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  • UNIVERSIDADE CATLICA DE PERNAMBUCO

    PR-REITORIA ACADMICA

    PROGRAMA DE PS GRADUAO EM PSICOLOGIA CLNICA

    LABORATRIO DE CLNICA FENOMENOLCIGA EXISTENCIAL - LACLIFE

    PORQUE NO ESTAMOS SS: DA VERACIZAO DA EXPERINCIA DE

    TRATAMENTO NO ESPIRITISMO LUZ DA FENOMENOLOGIA

    Allyde Amorim Penalva Marques

    RECIFE, 2014

  • ALLYDE AMORIM PENALVA MARQUES

    PORQUE NO ESTAMOS SS: DA VERACIZAO DA EXPERINCIA DE

    TRATAMENTO NO ESPIRITISMO LUZ DA FENOMENOLOGIA

    Dissertao apresentada ao Curso de Mestrado em

    Psicologia Clnica, na linha de pesquisa Prticas

    Psicolgicas em Instituies da Universidade Catlica de

    Pernambuco, como requisito parcial para obteno do ttulo

    de Mestre em Psicologia Clnica.

    ORIENTADOR: PROF. DR. MARCUS TLIO CALDAS

    RECIFE, 2014

  • III

    UNIVERSIDADE CATLICA DE PERNAMBUCO

    PR-REITORIA ACADMICA

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM PSICOLOGIA CLNICA

    LABORATRIO DE CLNICA FENOMENOLCIGA EXISTENCIAL - LACLIFE

    Defesa Pblica de Dissertao da Aluna

    Allyde Amorim Penalva Marques

    PORQUE NO ESTAMOS SS: DA VERACIZAO DA EXPERINCIA DE

    TRATAMENTO NO ESPIRITISMO LUZ DA FENOMENOLOGIA

    Dissertao apresentada e aprovada no dia 26 de fevereiro de 2014 para obteno

    do ttulo de Mestre em Psicologia perante a Banca Examinadora composta pelos

    seguintes professores:

    ________________________________________________________

    Prof. Dr. Marcus Tlio Caldas, Doutor em Psicologia

    (Orientador e Presidente da Banca Examinadora)

    ________________________________________________________

    Prof. Dr. Luiz Alencar Librio, Doutor em Psicologia

    (Examinador Interno)

    ________________________________________________________

    Prof. Dr. Walfrido Nunes de Menezes, Doutor em Servio Social

    (Examinador Externo Faculdade Estcio do Recife)

  • IV

    AGRADECIMENTOS

    A Deus, pela presena constante, mesmo quando no invocado.

    Aos meus pais, Edmar e Eliane Penalva, pelo que fizeram de mim, pelo ser

    humano que me tornei graas ao amor incondicional e tica educacional de ambos.

    Ao meu esposo, Daniel Marcelino, que me agracia com seu amor e cuidado

    dirios. s o sentido pelo qual guio minha existncia.

    Aos meus irmos, Edmar Jnior, Larissa e Laura, que so partes do meu

    corpo e da minha alma e a quem amo indefinidamente!

    minha cunhada Ingrid Rodrigues por todo o apoio, em especial por dar luz

    Marina, minha iluminao diria, meu motivo para sorrir.

    Aos meus avs, Joo Amorim (in memoriam) e Severina Santiago (in

    memoriam) e Pedro (in memoriam) e Vanete Penalva (in memoriam)

    Aos meus tios, Albrico Eduardo e Paulo Ricardo (in memoriam) pelas lies

    de amor e moral.

    Aos meus amigos de uma vida inteira a quem denomino carinhosamente de

    NERDs. Obrigada pela oportunidade de aprendermos juntos a vivncia do amor em

    seu sentido pleno e na coletividade.

    Aos amigos que contriburam generosamente com reflexes sobre o tema, as

    quais se incorporaram e fazem parte deste trabalho: Aline Agustinho, Luciana

    Cordeiro, Erick Nogueira, Alexandra Torres, Carlos Pereira e Ellen Fernanda.

    s amigas cultivadas no percurso da vida: Julianne Gomes, Patrcia Couto,

    Dbora Regina, Riva Karla, Cassandra Bismarck, Gabriela Paixo e Edvalda Assis.

    quelas a quem adotei como irms, Luciana Pontes e Janana Ramos, com

    quem compartilho mais essa vitria.

    Ao Professor Marcus Tlio por acreditar neste trabalho desde o primeiro

    momento! Sem seu apoio este sonho no seria possvel! Obrigada pela dedicao e

    exemplo de ser humano e profissional do cuidado com o qual tenho me inspirado para

    seguir minha jornada.

    Rosaly pelas palavras sempre doces e afetuosas.

    Ao Grupo Esprita Esperana - GESPE, minha famlia escolhida.

    Ao Hospital Espiritual Patrcia Bacelar - HEPB por possibilitar a pesquisa e

    pelo apoio e solicitude durante a caminhada.

  • V

    Socorro

    Socorro, no estou sentindo nada.

    Nem medo, nem calor, nem fogo,

    No vai dar mais pra chorar

    Nem pra rir.

    Socorro, alguma alma, mesmo que penada,

    Me empreste suas penas.

    J no sinto amor nem dor,

    J no sinto nada.

    Socorro, algum me d um corao,

    Que esse j no bate nem apanha.

    Por favor, uma emoo pequena,

    Qualquer coisa.

    Qualquer coisa que se sinta,

    Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva.

    Socorro, alguma rua que me d sentido,

    em qualquer cruzamento,

    acostamento,

    encruzilhada,

    Socorro, eu j no sinto nada.

    Socorro, no estou sentindo nada.

    (Arnaldo Antunes / Alice Ruiz)

  • VI

    RESUMO

    A EXPERINCIA DE TRATAMENTO NO ESPIRITISMO LUZ DA

    FENOMENOLOGIA

    O presente trabalho tem como objetivo geral compreender a experincia de

    tratamento no espiritismo e, como objetivos especficos, descrever as modalidades de

    tratamento oferecidas pelo espiritismo, compreender o sentido que leva pessoas a

    buscarem esse modo de tratamento, compreender a experincia de tratamento e suas

    possveis contribuies sade mental. A pesquisa de natureza qualitativa na

    perspectiva fenomenolgica. sabido que existem diferentes modalidades de

    tratamento no espiritismo, no entanto a escolha dos participantes seguiu o padro de

    voluntariado, no restringindo o tipo de tratamento submetido, gnero, motivo quanto

    procura do tratamento ou idade. Os participantes estavam em acompanhamento no

    Hospital Espiritual Patrcia Bacelar (HEPB Camaragibe/PE). Como instrumentos da

    pesquisa, a narrativa a partir de Walter Benjamim e o dirio de campo foram utilizados

    para se ter acesso experincia de tratamento no espiritismo. A fundamentao

    terica foi construda com base na teoria de Frankl, que compreende a espiritualidade

    como dimenso do humano, em consonncia com resultados desta pesquisa. Para a

    anlise dos resultados, utilizamos a hermenutica filosfica de Gadamer, que

    alcanou uma narrativa final construda a partir do dilogo entre os participantes, a

    pesquisadora e o referencial terico que fundamentou a pesquisa. Nossos resultados

    revelam uma eminente busca por outro cuidado que no apenas o mdico, bem

    como o uso de recursos religiosos como complementares prtica mdica. Em sua

    maioria, os relatos apontam para a continuidade dos tratamentos mdicos

    simultaneamente ao tratamento espiritual. Nesse contexto, o estmulo

    responsabilizao do indivduo por seu autocuidado enquanto autotranscendncia se

    mostrou fundamental para adeso ao tratamento mdico, bem como para a superao

    de situaes de intenso sofrimento.

    Palavras-chave: espiritualidade; tratamento; psicologia; fenomenologia.

  • VII

    ABSTRACT

    THE EXPERIENCE OF TREATMENT IN SPIRITISM FOR THE LIGHT OF

    THE PHENOMENOLOGY

    This work has as main objective to understand the experience of treatment in spiritism

    and specific objectives, describing the types of treatment offered in spiritualism

    understand the meaning that leads people to seek this mode of treatment,

    understanding the experience of treatment and its possible contributions to mental

    health. The research is qualitative phenomenological perspective. Obviously, there are

    different treatment modalities in spiritism, however the choice of the participants

    followed the pattern of volunteering without restricting the type of treatment undergone,

    gender, reason as to demand treatment or age. Participants were followed up at

    Spiritual Hospital Patrcia Bacelar (HEPB - Camaragibe / PE). As research

    instruments, the narrative from Walter Benjamin and the field diary were used to get

    access to treatment experience in spiritualism. The theoretical framework has been

    constructed based on the theory Frankl, who understands spirituality as the human

    dimension, in line with results of this research. To analyze the results, we used the

    philosophical hermeneutics of Gadamer, who reached a final narrative constructed

    from the dialogue between the participants, the researcher and the theoretical

    framework that justified the search. Our results reveal an eminent search for other

    care that not only the doctor, as well as the use of religious resources as

    complementary to medical practice. Most of the reports demonstrated the continuity of

    medical treatments simultaneously spiritual treatment. In this context, the stimulus

    accountability of the individual for self-care while transcendence proved crucial for

    adherence to medical treatment as well as to overcome situations of intense suffering.

    Keywords: spirituality; treatment; psychology; phenomenology.

  • VIII

    RESUMEN

    LA EXPERIENCIA DE TRATAMIENTO EN EL ESPRITISMO A LA LUZ DE

    LA FENOMENOLOGA

    El presente trabajo tiene como objetivo general comprender la experiencia del

    tratamiento no espiritual y, con objetivos especficos, describir las modalidades de

    tratamiento ofrecidas por el espiritismo, comprender el sentido que lleva las personas

    buscaren ese modo de tratamiento, comprender la experiencia de tratamiento y sus

    posibles contribuciones a la salud mental. La investigacin es de naturaleza cualitativa

    en la perspectiva fenomenolgica. Se sabe que existen diferentes modalidades de

    tratamiento en el espiritismo, sin embargo la eleccin de los participantes sigui el

    padrn voluntariado, no restricto la tipologa del tratamiento sometido, gnero, motivo

    cuanto a la busca de tratamientos o la edad. Los participantes estaban en

    acompaamiento en el Hospital Espiritual Patrcia Bacelar (HEPB-Camaragibe/PE).

    Como instrumentos de investigacin, el relato de Walter Benjamin y el diario de campo

    fueron utilizados para el acceso a la experiencia del tratamiento en el espiritismo. El

    marco terico se bas en la teora de Frankl, que comprende la espiritualidad como

    una dimensin del humano, en lnea con los resultados de esta investigacin. Para el

    anlisis de los resultados, hemos utilizado la hermenutica filolgica de Gadamer, que

    alcanz un final narrativo construido a partir del dilogo entre los participantes, la

    investigadora y el marco terico que fundament la investigacin. Nuestros resultados

    revelan una eminente bsqueda por otro cuidado que no slo el mdico, bien como

    el uso de recursos religiosos como complementares a la prctica mdica. En su

    Mayora, los relatos demuestran la continuidad de los tratamientos mdicos de forma

    simultnea al tratamiento espiritual. En este contexto, el estmulo a la responsabilidad

    del individuo por su autocuidado mientras su auto transcendencia se mostr

    fundamental para la adherencia al tratamiento mdico, bien como para su

    recuperacin en situaciones de intenso sufrimiento.

    Palabras clave: espiritualidad; tratamiento; psicologa; fenomenologa.

  • IX

    SUMRIO

    INTRODUO .......................................................................................................... 10

    1. ESPIRITUALIDADE E SADE MENTAL ............................................................. 14

    1.1. Espiritualidade .................................................................................................. 17

    1.2. Sade Mental ..................................................................................................... 20

    2. O CUIDADO TERAPUTICO A PARTIR DA

    ESPIRITUALIDADE EM FRANKL ....................................................................... 22

    2.1. Anlise Existencial como Explicao da Existncia Pessoal ...................... 23

    2.2. Neuroses Noognicas ...................................................................................... 30

    2.3. Os trs grupos de valores ................................................................................ 32

    3. CAMINHANDO QUE SE FAZ O CAMINHO ................................................. 35

    3.1. Porque no estamos ss: da veracizao de

    um fenmeno, resultados e discusso ........................................................... 40

    4. NA PRESENA DO DESCONHECIDO: A EXPERINCIA DE CAMPO ............ 44

    4.1. O Desencontro .................................................................................................. 44

    4.2. A Entrevista ....................................................................................................... 47

    4.3. A Chegada ......................................................................................................... 48

    4.4. O Setor de Recepo ........................................................................................ 51

    4.5. O Setor de Triagem e a Consulta Mdica ....................................................... 53

    4.6. O Salo de Palestra e a Sala de Passes ......................................................... 57

    4.7. O Segundo Turno de Atendimentos e as Cirurgias Espirituais ................ 61

    4.8. ltimos Passos ................................................................................................. 64

    5. CONSIDERAES FINAIS .................................................................................. 66

    REFERNCIAS ......................................................................................................... 68

    ANEXOS ................................................................................................................... 72

  • 10

    INTRODUO

    O interesse por essa temtica surgiu concomitantemente minha formao

    profissional, durante o estgio curricular em um hospital-escola da cidade de Recife,

    no ambulatrio de cirurgia vascular. Percebi que uma parcela significativa dos

    pacientes desenvolviam durante o perodo de internamento prolongado transtornos

    psiquitricos, como ansiedade, queixas somticas e depresso.

    Nesse contexto, foi possvel notar que, apesar da orientao prestada pelo

    servio de psicologia para a busca de tratamentos psiquitricos e/ou psicolgicos,

    havia um discurso predominantemente perpassado pela f em uma cura divina ou

    espiritual que estava para alm do alcance dos recursos psicolgicos e mdicos ali

    oferecidos.

    Sendo o hospital um espao onde vida e morte esto frequentemente em

    eminncia, tornou-se possvel, atravs das narrativas dos pacientes, observar a

    abertura para a espiritualidade enquanto dimenso ontolgica do homem, quando, por

    exemplo, um paciente compreendia a amputao de um membro como possibilidade

    de escolha pela vida.

    Tal fenmeno demarcou o incio das inquietaes a respeito da temtica que,

    hoje, constitui-se como objeto desta pesquisa. E, foi exatamente o interesse em

    debruar-me sobre a experincia do homem em sua relao com a espiritualidade,

    buscando a compreenso desse fenmeno, que demarcou o fio condutor a ser

    seguido neste trabalho.

    Partimos da concepo fenomenolgica onde a relevncia da experincia

    assume papel principal na estruturao da pesquisa. Nesse sentido, apresentamos

    como objetivo geral compreender a experincia de tratamento no espiritismo e, como

    objetivos especficos, descrever as modalidades de tratamento oferecidas pelo

    espiritismo, compreender o sentido que leva pessoas a buscarem esse modo de

    tratamento, compreender a experincia de tratamento e suas possveis contribuies

    sade mental.

    Sendo a pesquisa de natureza qualitativa compreensiva na perspectiva

    fenomenolgica, realizamos um trabalho cartogrfico, entendendo que o mesmo

    implica o prprio pesquisador em seus movimentos no campo, seus olhares,

    sentimentos, perplexidades e reflexes. Utilizamos tambm o dirio de campo, tendo

    em vista ser um espao de pesquisa pouco explorado, onde necessitou de um mtodo

  • 11

    que no limitasse o acesso ao fenmeno em questo. A investigao, em tal

    perspectiva, requer que o pesquisador esteja a todo tempo em uma postura de

    abertura para o humano e suas experincias no mundo, interrogando constantemente.

    Ao longo do texto, o leitor ser deparado com recortes de fala dos

    entrevistados. Estes tiveram seus nomes substitudos por pseudnimos e sinalizados

    com asterisco (*), evitando assim sua identificao. Entendemos que a riqueza trazida

    no discurso dessas pessoas contribuir para o trabalho, facilitando a compreenso

    das perspectivas com as quais trabalhamos durante pesquisa.

    Este trabalho no visa uma explanao do espiritismo, pois o que nos move

    o desejo de compreender o que da ordem da experincia, bem como aquilo que

    circunda o homem e seu vivido no processo de tratamento na perspectiva esprita.

    Compreendemos que a leitura desse texto poder provocar interesse sobre o

    espiritismo e, para tanto, recomendamos a leitura das obras fundamentais sobre o

    tema, como O livro dos espritos, O livro dos mdiuns, O evangelho segundo o

    espiritismo, O cu e o inferno e A Gnese, denominados de Pentateuco

    Kardequiano, fazendo meno ao seu escritor.

    Sendo o ttulo deste trabalho: Porque No Estamos Ss: da veracizao da

    experincia de tratamento no espiritismo luz da fenomenologia, cabe ressaltar que

    no se tem a pretenso de nomear tal fenmeno como uma verdade passvel de

    comprovao cientfica. Lembramos que dentro da perspectiva fenomenolgica,

    compreendemos o homem e sua relao com o mundo como experincias legtimas

    por si mesmas. No se trata, portanto, de uma justificao ou defesa de tais prticas,

    e sim do respeito que a experincia singular do homem merece dentro de cada cultura

    e modo de viver no mundo e, mais ainda, da riqueza que se pode presenciar quando

    nos dispomos a realizar pesquisas que rompem com o modelo tecnicista, onde s o

    que passvel de comprovao merece o olhar da cincia, neste caso em especial,

    da psicologia.

    Para tanto, corroboramos a importncia do que Critelli (2006) nos traz quando,

    explanando sobre o movimento de realizao do real, evidencia o papel fundamental

    do olhar humano para que o fenmeno seja desvelado, salvaguardando a

    singularidade de cada homem, pois tudo o que existe s desvelado atravs daquele

    que clareira e ilumina o fenmeno. Assim, a autora aponta cinco tpicos que facilitam

    a concepo sobre o movimento de realizao que esto exemplificados abaixo.

  • 12

    Um fenmeno s se torna real quando tirado do ocultamento sendo

    desvelado, expressado por uma linguagem, ou seja, revelado. Ao ser linguajeado

    e presenciado pelos homens, torna-se testemunhado. De tal modo, sendo o

    fenmeno testemunhado, obter relevncia pblica ao ser considerado verdadeiro,

    estando a o fenmeno da veracizao. Tornando-se pblico, o desvelado poder ser

    experincia por cada homem de modo singular, o que permitir a autenticao diante

    da vivencia de cada indivduo (Critelli, 2006).

    Tem-se, portanto, o conceito de veracizao como possibilidade

    compreensiva dos objetivos deste trabalho, j que nenhum fenmeno verdadeiro

    em si mesmo, e sim quando aquilo que vem de fora, ou seja, a clareira que o olhar

    possibilita, autoriza o fenmeno a ser o que se . Cabe ressaltar que foi exatamente

    essa proposta de lanar a luz da Fenomenologia sobre a experincia de pessoas que

    se submeteram a tratamentos espirituais, a qual nos comprometemos e pretendemos

    tornar pblico, abrindo caminhos e novas possibilidades compreensivas.

    Este trabalho composto por quatro captulos, sendo o primeiro constitudo

    por um apanhado geral que cita os estudos realizados sobre espiritualidade,

    religiosidade e seus impactos na sade mental do homem e no meio cientfico.

    Contempla tambm uma explanao sobre os conceitos de espiritualidade, em

    especial na concepo frankliana, e de sade mental, que traz desde o conceito

    adotado pela Organizao Mundial de Sade OMS, at uma perspectiva filosfica

    de tal conceito.

