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U m a Vi s o G e o p o l t i c a d o E s p a od a L n g u a P o r t u g u e s a

Resumo

Este artigo pretende demonstrar a relevnciade Portugal como Estado-nao integrado naUE, mas cuja vocao transocenica iniludvel.A lngua o veculo de ligao mais importantepara o Portugal de hoje. A expanso portuguesados sculos XV e XVI, os actuais pases da CPLP,as zonas de forte concentrao de emigraoportuguesa e a posio dos crioulos e sabiresde base portuguesa, contribuem para a defi-nio de uma zona de influncia scio-lingusticaque, numa sociedade globalizada, pode per-mitir um importante papel de interface a Por-tugal. Lisboa pode ser tal como no passado uma ponte entre culturas, entre religies eentre zonas econmicas.

AbstractPortuguese Language: a Geopolitical Vision

This essays objective is to highlight the importanceof Portugal as a nation-state integrated in theEuropean Union, but whose transoceanic vocation isnot neglectable. The Portuguese language is themost important link that Portugal presentlypossesses. Portuguese expansion during the 15th and16th century, the members of the Community ofPortuguese-Speaking Countries, the areas withstrong Portuguese immigrant presence and theexistence of dialects derived from Portugueselanguage are all elements that define an area ofsocio-linguistic influence. That may endow Portugalwith an important platform role in a globalizedsociety. Lisbon can be as it was in the past a bridgebetween different cultures, religions and economiczones.

Armando Teixeira CarneiroPresidente da Direco do ISCIA Instituto Superior de Cincias da Informao e da Administrao e do IED Instituto deEducao Distncia. Vice-Presidente do CPG Centro Portugus de Geopoltica.

Vero 2006N. 114 - 3. Sriepp. 99-139

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O Mundo da Lngua Portuguesa

Entendemos que as lnguas sofrem, ao longo do tempo e no espao, modificaesque no podem ser contrariadas, sob pena de bloquearmos o seu desenvolvimento ea sua expanso, vivificando-se nas suas variantes sobretudo quando, como o casoda lngua portuguesa, o seu territrio de implantao no contguo antes dispersotendo, em cada zona, enquadramentos regionais lingusticos distintos. Do mesmomodo que o latim, lingua mater do portugus, se fragmentou criando variantes dolatim vulgar, dinmico e no esttico como o latim clssico que rapidamente se enquistoue deixou de ser lngua viva, tambm no se espere encontrar no portugus uma estru-tura rgida e universal. Se isso acontecesse e h muitos que ainda o defendemsem entender a dialctica da evoluo lingustica a lngua portuguesa lngua de civili-zao desapareceria rapidamente de muitas zonas do mundo.

A dinmica lingustica suporta-se em trs modulaes: a diastrtica, relativa comu-nidade que a usa, a diatpica, relativa ao espao onde ela falada, e a diacrnica, relativa sua evoluo temporal. Daqui j se antever a complexidade evolutiva da lngua por-tuguesa falada, h mais de oitocentos anos, por sociedades distintas e em to di-versos locais do planeta...

O portugus de raiz ibrica, o original, partiu assim da variante do latim vulgarfalado na zona, dando origem ao romano lusitnico, com contributos pr-romnicos eps-romnicos, atravs de fenmenos de substrato, de superstrato e de adstrato, sendoinmeras as influncias sofridas desde o rabe ao provenal e ao castelhano e atmesmo influncia, de novo, do latim clssico, no perodo renascentista, que se sobrepeem formas clssicas s palavras originais, e, ainda, a palavras recolhidas na sagadas viagens e exploraes por mares nunca dantes navegados.

Por seu lado, ao longo de quinhentos anos, o portugus brasileiro construiu-secom base no portugus europeu, colonizador, modulado pelas lnguas indgenaslocais (bases tupiniquim e guarani e base tupinamb), pelas diversas lnguas africanasdos escravos (do trfico legal de 1549 a 1830 que se arrastou no trfego atlntico, ile-galmente, at cerca de 1880 e, no Brasil, at 1888) e pelas lnguas dos grupos de emigranteseuropeus que, em sucessivas vagas, se estabeleceram no territrio.

A evoluo da lngua portuguesa foi multiforme tendo-se estruturado, nos seus vriosespaos, numa resoluo dialctica entre formas faladas populares e formas cultas literrias.E se a escrita se mantm mais ou menos idntica, a fontica da lngua portuguesacriou, fundamentalmente, dois grupos distintos: a variante do portugus falado na

Uma Viso Geopoltica do Espao da Lngua Portuguesa

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Armando Teixeira Carneiro

Europa e a variante do portugus falado no Brasil, sem esquecer os dos novos pasesemergentes descolonizao portuguesa de 1974-75, sobretudo as novas variantesangolana e moambicana, em total desvantagem para o portugus europeu no spelo menor nmero de falantes, pelas suas manifestas dificuldades e variaes fonticase pela quase ausncia de uma conscincia poltica da sua defesa. Sem que tal afir-mao signifique a defesa de uma poltica de reforo do portugus europeu relativa-mente aos outros, o que importante, e tentaremos justificar adiante, o reforo dalngua portuguesa, lato sensu, no mundo internacional e por um projecto colectivo dosEstados da CPLP.

