grande, morrer na Babilnia uma qualidade desse rei, como a soberba.

    2 A sentena de Reyes, que a aplica ao homem mexicano (Reloj de Sol, p. 158).

  • SOBRE CHESTERTON

    Because He does not take away The terror from the tree...

    CHESTERTON: A Second Childhood.

    Edgar Allan Poe escreveu contos de puro horror fantstico ou de pura bizarrerie; Edgar Allan Poe foi o inventor do conto policial. Isso no menos certo que o fato de ele no ter combinado os dois gneros. No imps ao cavalheiro Augusto Dupin a tarefa de precisar o antigo crime do Homem das Multides ou de explicar a apario que fulminou o mascarado prncipe Prspero na cmara negra e escarlate. Chesterton, ao contrrio, prodigalizou com paixo e felicidade esses tours de force. Cada um dos textos da Saga do padre Brown apresenta um mistrio, prope explicaes de tipo demonaco ou mgico para, no fim, substitu-las por outras que so deste mundo. A mestria no esgota a virtude dessas breves fices; nelas creio notar uma cifra da histria de Chesterton, um smbolo ou espelho de Chesterton. A repetio de seu esquema ao longo dos anos e dos livros (The Man Who Knew Too Much, The Poet and the Lunatics, The Paradoxes of Mr. Pond) parece confirmar que se trata de uma forma essencial, no de artifcio retrico. Estes apontamentos so uma tentativa de interpretar essa forma.

    Antes, convm reconsiderar alguns fatos de excessiva notoriedade. Chesterton foi catlico, Chesterton acreditou na Idade Mdia dos pr-rafaelistas ("Of London, small and white, and clean), Chesterton pensou, como Whitman, que o mero fato de ser to prodigioso que nenhuma desventura deve eximir-nos de uma espcie de cmica gratido. Tais crenas podem ser justas, mas o interesse que despertam limitado; supor que elas esgotam Chesterton esquecer que um credo o ltimo termo de uma srie de processos mentais e emocionais e que o homem toda a srie. Neste pas, os catlicos exaltam Chesterton, os livre-pensadores o negam. Como todo escritor que professa um credo, Chesterton julgado por causa disso, reprovado ou

  • aclamado por isso. Seu caso semelhante ao de Kipling, que as pessoas sempre julgam em funo do Imprio Britnico.

    Poe e Baudelaire, assim como o Urizen atormentado de Blake, propuseram-se criar um mundo de espanto; natural que sua obra seja frtil em formas do terror. Creio que Chesterton no teria tolerado a imputao de ser um urdidor de pesadelos, um monstrorum artifex (Plnio, XXVIII, 2), mas ele indefectivelmente incorre em freqentes imagens atrozes. Pergunta se porventura um homem tem trs olhos, ou um pssaro trs asas; fala, contra os pantestas, de um morto que descobre no Paraso que os espritos dos coros angelicais tm sempre seu prprio rosto;1 fala de uma priso de espelhos; fala de um labirinto sem centro; fala de um homem devorado por autmatos de metal; fala de uma rvore que devora os pssaros e que, em vez de folhas, d penas; imagina (The Man Who Was Thursday, VI) que nos confins orientais do mundo talvez exista uma rvore que j mais, e menos, que uma rvore, e, nos ocidentais, algo, uma torre, cuja arquitetura, por si s, malvada. Define o prximo pelo distante, e at pelo atroz; se fala dos prprios olhos, nomeia-os com palavras de Ezequiel (1, 22), "um terrvel cristal"; se da noite, aperfeioa um antigo horror (Apocalipse 4, 6) para cham-la "um monstro feito de olhos". No menos ilustrativa a narrao How I Found the Superman. Chesterton fala com os pais do Super-Homem; perguntados sobre a beleza do filho, que no sai de um quarto escuro, estes lembram-lhe que o Super-Homem cria seu prprio cnone e por ele deve ser medido ("Nesse plano, ele mais belo que Apolo. Visto de nosso plano inferior, claro que..."); depois admitem que no nada fcil estreitar sua mo ("O senhor sabe; a estrutura muito outra"); depois so incapazes de precisar se ele tem cabelo ou penas. Morre vtima de uma corrente de ar, e alguns homens retiram um atade que no tem forma humana. Chesterton relata essa fantasia teratolgica em tom de zombaria.

    Tais exemplos, que seria fcil multiplicar, provam que Chesterton se defendeu de ser Edgar Allan Poe ou Franz Kafka, mas que algo no barro de seu eu propendia ao pesadelo, algo secreto, cego e central. No por acaso ele dedicou suas primeiras obras defesa de dois grandes artfices gticos: Browning e Dickens; no por acaso repetiu que o melhor livro sado da Alemanha era o dos contos de Grimm. Denegriu Ibsen e defendeu (talvez indefensavelmente) Rostand, mas os Trolls e o Fundidor de Peer Gynt eram da mesma matria de seus sonhos, "the stuff his dreams were made of". Esse desacordo, essa precria sujeio de uma vontade demonaca definem a

    1 Amplificando um pensamento de Attar ("Em toda a parte s vemos Teu rosto"), Djalal al-Din Rumi

    comps alguns versos, depois traduzidos por Rckert (Werke, IV, 222), em que se diz que nos cus, no mar e nos sonhos h Um S e em que se louva esse nico por ter reduzido unidade os quatro briosos animais que puxam a carruagem dos mundos: a terra, o fogo, o ar e a gua.

  • natureza de Chesterton. Emblemas dessa guerra so, para mim, as aventuras do padre Brown, cada uma das quais pretende explicar, mediante a pura razo, um fato inexplicvel.2 Por isso afirmei, no pargrafo inicial desta nota, que as fices de Chesterton eram cifras de sua histria, smbolos e espelhos de Chesterton. Isso tudo, com a ressalva de que a "razo" qual Chesterton subordinou suas imaginaes no era exatamente a razo, mas a f catlica, ou seja, um conjunto de imaginaes hebrias subordinadas a Plato e a Aristteles.

    Recordo duas parbolas opostas. A primeira consta no primeiro volume das obras de Kafka. E a histria do homem que pede para ter acesso lei. O guardio da primeira porta responde que dentro h muitas outras3 e que no h sala que no esteja custodiada por um guardio, cada qual mais forte que o anterior. O homem senta-se para esperar. Passam-se os dias e os anos, at que ele morre. Em sua agonia, pergunta: "Ser possvel que nos anos desta minha espera ningum alm de mim tenha querido entrar?". O guardio responde: "Ningum quis entrar porque s a ti se destinava esta porta. Agora vou fech-la". (Kafka comenta essa parbola, complicando-a ainda mais, no nono captulo de O Processo.) A outra parbola consta no Pilgrims Progress, de Bunyan. As pessoas olham com cobia um castelo defendido por muitos guerreiros; junto porta h um guardio com um livro para registrar o nome de quem for digno de entrar. Um homem intrpido achega-se ao guardio e diz: "Anote meu nome, senhor". Depois tira sua espada e arremete contra os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas, at abrir passagem em meio ao fragor e entrar no castelo.

    Chesterton dedicou a vida a escrever a segunda parbola, mas algo nele sempre tendeu a escrever a primeira.

    2 No a explicao do inexplicvel, e sim do confuso a tarefa que, em geral, os autores de romances

    policiais se impem.

    3 A noo de portas atrs de portas, que se interpem entre o pecador e a glria, aparece no Zohar. Ver

    Glatzer: In Time and Eternity, 3O; tambm Martin Buber: Tales of the Hasidim, 92.

  • O PRIMEIRO WELLS

    Harris conta que Oscar Wilde, perguntado acerca de Wells, respondeu: E um Jlio Verne cientfico.

    O parecer de 1899; percebe-se que Wilde pensou menos em definir Wells, ou em aniquil-lo, que em mudar de assunto; H. G. Wells e Jlio Verne so, agora, nomes incompatveis. Todos o sentimos assim, mas o exame das intrincadas razes nas quais nosso sentimento se baseia pode no ser intil.

    A mais notria dessas razes de ordem tcnica. Wells (antes de resignar-se a especulador sociolgico) foi um admirvel narrador, um herdeiro das brevidades de Swift e de Edgar Allan Poe; Verne, um trabalhador esforado e risonho. Verne escreveu para adolescentes; Wells, para todas as idades do homem. H outra diferena, j apontada em algum momento pelo prprio Wells: as fices de Verne transitam em coisas provveis (um navio submarino, um navio mais extenso que os de 1872, a descoberta do Plo Sul, a fotografia falante, a travessia da frica em balo, as crateras de um vulco extinto que levam ao centro da terra); as de Wells, em meras possibilidades (um homem invisvel, uma flor que devora um homem, um ovo de cristal que reflete os acontecimentos de Marte), quando no em coisas impossveis: um homem que volta do porvir com uma flor futura; um homem que volta de outra vida com o corao direita, porque foi inteiramente invertido, como em um espelho. Em algum lugar li que Verne, escandalizado com as licenas que The First Men in the Moon se permite, disse com indignao: "Il invente!".

    As razes que acabo de citar parecem-me vlidas, mas no explicam por que Wells infinitamente superior ao autor de Hctor Servadac, assim como a Rosney, a Lytton, a Robert Paltock, a Cyrano ou a qualquer outro precursor de seus mtodos.1 A maior felicidade de seus argumentos no basta para elucidar a questo. Em livros no muito breves, o argumento no pode ser mais que um pretexto, ou um ponto de partida. importante para a execuo da obra, no

    1 Wells, em The Outline of History (1931), exalta a obra de outros dois precursores: Francis Bacon e

    Luciano de Samsata.

  • para o prazer da leitura. Isso pode ser observado em todos os gneros; os melhores romances policiais no so os de melhor argumento. (Se os argumentos fossem tudo, no existiria o Quixote e Shaw valeria menos que ONeill.) Em minha opinio, a precedncia dos primeiros romances de Wells The Island of Dr. Moreau, por exemplo, ou The Invisible Man deve-se a uma razo mais profunda. O que eles narram no apenas engenhoso; tambm simblico de processos que de algum modo so inerentes a todos os destinos humanos. O acossado homem invisvel que obrigado a dormir como se estivesse de olhos abertos, porque suas plpebras no vedam a luz, espelha nossa solido e nosso terror; o concilibulo de monstros sentados que em sua noite fanhoseiam um credo servil o Vaticano e Lhassa. A obra que perdura sempre capaz de uma infinita e plstica ambigidade; tudo para todos, como o Apstolo; um espelho que delata os traos do leitor e tambm um mapa do mundo. Alm do mais, tudo deve ocorrer de modo evanescente e modesto, quase a despeito do autor; este deve parecer ignorante de todo simbolismo. Com essa lcida inocncia Wells procedeu em seus primeiros exerccios fantsticos, que so, em meu entender, o mais admirvel de sua obra admirvel.

    Aqueles que dizem que a arte no deve propagar doutrinas costumam referir-se s doutrinas contrrias s suas. Evidentemente, esse no o meu caso; agradeo e professo quase todas as doutrinas de Wells, mas deploro que ele as tenha intercalado em suas narraes. Bom herdeiro dos nominalistas britnicos, Wells reprova nosso costume de falar da tenacidade da "Inglaterra" ou das maquinaes da "Prssia"; os argumentos contra essa mitologia prejudicial parecem-me incontestveis, mas no a circunstncia de inseri-los no relato do sonho do senhor Parham. Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traar os tnues desvios de uma conscincia, podemos consider-lo onisciente, podemos confundi-lo com o universo ou com Deus; assim que ele se rebaixa a arrazoar, sabemos que falvel. A realidade atua por meio de fatos, no de arrazoados; toleramos que Deus afirme (xodo 3, 14) "Eu Sou Aquele que Sou", mas no que declare e analise, como Hegel ou Anselmo, o argumentum ontologicum. Deus no deve teologizar; o escritor no deve invalidar com razes humanas a momentnea f que a arte exige de ns. H outro motivo: o autor que mostra averso por um personagem parece no entend-lo por completo, parece confessar que este no inevitvel para ele. Duvidamos de sua inteligncia, como duvidaramos da inteligncia de um Deus que mantivesse cus e infernos. Deus, escreveu Spinoza (tica, 5, 17), no odeia ningum nem ama ningum.

    Como Quevedo, como Voltaire, como Goethe, como mais algum outro, Wells menos um literato que uma literatura. Escreveu livros loquazes nos quais de certo modo ressurge a gigantesca felicidade de Charles Dickens,

  • prodigou parbolas sociolgicas, construiu enciclopdias, ampliou as possibilidades do romance, reescreveu para nosso tempo o Livro de J, "essa grande imitao hebria do dilogo platnico", redigiu sem soberba nem humildade uma autobiografia gratssima, combateu o comunismo, o nazismo e o cristianismo, polemizou (corts e mortalmente) com Belloc, historiou o passado, historiou o futuro, registrou vidas reais e imaginrias. Da vasta e diversa biblioteca que ele nos deixou, nada me agrada mais que seu relato de alguns milagres atrozes: The Time Machine, The Island of Dr. Moreau, The Plattner Story, The First Men in the Moon. So os primeiros livros que eu li; talvez sejam os ltimos... Penso que havero de incorporar-se, como a frmula de Teseu ou a de Ahasverus, memria geral da espcie e que em seu seio se multiplicaro, para alm dos limites da glria de quem os escreveu, para alm da morte do idioma em que foram escritos.

  • O BIATHANATOS

    Devo a De Quincey (com quem minha dvida to vasta que especificar uma parte parece negar ou calar as outras) minha primeira informao sobre o Biathanatos. Esse tratado foi composto no incio do sculo XVII pelo grande poeta John Donne,1 que deixou o manuscrito a Sir Robert Carr, sem nenhuma proibio exceto a de d-lo " estampa ou ao fogo". Donne morreu em 1631; em 1642 eclodiu a guerra civil; em 1644, o filho primognito do poeta deu o velho manuscrito estampa, "para defend-lo do fogo". O Biathanatos tem por volta de duzentas pginas, que De Quincey (Writings, VIII, 336) resume assim: o suicdio uma das formas do homicdio; os canonistas distinguem o homicdio voluntrio do homicdio justificvel; segundo a boa lgica, essa distino tambm deveria ser aplicvel ao suicdio. Assim como nem todo homicida um assassino, nem todo suicida culpado de pecado mortal. De fato, essa a tese aparente do Biathanatos, que declarada no subttulo (The Self-homicide is not so naturally Sin that it may never be otherwise) e ilustrada, ou sobrecarregada, por um douto catlogo de exemplos fabulosos ou autnticos, de Homero,2 "que mil coisas escreveu que ningum alm dele entendeu e de quem dizem que se enforcou por no ter entendido a adivinha dos pescadores", at o pelicano, smbolo do amor paternal, e as abelhas, que, segundo consta no Hexameron de Ambrsio, "matam-se quando infringem as leis de seu rei". Trs pginas ocupa o catlogo, e nelas pude notar esta vaidade: a incluso de exemplos obscuros ("Festo, favorito de Domiciano, que se matou para ocultar os estragos de uma doena de pele"), a omisso de outros de virtude persuasiva Sneca, Temstocles, Cato , que poderiam parecer fceis demais.

    Epicteto ("Lembra-te do essencial: a porta est aberta") e Schopenhauer ("Seria o monlogo de Hamlet a reflexo de um criminoso?") vindicaram o suicdio em abundantes pginas; a prvia certeza de que esses defensores tm

    1 De que ele realmente foi um grande poeta so prova estes versos:

    Licence my roving hands and let them go Before, behind, between, above, below. O my America! my new-found-land...

    (Elegies, XIX)

    2 Cf. o epigrama sepulcral de Alceu de Messena (Antologia Grega, VII, 1).

  • razo faz com que os leiamos com negligncia. Foi o que me aconteceu com o Biathanatos at que percebi, ou julguei perceber, um argumento implcito ou esotrico sob o argumento notrio.

    Nunca saberemos se Donne escreveu o Biathanatos com o deliberado fim de insinuar esse oculto argumento ou se uma anteviso desse argumento, mesmo que momentnea ou crepuscular, chamou-o tarefa. Isto me parece mais verossmil; a hiptese de um livro que para dizer A diz B, maneira de um criptograma, artificial, mas no a de um trabalho animado por uma intuio imperfeita. Hugh Fausset sugeriu que Donne pensava coroar sua vindicao do suicdio com o prprio suicdio; que Donne tenha aventado essa idia possvel ou provvel; que ela seja suficiente para explicar o Biathanatos , naturalmente, ridculo.

    Donne, na terceira parte do Biathanatos, examina as mortes voluntrias relatadas nas Escrituras; a nenhuma dedica tantas pginas como de Sanso. Comea por estabelecer que esse "homem exemplar" emblema de Cristo e que parece ter servido aos gregos como arqutipo de Hrcules. Francisco de Vitoria e o jesuta Gregorio de Valencia negaram-se a inclu-lo entre os suicidas; Donne, para refut-los, transcreve as ltimas palavras que ele teria dito antes de cumprir sua vingana: "Morra eu com os filisteus" (Juzes 16, 30). Tambm recusa a conjetura de Santo Agostinho, que afirma que Sanso, ao derrubar os pilares do templo, no foi culpado pelas mortes alheias nem pela prpria, e sim que obedeceu a uma inspirao do Esprito Santo, "como a espada que dirige seus gumes pela disposio de quem a empunha" (A Cidade de Deus, I, 20). Donne, depois de provar que essa conjetura gratuita, encerra o captulo com uma sentena de Benito Pereiro, que diz que Sanso, no menos em sua morte que em outros atos, foi smbolo de Cristo.

    Invertendo a tese agostiniana, os quietistas acreditaram que Sanso, "por violncia do demnio, matou-se juntamente com os filisteus" (Heterodoxos Espaoles, V, 1, 8); Milton (Samson Agonistes, in fine) defendeu-o da acusao de suicdio; Donne, suspeito, viu nesse problema casustico apenas uma sorte de metfora ou simulacro. No lhe interessava o caso de Sanso e por que haveria de interessar-lhe? ou s lhe interessava, digamos, como "emblema de Cristo". No h no Antigo Testamento heri que no tenha sido alado a essa dignidade; para So Paulo, Ado imagem daquele que viria; para Santo Agostinho, Abel representa a morte do Salvador, e seu irmo Seth, a ressurreio; para Quevedo, "prodigioso esboo foi J de Cristo". Donne incorreu nessa analogia trivial para que seu leitor entendesse: "O anterior, dito de Sanso, bem pode ser falso; no o , dito de Cristo".

    O captulo que fala diretamente de Cristo no efusivo. Limita-se a evocar duas passagens da Escritura: a frase "dou minha vida pelas ovelhas" (Joo 10, 15) e a curiosa locuo "entregou o esprito", que os quatro

  • evangelistas utilizam para dizer "morreu". Dessas passagens, confirmadas pelo versculo "Ningum tira a vida de mim. Sou eu mesmo que a dou" (Joo 10, 18), infere que o suplcio da cruz no matou Jesus Cristo e que, na verdade, este se matou com uma prodigiosa e voluntria emisso de sua alma. Donne escreveu essa conjetura em 1608; em 1631 incluiu-a em um sermo que proferiu, quase agonizante, na capela do palcio de Whitehall.

    O declarado fim do Biathanatos atenuar o suicdio; o fundamental, indicar que Cristo se suicidou.3 O fato de Donne, para explicitar essa tese, ter-se limitado a um versculo de So Joo e repetio do verbo "expirar" algo inverossmil e at inacreditvel; sem dvida, preferiu no insistir sobre um tema blasfemo. Para o cristo, a vida e a morte de Cristo so o acontecimento central da histria do mundo; os sculos anteriores o prepararam, os seguintes o refletem. Antes de Ado ser moldado do p da terra, antes de o firmamento separar as guas das guas, o Pai j sabia que o Filho haveria de morrer na cruz e, para teatro dessa morte futura, criou a terra e os cus. Cristo morreu de morte voluntria, sugere Donne, e isso quer dizer que os elementos, e o orbe, e as geraes de homens, e Egito, e Roma, e Babilnia, e Jud foram tirados do nada para destru-lo. Talvez o ferro tenha sido criado para os cravos, e os espinhos, para a coroa do escrnio, e o sangue e a gua, para a ferida. Essa idia barroca insinua-se por trs do Biathanatos. A de um deus que constri o universo para construir seu patbulo.

    Ao reler esta nota, penso naquele trgico Philipp Batz, que na histria da filosofia chamado Philipp Mainlnder. Ele foi, como eu, leitor apaixonado de Schopenhauer. Sob sua influncia (e talvez sob a dos gnsticos) imaginou que somos fragmentos de um Deus que, no princpio dos tempos, destruiu a si mesmo, vido de no ser. A histria universal a obscura agonia desses fragmentos. Mainlnder nasceu em 1841; em 1876, publicou seu livro, Filosofia da Redeno. Nesse mesmo ano, ele se matou.

    3 Cf. De Quincey: Writings, VIII, 398; Kant: Religion innerhalb der Grenzen der Vernunft, II, 2.

  • PASCAL

    Meus amigos dizem que os pensamentos de Pascal os fazem pensar. Certamente, no h nada no universo que no sirva de estmulo ao pensamento; quanto a mim, nunca vi nesses memorveis fragmentos uma contribuio para os problemas, ilusrios ou verdadeiros, que abordam. Vi-os, antes, como predicados do sujeito Pascal, como traos ou eptetos de Pascal. Assim como a definio quintessence of dust no nos ajuda a entender os homens, e sim o prncipe Hamlet, a definio roseau pensant no nos ajuda a entender os homens, mas apenas um homem, Pascal.

    Valry, creio, acusa Pascal de uma dramatizao voluntria; o fato que seu livro no projeta a imagem de uma doutrina ou de um procedimento dialtico, e sim de um poeta perdido no tempo e no espao. No tempo, porque, se futuro e passado so infinitos, no haver realmente um quando; no espao, porque, se todo ser eqidista do infinito e do infinitesimal, tampouco haver um onde. Pascal menciona com desdm "a opinio de Coprnico", mas, para ns, sua obra reflete a vertigem de um telogo, desterrado do orbe do Almagesto e extraviado no universo copernicano de Kepler e de Bruno. O mundo de Pascal o de Lucrcio (e tambm o de Spencer), mas a infinidade que embriagou o romano intimida o francs. E bem verdade que este busca Deus e aquele prope-se libertar-nos do temor aos deuses.