    No segundo captulo, tratamos da noo de cuidado a partir de Viktor Frankl,

    abordando os conceitos principais que subsidiam esta pesquisa, tais como vcuo

    existencial e busca de sentido da vida, passando pela anlise existencial como

    explicao da existncia pessoal, neuroses noognicas e os trs grupos de valores

    propostos por Frankl.

    O terceiro captulo aborda a metodologia adotada para a construo da

    pesquisa, a delimitao e caracterizao do campo, o modo como foram colhidos os

    dados e os tericos que embasam a pesquisa. Tambm, os resultados encontrados e

    a discusso destes com o respaldo da hermenutica filosfica de Gadamer.

    O quarto captulo versa sobre a experincia de campo, onde est contido o

    relato de experincia da pesquisadora durante os quatro meses em que se

    desdobraram as observaes junto ao Hospital Espiritual Patrcia Bacelar HEPB /

    Camaragibe PE.

  • 13

    Por fim, temos as consideraes finais que nos apontam para a relevncia da

    dimenso espiritual do homem, fazendo-se imprescindvel compreender os efeitos

    advindos da f religiosa, profundamente arraigada em nossa cultura, como um

    desdobramento possvel da espiritualidade propriamente humana.

  • 14

    1. ESPIRITUALIDADE E SADE MENTAL

    Todas as religies, todas as artes e todas as cincias so o ramo de uma mesma rvore. Todas essas aspiraes visam ao enobrecimento da vida humana, elevando-a acima da esfera da existncia puramente material e conduzindo o indivduo para a liberdade. (Einstein)

    Em todas as pocas que compem sua histria, o homem fez uso do religioso,

    do mstico e porque no dizer, exerceu sua dimenso espiritual para as mais diversas

    finalidades, inclusive para fins curativos. Santos (2009) aponta que, desde as grandes

    civilizaes da Antiguidade, h relatos do uso do conhecimento obtido pelo empirismo

    religioso como recurso para tratar as doenas fsicas, mesmo que s vezes como

    coadjuvante da prtica mdica, bem como para obter qualidade de vida e sade

    mental.

    O que demarca o fio condutor seguido neste trabalho exatamente o

    interesse em debruar-se sobre a experincia do homem em sua relao com a

    religio e o conhecimento que se pode obter atravs da compreenso dessa vivncia.

    Alvarado (2007) afirma que, em meados do sculo XIX, tanto a psiquiatria

    como a psicologia sofreram forte influncia na construo de seus conceitos a partir

    da emergncia de fenmenos religiosos denominados medinicos. Tais conceitos,

    como os de subconsciente, mente e dissociao, so utilizados ainda hoje, inclusive

    na psicologia.

    Os episdios medinicos (curas, escritas automticas, aparecimento de

    personalidades de espritos) despertavam a curiosidade da populao e a

    preocupao dos cientistas em todo o mundo. Foram ento desenvolvidos diversos

    estudos sobre o tema, em sua maioria, defendendo o carter psicopatolgico dessa

    experincia (Alvarado, 2007).

    A literatura revela que o desenvolvimento de estudos e pesquisas sobre o

    fenmeno religioso no Brasil no recente. A primeira metade do sculo XX demarcou

    um crescimento do interesse sobre o tema. Os psiquiatras estudiosos da temtica

    defendiam que experincias religiosas, como transe e possesso, seriam prejudiciais

    sade mental, estimulariam a loucura e tambm surtos coletivos (Dalgalarrondo,

    2008; Almeida, 2007).

    Tais experimentos religiosos foram acomodados em uma classe diagnstica

    designada delrio esprita episdico. Nesse momento, combater esses rituais passou

  • 15

    a configurar uma medida de higiene mental, postura que perdurou at a segunda

    metade do sculo XX, onde declinou com o surgimento de hipteses que apontavam

    seu carter puramente cultural e, na maioria das vezes, inofensivo (Almeida, 2007).

    Atualmente, as discusses a respeito de religio e sade mental vm

    ganhando espao no meio cientfico. Pesquisas tm demonstrado a correlao

    positiva entre a prtica religiosa e a melhora de quadros depressivos e de transtornos

    de ansiedade, a diminuio do uso de lcool e outras drogas e, especialmente, a

    recuperao/sustentao de um estado de bem estar psicolgico (Moreira-Almeida,

    2006; Sanchez, 2008; Lotufo Neto 2007; Volcan, 2003).

    Tendo em vista o marcante racionalismo caracterstico do sculo XIX, esse

    perodo configurou-se tambm como lugar de origem para o surgimento do

    espiritismo: nasciam, a partir daquele momento histrico, as teorias sobre a salvao

    pela f, dogma considerado imprescindvel experincia religiosa de cada pessoa e

    necessidade social que o homem tem de crer em Deus e de senti-lo (Federao

    Esprita Brasileira [FEB], 2007, p. 21).

    Dentro dessa perspectiva, segundo Novaes (2003), no mbito das

    transformaes do sculo XIX, o Espiritismo passa a configurar-se como uma doutrina

    que pretende conhecer os espritos, a natureza espiritual e o modo como so

    estabelecidas tais relaes com o mundo dito material. Parte-se do princpio que o

    conhecimento da essncia espiritual pode explicar a existncia material, tendo como

    finalidade primordial a natureza espiritual do ser humano. A partir de 1857, o

    espiritismo passou a ser sistematizado, sendo produzida a sua primeira publicao:

    O Livro dos Espritos, perodo em que diversos estudos sobre hipnoses,

    magnetismo, inconsciente e sobre o prprio espiritismo comearam a surgir.

    Dentro das teraputicas espritas criadas para minimizar os efeitos que os

    espritos exercem sobre o homem esto o passe, a gua fluidificada, a fluidoterapia

    dentre outras que supem tratar transtornos mentais, bem como a dependncia de

    lcool e demais drogas (Dalgalarrondo, 1998)1.

    Grosso modo, o espiritismo fundamenta-se em dois princpios fundamentais.

    Alegoricamente, como em duas faces de uma mesma moeda, por um lado, preconiza

    a posio de cincia de observao e, por outro, uma doutrina filosfica. Segundo

    1 De acordo com Dalgalarrondo (1998) o espiritismo concebe que os espritos tidos como inferiores so os causadores de diversas enfermidades humanas como, depresso, ansiedade, uso de drogas, entre outras, devido ao envio de fludos negativos enviados por eles. (p.126)

  • 16

    Kardec, no que tange cincia, abarca as relaes estabelecidas com os espritos.

    Enquanto filosofia, envolve as consequncias morais advindas do estabelecimento

    dessas relaes. Ou seja, denomina-se uma cincia que aborda a natureza, origem

    e destino dos espritos, bem como de suas relaes com o mundo corporal (2005,

    p.51).

    Para Barbosa (2002), a perspectiva de Kardec aponta que o homem deseja

    conhecer sempre mais sobre o mundo em que vive e reage e sobre os percalos

    prprios do viver. A reside o carter filosfico do Espiritismo, quando debrua-se

    sobre o homem e suas vivncias, problemas, origem e destinao.

    Acredita-se, portanto, que tal doutrina propicia a compreenso das relaes

    estabelecidas entre os homens que vivem na terra e os que se despediram dela

    temporariamente, denotando a existncia inquestionvel de algo que tudo cria e tudo

    comanda, inteligentemente DEUS (Barbosa, 2002, p.101).

    Por outro lado, Freire (2003) aponta a importncia de construir um novo olhar

    para os profissionais de sade mental no Brasil, j que considerar e respeitar estes

    pacientes, suas crenas, seus remdios, seus rituais de sabedoria da experincia

    popular, em um pas predominantemente religioso, poder favorecer contribuies

    acerca da sade mental no Brasil.

  • 17

    Figura 1: Figura elaborada com base na Ontologia Dimensional proposta por Frankl em seu livro: Presena Ignorada de Deus, p.24.

    1.1. Espiritualidade

    Durante o processo de reviso da literatura nesta pesquisa, foi observado que

    existem diversos conceitos de espiritualidade sob diferentes perspectivas, os quais

    englobam a cultura, seus valores e crenas. Nesse sentido, faz-se importante

    demarcar que, embora respeitando as diferentes opinies a respeito da

    espiritualidade, partiremos do conceito adotado pela psicologia de Viktor Frankl.

    Frankl (2007) nos presenteia com a noo de espiritualidade, contrapondo-se

    teoria de que o homem seria uma unidade corpo-mente, que diz respeito apenas

    ao psicofsico. No entanto, para representar a totalidade humana, condio

    primordial compreender a noo de espiritualidade, j que, na viso do autor, a

    unidade do homem enquanto ser representada tambm pelo espiritual.

    Para facilitar esta compreenso, Frankl fez uso do modelo de estratos

    concntricos de modo que, minimamente, a representao possa denotar o que seria

    uma estrutura tridimensional que contemple a complexidade humana a partir da sua

    dimenso espiritual, como eixo central da estrutura do ser.

    Desta feita, o termo psicologia profunda, como utilizado pela teoria

    psicanaltica, foi refutado por Frankl, tendo em vista que o mesmo diz respeito a uma

    anlise que se aprofunda at o inconsciente do que instinto, ou seja, esbarra no

    DIMENSO ESPIRITUAL

    DIMENSO PSIQUCA

    DIMENSO SOMTICA

    DIMENSES DO HUMANO

  • 18

    psicofsico. Na perspectiva frankliana, o homem deve ser considerado em sua

    dimenso espiritual j que esta o centro da existncia, podendo assim ser

    compreendido como ser espiritual-existencial (Frankl, 2007).

    A espiritualidade, nessa concepo, tem origem no termo alemo Geist, que

    quer dizer esprito ou mente, no fazendo referncia direta vida religiosa-espiritual,

    e sim aos fenmenos humanos ligados aos afetos, crenas e inclinaes que no

    advm apenas do instintivo ou do psquico, mas que so componentes de uma

    unidade de que denominada biopsicoespiritual, quilo que diz respeito

    integralidade humana (Frankl, 2007).

    Tendo em vista a viso supracitada, vale destacar a importncia do referido

    conceito de espiritualidade para o exerccio da psicologia no mbito da sade mental.

    Compreendemos a partir destas reflexes que, para existir uma perspectiva de sade

    pautada no coletivo e em suas reais necessidades, que no seja excludente e na qual

    a cultura possa dar seu colorido prprio, importante considerar a populao, seus

    rituais e seu modo de construir sentidos e saberes, os quais afetaro diretamente nos

    conceitos de sade e doena e no modo como ambas so vivenciadas.

    Nesse contexto, Paiva (2006) traz tona uma importante discusso a respeito

    da espiritualidade e seu papel dentro das prticas de sade e questiona quais

    contribuies a psicologia pode construir dentro desta perspectiva. Para tanto, realiza

    uma interessante distino entre o que denomina psicologia quotidiana e psicologia

    cientfica, sendo a primeira considerada como o solo frtil que fez nascer a psicologia

    com a qual lidamos nas academias.

    Importa ressaltar que, nessa tica, a psicologia quotidiana, ou do senso-

    comum, entendida como um elo que sempre existiu nas relaes humanas: existe

    muito antes da psicologia cientfica e tem presidido, ao longo de sculos e milnios,

    as relaes entre as pessoas, a vida nos agrupamentos humanos, a percepo da

    realidade circundante, a imaginao e os sonhos humanos (Paiva, 2006, p.187).

    Diante das explanaes realizadas, tais profissionais precisam ampliar seus

    olhares a respeito do conceito de sade, levando em considerao as demandas

    trazidas pelo paciente em consonncia com a sua prtica, j que o saber mdico,

    proveniente da cincia, no dar conta da verdade que emerge de cada pessoa em

    sua singularidade. Morais (2006) acentua a importncia do avano tecnocientfico

    para os cuidados em sade. No entanto, estabelece um contraponto ao evidenciar o

    descaso e as dificuldades na aplicao desse conhecimento.

  • 19

    A inteligncia humana j mostrou ser capaz de muito; os avanos cientficos e tcnicos so estupendos, indiscutivelmente; mas, em reas biomdicas, ainda falta, ao menos, um fundamental componente: a conjugao de cincia com amorosidade, de tecnocincia com compaixo (Morais, 2006, p.182).

    Tendo em vista o panorama real da sade no qual os brasileiros tm se

    submetido, em filas quilomtricas e uma total desumanizao no modo de lidar como

    o homem em sua totalidade, o que poderia ser amenizado, caso a educao em sade

    levasse em considerao o aspecto espiritual, em especial, na formao dos

    estudantes de medicina. Sob essa tica, importa evidenciar a seguinte assertiva:

    Vivemos em uma era de especialistas (Frankl, 2008, p. 30), onde podemos refletir

    sobre o excesso de recortes realizados para compreenso do homem e sua realidade.

    Tal fato tem tornado impraticvel a construo de uma totalidade passvel de

    entendimento. Esse cenrio mostra-se como retrato da sociedade contempornea que

    vivencia uma real dificuldade em integrar diferentes concepes, j que cada

    especialidade levanta a bandeira da razo prpria, buscando compreender o homem

    apenas por uma lente: a de sua cincia.

    Ressalto que a psicologia no escapa deste panorama, tendo em vista o

    psicologismo em que estamos imersos, gerando dificuldades reais na atuao dos

    profissionais que se mostram cada vez mais engessados em suas tcnicas como

    nica alternativa compreensiva do homem.

  • 20

    1.2. Sade Mental

    Conhece-te a ti mesmo (Orculo de Delfos)

    De acordo com a Organizao Mundial de Sade [OMS] (2001), no existe

    definio nica ou universal para sade mental. O conceito de sade definido a partir

    de diversos fatores que so atribudos ao sujeito, bem como tudo que o cerca: sua

    cultura, seu ambiente e, ratificamos, seu modo-de-ser-no-mundo.

    Porm, concebida com unanimidade a ideia de que a sade mental est

    para alm de uma mera ausncia de perturbao mental. A OMS sugere que a sade

    mental pode ser compreendida como um estado de bem-estar pelo qual as pessoas

    realizam e usam suas prprias habilidades, lidam com os estresses da vida,

    conseguem trabalhar produtivamente e podem contribuir com sua comunidade

    (Cloninger, 2010, p.16).

    possvel notar um crescente interesse em estudar a religio e a

    espiritualidade, bem como seus impactos na sade mental das pessoas ou

    comunidades. Tais estudos tm revelado que, em sua maioria, a tessitura desses trs

    aspectos culminam em resultados positivos, em especial, em meio a pessoas em

    situao de fragilidade emocional, estresse, deficincia, comprometimento clnico ou

    idosos.

    No entanto, apesar da relevncia para as polticas de sade e, em particular,

    para o fazer clnico, tais temticas foram, durante muito tempo, relegadas a um no-

    lugar na academia, avaliada a partir de preconcepes dogmticas em detrimento ao

    seu imprescindvel valor antropolgico e, acima de tudo, clnico, tendo em vista as

    repercusses na sade fsica e emocional das pessoas (Moreira-Almeida, 2010;

    Stroppa, 2010).

    Cloninger (2010) explicita que, apesar das tcnicas tradicionais da psiquiatria

    moderna e dos recursos medicamentosos que tm sido cada vez mais utilizados,

    existem diversos mtodos, muitas vezes denominados alternativos, que facilitam o

    alcance de harmonia e bem-estar para sade humana.

    Nessa perspectiva, faz-se importante refletir que, na contemporaneidade, o

    significado da palavra cuidado parece sofrer um desgaste. Em sua maioria, as

    pessoas j no se sentem capazes de cuidar de si ante todo o aparato tecnolgico e,

    concomitantemente, ao avano da medicina. Buscam-se cada vez mais os

    consultrios mdicos, visando, possivelmente, uma forma de transferir a

  • 21

    responsabilidade por seu autocuidado e por sua sade aos profissionais. Ora, e a

    parcela que nos cabe? No somos capazes de cuidar de si? Nessa tica, Yaari (2010)

    elucida:

    na ao cotidiana dos agentes de sade, mdicos, psiclogos, fisioterapeutas, filsofos e tantos outros profissionais, que se pode levar aos pacientes (os portadores do pathos) a experincia do quanto cada um de ns responsvel por seus processos, demonstrando como a alienao se perpetua enquanto no assumimos essa potncia. (p.79)

    Sob o prisma filosfico Yaari (2010), traz-se tona questionamentos em

    relao aos critrios de normalidade rigidamente estabelecidos pelos padres

    cientficos da atualidade, excluindo o saber filosfico e, porque no dizer, excluindo o

    saber popular, o saber-cuidar-de-si. Levando em considerao a singularidade

    humana, essa universalizao dos padres de sade e doena acaba por

    deslegitimar o saber popular.

    Saber este que ganha corpo a partir das vivncias individuais, singular e

    sofre mudanas de cultura para cultura. Em conformidade s normas generalizantes

    impostas pelo mundo tcnico-cientfico, acaba por tornar-se um padro a ser seguido.

    Sobre essa configurao, Yaari (2010) cita: para cada sofrimento ou doena, h a

    necessidade de despertar os potenciais de cura interna de cada indivduo,

    mobilizando seu ser para atravessar a doena de maneira plena de sentido e

    superao (p.87).

    Na lgica desse caminhar, fica em evidncia a relevncia em pensar o

    processo de adoecimento como oportunidade de crescimento, onde o adoecer abre

    possibilidades de sentidos diferentes daqueles impostos pelos padres socioculturais.

    Processo que podemos configurar como um rompimento com a dicotomia imposta

    pelo saber mdico que se compreende hegemnico, no entanto posto em questo

    diante do saber popular.

    Assim, o mdico, bem como os outros profissionais de sade, deve ouvir o

    paciente em sua integralidade, conhecendo e respeitando os diversos saberes

    trazidos por ele e, acima de tudo, empoderando-o como o principal responsvel pela

    prpria sade. Ou seja, o profissional de sade passa a compreender que no o

    detentor do saber ou o responsvel pela sade do outro, e sim seu cicerone (Yaari,

    2010).

  • 22

    Compreendendo as prticas da religiosidade e da espiritualidade como

    pertencentes ao contexto social e cultural do homem, e que as mesmas influenciam

    diretamente na construo do conceito de sade mental atual, enfatizamos a pesquisa

    realizada por Moreira-Almeida (2010) que destaca o valor positivo da religio e da

    espiritualidade para a evoluo do que denomina Transtornos Mentais Comuns

    (TMC), como os transtornos depressivos, de ansiedade, afetivo-bipolar, entre outros,

    j que as pessoas religiosas estariam sujeitas a vinculaes que oferecem maior

    suporte em situaes consideradas adversas.

    Saber ouvir! Quando levamos em considerao que a fala dos pacientes

    transmite no s o que da realidade destes, mas tambm daquilo que foi construdo

    na relao entre o profissional e o paciente, compreendemos a necessidade

    primordial desta qualidade para os profissionais de sade. J que a narrativa

    edificada na e pela cultura em que todos os atores esto inseridos, desse modo, a

    psicologia quotidiana parece facilitar a concepo daquilo que peculiar a cada

    cultura (Paiva, 2006).

    Nesse contexto, refletimos que a sade mental no pode ser

    compreendida por apenas um ponto de vista. Nela esto imbricados todos os

    processos que envolvem o ser humano na sua relao com o mundo. Assim, a

    fenomenologia colabora quando pensa o homem como ser-no-mundo-com-os-

    outros, e como responsvel pelo prprio cuidado e pela sua existncia.