De entre as vinte lnguas hoje mais faladas no mundo, o portugus ocupa o oitavolugar1, falado por cerca de 220 milhes de pessoas2. uma das lnguas da famliaindo-europeia que se integra no grupo das lnguas euro-asiticas. Na rvore lingusticaromnica, no ramo ibero-ocidental, surgem duas ramificaes muito prximas: ogalaico-portugus, que se subdividiu no galego3 e no portugus, e o castelhano. O ramoibero-ocidental de lnguas, em resultado da expanso colonial dos Estados-nao daPennsula Ibrica, assume hoje uma posio invejvel, logo a seguir ao ingls, comduas lnguas faladas em zonas geopolticas de grande importncia e em crescimentodemogrfico.

O portugus foi a primeira e uma das mais importantes lnguas da expanso eu-ropeia, a que se juntaram, em sequncia cronolgica, o espanhol4, o ingls, o holandse o francs. A sobreposio do portugus a outras lnguas, nos territrios de contacto,no tempo das navegaes, foi facilitada por ser a lngua do grupo dominador colonialou do grupo de contacto de natureza comercial mas, tambm, por ser, ao fim e ao cabo,a lngua de comunicao frente a uma diversidade enorme de lnguas locais5. Mastambm por ser usada por um povo vindo de regies longnquas o portugus cuja

1 Depois do chins-mandarim, do ingls, do espanhol, do hindi, do rabe, do bengali e do russo.2 Dados Eurostat 2004.3 Hoje o galego uma lngua minoritria na Europa, falada apenas por cerca de 2,5 milhes de pessoas, mas,

tendo o estatuto de lngua regional, o ensino, a todos os nveis, ministrado em galego e vrios media es-critos, de rdio e de televiso so produzidos em galego tendo uma actividade editorial intensa. Um par-ceiro lingustico estratgico a considerar...

4 Usaremos sempre a referncia lngua espanhola reconhecendo, no entanto, a legitimidade daqueles que,mais puristas, a denominam como lngua castelhana.

5 Na Insulndia havia mais de 200 lnguas diferentes e nas Filipinas cerca de 70. A actual lngua oficial daIndonsia, o bahasa indonsio, assim como o bahasa malaio, foram escolhidas, por opo poltica, aps aindependncia dos respectivos Estados depois da Segunda Guerra Mundial.

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forma de contacto com as populaes locais era, para os padres da poca, diminutamenteagressiva. Foi, durante alguns sculos, utilizada como uma lngua franca no exteriorda Europa.

O seu declnio foi progressivo, a partir do sculo XVII, e hoje, depois do francs tertentado a liderana transocenica, assim como o alemo este em vectores de expansocontinentais, para o leste e para o sudeste o ingls, na sua forma norte-americana,que pode ser considerado a nova lngua franca. O francs, para alm das zonas onde seusa como lngua materna ou principal, ainda consegue estar ligado ao mundo da cul-tura e das humanidades, como o alemo que, no campo da filosofia, do direito e dascincias exactas, ainda mantm os seus nichos.

O fenmeno acelerou-se no mundo ps Segunda Guerra Mundial. O ingls, agoraimpulsionado pela sociedade norte-americana, tornou-se e consolidou-se como a lnguade comunicao poltica e comercial por excelncia; o alemo sofreu uma forte recessocom o colapso do Terceiro Reich cujo declnio se havia j iniciado no final da Pri-meira Guerra Mundial com a fragmentao do Imprio Austro-hngaro e a sua perdade influncia nos pases do Prximo Oriente6; o francs entrou em declnio, mau gradoos esforos dos sucessivos governos, arrastando consigo, infelizmente, a cultura deraiz francesa. A URSS teve como elemento negativo nos seus intuitos imperialistas7

a dificuldade de acesso lngua russa, sobretudo pela sua escrita no alfabeto cirlico,assim como o mundo rabe tem dificuldade de comunicar pela sua escrita8, notendo ficado esquecido o acto premonitrio e corajoso de Mustafa Kemal Ataturk, em1928, ao substituir o alifato rabe pelo abecedrio latino na jovem Repblica daTurquia que pretendia laica. So casos de mundos lingusticos que se fecham sobreeles prprios. O mesmo se passou com o Japo que teve que adoptar o ingls comosegunda lngua de interface e de criar inmeros neologismos de raiz inglesa e se vis-

6 At finais do terceiro quartel do sculo XX ainda se notava, sobretudo nos estratos comerciais e nos gruposligados s cincias e cultura, a influncia da lngua alem na Turquia e nalguns pases do prximoOriente, como a Sria e o Iro.

7 Que sempre foram negados pelos seus proslitos, considerando que o expansionismo norte-americano erade raiz imperialista enquanto que o expansionismo sovitico no se podia classificar como tal, mesmo nosmomentos histricos mais evidentes como os da partilha da Polnia com a Alemanha hitleriana, do avanona Europa ps-Yalta, no Afeganisto, etc...

8 Grande parte da populao dos pases rabes fala mas no escreve nem l o rabe. Na dcada de 70, estava,ocasionalmente, em Argel na semana em