8 x fotografia - img. h uma diferena. E essa diferena Cartier-Bresson dominar como poucos. Se, simplificando muito, a cultura francesa, por um lado, formou seu olhar, a

Download 8 x fotografia - img.  h uma diferena. E essa diferena Cartier-Bresson dominar como poucos. Se, simplificando muito, a cultura francesa, por um lado, formou seu olhar, a

Post on 27-May-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Henri Cartier-Bresson O instante radiante Alberto Tassinari Para Nuno Ramos Parte significativa da obra de Henri Cartier-Bresson pode ser interpretada pela unio que ele promoveu de dois recursos estticos inovadores das primeiras dcadas do sculo XX: o instantneo fotogrfico e a colagem pictrica. Embora a expresso "instante decisivo" tenha se tornado a divisa de sua obra, o instantneo foi apenas o meio que Cartier-Bresson empregou para obter suas fotografias. O que elas buscavam, e tantas vezes encontraram, era o feliz cruzamento no mundo de dois ou mais acontecimentos similares e independentes um do outro. pela juno desses acontecimentos independentes que a fotografia se mostra e pode ser vista como uma colagem. E visto que so captados de maneira rpida pela tcnica do instantneo fotogrfico, os procedimentos da colagem e do instantneo se encontram conjugados. Mas se a independncia dos acontecimentos responde, em grande parte, pelo aspecto de colagem que as fotografias adquirem, j a similaridade entre eles movimenta rapidamente o olhar do espectador entre um acontecimento e outro. Surge assim, no interior da fotografia, um instante por ela simbolizado e diferente do instante em que a fotografia foi tirada. Esse instante interno, que necessita da tcnica do instantneo, mas no ele mesmo o instante tcnico do disparo fotogrfico, parte fundamental de uma linguagem que Cartier-Bresson formulou para a fotografia. Uma linguagem que no apenas se vale do instantneo, mas que tambm o significa. E dado que o significa pela rpida relao entre similaridades que provoca no olhar do espectador, instantaneidade e semelhanas visuais - entre seres, pessoas e coisas no mundo - formam arranjos os mais variados e surpreendentes numa das poticas artsticas mais plenas do sculo XX. A frmula de Charles Baudelaire para o artista moderno, a da apreenso do eterno no efmero, se encaixa como uma luva na potica de Cartier-Bresson. O instante que cada uma de suas fotografias eterniza no o simples instante do clique da cmera, mas um instante grafado na prpria fotografia, que dela no se desgruda, e que estabelece correspondncias de toda sorte entre diferentes aspectos do mundo. Uma obra assim to fecunda no surge, porm, apenas da inventividade de um artista. Em 1931 e 1932, por volta dos 25 anos, Cartier-Bresson realiza algumas de suas mais notveis fotografias. Aquele que se tornar, para muitos, o mais importante fotgrafo de seu tempo, ainda muito jovem j um artista completo. Mas so seus estudos de pintura com Andr Lothe, a aproximao com os surrealistas, a extraordinria tradio da literatura francesa, enfim, a vitalidade da cultura parisiense de ento, que o preparam para um encontro nico com as novas cmeras fotogrficas de registro rpido e de fcil manuseio que comeam a surgir em meados dos anos 20. Dessas, a Leica a mais representativa. Cartier-Bresson dir mais tarde que ela uma extenso de seus olhos. Olhos que a histria da pintura, em especial a mais recente, j havia formado. E nos quais caber ao surrealismo dar o ltimo retoque ao apontar a inventividade da prpria vida para quem souber dela se aproximar. Para Cartier-Bresson, essa aproximao ser a mais direta possvel. A Leica prolongar seu olhar, ser quase seu prprio olhar, porque ver era uma arte que ele j possua. Entretanto, entre o olhar e o "quase olhar" da