  • 23

    2. O CUIDADO TERAPUTICO A PARTIR DA ESPIRITUALIDADE EM FRANKL

    Quem tem por que viver suporta quase qualquer como (Nietzsche)

    Tendo a pesquisa um carter cartogrfico na perspectiva fenomenolgica,

    onde se tem a implicao do pesquisador no campo em seus movimentos, olhares,

    sentimentos, perplexidades e reflexes, ressalto que as minhas vivncias apontaram

    para a importncia da teoria frankliana. Uma vez que, para a compreenso dos

    variados fenmenos observados, fez-se necessria a apropriao de uma teoria que

    compreendesse o homem em sua integralidade, que pudesse responder a esse

    homem que busca o tempo todo um sentido para a sua vida, sentido que muitas vezes

    extrapola os limites da lgica, um suprassentido.

    Viktor Emil Frankl, neurologista, psiquiatria e psicoterapeuta austraco, foi o

    fundador da Logoterapia ou Terceira Escola de Psicoterapia de Viena, abordagem de

    cunho humanista e fenomenolgico existencial. Ainda enquanto estudante de

    medicina, iniciou seus estudos sobre a Psicologia Individual de Alfred Adler, de quem

    divergiu, estruturando uma teoria que toma por centro a compreenso do que avaliou

    como uma suposta ausncia de sentido para a existncia, ausncia essa tpica da

    contemporaneidade.

    Como observa Pereira (2013), a partir de sua clnica, Frankl considerou como

    questo predominante para a psicoterapia do sculo XX o fenmeno que denomina

    vcuo existencial. Isso porque a clnica mdica fora assolada por demandas no

    apenas fisiolgicas, mas, acima de tudo, espirituais. O surgimento desse novo

    elemento confrontou a prtica mdica tradicional, denotando a crescente busca por

    um outro cuidado que no apenas o biolgico. Tal perspectiva reafirma que a

    ausncia de sentido para a vida ou vcuo existencial surge como caracterstica

    patolgica da atualidade findando em dois principais sintomas: tdio e apatia.

    Para Frankl, o sentimento de vazio tem origem primeiro no distanciamento do

    instintivo. Os instintos no dizem ao homem o que ele deve fazer. Afirma o autor que

    o homem tinha como principal guia a tradio. No entanto, o homem contemporneo

    mudou seu modo de se relacionar e, nesse contexto, a tradio que norteava as

    geraes anteriores no mais lhe diz o que deve fazer. Mal sabe mais o homem o

    que ele basicamente deseja fazer (...) ele acaba por simplesmente reproduzir o que

    as outras pessoas fazem (conformismo), ou faz o que os outros querem que ele faa

    (totalitarismo) (Frankl, 1988, apud Pereira, 2013, p. 20).

  • 24

    Como recorte ilustrativo dos desafios enfrentados atualmente pela psiquiatria,

    e porque no dizer pela psicologia, tem-se a fala do jovem Toms*, que apesar do

    diagnstico de anorexia nervosa e vrias indicaes de internamento, diz:

    Apesar de baixar o peso, acho que o ponto crtico no foi esse. Acho que o ponto crtico foram os momentos de angstia. Pessoalmente, eu percebi que os problemas maiores eram os problemas emocionais, de depresso. Porque apesar de eu emagrecer e de aquilo me deixar debilitado (...) porque eu me sentia muito mal e cansado, mas eu no me sentia uma pessoa perdida. (Toms*, 2013)

    Nessa perspectiva, cabe evidenciar o socilogo Zygmunt Bauman, que

    aborda questes relativas a contemporaneidade e sobre os modos de ser no mundo

    que o homem estabelece nas novas configuraes sociais. Em sua obra A sociedade

    individualizada, Bauman (2008) nos fala da precariedade da vida contempornea, de

    sua instabilidade, da insegurana que promove, justamente por ser sem

    precedentes, por tratar-se do desconhecido. Estamos lidando com o novo, com o

    mundo desenvolvido, modernizado e suas excessivas cobranas que recaem sobre

    os indivduos como uma inundao de informaes, obrigaes, metas e prazos,

    sempre urgentes, onde, na maioria das vezes, significado como estressante e

    deprimente, uma falta de segurana do prprio corpo, do prprio ser e de suas

    extenses (p.195).

    Tanto na esfera privada quanto na pblica, vive-se em um frentico ritmo de

    mutaes, as quais exigem do homem um novo modo de comportar-se no mundo.

    Para Bauman (2001), a solidez que antes calcava a estruturao e manuteno da

    vida social fora substituda por uma liquidez. Nesse processo de liquefao, o que

    era slido e permanente na vida em sociedade perdeu sua forma e tornou ainda mais

    difcil o convvio social. Assim como ocorre com a gua, as relaes eu-outro escorrem

    entre os dedos, tornam-se provisrias e impermanentes.

    A insegurana passa a dominar o homem. Este no tem mais a certeza de

    que suas escolhas lhe rendero bons frutos, no entanto, faz-se necessrio escolher,

    decidir e, acima de tudo, suportar a aflio e o medo de realizar as escolhas erradas.

    pagar, por conta prpria, na solido, um preo alto pelo risco de decises estreis

    e assumir a possibilidade de ser substitudo, ultrapassado, esmagado pela velocidade

    moderna (Bauman, 2008).

  • 25

    No livro Em busca de sentido, escrito a partir de suas experincias em

    diversos campos de concentrao durante trs anos, perodo que denominou

    experimentum crucis, Frankl afirma que a motivao primria para o homem a

    busca do sentido da vida. Ressalta, no entanto, que para realizar o sentido potencial

    da vida, o homem se intenciona para fora, o que denomina autotranscendncia, j

    que o sentido da vida no pode ser encontrado dentro do homem, em sua psiqu, e

    sim no mundo. exatamente essa caracterstica que compe o humano, a

    potencialidade de dirigir-se ao outro, a algum que no ele mesmo (Frankl, 2008).

    No relato de Frida*, que devido a uma leso medular perdeu a sensibilidade

    motora, percebemos um exemplo de autotranscendncia quando, ao encontrar um

    sentido para sua vida nas atividades espritas, conseguiu superar suas limitaes

    fsicas:

    (...) acredito e o ponto de vista mais importante foi a questo psicolgica, isso a que eu acho mais importante, porque me deu a vontade de enfrentar a dificuldade e de tentar vencer o que eu pudesse vencer n? E eu tenho certeza que se no fosse o espiritismo, quando eu tive a minha leso medular eu teria ficado muito revoltada, mas desde que tudo aconteceu eu fiquei muito serena, muito tranquila e sabendo que ia ficar boa. Eu sabia que no ia ficar igual a antes, mas que eu iria ficar boa, sempre tive isso na minha cabea e at hoje. Acho que foi isso que me deu essa energia e a vontade de trabalhar no espiritismo. (Frida*, 2013)

    O sentido para a existncia deve tomar por base a responsabilidade de ser.

    Ser eu demanda responsabilidade e tomada de decises diante do que se acredita

    ser o sentido de sua vida. Est a, ento, para Frankl, o papel do psicoterapeuta, que

    guiar o homem para a descoberta de sua capacidade de encontrar sentido em sua

    existncia a partir da autorresponsabilizao, dentro de sua singularidade e por meio

    de uma anlise existencial. O terapeuta confere, portanto, apoio para que o homem

    encontre uma sustentao espiritual (Frankl, 2012).

    A psicoterapia, orientada pelo espiritual e transformada em anlise existencial, s esgotar todas as possibilidades teraputicas se conseguir ver, por detrs daquele que sofre psiquicamente, aquele que luta espiritualmente, como um ser, disposto em um mundo de necessidades e possibilidades, na tenso entre ser e dever. (Frankl, 2012, p. 31)

    Nesse contexto, compreende-se que Logoterapia e Anlise Existencial so

    aspectos distintos, mas complementares, de uma mesma teoria. Enquanto a

  • 26

    logoterapia um mtodo para psicoterapia, a anlise existencial pauta-se como

    corrente antropolgica de pesquisa. Cabe ressaltar que anlise existencial no

    compete uma anlise da existncia propriamente dita, pois desta forma teramos uma

    reduo do sentido da existncia.

    Em verdade, a anlise existencial diz respeito a uma explicao da existncia

    em sua dimenso ontolgica, o que a configura como uma antropologia

    psicoteraputica que desvela a existncia de um inconsciente espiritual. Ambas,

    Logoterapia e Anlise Existencial, desdobram-se em cinco aspectos que oferecem

    sustentao para uma prxis clnica, que so: Anlise Existencial como explicao da

    existncia pessoal; Anlise Existencial como terapia de neuroses coletivas, Anlise

    Existencial como assistncia psquica mdica; Logoterapia como terapia especfica

    de neuroses noognicas; e Logoterapia como terapia no especfica (Frankl, 2012).

    Para esse estudo, compreende-se de fundamental importncia evidenciar

    dois aspectos da teoria de Frankl que oferecem respaldo para a compreenso do rumo

    tomado pela pesquisa a partir das experincias proporcionadas pelo campo, so elas:

    Anlise Existencial como explicao da existncia pessoal e Logoterapia como terapia

    especfica de neuroses noognicas.

  • 27

    2.1. Anlise Existencial como Explicao da Existncia Pessoal

    Para Frankl a Anlise Existencial configura-se como uma explicao

    antropolgica da existncia pessoal. Nesse ponto, evidencia que a essncia da

    existncia qualificada pelo que prprio ao homem e ao seu modo de ser. Em seu

    argumento, o homem debrua-se sobre um poder ser em detrimento a um precisar

    ser. O ser facultativo e no ftico. Compreende a ex-sistncia como um sair de si

    para deste modo ver a si mesmo. distanciando-se de si enquanto dimenso

    psicofsica que o homem constitui-se enquanto pessoa espiritual, circunscrevendo o

    lugar do humano espiritual e tornando consciente a imagem de homem inconsciente

    (Frankl, 2012).

    Como potenciais exclusivamente humanos de autodistanciamento, Frankl

    destaca o humor e o herosmo que empodera e instrumentaliza esse homem para a

    tomada de decises, para a responsabilidade de realizar escolhas e, acima de tudo,

    torna-o livre e responsvel por si mesmo e pela estruturao de seu carter. Nessa

    perspectiva, destaca: O que importa, logo, no so os condicionantes psicolgicos,

    ou os instintos por si mesmos, mas, sim, a atitude que tomamos diante deles, a

    capacidade de posicionar-se dessa maneira que faz de ns seres humanos (Frankl,

    2011, p. 27).

    O posicionamento de Hellen* diante do adoecer severo de sua filha

    exemplifica essa questo:

    Ento eu tive que cair em campo, seguindo minha intuio, buscando os melhores profissionais que eu acreditei que pudessem me dar um respaldo (...) eles no me davam nenhuma esperana. Sempre que eu pudesse esperar o pior. A gente assina um termo de consentimento e de responsabilidade por toda e qualquer sequela que se venha a ter diante do procedimento cirrgico. Ento eu s tinha que acreditar realmente e mover a f. (...) ou ento poderia deixar minha filha permanecer com a doena, acreditando que daqui a dois, trs anos quando ela viesse a ter os possveis sintomas mais intensos, mais violentos da doena eu ter que olhar pra ela e dizer: o tempo que eu tinha que fazer alguma coisa por voc foi l atrs! Hoje a gente vai adoecer junto porque voc vai comear a definhar e voc vai ficar em cima de uma cama porque agora a gente no tem mais o que fazer... (Hellen*, 2013)

    Diferentemente da Psicologia Individual de Adler, que objetiva o

    encorajamento do paciente a enfrentar seu sentimento de inferioridade, e da

  • 28

    Psicanlise em sua objetividade, que segundo Frankl levou objetivao ou

    coisificao, isto , fez do ser humano uma coisa, a anlise existencial exalta a

    autonomia da existncia espiritual (p. 14), fazendo-se compreender como uma

    anlise que direcionada para o homem como ser responsvel e que questionado

    sobre o sentido de sua vida. Aqui, faz-se importante entender que o homem

    interrogado pela vida, no ele quem a interroga. A sada para o homem, o nico

    modo de dar conta dos questionamentos da vida, reside na ao requerida pelo

    momento em que vive o homem, no aqui e agora (Frankl, 2007).

    Ao homem dada a tarefa de realizar sua essncia o que cumprido dentro

    da singularidade e unicidade de cada ser, a partir de possibilidades que so prprias

    a cada situao e a cada indivduo, o que Frankl denomina de ad personam e ad

    situationem. Se o vivido no se repete, est a a peculiar caracterstica do existir,

    quando no cumprimento do seu dever o homem busca, com respaldo em sua

    espiritualidade, as oportunidades mais coerentes (Pereira, 2013).

    Compreendida como uma existncia deteriorada ou decadente, a neurose

    o enfoque para o qual a anlise existencial direciona seu cuidado, no sentido de

    trazer conscincia do homem a responsabilidade pela sua existncia. Diferente da

    psicanlise que visa trazer conscincia aquilo que da ordem dos instintos e seus

    mecanismos, a anlise existencial conscientiza o indivduo de sua essncia espiritual,

    o ser responsvel, ou ter responsabilidade, a base fundamental da pessoa

    enquanto ser espiritual, no meramente impulsivo (p.17). O ser s prprio quando

    decide, quando responsvel, e no impelido por impulsos de um id, como algo

    parte, diferente de sua unicidade (Frankl, 2007).

    Considerando a teoria de Frankl, possvel compreender nesta fala de

    Toms*, quando justifica suas inmeras buscas por tratamentos mdicos e espirituais

    em diferentes crenas religiosas, o possvel motivo para a ausncia de sucesso dos

    mesmos:

    Eu sei que eu s mudei a partir de uma deciso minha, mas eles foram no intuito de construir em mim essa deciso. De conseguir me harmonizar antes pra tomar a deciso, porque queriam que eu tomasse a deciso naquele momento. Eu entendo de certa forma porque era uma situao crtica, a anorexia uma doena que pode levar morte, mas eu achava que s dizer o que era pra eu fazer no era suficiente, era necessrio ter uma interveno de alguma coisa maior. (Toms*, 2013)

  • 29

    A busca por sentido algo peculiar a cada ser humano. No possvel a

    implementao de receitas prvias que facilitem o preenchimento do vazio existencial

    que existe em cada paciente recebido. A fala de Toms* nos mostra que sua busca

    era pessoal e que, muito embora necessitasse de ajuda, ningum alm dele mesmo

    poderia alcanar o sentido que buscava, restando queles que se dispuseram a ajud-

    lo, seja no ambulatrio de psiquiatria, seja em um Hospital Espiritual, uma escuta

    atenta, o acolhimento e o direcionamento do mesmo atravs do cuidado isento de

    julgamento moral.

  • 30

    2.2. Neuroses Noognicas

    As neuroses noognicas apresentam-se como aquelas que devem sua causa

    a conflitos de ordem espiritual, pelo vcuo existencial, pela frustrao existencial ou

    pela frustrao da vontade de sentido. No entanto, nem toda pessoa que se encontra

    em busca de um sentido para a vida, ou que est em meio a um conflito existencial,

    est, necessariamente, padecendo de uma patologia (Frankl, 2011).

    A frustrao da vontade de sentido recebe destaque na teoria de Frankl, pois

    o fato antropolgico considerado fundamental da autotranscendncia humana. Ou

    seja, a partir desse fenmeno que o homem direciona-se para o mundo que est

    alm de si mesmo. O ser no deseja permanecer retrado em si mesmo, compreende

    que o seu destino consiste em viver por uma finalidade ltima, por um sentido supremo

    (Frankl, 1991).

    Frankl (2011) nos diz a seguinte assertiva: O homem precisa ter coragem de

    estar s (p.123). Isso porque considera importante que sejam salvaguardados

    momentos em que a reflexo sobre o sentido de nossa existncia seja possvel,

    evitando assim que padeamos sob os efeitos adoecedores da represso de nossos

    questionamentos sobre o sentido da vida.

    No sendo o homem dirigido pelos instintos e sem a sombra de tradio,

    marca caracterstica dos nossos tempos, o risco de um vazio que pode apresentar

    sintomas neurticos se tornou cada vez mais frequente. Em pesquisa observamos

    sinais deste tipo de transtorno em vrios de nossos entrevistados, entretanto nos

    parece claramente identificvel na fala de Toms*. Segue abaixo um fragmento de

    sua narrativa, ilustrando nossas observaes.

    Eu tambm sei que num quadro de anorexia comum desenvolver um quadro de depresso, mas no meu caso surgiu praticamente ao mesmo tempo essa questo, porque eu estava desnorteado em termos de Ser mesmo, e de vida. Eu no sabia mais pra que eu tava existindo, no tinha direcionamento mais da minha vida, basicamente a minha estrutura estava totalmente abalada e eu expressava isso atravs da emoo, atravs do choro. Todo dia, praticamente, eu chorava, me sentia angustiado, pensava em desistir de tudo. A me veio essa alternativa do tratamento espiritual (Toms, 2013)

    Em contrapartida noo de equilbrio para designar a sade mental, Frankl

    nos alerta que a tenso pela busca de sentido o que contribui para a sade mental.

    Reflete que esta deveria ser compreendida como o espao entre aquilo que j foi

  • 31

    realizado pelo homem e aquilo que ainda pretende conseguir. Nesse sentido,

    considera a tenso entre o que se e o que deveria vir a ser a responsvel pela

    manuteno da sade mental humana (Frankl, 2008).

  • 32

    2.3. Os trs grupos de valores

    Tratando da autocompreenso ontolgica pr-reflexiva, Frankl (2007) nos

    fala sobre os chamados trazidos pela vida ao homem comum. Este se sente

    compelido a responder a esse chamamento, realizando enquanto ser o que lhe

    destinado como sentido. Compreende que a vida nos oferece a oportunidade de nos

    realizarmos e que devemos responder a todo chamamento j que este , ao mesmo

    tempo, um presente e um dever.

    No entanto, o homem comum traduz esse saber no pela via da cincia.

    Busca e encontra a vontade de sentido por trs vias: uma ao que pratica ou uma

    obra que cria; vivenciando algo ou amando algum; e diante do inevitvel. Frankl

    nomeia tais vias como trs grupos de valores, os valores de criao; valores de

    experincia e os valores de atitude.

    Comeando pelos valores de atitude, onde exaltado o inevitvel, importa

    considerar que, mesmo diante de situaes em que o pior no possa ser evitado,

    como exemplo um cncer no opervel, ainda assim podemos mudar a nossa postura

    diante da vida e das situaes. Ou seja, possvel transformar o sofrimento em

    mrito. Este conceito no est relacionado tica ou moral, mas sim postura

    adotada pela pessoa diante de um acontecimento (Frankl, 2007, p. 90).