    Pascal, dizem, encontrou Deus, mas sua expresso dessa graa menos eloqente que sua expresso da solido. Nesta, ele foi incomparvel; basta lembrar o famoso fragmento 207 da edio de Brunschvicg ("Combien de royaumes nous ignorem!") e aquele outro, subseqente, que fala da "infinita imensido de espaos que ignoro e que me ignoram". No primeiro, a vasta palavra "royaumes" e o desdenhoso verbo final impressionam fisicamente; cheguei a pensar que essa exclamao fosse de origem bblica. Percorri, lembro-me, as Escrituras; no encontrei a passagem que procurava, e que talvez no exista, mas sim seu exato reverso, as palavras trmulas de um homem que se sabe nu at as entranhas sob a vigilncia de Deus. Diz o Apstolo (I Corntios 13, 12): "No presente vemos por espelho e obscuramente; ento veremos face a face. No presente conheo s em parte; ento conhecerei como agora sou conhecido".

    No menos exemplar o caso do fragmento 72. No segundo pargrafo, Pascal afirma que a natureza (o espao) "uma esfera infinita cujo centro est em toda a parte e a circunferncia em nenhuma". Pascal pode ter encontrado essa esfera em Rabelais (111, 13), que a atribui a Hermes Trismegisto, ou no

  • simblico Roman de Ia Rose, que a d como de Plato. Isso pouco importa; o significativo que a metfora que Pascal usa para definir o espao foi empregada por seus predecessores (e por Sir Thomas Browne em Religio Medici) para definir a divindade.1 No a grandeza do Criador, e sim a grandeza da Criao perturba Pascal.

    Este, declarando em palavras incorruptveis a desordem e a misria (on mourra seul), um dos homens mais patticos da histria da Europa; aplicando o clculo de probabilidades s artes apologticas, um dos mais vos e frvolos. No um mstico; inclui-se entre os cristos denunciados por Swedenborg, que supem que o cu um prmio e o h-demo um castigo e que, habituados meditao melanclica, no sabem falar com os anjos.2 Importa-se menos com Deus que com a refutao daqueles que o negam.

    Essa edio3 prope-se reproduzir, mediante um complexo sistema de sinais tipogrficos, o aspecto "inacabado, hspido e confuso" do manuscrito; evidente que tal fim foi alcanado. As notas, em compensao, so pobres. Por exemplo, na pgina 71 do primeiro volume, publica-se um fragmento que desenvolve em sete linhas a conhecida prova cosmolgica de Santo Toms e de Leibniz; o editor no a reconhece e observa: "Aqui Pascal talvez tenha emprestado voz a um incrdulo".

    Ao p de alguns textos, o editor cita passagens congneres de Montaigne ou da Sagrada Escritura; esse trabalho poderia ser ampliado. Para ilustrao do Pari, caberia citar os textos de Arnobio, de Sirmond e de Algazel indicados por Asn Palacios (Huellas del Islam, Madri, 1941); para ilustrao do fragmento contra a pintura, aquela passagem do dcimo livro de A Repblica, onde se diz que Deus cria o arqutipo da mesa, o marceneiro, um simulacro do arqutipo, e o pintor, o simulacro de um simulacro; para ilustrao do fragmento 72 (" Je lui veux peindre limmensit... dans 1enceinte de ce raccourci datome...), sua prefigurao no conceito de microcosmo, sua reapario em Leibniz (Monadologia, 67) e em Hugo (La Chauve-Souris):

    1 Que eu me lembre, a histria no registra deuses cnicos, cbicos ou piramidais, embora registre dolos.

    A forma da esfera, ao contrrio, perfeita e convm divindade (Ccero: De Natura Deorum,11, 17). Esfrico foi Deus para Xenfanes e para o poeta Parmnides. Na opinio de alguns historiadores, Empdocles (fragmento 28) e Melisso conceberam-no como esfera infinita. Orgenes entendeu que os mortos ressuscitaro em forma de esfera; Fechner (Vergleichende Anatomie der Engel) atribuiu essa forma, que a do rgo visual, aos anjos.

    Antes de Pascal, o insigne pantesta Giordano Bruno (Da Causa, V) aplicou a sentena de Trismegisto ao universo material.

    2 De Coelo et Inferno, 535. Para Swedenborg, como para Boehme (Sex Puncta Theosophica, 9, 34), o cu

    e o inferno so estados que o homem busca com liberdade, no um estabelecimento penal e um estabelecimento piedoso. Cf. tambm Bernard Shaw: Man and Superman, III.

    3 A de Zacharie Tourneur (Paris, 1942).

  • Le moindre grain de sable est un globe qui roule Tranant comme la terre une lugubre foule Qui sabhorre et sacharne...

    Demcrito pensou que no infinito h mundos iguais, onde homens iguais cumprem, sem nenhuma variao, destinos iguais; Pascal (que tambm pode ter sido influenciado pelas antigas palavras de Anaxgoras de que tudo est em cada coisa) ps esses mundos idnticos um dentro do outro, de tal sorte que no h tomo no espao que no encerre universo nem universo que no seja tambm um tomo. lgico pensar (embora ele no o tenha dito) que nesses mundos Pascal se viu multiplicado sem fim.

  • O IDIOMA ANALTICO DE JOHN WILKINS

    Acabo de verificar que na dcima quarta edio da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins. Essa omisso justa, se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstncias biogrficas: Wilkins nasceu em 1614, Wilkins morreu em 1672, Wilkins foi capelo de Carlos Lus, prncipe palatino; Wilkins foi nomeado reitor de um dos colgios de Oxford, Wilkins foi o primeiro secretrio da Real Sociedade de Londres, etc.); mas condenvel, se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia, pela criptografia, pela msica, pela confeco de colmias transparentes, pela trajetria de um planeta invisvel, pela possibilidade de uma viagem lua, pela possibilidade e pelos princpios de uma linguagem mundial. A este ltimo problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language (600 pginas in-quarto, 1668). No h exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional; consultei, para redigir esta nota, The Life and Times of John Wilkins (1910), de P A. Wright Henderson; o Wrterbuch der Philosophie (1924), de Fritz Mauthner; Delphos (1935) de E. Sylvia Pankhurst; Dangerous Thoughts (1939), de Lancelot Hogben.

    Todos ns,, em algum momento, j padecemos um desses debates inapelveis em que uma dama, esbanjando interjeies e anacolutos, jura que a palavra "lua" mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon. Afora a evidente observao de que o monosslabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra disslaba "lua", nada se pode acrescentar a tais debates; excetuando as palavras compostas e as derivaes, todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapk de Johann Martin Schleyer e a romntica interlingua de Peano) so igualmente inexpressivos. No h edio da Gramtica de Ia Real Academia de la Lengua Espaola que no pondere "o invejvel tesouro de vocbulos pitorescos, felizes e expressivos da riqussima lngua espanhola", mas trata-se de pura vanglria, sem nenhuma corroborao. Por outro lado, essa mesma Real Academia elabora, a cada tantos anos, um dicionrio que define os vocbulos do espanhol... No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do sculo XVII, cada palavra define-se a si mesma. Descartes, em uma epstola com data de novembro de 1629, j anotara que, mediante o sistema decimal de numerao, possvel aprender em um nico dia a nomear todas as quantidades at o infinito e a escrev-las em um idioma novo, que o dos

  • algarismos,1 ele tambm props a formao de um idioma anlogo, geral, que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. John Wilkins, por volta de 1664, acometeu o intento.

    Dividiu o universo em quarenta categorias ou gneros, subdivisveis em diferenas, por sua vez subdivisveis em espcies. Atribuiu a cada gnero um monosslabo de duas letras; a cada diferena, uma consoante; a cada espcie, uma vogal. Por exemplo: de, quer dizer elemento; deb, o primeiro dos elementos, o fogo; deba, uma poro do elemento fogo, uma chama. No idioma anlogo de Letellier (1850), a quer dizer animal; ab, mamfero; abo, carnvoro; aboj, felino; aboje, gato; abi, herbvoro; abiv, eqino; etc. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845), imaba quer dizer edifcio; imaca, serralho; imafe, hospital; imafo, lazareto; imarri, casa; imaru, chcara; imedo, poste; imede, pilar; imego, piso; imela, teto; imogo, janela; bire, encadernador; birer, encadernar. (Devo este ltimo censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal, do doutor Pedro Mata.)

    As palavras do idioma analtico de John Wilkins no so toscos smbolos arbitrrios; cada uma das letras que as integram significativa, como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. Mauthner observa que as crianas poderiam aprender esse idioma sem saber que artificioso; depois, no colgio, elas descobririam que tambm uma chave universal e uma enciclopdia secreta.

    Definido o procedimento de Wilkins, falta examinar um problema de impossvel ou difcil protelao: o valor da tabela quadragesimal que a base do idioma. Consideremos a oitava categoria, a das pedras. Wilkins divide-as em comuns (pederneira, cascalho, piarra), mdicas (mrmore, mbar, coral), preciosas (prola, opala), transparentes (ametista, safira) e insolveis (hulha, greda e arsnico). Quase to alarmante quanto a oitava a nona categoria. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre, azougue) artificiais (bronze, lato), recrementcios (limalhas, ferrugem) e naturais (ouro, estanho, cobre). A beleza figura na dcima sexta categoria; refere-se a um peixe vivparo, oblongo. Essas ambigidades, redundncias e deficincias lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopdia chinesa intitulada Emprio Celestial de Conhecimentos Benvolos. Em suas remotas pginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leites, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) ces soltos, (h) includos nesta classificao, (i) que se agitam como loucos, (j) inumerveis (k) desenhados com um finssimo pincel de plo de camelo, (l)

    1 Teoricamente, o nmero de sistemas numricos ilimitado. O mais complexo (para uso das divindades

    e dos anjos) registraria um nmero infinito de smbolos, um para cada nmero inteiro, o mais simples requer apenas dois. Zero escreve-se 0, um 1, dois 10, trs 11, quatro 100, cinco 101, seis 110, sete 111, oito 1000... inveno de Leibniz, que se inspirou (parece) nos enigmticos hexagramas do I Ching.

  • etctera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas. O Instituto Bibliogrfico de Bruxelas tambm exerce o caos: parcelou o universo em 1.000 subdivises, correspondendo a 262 ao Papa; a 282 Igreja Catlica Romana; a 263 ao Dia do Senhor; a 268 s escolas dominicais; a 298 ao mormonismo; e a 294 ao bramanismo, budismo, xintosmo e taosmo. No recusa as subdivises heterogneas, Verbi gratia, a 179: "Crueldade com os animais. Proteo dos animais. O duelo e o suicdio do ponto de vista da moral. Vcios e defeitos vrios. Virtudes e qualidades idades vrias.

    Registrei as arbitrariedades do desconhecido (ou apcrifo) enciclopedista chins e do Instituto Bibliogrfico de Bruxelas; notoriamente, no h classificao do universo que no seja arbitrria e conjetural. A razo muito simples: no sabemos o que o universo. "O mundo escreve David Hume talvez seja o rudimentar esboo de algum deus infantil que o abandonou pela metade, envergonhado de sua execuo deficiente; ou a obra de um deus subalterno, alvo de zombaria dos deuses superiores; ou a confusa produo de uma divindade decrpita e aposentada, que j morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion, V, 1779). Pode-se ir alm; pode-se suspeitar que no h universo no sentido orgnico, unificador, que tenha essa ambiciosa palavra. Se houver, falta conjeturar seu propsito; falta conjeturar as palavras, as definies, as etimologias, as sinonmias do secreto dicionrio de Deus.

    A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo no pode, contudo, dissuadir-nos de planejar esquemas humanos, mesmo sabendo que eles so provisrios. O idioma analtico de Wilkins no o menos admirvel desses esquemas. Os gneros e espcies que o compem so contraditrios e imprecisos; o artifcio de as letras das palavras indicarem subdivises e divises , sem dvida, engenhoso. A palavra salmo no nos diz nada; zana, o vocbulo correspondente, define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gneros dessas categorias) um peixe escamoso, fluvial, de carne avermelhada. (Teoricamente, no inconcebvel um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino, passado e vindouro.)

    Esperanas e utopias parte, talvez o que de mais lcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que h na alma matizes mais desconcertantes, mais inumerveis e mais annimos que as cores de um bosque outonal... Cr, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fuses e converses, podem ser representados com preciso por meio de um mecanismo arbitrrio de grunhidos e chiados. Cr que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem rudos que significam todos os mistrios da memria e todas as agonias do desejo" (G. F. Watts, p. 88, 1904).

  • KAFKA E SEUS PRECURSORES

    Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka. De incio, eu o julgara to singular como a fnix das loas retricas; depois de algum convvio, pensei reconhecer sua voz, ou seus hbitos, nos textos de diversas literaturas e de diversas pocas. Registrarei aqui alguns deles, em ordem cronolgica.

    O primeiro o paradoxo de Zeno contra o movimento. Um mvel que se encontra no ponto A (declara Aristteles) no poder chegar ao B, porque antes dever percorrer a metade do percurso entre os dois, e antes, a metade da metade, e antes, a metade da metade da metade, e assim at o infinito; a forma desse ilustre problema , exatamente, a de O Castelo, e o mvel, e a flecha, e Aquiles so os primeiros personagens kafkianos da literatura. No segundo texto que o acaso dos livros me deparou, a afinidade no est na forma, e sim no tom. Trata-se de um aplogo de Han Yu, prosador do sculo IX, e consta na admirvel Anthologie Raisone de la Littrature Chinoise (1948) de Margouli. Este o pargrafo que assinalei, misterioso e tranqilo: "Universalmente admite-se que o unicrnio um ser sobrenatural e de bom agouro; assim o declaram as odes, os anais, as biografias de vares ilustres e outros textos de indiscutvel autoridade. At os prvulos e as mulheres do povo sabem que o unicrnio constitui um pressgio favorvel. Mas esse animal no figura entre os animais domsticos, nem sempre fcil encontr-lo, no se presta a uma classificao. No como o cavalo ou o touro, o lobo ou o cervo. Em tais condies, poderamos estar diante do unicrnio e no saberamos com segurana que se trata dele. Sabemos que tal animal com crina cavalo e que tal animal com chifres touro. No sabemos como o unicrnio".1

    1 O desconhecimento do animal sagrado e sua morte oprobriosa ou casual nas mos do vulgo so temas

    tradicionais da literatura chinesa. Ver o ltimo captulo de Psychologie und Alchemie (Zurique, 1944), de Jung, que traz duas curiosas ilustraes.

  • O terceiro texto procede de uma fonte mais previsvel: os escritos de Kierkegaard. A afinidade mental de ambos os escritores coisa por ningum ignorada; o que no se destacou ainda, que eu saiba, o fato de Kierkegaard, assim como Kafka, ter sido prdigo em parbolas religiosas de tema contemporneo e burgus. Lowrie, em seu Kierkegaard (Oxford University Press, 1938), transcreve duas. Uma a histria de um falsificador que examina, vigiado incessantemente, as cdulas do Banco da Inglaterra; Deus, do mesmo modo, desconfiaria de Kierkegaard e lhe teria encomendado uma misso, justamente por sab-lo afeito ao mal. O sujeito da outra so as expedies ao Plo Norte. Os procos dinamarqueses teriam declarado de seus plpitos que participar de tais expedies convinha sade eterna da alma. Teriam admitido, entretanto, que chegar ao Plo era difcil, talvez impossvel, e que nem todos poderiam empreender a aventura. Por fim, teriam anunciado que, olhando-se bem, qualquer viagem da Dinamarca a Londres, digamos, no vapor de carreira ou um passeio dominical em carro de praa so verdadeiras expedies ao Plo Norte. Quanto quarta prefigurao, encontrei-a no poema "Fears and scruples", de Browning, publicado em 1876. Um homem tem, ou acredita ter, um amigo famoso. Ele nunca o viu, e o fato que, at o momento, o tal amigo no pde ajud-lo, mas dele contam-se gestos muito nobres e circulam cartas autnticas. H quem ponha em dvida os gestos, e os graflogos afirmam a apocrifia das cartas. O homem, no ltimo verso, pergunta: "E se esse amigo for Deus?".

    Minhas notas registram, tambm, dois contos. Um deles pertence s Histoires Dsobligeantes, de Lon Bloy, e relata o caso de algumas pessoas que juntam globos terrestres, atlas, guias ferrovirios e bas e que morrem sem nunca ter conseguido sair de seu povoado natal. O outro intitula-se "Carcassonne" e obra de Lord Dunsany. Um invencvel exrcito de guerreiros parte de um castelo infinito, subjuga reinos, v monstros e fadiga os desertos e as montanhas, mas eles nunca chegam a Carcassonne, embora por vezes a divisem. (Este conto , como se percebe facilmente, o reverso exato do anterior; no primeiro, nunca se sai de uma cidade; no ltimo, no se chega.)

    Se no me engano, os heterogneos textos que enumerei parecem-se a Kafka; se no me engano, nem todos se parecem entre si. Este ltimo fato o mais significativo. Em cada um desses textos, em maior ou menor grau, encontra-se a idiossincrasia de Kafka, mas, se ele no tivesse escrito, no a perceberamos; vale dizer, no existiria. O poema "Fears and scruples", de Robert Browning, profetiza a obra de Kafka, mas nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente nossa leitura do poema. Browning no o lia como agora ns o lemos. No vocabulrio crtico, a palavra precursor indispensvel, mas se deveria tentar purific-la de toda conotao de polmica ou de rivalidade. O fato que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa

  • concepo do passado, como h de modificar o futuro.2 Nessa correlao, no importa a identidade ou a pluralidade dos homens. O primeiro Kafka de Betrachtung menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituies atrozes que Browning ou Lord Dunsany.

    Buenos Aires, 1951.

    2 Ver T S. Eliot: Points of View (1941), p. 25_26.

  • DO CULTO AOS LIVROS

    No oitavo livro da Odissia l-se que os deuses tecem infortnios para que s futuras geraes no falte o que cantar; a declarao de Mallarm: "O mundo existe para chegar a um livro" parece repetir, uns trinta sculos mais tarde, o mesmo conceito de uma justificativa esttica para os males. As duas teleologias, contudo, no so inteiramente coincidentes; a do grego corresponde poca da palavra oral, e a do francs, a uma poca da palavra escrita. Uma fala em cantar, a outra em livros. Um livro, qualquer livro, para ns um objeto sagrado: j Cervantes, que talvez no escutasse tudo o que as pessoas diziam, lia at "os papis rasgados das ruas". O fogo, em uma das comdias de Bernard Shaw, ameaa a biblioteca de Alexandria; algum exclama que a arder a memria da humanidade, e Csar lhe diz: "Deixa que arda. uma memria de infmias". O Csar histrico, em minha opinio, aprovaria ou condenaria o ditame que o autor lhe atribui, mas no o julgaria, como ns, uma piada sacrlega. A razo clara: para os antigos, a palavra escrita no passava de um sucedneo da palavra oral.

    voz corrente que Pitgoras no escreveu; Gomperz (Griechische Denker, 1, 3) defende que ele assim procedeu por ter mais f na virtude da instruo falada. Mais fora que a mera absteno de Pitgoras tem o testemunho inequvoco de Plato. Este, no Timeu, afirmou: " rdua tarefa descobrir o fazedor e pai deste universo, e, uma vez descoberto, impossvel divulg-lo a todos os homens", e, no Fedro, narrou uma fbula egpcia contra a escrita (cujo hbito faz as pessoas descuidarem do exerccio da memria e dependerem de smbolos) e disse que os livros so como as figuras pintadas, "que parecem vivas, mas no respondem uma palavra s perguntas que lhes so feitas". Para atenuar ou eliminar esse inconveniente, ele imaginou o dilogo filosfico. O mestre escolhe o discpulo, mas o livro no escolhe seus leitores, que podem ser malvados ou nscios; esse receio platnico perdura nas palavras de Clemente de Alexandria, homem de cultura pag: "O mais prudente no escrever, e sim aprender e ensinar de viva voz, pois o escrito fica" (Stromateis), e nestas outras, do mesmo tratado: "Escrever todas as coisas em um livro deixar uma espada nas mos de uma criana"; que derivam tambm das evanglicas: "No deis o santo aos ces nem jogueis vossas prolas aos porcos, para que no as pisoteiem e depois se voltem para vos destroar". Essa

  • sentena de Jesus, o maior dos mestres orais, que uma nica vez escreveu palavras na terra e nenhum homem as leu (Joo 8, 6).

    Clemente de Alexandria escreveu seu receio pela escrita em fins do sculo II; em fins do sculo IV iniciou-se o processo mental que, com a passagem de muitas geraes, culminaria no predomnio da palavra escrita sobre a falada, da pena sobre a voz. Um admirvel acaso quis que um escritor registrasse o instante (pouco exagero ao cham-lo instante) em que teve incio o vasto processo. Conta Santo Agostinho, no livro seis das Confisses: "Quando Ambrsio lia, corria os olhos pelas pginas penetrando sua alma no sentido, sem proferir uma palavra nem mover a lngua. Muitas vezes posto que ningum era proibido de entrar, nem vigia o costume de anunciar-lhe quem se achegava , pudemos v-lo ler caladamente e nunca de outro modo, e depois de algum tempo retirvamo-nos, conjeturando que naquele breve intervalo que lhe era concedido para restaurar o esprito, livre do tumulto das questes alheias, no queria que o ocupassem com outra coisa, talvez receoso de que um ouvinte, atento s dificuldades do texto, pedisse explicao de uma passagem obscura ou quisesse com ele discuti-la, com o que no poderia ler tantos volumes como desejava. Eu entendo que ele lia desse modo para preservar a voz, que sumia com facilidade. Em todo o caso que fosse o propsito de tal homem, certamente era bom". Santo Agostinho foi discpulo de Santo Ambrsio, bispo de Milo, por volta do ano 384; treze anos mais tarde, na Numdia, ele redigiria suas Confisses e ainda o inquietaria aquele singular espetculo: um homem em um aposento, com um livro, lendo sem articular as palavras.1

    Aquele homem passava diretamente do signo escrito intuio, omitindo o signo sonoro; a estranha arte que ele iniciava, a arte de ler em voz baixa, resultaria em conseqncias maravilhosas. Resultaria, passados muitos anos, no conceito do livro como fim, no como instrumento de um fim. (Esse conceito mstico, transposto literatura profana, redundaria nos singulares destinos de Flaubert e de Mallarm, de Henry James e de James Joyce.) noo de um Deus que fala com os homens para lhes ordenar ou proibir algo superpe-se a do Livro Absoluto, a de uma Escritura Sagrada. Para os muulmanos, o "Alcoro" (tambm chamado O Livro, Al Kitab) no mera obra de Deus, como a alma dos homens ou o universo; um dos atributos de Deus, como Sua eternidade ou Sua ira. No captulo XIII, lemos que o texto original, A Me do Livro, est depositado no Cu. Muhammad al-Gazali, o Algazel dos escolsticos, declarou: "O Alcoro copiado em um livro,

    1 Os comentadores advertem que, naquele tempo, era costume ler em voz alta, para penetrar melhor o

    sentido, pois no havia sinais de pontuao nem sequer diviso de palavras, e ler em grupo, a fim de superar ou paliar os inconvenientes da escassez de cdices. O dilogo de Luciano de Samsata, Contra um Ignorante Comprador de Livros, encerra um testemunho desse costume no sculo II.

