variaÇÃo linguistica

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DELER | UFMA LITTERA ONLINE 2010 JUL DEZ | Nmero 2 Volume I

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UM OLHAR SOBRE OS ASPECTOS LINGUSTICOS DA LNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

Danielle Vanessa Costa SOUSA

1 INTRODUO As lnguas de sinais so de modalidade gestual-visual, e o espao o canal de comunicao. Nele, frases, textos e discursos so produzidos e articulados atravs dos sinais. So consideradas lnguas naturais, pois surgiram da interao espontnea entre indivduos. Elas possuem gramtica prpria, alm dos nveis lingusticos, fonolgico, morfolgico, semntico, sinttico e pragmtico, o que possibilita aos seus utentes expressarem diferentes tipos de significados, dependendo da necessidade comunicativa e expressiva do indivduo. Alm disso, as lnguas de sinais no descendem e nem dependem das lnguas orais. Diante destas consideraes, o presente trabalho discorre sobre os aspectos lingsticos das lnguas de sinais, direcionando, em algumas sees do tema proposto, para a Lngua Brasileira de Sinais (Libras). Dentre os pontos abordados, demonstra-se a concepo de lngua natural e, a partir desta, sero descritos temas relacionados s lnguas, como iconicidade, arbitrariedade, variao lingustica e nveis lingusticos, sendo a discusso direcionada questo da estrutura e da manifestao lingstica das lnguas de sinais, especificamente as Libras.

2 LNGUA DE SINAIS LNGUAS NATURAIS Durante muito tempo as lnguas de sinais eram denominadas linguagem de sinais, mas, a partir de estudos sobre o assunto, foi comprovado seu status lingustico - o termo linguagem caiu em desuso, passando-se a consider-las lnguas naturais. Pode-se fundamentar esta afirmao nas seguintes definies:

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[...] linguagem uma faculdade humana, uma capacidade que os homens tm para produzir, desenvolver, compreender a lngua e outras manifestaes simblicas semelhantes lngua. A linguagem heterognea e multifacetada: ela tem aspectos fsicos, fisiolgicos e psquicos, e pertence tanto ao domnio individual quanto ao domnio social. Para Saussure, impossvel descobrir a unidade da linguagem. Por isso, ela no pode ser estudada como uma categoria nica de fatos humanos. A lngua diferente. Ela uma parte bem definida e essencial da faculdade da linguagem. Ela um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenes necessrias, estabelecidas e adotadas por um grupo social para o exerccio da faculdade da linguagem. A lngua uma unidade por si s. Para Saussure, ela a norma para todas as demais manifestaes da linguagem. Ela um princpio de classificao, com base no qual possvel estabelecer uma certa ordem na faculdade da linguagem (SAUSSURE, 1916).

Nota-se que lngua e linguagem tm definies distintas. A primeira um produto social da faculdade da linguagem, enquanto a segunda a capacidade que o homem tem de produzir conceitos relacionados com uma dada forma, como a msica, a arte, o teatro, a dana. As lnguas naturais so consideradas inerentes ao homem, um sistema lingustico usado por uma comunidade. Elas no incluem somente as lnguas orais - pesquisas lingusticas j comprovaram que as lnguas de sinais so naturais, pois a sua estrutura permite que diferentes conceitos sejam expressos atravs dela, dependendo da inteno e necessidade comunicativa do indivduo. Karnopp & Quadros conceituam lngua natural como (....) uma realizao especfica da faculdade de linguagem que se dicotomiza num sistema abstrato de regras finitas, as quais permitem a produo de um nmero ilimitado de frase. Alm disso, a utilizao efetiva desse sistema, com fim social, permite a comunicao entre os usurios (KARNOPP & QUADROS, 2007, p.30). Brito (1998, p.19) faz a seguinte afirmao sobre se considerar lnguas de sinais como naturais: As lnguas de sinais so lnguas naturais porque como as lnguas orais sugiram espontaneamente da interao entre pessoas e porque devido sua estrutura permitem a expresso de qualquer conceito - descritivo, emotivo, racional, literal, metafrico,

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concreto, abstrato - enfim, permitem a expresso de qualquer significado decorrente da necessidade comunicativa e expressiva do ser humano (BRITO, 1998, p. 19). Um dos primeiros estudiosos a desenvolver pesquisas acerca das lnguas de sinais e a constatar seu status lingustico, Stokoe (apud Quadros & Karnopp, 2004) comprovou a sua complexidade, na medida em que, assim como lnguas orais, as lnguas de sinais possuem regras gramaticais, lxico, e permitem a expresso conceitos abstratos, e a produo de uma quantidade infinita de sentenas. Alm disso, pode-se ratificar que elas no so pantomimas e nem universais - a lngua de sinais americana (ASL) difere da lngua de sinais britnica (BSL) que difere da brasileira e assim por diante. Elas apresentam variaes regionais, e suas estruturas gramaticais no dependem das lnguas orais. uma lngua de modalidade gestual-visual, seu canal de comunicao se d atravs das mos, das expresses faciais e do corpo. Considera-se ainda que a lngua de sinais deve ser a lngua materna dos surdos, no somente por ser lngua natural, mas por estar veiculada a um canal que no o oral-auditivo, pois esta modalidade no oferece ao surdo uma aquisio espontnea da lngua, ao contrrio da gestual-visual, que garante uma percepo e articulao mais fcil, coerente e confortvel, alm de contribuir para o desenvolvimento lingustico, cognitivo e social do surdo.