    Contribuindo para aclarar o conceito de valores de atitude, temos a seguinte

    fala de Frida*:

    Eu estou nessas condies tambm por conta do meu corpo que me ajudou. Eu agradeo muito a Deus porque tem muita gente que no consegue o que eu consegui. Tem uma menina muito bonita l no Sarah que parecia uma boneca de pano, toda atrofiada, no mexia nada. Eu s fazia agradecer a Deus por no estar naquelas condies. At hoje eu agradeo, porque tm pessoas com situaes muito piores que a minha. Ento foi essa minha viso a vida inteira, sempre ser otimista, sempre ter a mente voltada as coisas de Deus, acreditando, pedindo a assistncia dos espritos, de Maria Santssima, de Jesus. Sempre acreditei nisso e acho que isso foi um diferencial pra mim. Atribuo isso a uma questo religiosa ou espiritual. E como eu digo, eu acho que o espiritismo me preparou pra isso. (Frida*, 2013)

    O conceito de valores de atitude na teoria frankliana de modo algum quer dizer

    que o sofrimento necessrio para que o homem encontre um sentido. E sim, que o

    encontro de um sentido pode ser obtido mesmo em situaes irreversveis e de

  • 33

    extremo sofrimento. Mesmo a trade trgica proposta por Frankl (2007), composta por

    sofrimento, culpa e morte, no necessariamente precisa considerar os aspectos

    negativos da vida, tendo em vista a postura e o amadurecimento que o homem pode

    obter atravs dessas vivncias, transformando-as em algo que o engrandece.

    Os valores de criao dizem respeito capacidade do homem de produzir e

    trabalhar, explicitando o potencial contido na criatividade humana, no apenas para

    feitos grandiosos, como tambm na concretizao de uma obra ou perante uma

    tomada de deciso. Pode-se ressaltar, em especial, as pequenas tarefas do

    cotidiano do homem, onde ele se lana para dar algo ao mundo, cumprindo afazeres

    e solicitaes da famlia e da prpria vida (Frankl, 2007). Ilustrando os valores de

    criao, temos o seguinte trecho da fala de Frida*:

    A minha leso a princpio foi muito grave, mas com o decorrer do tempo, talvez at por conta da minha f, porque eu fiz outros tratamentos espirituais, inclusive cirurgia a distncia e isso contribuiu de uma certa forma pra que estivesse como estou hoje. Independente, fazendo tudo sozinha, eu cozinho, eu fico em casa s, tomo banho, fao tudo que uma pessoa normal faz, apenas utilizo a cadeira de rodas e tenho algumas limitaes fsicas, como a de intestino e de bexiga, que ficam da leso medular. (Frida*, 2013)

    J os valores de experincia dizem respeito ao relacionamento do homem no

    mundo, recebendo dele experincias e encontros. Inclui-se aqui o amor. Frankl (2008)

    pondera que o amor a nica forma pela qual se pode conhecer o outro em

    profundidade. Nessa concepo, ele capacita para a realizao de potencialidades,

    pois pode enxergar alm do que se mostra. O amor alcana o ntimo e, assim, estimula

    a conscientizao do que est irrealizado, ou seja, o vir a ser. Logo, compreendido

    para alm dos impulsos, sendo considerado to primrio quanto o sexo. Este seria um

    meio de expressar o amor, sendo explicado e at sacralizado enquanto veculo do

    mesmo.

    Para evidenciar tanto o conceito de valores de criao quanto de valores de

    experincia, temos a seguinte fala de Anita*:

    Aqui eu tenho uma proteo muito grande. Agradeo muito, muito a essa mentora daqui pela proteo que ela d. Porque eu acho que se eu no estivesse aqui eu no sei o queria de mim. Esse hospital tudo pra mim, tenho um prazer enorme de estar aqui dentro. um prazer muito grande voc ver um paciente chegar numa situao e com certo tempo do tratamento a gente v ele melhorar, surtindo os efeitos do tratamento que ele est fazendo, um prazer muito grande! Aqui meu alicerce, minha

  • 34

    fortaleza. J fraquejei muitas vezes e cai, mas levantei a cabea e segui em frente. Por isso eu agradeo muito o apoio que Dra. Patrcia me d, o acolhimento dela, como ela diz: Vocs so os nossos filhos. (Anita*, 2013)

    A pessoa comum no encara a vida tal qual uma batalha. Compreende suas

    entrncias como algo no qual precisa tomar decises e posturas adequadas com o

    que cada situao lhe solicitar. Possui a compreenso originria que lhe permite

    buscar, descobrir e realizar o que solicitado pela vida (Frankl, 2007).

  • 35

    3. CAMINHANDO QUE SE FAZ O CAMINHO

    Quando no houver caminho, mesmo sem amor, sem direo. A ss ningum est sozinho, caminhando que se faz o caminho (Enquanto houver sol - Tits)

    Em minhas vivncias enquanto pesquisadora a frase caminhando que se

    faz o caminho, assim como na cano dos Tits, fora combustvel dirio para a

    continuidade deste estudo. As minhas experincias no campo, sem o rigor de um

    mtodo pr-definido, abriram clareiras compreensivas ante o fenmeno que se

    desvelava a cada nova visita. Estive o tempo inteiro a me encantar, envolvendo-me

    pelas alamedas que trilhei. O desconhecido, o desafio e a corda bamba foram meus

    companheiros a todo o tempo, assim como a satisfao e o aprendizado.

    Para uma contextualizao, faz-se necessrio dizer que a escolha do campo

    de pesquisa deu-se, inicialmente, atravs da curiosidade suscitada durante minha

    prtica profissional, pois, tanto na clnica quanto em minha atuao como psicloga

    em Centro de Referncia da Assistncia Social - CRAS, pude realizar a escuta de

    pessoas que passaram por possveis experincias transcendentes a partir de um

    contato com o sobrenatural dentro da crena esprita.

    Com vistas a refletir sobre as questes suscitadas no desenvolver deste

    trabalho, importa explicitar a experincia de pessoas que estiveram em tratamento no

    Hospital Espiritual Patrcia Bacelar - HEPB, que funciona no municpio de

    Camaragibe, Estado de Pernambuco, regido por um Estatuto elaborado de acordo

    com o novo Cdigo Civil e a Lei n 10.825/2003 que classifica as Instituies Espritas

    como associaes, e incluindo-as na categoria legal de organizao religiosa.

    Em seu estatuto, o HEPB denomina-se: pessoa jurdica de direito privado, de

    carter religioso, filantrpico, assistncia sade e cultural, sem quaisquer fins

    lucrativos, com prazo de durao indeterminado (Captulo I, Art. 1, Estatuto do

    HEPB, 2011).

    Para iniciar as atividades de campo, foram realizados dois encontros com os

    colaboradores da instituio que coordenam as atividades para esclarecer os

    objetivos da pesquisa. Conhecer a rotina do hospital, seus procedimentos e tcnicas,

    a acolhida e encaminhamento das pessoas que buscam o tratamento e os tipos de

    tratamentos existentes demandaram aproximadamente quatro meses de visitas

    devido diversidade de procedimentos.

  • 36

    Aps conhecer a rotina da Instituio, foi realizada uma exposio para o

    pblico no intuito de esclarecer os objetivos da pesquisa e, assim, convidar os sujeitos

    a participar voluntariamente da pesquisa. Devido ao grande fluxo de pessoas em

    busca de tratamento nessa instituio, no houve dificuldade para a coleta das

    narrativas, tendo em vista a solicitude daqueles que foram abordados.

    Para coleta de dados, utilizamos a narrativa a partir de uma pergunta

    disparadora, que consistiu na seguinte assertiva: O que trouxe voc aqui e como foi

    sua experincia de tratamento espiritual? A escolha dos participantes seguiu o padro

    de voluntariado, conforme esclarecido acima. Foram entrevistados nove participantes

    que estiveram ou permaneciam em acompanhamento no Hospital Espiritual Patrcia

    Bacelar - HEPB, no sendo feita distino de gnero, idade ou de motivo quanto

    procura do tratamento.

    Considerando que as pessoas que procuravam o tratamento no HEPB

    poderiam estar em situao de vulnerabilidade fsica e/ou psquica, estive

    particularmente atenta aos sinais de sofrimento destes e permaneci disponvel para o

    acolhimento mesmo aps o trmino da entrevista. Dos nove participantes, um do

    sexo masculino e oito do sexo feminino, em idades que variavam entre dezessete e

    cinquenta e seis anos.

    Realizamos um trabalho cartogrfico, entendendo que o mesmo implica o

    prprio pesquisador em seus movimentos no campo, seus olhares, sentimentos,

    perplexidades e reflexes, estando em sintonia com a perspectiva fenomenolgica

    como caminho de pesquisa. Utilizamos tambm o dirio de campo, tendo em vista ser

    um campo de pesquisa pouco explorado e que necessita de um mtodo que no limite

    o acesso ao fenmeno em questo.

    As entrevistas foram gravadas com a concesso dos participantes da

    pesquisa, os quais tiveram seus nomes substitudos por pseudnimos para que no

    sejam identificados. Cada nome fictcio foi escolhido a partir da biografia de pessoas

    que se tornaram referncia por suas histrias de superao, como, por exemplo, Frida

    Kahlo, Toms de Aquino e Hellen Keller, identificados no presente trabalho com um

    asterisco (*) aps seus pseudnimos.

    Tal investigao desenvolvida durante o curso de mestrado tem um enfoque

    qualitativo compreensivo de cunho fenomenolgico, levando em considerao que o

    mtodo fenomenolgico tem como fundamento a investigao do sentido das

    experincias do homem. A investigao, em tal perspectiva, requer que o pesquisador

  • 37

    esteja a todo tempo em uma postura de abertura para o humano e suas experincias

    no mundo, interrogando constantemente.

    De modo diferente das cincias empricas, o mtodo fenomenolgico esquiva-

    se do rigor sistemtico e codificante, levando em considerao os fatos humanos e

    suas entrncias:

    Os mtodos qualitativos so mtodos das cincias humanas que pesquisam, explicitam, analisam, fenmenos (visveis ou ocultos). Esses fenmenos por essncia, no so passveis de serem medidos (uma crena, uma representao, um estilo pessoal de relao com o outro). (Mucchielli apud Holanda, 2006, p. 363)

    Deste modo, este trabalho referendado pela Hermenutica Filosfica de

    Gadamer (1997) e pela Analtica do Sentido de Dulce Critelli (2006), por compreender

    que tais autores so complementares e enriquecem a estratgia metodolgica da

    pesquisa.

    Investigar as questes humanas na concepo fenomenolgica requer

    interrogar sempre. Nessa perspectiva, no se busca encaixar respostas

    preconcebidas ao fenmeno estudado. um lanar-se a conhecer aquilo que afeta o

    pesquisador, provocando curiosidade e gosto por seguir indagando.

    Nessa perspectiva, em se tratando do objeto dessa pesquisa, cabe ressaltar

    que de acordo com Critelli (1996), a existncia plena das coisas, o tornar-se real, s

    ocorre quando o elemento em questo passa pelos seguintes processos:

    desvelamento; revelao; testemunho; veracizao e autenticao. Tais elementos

    caracterizam o que denomina de: O movimento de realizao do real.

    Importa destacar que, aps desvelado, ou seja, tirado do ocultamento, o

    fenmeno expresso pela linguagem, revelado. Ao ser introduzido na linguagem,

    linguajeado, possvel fazer com que seja visto e ouvido, tornando-o testemunhado.

    Quando um fenmeno testemunhado, torna-se verdadeiro diante de sua relevncia

    pblica, podendo assim ser considerado veracizado. O fenmeno autenticado

    quando, na compreenso individual, recebe um significado singular, prprio da

    experincia de quem o vivenciou (Critelli, 1996).

    O nosso modo de ver e ouvir o que nos rodeia predominantemente

    influenciado pelo movimento de veracizao, de forma que tudo o que abolido da

    coletividade, aquilo que no aceito como relevante para o social, o que no

    veracizado, torna-se invisvel. So os jogos de poder estabelecidos entre os

  • 38

    interesses individuais do homem, que fazem sucumbir fenmenos de extrema

    relevncia para o social diante da no veracizao (Critelli, 2006).

    Ao nascer, cada homem recebe a tarefa de ser si mesmo, atravs das heranas que tambm recebe: a humanidade, uma historicidade, uma saga familiar, entre outras. Destas heranas, em cada gesto de sua prpria e peculiar existncia, cada indivduo tem que dar conta, conjuntamente. (Critelli, 1996, p. 103)

    Embora adote uma perspectiva mais ampla, Gadamer (1997) mostra-se

    complementar teoria de Critelli, pois rompe com o paradigma cientfico que busca a

    segurana em um mtodo que oferea respostas ideais cincia, submetendo o

    objeto ao mtodo. Isso porque, em sua perspectiva, s possvel compreender e

    interpretar na experincia, fusionando vivncias e recordaes. A hermenutica,

    portanto, o todo da experincia do homem com o mundo.

    A hermenutica tem sua origem na interpretao dos textos sagrados, quando

    era utilizada como tcnica para interpretao. A est uma indubitvel contribuio de

    Gadamer, quando explicita que todo entendimento interpretao, facilitando a

    compreenso de que a hermenutica est para alm de uma interpretao de texto.

    Desta feita, todas as formas de compreenso humana, seja atravs do olhar, seja

    atravs do pensar, so hermenuticas, ou seja, tentativas de fazer sentido no mundo,

    interpretaes (Lawn, 2010).

    nesse horizonte onde o homem trilha seu caminho que ocorrem

    compreenses e, medida que conhece, o homem tambm interpreta. Gadamer

    (1997) traz ainda a relevncia do sensus communis, o saber que advm das

    vivncias coletivas para o entendimento da verdade. Compreender estar na vida,

    o cotidiano e a tessitura das relaes entre os homens e sua histria.

    Nessa tica, a verdade no se reduz a um mtodo. o produto de uma

    relao dialgica homem-mundo, sem o distanciamento da tradio. J que o homem

    um ser histrico, a interpretao acontece a todo o momento na e pela tradio, pois

    todo saber pressupe uma histria prvia.

    Na perspectiva de Gadamer (1997), as concepes prvias exercem papel

    fundamental para que ocorra a fuso de horizontes. Essas concepes dizem

    respeito a apreciaes construdas irrefletidamente e que podem abrir espao para

    reelaboraes. O homem, estando aberto para relao com o mundo, pode pr em

  • 39

    xeque seus preconceitos e, a partir da, estabelecer uma relao dialgica que

    permita a construo de novas compreenses acerca de um fenmeno.

    Cabe dizer que as narrativas que constroem o dirio de campo nesta pesquisa

    falam a todo o momento de minha afetao, enquanto pesquisadora mergulhada no

    campo e de minha abertura para conceber novas experincias e modos de

    compreenso de mundo obtidos atravs do dilogo com os entrevistados.

    Benjamim (1987) nos fala sobre o empobrecimento das narrativas. Considera

    que o homem tem se distanciado da sua tradio que antes era nutrida atravs da

    interao do homem com o seu trabalho e com o aprendiz. A narrao diz respeito

    experincia do ser dentro da tradio que contribui para as trocas de conhecimentos,

    enriquecendo o homem na relao que se estabelece entre aquele que narra e o que

    ouve. Nesse nterim, permanece o desejo de manter vivo o que foi narrado.

    Nesse contexto, a Narrativa, como concebida por Walter Benjamin, acolhida

    neste trabalho, pois compreende-se o valor na narrao oral como meio de valorizar

    a prpria experincia para a constituio do homem. Narrar trocar experincias em

    uma trama que compe o eu e o outro, enriquecendo-se mutuamente.

  • 40

    Venha, meu corao est com pressa quando a esperana est dispersa s a verdade me liberta. Chega de maldade e iluso, venha, o amor tem sempre a porta aberta e vem chegando a primavera. Nosso futuro recomea, venha, que o que vem perfeio. (Perfeio Legio Urbana)

    3.1. Porque no estamos ss: da veracizao de um fenmeno, resultados e

    discusso.

    A citao utilizada no tpico para iniciar esta discusso ecoou em minha

    mente durante dias. Afinal, a histria de Frida* e de sua filha havia me afetado de tal

    modo que o sentido da frase dita por ela na entrevista ampliou-se para alm do que

    havia escutado naquele momento.

    Sim! Frida* no estava s! Ou pelo menos no estava mais sozinha desde o

    momento em que buscou o Tratamento Espiritual, fato que anteriormente, diante de

    dezenas de exames e prognsticos desoladores, fora a sua nica realidade sentida,

    o que pode ser exemplificado na fala de Marla*: Me aposentei por conta da neuropatia

    dos quatro membros, teve a hansenase que acabou com o nervo, diabetes,

    osteoartrose generalizada e doena degenerativa da coluna (...) os mdicos diziam

    que eu no ia mais andar nem me mover.

    Assim como Frida* e Marla*, as outras pessoas entrevistadas pareciam sentir-

    se ante o abismo ao se depararem com situaes limtrofes, em que se faziam

    necessrias decises e aes que poderiam mudar o rumo de suas vidas. O no

    saber qual seria o seu destino, as dificuldades enfrentadas perante tratamentos

    mdicos que no surtiram efeito, a afetao sade mental devido a situaes de

    intenso sofrimento, todo esse contexto marcava a vida dessas pessoas que, agora

    por algum motivo, estavam buscando um tratamento espiritual. Nessa passagem,

    Frida* relata seu sofrimento diante do adoecimento. A solido e a carncia de

    cuidados foram marcantes durante o seu internamento:

    Eu ficava numa cama olhando pro teto. Da cintura pra baixo no funcionava nada. Passei mais de 30 dias deitada na cama. O acidente aconteceu no mar, estava de biquni e assim fiquei. Sendo que passei um frio terrvel. Quando fui transferida da emergncia para o repouso foi quando eles foram me ver. Quando me tiraram j tinha a formao de uma escara no sacro por conta da posio. (Marla, 2013)

  • 41

    O que se desvelou na maioria das entrevistas, que essas pessoas

    alcanaram um conforto para alm dos exames realizados, das palavras no ditas, do

    no-olhar dos mdicos, das portas batidas de consultrios, das faltas de alternativa.

    Encontraram um amparo que acolhe, que olha nos olhos, uma palavra de estmulo.

    Essas pessoas buscavam acolhimento! Mesmo fadados ao fracasso, alguns

    sem condies fsicas ou motoras, intuitivamente buscaram um cuidado consigo, um

    cuidado que tambm pudesse ser compartilhado, vivenciado e sentido coletivamente,

    fato que recebe iluminao atravs da fala de Toms*:

    Eu continuei o tratamento aqui e no me recusava porque eu me sentia bem e me sentia confortvel de estar aqui, porque no era imposto absolutamente nada por parte dos participantes daqui, dos trabalhadores da casa, eles a todo momento davam orientaes, mas em nenhum momento chegou a ser invasivo e querer me impor assim: Voc tem que comer. No! Eles estabeleciam um contato amigvel e muito atenciosos em relao a isso. (Toms*, 2013)

    E foi ali, exatamente no inusitado e desconhecido, longe das perspectivas

    racionais mdicas de tratamento, um Hospital Espiritual, o local onde essas nove

    pessoas entrevistadas puderam vivenciar parte de suas histrias. Foram recebidas e

    acolhidas em seu sofrimento, onde cada queixa e dor fora respeitada como legtima,

    veracizada e, acima de tudo, tratada com amor.

    Talvez Amor seja a palavra chave para a compreenso destas histrias. Amor

    que fez com que cada uma dessas pessoas pudessem ultrapassar as suas limitaes

    fsicas ou emocionais e posteriormente, j fortalecidos, contriburam para este estudo

    narrando suas histrias de vida tomados de emoo e gratido.