  • pronunciado com a lngua, guardado no corao e, no entanto, continua perdurando no centro de Deus e no o altera sua passagem pelas folhas escritas e pelos entendimentos humanos". George Sale observa que esse incriado Alcoro no outra coisa seno sua idia ou arqutipo platnico; verossmil que Algazel tenha recorrido aos arqutipos, transmitidos ao Isl pela Enciclopdia dos Irmos da Pureza e por Avicena, para justificar a noo da Me do Livro.

    Ainda mais extravagantes que os muulmanos foram os judeus. No primeiro captulo de sua Bblia encontra-se a famosa sentena: "E Deus disse: seja a luz; e a luz foi"; os cabalistas depreenderam que a virtude dessa ordem do Senhor adveio das letras das palavras. O tratado Sefer Yetsirah (Livro da Formao), escrito na Sria ou na Palestina por volta do sculo VI, revela que Jeov dos Exrcitos, Deus de Israel e Deus Todo-Poderoso, criou o universo mediante os nmeros cardinais de um a dez e as vinte e duas letras do alfabeto. Que os nmeros sejam instrumentos ou elementos da Criao dogma de Pitgoras e de Jmblico; que as letras o sejam claro indcio do novo culto escrita. O segundo pargrafo do segundo captulo reza: "Vinte e duas letras fundamentais: Deus desenhou-as, gravou-as, combinou-as, pesou-as, permutou-as e com elas produziu tudo o que e tudo o que ser". Em seguida, revela-se qual letra tem poder sobre o ar, e qual a gua, e qual sobre o fogo, e qual sobre a sabedoria, e qual sobre a paz, e qual sobre a graa, e qual sobre o sonho, e qual sobre a clera, e como (por exemplo) a letra kaf, que tem poder sobre a vida, serviu parra formar o sol no mundo, a quarta-feira no ano e a orelha esquerda no corpo.

    Mais longe foram os cristos. A idia de que a divindade escrevera um livro levou-os a imaginar que escrevera dois e que o outro era o universo. No incio do sculo XVII, Francis Bacon declarou, em seu Advancement of Learning, que Deus nos oferecia dois livros para que no incorrssemos no erro: o primeiro, o volume das Escrituras, que revela Sua vontade; o segundo, o volume das criaturas, que revela Seu poderio, sendo este a chave daquele. Bacon propunha-se muito mais que construir uma metfora; opinava que o mundo era redutvel a formas essenciais (temperaturas, densidades, pesos, cores), que conformavam, em nmero limitado, um abeceddarium naturae ou srie de letras com que se escreve o texto universal.2 Sir Thomas Browne, por volta de 1642, confirmou: "Dois so os livros em que costumo aprender teologia: a Sagrada Escritura e aquele universal e pblico manuscrito que

    2 Nas obras de Galileu freqente o conceito do universo como livro. A segunda seo da antologia de

    Favaro (Galileo Galilei: Pensieri, Motti e Sentenze, Florena, 1949) intitula-se I1 Libro delia Natura. Transcrevo o seguinte pargrafo: "A filosofia est escrita naquele enormssimo livro continuamente aberto diante de nossos olhos (quero dizer, o universo), mas ininteligvel se antes no estudarmos a lngua nem conhecermos os caracteres em que est escrito. A lngua desse livro matemtica, e os caracteres so tringulos, crculos e outras figuras geomtricas".

  • patente a todos os olhos. Quem nunca O viu no primeiro, descobriu-O no segundo" (religio Medici, I, 16). No mesmo pargrafo, l-se: "Todas as coisas so artificiais, porque a Natureza a Arte de Deus". Duzentos anos se passaram e o escocs Carlyle, em diversos pontos de sua obra e particularmente no ensaio sobre Cagliostro, superou a conjetura de Bacon; estampou que a histria universal uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos incertamente e na qual tambm somos escritos. Depois, Lon Bloy escreveu: "No h na terra um ser humano capaz de declarar quem . Ningum sabe o que veio fazer neste mundo, a que correspondem seus atos, seus sentimentos, suas idias, nem qual seu nome verdadeiro, seu imorredouro Nome no registro da Luz... A histria um imenso texto litrgico no qual os iotas e os pontos no valem menos que os versculos ou captulos inteiros, mas a importncia de uns e de outros indeterminvel e est profundamente oculta" (Lme de Napolon, 1912). O mundo, segundo Mallarm, existe para um livro; segundo Bloy, somos versculos, ou palavras, ou letras de um livro mgico, e esse livro incessante a nica coisa que h no mundo: melhor dizendo, o mundo.

    Buenos Aires, 1951.

  • O ROUXINOL DE KEATS

    Aqueles que freqentaram a poesia lrica da Inglaterra no esquecero a Ode a um rouxinol, que John Keats, tsico, pobre e talvez desafortunado no amor, comps em um jardim em Hampstead, idade de vinte e trs anos, em uma das noites do ms de abril de 1819. Keats, no jardim suburbano, ouviu o eterno rouxinol de Ovdio e de Shakespeare, e sentiu sua prpria mortalidade, e contrastou-a com a tnue voz imorredoura do invisvel pssaro. Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente, como a rvore d folhas; duas ou trs horas bastaram-lhe para compor essas pginas de inesgotvel e insacivel beleza, que ele poliria muito pouco; sua virtude, que eu saiba, no foi discutida por ningum, mas sim sua interpretao. O n do problema est na penltima estrofe. O homem circunstancial e mortal dirige-se ao pssaro, que no abatem as famintas geraes e cuja voz, agora, aquela que, em campos de Israel, em uma antiga tarde, ouviu Rute, a moabita.

    Em sua monografia sobre Keats, publicada em 1887, Sidney Colvin (correspondente e amigo de Stevenson) percebeu ou inventou uma dificuldade na estrofe em questo. Transcrevo sua curiosa declarao: Com um erro de lgica, que, a meu ver, tambm uma falha potica, Keats ope-se fugacidade da vida humana, em que entende a vida do indivduo, a permanncia da vida do pssaro, em que entende a vida da espcie. Em 1895, Bridges repetiu a denncia; F.R. leavis aprovou-a em 1936 e acrescentou o esclio: Naturalmente, a falcia includa nesse conceito prova a intensidade do sentimento que a acolheu. Keats, na primeira estrofe de seu poema, chamou o rouxinol de drade; outro crtico, Garrod, com toda a seriedade, alegou esse epteto para sentenciar que, na stima, a ave imortal porque uma drade, uma divindade dos bosques. Amy Lowell escreveu com mais acerto: O leitor que tenha uma centelha de sentido imaginativo ou potico logo intuir que Keats no se refere ao rouxinol que cantava nesse momento, e sim espcie.

    Cinco pareceres de cinco crticos atuais e passados recolhi; entendo que, de todos, o menos vo o da norte-americana Amy Lowell, mas nego a oposio que nele se postula entre o efmero rouxinol dessa noite e o rouxinol genrico. A chave, a exata chave da estrofe, est, suspeito, em um pargrafo metafsico de Schopenhauer, que nunca a leu.

    A Ode a um rouxinol data de 1819; em 1844 apareceu o segundo volume de O Mundo como Vontade e Representao. No captulo 41, l-se o

  • seguinte: Perguntemo-nos com sinceridade se a andorinha deste vero outra que no a do primeiro e se realmente o milagre de tirar algo do nada ocorreu milhes de vezes entre as duas para ser fraudado outras tantas pela aniquilao absoluta. Quem me ouvir assegurar que este gato aqui brincando o mesmo que saltitava e traquinava neste lugar h trezentos anos pensar de mim o que quiser, mas loucura mais estranha imaginar que fundamentalmente outro. Ou seja, o indivduo de certo modo a espcie, e o rouxinol de Keats tambm o rouxinol de Rute.

    Keats, que, sem exagerada injustia, pde escrever: Nada sei, nada li, adivinhou o esprito grego nas pginas de algum dicionrio escolar; sutilssima prova dessa adivinhao ou recriao ele ter intudo no obscuro rouxinol de uma noite o rouxinol platnico. Keats, talvez incapaz de definir a palavra arqutipo, antecipou-se em um quarto de sculo a uma tese de Schopenhauer.

    Esclarecida assim a primeira dificuldade, falta esclarecer uma segunda, de ndole muito diversa. Como possvel que Garrod, Leavis e os outros1 no tenham chegado a essa interpretao evidente? Leavis professor de um dos colgios de Cambridge a cidade que, no sculo XVII, congregou e deu nome aos Cambridge Platonists ; Bridges escreveu um poema platnico intitulado The fourth dimension; a mera enumerao desses fatos parece agravar o enigma. Se no me engano, sua razo deriva de algo essencial na mente britnica.

    Coleridge observa que todos os homens nascem aristotlicos ou platnicos. Os ltimos sentem que as classes, as ordens e os gneros so realidades; os primeiros, que so generalizaes; para estes, a linguagem no passa de um aproximativo jogo de smbolos; para aqueles, o mapa do universo. O platnico sabe que o universo de certo modo um cosmos, uma ordem; essa ordem, para. o aristotlico, pode ser um erro ou uma fico de nosso conhecimento parcial. Atravs das latitudes e das pocas, os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um Parmnides, Plato, Spinoza, Kant, Francis Bradley; o outro, Herclito, Aristteles, Locke, Hume, William James. Nas rduas escolas da Idade Mdia, todos invocam Aristteles, mestre da humana razo (Dante, Convivio, IV, 2), mas os nominalistas so Aristteles; os realistas, Plato. O nominalismo ingls do sculo XIV ressurge no escrupuloso idealismo ingls do sculo XVIII; a economia da frmula de Occam, entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem2 permite ou

    1 A essa lista dever-se-ia acrescentar o genial poeta William Butler Yeats, que, na primeira estrofe de

    Sailing to Byzantium, fala em morrentes geraes de pssaros, em unia aluso deliberada ou involuntria Ode. Ver T. R. Henn: The Lonely Tower, 1950, p. 211.

    2 Os entes no devem ser multiplicados alm do necessrio. (N. da T.)

  • prefigura o no menos taxativo esse est percipi3 Os homens, disse Coleridge, nascem aristotlicos ou platnicos; da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotlica. O real, para essa mente, no so os conceitos abstratos, e sim os indivduos; no o rouxinol genrico, e sim os rouxinis concretos. E natural, talvez inevitvel, que na Inglaterra a Ode a um rouxinol no seja bem compreendida.

    Que ningum leia reprovao ou desdm nas palavras acima. O ingls recusa o genrico porque sente que o individual irredutvel, inassimilvel e mpar. Um escrpulo tico, no uma incapacidade especulativa, impede-o de transitar por abstraes, como os alemes. No entende a Ode a um rouxinol; essa valiosa incompreenso permite-lhe ser Locke, ser Berkeley e ser Hume, e escrever, h cerca de setenta anos, as no escutadas e profticas advertncias do Indivduo contra o Estado.

    O rouxinol, em todas as lnguas do orbe, desfruta de nomes melodiosos (nightingale, nachtigall, usignolo), como se os homens instintivamente tivessem querido que esses no desmerecessem o canto que os maravilhou. De to exaltado pelos poetas, ele agora um tanto irreal; menos afim com a calhandra que com o anjo. Dos enigmas saxes do Livro de Exeter (eu, antigo cantor da tarde, trago aos nobres alegria nas vilas) trgica Atalanta, de Swinburne, o infinito rouxinol tem cantado na literatura britnica; foi celebrado por Chaucer e Shakespeare, por Milton e Matthew Arnold, mas a John Keats que fatalmente ligamos sua imagem como a Blake a do tigre.

    3 Ser ser percebido. (N. da T.)

  • O ESPELHO DOS ENIGMAS

    A idia de que a Sagrada Escritura tem (alm de seu valor literal) um valor simblico no irracional e antiga: est em Filo de Alexandria, nos cabalistas, em Swedenborg. Como os fatos referidos pela Escritura so verdadeiros (Deus a Verdade, a Verdade no pode mentir, etctera), devemos admitir que os homens, ao execut-los, representaram cegamente um drama secreto, determinado e premeditado por Deus. Da a pensar que a histria do universo. e nela nossas vidas e o mais tnue detalhe de nossas vidas tem valor inconjeturvel, simblico, no vai uma distncia infinita. Muitos devem t-la percorrido; ningum to assombrosamente como Lon Bloy. (Nos fragmentos psicolgicos de Novalis e naquele volume da autobiografia de Machen intitulado The London Adventure h uma hiptese afim: a de que o mundo externo as formas, as temperaturas, a lua uma linguagem que esquecemos, ou que mal soletramos... Tambm De Quincey1 a declara: "At os sons irracionais do globo devem ser outras tantas lgebras e linguagens que de algum modo tm suas chaves correspondentes, sua severa gramtica e sua sintaxe, e assim as mnimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores".)

    Um versculo de So Paulo (I Corntios 13, 12) inspirou Lon Bloy: "Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad facie. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum". Torres Amat miseravelmente traduz: "No presente no vemos Deus seno como em um espelho e sob imagens obscuras: mas ento o veremos face a face. Agora eu no o conheo seno imperfeitamente: mas ento o conhecerei com uma viso clara, da maneira que eu sou conhecido". Quarenta e duas palavras fazendo o trabalho de vinte e duas; impossvel ser mais palavroso e mais frouxo. Cipriano de Valera mais fiel: "Agora vemos por espelho, na escurido; mas ento veremos face a face. Agora conheo em parte; mas ento conhecerei como sou conhecido". Torres Amat entende que o versculo se refere a nossa viso da divindade; Cipriano de Valera (e Lon Bloy), a nossa viso geral.

    Que eu saiba, Bloy no imprimiu a sua conjetura uma forma definitiva. Ao longo de sua obra fragmentria (povoada, como todos sabem, de lamentos e afrontas) h verses ou facetas diversas. Eis aqui algumas, que resgatei das pginas clamorosas de Le Mendiant Ingrat, de Le Vieux de la Montagne e de

    1 Writings, 1896, volume 1, p. 129

  • LInvendable. No penso t-las esgotado: espero que algum especialista em Lon Bloy (eu no sou) venha a complet-las e retific-las.

    A primeira de junho de 1894. Traduzo-a assim: "A sentena de So Paulo: Videmus nuns per speculum in aenigmate seria uma clarabia para mergulhar no Abismo verdadeiro, que a alma do homem. A aterrorizante imensido dos abismos do firmamento uma iluso, um reflexo exterior de nossos abismos, percebidos em um espelho. Devemos inverter nossos olhos e exercer uma astronomia sublime no infinito de nossos coraes, pelo qual Deus quis morrer... Se vemos a Via Lctea, porque ela verdadeiramente existe em nossa alma".

    A segunda de novembro do mesmo ano. "Recordo uma de minhas idias mais antigas. O Czar o chefe e pai espiritual de cento e cinqenta milhes de homens. Atroz responsabilidade que no passa de aparncia. Talvez ele apenas seja responsvel, perante Deus, por uns poucos seres humanos. Se os pobres de seu imprio vivem oprimidos sob seu reinado, se desse reinado resultam imensas catstrofes, quem pode garantir que no o criado encarregado de lustrar-lhe as botas o verdadeiro e nico culpado? Nas disposies misteriosas da Profundidade, quem verdadeiramente Czar, quem rei, quem pode vangloriar-se de ser um simples criado?"

    A terceira de uma carta escrita em dezembro. "Tudo smbolo, at a dor mais lancinante. Somos dormentes que gritam durante o sono. No sabemos se tal coisa que nos aflige no o secreto princpio de nossa alegria ulterior. Vemos agora, afirma So Paulo, per speculum in aenigmate, literalmente: em enigma por um espelho, e no veremos de outro modo at o advento dAquele que est todo em chamas e que deve ensinar-nos todas as coisas. "

    A quarta de maio de 1904. "Per speculum in aenigmate, diz So Paulo. Vemos todas as coisas ao contrrio. Quando pensamos dar, recebemos, etc. Ento (ouo de uma querida alma angustiada) ns estamos no cu e Deus sofre na terra."

    A quinta de maio de 1908. "Aterrorizante idia de Joana acerca do texto Per speculum. Os prazeres deste mundo seriam os tormentos do inferno, vistos ao contrrio, em um espelho."

    A sexta de 1912. Em cada uma das pginas de LAme de Napolon, livro cujo propsito decifrar o smbolo Napoleo, considerado precursor de outro heri tambm ele homem e smbolo oculto no futuro. Basta-me citar duas passagens. Uma: "Cada homem est na terra para simbolizar algo que ignora e para realizar uma partcula, ou uma montanha, dos materiais invisveis que serviro para edificar A Cidade de Deus". Outra: "No h na terra ser humano capaz de declarar com certeza quem ele . Ningum sabe o que veio fazer neste mundo, a que correspondem seus atos, seus sentimentos, suas

  • idias, nem qual seu nome verdadeiro, seu imorredouro Nome no registro da Luz... A histria um imenso texto litrgico no qual os iotas e os pontos no valem menos que os versculos ou captulos inteiros, mas a importncia de uns e de outros indeterminvel e est profundamente oculta".

    Os pargrafos acima talvez paream ao leitor meras gratuidades de Bloy. Que eu saiba, ningum tratou de examin-los. Ouso julg-los verossmeis, e talvez inevitveis, dentro da doutrina crist. Bloy (repito) s fez aplicar a toda a Criao o mtodo que os cabalistas judeus tinham aplicado Escritura. Estes pensaram que uma obra ditada pelo Esprito Santo era um texto absoluto: vale dizer, um texto em que a colaborao do acaso calculvel em zero. Essa premissa portentosa de um livro impenetrvel contingncia, de uni livro que um mecanismo de propsitos infinitos, levou-os a permurtar as palavras escriturais, a somar o valor numrico das letras, a fazer conta de sua forma, a observar as minsculas e maisculas, a procurar acrsticos e anagramas e a outros rigores exegticos dos quais no difcil zombar. Sua apologia que nada pode ser contingente na obra de uma inteligncia infinita.2 Lon Bloy postula esse carter hieroglfico esse carter de escrita divina, de criptografia dos anjos em todos os instantes e em todos os seres do mundo. O supersticioso cr penetrar essa escrita orgnica: treze comensais articulam o smbolo da morte; uma opala amarela, o da desgraa...

    Parece improvvel que o mundo tenha sentido; mais improvvel, ainda, que tenha duplo ou triplo sentido, observar o incrdulo. Eu entendo que assim; mas entendo que o mundo hieroglfico postulado por Bloy o mais conveniente Dignidade do Deus intelectual dos telogos.

    "Nenhum homem sabe quem ", afirmou Lon Bloy. Ningum como ele para ilustrar essa ignorncia ntima. Julgava-se um catlico rigoroso e foi um continuador dos cabalistas, irmo secreto de Swedenborg e de Blake: heresiarcas.

    2 O que uma inteligncia infinita?, poder indagar o leitor. No h telogo que no a defina; eu prefiro

    um exemplo. Os passos dados por um homem, desde o dia de seu nascimento at o de sua morte, desenham no tempo uma inconcebvel figura. A Inteligncia Divina intui essa figura imediatamente, como a dos homens um tringulo. Essa figura (talvez) tem uma funo determinada na economia do universo.

  • DOIS LIVROS

    O ltimo livro de Wells Guide to the New World. A Handbook of Constructive World Revolution corre o risco de parecer, primeira vista, uma simples enciclopdia de injrias. Suas bem legveis pginas denunciam o Fhrer, "que chia como um coelho esganado"; Goering, "aniquilados de cidades que, no dia seguinte, varrem os estilhaos de vidro e retomam as tarefas da vspera"; Eden, "o inconsolvel vivo quintessencial da Liga das Naes"; Josef Stlin, que em um dialeto irreal continua vindicando a ditadura do proletariado, "embora ningum saiba o que o proletariado nem como e onde ele dita"; o "absurdo Ironside"; os generais do exrcito francs, "derrotados pela conscincia da inpcia, por tanques fabricados na Tchecoslovquia, por vozes e rumores radiofnicos e por alguns mensageiros de bicicleta"; a "evidente vontade de derrota" (will for defeat) da aristocracia britnica; o "rancoroso cortio" Irlanda do Sul; o Ministrio das Relaes Exteriores ingls, "que parece no poupar o menor esforo para que a Alemanha ganhe uma guerra que j perdeu"; Sir Samuel Hoare, "mental e moralmente nscio"; os norte-americanos e ingleses "que traram a causa liberal na Espanha"; os que opinam que esta guerra " uma guerra de ideologias" e no uma frmula criminosa "da desordem presente"; os ingnuos que supem que basta exorcizar ou destruir os demnios Goering e Hitler para que o mundo seja paradisaco.

    Reuni algumas invectivas de Wells: no so literariamente memorveis; algumas parecem-me injustas, mas demonstram a imparcialidade de seus dios e de sua indignao. Tambm demonstram a liberdade de que os escritores desfrutam na Inglaterra, nas horas centrais da batalha. Mais importante que esses resmungos epigramticos (dos quais apenas citei alguns poucos e que seria faclimo triplicar ou quadruplicar) a doutrina desse manual revolucionrio. Tal doutrina resumvel nesta disjuntiva precisa: ou a Inglaterra identifica sua causa com a de uma revoluo geral (com a de um mundo federado), ou a vitria inacessvel e intil. O captulo XII (p. 48-54) fixa os fundamentos do mundo novo. Os trs captulos finais discutem alguns problemas menores.

  • Wells, inacreditavelmente, no nazista. Inacreditavelmente, porque quase todos os meus contemporneos o so, por mais que o neguem ou o ignorem. Desde 1925, no h publicista que no opine que o fato inevitvel e trivial de ter nascido em um determinado pas e de pertencer a tal raa (ou a tal boa mescla de raas) no seja um privilgio singular e um talism suficiente. Vindicadores da democracia, que se julgam muito diferentes de Goebbels, instam seus leitores, no mesmo dialeto do inimigo, a escutar o palpitar de um corao que recolhe os ntimos mandados do sangue e da terra. Lembro-me de certas discusses indecifrveis, durante a Guerra Civil Espanhola. Uns declaravam-se republicanos; outros, nacionalistas; outros, marxistas; todos, com um lxico de Gauleiter, falavam em Raa e Povo. At os homens da foice e do martelo revelavam-se racistas... Tambm recordo com certo estupor uma assemblia convocada em repdio ao anti-semitismo. H vrias razes para que eu no seja um anti-semita; a principal esta: a diferena entre judeus e no-judeus parece-me, em geral, insignificante; s vezes, ilusria ou imperceptvel. Ningum, naquele dia, quis compartilhar minha opinio; todos juraram que um judeu-alemo difere enormemente de um alemo. Em vo lembrei-lhes que no outra coisa diz Adolf Hitler; em vo insinuei que uma assemblia contra o racismo no deveria tolerar a doutrina de uma Raa Eleita; em vo citei a sbia declarao de Mark Twain: "Eu no pergunto de que raa um homem; basta que seja um ser humano; ningum pode ser nada pior" (The Man that Corrupted Hadleyburg, p. 204).

