uma noite na bibliotec - teatro-da- .precrias, nada teatrais por vezes, sempre para chegar aonde

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  • UMA NOITE NA BIBLIOTECADE Jean-Christophe Bailly

    ENCENAO LUS VARELA

  • Noite e biblioteca no rimam Fernando Mora Ramos

  • Desde logo um mistrio inicial. A noite tem a ver com o teatro, a biblioteca com um horrio regular. Portanto talvez seja uma armadilha, convencionada por certo. Mas h muitas proximidades a estabelecer entre os dois tipos de fico, a da leitura, sem limite de gneros, de tempo ou espao, actividade para por-ttil e solitria, e a do teatro, condicionada pelas condies interdisciplinares e espaciais de acontecer, mais pesada e puxa carroa. liberdade quase to-tal da primeira corresponde a liberdade colectivamente criada da segunda, arte de equipa e complexo de tcnicas, arcaica e amorosa do ltimo grito tecnolgico estranha coisa o teatro, to pouco capaz da perfeio das formas equilibradas da proporo grega e to grego na polmica e crueza potica. A pea de Jean-Christophe Bailly que o nosso amigo Lus Varela nos props fez fasca intelectual e operativa, estimulou paisagens, acendeu o nosso dese-jo sempre insaciado e curioso. Conscientes de que o teatro necessita renascer sempre que regressa, a conquista de novos territrios interessa-nos quanto nos move o prprio teatro. No foi por acaso que a nossa ltima experincia se realizou numa aldeia transmontana e partilhando com a populao um en-tremez de Cervantes. Agora vamos estar entre professores e alunos os da Escola Bordalo Pinheiro, em Caldas e tambm entre essa fauna especfica dos leitores de livros e frequentadores de bibliotecas, parentes de enredos e voo ficcional, de uma melhor compreenso do mundo. Estaremos portanto a realizar uma longa digresso por bibliotecas, como o caso de uma das bibliotecas mais belas de Portugal, a Biblioteca de So Pedro, da Universidade de Coimbra, onde estrearemos depois da ante-estreia em Caldas da Rainha. Um universo aliado, territrio irmo. Isso agrada-nos, j que muitas vezes o nosso trabalho rduo, exercendo-se em condies precrias, nada teatrais por vezes, sempre para chegar aonde o teatro ainda no foi.Ter convidado o Lus e a Christine a estar connosco tambm um acto familiar: so parte da nossa histria e do nosso futuro, estar mais perto continuar pela mesma estrada de construo de um universo teatral em Portugal, tarefa sem fim e ciclpica, dada a natureza infrtil dos que governam e no reconhecem na cultura um papel de estruturao social decisivo e forma, por assim dizer, mais sofisticada de respirar que gostaramos que se pudesse generalizar, no como consumo massivo, sim como experincia profunda e tocada pela razo. Mas no desesperamos. C continuamos, 34 anos depois, pelas mesmas veredas e com a mesma obsesso europeia universalista, sem preconceitos bsicos nem cedncias ao fcil ruminante. Os espectadores so inteligentes e na experincia teatral no h fronteiras para o entendimento do mundo e dos seres o que no se percebe acende o desejo de perceber, eis o teatro tambm a.

  • Se h um ecumenismo, o do teatro necessrio descobri-lo o teatro uma revelao constante para um no espectador. Ser factor de paz onde outros universalismos se digladiam, ou se impem como a regra nica de modo de ser e viver. A pea proposta seria sempre pea nossa, sentimo-la como nossa porque se inscreve no espectro dos nossos humores e amores e assim ser. Um certo modo de a fazer ser tambm nosso enquanto experincia em parte reconhecvel interessam-nos aventuras em que possamos de algum modo usar o que somos capazes de concretizar , assim como as surpresas, bem vindas, como esta de um espectculo construdo por um texto potico e ensastico, desde logo sem os requisitos convencionais do drama e em casa emprestada. No ser assim Lus? E no ser assim Christine?