  • cmera h uma diferena. E essa diferena Cartier-Bresson dominar como poucos. Se, simplificando muito, a cultura francesa, por um lado, formou seu olhar, a tcnica do instantneo fotogrfico, por outro, o transformou. No vemos o mundo em preto-e-branco e muito menos enquadrado dentro de contornos retangulares. Jogar com a arte de ver e a arte de ver atravs da cmera ser algo que Cartier-Bresson exercitar atravs de mais de quinhentas reportagens para as mais diversas revistas entre as dcadas de 30 e 70. Uma obra que nasceu plena em incios dos anos 30 ser testada e se confirmar pelos quase cinqenta anos que se seguiro. Mas mesmo depois da diminuio de sua atividade como fotgrafo, em fins dos anos 70, Cartier-Bresson no aposenta de todo a cmera. H fotografias extraordinrias feitas nas duas dcadas seguintes, quando seu principal interesse passa a ser o desenho. Com sua morte, em 3 de agosto de 2004, pouco antes de completar 96 anos, desaparece tambm um tipo de fotografia, o do instantneo em preto-e-branco, do qual Cartier-Bresson o mais acabado representante. A anlise de um exemplo, entrecortada de alguns argumentos, talvez consiga revelar certos pontos dessa que foi uma das mais longas, coesas e vitais trajetrias artsticas do sculo. I Na fotografia realizada por Cartier-Bresson na pequena cidade mediterrnea de Hyres, em 1932, o ciclista, quase uma sombra, tem o aspecto de uma apario. Espcie de decalque, como que rabiscado, soma-se ao espao como uma figura destacvel, independente. Mas boa parte do espao que o circunda tambm dele separvel. Sobretudo pelo modo como o espao mostrado na fotografia. Se o ciclista tem algo de um espectro diminuto e esgarado, tambm o assombro de uma escada gigantesca desempenha o papel da estranheza na fotografia. Ao inclinar-se no sentido do cho, a cmera pegou o ciclista na parte superior esquerda do quadro, mas tambm transfigurou a escada num ser desproporcional. Ao lado de uma escada algo fantasmagrica, no apenas o ciclista que d ares de colagem fotografia. Nada parece mesmo ter obrigado a figura da escada a ocupar mais da metade do espao do enquadramento para que o ciclista fosse captado. Entretanto, assim que ela se mostra como um momento forte de uma das sries de acontecimentos provocados pela inclinao da cmera. Srie que encontra uma outra: a da passagem do ciclista pela rua. E da qual tambm apenas um momento, ainda que trmulo, retido. E se assim o ciclista aparece como um acrscimo na fotografia, tambm a escada exibe-se igualmente acrescentada em seu exagero. Embora a fotografia seja um instantneo, no um nico instante que nela surge, mas dois momentos fortes: o do ciclista e o da escada. O olhar no passa de um a outro continuamente, mas por um salto. Da ser possvel falar de uma colagem. O olhar no v os momentos conjuntamente, mas um ao lado do outro, atravs de um intervalo rpido. A tcnica do instantneo teria gerado, assim, sua dissoluo numa proliferao de instantes. No entanto, graas ao instantneo que os dois momentos ou instantes se cruzaram na imagem. Graas ao instantneo porque, sem ele, as formas cnicas da escada e a passagem do ciclista no poderiam ser registradas com a agilidade e a prontido exigidas do fotgrafo. Ele perderia a imagem que antev se o instantneo no lhe proporcionasse versatilidade e velocidade. O instantneo, como meio, encontra assim seu objetivo: a fixao rpida e conjunta de momentos de sries independentes de acontecimentos. O encontro dos dois momentos na fotografia de Hyres no , porm, um encontro de eventos arbitrrios. Embora diferentes e independentes, Cartier-Bresson os conecta por similaridades. Essas no apenas tornam comunicveis as coisas e os seres no mundo