    Nesse livro, como em outros The Fate of Homo Sapiens, 1939; The Common Sense of War and Peace, 1940 , Wells exorta-nos a recordar nossa humanidade essencial e a refrear nossos miserveis traos diferenciais, por mais patticos ou pitorescos que sejam. Na verdade, tal represso no descabida: limita-se a exigir dos Estados, para sua melhor convivncia, o que uma cortesia elementar exige dos indivduos. "Ningum em seu perfeito juzo declara Wells pensa que os homens da Gr-Bretanha so um povo eleito, uma mais nobre espcie de nazistas, disputando a hegemonia do mundo com os alemes. So, sim, a frente de batalha da humanidade. Se no forem essa frente, no so nada. Esse dever um privilgio."

    Let the People Think o ttulo de uma seleo de ensaios de Bertrand Russell. Wells, na obra cujo comentrio esbocei, insta-nos a repensar a histria do mundo sem preferncias de carter geogrfico, econmico ou tnico; Russell tambm emite conselhos de universalidade. No terceiro artigo "Free thought and official propaganda, ele prope que a escola primria ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. Entendo que essa disciplina socrtica no seria intil. Das pessoas que conheo, pouqussimas sequer a soletram. Deixam-se lograr por artifcios tipogrficos ou sintticos; pensam que um fato aconteceu s porque est impresso em grandes letras pretas; confundem a

  • verdade com o corpo doze; negam-se a entender que a afirmao: "Todas as tentativas do agressor para avanar alm de B fracassaram de maneira sangrenta" mero eufemismo para admitir a perda de B. Pior ainda: exercem uma sorte de magia, pensam que formular um temor colaborar com o inimigo... Russell prope que o Estado tente imunizar os homens contra essas supersties e esses sofismas. Por exemplo, sugere que os alunos estudem as ltimas derrotas de Napoleo nos boletins do Moniteur, ostensivamente triunfais. Planeja tarefas como esta: depois de estudar a histria da guerra com a Frana em textos ingleses, reescrever essa histria do ponto de vista francs. Nossos "nacionalistas" j exercem esse mtodo paradoxal: ensinam a histria argentina de um ponto de vista espanhol, quando no quchua ou querand.

    Dos outros artigos, no menos certeiro o que se intitula "Genealogia do fascismo". O autor comea observando que os fatos polticos provm de especulaes muito anteriores e que em geral medeia muito tempo entre a divulgao de uma doutrina e sua aplicao. assim: a "atualidade candente", que nos exaspera ou exalta e que com certa freqncia nos aniquila, no passa de uma reverberao imperfeita de velhas discusses. Hitler, horrendo em pblicos exrcitos e em secretos espies, um pleonasmo de Carlyle (1795-1881) e at de J. G. Fichte (1762-1814); Lnin, uma transcrio de Karl Marx. Da o verdadeiro intelectual fugir dos debates contemporneos: a realidade sempre anacrnica.

    Russell imputa a teoria do fascismo a Fichte e a Carlyle. O primeiro, na quarta e na quinta de suas famosas Reden an die Deutsche Nation, baseia a superioridade dos alemes na ininterrupta posse de um idioma puro. Essa razo quase inesgotavelmente falaz; podemos conjeturar que no h no mundo um idioma puro (mesmo que as palavras o sejam, no o so as representaes; por mais que os puristas digam "esporte", pensam "sport"); podemos lembrar que o alemo menos "puro" que o basco ou que o hotentote; podemos indagar por que prefervel um idioma sem mistura... Mais complexa e eloqente a contribuio de Carlyle. Este, em 1843, escreveu que a democracia o desespero de no encontrar heris que nos dirijam. Em 1870 aclamou a vitria da "paciente, nobre, profunda, slida e piedosa Alemanha" sobre a "fanfarrona, vangloriosa, gesticulante, pugnaz, intranqila, hipersensvel Frana" (Miscellanies, tomo VII, p. 251). Louvou a Idade Mdia, condenou as rajadas de vento parlamentar, vindicou a memria do deus Thor, de Guilherme, o Bastardo, de Knox, de Cromwell, de Frederico II, do taciturno doutor Francia e de Napoleo, almejou um mundo que no fosse "o caos provido de umas eleitorais", condenou a abolio da escravatura, props a transformao das esttuas "horrendos solecismos de bronze" em teis banheiras de bronze, preconizou a pena de morte, alegrou-se por haver um quartel em cada povoado, incensou, e inventou, a Raa Teutnica. Quem quiser mais imprecaes ou

  • apoteoses pode consultar Past and Present (1843) e os Latterday Pamphlets, de 1850.

    Bertrand Russell conclui: "De certo modo, lcito afirmar que o ambiente do incio do sculo XVIII era racional e o de nosso tempo, anti-racional". Eu suprimiria o tmido advrbio que encabea a frase.

  • ANOTAO AO 23 DE AGOSTO DE 1944

    Essa jornada populosa deparou-me trs heterogneos assombros: o grau fsico de minha felicidade quando soube da libertao de Paris; a descoberta de que uma emoo coletiva pode no ser indigna; o enigmtico e notrio entusiasmo de muitos partidrios de Hitler. Sei que investigar esse entusiasmo correr o risco de parecer-me aos vos hidrgrafos que indagavam por que basta um nico rubi para deter o curso de um rio; muitos me acusaro de pesquisar um fato quimrico. Mas ele ocorreu, e milhares de pessoas em Buenos Aires podem testemunh-lo.

    Logo de incio entendi que seria intil interrogar os protagonistas. Esses versteis, fora de exercer a incoerncia, perderam por completo a noo de que ela deve ter alguma justificativa: veneram a raa germnica, mas abominam a Amrica "sax"; condenam os artigos de Versailles, mas aplaudiram os prodgios do Blitzkrieg; so anti-semitas, mas professam uma religio de origem hebria; abenoam a guerra submarina, mas reprovam com vigor as piratarias britnicas; denunciam o imperialismo, mas vindicam e promulgam a tese do espao vital; idolatram San Martn, mas opinam que a independncia da Amrica foi um erro; aplicam aos atos da Inglaterra o cnone de Jesus, mas aos da Alemanha o de Zaratustra.

    Ponderei, tambm, que qualquer incerteza seria prefervel a um dilogo com esses consangneos do caos, para os quais a infinita repetio da interessante frmula "sou argentino exime da honra e da piedade. De mais a mais, Freud no concluiu e Walt Whitman no pressentiu que os homens dispem de pouca informao acerca dos mveis profundos de sua conduta? Quem sabe, pensei comigo, a magia dos smbolos Paris e libertao seja to poderosa que os partidrios de Hitler se esqueceram de que significa uma derrota de suas armas. Cansado, optei por supor que certo esprito noveleiro, e o temor, e a simples adeso realidade eram explicaes verossmeis do problema.

    Noites mais tarde, um livro e uma lembrana me iluminaram. O livro foi Man and Superman, de Shaw; a passagem a que me refiro aquela do sonho metafsico de John Tanner, onde se afirma que o horror do Inferno sua irrealidade; essa doutrina pode comparar-se de outro irlands, Joo Escoto Ergena, que negou a existncia substantiva do pecado e do mal e declarou que todas as criaturas, inclusive o Diabo, retornariam a Deus. A lembrana foi daquele dia que o perfeito e detestado reverso do 23 de agosto: o 14 de junho de 1940. Nesse dia, um germanfilo, cujo nome no quero lembrar, entrou em

  • minha casa; postado porta, anunciou a grande notcia: os exrcitos nazistas tinham ocupado Paris. Senti um misto de tristeza, de nojo, de mal-estar. Algo que no entendi me conteve: a insolncia do jbilo no explicava nem a estentorosa voz nem a brusca proclamao. Acrescentou que muito em breve esses exrcitos entrariam em Londres. Toda oposio era intil, nada poderia deter sua vitria. Ento compreendi que ele tambm estava apavorado.

    Ignoro se os fatos que relatei pedem elucidao. Creio poder interpret-los assim: para europeus e americanos, h uma ordem uma nica ordem possvel, a que outrora teve o nome de Roma e que agora e a cultura do Ocidente. Ser nazista (brincar de barbrie enrgica, brincar de ser um viking, um trtaro, um conquistador do sculo XVI, um gacho, um pele-vermelha) , no limite, uma impossibilidade mental e moral. O nazismo padece de irrealidade, como os infernos de Ergena. inabitvel; os homens s podem morrer por ele, mentir por ele, matar e ensangentar por ele. Ningum, na solido central do prprio eu, pode desejar que ele triunfe. Arrisco a seguinte conjetura: Hitler quer ser derrotado. Hitler, de modo cego, colabora com os inevitveis exrcitos que o aniquilaro, assim como os abutres de metal e o drago (que no deviam ignorar sua condio de monstros) colaboraram, misteriosamente, com Hrcules.

  • SOBRE O VATHEK DE WILLIAM BECKFORD

    Wilde atribui o seguinte gracejo a Carlyle: uma biografia de Michelangelo que omitisse toda meno s obras de Michelangelo. To complexa a realidade, to fragmentria e to simplificada a histria que um observador onisciente poderia escrever um nmero indefinido, e quase infinito, de biografias de um homem destacando fatos independentes, e s depois de ler muitas delas perceberamos que seu protagonista o mesmo. Simplifiquemos desmesuradamente uma vida: imaginemos que treze mil fatos a integram. Uma das hipotticas biografias registraria a srie 11, 22, 33...; outra, a srie 9, 13, 17, 21...; outra, a srie 3, 12, 21, 30, 39... No inconcebvel uma histria dos sonhos de um homem; outra, dos rgos de seu corpo; outra, das falcias por ele perpetradas; outra, de todos os momentos em que ele imaginou as pirmides; outra, de seu comrcio com a noite e com as auroras. Tudo isso pode parecer uma completa quimera; infelizmente, no . Ningum se resigna a escrever a biografia literria de um escritor, a biografia militar de um soldado; todos preferem a biografia genealgica, a biografia econmica, a biografia psiquitrica, a biografia cirrgica, a biografia tipogrfica. Setecentas pginas in-oitavo compreende certa vida de Poe; o autor, fascinado por suas mudanas de domiclio, mal consegue reservar um parntese para o Maelstrm e para a cosmogonia de Eureka. Outro exemplo, esta curiosa revelao feita no prefcio a uma biografia de Bolvar: "Neste livro fala-se to escassamente de batalhas quanto no que o mesmo autor escreveu sobre Napoleo". O gracejo de Carlyle predizia nossa literatura contempornea: agora, em 1943, o paradoxo seria uma biografia de Michelangelo permitir alguma meno s obras de Michelangelo.

    O exame de uma recente biografia de William Beckford (1760-1844) obriga-me a tais observaes. William Beckford, de Fonthill, encarnou um tipo bastante comum de milionrio, grande senhor, viajante, biblifilo, construtor de palcios e libertino; Chapman, seu bigrafo, destrincha (ou tenta destrinchar) sua vida labirntica, mas prescinde de uma anlise de Vathek, romance a cujas dez ltimas pginas William Beckford deve sua glria.

    Confrontei vrias crticas a Vathek. O prefcio que Mallarm escreveu para sua reimpresso de 1876 prdigo em observaes felizes (por exemplo: faz notar que o romance se inicia no terrao de uma torre de onde se l o firmamento, para concluir em um subterrneo encantado), mas est escrito em um dialeto etimolgico do francs, de ingrata ou impossvel leitura. Belloc (A Conversation with an Angel, 1928) tece opinies sobre Beckford sem condescender a argumentos; equipara sua prosa de Voltaire e julga-o um dos

  • homens mais vis de sua poca, "one of the vilest men of his time". Talvez o julgamento mais lcido seja o de Saintsbury, no dcimo primeiro volume da Cambridge History of English Literature.

    Essencialmente, a fbula de Vathek no complexa. Vathek (Harum Benalmotasim Vatiq Bilah, nono califa abssida) ergue uma torre babilnica para decifrar os planetas. Estes auguram-lhe uma sucesso de prodgios, cujo instrumento ser um homem sem par, que vir de uma terra desconhecida. Um mercador chega capital do imprio: seu rosto to terrvel que os guardas que o conduzem presena do califa avanam de olhos fechados. O mercador vende uma cimitarra ao califa; logo desaparece. Gravados na folha h misteriosos caracteres cambiantes que burlam a curiosidade de Vathek. Um homem (que logo desaparece tambm) consegue decifra-los; um dia significam: "Sou a menor maravilha de uma regio onde tudo maravilhoso e digno do maior prncipe da terra"; outro: "Ai de quem temerariamente aspira a saber o que deveria ignorar". O califa entrega-se s artes mgicas; a voz do mercador, na escurido, prope-lhe abjurar a f muulmana e adorar os poderes das trevas. Se o fizer, a ele ser franqueado o Alcar do Fogo Subterrneo. Sob suas abbadas poder contemplar os tesouros que os astros lhe prometeram, os talisms que subjugam o mundo, os diademas dos sultes pr-adamitas e de Solimo Bendaud. O vido califa cede; o mercador exige quarenta sacrifcios humanos. Seguem-se muitos anos sangrentos; Vathek, negra de abominaes sua alma, chega a uma montanha deserta. A terra se abre; com terror e esperana, Vathek desce s profundezas do mundo. Uma silenciosa e plida multido de pessoas que no se olham erra pelas soberbas galerias de um palcio infinito. No mentiu o mercador: o Alcar do Fogo Subterrneo rico em esplendores e em talisms, mas tambm o Inferno. (Na congnere histria do doutor Fausto, e nas muitas lendas medievais que a prefiguraram, o Inferno o castigo do pecador que pactua com os deuses do Mal; nesta o castigo e a tentao.)

    Saintsbury e Andrew Lang declaram ou sugerem que a inveno do Alcar do Fogo Subterrneo a maior glria de Beckford. Eu afirmo que se trata do primeiro Inferno realmente atroz da literatura.1 Arrisco o seguinte paradoxo: o mais ilustre dos avernos literrios, o dolente regno da Comdia, no um lugar atroz; um lugar onde ocorrem fatos atrozes. A distino vlida.

    Stevenson (A Chapter on Dreams) conta que em seus sonhos infantis era perseguido por um matiz abominvel da cor parda; Chesterton (The Man Who Was Thursday, IV) imagina que nos confins ocidentais do mundo existe talvez

    1 Da literatura, eu disse, no da mstica: o eletivo Inferno de Swedenborg De Coelo et Inferno, 545,

    554 de data anterior.

  • uma rvore que j mais, e menos, que uma rvore, e que, nos confins orientais, algo, uma torre, cuja arquitetura, por si s, malvada. Poe, no Manuscrito Encontrado em uma Garrafa, fala de um mar austral onde o volume do navio cresce como o corpo vivo do marinheiro; Melville dedica muitas pginas de Moby Dick a elucidar o horror da brancura insuportvel da baleia... Excedi-me em alguns exemplos; talvez tivesse bastado observar que o Inferno dantesco magnifica a idia de uma priso; o de Backford, os tneis de um pesadelo. A Divina Comdia o livro mais justificvel e mais firme de todas as literaturas: Vathek uma mera curiosidade, the perfume and suppliance of a minute; creio, contudo, que Vathek antecipa, mesmo que de modo rudimentar, os satnicos esplendores de Thomas de Quincey e de Poe, de Charles Baudelaire e de Huysmans. H um intraduzvel epteto ingls, o epteto uncanny, para denotar o horror sobrenatural; esse epteto (unheimlich, em alemo) aplicvel a certas pginas de Vathek; que eu me lembre, a nenhum livro anterior.

    Chapman cita algumas obras que influenciaram Beckford: a Bibliothque Orientale, de Barthlemy dHerbelot; os Quatre Facardins, de Hamilton; La Princesse de Babylone, de Voltaire; as sempre menosprezadas e admirveis Mille et Une Nuits, de Galland. Eu complementaria essa lista com as Carceri dInvenzione, de Piranesi; guas-fortes elogiadas por Beckford, que representam poderosos palcios que so tambm labirintos inextrincveis. Beckford, no primeiro captulo de Vathek, enumera cinco palcios dedicados aos cinco sentidos; Marino, em Adone, j descrevera cinco jardins anlogos.

    S de trs dias e duas noites do inverno de 1782 precisou William Beckford para redigir a trgica histria de seu califa. Escreveu-a no idioma francs; Henley traduziu-a para o ingls em 1785. O original infiel traduo; Saintsbury observa que o francs do sculo XVIII menos apto que o ingls para transmitir os "indefinidos horrores" (a expresso de Beckford) da singularssima histria.

    A verso inglesa de Henley consta do volume 856 da Everymans Library; a editora Perrin, de Paris, publicou o texto original, revisado e prefaciado por Mallarm. Causa estranheza que a esmerada bibliografia de Chapman ignore essa reviso e esse prefcio.

    Buenos Aires, 1943.

  • SOBRE THE PURPLE LAND

    Esse romance primignio de Hudson redutvel a uma frmula to antiga que quase pode compreender a Odissia; to elementar que o nome de frmula sutilmente a difama e desvirtua. O heri pe-se a caminhar, e vm a seu encontro as aventuras. A esse gnero nmade e venturoso pertencem O Asno de Ouro e os fragmentos do Satiricon; Pickwick e o Dom Quixote; o Kim de Lahore e o Segundo Sombra de Areco. Chamar essas fices de romances picarescos parece-me injustificado; em primeiro lugar, pela conotao mesquinha da palavra; em segundo, por suas limitaes locais e temporais (sculo XVI espanhol, sculo XVII). Alm disso, o gnero complexo. A desordem, a incoerncia e a variedade no so impraticveis, mas indispensvel uma ordem secreta que as governe e que se descubra gradualmente. Lembrei alguns exemplos famosos; talvez nenhum esteja isento de defeitos evidentes. Cervantes mobiliza dois tipos: um fidalgo "seco de carnes", alto, asctico, louco e altissonante; um vilo carnudo, baixo, comilo, sensato e espirituoso; essa disparidade to simtrica e persistente acaba por subtrair-lhes realidade, reduzindo-os a figuras de circo. (No stimo captulo de E1 Payador, nosso Lugones j insinuou essa recriminao.) Kipling inventa um Amiguinho do Mundo Inteiro, o librrimo Kim, para, alguns captulos adiante, urgido por no sei que patritica perverso, dar-lhe o horrvel ofcio de espio. (Em sua autobiografia literria, escrita cerca de trinta e cinco anos mais tarde, Kipling mostra-se impenitente e at inconsciente.) Aponto essas falhas sem animadverso; fao-o para julgar The Purple Land com igual sinceridade.

    Do gnero de romances que aqui considero, os mais rudimentares buscam a mera sucesso de aventuras, a mera variedade; as sete viagens de Simbad, o Marujo, talvez forneam o exemplo mais puro. Nelas o heri um mero sujeito, to impessoal e passivo quanto o leitor. Em outros (pouco mais complexos), os fatos cumprem a funo de mostrar o carter do heri, quando no suas absurdidades e manias; o caso da primeira parte do Dom Quixote. Em outros (que correspondem a uma etapa ulterior), o movimento duplo,

  • recproco: o heri modifica as circunstncias, as circunstncias modificam o carter do heri. o caso da segunda parte do Quixote, do Huckleberry Finn, de Mark Twain, de The Purple Land. Essa fico, na realidade, tem dois argumentos. O primeiro, visvel: as aventuras do rapaz ingls Richard Lamb na Banda Oriental do Uruguai. O segundo, ntimo, invisvel: o venturoso acrioulamento de Lamb, sua gradual converso a uma moralidade bravia que lembra um pouco Rousseau e prev um pouco Nietzsche. Suas Wanderjahre so tambm Lehrjahre. Hudson sentiu na prpria carne os rigores de uma vida semibrbara, pastoril; Rousseau e Nietzsche, s por meio dos sedentrios volumes da Histoire Gnrale des Voyages e das epopias homricas. Isso no quer dizer que The Purple Land seja inatacvel. Padece de um erro evidente, que lgico imputar s contingncias da improvisao: a v e cansativa complexidade de certas aventuras. Penso nas do final: so bastante complicadas para cansar a ateno, mas no para despert-la. Nesses enfadonhos captulos, Hudson parece no entender que o livro sucessivo (quase to puramente sucessivo quanto o Satiricon ou El Buscn) e o entorpece com artifcios inteis. Trata-se de um erro assaz difundido: Dickens, em todos os seus romances, incorre em prolixidades anlogas.

    Talvez nenhuma obra da literatura gauchesca supere The Purple Land. Seria deplorvel que alguma distrao topogrfica e trs ou quatro erros ou erratas (Camelones por Canelones, Aria por Arias, Gumesinda por Gumersinda) nos escamoteassem essa verdade... The Purple Land fundamentalmente crioula. A circunstncia de o narrador ser um ingls justifica certos esclarecimentos e certas nfases necessrias para seu leitor e que seriam anmalas em um gacho, acostumado a essas coisas. No nmero 31 da revista Sur, Ezequiel Martnez Estrada afirma: "Nossas coisas nunca tiveram poeta, pintor nem intrprete semelhante a Hudson, nem nunca o tero. Hernndez uma parcela desse cosmorama da vida argentina que Hudson cantou, descreveu e comentou... As pginas finais de The Purple Land, por exemplo, encerram a mxima filosofia e a suprema justificao da Amrica perante a civilizao ocidental e os valores da cultura acadmica". Como se v, Martinez Estrada no hesitou em preferir a obra total de Hudson ao mais insigne dos livros cannicos de nossa literatura gauchesca. Sem dvida, o mbito que The Purple Land abrange incomparavelmente maior. O Martn Fierro (em que pese ao projeto de canonizao de Lugones) menos a epopia de nossas origens em 1872! que a autobiografia de um faquista, falseada por bravatas e lamentaes que quase profetizam o tango. Em Ascasubi h traos mais vvidos, mais felicidade, mais coragem, mas tudo isso aparece fragmentrio e secreto em trs volumes incidentais, de quatrocentas pginas cada um. Don Segundo Sombra, a despeito da veracidade dos dilogos, estragado pelo af de magnificar as tarefas mais inocentes. Ningum ignora que seu narrador um

  • gacho, o que toma duplamente injustificvel esse gigantismo teatral que eleva um arreio de novilhos a um episdio de guerra. Giraldes emposta a voz para narrar os trabalhos cotidianos do campo, Hudson (como Ascasubi, como Hernndez, como Eduardo Gutirrez) narra com a maior naturalidade fatos talvez atrozes.