    Outro fator relevante destacado pelos entrevistados aponta que, em todos os

    casos, os sujeitos foram estimulados a permanecerem realizando o tratamento mdico

    conforme as prescries, muito embora tenham sido alertados da importncia do

    tratamento espiritual como o suporte necessrio para que os procedimentos mdicos

    surtissem efeito. Fato que, curiosamente, fora relatado como procedente em todos os

    relatos.

    Foi possvel notar que a postura de agregar ambos os procedimentos tornou

    os sujeitos mais confiantes e com boa adeso tanto ao tratamento espiritual, quanto

    ao tratamento mdico, sendo possvel em alguns casos trocas entre os mdicos e os

    executores dos tratamentos espirituais (mdiuns).

  • 42

    importante denotar que nenhum dos entrevistados abdicou do tratamento

    mdico enquanto submetiam-se aos Tratamentos Espirituais. Curiosamente, o

    tratamento espiritual parece ser um recurso complementar ao tratamento mdico. Ou

    seja, nos momentos em que a medicina extingue todas as possibilidades de

    tratamento perante as patologias destas pessoas, exatamente o momento em que

    buscam alternativas, movidas pela esperana e acima de tudo pela F. Aquilo do qual

    a medicina no pode dar conta, emerge como fenmeno que transcende ao biolgico.

    Eu acho que foi um tratamento conjunto, se no tivesse a interferncia do centro, principalmente nos meus aspectos emocionais, estaria muito abalado e dificilmente conseguiria ter estabilidade de me manter. Porque o que mais me incomodava era a angustia crescente, a angustia permanente com relao no s ao corpo mas com relao a minha vida. E o centro me deu a possibilidade de no me sentir mal. E eu no encontrei nenhuma outra instituio em que me sentisse seguro como aqui. (Toms*, 2013)

    Em um tempo em que cada vez mais o homem fragmentado para ser

    compreendido, o excesso de racionalidade parece ter distanciado o homem de seus

    princpios morais, que antes lhes eram suporte e esteio, guiando-o em sua caminhada.

    Nessa perspectiva, as narrativas tocam em outro ponto relevante, quando denotam

    uma caracterstica do Espiritismo, que prima pelos preceitos morais e estabelece uma

    proposta de tratamento onde os valores e as tradies so guias constantes, onde o

    outro responsabilizado pela sua prpria sade.

    Em todas as narrativas, ficou evidente a conscientizao e a

    responsabilizao de cada pessoa pelo seu tratamento e, ao mesmo tempo, estes

    foram amparados e conduzidos em sua experincia. Como recorte ilustrativo, temos

    a narrativa de Frida*:

    Eles nunca disseram que eu ia ficar boa, nunca prometeram isso, at porque no espiritismo no se pode prometer isso. Eles ajudam. Se o paciente tiver merecimento de ficar bom, porque a gente sabe que o trabalho mais nosso, a gente tem que fazer nossa parte. Se voc se adapta quele corpo que voc tem hoje e consegue viver feliz pra mim voc est curado. Tenho muitas limitaes, mas me sinto curada. E assim, atravs do espiritismo, da resignao, da compreenso, sabendo que nada acontece por acaso, que tudo tem uma razo de ser, foi que me deu essa fora, essa disposio de fazer minha parte. (Frida*, 2013)

    Diferentemente da proposta da medicina, a experincia dessas pessoas

    demonstram que o ser no visto apenas pelo biolgico, pelos sinais e sintomas de

  • 43

    suas patologias. Tal postura adotada pelo espiritismo parece estimular aqueles que

    buscam o tratamento a se integrarem ao coletivo, a estarem imersas em uma rede de

    relaes que cria uma grande teia de suporte queles que esto em tratamento.

    As narrativas evidenciam o estmulo aos vnculos sociais, respeitando as

    singularidades, sem que sejam deixados de lado os laos afetivos, j que cada ser

    compreendido como um ser de relaes, que precisam estar imbricados nelas para

    sentirem-se integrados e saudveis.

    A noo de Valores de Atitude na teoria frankliana nos faz compreender que

    o homem pode acatar diferentes posturas diante da dor, da culpa e do sofrimento.

    Tais atitudes esto isentas de conotaes religiosas, ticas ou morais. Dizem respeito

    s atitudes significativas que o humano pode tomar diante de fatos que necessitam

    de valorao, seja do prprio comportamento ou do comportamento do outro.

    Isso porque, para Frankl, no existem aspectos na vida que no possam ser

    valorados. Depender, fundamentalmente, da postura que se toma diante do vivido.

    Dependendo da atitude que se escolhe ter, o ser humano capaz de encontrar e

    realizar sentido at mesmo numa situao desesperadora, sem sada (Frankl, 2008,

    p. 97).

    Aclarando o conceito de Valores de Atitude, quesito fundamental para

    compreenso desta pesquisa, que desvelou a importncia da postura tomada por

    cada entrevistado diante da vida como fator fundamental para a prpria recuperao,

    citamos a fala de Frida*:

    Acho que a gente tem que ter fora pra superar. Vou ter que conviver com meu problema. Ser que vou ter que ficar tomando medicao pra conviver com o problema? Pra mim a questo fundamental a questo da f, do acreditar. Eu sempre acreditei. Ento foi isso que me deu fora pra superar tudo. Eu acho que eu no tive uma depresso, eu tive uma obsesso muito forte que me derrubou. (Frida*, 2013)

    Do mtodo fenomenolgico, o que se pde vivenciar com mais intensidade

    nesse trabalho foi a postura fenomenolgica, ou seja, estar aberto ao fenmeno em

    estudo, acolhendo-o em disposio afetiva no seu desvelar. A concepo de sentido

    esteve a todo tempo presente. Foi possvel apreender que no h homem sem mundo

    e mundo sem homem, compreenso que enriquece no s a postura como tambm o

    fazer do psiclogo.

  • 44

    4. NA PRESENA DO DESCONHECIDO: A EXPERINCIA DE CAMPO

    A realidade uma trama comum, produzida e solidificada ao longo do tempo pelo esforo de todos em conjunto e de cada um em sua singularidade. Mas a consistncia dessa realidade jamais urdida fora de cada indivduo, porque, se todos podem ter a mesma ideia, a autenticao de sua verdade uma convico sentida na solido da alma, assim como o mel e o sal so gostos saboreados na solido da lngua. (Critelli, 1996, p. 91)

    4.1. O Desencontro

    A expectativa e a curiosidade somadas responsabilidade de escolher o local

    para a realizao da pesquisa foram mola propulsora para tomar conhecimento do

    Hospital Espiritual Patrcia Bacelar - HEPB. Fitava atentamente as pginas do projeto

    de pesquisa, j delineado, refletindo como escolher o local adequado para a

    realizao da pesquisa.

    Sim! Adequado. Afinal, sendo a proposta compreender a experincia de

    tratamento de pessoas em um Centro Esprita, no bastava escolher qualquer local,

    dentre as centenas existentes. O sentimento era de que o local precisava focar o

    quesito tratamento, a fim de dar espao para as observaes e os questionamentos

    efervescentes em minha mente sobre esse fenmeno.

    Mas, por onde comear? Inmeros contatos foram realizados. Junto a eles,

    vieram as frustraes, as negativas, a sensao de local inadequado, at que, em um

    e-mail despretensioso de uma amiga esprita, veio a sugesto: Porque no um

    Hospital Espiritual? Senti de imediato uma sensao de alvio junto ao pensamento:

    Encontramos o campo! E isso foi maravilhoso!

    Recebi o contato do Sr. Francisco, integrante do HEPB, e, de imediato, tentei

    marcar um encontro para explicar do que se tratava a pesquisa, sua metodologia e

    tirar as possveis dvidas que pudessem surgir. Fui muito bem recebida ao contato

    telefnico, o que me ofereceu segurana para seguir em frente.

    O Sr. Francisco me informou que aproveitaria a reunio de alguns membros

    da instituio para conversar com a Mentora Espiritual do Hospital, Dra. Cristina

    Santos, como assim a designam, que se tratava de um esprito responsvel pela

    deliberao de todas as aes tomadas dentro do HEPB e que seria questionada

    sobre a possibilidade de realizar, ou no, a pesquisa no Hospital.

    No dia seguinte, recebi o contato telefnico de Francisco. Ele me informou

    que a Dra. Cristina me convidou para uma visita ao HEPB onde me entrevistaria,

  • 45

    fazendo algumas perguntas e, por fim, decidiria sobre a permisso para minha

    pesquisa. Aceitei de imediato! Minha intuio de pesquisadora sinalizava o quo

    proveitoso e rico poderia ser esse encontro.

    No mesmo dia, conferi o endereo e fui hora marcada em busca do Hospital.

    Senti dificuldades em encontrar o local, talvez por ser em uma localidade, at ento,

    desconhecida para mim. Procurei habitantes locais para certificar-me do endereo.

    Curiosamente, quando perguntadas sobre a localizao do Hospital Espiritual, as

    pessoas afirmavam no conhecer ou, sequer, saber da existncia do mesmo.

    Olhavam-me com surpresa e curiosidade, alguns at assustados. Compreendi

    que estava pisando em um solo desconhecido por mim e por inmeras pessoas que

    nunca ouviram falar em Hospital Espiritual, ou, ao menos, de Espiritismo. Procurei

    durante duas horas o endereo que me foi enviado ao longo dos contatos por e-mail.

    Entrei em todas as ruas onde acreditei que poderia encontrar meu destino, conforme

    descrio da casa que recebi. Tentei os contatos telefnicos que me foram

    informados, sem sucesso! Todos desligados.

    A essa altura estava muito preocupada. Questionava-me sobre o perigo de

    andar pelas ruas escuras, na incerteza de no ser compreendida por me ausentar

    exatamente no primeiro encontro. Acreditava fielmente que, assim como eu, todas as

    pessoas envolvidas criariam expectativas sobre a minha presena e sobre a pesquisa.

    Se elas seriam positivas ou no, neste dia no tive a oportunidade de saber.

    Ao chegar em casa, minha primeira providncia foi enviar um e-mail

    explicando o ocorrido e desculpando-me pelo imprevisto. Continuei tambm as

    tentativas telefnicas, at que consegui o contato com Francisco. Aps explicar a

    dificuldade por que passei, ele riu e disse: Como voc no encontrou? muito

    simples! Te esperamos at o fim das atividades. Constrangimento, foi isso que senti.

    primeira vista, acreditei que esse desencontro poderia dificultar o

    estabelecimento de um vnculo com os integrantes do HEPB. Desculpando-me

    novamente, pedi que me permitissem uma nova tentativa. Vi o quanto levavam a srio

    o que realizavam e a repercusso da minha ausncia no fora nada positiva.

    Francisco informou que entraria em contato com os dirigentes da instituio

    para ver a possibilidade de uma nova entrevista. Assenti e ratifiquei a minha vontade

    em desenvolver a pesquisa naquele local. A partir da, vi que precisaria esperar.

    Parecia bem provvel que haveria um dilogo entre os dirigentes, no sentido de decidir

    sobre a realizao (ou no) da pesquisa.

  • 46

    Eis que, para o meu alvio, veio a surpresa! Recebi um e-mail no mesmo dia,

    onde constava:

    Prezada Allyde Penalva, muita paz! Ratificando o nosso

    contato telefnico desta noite, informamos que, a princpio,

    fica remarcada a reunio com a Mdica Espiritual Dra.

    Cristina Santos para a prxima quarta-feira, dia 07/11/12,

    no mesmo horrio, Abrao Fraterno. Francisco.

    SEGUE ROTEIRO PARA ACESSO AO HOSPITAL:

    HOSPITAL ESPIRITUAL PATRCIA BACELAR

    Rua Eliza Cabral de Souza, 170 - Centro, Camaragibe, PE - CEP

    54762-660

    E-MAIL: HEDRAPB@GMAIL.COM

    SITE: WWW.MCM.ORG.BR

    ACESSO DE CARRO: Pela Avenida Belmiro Correia, em

    direo ao subrbio, passar pelo centro comercial e, logo aps

    o sinal de pedestre, entrar esquerda, na lateral da Igreja

    Catlica, em seguida entrar na 2 rua esquerda e, no final, virar

    direita. O hospital fica a uns 500 metros, tambm, direita,

    em frente a Ladeira de subida de Jardim Terespolis.

    ACESSO DE NIBUS: Vindo do centro de Recife, pegar o

    nibus Cosme e Damio, Via Camaragibe, que passa pela Av.

    Conde da Boa Vista e pela Avenida Caxang, em direo ao

    subrbio, ou pegar o nibus de Jardim Terespolis, na

    Integrao da Caxang e pedir para saltar na Rua Eliza Cabral,

    em frente a Ladeira de subida de Jardim Terespolis. Caso

    venha do subrbio, em direo Camaragibe, saltar no centro

    da cidade e entrar na Rua Eliza Cabral (Onde fica o comrcio).

    Andar uns 500 metros at o hospital, que fica em frente a Ladeira

    de subida de Jardim Terespolis. (01/11/2012)

    mailto:HEDRAPB@GMAIL.COMhttp://www.mcm.org.br/

  • 47

    Seria esse um presente ou um entrave? Estaria eu desbravando um

    fenmeno pouco explorado na psicologia e isso seria positivo e enriquecedor, ou a

    cincia e a academia iriam ignorar a relevncia desse fenmeno cultural e, por que

    no dizer, psicossocial?

    4.2. A Entrevista

    No dia 07/11/2012, desloquei-me para o endereo, desta vez,

    milimetricamente detalhado. Era noite e seria necessrio subir uma ngreme ladeira

    com iluminao precria. Por alguns momentos ainda tive dvidas se estaria no local

    correto. Segui. No cume da ladeira deparei-me com uma casa simples, de paredes

    brancas e grades verdes, que tinha em suas paredes uma placa afixada contendo:

    Hospital Espiritual Patrcia Bacelar.

    Havia chegado ao meu destino, corao acelerado e cheia de vontade de

    mergulhar no que me propunha. Entrei e fui recebida por Francisco, de sorriso largo,

    abraou-me e me deu boas vindas. Pediu-me que esperasse, pois logo seria chamada

    para conversar com a Dra. Cristina. Sentei-me e, inundada pelo excesso de

    questionamentos, apenas observei.

    O local era claro, limpo e organizado. As pessoas mostravam-se alegres,

    cumprimentavam-se, conversavam entre si. Fui informada que aquele era um dia em

    que os trabalhadores da casa se reuniam para estudar e desenvolver a mediunidade.

    Um senhor em especial me chamou a ateno, aparentava uns 45 anos e sorria

    singelamente em minha direo. Aproximou-se e disse: Voc a pesquisadora?

    Assenti com a cabea e devolvi-lhe o sorriso cumprimentando-o com um aperto de

    mos. Sem mais, distanciou-se adentrando em um dos cmodos da casa.

    Logo fui convidada a entrar em uma sala onde estavam Francisco, uma

    mulher de meia idade e o homem que havia acabado de cumprimentar. Francisco logo

    me informou que se tratava de Andr, o mdium que receberia as comunicaes da

    mentora espiritual do Hospital para a conversa comigo. Andr estava concentrado

    com a cabea inclinada para baixo e parecia orar em silncio. Poucos minutos depois,

    olhou-me e com trejeitos e voz em timbre diferentes disse: Boa noite, em que posso

    ajud-la?. Apressei-me em explanar o cerne da pesquisa e seu modo de execuo.

    Ainda olhando-me de modo circunspecto, perguntou: Quais so seus

    objetivos?. Aquela pergunta soou como algo pessoal, tendo em vista que, de modo

  • 48

    geral, j havia explicitado o objetivo da pesquisa. No entanto, elenquei objetivo por

    objetivo, explicando que o maior intuito seria compreender (cartografar) a experincia

    de pessoas que realizam tratamento em um Hospital Espiritual.

    Aps me ouvir atentamente, de modo assertivo, Dra. Cristina (Andr) falou:

    As portas esto abertas, no h motivos para esconder o que acontece aqui.

    Continuou explicando que a cincia j teria provas suficientes sobre a realidade do

    esprito e que muitos outros trabalhos ainda seriam realizados, bem como muitos

    conflitos ainda iriam acontecer no meio cientfico at que essa verdade fosse

    reconhecida.

    Aps a conversa, Dra. Cristina (Andr) concedeu-me livre acesso para

    observao do ambiente, todas as salas e procedimentos especficos de tratamento.

    Pediu que Francisco me acompanhasse durante a pesquisa, facilitando meu acesso

    s salas de procedimentos, bem como tirando dvidas e explicando o funcionamento

    da instituio. Determinou a confeco de um crach identificador, contendo meu

    nome e a especificao: Pesquisadora.

    Tambm esclareceu a necessidade de que eu fosse submetida a um

    procedimento padro da instituio sempre que chegasse, antes de iniciar a pesquisa,

    e antes de minha sada, com o objetivo de realizar a minha proteo durante o tempo

    da pesquisa. Tal procedimento seria um passe, tipo de tratamento esprita que ser

    explorado durante a pesquisa. Francisco assentiu, sorrindo e comprometeu-se a

    cumprir as delegaes a ele determinadas. Despedimo-nos.

    Na certeza dos desafios, das dificuldades e, em especial, do desconhecido

    que me esperavam durante a pesquisa, sustentavam-me o desejo de conhecer, a

    certeza da relevncia psicolgica, social e cultural desse fenmeno e a expectativa de

    trilhar caminhos que abririam espaos para uma psicologia implicada no estudo de

    fenmenos religiosos.

    4.3. A Chegada

    Aproximava-se do horrio em que se iniciam os atendimentos no HEPB. Seria

    o meu primeiro dia de pesquisa em campo e isso me animava muito. Fui at o Hospital,

    cheguei com antecedncia, conforme o combinado com Francisco, para que assim

    pudesse passar pelo procedimento do passe como fora designado. Fui levada a uma

    pequenina sala onde estavam dispostas cadeiras lado a lado encostadas parede.

  • 49

    Fui convidada a sentar em uma delas e pediram-me que fechasse os olhos, que

    fizesse preces ou apenas pensasse na imagem de Jesus. Assim o fiz.

    O ambiente era silencioso e as pessoas transmitiam muita serenidade e

    gentileza no desempenhar de suas atividades. Estando de olhos fechados no assisti

    ao procedimento, no entanto, pude sentir que aquele ambiente de tranquilidade por si

    s j fomentava uma experincia de relaxamento e bem-estar.

    Aps o passe, Francisco e eu combinamos que, sendo o primeiro dia, eu faria

    uma observao geral da Instituio para adaptar-me aos procedimentos sem

    atrapalhar o transcorrer das atividades. Segui para uma antessala onde estavam

    reunidos aproximadamente 20 trabalhadores, ou voluntrios, como alguns

    denominavam.

    Todos eles eram mdiuns e realizariam atividades internas com

    especificidade nos tratamentos. Estavam preparando-se para o incio das atividades,

    o que faziam lendo um livro, O Evangelho Segundo o Espiritismo, e discutindo um de

    seus captulos, sempre demonstrando muita temperana. Sentada em um canto da

    sala, pouco consegui me ater ao que estava sendo debatido. Isso, porque a sala era

    repleta de objetos que me encheram de curiosidade e dvidas.

    A sala era clara, limpa e organizada, lembrava, em parte, uma enfermaria dos

    Hospitais convencionais e, ao mesmo tempo, era completamente diferente de tudo o

    que j vi. Pude ver uma grande bancada recostada parede na qual estavam

    dispostos recipientes contendo seringas sem agulha, algodo em grande quantidade,

    pequenos copos contendo gua e pilhas recobertas com esparadrapos, as quais eram

    nomeadas eletrodos.