  • como atraem a passagem do olhar entre um momento e outro. Os aspectos circulares que so afins figura do ciclista - o meio- fio da curva que descreve, os arredondamentos de sua postura e, sobretudo, as rodas da bicicleta - repetem as circularidades da escada: seu centro redondo, as curvas e o leque do assentamento dos degraus, os trechos circulares dos corrimos, cujo apoio, por sua vez, se assemelha aos raios de rodas de bicicletas embaralhados pelo giro rpido na imagem do ciclista. Mas se a repetio dos aspectos circulares do ciclista e da escada os aproxima, essa aproximao no abole o carter independente dos dois momentos e o intervalo que o olhar tem que percorrer para associ-los. Ocorre, assim, uma instantaneidade na fotografia que no idntica aos centsimos de segundo em que foi tirada. O olhar humano no v com essa rapidez. Ampliada a fotografia, o olhar pode ganhar, no mximo, a rapidez que sua, no a da cmera fotogrfica. E essa rapidez a da passagem rpida entre os momentos similares com a qual a fotografia impregna o olhar. O instante, numa fotografia de Cartier-Bresson, no , ento, o instante em que o filme ficou exposto luz, mas a fixao de momentos independentes e similares rapidamente relacionveis. Se os momentos fortes numa fotografia de Cartier-Bresson, embora similares, so distintos e destacveis, s possvel falar em simultaneidade dos momentos contrariando o pensamento habitual sobre o tempo e o espao. A passagem do olhar entre os aspectos circulares que rondam o ciclista e a escada, ainda que muito rpida, marca um intervalo de tempo que no permite afirmar que as partes do espao sejam simultneas entre si num mesmo instante. A simultaneidade, nas fotografias de Cartier-Bresson, no uma qualidade geomtrica do espao anterior realizao da fotografia. por meio das similaridades que a simultaneidade ganha um diagrama. No se trata, assim, apenas da noo abstrata de que tudo simultneo num mesmo espao. Quando a fotografia vista, o olhar salta entre os similares. Essa descontinuidade, tpica de uma colagem, tambm pe em destaque uma simultaneidade que tem que atravessar o tempo, ainda que de uma maneira rpida. uma simultaneidade, assim, que depende da velocidade de comunicao entre os eventos considerados simultneos. E por mais rpido que seja o olhar, ele se percebe vendo a escada e o ciclista alternadamente. No v os dois juntos, mas no comeo ou no fim de um intervalo. Compreender o instante como um intervalo no a maneira costumeira de pens-lo. No existe, porm, algo como o instante em si mesmo, independente da condio em que experimentado e da linguagem na qual expresso. pela linguagem geomtrica da fsica que nos habituamos a pensar o instante. Nela, um instante um ponto numa reta que representa o tempo. E a fsica e nossas experincias cotidianas no parecem aqui se opor. Mas basta considerar que s podemos pensar, nunca experimentar, o instante como um ponto - algo to pequeno que se aproxima de um zero de tempo - para se dar conta de que o instante pensado no corresponde exatamente ao instante vivido. Para a experincia humana, o instante algo rpido, mas jamais um ponto sem dimenso. Esse pode ser pensado, mas no experimentado. Um presente rpido talvez seja a melhor maneira de expressar o instante na experincia humana. O presente, porm, tanto segura uma poro de passado quanto se projeta para o futuro. Por menos que as dimenses - passado, presente e futuro - dessa figura trplice do tempo vivido durem, elas jamais se assemelharo a um ponto. O repentino, o sbito, e outras palavras que sirvam descrio de um instante para a experincia humana, nunca abolem a repartio trplice do tempo. Se algo parece vir do futuro, e muito rpido, nunca to rpido a ponto de abolir de todo a distino entre o presente que passa e o futuro que chega. Experimentado ou pensado, o instante existe numa linguagem que expresse o seu