    Algum h de observar que em The Purple Land o gacho no aparece seno de modo lateral, secundrio. Melhor para a veracidade do retrato, caberia replicar. O gacho homem taciturno, o gacho desconhece, ou despreza, as complexas delcias da memria e da introspeco; mostr-lo autobiogrfico e efusivo j deform-lo.

    Outro acerto de Hudson o geogrfico. Embora nascido na provncia de Buenos Aires, no crculo mgico dos pampas, ele escolhe a terra crdea onde a montonera fatigou suas primeiras e ltimas lanas: o Estado Oriental do Uruguai. Na literatura argentina, os gachos so exclusivos da provncia de Buenos Aires; a paradoxal razo dessa primazia a existncia de uma grande cidade, Buenos Aires, me de insignes literatos "gauchescos". Se, em vez de interrogar a literatura, nos ativermos histria, comprovaremos que essa glorificada gaucharia pouca influncia exerceu nos destinos de sua provncia, nenhuma nos do pas. O organismo tpico da guerra gacha, a montonera, s aparece em Buenos Aires de modo espordico. Manda a cidade, mandam os caudilhos da cidade. Quando muito, algum indivduo Hormiga Negra nos documentos judiciais, Martn Fierro nas letras consegue certa notoriedade policial com uma rebelio matreira.

    Hudson, como j disse, escolhe para as andanas de seu heri as coxilhas da outra banda do rio. Essa escolha propcia permite-lhe enriquecer o destino de Richard Lamb com o acaso e a variedade da guerra acaso que favorece as circunstncias do amor errante. Macaulay, no artigo sobre Bunyan, maravilha-se de que, com o tempo, as imaginaes de um homem tornem-se lembranas pessoais de muitos outros. As de Hudson perduram na memria: os tiros britnicos retumbando na noite de Paysand; o gacho ensimesmado pitando com fruio o tabaco negro, antes da batalha; a moa que se entrega a um forasteiro, na secreta margem de um rio.

    Melhorando at a perfeio uma frase divulgada por Boswell, Hudson conta que iniciou muitas vezes o estudo da metafsica, mas sempre foi interrompido pela felicidade. A frase (uma das mais memorveis que o trato das letras me deparou) tpica do homem e do livro. Apesar do brusco sangue derramado e das separaes, The Purple Land dos pouqussimos livros felizes que h na terra. (Outro, tambm americano, tambm de sabor quase paradisaco, o Huckleberry Finn, de Mark Twain.) No penso no debate catico entre pessimistas e otimistas; no penso na felicidade doutrinria que, inexoravelmente, o pattico Whitman imps a si mesmo; penso na tmpera

  • venturosa de Richard Lamb, em sua hospitalidade para receber todas as vicissitudes do ser, amigas ou aziagas.

    Uma observao ltima. Perceber ou no os matizes crioulos pode parecer trivial, mas o fato que, dentre todos os estrangeiros (sem excluir, claro, os espanhis), o ingls o nico a perceb-los. Miller, Robertson, Burton, Cunningham, Graham, Hudson.

    Buenos Aires, 1941.

  • DE ALGUM A NINGUM

    No princpio, Deus os Deuses (Elohim), plural que alguns chamam de majestade e outros de plenitude e que muitos crem ser um eco de anteriores politesmos ou uma premonio da doutrina, declarada em Nicia, de que Deus Uno e Triplo. Elohim rege os verbos no singular; o primeiro versculo da Lei diz literalmente: "No princpio fez os Deuses o cu e a terra". Apesar da impreciso que o plural sugere, Elohim concreto; chama-se Jeov Deus e lemos que passeava pelo jardim na brisa do dia ou, como dizem as verses inglesas, in the cool of the day. definido por traos humanos; em um lugar da Escritura, l-se "Arrependeu-se Jeov de ter feito homem na terra e isto pesou-lhe no corao" e em outro, "Porque eu Jeov teu Deus sou um Deus ciumento" e em outro, "Falei no calor de minha ira". O sujeito de tais locues indiscutivelmente Algum, um Algum corporal que os sculos iro agigantando e esbatendo. Seus ttulos variam: Fortaleza de Jac, Pedra de Israel, Sou Aquele que Sou, Deus dos Exrcitos, Rei dos Reis. Este ltimo, que sem dvida inspirou, por oposio, o Servo dos Servos de Deus, de Gregrio Magno, no texto original um superlativo de rei: "Propriedade da lngua hebria diz Frei Luis de Len dobrar assim iguais palavras, quando se quer encarecer alguma coisa, seja para bem ou para mal. Dizer ento Cntico dos cnticos o mesmo que em vernculo dizer Cntico entre os cnticos, homem entre os homens, isto , assinalado e eminente entre todos e mais excelente que outros muitos". Nos primeiros sculos de nossa era, os telogos habilitam o prefixo omni-, antes reservado aos adjetivos da natureza ou de Jpiter; propagam-se as palavras onipotente, onipresente, onisciente, que fazem de Deus um respeitvel caos de superlativos inimaginveis. Essa nomenclatura, como as outras, parece limitar a divindade: em fins do sculo V, o incgnito autor do Corpus Dionysiacum declara que a Deus no convm nenhum predicado afirmativo. Nada se deve afirmar dEle, tudo se pode negar. Schopenhauer anota secamente: "Essa teologia a nica verdadeira, mas no tem contedo". Escritos em grego, os tratados e as cartas que formam o Corpus Dionysiacum encontram no sculo IX um leitor que os verte ao latim: Johannes Erugena, ou Scotus, isto , Joo, o Irlands, cujo nome na histria ficou Escoto Ergena, ou seja, Irlands Irlands. Este formula uma doutrina de ndole pantesta: as coisas particulares so teofanias (revelaes ou aparies do divino) e por trs de tudo est Deus, que a nica realidade, "mas que no sabe o que , porque no um qu, e incompreensvel a si mesmo e a toda inteligncia". No sapiente, mais que sapiente; no bom, mais que bom;

  • inescrutavelmente excede e recusa todos os atributos. Para defini-1o, Joo, o Irlands, recorre palavra Nihilum, que o nada; Deus o nada primordial da creatio ex Nihilo, o abismo em que foram gerados os arqutipos e depois os seres concretos. E Nada e Nada; aqueles que o conceberam assim procederam com o sentimento de que isso mais do que ser um Quem ou um Qu. Analogamente, Samkara ensina que os homens, no sono profundo, so o universo, so Deus.

    O processo que acabo de ilustrar est longe de ser aleatrio. A magnificao at o nada ocorre ou tende a ocorrer em todos os cultos; podemos observ-la inequivocamente no caso de Shakespeare. Seu contemporneo Ben Jonson ama-o sem chegar idolatria, on this side Idolatry; Dryden declara-o o Homero dos poetas dramticos da Inglaterra, mas admite que muitas vezes inspido e empolado; o discursivo sculo XVIII procura engrandecer suas virtudes e censurar suas falhas: Maurice Morgan, em 1774, afirma que o rei Lear e Falstaff nada mais so que modificaes da mente de seu inventor; no incio do sculo XIX, esse ditame recriado por Coleridge, para quem Shakespeare j no um homem, e sim uma variante literria do infinito Deus de Spinoza. "A pessoa Shakespeare escreve foi uma natura naturata, um efeito, mas o universal, que se encontra potencialmente no particular, foi a ele revelado no como abstrado da observao de uma pluralidade de casos, mas como a substncia capaz de infinitas modificaes, das quais sua existncia pessoal era apenas uma." Hazlitt corrobora ou confirma: "Shakespeare era em tudo semelhante a todos os homens, exceto em sua semelhana com todos os homens. Intimamente no era nada, mas era tudo o que so os demais, ou o que podem ser". Hugo, depois, equipara-o ao oceano, que uma sementeira de formas possveis.1

    Ser uma coisa inexoravelmente no ser todas as outras; a confusa intuio dessa verdade induziu os homens a imaginar que no ser mais que ser algo e que, de certo modo, ser tudo. Essa falcia est nas palavras daquele rei legendrio do Industo, que abdica do poder e sai pedindo esmola pelas ruas: "Doravante no tenho reino ou meu reino ilimitado, doravante meu corpo no me pertence ou pertence-me a terra inteira". Schopenhauer escreveu que a histria um infindvel e perplexo sonho das geraes humanas; no sonho h formas que se repetem, talvez no haja nada alm de formas; uma delas o processo que esta pgina denuncia.

    1 No budismo, a figura se repete. Os primeiros textos narram que Buda, ao p da figueira, intui a infinita

    concatenao de todos os efeitos e causas do universo, as passadas e futuras encarnaes de cada ser; os ltimos, escritos sculos mais tarde, afirmam que nada real e que todo conhecimento fictcio, e que se houvesse tantos Ganges como gros de areia h no Ganges, e mais uma vez tantos Ganges como gros de areia nos novos Ganges, o nmero de gros de areia seria menor que o nmero de coisas que Buda ignora.

  • Buenos Aires, 1950.

  • FORMAS DE UMA LENDA

    s pessoas repugna ver um velho, um doente ou um morto, embora estejam sujeitas morte, s doenas e velhice; Buda declarou que essa reflexo o induziu a abandonar sua prpria casa e seus pais e a vestir a roupa amarela dos ascetas. O testemunho consta de um dos livros do cnone; outro registra a parbola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses; so eles: uma criana, um velho encurvado, um aleijado, um criminoso sob suplicio e um morto, e avisam que nosso destino nascer, caducar, adoecer, sofrer justo castigo e morrer. O Juiz das Sombras (nas mitologias do Industo, Yama cumpre essa funo, por ser o primeiro homem a morrer) pergunta ao pecador se no viu os mensageiros; este admite que sim, mas no decifrou seu aviso; os esbirros trancam-no em uma casa cheia de fogo. Pode ser que essa ameaadora parbola no seja inveno de Buda; basta-nos saber que ele a transmitiu (Majjhima Nikaya, 130) e que provavelmente nunca a vinculou a sua prpria vida.

    A realidade pode ser complexa demais para a transmisso oral; a lenda a recria de uma maneira que s acidentalmente falsa e que lhe permite correr o mundo de boca em boca. Tanto na parbola como na declarao, h um homem velho, um homem doente e um homem morto; o tempo fez dos dois textos um s e, confundindo-os, forjou outra histria.

    Siddhartha, o Bodhisattva, o pr-Buda, filho de um grande rei, Suddhodana, da estirpe do sol. Na noite de sua concepo, a me de Siddhartha sonha que em seu lado direito entra um elefante, da cor da neve e com seis presas.1 Os adivinhos interpretam que seu filho reinar sobre o mundo ou far girar a roda da doutrina2 e ensinar aos homens como livrar-se da vida e da morte. O rei prefere que Siddhartha conquiste a grandeza temporal e no a eterna, e trata de reclu-lo em um palcio, de onde retirado tudo o que pode revelar que ele corruptvel. Assim transcorrem vinte e nove anos de ilusria felicidade, dedicados ao deleite dos sentidos, mas Siddhartha, uma manh, sai

    1 Esse sonho , para ns, pura fealdade. No o para os hindus; o elefante, animal domstico, smbolo

    de mansido; a multiplicao das presas no pode incomodar os espectadores de uma arte que, para sugerir que Deus o todo, compe figuras de mltiplos braos e rostos; o nmero seis habitual (seis vias de transmigrao; seis Budas anteriores a Buda; seis pontos cardeais, contando o znite e o nadir; seis divindades que o Yajurveda chama "as seis portas de Brama").

    2 Essa metfora pode ter sugerido aos tibetanos a inveno das mquinas de rezar, rodas ou cilindros que

    giram em torno de um eixo, cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mgicas. Algumas so manuais, outras so como grandes moinhos movidos pela gua ou pelo vento.

  • em sua carruagem e v com estupor um homem encurvado, "cujos cabelos no so como os dos outros, cujo corpo no como o dos outros", que caminha apoiado em uma bengala e cuja carne treme. Pergunta que homem esse; o cocheiro explica que um velho e que todos os homens da terra sero como ele. Siddhartha, inquieto, ordena voltar imediatamente, mas em outra sada v um homem sendo devorado pela febre, coberto de lepra e de chagas; o cocheiro explica que um doente e que ningum est livre desse perigo. Em outra sada v um homem sendo conduzido em um fretro, o homem imvel um morto, explicam-lhe, e morrer a lei de todo aquele que nasce. Em outra sada, a ltima, v um monge das ordens mendicantes que no deseja nem morrer nem viver. A paz est em seu rosto; Siddhartha acaba de encontrar o caminho.

    Hardy (Der Buddhismus nach lteren Pali-Werken) elogiou o colorido dessa lenda; um indlogo contemporneo, A. Foucher, cujo tom sarcstico nem sempre inteligente ou urbano, escreve que, admitida a ignorncia prvia do Bodhisattva, a histria no carece de gradao dramtica nem de valor filosfico. No incio do sculo V de nossa era, o monge Fa-Hsien peregrinou aos reinos do Industo em busca de livros sagrados e viu as runas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens que Aoka erigiu, ao norte, ao sul, a leste e a oeste das muralhas, para comemorar esses encontros. No incio do sculo VII, um monge cristo escreveu o romance intitulado Barlao e Josaf; Josaf (Josafat Bodhisattva) filho de um rei da ndia; os astrlogos predizem que ele reinar sobre um reino maior, que o da Glria; o rei confina-o em um palcio, mas Josaf descobre o infortnio da condio humana na figura de um cego, de um leproso e de um moribundo e, por fim, convertido f pelo ermito Barlao. Essa verso crist da lenda foi traduzida para muitos idiomas, inclusive o holands e o latim; a pedido do Haakon Haakonarson, foi composta na Islndia, em meados do sculo XIII, uma Barlaams Saga. O cardeal Csar Barnio incluiu Josaf em sua reviso (1585-1590) do Martirolgio Romano; em 1615, Diogo do Couto denunciou, em sua continuao das Dcadas, as analogias da falsa fbula indiana com a verdadeira e piedosa histria de So Josaf. Tudo isso e muito mais o leitor poder encontrar no primeiro volume de Orgenes de la Novela, de Menndez y Pelayo.

    A lenda que, em terras ocidentais, determinou que Buda fosse canonizado por Roma tinha, porm, um defeito: os encontros que ela postula so eficazes mas inverossmeis. Quatro sadas de Siddhartha e quatro figuras didticas no condizem com os hbitos do acaso. Menos atentos ao esttico que conversa das pessoas, os doutores quiseram justificar essa anomalia; para Koeppen (Die Religion des Buddha, 1, 82), na ltima forma da lenda, o leproso, o morto e o monge so simulacros produzidos pelas divindades para instruir Siddhartha. Assim, no terceiro livro da epopia snscrita Buddhacarita, diz-se que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto o levavam,

  • exceto o cocheiro e o prncipe. Em uma biografia lendria do sculo XVI, as quatro aparies so quatro metamorfoses de um deus (Wieger: Vies Chinoises du Bouddha, 37-41).

    Mais longe foi o Lalitavistara. Dessa compilao em verso e prosa, escrita em snscrito impuro, costuma-se falar com certa ironia; em suas pginas, a histria do Redentor inflada at a opresso e at a vertigem. O Buda, rodeado por doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas, revela o texto da obra aos deuses; instalado no quarto cu, ele fixou o perodo, o continente, o reino e a casta em que renasceria para morrer pela ltima vez; oitenta mil tambores acompanham as palavras de seu discurso e o corpo de sua me tem a fora de dez mil elefantes. Buda, no estranho poema, dirige cada etapa de seu destino; faz as divindades projetarem as quatro figuras simblicas e, quando interroga o cocheiro, j sabe quem so e o que representam. Foucher v nisso um mero servilismo dos autores, que no podem tolerar que Buda no saiba o que sabe um criado; o enigma merece em meu entender, outra soluo. Buda cria as imagens e em seguida indaga a um terceiro o sentido que encerram. Teologicamente, talvez coubesse responder: o livro da escola do Mahayana, que ensina que o Buda temporal emanao ou reflexo de um Buda eterno; o do cu ordena as coisas, o da terra as padece ou executa. (Nosso sculo, com outra mitologia ou vocabulrio, fala em inconsciente.) A humanidade do Filho, segunda pessoa de Deus pde gritar da cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", a de Buda, analogamente, ode espantar-se com formas criadas por sua prpria divindade... Para desatar o problema no so indispensveis, porm, tais sutilezas dogmticas; basta lembrar que todas as religies do Industo, e em particular o budismo, ensinam que o mundo ilusrio. "Minuciosa relao do jogo" (de um Buda) o que quer dizer, segundo Winternitz, Lalitavistara; um jogo ou um sonho para o Mahayana, a vida de Buda sobre a terra, que outro sonha. Siddhartha escolhe sua nao e seus pais, Siddhartha produz quatro formas que o enchero de estupor, Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras; tudo isso razovel se o entendermos como um sonho de Siddhartha. Melhor ainda se o entendermos como um sonho em que aparece Siddhartha (assim como aparecem o leproso e o monge) e que no sonhado por ningum, pois, aos olhos do budismo do Norte,3 o mundo, e os proslitos, e o Nirvana, e a roda das transmigraes, e Buda so igualmente irreais. Ningum se extingue no Nirvana, lemos em um famoso tratado, porque a extino de inumerveis seres no Nirvana como a desapario de uma fantasmagoria que um feiticeiro cria em uma encruzilhada por meio de artes mgicas, e em outro lugar est escrito que tudo mera vacuidade, mero nome, includo o livro que o declara e o

    3 Rhys Davids suprime essa locuo introduzida por Burnouf, mas seu emprego nessa frase menos

    incmodo que o de grande Travessia ou Grande Veculo, que teriam feito o leitor se deter.

  • homem que o l. Paradoxalmente, os excessos numricos do poema subtraem, no acrescentam realidade; doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas so menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. As vastas formas e os vastos algarismos (o captulo X11 inclui uma srie de vinte e trs palavras que indicam a unidade seguida de um nmero crescente de zeros, de 9 a 49, 51 e 53) so imensas e monstruosas bolhas, nfases do Nada. O irreal, assim, foi erodindo a histria; primeiro tornou fantsticas as figuras, depois o prncipe e, com o prncipe, todas as geraes e o universo.

    Em fins do sculo XIX, Oscar Wilde props uma variante; o prncipe feliz morre na recluso do palcio, sem ter descoberto a dor, mas sua efgie pstuma a divisa do alto do pedestal.

    A cronologia do Industo incerta; minha erudio, muito mais; Koeppen e Hermann Beckh talvez sejam to falveis quanto o compilador que arrisca esta nota; no me surpreenderia que minha histria da lenda fosse legendria, feita de verdade substancial e de erros fortuitos.

  • DAS ALEGORIAS AOS ROMANCES

    Para todos ns, a alegoria um erro esttico. (Meu primeiro propsito foi escrever "no outra coisa seno um erro da esttica", mas logo me dei conta de que minha sentena comportava uma alegoria.) Que eu saiba, o gnero alegrico foi analisado por Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung, I, 50), por De Quincey (Writings, XI, 198), por Francesco De Sanctis (Storia della Letteratura Italiana, VII), por Croce (Estetica, 39) e por Chesterton (G. F. Watts, 83); neste ensaio, limitar-me-ei aos dois ltimos. Croce nega a arte alegrica, Chesterton a vindica; opino que aquele est com a razo, mas gostaria de saber como uma forma que nos parece injustificvel pde desfrutar de tantos favores.

    As palavras de Croce so cristalinas; basta-me repeti-las em vernculo: "Se o smbolo for concebido como inseparvel da intuio artstica, ser sinnimo da intuio mesma, que sempre tem carter ideal. Se o smbolo for concebido como separvel, podendo-se por um lado expressar o smbolo e por outro a coisa simbolizada, recair-se- em um erro intelectualista; o suposto smbolo a exposio de um conceito abstrato, uma alegoria, cincia, ou arte arremedando a cincia. Mas tambm devemos ser justos com o alegrico e advertir que em alguns casos incuo. Da Jerusalm Libertada pode-se extrair qualquer moralidade; do Adone, de Marino, o poeta da lascvia, a reflexo de que o prazer desmedido leva dor; diante de uma esttua, o escultor pode pr um cartaz dizendo que se trata da Clemncia ou da Bondade. Tais alegorias, acrescentadas a uma obra concluda, no a prejudicam. So expresses que extrinsecamente se adicionam a outras expresses. Jerusalm adiciona-se uma pgina em prosa que expressa outro pensamento do poeta; ao Adone, um verso ou uma estrofe que expressa o que o poeta quer dar a entender; esttua, a palavra clemncia ou a palavra bondade". Na pgina 222 do livro La Poesia (Bri, 1946), o tom mais hostil: "A alegoria no um modo direto de manifestao espiritual, e sim uma sorte de escrita ou de criptografia".

    Croce no admite diferena entre contedo e forma. Esta aquele e aquele esta. A alegoria parece-lhe monstruosa porque aspira a cifrar em uma forma dois contedos: o imediato ou literal (Dante, guiado por Virglio, chega a Beatriz) e o figurado (o homem enfim alcana a f, guiado pela razo). Julga que essa maneira de escrever comporta laboriosos enigmas.

    Chesterton, para vindicar o alegrico, comea por negar que a linguagem esgote a expresso da realidade. "O homem sabe que h na alma matizes mais desconcertantes, mais inumerveis e mais annimos que as cores de um bosque

  • outonal... Cr, no entanto, que esses matizes, em todas as suas fuses e converses, podem ser representados com preciso por meio de um mecanismo arbitrrio de grunhidos e chiados. Cr que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem rudos que significam todos os mistrios da memria e todas as agonias do desejo." Declarada a insuficincia da linguagem, h lugar para outras; a alegoria pode ser uma delas, como a arquitetura ou a msica. feita de palavras, mas no uma linguagem da linguagem, um signo de outros signos da virtude valorosa e das iluminaes secretas que essa palavra indica. Um signo mais preciso que o monosslabo, mais rico e mais feliz.

    No sei muito bem qual dos eminentes contraditores tem razo; sei que a arte alegrica pareceu em algum momento encantadora (o labirntico Roman de la Rose, que perdura em duzentos manuscritos, consta de vinte e quatro mil versos) e agora intolervel. Sentimos que, alm de intolervel, tola e frvola. Nem Dante, que figurou a histria de sua paixo em Vita Nuova, nem o romano Bocio, escrevendo na torre de Pavia, sombra da espada de seu carrasco, o De Consolatione, teriam entendido esse sentimento. Como explicar essa discrdia sem recorrer a uma petio de princpio sobre a volubilidade dos gostos?