    Olhando para cima, percebi que havia algo como uma tela, um entranamento

    de fios acobreados dispostos por toda a extenso do teto e que por baixo dela tudo

    estava coberto por camadas de algodo. Aquilo tudo me provocava uma sensao de

    estranhamento. Qual a necessidade desse aparato? Como fora desenvolvido? Com

    base em que? Como funcionava? Perguntas e mais perguntas invadiram minha

    mente. No entanto, precisei me conter. A preparao dos trabalhadores ainda estava

    acontecendo e observar sem interferir foi um dos primeiros desafios.

    Ao final da discusso do captulo do livro, os presentes foram convidados a

    orar e em seguida todos receberam um passe. Durante a prece, estando de pernas

    cruzadas, logo fui solicitada a descruz-las. Embora no compreendesse, o fiz, mas

    no por muito tempo. Esqueci novamente e logo uma integrante, aproximando-se,

  • 50

    deixou claro que em momento algum, durante qualquer trabalho eu poderia cruzar

    pernas ou braos. Indaguei o motivo, j que para mim no fazia sentido algum. Era

    algum ritual? Explicou-me, ento, que, ao cruzar os membros, eu poderia prejudicar a

    circulao fludica e sangunea e que em breve eu entenderia o motivo.

    Fui informada de que toda essa preparao se fazia necessria para que as

    pessoas ficassem sintonizadas em uma mesma vibrao. Visualizei duas placas

    contendo a mesma inscrio: SILNCIO!, uma na porta da sala e outra dentro, afixada

    parede. Percebi que o silncio era de fundamental importncia para eles, o que me

    causava certa tenso, j que no era silncio o que acontecia dentro de mim naquele

    momento.

    Aps o trmino da preparao, uma jovem mulher comeou a distribuir

    atividades para os outros integrantes. Percebi que alguns, naquele dia, no fariam o

    mesmo trabalho que em outros dias. Parecia no existir um trabalho fixo, as pessoas

    ajudavam onde mais havia necessidade, formando filas, recepcionando, acalmando

    os que chegavam aflitos, varrendo, distribuindo ou preenchendo fichas, entre outras

    atividades. Com exceo para alguns dos mdiuns que realizavam um trabalho mais

    especfico e nem sempre possuam substitutos.

    Andei pela instituio e vi centenas de pessoas, algumas sentadas, muitas

    em p. Algumas usavam pulseiras identificadoras no brao e fui informada de que

    estas seriam indicaes do tipo de tratamento a que cada pessoa se submeteria.

    Senti-me impressionada com a quantidade de pessoas que se aglomeravam a espera

    de um atendimento. A organizao, a boa logstica e a diversidade de procedimentos

    que aconteciam simultaneamente chamavam a ateno.

    Depois que andei por todo o Hospital, entendi que a melhor maneira de

    compreender, de me aproximar da complexidade que se mostrava o funcionamento

    do HEPB, seria observando de perto cada setor. Conversei com Francisco sobre a

    possibilidade de conhecer um, ou no mximo dois setores do Hospital por visita, assim

    teria mais tempo para anotaes e proximidade com cada ambiente. Francisco

    concordou.

    O primeiro dia de observao deixou a sensao de que precisaria aguar

    muito mais os meus sentidos, a minha percepo para que cada detalhe importante

    no passasse em branco. No seria tarefa simples, porm prazerosa. Comeava a

    experienciar o campo cartograficamente, pois o percurso demandava novos modos

  • 51

    de estar-ali-com-os-outros a cada momento, e eu precisava estar atenta a isso, ao

    movimento, aos desvelamentos advindos do fenmeno.

    Sentia-me como um marinheiro desbravando novos mares! Quem sabe at

    um mar j navegado, mas, desta vez, observado de um ponto de vista diferente. No

    estava ancorada em um lugar confortvel, lugar que me permitisse observar as

    paisagens apenas por um ngulo, e sim mergulhada e implicada nessas guas

    enigmticas e desafiadoras, na certeza de avistar novas e fecundas terras no campo

    da psicologia.

    4.4. O Setor de Recepo

    Para o segundo dia de visita, cheguei uma hora antes de se iniciar os

    atendimentos. O trabalho na recepo comea mais cedo, pois muitas pessoas vm

    de lugares distantes apenas para atendimento. Iniciei o acompanhamento na

    recepo aps receber o passe, como recomendado. Sentei-me prximo a Elaine que

    estava como responsvel pela recepo das pessoas, posicionada em uma bancada

    prxima a entrada.

    Ali, a voluntria (o) consulta o nome da pessoa que se apresenta em uma

    listagem que contm aproximadamente 500 nomes de pessoas em tratamento dos

    mais diversos tipos. Essa relao de nomes funciona como uma lista de presena

    para acompanhar os pacientes em tratamento e qual ser seu encaminhamento no

    dia, j que a lista atualizada semanalmente, de acordo com o andamento dos

    tratamentos.

    Na lista, esto discriminados os tipos de tratamento de cada pessoa, que

    podem ser: distncia; radioatividade; ectoplasma; eletrolaser; passes; especfico

    para gestantes ou reviso de tratamento. Os tratamentos so divididos por horrios,

    de acordo com a especificidade mdica (os mdicos espirituais).

    J as pessoas que chegam pela primeira vez para realizar a consulta tm o

    nome anotado em outra lista, onde contm os campos para preenchimento do nome,

    idade e se h prioridade.

    Poucos minutos aps as 13h, momento em que se inicia a rotina do HEPB, o

    espao da recepo fica completamente lotado. possvel observar pessoas de todas

    as classes sociais, etnias, senhoras ricas com seus adornos de ouro, ndios, brios,

    brancos, negros, andarilhos, todos convivendo, mesmo que temporariamente, sem

  • 52

    distino. Homens e mulheres misturam-se em uma verdadeira busca, seja por curas

    fsicas e/ou espirituais, seja por alento, seja por simples curiosidade. Vi chegarem

    pessoas de outros estados e, principalmente, de outros municpios, a maioria deles

    de Vitria de Santo Anto, Joo Pessoa, Petrolina, Timbaba, Cabo de Santo

    Agostinho. Compreendo que todos esto em busca. Ser? E qual seria essa busca?

    Em muitos rostos, pude ver marcada a dor fsica, em outros, sofrimento. Para

    alguns parecia haver esperana, em muitos discursos quem estava presente era a f.

    Muitos chegavam com problemas fsicos visveis, mscaras e cabea raspada, em

    possvel processo de quimioterapia, ou com dificuldade de locomoo usando

    muletas, alguns em cadeiras de rodas.

    s 13h20min, pude presenciar uma jovem senhora (cuja palidez me chamou

    ateno desde o momento em que chegou) entrar em uma aparente crise epiltica.

    Acompanhada por sua filha, uma adolescente. Logo fora auxiliada pelos trabalhadores

    que, rapidamente, posicionaram-se ao lado da senhora, colocando sobre sua barriga,

    abaixo da linha do estmago, e em sua cabea um dos artifcios que utilizam para

    tratamento: o eletrodo.

    Pude trocar rpidas palavras com Francisco nesse momento sobre como

    aquele procedimento funcionaria. O mesmo explicou de modo simples que os

    eletrodos receberiam a energia deletria que poderia estar causando aquele ataque

    epiltico. Continuei observando e vi que ela estava em posse de exames neurolgicos

    e em sua mo estava uma pulseira identificadora de que este seria seu primeiro

    atendimento.

    Aps alguns minutos, a mulher torna e, ainda na recepo, colocam-na

    sentada em um banco e lhe oferecem gua. Antes mesmo que pudesse sorver o

    primeiro gole, a crise se repete, e assim aconteceram trs crises seguidas at que os

    trabalhadores a colocaram em uma cadeira de rodas ainda desfalecida e a levaram

    para tratamento no interior do Hospital. Aquela cena me chocou.

    Preocupei-me profundamente. Por algumas vezes precisei conter o desejo de

    dizer que ela precisaria de um socorro mdico. Precisaria ir a um hospital! Precisavam

    chamar uma ambulncia! Mas que ironia! Onde estaria ela ento? Aquela mulher, por

    sua prpria vontade, mesmo debilitada, foi buscar ajuda em um Hospital Espiritual.

    Era evidente que j havia passado por mdicos e exames, afinal estava de

    posse de exames de uma reconhecida clnica neurolgica. Porque eu deveria

    interferir? Questionava-me o que a teria feito buscar tratamento longe de tudo que a

  • 53

    cincia reconhece como vlido. Sentia-se acolhida? Acreditava na cura atravs

    daqueles procedimentos? Contive-me. Minhas perguntas provavelmente no teriam

    respostas. Pelo menos no naquele momento.

    4.5. O Setor de Triagem e a Consulta Mdica

    Aps o passe, fui at o setor de triagem para incio da observao. Conforme

    a lgica da instituio, aps recebidas as pessoas, seriam triadas para melhor

    direcionamento dos casos. A sala, muito pequena, continha dois lugares separados

    por um tapume, onde duas pessoas poderiam ser entrevistadas por vez.

    Apesar de no haver nenhum isolamento acstico que resguardasse o sigilo

    do que as pessoas estavam falando, muitas vezes ao mesmo tempo, com diferentes

    entrevistadores, no havia demonstrao de constrangimento. Ao contrrio, as

    pessoas estavam vidas por discorrer sobre seus problemas, suas dores, suas

    doenas, o fato de ter algum ao seu lado que pudesse ouvir seu desabafo parecia

    insignificante.

    Durante a triagem, a pessoa preenche, com o auxlio de um colaborador do

    HEPB, um formulrio contendo: nome, endereo, idade, telefone, nmero de registro

    da identidade. Tambm perguntado o motivo da consulta, se consome bebidas

    alcolicas, se toma medicamentos e quais so, se a primeira consulta, sua religio,

    entre outros questionamentos.

    Esse formulrio, que em muito lembra um pronturio mdico, repassado

    para outro colaborador responsvel por organizar tais fichas para o atendimento da

    mdica espiritual. Fui informada de que no momento da consulta que o paciente

    entra em detalhes sobre seu problema e a mdica espiritual quem fornecer o

    diagnstico e a receita, contendo a programao do tratamento.

    Ainda na triagem, a colaboradora Maria esclareceu que as pessoas que

    chegam para a primeira consulta aps a recepo so diretamente encaminhadas

    para uma das salas de passe, denominadas Sala de Emergncia. Alm de passes,

    nestas salas so realizadas as emergncias espirituais que ocorrem quando os

    mdiuns identificam que o paciente est acompanhado, ou seja, que existe um

    esprito junto a ele, causando-lhe algum mal.

    O procedimento realizado o de incorporao, quando o mdium receber

    a presena do esprito, desligando a conexo existente entre o paciente e o esprito.

  • 54

    O mdium posiciona-se ao lado do paciente, concentrando-se para receber a

    influncia do esprito e, assim, atend-lo, dialogando com o mesmo e encaminhando-

    o para o que denominam emergncias espirituais.

    Essas salas seriam locais no mundo espiritual equipados imagem e

    semelhana dos hospitais da terra, que recebem os espritos socorridos na

    emergncia do hospital espiritual. Esse procedimento no acontece na presena do

    paciente, aps a concentrao do mdium solicitado que a pessoa saia da sala para

    que a metodologia seja desenvolvida.

    s 15h20min, conclu as observaes na triagem e me foi permitida a entrada

    na sala de consultas onde ocorrem os atendimentos com a mdica espiritual, Cristina

    Santos. Sentei-me em uma cadeira no canto da sala que era ampla e continha duas

    macas, uma em cada extremidade. No meio da sala estava uma pequena mesa com

    duas cadeiras, onde em uma delas estava sentado o mdium Andr, j em companhia

    da Dra. Cristina, conforme fui informada por Francisco, que tambm permaneceu na

    sala por algum tempo.

    Em aproximadamente 20 minutos, pude observar 10 pessoas serem

    consultadas. A consulta consistia em um breve relato sobre a queixa que as pessoas

    traziam, algo muito parecido com uma anamnese. No entanto, o mdium (Dra.

    Cristina) no mantinha uma postura de neutralidade. Era assertivo, dava opinies, em

    alguns casos recomendava tratamentos mdicos e, em especial, convocava as

    pessoas a responsabilizar-se pelo prprio tratamento e pela vida.

    Em todos os atendimentos, aps o dilogo com a mdica espiritual, as

    pessoas recebiam um encaminhamento para o tratamento, recomendado

    especificamente para cada problema apresentado. O procedimento prescrito no

    prprio pronturio, o mesmo que fora preenchido anteriormente com os dados

    pessoais no setor de triagem.

    A partir da, cada pronturio ir conter todo o histrico de tratamento a que o

    paciente ser submetido, os tipos de tratamento, as possveis intercorrncias e as

    observaes dos mdicos espirituais. Dentre os 10 casos observados, 5 se

    destacaram aos meus olhos, os quais narro a seguir.

    A primeira pessoa atendida foi uma mulher de meia idade que disse estar

    submetendo-se ao tratamento em socorro ao sobrinho que dependente qumico,

    usurio inicialmente de maconha e agora de cocana. A mdica pergunta se o jovem

    est sendo submetido a algum tratamento mdico e psicolgico.

  • 55

    A mulher responde negativamente e logo ouve a mdica discorrer sobre a

    importncia em fazer esses tratamentos em concomitncia ao tratamento espiritual.

    Informa que o mesmo precisa ser tratado pelos mdicos da terra e que o tratamento

    que ali se daria seria de cunho espiritual, devido ao fato de o jovem sofrer perseguio

    espiritual em decorrncia de suas prprias atitudes erradas.

    Ento, a mulher informada de que quem deveria realizar o tratamento seria

    o prprio jovem e que se ela se submeter, poder sofrer consequncias (perseguio

    espiritual). Caso isso acontea, o tratamento dever ser interrompido, podendo

    apenas ser retomado pelo prprio jovem.

    A prxima pessoa atendida uma senhora idosa que traz consigo uma criana

    aparentando quatro anos de idade. A av, em desespero, relata que a famlia no

    aguenta mais a criana, pois esta agressiva e no obedece a qualquer integrante

    da casa. A criana grita na sala, esperneia e a mdica espiritual (mdium Andr),

    olhando-a firmemente, ordena que ela sente.

    A criana assim o faz. dito ento que no se trata de influncia espiritual,

    que a menina precisa de limites e que os pais da mesma que deveriam

    responsabilizar-se por isso, para que ela no cresa comportando-se de modo

    inadequado, o que poderia prejudic-la, bem como famlia.

    Em seguida, uma mulher de meia idade, evanglica, portando uma bblia entra

    na sala e parece tensa, assustada, mal consegue falar. Ao ser questionada sobre o

    motivo da busca pelo HEPB, ela gagueja, mas explica que apresenta muita dor em

    todo o corpo, especialmente na regio lombar, nuca e cimbras. Esclarece que j foi

    a mdicos, mas que nada fora constatado. A mdica espiritual diz tratar-se de um

    problema eletromagntico negativo, que a mulher estava absorvendo e

    concentrando energias negativas advindas de lcool e cigarro.

    A mulher assente com a cabea e diz que em sua casa, seu marido e filho

    bebem. dito ento que ela precisa preservar-se de lugares onde so utilizadas essas

    substncias devido a sua sensibilidade. Em seu pronturio receitado o tratamento

    de eletromagnetismo.

    Para a minha surpresa, e penso que para a pessoa tambm, entra para

    consulta uma psicloga a quem conhecia. Ela entra, olha para mim, olha para o

    mdium e senta. Apropriando-me do contexto, senti que aquela situao lhe parecia

    desagradvel e de imediato pedi licena ao mdium para fazer uma pergunta, que me

  • 56

    foi permitida: Ol, voc se sente confortvel com minha presena ou prefere que eu

    saia da sala durante sua consulta?.

    Logo a colega respondeu-me timidamente: Voc poderia sair, por favor? Vou

    me sentir melhor. Respondi afirmativamente e apressei-me em sair da sala. Aquela

    situao fora extremamente curiosa para mim, em especial pelo constrangimento

    apresentado por uma colega de profisso. Penso que por alguns instantes elementos

    da clnica, do cuidar, se fizeram presentes em nosso rpido dilogo, afinal, ao

    chegarmos em um Hospital Espiritual, eu como pesquisadora, ela como paciente, no

    deixamos para trs nosso conhecimento prvio, nossas pr-compreenses acerca da

    psicologia.

    Naquele exato momento, juntas, tivemos a oportunidade de colocar em prtica

    o que tnhamos de bagagem: o saber da psicologia e a experincia no HEPB. Embora

    de pontos de vistas diferentes, tecemos, em acordo, a melhor maneira para agir diante

    de uma situao que, para a maioria daquelas pessoas, no tomaria a mesma

    proporo.

    Por fim, um jovem, aparentando 25 anos, demonstrando excessiva timidez,

    elucida que sente vontade de morrer. Essa a nica frase proferida pelo mesmo. A

    mdica espiritual pergunta se o jovem vem realizando tratamento psicolgico ou

    psiquitrico. Ele balana a cabea negativamente e permanece cabisbaixo.

    esclarecida a importncia de um acompanhamento psicolgico e mdico

    em concomitncia com o tratamento espiritual a ser realizado, j que se trata de

    influncia espiritual sofrida por ele. dito que os pensamentos negativos que o jovem

    vem alimentando so de espritos que o obsidiam, que ele precisa ser forte, cultivar

    pensamentos positivos e ter f. Em seu pronturio recomendado tratamento fludico

    e de desobsesso.

    Em todos os casos, me impressiono com o respeito e a credibilidade que as

    pessoas oferecem s consultas. A gratido que expressam em cada cumprimento e

    sorriso, a esperana que demonstram quando recebem um encaminhamento ou

    diagnstico. Somando-se a isto, o respeito e confiana explicitados pelos que se

    encontram em tratamento, quanto ao apelo expresso constantemente pela mdica

    espiritual: Tenha f ou no me agradea, agradea a Jesus.

  • 57

    4.6. O Salo de Palestra e a Sala de Passes

    Hoje, o Sr. Francisco havia recomendado que a minha chegada ao HEPB se

    desse at s 13h15min, tendo em vista que o mesmo no estaria no Hospital para

    acompanhar minhas observaes e ficara acordado entre os membros dirigentes que

    Amparo, uma das dirigentes que desenvolve a funo de mdica receitista (modo

    como nomeiam os mdicos espirituais), sob os desgnios da mdica espiritual Patrcia

    Bacelar, ficaria responsvel por minha presena, dirimindo possveis dvidas que

    fossem ocorrendo.

    Cheguei s 13h e percebi que Amparo j estava realizando uma atividade no

    salo de palestras e reunies. Sabendo da programao estipulada, procurei um lugar

    discreto e sentei-me espera dela. Percebi que aquele momento assemelhava-se a

    um acolhimento das pessoas que iam chegando antes do incio das atividades.

    Amparo explanava sobre os motivos espirituais pelos quais as pessoas

    chegavam ao HEPB e disse: Somos todos doentes da alma, ao tentar explicitar que

    todas as pessoas esto passveis de ataques espirituais, a depender da conduta

    moral de cada um, das escolhas e dos vcios. Prosseguia afirmando que muitas

    pessoas teriam dificuldades de chegar at um Centro Esprita, ou mesmo ao HEPB,

    porque sentiriam cansao, fraqueza, devido chegada de parentes ou at mesmo

    brigas familiares nos dias em que so realizados os procedimentos de tratamento.