  • Traduzir, um trabalho de ourives

    Christine Zurbach

  • Na minha experincia do que pode significar no na teoria em que as opinies no faltam, mas na prtica apenas, o que no ser pouco a expresso traduzir para o teatro, o trabalho sobre o texto Une nuit la bibliothque de Jean--Christophe Bailly ficar como a marca de uma viragem. Por vrias razes. Entre outras, poderia citar a seriedade da temtica da biblioteca, da leitura, do livro e do debate em torno do devir do que se entende por cultura (em que a traduo participa muito mais do que se costuma pensar), ainda que integrada nas conversas de uma amvel e aparente ligeireza entre livros provisoriamente libertos da mumificao das suas prateleiras no silncio da noite. E, assim criada, a peculiaridade de uma escrita que sem deixar de ser ensastica ou filosfica, parece satisfazer-se com uma certa marivaudage um pouco fora de moda.Mas referirei uma outra razo que se apresentou aqui como muito premente, neste caso na relao teatral que se estende da cena para a sala, e que at ento no tinha sido to determinante na dimenso performativa do meu trabalho no territrio da traduo teatral. Pela primeira vez, pesou como uma evidncia um dado banal, a saber que, no teatro, o texto s ser ouvido uma vez pelo espectador, sem interrupo no seu caminhar, indiferente aos rudos que o rodeiam ou ao protesto eventual daquele espectador que no pode, como o leitor que volta atrs na leitura do livro que comeou a escapar-lhe, pe-dir aos actores que se repita aquela fala cuja formulao lhe pareceu obscura ou apenas mais difcil na sua percepo imediata. O fio condutor do discurso da pea, e das falas das personagens, a inteligncia do que nos proposto acerca do passado, do presente e do futuro do livro, deve seguir sem quebra, criando o mesmo encantamento e fascnio pelo acto de ouvir-pensar como aquele que nos d a leitura silenciosa e solitria. Assim, o tradutor, para ga-rantir uma recepo plena do texto de Bailly, cuja matria lingustica de uma simplicidade desarmante mas to sedutora para o tradutor (e por isso en-ganosa) , confrontado com uma exigncia de preciso tal que poderamos cham-la de matemtica, na escolha das palavras, das frmulas gramaticais que do corpo e voz, agora noutra lngua, ao pensamento e s ideias que de-vero tambm retomar vida no texto agora reescrito o traduzido, texto sobre o texto, livro sobre o livro, agora tambm matria para leitores e bibliotecas, enquanto os houver e se assim for entendido...

  • [do teatro como convocao]

    Jean-Christophe Bailly

  • [] O teatro que, enquanto operador de lentido, duma lentido especfica, muito sua, s sua, no existe e no se d seno perante um grupo humano que lhe d consistncia. da essncia da operao teatral ter lugar perante um colectivo de recepo, s existir quando tem lugar efectivamente diante desse colectivo. S elementos que participam na obra teatral podem eventualmente ser armazenados (a comear pelo texto, num livro), mas a obra propriamente s existe consumando-se, como um fogo que se reacende cada noite na esperan-a de que possa arder como na vspera, sem que no entanto possamos estar completamente seguros disso. Ora, essa operao viva, esse modo particular de lentido, s tem lugar e s existe assente num dispositivo que articula dois plos o plo da representao e o plo da recepo. A estes plos pode-se dar o nome que se quiser e digamos que palco e plateia so os mais comuns mas nada poder evitar que eles existam em simultneo e nenhum dos dois pode dispensar o outro. da essncia da operao teatral convocar uma assistncia e cada representao uma nova convocao.Mais do que um lugar, um gnero ou uma forma (e se bem que ele tenha lugar, forma e gnero), o teatro um dispositivo, o dispositivo dessa convocao. s enquanto tal e portanto no acontecer da representao que se abre enfim como obra, que se realiza na fora do seu acto e no acto da sua fora. Como tal, o teatro poderosamente arcaico a nica de todas as artes que escapa reprodutibilidade e est comprometido no seu prprio funciona-mento com actos que intervm no corpo social e que so, eles tambm, actos de convocao efmeros ou de um noite, como o comcio, ou rituais, como as cerimnias religiosas. No digo de modo nenhum que o teatro seja uma forma ritual ou uma reunio militante, digo apenas que da sua essncia deixar que se formem tais comparaes, e que de resto a sua histria o confirma. Acrescento que o que pode, com efeito, ser descrito como um arcasmo, mas desde logo como um dado constitutivo e no como um apndice, est tambm no cerne daquilo que torna o teatro to violentamente sintomtico daquilo que est em jogo no corpo social inteiro: aqui entra em jogo todo o espectro pelo qual a convocao teatral, por mais nfima que possa ser, se desenrola sempre numa dimenso poltica.Sem entrar de modo nenhum numa dimenso polmica (por vezes bom sus-pend-la) quanto preeminncia do texto ou do elemento visual na consti-tuio da operao teatral, pode-se dizer que o teatro, aquilo que pode ser condensado sob a essncia do teatral, no nem o que depende dum lugar (mesmo que esse lugar se chame efectivamente teatro), nem o que depende dum texto (fosse ele precisamente aquilo que se chama uma pea de teatro), nem aquilo que tem, ou teria, ou deveria ter tal ou tal forma (falada, cantada, danada), mas aquilo que s toma forma nessa relao que associa um

  • trabalho de exercitao do sentido a uma assembleia que o observa (o escuta, o olha) e que veio especialmente para o ver no stio onde ele se faz.Um nico e mesmo espao rene, dividindo-as, uma rea de emisso e uma rea de recepo. Trata-se, com efeito, de uma espcie de contrato, duma simples clusula que resulta duma deciso. H imobilizao e paragem, delimi-tao duma espcie de crculo (de hemiciclo, na realidade) com, de um lado, produo (representao) e, do outro, observao activa. Este dispositivo pode ser extremamente simples, um crculo de giz traado no cho, ou at mesmo apenas a condensao virtual de um espao decidido enquanto rea de repre-sentao, e a operao pode comear, ter lugar. []

  • Seremos convocados. A nossa reunio ter lugar num dos templos mais luminosos da nossa cult