    Coleridge observa que todos os homens nascem aristotlicos ou platnicos. Os ltimos intuem que as idias so realidades; os primeiros, que so generalizaes; para estes, a linguagem no passa de um sistema de smbolos arbitrrios; para aqueles, o mapa do universo. O platnico sabe que o universo de certo modo um cosmos, uma ordem; essa ordem, para o aristotlico, pode ser um erro ou uma fico de nosso conhecimento parcial. Atravs das latitudes e das pocas, os dois antagonistas imortais mudam de dialeto e de nome: um Parmnides, Plato, Spinoza, Kant, Francis Bradley; o outro, Herclito, Aristteles, Locke, Hume, William James. Nas rduas escolas da Idade Mdia, todos invocam Aristteles, mestre da humana razo (Dante, Convvio, IV, 2); mas, se os nominalistas so Aristteles, os realistas so Plato. Segundo a opinio de George Henry Lewes, o nico debate medieval com algum valor filosfico o que confrontou nominalismo e realismo; o juzo temerrio, mas destaca a importncia dessa controvrsia tenaz que uma sentena de Porfrio, vertida e comentada por Bocio, provocou nos incios do sculo IX, que Anselmo e Roscelino mantiveram em fins do sculo XI e que William de Occam reanimou no sculo XIV.

    Como era de esperar, tantos anos multiplicaram at o infinito as posies intermedirias e as distines; entretanto, possvel afirmar que para o realismo o primordial eram os universais (Plato diria as idias, as formas; ns, os conceitos abstratos), e para o nominalismo, os indivduos. A histria da filosofia no um vo museu de distraes e jogos verbais; verossimilmente, as duas teses correspondem a duas maneiras de intuir a realidade. Maurice de

  • Wulf escreve: "O ultra-realismo recolheu as primeiras adeses. O cronista Heriman (sculo XI) denomina antiqui doctores aqueles que ensinam a dialtica in re; Abelardo refere-se a ela como uma "antiga doutrina", e at o fim do sculo XII seus adversrios so chamados pelo nome de moderni". Uma tese agora inconcebvel pareceu evidente no sculo IX e de certo modo perdurou at o sculo XIV O nominalismo, outrora novidade de uns poucos, hoje abarca todas as pessoas; sua vitria to vasta e fundamental que seu nome intil. Ningum se declara nominalista porque no h quem seja outra coisa. Mas procuremos entender que, para os homens da Idade Mdia, o substantivo no eram os homens, e sim a humanidade, no os indivduos, e sim a espcie, no as espcies, e sim o gnero, no os gneros, e sim Deus. De tais conceitos (cuja manifestao mais clara talvez seja o qudruplo sistema de Ergena) adveio, em meu entender, a literatura alegrica. Esta fbula de abstraes, assim como o romance o de indivduos. As abstraes so personificadas; por isso, em toda alegoria h algo de romanesco. Os indivduos que os romancistas propem aspiram a ser genricos (Dupin a razo, Dom Segundo Sombra o Gacho); os romances contm um elemento alegrico.

    A passagem da alegoria ao romance, de espcies a indivduos, do realismo ao nominalismo, demandou alguns sculos, mas ouso apontar uma data ideal. Aquele dia de 1382 em que Geoffrey Chaucer, que talvez no se julgasse nominalista, tentou traduzir para o ingls o verso de Boccaccio "E con gli occulti ferri i Tradimenti" ("E com ferros ocultos as Traies") e o reproduziu deste modo: "The smyler with the knyf under the cloke" ("Aquele que sorri, com o punhal sob a capa"). O original est no stimo livro da Teseida; a verso, em Knightes Tale.

    Buenos Aires, 1949.

  • NOTA SOBRE (PARA) BERNARD SHAW

    Em fins do sculo XIII, Raimundo Llio (Ramn Llull) prontificou-se a elucidar todos os arcanos mediante um mecanismo de discos concntricos, desiguais e giratrios, subdivididos em setores com palavras latinas; John Stuart Mill, no incio do sculo XIX, temeu que um dia se esgotasse o nmero de combinaes musicais e que no futuro no houvesse lugar para indefinidos Webers e Mozarts; Kurd Lasswitz, em fins do XIX, aventou a perturbadora fantasia de uma biblioteca universal, que registrasse todas as variaes dos vinte e tantos smbolos ortogrficos, ou seja, tudo que possvel exprimir, em todas as lnguas. A mquina de Llio, o temor de Mill e a catica biblioteca de Lasswitz podem ser objeto de escrnio, mas exageram uma propenso que comum: fazer da metafsica, e das artes, uma sorte de jogo combinatrio. Aqueles que praticam esse jogo esquecem que um livro mais que uma estrutura verbal, ou que uma srie de estruturas verbais; o dilogo que trava com seu leitor, e a entonao que impe a sua voz, e as mutveis e duradouras imagens que ele deixa na memria. Esse dilogo infinito; as palavras amica silentia lunae significam agora a lua ntima, silenciosa e resplandecente, enquanto na Eneida significaram o interlnio, a escurido que permitiu aos gregos entrar na cidadela de Tria...1 A literatura no esgotvel, pela suficiente e simples razo de que um nico livro no o . O livro no um ente incomunicado: uma relao, um eixo de inumerveis relaes. Uma literatura difere da outra, ulterior ou anterior, menos pelo texto que pelo modo que lida: se me fosse dado ler qualquer pgina atual esta, por exemplo como ser lida no ano 2000, eu saberia como ser a literatura do ano 2000. A concepo da literatura como jogo formal leva, no melhor dos casos, ao bom

    1 Assim foi interpretada por Milton e Dante, a julgar por certas passagens que parecem imitativas. Na

    Comdia (Inferno, I, 60; V, 28), temos: "dogni luce muto" e "dove il sol tace" para significar lugares escuros; no Samson Agonistes (86-89):

    The Sun to me is dark And silent as the Moon, When she deserts the night Hid in her vacant interlunar cave.

    Cf. E. M. Tillyard: The Miltonic Setting, 101.

  • trabalho do perodo e da estrofe, a um decoro arteso (Johnson, Renan, Flaubert) e, no pior, s incomodidades de uma obra feita de surpresas ditadas pela vaidade e pelo acaso (Gracin, Herrera y Reissig).

    Se a literatura no fosse mais que uma lgebra verbal, qualquer um poderia produzir qualquer livro, fora de provar variantes. A lapidar frmula "Tudo flui" resume em duas palavras a filosofia de Herclito: Raimundo Llio diria que, dada a primeira, basta experimentar os verbos intransitivos para descobrir a segunda e, por obra do metdico acaso, obter essa filosofia, alm de muitssimas outras. Caberia responder que a frmula obtida por eliminao careceria de valor e at de sentido; para que tivesse alguma virtude, deveramos conceb-la em funo de Herclito, em funo de uma experincia de Herclito, mesmo que "Herclito" fosse apenas o presumvel sujeito dessa experincia. Afirmei que um livro um dilogo, uma forma de relao; no dilogo, um interlocutor no a soma ou a mdia daquilo que diz: pode no falar e transparecer que inteligente, pode emitir observaes inteligentes e transparecer estupidez. Com a literatura ocorre o mesmo; DArtagnan executa inmeras faanhas enquanto Dom Quixote surrado e escarnecido, mas sente-se mais o valor de Dom Quixote. Isso nos leva a um problema esttico at hoje no formulado: pode um autor criar personagens superiores a ele? Eu responderia que no, e minha negativa incluiria tanto o plano intelectual como o moral. Penso que de ns no saem criaturas mais lcidas nem mais nobres que nossos melhores momentos. Nesse parecer fundamento minha convico sobre a preeminncia de Shaw. As questes sindicais e municipais de suas primeiras obras perdero o interesse, se que j no o perderam; os gracejos dos Pleasant Plays correm o risco de um dia tornarem-se no menos incmodos que os de Shakespeare (o humorismo , suspeito, um gnero oral, um sbito favor da conversa, no uma coisa escrita); a fonte de suas eloqentes tiradas e das idias expostas em seus prefcios pode ser encontrada em Schopenhauer e em Samuel Butler;2 mas Lavnia, Blanco Posnet, Kreegan, Shotover, Richard Dudgeon e, sobretudo, Jlio Csar superam qualquer personagem imaginado pela arte de nosso tempo. Pensar em Monsieur Teste ao lado deles ou no histrinico Zaratustra de Nietzsche intuir com assombro e at com escndalo a primazia de Shaw. Em 1911, Albert Soergel pde escrever, repetindo um lugar-comum da poca: "Bernard Shaw um aniquilados do conceito herico, um matador de heris" (Dichtung und Dichter der Zeit, 214); no concebia que o herico pudesse prescindir do romntico e encarnar no capito Bluntschli de Arms and the Man, no em Srgio Saranoff...

    2 Tambm em Swedenborg. Em Man and Superman l-se que o Inferno no um estabelecimento penal,

    e sim um estado que os pecadores mortos escolhem por motivos de ntima afinidade, como os bem-aventurados o Cu; o tratado De Coelo et Inferno, de Swedenborg, publicado em 1758, apresenta a mesma doutrina.

  • A biografia de Bernard Shaw escrita por Frank Harris contm uma admirvel carta daquele, da qual transcrevo estas palavras: "Eu compreendo tudo e todos e sou nada e sou ningum". Desse nada (to comparvel ao de Deus antes de criar o mundo, to comparvel divindade primordial que outro irlands, Joo Escoto Ergena, chamou Nihil), Bernard Shaw eduziu quase inumerveis personagens, ou dramatis personae: o mais efmero ser, suspeito, aquele G. B. S. que o representou perante os outros e que derramou tantas agudezas fceis nas colunas dos jornais.

    Os temas fundamentais de Shaw so a filosofia e a tica: natural e inevitvel que ele no seja valorizado neste pas, ou que o seja unicamente em funo de alguns epigramas. O argentino sente que o universo no passa de uma manifestao do acaso, do fortuito concurso dos tomos de Demcrito; a filosofia no lhe interessa. A tica tambm no: para ele, o social reduz-se a um conflito de indivduos, ou de classes, ou de naes, em que tudo lcito, salvo ser escarnecido ou vencido. O carter do homem e suas variaes so o tema essencial do romance de nosso tempo; a lrica a complacente magnificao de venturas ou desventuras amorosas; as filosofias de Heidegger e Jaspers fazem de cada um de ns o interessante interlocutor de um dilogo secreto e contnuo com o nada ou com a divindade; tais disciplinas, que formalmente podem ser admirveis, fomentam essa iluso do eu que o Vedanta reprova como erro capital. Costumam afetar desespero e angstia, mas no fundo contentam a vaidade; so, nesse sentido, imorais. A obra de Shaw, ao contrrio, deixa um sabor de libertao. O sabor das doutrinas do Prtico e o sabor das sagas.

    Buenos Aires, 1951.

  • HISTRIA DOS ECOS DE UM NOME

    Isolados no tempo e no espao, um deus, um sonho e um homem que est louco, e que no o ignora, repetem uma obscura declarao; narrar e pesar essas palavras, e seus dois ecos, a finalidade destas pginas.

    A lio original famosa. Consta no terceiro captulo do segundo livro de Moiss, chamado xodo. Lemos a que o pastor de ovelhas, Moiss, autor e protagonista do livro, perguntou a Deus Seu Nome e Ele respondeu: "Eu Sou Aquele que Sou". Antes de examinar essas misteriosas palavras, talvez no seja ocioso lembrar que para o pensamento mgico, ou primitivo, os nomes no so smbolos arbitrrios, e sim parte vital daquilo que definem.1 Assim, os aborgines da Austrlia recebem nomes secretos que jamais devem ser ouvidos pelos indivduos da tribo vizinha. Entre os antigos egpcios prevaleceu um costume anlogo; cada pessoa recebia dois nomes: um nome pequeno, que era por todos conhecido, e o nome verdadeiro, ou grande nome, que era mantido oculto. Segundo a literatura funerria, so muitos os perigos que corre a alma depois da morte do corpo; esquecer o nome (perder a identidade pessoal) talvez o maior. Tambm importa conhecer os verdadeiros nomes dos deuses, dos demnios e das portas do outro mundo.2 Jacques Vandier escreve: "Basta saber o nome de uma divindade ou de uma criatura divinizada para t-la em seu poder" (La Religion gyptienne,1949). De Quincey, por seu lado, lembra-nos que era secreto o verdadeiro nome de Roma; nos ltimos dias da Repblica, Quinto Valrio Sorano cometeu o sacrilgio de revel-lo, e foi executado...

    O selvagem oculta seu nome para que este no seja submetido a operaes mgicas, que poderiam matar, enlouquecer ou escravizar seu possuidor. Nos conceitos de calnia e injria perdura essa superstio, ou sua sombra; no toleramos que certas palavras sejam vinculadas ao som de nosso nome. Mauthner j analisou e condenou esse hbito mental.

    Moiss perguntou ao Senhor qual era Seu nome: no se tratava, como vimos, de uma curiosidade de ordem filolgica, e sim de indagar quem era

    1 Um dos dilogos platnicos, o Crtilo, discute e parece negar um vnculo necessrio entre as palavras e

    as coisas.

    2 Os gnsticos herdaram ou redescobriram essa singular opinio. Formou-se assim um vasto vocabulrio

    de nomes prprios, que Basilides (segundo Ireneu) reduziu cacofnica ou cclica palavra Kaulakau, espcie de chave universal de todos os cus.

  • Deus, ou, mais precisamente, o que Ele era. (No sculo IX, Ergena escreveria que Deus no sabe quem nem o que , porque no um qu nem um quem.)

    Que interpretaes suscitou a tremenda resposta que Moiss escutou? Segundo a teologia crist, "Eu Sou Aquele que Sou" declara que s Deus existe realmente ou, como ensinou o Maggid de Mesritch, que a palavra eu s pode ser pronunciada por Deus. A doutrina de Spinoza, que faz da extenso e do pensamento meros atributos de uma substncia eterna, que Deus, bem pode ser uma magnificao desta idia: "Deus existe, sim; ns que no existimos", escreveu um mexicano, analogamente.

    Segundo essa primeira interpretao, "Eu Sou Aquele que Sou" uma afirmao ontolgica. Outros entenderam que a resposta elude a pergunta. Deus no diz quem , porque isso excederia a compreenso de seu interlocutor humano. Martin Buber indica que "Ehych asher ehych" tambm pode ser traduzido por "Eu sou aquele que serei" ou por "Eu estarei onde estarei". Moiss, maneira dos feiticeiros egpcios, teria perguntado a Deus como Ele se chamava a fim de t-lo em seu poder; de fato, Deus teria respondido: "Hoje converso contigo, mas amanh posso revestir qualquer forma, e tambm as formas da opresso, da injustia e da adversidade". Lemos isso no Gog und Magog.3

    Multiplicado pelas lnguas humanas Ich bin der ich bin, Ego sum qui sum, I am that I am , o sentencioso nome de Deus, o nome que, a despeito de constar de muitas palavras, mais impenetrvel e mais firme que os que constam de uma nica, cresceu e reverberou pelos sculos, at que em 1602 William Shakespeare escreveu uma comdia. Nessa comdia entrevemos, muito lateralmente, um soldado fanfarro e covarde, um miles gloriosos, que, por meio de um estratagema, consegue ser promovido a capito. O ardil descoberto, o homem degradado publicamente, e ento Shakespeare intervm e pe em sua boca palavras que refletem, como em um espelho cado, aquelas outras que a divindade pronunciou na montanha: "No serei mais capito, mas hei de comer, e beber, e dormir como um capito; isto que sou me far viver". Assim fala Parolles e bruscamente deixa de ser um personagem convencional da farsa cmica para ser um homem e todos os homens.

    A ltima verso veio luz em mil setecentos e quarenta e tantos, em um dos anos que durou a longa agonia de Swift, que para ele talvez tenham sido um nico instante insuportvel, uma forma da eternidade do inferno. De inteligncia glacial e de dio glacial vivera Swift, mas sempre fascinado pela idiotia (assim como ocorreria com Flaubert), talvez por saber que a loucura o esperava nos confins. Na terceira parte de Gulliver, ele imaginou com

    3 Buber (Was ist der Mensch?, 1938) escreve que viver penetrar em um estranho aposento do esprito,

    cujo cho o tabuleiro onde jogamos um jogo inevitvel e desconhecido contra um adversrio cambiante e por vezes pavoroso.

  • minucioso desprezo uma estirpe de homens decrpitos e imortais, entregues a dbeis apetites que no podem satisfazer, incapazes de conversar com seus semelhantes, porque o decorrer do tempo modificou a linguagem, e de ler, porque sua memria insuficiente para passar de uma linha a outra. Pode-se suspeitar que Swift imaginou esse horror porque o temia, ou quem sabe para esconjur-lo magicamente. Em 1717 dissera a Young, o dos Night Thoughts: "Sou como esta rvore; comearei a morrer pela copa". Mais que na seqncia de seus dias, Swift perdura para ns em algumas poucas frases terrveis. Esse carter sentencioso e sombrio s vezes estende-se ao que se diz sobre ele, como se aqueles que o julgam no quisessem ficar para trs. "Pensar nele como pensar na runa de um grande imprio", escreveu Thackeray. Mas nada to pattico quanto sua aplicao das misteriosas palavras de Deus.

    A surdez, a vertigem, o medo da loucura e, por fim, a idiotia agravaram-se e foram aprofundando a melancolia de Swift. Comeou a perder a memria. Negava-se a usar culos, no podia ler e era incapaz de escrever. Todos os dias implorava a Deus que lhe enviasse a morte. At que uma tarde, velho, louco e j moribundo, ouviram-no repetir, no sabemos se com resignao, com desespero, ou como quem se afirma e se ancora em sua ntima essncia invulnervel: "Sou aquilo que sou, sou aquilo que sou".

    "Serei uma desventura, mas sou", ter sentido Swift, e tambm "Sou uma parte do universo, to inevitvel e necessria quanto as outras", e tambm "Sou o que Deus quer que eu seja, sou o que de mim fizeram as leis universais", e quem sabe "Ser ser tudo".

    Aqui termina a histria da sentena; quero apenas acrescentar, a modo de eplogo, as palavras que, j perto de morrer, Schopenhauer disse a Eduard Grisebach: "Se por vezes julguei-me infeliz, isso deve-se a uma confuso, a um erro. Tomei-me por outro, Verbi gratia, por um suplente que no consegue chegar a titular, ou pelo acusado em um processo de difamao, ou pelo apaixonado que essa jovem desdenha, ou pelo doente que no pode sair de casa, ou por outras pessoas que padecem de anlogas misrias. No fui essas pessoas; elas foram, se tanto, o tecido das roupas que vesti e descartei. Quem sou realmente? Sou o autor de O Mundo como Vontade e Representao, sou aquele que deu uma resposta ao enigma do Ser, que ocupar os pensadores dos sculos vindouros. Esse sou eu, e quem poderia discuti-lo nos anos de vida que ainda me restam?". Justamente por ter escrito O Mundo como Vontade e Representao, Schopenhauer sabia muito bem que ser um pensador to ilusrio quanto ser um doente ou um desdenhado e que ele era outra coisa, profundamente. Outra coisa: a vontade, a obscura raiz de Parolles, a coisa que era Swift.

  • O PUDOR DA HISTRIA

    No dia 20 de setembro de 1792, Johann Wolfgang von Goethe (que acompanhara o duque de Weimar em um passeio militar a Paris) viu o primeiro exrcito da Europa ser inexplicavelmente repelido em Valmy por algumas milcias francesas e disse a seus desconcertados amigos: "Neste lugar e no dia de hoje, inaugura-se uma poca na histria do mundo, e podemos dizer que assistimos a sua origem". Depois desse dia, houve muitssimas jornadas histricas, e uma das tarefas dos governos (especialmente na Itlia, na Alemanha e na Rssia) foi forj-las ou simul-las, com profuso de prvia propaganda e persistente publicidade. Tais jornadas, nas quais se percebe a influncia de Cecil B. de Mille, tm menos relao com a histria que com o jornalismo: eu tenho suspeitado que a histria, a verdadeira histria, mais pudorosa e que suas datas essenciais podem ser, at, durante muito tempo, secretas. Um prosador chins observou que o unicrnio, em razo mesmo de sua anomalia, passaria inadvertido. Os olhos vem o que esto habituados a ver. Tcito no reparou na Crucificao, embora seu livro a registre.

    Cheguei a essa reflexo graas a uma frase casual que entrevi ao folhear uma histria da literatura grega e que despertou meu interesse, por ser ligeiramente enigmtica. Eis aqui a frase: "He brought in a second actor" (ele trouxe um segundo ator). Detive-me, constatei que o sujeito dessa misteriosa ao era Esquilo e que este, segundo o que se l no quarto captulo da Potica de Aristteles, "elevou de um a dois o nmero de atores". Sabe-se que o drama nasceu da religio de Dionsio; originalmente, um nico ator, o hipcrita, alado pelos coturnos, trajando preto ou prpura e com o rosto aumentado por uma mscara, dividia a cena com os doze indivduos do coro. O drama era uma das cerimnias do culto e, como todo ritual, correu em algum momento o risco de tornar-se invarivel. Isso poderia ter acontecido, mas um dia, quinhentos anos antes da era crist, os atenienses viram com maravilha e talvez com escndalo (Victor Hugo levantou a segunda hiptese) a no anunciada apario de um segundo ator. Naquele dia de uma primavera remota, naquele teatro da cor do mel, o que eles tero pensado, o que sentiram exatamente? Talvez nem estupor nem escndalo; talvez apenas um princpio de assombro. Nas

  • Tusculanas consta que Esquilo ingressou na ordem pitagrica, mas nunca saberemos se pressentiu, sequer de modo imperfeito, quo significativa era essa passagem do um ao dois, da unidade pluralidade, e assim at o infinito. Com o segundo ator entraram em cena o dilogo e as indefinidas possibilidades da reao de uns personagens sobre outros. Um espectador proftico teria visto que ele vinha acompanhado por multides de aparncias futuras: Hamlet, e Fausto, e Sigismundo, e Macbeth, e Peer Gynt, e outros que nossos olhos ainda no podem discernir.