    Deixou claro que tudo isso ocorre devido resistncia das entidades

    espirituais que esto a obsidiar as pessoas em tratamento e que se negam a separar-

    se dos mesmos. Ou seja, ao que me foi possvel compreender, aos contratempos

    ocorridos em dia de tratamento marcado, independentemente de sua origem, Amparo

    atribui a influncias espirituais.

    Todas essas afirmaes causavam-me uma profunda inquietao, em

    especial quando a dirigente fala sobre algumas regras para atendimento, como o

    silncio, tido como primordial para o desenvolvimento dos tratamentos, e o tipo de

    roupa utilizada pela populao atendida. Ratifica, em sua fala, a presena de uma

    placa na recepo do HEPB que contm o tipo de roupa que deve ser usado para

    entrar no hospital, o que a mesma justifica como roupa que nos d condies de

    tratamento. Em seguida, cita um exemplo onde uma mdica espiritual recusa-se a

    atender um jovem senhora devido a roupa que a mesma utilizava, que descrevia como

    curta e imprpria.

  • 58

    Tal depoimento me causa inquietao e desconforto, e a estes, deixo espao

    para a minha livre interpretao, perpassada de questionamentos e pr-

    compreenses. Ora, como possvel pregar caridade, altrusmo, respeito ao livre

    arbtrio e, se propondo um Hospital, negar atendimento a algum devido

    vestimenta que usa?

    Nesse momento, elos de ligao formavam-se em minha mente e de imediato

    lembrei-me das burocracias dos hospitais pblicos, em sua maioria, e privados, que

    devido a imensa lista de procedimentos irrisrios fazem centenas de vtimas em filas,

    ou peregrinaes de hospital em hospital. A sensao de desconforto permanecia,

    porm a acolhi, procurei absorv-la e transform-la em produtividade. Segui, ento,

    com as observaes.

    Amparo prosseguia, agora falava sobre cirurgias espirituais, procurava

    confortar os presentes, explicando que a cirurgia espiritual no realizava cortes no

    corpo fsico, e sim no corpo espiritual. Aqueles que a ela se submetessem no veriam

    sangue ou qualquer objeto cortante, muito embora, segundo ela, vrias pessoas

    dessem depoimento de sentir o corte ou sentir a sutura, e que tudo isso ocorreria de

    forma tranquila, ento conclui: Tudo feito com os recursos do laboratrio do mundo

    invisvel, voc no pode ver, mas pode sentir.

    Esclarece ainda que a tarefa da equipe mdica espiritual , muitas vezes, de

    auxiliar os mdicos terrenos e exemplifica com um caso atendido no HEPB: A

    pessoa sentia-se mal, realizou diversos exames, tomografias e ultrassons e nada foi

    verificado. Ento, fazendo a consulta com a mdica espiritual, fora informada de que

    ela possua um tumor escondido por baixo do intestino.

    Assim, a mdica comprometeu-se a realizar uma cirurgia em auxlio aos

    mdicos terrenos, j que a enfermidade da mulher era fsica e os mdicos no

    conseguiam visualizar. Fez-se ento uma cirurgia espiritual a fim de mostrar o tumor,

    torn-lo visvel aos olhos dos mdicos para que pudesse ser tratada adequadamente.

    Os mdicos espirituais s vezes fazem emergir o problema, a doena, deix-la flor

    da pele. E segue confirmando que, em tal caso, a mulher repetiu os exames e o tumor

    foi comprovado e operado com sucesso. Com esse depoimento Amparo conclui a

    palestra realizando uma prece.

    Amparo seguiu em minha direo e acolhendo-me com um abrao perguntou

    o que gostaria de observar. Mostrei-lhe o roteiro que norteava minhas visitas aos

    setores do HEPB e conclumos que minhas observaes se dariam na Sala de

  • 59

    Passes, onde, segundo a dirigente, o paciente receber o seu tratamento fludico que

    est especificado em sua ficha de atendimento. Tal ficha assemelha-se a um

    pronturio mdico, contendo todo o histrico de tratamento e dados pessoais do

    sujeito, conforme j comentamos com anterioridade.

    Recebo o passe e sigo para as minhas observaes na Sala de Passes, ou

    de Tratamento. Amparo mostra que dentro desta sala h uma pequena antessala

    onde se localiza a sala de cirurgia espiritual, nela procedimentos mais especficos so

    realizados. Ela explica aos colaboradores que iniciarei as observaes no local e pede

    que uma cadeira seja disposta em um canto da sala, onde no atrapalhe o fluxo de

    pessoas. Ela realiza uma prece de incio dos trabalhos s 13h25min, momento em

    que sintoniza-se com a Dra. Patrcia Bacelar que, segundo informaes dos

    colaboradores, foi a idealizadora do HEPB, por isso, ento, o nome: Hospital Espiritual

    Patrcia Bacelar.

    Mesmo que sutilmente, percebi algumas diferenas de comportamento em

    Amparo, agora sintonizada com a mdica espiritual. O sorriso largo de antes e a

    aparente doura, foram encobertos por uma postura rigorosa, imparcial e pouco

    afetiva. Distribuiu tarefas para os colaboradores presentes e logo pede que sejam

    iniciados os tratamentos. No entanto, uma integrante da equipe afirma sentir-se mal.

    Logo, Patrcia (Amparo) realiza o atendimento, utilizando um chumao de

    algodo para friccionar pontos que me pareceram especficos, como garganta e

    estmago. Mas, por qu? Do que se tratava tal procedimento? Quais suas

    repercusses? Dvidas que precisaram ficar temporariamente em suspenso, pois ali

    eu estava apenas para observar. A mulher se contorce como se sentisse fortes dores.

    A mdica (Amparo) solicita ento uma seringa. Esta utilizada sem agulha.

    Ela posiciona a seringa em seu pescoo, como se retirasse algo daquela regio,

    invisvel aos meus olhos, devolve a seringa a uma auxiliar, que logo lhe oferece mais

    algodo. A mulher tosse muito. ordenado paciente, em tom de autoridade, que

    solicite seu anjo de guarda em seu prprio auxlio. Ento, com um episdio de tosse,

    ela cospe, como se vomitasse algo, tambm invisvel aos meus olhos. A mdica diz:

    Deixe que tudo saia. Quando mais calma, o procedimento encerrado e a jovem

    liberada para cumprir suas atividades.

    A sala ventilada e tem uma luz amarelada que torna o ambiente agradvel.

    limpa, extremamente organizada e silenciosa. As pessoas que nela atuam,

    auxiliando a mdica espiritual ou realizando passes, permanecem em silncio quase

  • 60

    todo o tempo. Falam apenas o que parece necessrio, entre si, ou como

    recomendaes aos que esto em tratamento. Os atendimentos so subdivididos em

    horrios especficos que, segundo informaes, so elaborados e estruturados pelos

    mdicos espirituais que levam em considerao a gravidade dos pacientes.

    O primeiro horrio de tratamento com incio s 13h00min e trmino s

    14h30min caracterizado como Clnica Mdica ou Clnica Geral. Neste, so

    realizados os tratamentos de Ectoplasma, Radioatividade, Eletrolaserterapia e

    tratamentos fludicos. As pessoas que passam pela triagem e consulta inicial com os

    mdicos espirituais tm seus pronturios direcionados s pastas especficas,

    subdivididas por tipo de tratamento.

    Essa ordem seguida quando so iniciados os tratamentos na Sala de

    Passes / Tratamento. Os sujeitos que permanecem acomodados no salo do HEPB

    so chamados por grupos de at 8 pessoas por um colaborador da instituio e tm

    seus pronturios revistos ou modificados pela mdica espiritual. Ali mesmo, o

    tratamento realizado pelos passistas aps a avaliao do mdico espiritual e, em

    alguns casos, j determinada a alta mdica.

    Os atendimentos so iniciados e a primeira pessoa tratada uma jovem que

    traz consigo exames e faz questo de mostr-los durante o atendimento. Percebo que

    o ambiente inicial, repleto de comedimento, substitudo por um clima de agitao no

    segundo horrio dos atendimentos.

    O volume de pessoas intenso. Aproximadamente 200 pessoas so

    atendidas nos mais diversos tipos de tratamento do primeiro horrio. Os

    colaboradores passam a ficar apressados sob os comandos, cada vez mais

    veementes, da mdica, para que todos os atendimentos sejam realizados.

    Aps 60 minutos de observao, percebo que o fato das pessoas falarem seus

    problemas de modo explcito na frente de outras pessoas me inquieta. Lembro-me,

    ento, do estgio que realizei no ambulatrio vascular de um hospital pblico da

    cidade do Recife, onde os mdicos passeavam entre os leitos e, ali mesmo, eram

    feitas intervenes, recomendaes, receiturios, alteraes no pronturio e, at

    mesmo, pequenos procedimentos cirrgicos, como quando presenciei a amputao

    de um dedo de um paciente idoso no leito do ambulatrio, por no haver vaga nas

    salas cirrgicas.

    Surpreendentemente, todo aquele aglomerado de pessoas e o modo como

    percebia os atendimentos em muito se aproximavam de algo que j havia vivenciado,

  • 61

    a rotina de um hospital comum. No parecia haver constrangimento das pessoas, pelo

    menos no era visvel. Mas, eu sim, eu me incomodei, assim como me incomodava

    com o sistema de sade convencional. Ento, porque as pessoas buscavam esse

    tratamento? Com todas essas fragilidades e aproximaes, ao menos burocrticas, o

    que faz com que aproximadamente 500 pessoas por semana sejam atendidas em um

    Hospital Espiritual?

    4.7. O Segundo Turno de Atendimentos e as Cirurgias Espirituais

    Para acompanhar o segundo horrio de atendimentos, reservado para os

    casos denominados mais graves ou complexos, compareci ao HEPB s 14h00min.

    Os atendimentos tm incio, em mdia, s 14h30min e trmino previsto s 17h. Neste,

    so tratados os pacientes que, segundo informaes de Francisco,

    esto envolvidos em algum "processo obsessivo grave".

    Estes casos so tratados pelos Mdicos Espirituais com a classificao de

    Clnica Neurolgica, por estarem relacionados a Hipnoses Espirituais. Portanto,

    neste horrio so realizados os tratamentos denominados Tratamentos de Perisprito

    Perifrico, que cuidam dos pacientes que j tm de alguma forma seu perisprito

    afetado pelos processos espirituais que o influenciam, necessitando de tratamento

    especial.

    Posicionei-me na sala para incio das observaes e, curiosamente, ouvi um

    dilogo entre os trabalhadores tratando sobre uma orientao dada pela mdica

    espiritual Cristina Santos e repassada por uma das voluntrias. O recado destinava-

    se aos trabalhadores voluntrios como um apelo necessidade de aumentar o

    nmero de horas de trabalho. As pessoas recebem a informao para refletirem sobre

    a possibilidade da abertura de outro turno de atendimentos que se daria no perodo

    da manh.

    Isso porque, a mdica tem sentido necessidade de melhor atender os

    pacientes e, para tanto, faz-se necessrio mais um mdico receitista para acolher a

    demanda de atendimentos que cresce a cada dia. A trabalhadora completa dizendo:

    Dra. Cristina disse que precisamos nos doar mais, dar carinho, pois grande parte dos

    pacientes sente necessidade de contato, de olho-no-olho. Neste momento, aproxima-

    se a mdium Amparo que diz: Se h falhas, no so da equipe espiritual, mas das

  • 62

    pessoas da equipe que trabalham na terra. A equipe espiritual est preparada, mas

    muitas vezes a equipe terrena no.

    Fico intrigada com esse dilogo, especialmente porque ele trouxe tona todos

    os meus questionamentos e inquietaes que se deram com as minhas observaes

    anteriores ao presenciar salas lotadas, imparcialidade em alguns atendimentos, tempo

    mnimo para a consulta e pressa, muita pressa para que a demanda fosse atendida.

    Foi impossvel no me remeter ao sistema de sade brasileiro novamente e lembrar-

    me dos noticirios televisivos constantes que revelam as imensas filas de espera, a

    falta de medicamentos para doenas especficas e a quantidade insuficiente de

    mdicos.

    impressionante como uma instituio, independente do seguimento que a

    sustente, sofre com a burocratizao dos servios. Papis e mais papis preenchidos,

    e a proposta inicial de oferecer cuidado acaba sendo soterrada pelos limites impostos

    no modo como as instituies acabam por se organizar. De que tipo de cuidado

    estamos falando? Que lgica essa que distancia tanto a proposta inicial de cuidado,

    das atividades desenvolvidas na prtica, assim como ocorre, por exemplo, no Sistema

    nico de Sade - SUS.

    Ento, penso que se o problema no est no Estatuto do HEPB, redigido com

    cuidado e afinco para atender seu pblico conforme a equipe espiritual designa, e

    dito claramente por Amparo que as falhas ocorrem na execuo, ou seja, na prtica,

    no desenvolver das tarefas por cada um de seus integrantes, compreendo que se

    desvela um ponto de aproximao entre as dificuldades encontradas no HEPB e as

    lacunas gritantes que existem na execuo dos princpios fundamentais

    (universalidade, igualdade, descentralizao, atendimento integral) do SUS.

    Fazendo um paralelo, entendo que ambos sofrem com o cumprimento das

    normas estabelecidas como critrio para um atendimento que acolha integralmente

    seus usurios. Para exemplificar essa linha de raciocnio, basta que seja posto em

    evidncia a fala, antes j citada, que revela a necessidade de mais mdiuns receitistas

    para atender a ampla demanda e a grande parte dos pacientes que sente necessidade

    de contato, de olho-no-olho. Do mesmo modo, o Sistema nico de Sade [SUS]

    (2004) criou a Poltica Nacional de Humanizao - PNH, onde encontramos a

    citao:

    Um dos aspectos que mais tem chamado a ateno quando da avaliao dos servios o despreparo dos profissionais para

  • 63

    lidar com a dimenso subjetiva que toda prtica de sade supe. Ligado a esse aspecto, um outro que se destaca a presena de modelos de gesto centralizados e verticais desapropriando o trabalhador de seu prprio processo de trabalho. (Brasil, 2004)

    Desta feita, salta aos meus olhos a questo: precisa-se humanizar o

    humano?. Ser que, de fato, apenas a elaborao de uma poltica de Humanizao,

    ao meu ver, descolada de uma nova postura, contribui para a construo de novos

    modos de cuidar? Lembro-me de um trecho do livro Analtica do Sentido, Critelli

    (1996), onde a autora evidencia: nada mais garante a relevncia pblica daquilo que

    aparece, seno o inesgotvel e imprevisvel jogo de poder que os homens jogam entre

    si (p. 101). E fica minha reflexo: so os jogos de poder em seu

    ocultamento/desocultamento que corroboram e desvelam as dificuldades observadas

    na prtica do cuidado dentro destas instituies?

    Esperava o incio das atividades quando uma trabalhadora, que j havia me

    chamado a ateno por ser cadeirante, me questiona qual seria o objetivo da minha

    pesquisa. Fao uma breve explanao sobre os objetivos da pesquisa no intuito de

    dirimir suas dvidas, sem atrapalhar os voluntrios ali presentes. A mesma agradece

    e conta que se surpreende com o preconceito das pessoas relacionado aos

    procedimentos feitos no HEPB.

    Pergunto-lhe sobre a que preconceito est se referindo. Ela explica que

    existem divergncias dentro da prpria prtica esprita e que, por isso, muitos criticam

    as aes realizadas no HEPB, alegando ser criao do prprio Hospital e no uma

    prtica considerada como esprita. A metodologia adotada pelo Patrcia Bacelar

    parece no ser bem aceita pelas organizaes espritas tradicionais, j que no segue

    os mesmos parmetros para o cuidado que a doutrina tem por base.

    No entanto, a trabalhadora ressalta: Mas se o prprio Kardec deixou claro

    que h a lei do progresso e que outras pessoas e teorias viriam para agregar valor ao

    espiritismo, porque esse preconceito? Se so prticas que mostram resultados, se as

    pessoas saem curadas, porque a cincia tambm no aceita?.

    Logo sou convidada a acompanhar o incio dos atendimentos daqueles que

    passaro por Reviso de Cirurgia. As pessoas entram na sala em grupos de 6 a 8,

    acomodam-se e aguardam a aproximao da Mdica Espiritual. Percebi que todas

    recebem um eletrodo que, segundo Francisco, teriam a funo de absorver as

    energias negativas que os pacientes trouxeram da rua. Durante a reviso, algumas

  • 64

    pessoas recebem a indicao de cirurgia espiritual, outras so orientadas quanto

    alta ou mudana de procedimento de acordo com a gravidade do problema.

    Uma senhora de meia idade relata que sua gua, fluidificada na semana

    anterior, estaria contaminada e logo foi orientada a descart-la. Indago o que

    caracteriza tal contaminao. explicado que esse fenmeno ocorre quando as

    pessoas que esto em tratamento devido a perseguio espiritual, ou se em sua casa

    houverem pessoas que fumem ou bebam, pois esses comportamentos considerados

    como maus hbitos desorganizam a energia, possibilitam a aproximao de espritos

    obsessores, contaminando assim a gua que ficar imprpria para o tratamento.

    Percebi que as pessoas buscavam o tratamento espiritual para os mais

    diversos fins. A cirurgia espiritual era realizada com brevidade, sempre utilizando os

    mesmos instrumentos: seringa sem agulha, utilizada tanto para aplicar o que chamam

    de ectoplasma, quanto para drenar energias negativas; algodo, utilizado para retirar

    o ectoplasma contaminado; eletrodos, utilizados para bloquear a circulao; e uma

    pequena lanterna que chamam de laser, utilizado para o que chamam de corte no

    peresprito. Durante os 15 minutos de observao, foram realizadas cirurgias

    espirituais para: catarata, glaucoma, tero, bexiga, ps, vias urinrias, coluna,

    memria, estmago e sistema circulatrio.

    4.8. ltimos Passos

    Aps longa jornada caminhando por terras desconhecidas, embora frteis,

    tive a certeza que estava arando um terreno prspero para novas pesquisas no mbito

    da psicologia. Ficara fascinada com toda a riqueza que a sabedoria popular me trouxe

    durante a visitao ao HEPB. Verdadeiras aulas de educao em sade, seja no

    acolhimento, seja no encaminhamento das pessoas que ali chegavam. Naquela casa

    simples, incrustada no pico de uma ladeira em meio periferia, longe de todo aparato

    tecnolgico, homens e mulheres depositavam no tratamento espiritual o ltimo fio de

    esperana que lhes restavam, aps longa jornada de expectativas frustrantes por

    terem realizado os mais variados tipos de tratamento e no encontrar a cura.

    Mas de que cura estamos falando? , de fato, possvel a cura de doenas

    atravs de um tratamento espiritual? Longe de querer implantar respostas triviais para

    tal fenmeno, detenho-me na delicada tarefa de propor questionamentos que

  • 65

    colaborem, seno, para a apreenso do fenmeno em questo, ao menos para alar

    novos voos, novas possibilidades compreensivas dos significados de cura, de sade,

    doena e espiritualidade, as quais contribuam para a construo de um conhecimento

    menos solipsista em psicologia, condizente com as transformaes sociais e

    respeitando a diversidade do homem na sua singularidade.