3 ICONICIDADE E ARBITRARIEDADE Iconicidade e arbitrariedade do signo lingustico so inerentes s lnguas naturais. Reflexes acerca das definies destes fenmenos das lnguas ocorreram desde a poca de Plato e se estendem at os dias de hoje. Podem-se citar, dentre as reflexes do filsofo grego, questes sobre a linguagem e sobre a relao dela com o mundo. Crtilo, Hermgenes e Scrates foram um dos interlocutores que dialogaram acerca desta relao, discutindo a ligao existente entre nome, idia e coisa. Crtilo defendia o conceito de iconicidade; Hermgenes, de arbitrariedade. Scrates, por seu turno, integrava as duas concepes.

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Para Crtilo, a lngua o espelho do mundo, o que significa que existe uma relao natural e, portanto, similar ou icnica entre os elementos da lngua e os seres por eles representados. Para Hermgenes, a lngua arbitrria, isto , convencional, pois entre o nome e as idias ou as coisas designadas no h transparncias ou similaridade. Scrates, por sua vez, tem o papel de fazer a integrao entre os dois pontos de vista (WILSON & MARTELOTTA, p. 71, 2010).

Direcionando tais definies s lnguas de sinais, muitas vezes elas so consideradas puramente icnicas por serem de uma modalidade diferente, acreditandose que os sinais so criados a partir da representao do referente. certo que um sinal pode ser realizado de acordo com a caracterstica daquilo que se refere, mas, de acordo com Strobel & Fernandes (1998), isto no uma regra, j que a maioria dos sinais em Libras arbitrrio, ou seja, no mantm uma relao de similitude com o referente. Strobel & Fernandes (1998) tambm definem os sinais icnicos como aqueles que fazem aluso imagem do seu significado, sendo que isto no implica na igualdade de todos os sinais icnicos em todas as lnguas de sinais, pois cada grupo social absorve aspectos diferentes da imagem do referente convencionando a representao do sinal. Para os autores, os signos arbitrrios so os que no trazem nenhuma relao de semelhana com o referente.

4 VARIAES LINGUISTICAS A lngua est em constante evoluo, dinmica, um produto social em permanente inconcluso, (...) intrinsecamente heterognea, mltipla, varivel, instvel e est sempre em desconstruo e em reconstruo (BAGNO, 2007, p.35, grifos do autor). Devido a este carter de ordem heterognea, nas lnguas naturais pode ser identificado um fenmeno lingustico denominado variao. As lnguas de sinais, por serem naturais, apresentam tais manifestaes. Segundo Bagno (2007) existem fatores sociais ou extralingusticos que podem proporcionar identificao do fenmeno variao lingustica, so eles:

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a) Origem geogrfica: a lngua varia de um lugar para o outro; assim, podemos investigar, por exemplo, a fala caracterstica das diferentes regies brasileiras, dos diferentes estados, de diferentes reas geogrficas dentro de um mesmo estado etc.; outro fator importante tambm a origem rural ou urbana da pessoa; b) Status socioeconmico: as pessoas que tm um nvel de renda muito baixo no falam do mesmo modo das que tm um nvel de renda mdio ou muito alto, e vice-versa; c) Grau de escolarizao: o acesso maior ou menor educao formal e, com ele, cultura letrada, prtica da leitura e aos usos da escrita, um fator muito importante na configurao dos usos lingsticos dos diferentes indivduos; d) Idade: os adolescentes no falam do mesmo modo como seus pais, nem estes pais falam do mesmo modo como as pessoas das geraes anteriores; e) Sexo: homens e mulheres fazem usos diferenciados dos recursos que a lngua oferece; f) Mercado de trabalho: o vnculo da pessoa com determinadas profisses e ofcios incide na sua atividade lingstica: uma advogada no usa os mesmos recursos lingsticos de um encanador, nem este os mesmos de um cortador de cana; g) Redes sociais: cada pessoa adota comportamentos semelhantes aos das pessoas com quem convive em sua rede social; entre esses comportamentos est tambm o comportamento lingstico.

Sobre as variaes lingusticas, Strobel & Fernandes (1998) consideram as variaes regionais e sociais e as mudanas histricas como fenmenos identificveis na Lngua Brasileira de Sinais, o que lhe confirma, mais uma vez, o carter natural. A variao regional refere-se s variaes de sinais que acontecem nas diferentes regies do mesmo pas; j a social representa as variaes na configurao de mo e/ou movimento, se