    Outra jornada histrica descobri em minhas leituras. Aconteceu na Islndia, no sculo XIII de nossa era; digamos, em 1225. Para a instruo das futuras geraes, o historiador e polgrafo Snorri Sturluson, em sua chcara de Borgarfjord, escrevia a ltima empreitada do famoso rei Harald Sigurdarson, chamado o Implacvel (Hardrada), que antes militara em Bizncio, na Itlia e na frica. Tostig, irmo do rei saxo da Inglaterra, Harold Filho de Godwin, cobiava o poder e contava com o apoio de Harald Sigurdarson. Com um exrcito noruegus, desembarcaram na costa oriental e tomaram o castelo de Jorvik (York). Ao sul de Jorvik, fez-lhes frente o exrcito saxo. Expostos os fatos anteriores, prossegue o texto de Snorri: "Vinte cavaleiros achegaram-se s fileiras do invasor; os homens, e tambm os cavalos, estavam revestidos de ferro. Um dos cavaleiros gritou:

    " Est aqui o conde Tostig? " No nego estar aqui disse o conde. " Se verdadeiramente s Tostig disse o cavaleiro , venho dizer-te que

    teu irmo oferece a ti seu perdo e um tero do reino. " Se eu aceitar disse Tostig , que dar ele ao rei Harald Sigurdarson? " Ele no foi esquecido respondeu o cavaleiro. Receber sete palmos

    de terra inglesa e, j que to alto, mais um. " Ento disse Tostig dize a teu rei que lutaremos at a morte. "Os cavaleiros se retiraram. Harald Sigurdarson perguntou, pensativo: " Quem era esse cavaleiro que to bem falou? " Harold Filho de Godwin". Outros captulos relatam que, antes de declinar o sol desse dia, o exrcito

    noruegus foi derrotado. Harald Sigurdarson pereceu na batalha, e tambm o conde (Heimskringla, X, 92).

    H um sabor que nosso tempo (talvez farto das toscas imitaes perpetradas pelos profissionais do patriotismo) no costuma perceber sem certo receio: o elementar sabor do herico. Asseguram-me que o Poema del Cid encerra esse sabor; eu o senti, inconfundvel, em versos da Eneida ("Filho, aprende de mim valor e verdadeira firmeza; de outros, o xito"), na balada anglo-sax de Maldon ("Meu povo pagar o tributo com lanas e velhas espadas"), na Cano de Rolando, em Victor Hugo, em Whitman e em

  • Faulkner ("a alfazema, mais forte que o cheiro dos cavalos e da coragem"), no Epitfio para um Exrcito de Mercenrios, de Housman, e nos "sete palmos de terra inglesa" da Heimskringla. Por trs da aparente simplicidade do historiador h um delicado jogo psicolgico. Harold finge no reconhecer o irmo, para que este, por sua vez, perceba que no deve reconhec-lo; Tostig no o trai, mas tampouco trair seu aliado; Harold, disposto a perdoar o irmo, mas no a tolerar a intromisso do rei da Noruega, procede de modo muito compreensvel. Nada direi sobre a destreza verbal de sua resposta: dar um tero do reino, dar sete palmos de terra.1

    H somente uma coisa mais admirvel que a admirvel resposta do rei saxo: a circunstncia de que seja um irlands, um homem do sangue dos vencidos, quem a tenha perpetuado. como se um cartagins tivesse legado a memria da faanha de Rgulo. Com razo escreveu Saxo Grammaticus em sua Gesta Danorum: "Os homens de Tule (Islndia) deleitam-se em aprender e registrar a histria de todos os povos e no consideram menos glorioso publicar as excelncias alheias que as prprias".

    No o dia em que o saxo proferiu suas palavras, mas aquele em que um inimigo as perpetuou marca uma data histrica. Uma data proftica de algo que ainda est no futuro: o olvido de sangues e naes, a solidariedade do gnero humano. A oferta deve sua virtude ao conceito de ptria; Snorri, ao relat-la, supera e transcende tal conceito.

    Outro tributo a um inimigo lembro nos ltimos captulos de Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence; este exalta a coragem de um destacamento alemo e escreve as seguintes palavras: "Ento, pela primeira vez nesta campanha, senti orgulho dos homens que mataram meus irmos". Para em seguida acrescentar: "They were glorious".

    Buenos Aires, 1952.

    1 Carlyle (Early Kings of Norway, XI) desbarata, com uma infeliz adio, essa economia. Aos sete palmos de terra acrescenta for a grave ("para sepultura").

  • NOVA REFUTAO DO TEMPO

    Vor mir war keine Zeit, nach mir wird keine seyn. Mit mir gebiert sie sich, mit mir geht sie auch ein.1

    DANIEL VON CZEPKO: Sexcenta Monodisticha Sapientum, III, 1655.

    NOTA PRELIMINAR

    Se publicada em meados do sculo XVIII, esta refutao (ou seu nome) perduraria nas bibliografias de Hume e talvez tivesse merecido uma linha de Huxley ou de Kemp Smith. Publicada em 1947 depois de Bergson , a anacrnica reductio ad absurdum de um sistema pretrito ou, o que pior, o precrio artifcio de um argentino extraviado na metafsica. Ambas as conjeturas so verossmeis e talvez verdadeiras; para corrigi-las, no posso prometer, em troca de minha dialtica rudimentar, uma concluso inaudita. A tese que propalarei to antiga quanto a flecha de Zeno ou a carruagem do rei grego, no Milinda Paha;2 a novidade, se que h alguma, consiste em aplicar a esse fim o clssico instrumento de Berkeley. Este e seu continuador, David Hume, so prdigos em pargrafos que contradizem ou excluem minha tese; creio ter deduzido, no obstante, a conseqncia inevitvel de sua doutrina.

    O primeiro artigo ("A") de 1944 e apareceu no nmero 115 da revista Sur; o segundo, de 1946, uma reviso do primeiro. Deliberadamente, no

    1 "Antes de mim no existia o tempo, depois de mim no existir. / Comigo ele veio ao mundo, tambm

    comigo perecer." (N. da T.)

    2 No h exposio do budismo que deixe de mencionar o Milinda Paha, obra apologtica do sculo II,

    que relata um debate cujos interlocutores so o rei da Bactriana, Menandro, e o monge Nagasena. Este argumenta que, assim como a carruagem do rei no as rodas, nem a caixa, nem o eixo, nem a lana, nem o jugo, tampouco o homem a matria, a forma, as impresses, as idias, os instintos ou a conscincia. No a combinao dessas partes nem existe fora delas... Ao trmino de uma controvrsia de muitos dias, Menandro (Milinda) converte-se f de Buda.

    O Milinda Paha foi vertido para o ingls por Rhys Davids (Oxford, 1890-1894).

  • fundi os dois em um s, por entender que a leitura de dois textos anlogos pode facilitar a compreenso de uma matria indcil.

    Uma palavra sobre o ttulo. No me escapa que este um exemplo do monstro que os lgicos denominaram contradictio in adjecto, pois dizer que nova (ou antiga) uma refutao do tempo atribuir-lhe um predicado de ndole temporal, que instaura a noo que o sujeito pretende destruir. Ainda assim, prefiro mant-lo, para que seu ligeirssimo escrnio prove que no exagero a importncia desses jogos verbais. De mais a mais, to saturada e animada de tempo est nossa linguagem que bem provvel que no haja nestas pginas uma sentena que de certo modo no o exija ou invoque.

    Dedico estes exerccios a meu antepassado Juan Crisstomo Lafinur (1797-1824), que legou s letras argentinas algum decasslabo memorvel e que tentou reformar o ensino da filosofia, purificando-o de sombras teolgicas e expondo na ctedra os princpios de Locke e de Condillac. Morreu no desterro; couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver.

    J. L. B.

    Buenos Aires, 23 de dezembro de 1946.

  • A

    I

    No decorrer de uma vida consagrada s letras e (vez por outra) perplexidade metafsica, pude divisar ou pressentir uma refutao do tempo, da qual eu mesmo descreio, mas que costuma visitar-me noite e no exausto crepsculo, com ilusria fora de axioma. Essa refutao est, de certo modo, em todos os meus livros: prefigura-se nos poemas "Inscrio em qualquer sepulcro" e "O truco", de meu Fervor de Buenos Aires (1923); declarada em certa pgina de Evaristo Carriego (1930) e no conto "Sentir-se em morte", que transcrevo mais adiante. Nenhum dos textos que enumerei me satisfaz, nem sequer o penltimo da srie, menos demonstrativo e racional que divinatrio e pattico. Tentarei fundamentar todos eles com este escrito.

    Dois argumentos me encaminharam a esta refutao: o idealismo de Berkeley e o princpio dos indiscernveis, de Leibniz.

    Berkeley (Principies of Human Knowledge, 3) observou: "Todos ho de admitir que nem nossos pensamentos, nem nossas paixes, nem as idias formadas por nossa imaginao existem sem a mente. No menos claro para mim que as diversas sensaes ou idias impressas nos sentidos, de qualquer modo que se combinem (isto , qualquer que seja o objeto que elas formem), s podem existir em uma mente que as perceba... Afirmo que esta mesa existe; ou seja, eu a vejo e a toco. Se, estando fora de meu escritrio, eu fizer a mesma afirmao, s quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse, ou que algum outro esprito a percebe... Falar da existncia absoluta de coisas inanimadas, sem relao com o fato de serem ou no percebidas, para mim insensato. Seu esse est percipi; impossvel elas existirem fora das mentes que as percebem". No pargrafo 23 acrescentou, prevenindo objees: "Mas, direis, nada mais fcil que imaginar rvores em um prado ou livros em uma biblioteca, sem ningum por perto para perceb-los. De fato, nada mais fcil. Mas eu pergunto: que fizestes seno formar na mente algumas idias a que chamais livros ou rvores e, ao mesmo tempo, omitir a idia de algum que as percebe? Ao faz-lo, por acaso no pensveis essas coisas? No nego que a mente seja capaz de imaginar idias; nego que os objetos possam existir fora da mente". Em outro pargrafo, o sexto, ele j declarara: "H verdades to claras que para v-las

  • basta-nos abrir os olhos. Uma delas a importante verdade: Todo o coro do cu e os aditamentos da terra todos os corpos que compem a poderosa fbrica do universo no existem fora de uma mente; no tm outro ser salvo serem percebidos; no existem quando no os pensamos, ou s existem na mente de um Esprito Eterno".

    Essa , nas palavras de seu inventor, a doutrina idealista. Entend-la fcil; difcil pensar dentro de seus limites. O prprio Schopenhauer, ao exp-la, comete negligncias reprovveis. Nas primeiras linhas do primeiro livro de seu Welt als Wille und Vorstellung ano de 1819 formula a seguinte declarao, que o faz merecedor da perene perplexidade de todos os homens: "O mundo minha representao. O homem que confessa esta verdade sabe claramente que no conhece um sol nem uma terra, mas to-somente uns olhos que vem um sol e umas mos que sentem o contato de uma terra". Ou seja, para o idealista Schopenhauer, os olhos e as mos do homem so menos ilusrios ou aparenciais que a terra e o sol. Em 1844, ele publica um volume complementar. Logo no primeiro captulo redescobre ou agrava o antigo erro: define o universo como um fenmeno cerebral e distingue "o mundo na cabea" do "mundo fora da cabea". Mas, em 1713, Berkeley j fizera Philonous dizer: "O crebro de que falas, sendo uma coisa sensvel, s pode existir na mente. Gostaria de saber se julgas razovel a conjetura de que uma idia ou coisa na mente ocasione todas as outras. Se responderes que sim, como explicarias a origem dessa idia primria chamada crebro?". Ao dualismo ou cerebrismo de Schopenhauer tambm justo contrapor o monismo de Spiller. Este (The Mind of Man, captulo VIII, 1902) argi que a retina e a superfcie cutnea invocadas para explicar o visual e o ttil so, por sua vez, dois sistemas tteis e visuais e que o recinto que enxergamos (o "objetivo") no maior que o imaginado (o "cerebral") e no o contm, por se tratar de dois sistemas visuais independentes. Berkeley (Principies of Human Knowledge, 10 e 116) tambm negou as qualidades primrias a solidez e a extenso das coisas e o espao absoluto.

    Berkeley afirmou a existncia contnua dos objetos, pois, quando nenhum indivduo os percebe, eles so percebidos por Deus; Hume, com mais lgica, nega tal existncia (Treatise of Human Nature, 1, 4, 2); Berkeley afirmou a identidade pessoal, "porque eu no sou meramente minhas idias, e sim outra coisa: um princpio ativo e pensante" (Dialogues, 3); Hume, o ctico, tambm a refuta e faz de cada homem "uma coleo ou feixe de percepes, que se sucedem umas s outras com inconcebvel rapidez" (obra citada, I, 4, 6). Ambos afirmam o tempo: para Berkeley, "a sucesso de idias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge, 98); para Hume, "uma sucesso de momentos indivisveis" (obra citada, I, 2, 2).

  • Acumulei acima citaes dos apologistas do idealismo, prodigalizei suas passagens cannicas, fui iterativo e explcito, censurei Schopenhauer (no sem ingratido), para que meu leitor fosse penetrando nesse instvel mundo mental. Um mundo de impresses evanescentes; um mundo sem matria nem esprito, nem objetivo nem subjetivo; um mundo sem a arquitetura ideal do espao; um mundo feito de tempo, do absoluto tempo uniforme dos Principia; um labirinto incansvel, um caos, um sonho. A essa quase perfeita desagregao chegou David Hume.

    Uma vez aceito o argumento idealista, entendo que possvel talvez inevitvel ir alm. Para Hume, no lcito falar da forma da lua ou de sua cor; a forma e a cor so a lua; tampouco se pode falar das percepes da mente, j que a mente no passa de uma srie de percepes. O "penso, logo existo" cartesiano fica invalidado; dizer "penso" postular o eu, uma petio de princpio; Lichtenberg, no sculo XVIII, props que em lugar de "penso" dissssemos impessoalmente "pensa", como quem diz "troveja" ou "relampeja". Repito: no h por trs dos rostos um eu secreto, a governar os atos e a captar as impresses; somos apenas a srie desses atos imaginrios e dessas impresses errantes. A srie? Negados o esprito e a matria, que so continuidades, negado tambm o espao, no sei que direito ns temos a essa continuidade que o tempo. Imaginemos um presente qualquer. Em uma das noites do Mississipi, Huckleberry Finn acorda; a jangada, perdida na escurido parcial, segue rio abaixo; faz, talvez, um pouco de frio. Huckleberry Finn reconhece o manso rumor incansvel da gua; abre os olhos com negligncia; v um vago nmero de estrelas, v uma linha indistinta que so as rvores; em seguida, mergulha no sono imemorial como em uma gua escura.1 A metafsica idealista declara que acrescentar a essas percepes uma substncia material (o objeto) e uma substncia espiritual (o sujeito) temerrio e intil; eu afirmo que no menos ilgico pensar que so termos de uma srie cujo princpio to inconcebvel quanto seu fim. Acrescentar ao rio e margem percebidos por Huck a noo de outro rio substantivo de outra margem, acrescentar outra percepo a essa rede imediata de percepes , para o idealismo, injustificvel; para mim, no menos injustificvel acrescentar uma preciso cronolgica: o fato, por exemplo, de o evento ter ocorrido na noite de 7 de junho de 1849, entre quatro e dez e quatro e onze. Em outras palavras: nego, com argumentos do idealismo, a vasta srie temporal que o idealismo admite. Hume negou a existncia de um espao absoluto, em que cada coisa tem seu lugar; eu, a de um nico tempo, em que todos os fatos se encadeiam. Negar a coexistncia no menos rduo que negar a sucesso.

    1 Para facilidade do leitor, escolhi um instante entre dois sonhos, um instante literrio, no histrico. Se

    algum suspeitar de uma falcia, poder intercalar outro exemplo; de sua prpria vida, se quiser.

  • Nego, em um elevado nmero de casos, a sucessividade; nego, em um elevado nmero de casos, tambm a simultaneidade. Engana-se o amante que pensa "enquanto eu estava feliz da vida, pensando na fidelidade de meu amor, ela me enganava": se cada estado que vivemos absoluto, essa felicidade no foi contempornea dessa traio; a descoberta da traio mais um estado, incapaz de modificar os "anteriores", embora no sua lembrana. A desventura de hoje no mais real que a ventura pretrita. Busco um exemplo mais concreto. No incio de agosto de 1824, o capito Isidoro Surez, frente de um esquadro de hussardos do Peru, decidiu a vitria de Junn; no incio de agosto de 1824, De Quincey publicou uma diatribe contra Wilhelm Meisters Lehrjahre; tais fatos no foram contemporneos (agora o so), porque os dois homens morreram, aquele na cidade de Montevidu, este em Edimburgo, sem nada saber um do outro... Cada instante autnomo. Nem a vingana, nem o perdo, nem as prises, nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnervel passado. No menos vos parecem-me a esperana e o medo, que sempre se referem a fatos futuros; ou seja, a fatos que no ocorrero conosco, que somos o minucioso presente. Dizem-me que o presente, o specious present dos psiclogos, dura entre alguns segundos e uma nfima frao de segundo; isso dura a histria do universo. Ou melhor, no existe tal histria, como no existe a vida de um homem, nem sequer uma de suas noites; existe cada momento que vivemos, no seu imaginrio conjunto. O universo, a soma de todos os fatos, uma coleo no menos ideal que a de todos os cavalos sonhada por Shakespeare um, muitos, nenhum? entre 1592 e 1594. Acrescento: se o tempo um processo mental, como podem compartilh-lo milhares de homens, ou mesmo dois homens distintos?

    O argumento dos pargrafos acima, interrompido e como que entorpecido de exemplos, pode parecer intrincado. Tentarei um mtodo mais direto. Tomemos uma vida ao longo da qual amidam as repeties: a minha, Verbi gratia. No passo diante de La Recoleta sem lembrar que a esto sepultados meu pai, meus avs e bisavs, assim como eu estarei; em seguida, lembro j ter lembrado o mesmo, inmeras vezes; no posso caminhar pelos subrbios na solido da noite sem pensar que esta nos agrada porque suprime os detalhes ociosos, como a lembrana; no posso lamentar a perda de um amor ou de uma amizade sem meditar que s se perde aquilo que no se teve realmente; cada vez que atravesso uma das esquinas do sul da cidade, penso em voc, Helena; cada vez que a brisa traz um cheiro de eucaliptos, penso em Adrogu, em minha infncia; cada vez que recordo o fragmento 91 de Herclito, "Nunca entrars duas vezes no mesmo rio", admiro sua destreza dialtica, pois a facilidade com que aceitamos o primeiro sentido ("O rio outro") impe-nos clandestinamente o outro ("Eu sou outro"), concedendo-nos a iluso de t-lo inventado; cada vez que ouo um germanfilo vituperar o Yiddish, penso que o

  • Yiddish , antes de mais nada, um dialeto alemo, pouco maculado pelo idioma do Esprito Santo. Essas tautologias (e outras que calo) so minha vida inteira. Naturalmente, elas se repetem sem preciso; h diferenas de nfase, de temperatura, de luz, de estado fisiolgico geral. Suspeito, porm, que o nmero de variaes circunstanciais no infinito: podemos postular, na mente de um indivduo (ou de dois indivduos que se ignoram, mas nos quais se d o mesmo processo), dois momentos iguais. Postulada essa igualdade, cabe perguntar: esses idnticos momentos no so o mesmo? No basta um nico termo repetido para desbaratar e confundir a srie do tempo? Os fervorosos que se entregam a uma linha de Shakespeare no so, literalmente, Shakespeare?

    Ignoro, ainda, a tica do sistema que acabo de esboar. No sei se existe. O quinto pargrafo do quarto captulo do tratado Sanhedrin da Mishnah declara que, para a justia de Deus, aquele que mata um nico homem destri o mundo; se no h pluralidade, quem aniquilasse todos os homens no seria mais culpado que o primitivo e solitrio Caim, o que ortodoxo, nem mais universal na destruio, o que pode ser mgico. Eu entendo que assim. As ruidosas catstrofes gerais incndios, guerras, epidemias so uma s dor, ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos. Assim o entende Bernard Shaw (Guide to Socialism, 86): "O que voc pode padecer o mximo que se pode padecer na terra. Se voc morrer de inanio, sofrer toda a inanio havida e por haver. Se dez mil pessoas morrerem com voc, a participao delas em sua sorte no o far ter dez mil vezes mais fome nem multiplicar por dez mil o tempo de sua agonia. No se deixe angustiar pela horrenda soma de padecimentos humanos; tal soma no existe. Nem a pobreza nem a dor so acumulveis". (Cf. tambm The Problem of Pain, VII, de C. S. Lewis.)

    Lucrcio (De Rerum Natura, I, 830) atribui a Anaxgoras a doutrina de que o ouro consta de partculas de ouro; o fogo, de fagulhas; o osso, de ossinhos imperceptveis. Josiah Royce, talvez influenciado por Santo Agostinho, entende que o tempo feito de tempo e que "todo presente em que algo ocorre tambm uma sucesso" (The World and the Individual, II, 139). Tal proposio compatvel com a deste trabalho.

    II

    Toda linguagem de ndole sucessiva; no apta para pensar o eterno, o intemporal. Aqueles que tenham acompanhado com desagrado a argumentao anterior talvez prefiram esta pgina de 1928. J a mencionei antes; trata-se do relato intitulado "Sentir-se em morte":

    "Quero registrar aqui uma experincia que tive algumas noites atrs: futilidade por demais evanescente e exttica para ser chamada de aventura; por

  • demais irracionvel e sentimental para pensamento. Trata-se de uma cena e de sua palavra: palavra j antedita por mim, mas no vivida com inteira dedicao at esse momento. Passo a histori-la, com os acidentes de tempo e de lugar que a revelaram.

    "Assim a rememoro. Na tarde que precedeu essa noite, estive em Barracas: localidade no visitada por meu hbito e cuja distncia das que depois percorri j deu um sabor estranho a esse dia. Sua noite no tinha destino algum; como era serena, sa para caminhar e recordar, depois do jantar. No quis impor um rumo a essa caminhada; dispus-me mxima latitude de probabilidades para no cansar a expectativa com a obrigatria anteviso de uma s delas. Realizei, na escassa medida do possvel, isso que chamam caminhar a esmo; sem outra consciente predeterminao seno evitar as avenidas ou ruas largas, aceitei os mais obscuros convites do acaso. Contudo, uma sorte de gravitao familiar empurrou-me a outros bairros, cujo nome quero sempre lembrar e que ditam reverncia a meu peito. No quero com isso significar o bairro meu, o preciso mbito da infncia, mas suas ainda misteriosas imediaes: confins que possu inteiro em palavras e pouco em realidade, vizinhos e mitolgicos a um s tempo. O reverso do conhecido, suas costas, so para mim essas ruas penltimas, quase to efetivamente ignoradas como o soterrado alicerce de nossa casa ou nosso invisvel esqueleto. A marcha levou-me a uma esquina. Aspirei noite, em serenssima folga de pensar. A viso, nada complicada em si, parecia simplificada por meu cansao. Tomava-a irreal sua prpria tipicidade. A rua era de casas baixas, e, embora seu primeiro significado fosse de pobreza, o segundo certamente era de felicidade. Era do mais pobre e do mais bonito que pode haver. Nenhuma casa se aventurava rua; a figueira escurecia a esquina; os portezinhos mais altos que as alongadas linhas das paredes pareciam trabalhados com a mesma substncia infinita da noite. A calada era uma escarpa sobre a rua, a rua era de barro elementar, barro da Amrica ainda no conquistado. Ao fundo, o beco, j pampiano, desbarrancava-se em direo ao Maldonado. Sobre a terra turva e catica, uma taipa rosada parecia no albergar luz de lua, mas efundir luz ntima. Difcil encontrar melhor maneira de nomear a ternura que esse rosado.