    Perceber a existncia do estmulo autonomia e da postura disciplinada na

    construo do autocuidado de cada pessoa ali presente foi uma experincia incrvel.

    A todo momento foi possvel acompanhar o empoderamento de cada participante

    como autor principal de sua sade. Que bela lio! Essas pessoas tambm

    fortaleciam, ainda que de maneira singular, suas redes de significados no HEPB, a

    partir das trocas com os iguais perante o sofrimento. Foi naquele espao, partilhando

    tantas vivncias de sofrimento, que pude compreender do modo mais singelo a fora

    do cuidado que emerge, no da tcnica, mas das relaes permeadas pelo afeto.

    Foram verdadeiras aulas de psicologia, no me referindo ao que aprendi na academia,

    e sim psicologia advinda do saber popular, construda nas mais diversas vivncias

    do cotidiano.

  • 66

    5. CONSIDERAES FINAIS

    Nossos resultados apontam para relevncia do logos, fazendo-se

    imprescindvel compreender os efeitos advindos da f religiosa, profundamente

    arraigada em nossa cultura, como um desdobramento possvel da espiritualidade

    propriamente humana.

    A pesquisa no tem por objetivo pr em questo as prticas espritas e, muito

    menos, a experincia dessas pessoas. Leva-se em considerao a experincia do

    indivduo com o mundo e suas possibilidades como autnticas. Ou seja, a experincia

    compreendida e acolhida com legitimidade, e no racionalizada dentro de

    parmetros cientficos ortodoxos.

    observvel uma eminente busca por outro cuidado que no apenas o

    mdico, bem como o uso de recursos religiosos como complementares prtica

    mdica. Em sua maioria, os relatos apontam para a continuidade dos tratamentos

    mdicos simultaneamente ao tratamento espiritual como condio colocada, muitas

    vezes, pelos prprios componentes da instituio esprita.

    Nesse contexto, o estmulo responsabilizao do indivduo por seu

    autocuidado enquanto autotranscendncia mostrou-se fundamental para adeso ao

    tratamento mdico, bem como para a superao de situaes de intenso sofrimento.

    Reflete-se que a prtica religiosa de cunho esprita pode possibilitar um

    conforto a partir do momento em que o indivduo em sofrimento tem a possibilidade

    de comunicar-se com o esprito, o que propiciaria uma experincia direta de

    transcendncia. possvel que, diante da necessidade humana de comprovao,

    herana do mundo tcnico cientfico, uma experincia que sugira um contato real com

    o mundo metafsico seja o ponto chave para a compreenso da busca massiva por

    tais tratamentos. As prticas espritas parecem possibilitar que o indivduo ultrapasse

    o psicofsico, estando ao alcance do homem contemporneo, que sofre justamente

    pela incapacidade de transcender.

    Com a pesquisa, surgiu como possibilidade compreensiva que, a busca pelo

    tratamento no espiritismo seja uma abertura para transcendncia, tendo em vista que

    essas prticas distanciam-se do racionalismo cientfico, oferecendo meios para que o

    homem se manifeste em sua plenitude, podendo direcionar o sentido de sua

    existncia em algo que est para alm dele mesmo.

  • 67

    Por ltimo, mas no menos importante, destaca-se o apoio mtuo a que

    aqueles que buscam o tratamento se submetem, pautado nas construes coletivas

    entre os membros da prtica esprita que estimulam reflexes de temas como: o amor

    ao prximo, a alteridade, a responsabilidade prpria pelo autocuidado e pela prpria

    sade, entre outros temas que oferecem respaldo para o estabelecimento de uma

    tenso mnima entre o que a pessoa e o que deseja ainda construir, estimulando o

    projeto pessoal de vida e abrindo possibilidades de busca de um sentido para a vida.

  • 68

    REFERNCIAS

    Almeida, A. A. S. de; Oda, A. M. G. R. e Dalgalarrondo, P. O olhar dos psiquiatras

    brasileiros sobre os fenmenos de transe e possesso. Rev. psiquiatr. cln.[online].

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  • 72

    ANEXOS

    TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO - TCLE

    1. Voc est sendo convidado para participar da pesquisa: A experincia de tratamento no Espiritismo Luz da Fenomenologia, que visa, de modo geral, conhecer os procedimentos de tratamento no espiritismo e suas repercusses na sade mental.

    2. Voc foi selecionado por estar em acompanhamento ou ter sido tratado(a) no Hospital Espiritual Patrcia Bacelar - HEPB.

    3. Sua participao no obrigatria.

    4. A qualquer momento voc pode desistir de participar e retirar seu consentimento.

    5. Sua recusa no trar nenhum prejuzo em sua relao com o pesquisador, em seu acompanhamento no HEPB ou com seus integrantes.

    6. Os objetivos deste estudo esto voltados a conhecer o tratamento espiritual, saber quais recursos so utilizados pelas pessoas responsveis pelo tratamento, porque h interesse em procurar esse tratamento e como se sente quem o realiza. Outra forma de dizer o mesmo que est escrito acima : Os objetivos dessa pesquisa so: Geral: Acompanhar a experincia de tratamento na doutrina esprita. Especficos: Descrever os tipos de tratamento oferecidos pelo espiritismo; Compreender o que leva pessoas a buscarem esse modo de tratamento; Compreender a experincia de cura e suas possveis contribuies sade mental.

    7. Sua participao nesta pesquisa consistir em responder a uma entrevista semidirigida a partir de uma pergunta disparadora que ser: O que trouxe voc aqui e como foi sua experincia de tratamento espiritual? O tempo estimado para cada entrevista de 90 (noventa) minutos. O registro da entrevista ser atravs de udio (gravao de voz).

    8. As instalaes HEPB sero utilizadas para a realizao das entrevistas.

    9. Os dados colhidos a partir dos instrumentos acima citados, aps gravao e transcrio ficaro sob a guarda do pesquisador por tempo ilimitado, sendo utilizados para a publicao textos cientficos que contribuam para a prtica clnica, levando em considerao os sujeitos em sua prpria experincia. Tambm para a produo material que contribua para as polticas pblicas referentes sade mental.

  • 73

    10. Os riscos relacionados com a possibilidade de sua identificao sero minimizados pelos pesquisadores, seu nome no ser colocado no material transcrito, sendo substitudo por um nome fictcio. A entrevista ser realizada em salas adequadamente vedadas e isoladas quanto a vazamento de som. Os resultados sero apresentados de maneira que no seja possvel identificar os sujeitos colaboradores.

    11. Voc poder interromper sua participao na pesquisa a qualquer momento, se assim o desejar ou se houver incmodo, desconforto, cansao, constrangimento ou inconvenincia. Mesmo que voc conclua todas as fases da pesquisa, ainda assim poder solicitar a sua excluso dos resultados finais, sem quaisquer compromissos ou prejuzos de qualquer ordem.

    12. Os pesquisadores reconhecem que as pessoas que buscam o tratamento no HEPB podem estar em situao de fragilidade emocional. Deste modo, estaro particularmente atentos e disponveis para acolhimento mesmo aps o trmino da entrevista, caso seja necessrio. A equipe do HEPB ser informada imediatamente em situaes que impliquem intenso sofrimento.

    13. A devoluo dos resultados da pesquisa ser realizada atravs de palestra pblica no HEPB. Aos participantes, os pesquisadores oferecem contato individual para apresentao e discusso dos resultados. Caso no seja possvel a devoluo individual faremos chegar material escrito atravs da equipe do HEPB assim como estaremos disponveis para contatos posteriores

    14. Voc receber uma cpia deste termo onde consta o telefone e o endereo do pesquisador principal (orientador) e do pesquisador associado (mestranda) podendo tirar suas dvidas sobre o projeto e sua participao, agora ou a qualquer momento.

  • 74

    DADOS DO PESQUISADOR PRINCIPAL (ORIENTADOR)

    Nome: Marcus Tulio Caldas ______________________________________ Assinatura Endereo completo:

    Telefone:

    DADOS DA PESQUISADORA (MESTRANDA)

    Nome: Allyde Amorim Penalva Marques ______________________________________ Assinatura Endereo completo:

    Telefone:

    Declaro que entendi os objetivos, riscos e benefcios de minha

    participao na pesquisa e concordo em participar.

    A pesquisadora me informou que o projeto foi aprovado pelo Comit de

    tica em Pesquisa em Seres Humanos da UNICAP que funciona na PR-

    REITORIA ACADMICA da UNIVERSIDADE CATLICA DE PERNAMBUCO,

    localizada na RUA ALMEIDA CUNHA, 245 SANTO AMARO BLOCO G4 8

    ANDAR CEP 50050-480 RECIFE PE BRASIL. TELEFONE (81) 21194376

    FAX (81) 2119.4004 ENDEREO ELETRNICO: pesquisa_prac@unicap.br

    Recife, _____ de _______________ de 2013

    _________________________________________

    Sujeito da pesquisa *

    mailto:pesquisa_prac@unicap.br

  • 75

    DADOS DA ASSOCIAO

    A Associao Esprita: Hospital Espiritual Patrcia Bacelar - HEPB, inscrita no

    CNPJ 10.583.105/0001-74, funciona na Rua Eliza de Souza Cabral n 170, Bairro

    Novo, Camaragibe, PE, CEP 54.762-660, onde antes funcionava o Centro Esprita

    Luz e Caridade, com uma rea construda de 100m, que foi devidamente estruturada

    e adaptada para as atividades pertinentes a um Hospital Espiritual, cujos

    tratamentos no implicam em internamento dos pacientes.

    Reafirmando, o local onde funciona hoje o HEPB, antes funcionava um Centro

    Esprita h mais de 15 anos, que teve suas instalaes adaptadas para funcionamento

    do citado Hospital Espiritual, cujo incio das atividades se deu em maro de 2010, com

    a formao em Curso de Medicina Espiritual CME da primeira turma de

    trabalhadores voluntrios.

    Com uma Equipe de 10 pessoas, incluindo 02 Mdiuns Receitistas (nome

    dado aos mdiuns que recebem os Mdicos Espirituais) e 08 mdiuns diversos

    (Doutrinadores, Passistas e mdiuns de incorporao), o HEPB comeou

    efetivamente a funcionar em Setembro/2010.

    A escola da rea deveu-se a necessidade e carncia da comunidade dessa

    rea Metropolitana de Recife, bem como a disponibilidade de pessoas com faculdade

    medinica especial para o exerccio de Mdium Receitista (Mdiuns que incorporam

    Mdicos Espirituais, logicamente desencarnados, que se propem a ajudar os

    enfermos da Terra).

    O HEPB, como Ncleo I de Orientao de Medicina Espiritual de Camaragibe,

    PE, funciona subordinado ao Hospital Espiritual Maria Cludia Martins, em Prazeres,

    Jaboato dos Guararapes, PE, que o Ncleo Central de Orientao de Medicina

    Espiritual do Nordeste, o qual funciona oficiosamente h 15 anos. Situao que se

    reverteu a partir de 20 de julho de 2004 comeou a funcionar oficialmente, inclusive

    com Estatuto prprio.

    A ideia de fundao do HEPB partiu de um grupo de trabalhadores da antiga

    instituio, que fizeram tratamento espiritual no Ncleo Central e quando recuperados

    foram informados da existncia de Mdicos Espirituais que desejavam trabalhar com

    um desses mdiuns (Mdium Receitista). Aps analisada, o grupo aceitou a proposta

    de funo do referido Hospital Espiritual. O Ncleo Central dotou, atravs de curso, o

  • 76

    grupo de trabalhadores e viabilizou a logstica de funcionamento do HEPB, com

    indicativo da Mentora Espiritual Dra. Patrcia Bacelar, que deu nome ao hospital e

    atua como Mdica Espiritual, atravs de um dos Mdiuns que tinha faculdade para

    Mdium Receitista.

    Todos os tratamentos so gratuitos, nada podendo ser cobrado dos pacientes,

    respeitando os preceitos das orientaes evanglicas que regem os trabalhos

    espirituais, que estabelece segundo Mateus Captulo X, Versculo 8: dar de graa o

    que de graa receberes.

    O custeio dos trabalhos e da manuteno da instituio, tais como: gua, luz,

    material de limpeza, material impressos, algodo, seringas (sem agulha),

    esparadrapos, etc. feito pelos associados trabalhadores voluntrios e doaes

    de pessoas pacientes ou no, atravs de conta bancaria existente em nome do

    referido HEPB, na condio de pessoa jurdica de direito privado sem fins lucrativos.

    DISTRIBUIO DA REA DE APROXIMADAMENTE 100M DO HOSPITAL

    ESPIRITUAL:

    1. rea de RECEPO, com 28,0m, que abriga uma Recepo Mvel, logo na

    entrada, com capacidade para dois atendentes, para receber os pacientes,

    incluindo uma rea de espera com um banco fixo de cimento para 15 pessoas e

    rea de Controle de Fichas de Tratamento/Consultas (Pronturios dos Pacientes).

    2. Na continuidade da rea de Recepo, fica a Lanchonete, que atende as

    necessidades dos trabalhadores voluntrios e pacientes que chegam cedo,

    principalmente nas tardes dos sbados, das 12 s 19 horas, horrio da semana

    destinado ao atendimento do pacientes, consistindo de consultas, tratamentos,

    palestras e aulas do curso de medicina espiritual.

    3. Salo Principal, com 40m, que funciona como Sala de Espera e de Palestra para

    os pacientes, de Cursos e Estudos para os trabalhadores e Voluntrios

    proponentes trabalhadores.

    4. Sala de Triagem, com 3,0m, onde so preenchidas as Fichas de Consultas com

    dados pessoais e descrio sucinta dos motivos da consulta, que funciona, aps o

    diagnstico dos Mdicos Espirituais, como Pronturio dos Pacientes (Mdicos

    Espirituais so Espritos desencarnados que incorporados em mdiuns, com

  • 77

    predisposio orgnica para tal incorporao, atuam como Mdicos no

    sentido lato da palavra, respeitadas inclusive as especializaes, como por

    exemplo: Clnica Geral, Neurologia, Pediatria, etc);

    5. Sala dos Tratamentos Mdicos Espirituais, com rea de 10,0m, onde os pacientes

    so tratados com Tcnicas Fluidoterapeuticas trazidas pelos prprios mdicos,

    consistente de tratamentos geral, tratamentos especficos de fluido

    ectoplasmticos, radioatividades, eletrolaserterapia, hidromagnetoterapia, cirurgias

    espirituais, etc. No mesmo ambiente, em Sala Reservada, com 9,5m, inclusive com

    maca, funciona um ambiente privativo e individual para Consulta Mdica Espiritual.

    6. Sala de Emergncia, com rea de 6,0m, onde funciona os Tratamentos de Apoio

    Espiritual, consistindo de incorporao de entidades perseguidoras e/ou doentes,

    tratamentos fluidoterapeuticos em geral (Nessa Sala, durante os atendimentos

    normais do sbado tarde, so tratados os Espritos desencarnados perseguidores

    e/ou doentes e os pacientes que a eles estavam vinculados sob processos

    obsessivos).

    7. Sala de Tratamentos Especiais, com rea de 8,0m, onde so

    realizados tratamentos especiais no campo magntico dos pacientes

    (Tecnicamente chamado Perisprito Perifrico uma das camadas do corpo do

    espiritual, que responsvel pela recepo e transmisso de enfermidades ao

    corpo fsico).

    8. Sala de Hidromagnetoterapia, com rea de 3,0m, onde so preparadas as

    medicaes das guas, por processos eletromagnticos ou apenas magnticos,

    usadas como medicao pelos pacientes no auxlio das curas dos processos de

    hipnose espiritual.

    Outras informaes podero ser obtidas no SITE DOS HOSPITAIS ESPIRITUAIS,

    que se encontra em processo de restruturao:

    www.nucleodemedicinaespiritual.com.br

    http://www.nucleodemedicinaespiritual.com.br/

  • 78

    HEPB HOSPITAL ESPIRITUAL PATRCIA BACELAR

    Ncleo I Orientao de Medicina Espiritual de Camaragibe, PE

    EXTRATO DO POP - PROCEDIMENTO OPERACIONAL PADRO

    CONSULTAS

    TODOS OS SBADOS DAS 13 S 16 HORAS

    RECEPO

    1. Na Recepo, o responsvel do setor anota os nomes dos pacientes destinados

    Triagem e outro colaborador leva os referidos pacientes Sala de Passe, onde

    devero tomar o passe de assepsia fludica, ou outro recomendado pelos(as)

    Mdicos(as) Espirituais.

    SALA DE PASSE

    2. Aps o passe de assepsia fludica, o paciente aguardar no salo a chamada

    individual pelo colaborador responsvel para realizao de sua Triagem.

    SALA DE TRIAGEM

    3. Chamado Sala de Triagem pelo colaborador responsvel, o paciente preencher

    a sua Ficha de Atendimento, que conter dados pessoais, tais como: nome, n da

    identidade, idade, religio, endereo, telefones, motivos da consulta, etc.).

    Indicando se para ele ou para terceiro. Quando terceiro: se encarnado (N da

    Identidade) ou desencarnado (Obrigatrio cpia da Certido de bito).

    4. O preenchimento de tais Fichas obedecer ao critrio de: Feminino atende

    feminino. Masculino atende masculino.

    5. Preenchida a Ficha de Atendimento, o paciente conduzido para o salo onde

    aguardar a chamada para consulta direta com o(a) Mdico(a) Espiritual.

  • 79

    SALA DE CONSULTA

    6. Concluda a consulta direta com o(a) mdico(a) espiritual, na Ficha de

    Atendimento conter o tipo de tratamento fludico a ser aplicado naquele momento

    e/ou tipo de tratamento posterior (tratamento fludico geral, Aplicao de

    ectoplasma, eletrolaserterapia, radioatividade, especificao da medicao da

    gua), bem como o horrio dos prximos atendimentos. O paciente levado a

    sala de passe novamente.

    SALA DE PASSE

    7. Na sala de passe, o paciente ter administrado o seu tratamento fludico

    especificado em sua Ficha de Atendimento.

    RECEPO

    8. Concludo o tratamento fludico na sala de passe, o paciente levado novamente

    Recepo, onde receber as orientaes e recomendaes necessrias

    continuidade de seu tratamento (Inclusive com pequenos panfletos escritos).

    9. Tambm na recepo Informado aos pacientes quanto compostura nas

    roupas, o uso do celular e a necessidade do silncio durante a espera dos

    tratamentos.

    TRATAMENTO CONTINUIDADE

    10. A partir desse momento, a pessoa passa efetivamente a ser um paciente

    encarnado do hospital, podendo inclusive ser atendido em emergncia quando

    orientado pela Equipe Mdica Espiritual (digo paciente encarnado porque o

    hospital funciona tambm e principalmente no mundo espiritual para os

    desencarnados, onde ficam internados e devidamente identificados com seus ns

    de enfermarias).

  • 80

    ALTA MDICA

    11. Admitido como paciente, sua Ficha de Atendimento funcionar como todo e

    qualquer PRONTURIO MDICO, somente concludo o tratamento com a devida

    ALTA MDICA, na ocasio referida

    RETORNO DE TRATAMENTO

    12. A ficha arquivada em local prprio, pois caso haja necessidade de retorno de

    tratamento, o paciente ser atendido no Horrio e pela Equipe que lhe deu ALTA,

    no havendo necessidade de preenchimento de nova Ficha de Atendimento.

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