  • pensamento ou numa linguagem em que se deixe transpor para interpretar a experincia humana. E dado que as linguagens no so apenas a lngua falada ou a lngua escrita, a linguagem no verbal da fotografia tambm pode expressar o instante. O feito admirvel de Cartier-Bresson foi encontrar uma linguagem fotogrfica para o instante: um modo de diagram-lo fotograficamente como uma ida rpida do olhar de um momento a outro momento similar numa fotografia. Nisso se aproxima bem mais do que repentino e sbito em nossa experincia do que o pensamento e a expresso do tempo como um ponto. O instante, nas fotografias de Cartier-Bresson, uma irradiao rpida de uma regio do espao a outra. A fotografia significa, ento, entre tantas coisas, tambm a sua instantaneidade. Diversa, porm, do instante em que o filme ficou exposto luz. O instantneo, em Cartier-Bresson, ocorre duas vezes: quando a fotografia tirada e, depois de revelada e ampliada, quando a fotografia o expressa por meio de uma conexo rpida do olhar entre momentos similares. A tcnica do instantneo fotogrfico apenas o meio empregado para atingir um objetivo simblico: a expresso do instante, no interior da prpria fotografia, como uma surpresa para o olhar. A sntese do instantneo com a colagem realizada por Cartier-Bresson ganha em clareza se comparada tambm com a pintura ou, ainda, com dois tipos de pintura: a naturalista, onde reina o instante, e a moderna, onde a colagem tantas vezes a operao principal. Que Cartier-Bresson tenha juntado ambas algo que talvez se deva sua formao inicial de pintor, mas, sobretudo, tambm a uma potica s sua e que ele nunca abandonou nos mais de setenta anos de atividade como fotgrafo, desde meados da dcada de 20. Diferentemente de um instantneo fotogrfico, porm, as colagens modernas s possuem da perspectiva um resqucio: um fundo ptico raso que recebe formas as mais diversas. No h simbolizao de um instante nas colagens, pois, sem uma perspectiva demarcada, o espao se transforma num lugar de reunio de partes heterogneas. E essas dispersam a pintura em vrios momentos. Mesmo quando a similaridade uma instncia importante numa colagem, a passagem do olhar de uma parte a outra da pintura mais lenta do que numa fotografia de Cartier-Bresson. A heterogeneidade do espao da colagem impede um olhar veloz que teria que ignorar a inrcia prpria de cada elemento cravado em seu espao. Nas fotografias de Cartier-Bresson, ao contrrio das colagens pictricas, o espao homogneo. Alm de homogneo, perspectivo. E o olhar corre mais rpido num espao com pontos de fuga. E se as diferenas no seu interior so de valores, no de cores, corre mais fcil ainda. A perspectiva embutida na prpria tcnica fotogrfica no , assim, um empecilho para as colagens de Cartier-Bresson. graas perspectiva, ao contrrio, que uma srie de eventos pode adentrar sem dificuldade o espao sem alter-lo muito. A alterao que sobrevm ento muito menos espacial do que esttica. J o espao de uma colagem, na sua heterogeneidade, tem a figura que cada um dos elementos distintos contribui para formar. No h uma perspectiva a construir e a suportar cada um dos elementos, mas as operaes singulares que cada colagem pe em jogo. O tempo, numa colagem, uma juno de instantes medida que cada colagem vai sendo realizada. Nunca , porm, uma juno rpida de momentos num espao perspectivo e homogneo. Dado que o instantneo deflagra um instante e, no caso de Cartier-Bresson, o multiplica em dois ou mais momentos fortes, seria com o naturalismo que suas fotografias se assemelhariam. De fato, tanto o instantneo quanto a pintura naturalista exibem espaos perspectivos semelhantes ao da viso natural. E h mesmo pinturas naturalistas, em especial pinturas barrocas, nas quais o instante que resume todas as aes e coisas num mesmo espao

  • no deixa tambm de armar um jogo entre atitudes diferenciadas. E visto que o espao perspectivo do instantneo um espao homogneo como o da pintura naturalista, entre esta e o instantneo no haveria diferenas. A perspectiva obtida pela cmera fotogrfica, porm, no possui estilo. Ela maquinal, automtica. Dois fotgrafos...