    "Fiquei olhando essa simplicidade. Pensei, certamente em voz alta: isto aqui o mesmo de trinta anos atrs... Imaginei a data: poca recente em outros pases, mas j remota neste mutvel lugar do mundo. Talvez cantasse um pssaro, e senti por ele um carinho pequeno, do tamanho de um pssaro; mas o mais certo que nesse j vertiginoso silncio no tenha havido outro rudo seno o tambm intemporal dos grilos. O fcil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade. Senti-me morto, senti-me um percebedor abstrato do mundo; indefinido temor imbudo de cincia, que a melhor claridade da

  • metafsica. No acreditei; no, ter remontado s presumveis guas do Tempo; antes, suspeitei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebvel palavra eternidade. S depois consegui definir essa imaginao.

    " assim que a escrevo, agora: essa pura representao de fatos homogneos noite em serenidade, murinho lmpido, cheiro provinciano de madressilva, barro fundamental no apenas idntica que existiu nessa esquina faz tantos anos; , sem semelhanas nem repeties, a mesma. O tempo, se podemos intuir essa identidade, uma deluso: a indiferena ou inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e outro de seu aparente hoje basta para desintegr-lo.

    " evidente que o nmero de tais momentos humanos no infinito. Os elementares os de sofrimento fsico e prazer fsico, os de aproximao do sono, os da audio de uma mesma msica, os de muita intensidade ou muito desalento so mais impessoais ainda. Arrisco esta concluso: a vida pobre demais para no ser tambm imortal. Mas nem nossa pobreza certa, posto que o tempo, facilmente refutvel no plano sensitivo, no o no intelectual, de cuja essncia o conceito de sucesso parece inseparvel. Fique, ento, no episdio emocional a vislumbrada idia, e na confessa irresoluo desta pgina o momento verdadeiro de xtase e a possvel insinuao de eternidade de que essa noite no me foi avara".

    B

    Das muitas doutrinas que a histria da filosofia registra, talvez a mais antiga e difundida seja o idealismo. A observao de Carlyle (Novalis, 1829); aos filsofos por ele mencionados caberia acrescentar, sem esperana de integrar o infinito censo, os platnicos, para quem a nica coisa real so os prottipos (Norris, Judas, Abravanel, Gemisto, Plotino), os telogos, para quem tudo que no seja a divindade contingente (Malebranche, Johannes Eckhart), os monistas, que fazem do universo um ocioso adjetivo do Absoluto (Bradley, Hegel, Parmnides)... O idealismo to antigo quanto a inquietude metafsica: seu apologista mais agudo, George Berkeley, floresceu no sculo XVIII; contrariamente ao que Schopenhauer declara (Welt als Wille und horstellung, II, 1), seu mrito no consistiu na intuio dessa doutrina, e sim nos argumentos que idealizou para justific-la. Berkeley usou-os contra a noo de matria; Hume aplicou-os conscincia; meu propsito aplic-los ao tempo. Antes recapitularei brevemente as diversas etapas dessa dialtica.

    Berkeley negou a matria. Isso no significa, entenda-se bem, que tenha negado as cores, os cheiros, os sabores, os sons e os contatos; o que ele negou foi que, alm dessas percepes, que compem o mundo externo, houvesse

  • dores que ningum sente, cores que ningum v, formas que ningum toca. Julgou que acrescentar uma matria s percepes acrescentar ao mundo um inconcebvel mundo suprfluo. Acreditou no mundo de aparncias que os sentidos urdem, mas entendeu que o mundo material (o de Toland, digamos) uma duplicao ilusria. Observou (Principles of Human Knowledge, 3): "Todos ho de admitir que nem nossos pensamentos, nem nossas paixes, nem as idias formadas por nossa imaginao existem sem a mente. No menos claro para mim que as diversas sensaes ou idias impressas nos sentidos, de qualquer modo que se combinem (isto , qualquer que seja o objeto que elas formem), s podem existir em uma mente que as perceba... Afirmo que esta mesa existe; ou seja, eu a vejo e a toco. Se, estando fora de meu escritrio, eu fizer a mesma afirmao, s quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse, ou que algum outro esprito a percebe... Falar da existncia absoluta de coisas inanimadas, sem relao com o fato de serem ou no percebidas, para mim insensato. Seu esse est percipi; impossvel elas existirem fora das mentes que as percebem". No pargrafo 23 acrescentou, prevenindo objees: "Mas, direis, nada mais fcil que imaginar rvores em um parque ou livros em uma biblioteca, sem ningum por perto para perceb-los. De fato, nada mais fcil. Mas eu pergunto: que fizestes seno formar na mente algumas idias a que chamais livros ou rvores e, ao mesmo tempo, omitir a idia de algum que as percebe? Ao faz-lo, por acaso no pensveis essas coisas? No nego que a mente seja capaz de imaginar idias; nego que os objetos possam existir fora da mente". No pargrafo 6, ele j declarara: "H verdades to claras que para v-las basta-nos abrir os olhos. Esta a importante verdade: Todo o coro do cu e os aditamentos da terra todos os corpos que compem a enorme fbrica do universo no existem fora de uma mente; no tm outro ser salvo serem percebidos; no existem quando no os pensamos, ou s existem na mente de um Esprito Eterno". (O deus de Berkeley um ubquo espectador cujo fim dar coerncia ao mundo.)

    A doutrina que acabo de expor foi perversamente interpretada. Herbert Spencer acredita refut-la (Principles of Psychology, VIII, 6), argumentando que, se no h nada fora da conscincia, esta deve ser infinita no tempo e no espao. O primeiro verdade se entendermos que todo tempo tempo percebido por algum, errneo se inferirmos que esse tempo deve, necessariamente, abarcar um nmero infinito de sculos; o segundo ilcito, j que, repetidas vezes, Berkeley (Principles of Human Knowledge, 116; Siris, 226) negou o espao absoluto. Mais indecifrvel ainda o erro em que incorre Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung, II, 1), ao ensinar que para os idealistas o mundo um fenmeno cerebral, quando Berkeley j escrevera (Dialogues Between Hylas and Philonus, II): "O crebro, como coisa sensvel, s pode existir na mente. Gostaria de saber se julgas razovel a conjetura de

  • que uma idia ou coisa na mente ocasione todas as outras. Se responderes que sim, como explicarias a origem dessa idia primria chamada crebro?". O crebro, efetivamente, no menos parte do mundo externo que a constelao de Centauro.

    Berkeley negou que houvesse um objeto por trs das impresses dos sentidos; David Hume, que houvesse um sujeito por trs da percepo das mudanas. Aquele negara a matria, este negou o esprito; aquele no quisera que acrescentssemos a noo metafsica de matria sucesso de impresses, este no quis que acrescentssemos a noo metafsica de um eu sucesso de estados mentais. To lgica essa ampliao dos argumentos de Berkeley que este j previra, como ressalta Alexander Campbell Fraser, e at procurou neg-la mediante o ergo sum cartesiano: "Se teus princpios forem vlidos, tu mesmo no sers mais que um sistema de idias flutuantes, no sustentadas por nenhuma substncia, pois to absurdo falar em substncia espiritual como em substncia material", raciocina Hylas, antecipando-se a David Hume, no terceiro e ltimo dos Dialogues. Corrobora Hume (Treatise of Human Nature, I, 4, 6): "Somos uma coleo ou um conjunto de percepes que se sucedem umas s outras com inconcebvel rapidez... A mente uma espcie de teatro, onde as percepes aparecem ou desaparecem, voltam e se combinam de infinitas maneiras. A metfora no deve enganar-nos. As percepes constituem a mente, e no podemos vislumbrar em que lugar ocorrem as cenas nem de que materiais feito o teatro".

    Uma vez aceito o argumento idealista, entendo que possvel talvez inevitvel ir alm. Para Berkeley, o tempo "a sucesso de idias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge, 98); para Hume, "uma sucesso de momentos indivisveis" (Treatise of Human Nature, I, 2, 3). Entretanto, negados a matria e o esprito, que so continuidades, negado tambm o espao, no sei com que direito podemos reter essa continuidade que o tempo. Fora de cada percepo (atual ou conjeturai), no existe a matria; fora de cada estado mental, no existe o esprito; tampouco o tempo h de existir fora de cada instante presente. Tomemos um momento de mxima simplicidade: Verbi gratia, o do sonho de Chuang Tzu (Herbert Allen Giles: Chuang Tzu, 1889). Este, h cerca de vinte e quatro sculos, sonhou que era uma borboleta e, ao acordar, no sabia se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem. No consideremos o despertar, consideremos o momento do sonho; ou um de seus momentos. "Sonhei que era uma borboleta que andava pelo ar e que nada sabia de Chuang Tzu", diz o antigo texto. Nunca saberemos se Chuang Tzu viu um jardim sobre o qual ele parecia voar ou um mvel tringulo amarelo, que sem dvida era ele, mas consta-nos que a imagem foi subjetiva, ainda que fornecida pela memria. A doutrina do

  • paralelismo psicofsico julgar que essa imagem deve corresponder a alguma alterao no sistema nervoso do sonhador; segundo Berkeley, naquele momento no existia o corpo de Chuang Tzu, nem o negro quarto em que ele sonhava, a no ser como percepo na mente divina. Hume simplifica mais ainda o ocorrido. Segundo ele, naquele momento o esprito de Chuang Tzu no existia; s existiam as cores do sonho e a certeza de ser uma borboleta. Existia como termo momentneo da "coleo ou conjunto de percepes" que foi, uns quatro sculos antes de Cristo, a mente de Chuang Tzu; existiam como termo n de uma infinita srie temporal, entre n - I e n + I. Para o idealismo, no h outra realidade afora a dos processos mentais; acrescentar borboleta que se percebe uma borboleta objetiva parece-lhe uma v duplicao; acrescentar um eu aos processos parece-lhe no menos exorbitante. Entende que houve um sonhar, um perceber, mas no um sonhador, nem sequer um sonho; entende que falar de objetos e de sujeitos incorrer em uma impura mitologia. Pois bem, se cada estado psquico suficiente, se vincul-lo a uma circunstncia ou a um eu uma ilcita e ociosa adio, com que direito depois haveremos de impor-lhe um lugar no tempo? Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e durante esse sonho ele no era Chuang Tzu, era uma borboleta. Como, abolidos o espao e o eu, vincularemos esses instantes com os do despertar e com o perodo feudal da histria chinesa? Isso no quer dizer que nunca saberemos, ao menos de modo aproximado, a data daquele sonho; quer dizer que a fixao cronolgica de um evento, de qual quer evento do orbe, alheia a este, e exterior. Na China, o sonho de Chuang Tzu proverbial; imaginemos que, dentre seus quase infinitos leitores, um deles sonha que uma borboleta e depois que Chuang Tzu. Imaginemos que, por um acaso no impossvel, esse sonho repete pontualmente aquele que o mestre sonhou. Postulada essa igualdade, cabe perguntar: esses instantes coincidentes no so o mesmo? No basta um nico termo repetido para desbaratar e confundir a histria do mundo, para denunciar que tal histria no existe?

    Negar o tempo duas negaes: negar a sucesso dos termos de uma srie, negar o sincronismo dos termos de duas sries. De fato, se cada termo absoluto, suas relaes se reduzem conscincia de que as relaes existem. Um estado precede o outro quando se sabe anterior; um estado de G ser contemporneo a um estado de H quando souber de sua contemporaneidade. Contrariamente ao declarado por Schopenhauer2 em sua tabela de verdades fundamentais (Welt als Wille und Vorstellung, II, 4), cada frao de tempo no preenche simultaneamente o espao inteiro, o tempo no ubquo. (Claro que, a esta altura da argumentao, o espao j no existe.)

    2 Antes, por Newton, que afirmou: "Cada partcula de espao eterna, cada indivisvel momento de

    durao est em toda a parte" (Principia, III, 42).

  • Meinong, em sua teoria da apreenso, admite a dos objetos imaginrios: a quarta dimenso, digamos, ou a esttua sensvel de Condillac, ou o animal hipottico de Lotze, ou a raiz quadrada de -I. Se as razes que apontei forem vlidas, a este orbe nebuloso tambm pertencero a matria, o eu, o mundo externo, a histria universal, nossas vidas.

    De resto, a frase negao do tempo ambgua. Pode significar a eternidade de Plato ou de Bocio e tambm os dilemas de Sexto Emprico. Este (Adversus Mathematicos, XI, 197) nega o passado, que j foi, e o futuro, que ainda no , e contesta que o presente seja divisvel ou indivisvel. No indivisvel, porque nesse caso ele no teria princpio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro, nem sequer meio, pois no h meio naquilo que carece de princpio e de fim; tampouco divisvel, porque nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que no . Ergo, no existe, mas, como tampouco existem o passado e o porvir, o tempo no existe. F. H. Bradley redescobre e melhora essa perplexidade. Observa (Appearance and Reality, IV) que, se o agora for divisvel em outros agoras, no ser menos complicado que o tempo, e, se for indivisvel, o tempo ser mera relao entre coisas intemporais. Tais raciocnios, como se v, negam as partes para depois negar o todo; eu rejeito o todo para exaltar cada uma das partes. Pela dialtica de Berkeley e de Hume, cheguei sentena de Schopenhauer: "A forma da apario da vontade s o presente, no o passado nem o porvir; estes existem apenas para o conceito e pelo encadeamento da conscincia, submetida ao princpio da razo. Ningum viveu no passado, ningum viver no futuro: o presente a forma de toda a vida, uma possesso que nenhum mal pode arrebatar... O tempo como um crculo a girar indefinidamente: o arco que desce o passado, o que sobe o porvir; no topo, h um ponto indivisvel que toca a tangente e o agora. Imvel como a tangente, esse inextenso ponto marca o contato do objeto, cuja forma o tempo, com o sujeito, que carece de forma, porque no pertence ao conhecvel e prvia condio do conhecimento" (Welt als Wille und Vorstellung, I, 54). Um tratado budista do sculo V, o Visuddhimagga (Caminho da Pureza), ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: "A rigor, a vida de um ser dura o que dura uma idia. Como uma roda de carruagem, ao rodar, toca a terra em um nico ponto, dura a vida o que dura uma nica idia" (Radhakrishman: Indian Philosophy, I, 373). Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis bilhes e quinhentos milhes de vezes por dia e que todo homem uma iluso, vertiginosamente construda por uma srie de homens momentneos e solitrios. "O homem de um momento pretrito adverte-nos o Caminho da Pureza viveu, mas no vive nem viver; o homem de um momento futuro viver, mas no viveu nem vive; o homem do momento presente vive, mas no viveu nem viver" (obra citada, I, 407), sentena que podemos comparar com

  • esta de Plutarco (De E apud Delphos, 18): "O homem de ontem morreu no de hoje, o de hoje morre no de amanh".

    And yet, and yet... Negar a sucesso temporal, negar o eu, negar o universo astronmico so desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrrio do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) no terrvel por ser irreal; terrvel porque irreversvel e frreo. O tempo a substncia de que sou feito. O tempo um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; um tigre que me despedaa, mas eu sou o tigre; um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, real; eu, infelizmente, sou Borges.

    Freund, es ist auch genug. Im Fall du mehr willst lesen, So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen.3

    (Angelus Silesius: Cherubinischer Wandersmann, VI, 263, 1675)

    3 "Basta, amigo. Se queres ler mais, vai e faze de ti mesmo a escrita e de ti mesmo o ser." (N. da T.)

  • SOBRE OS CLSSICOS

    Escassas disciplinas devem ter mais interesse que a etimologia; isto se deve s imprevisveis transformaes do sentido primitivo das palavras, ao longo do tempo. Dadas tais transformaes, que podem beirar o paradoxal, de nada ou de muito pouco serve a origem das palavras para a elucidao de um conceito. Saber que, em latim, clculo significa pedrinha e que os pitagricos usavam dessas pedrinhas antes da inveno dos nmeros no nos permite dominar os arcanos da lgebra; saber que hipcrita era ator, e persona, mscara, no um instrumento vlido para o estudo da tica. De modo semelhante, para fixar o que hoje entendemos por clssico, intil saber que esse adjetivo advm do latim classis, frota, que depois tomaria o sentido de ordem. (Lembremos, de passagem, a formao anloga de ship-shape.)

    O que , agora, um livro clssico? Tenho ao alcance da mo as definies de Eliot, de Arnold e de Sainte-Beuve, sem dvida razoveis e luminosas, e muito me agradaria concordar com esses ilustres autores, mas no os consultarei. Acabo de completar sessenta e tantos anos; em minha idade, as coincidncias ou novidades importam menos que aquilo que julgamos verdadeiro. Limitar-me-ei, ento, a expor o que pensei sobre esse ponto.

    Meu primeiro estmulo foi uma Histria da Literatura Chinesa (1901), de Herbert Allen Giles. Em seu segundo captulo, li que um dos cinco textos cannicos editados por Confcio o Livro das Mutaes, ou I Ching, feito de 64 hexagramas que esgotam as possveis combinaes de seis linhas truncadas ou inteiras. Um dos esquemas, por exemplo, consta de duas linhas inteiras, uma truncada e trs inteiras, dispostas verticalmente. Um imperador pr-histrico os descobriu na carapaa de uma das tartarugas sagradas. Leibniz acreditou ver nos hexagramas um sistema binrio de numerao; outros, uma filosofia enigmtica; outros, como Wilhelm, um instrumento para a adivinhao do futuro, j que as 64 figuras correspondem s 64 fases de qualquer empreendimento ou processo; outros, um vocabulrio de certa tribo; outros, um calendrio. Lembro-me de que Xul Solar costumava reconstruir esse texto com palitos ou fsforos. Para os estrangeiros, o Livro das Mutaes corre o risco de parecer uma simples chinoiserie; mas ele foi devotamente lido e relido por geraes milenares de homens cultssimos, que continuaro a l-lo. Confcio declarou a seus discpulos que, se o destino lhe concedesse mais cem anos de vida, ele consagraria a metade ao estudo do livro e seus comentrios, ou asas.

  • Deliberadamente escolhi um exemplo extremo, uma leitura que demanda um ato de f. Chego, agora, a minha tese. Clssico aquele livro que uma nao, ou um grupo de naes, ou o longo tempo decidiram ler como se em suas pginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos e passvel de interpretaes sem fim. Previsivelmente, essas decises variam. Para alemes e austracos, o Fausto uma obra genial; para outros, uma das mais famosas formas do tdio, como o segundo Paraso de Milton ou a obra de Rabelais. Livros como o de J, A Divina Comdia, Macbeth (e, para mim, algumas das sagas do Norte) prometem uma longa imortalidade, mas nada sabemos do futuro, salvo que diferir do presente. Uma preferncia pode muito bem ser uma superstio.

    No tenho vocao de iconoclasta. Por volta de 1930, sob a influncia de Macedonio Fernndez, eu acreditava que a beleza era privilgio de uns poucos autores; agora sei que comum e que est a nossa espreita nas casuais pginas do medocre ou em uri dilogo de rua. Assim, embora meu desconhecimento das letras malaias ou hngaras seja completo, tenho certeza de que, se o tempo me propiciasse a ocasio de seu estudo, encontraria nelas todos os alimentos que o esprito requer. Alm das barreiras lingsticas, interferem as polticas ou geogrficas. Burns um clssico na Esccia; ao sul do Tweed, interessa menos que Dunbar ou que Stevenson. A glria de um poeta depende, em suma, da excitao ou da apatia das geraes de homens annimos que a pem prova, na solido de suas bibliotecas.

    As emoes que a literatura suscita so, talvez, eternas, mas os meios devem variar constantemente, mesmo que de modo levssimo, para no perder sua virtude. Gastam-se medida que o leitor os reconhece. Da o perigo de afirmar que existem obras clssicas, e que para sempre o sero.

    Cada qual descr de sua arte e de seus artifcios. Eu, que me resignei a pr em dvida a indefinida perdurao de Voltaire ou de Shakespeare, acredito (nesta tarde de um dos ltimos dias de 1965)1 na de Schopenhauer e na de Berkeley.

    Clssico no um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles mritos; um livro que as geraes de homens, urgidas por razes diversas, lem com prvio fervor e com uma misteriosa lealdade.

    1 Esta verso do ensaio foi publicada na revista Sur, de janeiro-abril de 1966, e incorporada s Obras

    Completas de 1974. (N. do Coord.)

  • EPLOGO

    Duas tendncias descobri, ao revisar as provas, nos miscelneos trabalhos deste volume.

    Uma, para avaliar as idias religiosas ou filosficas por seu valor esttico e at pelo que encerram de singular e de maravilhoso. Isso talvez seja indcio de um ceticismo essencial. Outra, para pressupor (e verificar) que o nmero de fbulas ou metforas de que capaz a imaginao dos homens limitado, mas que essas contadas invenes podem ser tudo para todos, como o Apstolo.

    Quero tambm aproveitar esta pgina para retificar um erro. Em um ensaio, atribu a Bacon a idia de que Deus comps dois livros: o mundo e a Sagrada Escritura. Bacon limitou-se a repetir um lugar-comum escolstico; no Breviloquium de So Boaventura obra do sculo XIII l-se: "Creatura mundi est quasi quidam lber in quo legitur Trintas".1 Ver tienne Gilson: La Philosophie au Moyen ge, p. 442, 464.

    J. L. B.

    Buenos Aires, 25 de junho de 1952.

    1 "O mundo criado como um livro em que se l a Trindade." (N. da T.)

  • OUTRAS INQUISIES (1952)

    A muralha e os livros A esfera de Pascal A flor de Coleridge O sonho de Coleridge O tempo e J. W. Dunne A Criao e P H. Gosse Os alarmes do doutor Amrico Castro Nosso pobre individualismo Quevedo Magias parciais do Quixote Nathaniel Hawthorne Valry como smbolo O enigma de Edward FitzGerald Sobre Oscar Wilde Sobre Chesterton O primeiro Wells O Biathanatos Pascal O idioma analtico de John Wilkins Kafka e seus precursores Do culto aos livros O rouxinol de Keats O espelho dos enigmas Dois livros Anotao ao 23 de agosto de 1944 Sobre o Vathek de William Beckford Sobre The Purple Land De algum a ningum Formas de uma lenda Das alegorias aos romances Nota sobre (para) Bernard Shaw

  • Histria dos ecos de um nome O pudor da histria Nova refutao do tempo Sobre os clssicos Eplogo

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