um panorama histórico do latim ao português ?alvesdasilva.pdf · sua origem no latim vulgar,...

Download Um panorama histórico do Latim ao Português ?alvesdaSilva.pdf · sua origem no latim vulgar, falado…

Post on 07-Nov-2018

216 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Universidade de Braslia UnB

    Instituto de Letras IL

    Departamento de Lingustica, Portugus e Lnguas Clssicas - LIP.

    PRECONCEITO LINGUSTICO:

    Um panorama histrico do Latim ao Portugus Brasileiro

    Altemar Gonalves da Silva

    Orientadora: Profa. Dra. Ulisdete Rodrigues de Souza Rodrigues

    Braslia, Julho de 2014

  • 2

    Universidade de Braslia UnB

    Instituto de Letras IL

    Departamento de Lingustica, Portugus e Lnguas Clssicas - LIP.

    PRECONCEITO LINGUSTICO

    Um panorama histrico do Latim ao Portugus Brasileiro

    Altemar Gonalves da Silva1

    RESUMO: o tema deste artigo o preconceito lingustico, desde suas razes at os dias

    atuais. Com base em pesquisa bibliogrfica e de campo, objetiva-se apresentar o

    percurso sociohistrico da Lngua Portuguesa (LP) at chegar ao Brasil e discutir o

    ambiente que fez do Portugus Brasileiro (PB) uma lngua e/ou variedade continuada e,

    tambm, modificada do Portugus Europeu (PE). Na sequncia, apresentam-se as

    ambincias e ocorrncias de preconceito lingustico na sociedade. O aparato terico-

    metodolgico o da sociolingustica, embora no se pretenda, neste estudo, desenvolver

    um estudo de natureza quantitativa ou qualitativa, mas to somente de natureza

    explicativa, discursiva e ilustrativa de um fenmeno contemplado dentro desse campo

    terico da lingustica. A bibliografia de base compreende Bagno (2012), Castilho

    (2012),Ilari & Basso (2011), Scherre (2008), entre outros. Conclui-se, neste estudo, que

    1 Aluno do 8 semestre do curso de Letras Portugus e Respectiva Literatura da Universidade de Braslia

    - UnB

  • 3

    o preconceito relativo lngua, hoje, existente no Brasil de cunho social e ideolgico,

    aparecendo e sendo corroborado por/em diversos ambientes sociais e miditicos.

    1. Introduo

    Em sua essncia, o homem um ser social e dono de uma inteligncia singular.

    Desde o seu surgimento no planeta e at os dias de hoje, temos procurado viver em

    sociedade, ainda que a duras penas: clima desfavorvel, guerras, desastres naturais,

    epidemias, fome etc. Todos esses acontecimentos foram forjando, ajudando e

    possibilitando a vida em sociedade. De forma natural foram surgindo leis de

    convivncia entre os primeiros grupos, inicialmente pequenos bandos que caavam e

    viviam juntos.

    Conforme o grupo ia crescendo, essas leis ficavam mais complexas e o

    homem precisava transmiti-las a seus descendentes, s geraes mais novas, surgindo

    assim uma maneira mais complexa de comunicao entre eles. Essa comunicao no

    poderia mais ser composta somente por grunhidos e gritos, mas, sim, por algo mais

    significativo para todo o grupo. Assim determinados sons passaram a significar algo

    mais concreto e real para os membros de cada grupo. A esse entendimento por meio dos

    sons demos o nome de lngua, idioma, sistema interno, internalizado.

    Comparando-nos aos outros seres vivos do planeta, nos destacamos por termos

    uma complexa forma de comunicao: fala e escrita. No entanto, isso que nos difere dos

    outros seres vivos e , no que se diz respeito competncia lingustica, por muitas

    vezes, tambm, usado para nos diferir, criando um abismo ilusrio, e real, no tocante ao

    poder e acesso ao poder que a lngua pode proporcionar queles que fazem um bom

    ou mau uso desta, e isto uma conveno tcita social. O bom falante aquele que

    conhece as regras da sua lngua e as usa com propriedade, colocando-se assim numa

    posio de mais poder; o mau falante justamente aquele que desconhece as regras

    da lngua e a usa de forma errnea, ficando numa posio de menos poder.

  • 4

    Quando ouvimos uma pessoa falar os menino veio tudo, identificamos esse

    falante como uma pessoa com pouco letramento e oriundo de uma rea rural ou

    perifrica, portanto, algum que desconhece as regras da lngua. Se outra pessoa disser

    os meninos vieram todos, esse segundo falante visto como algum que conhece as

    regras de sua lngua, um bom falante desta, e saberemos que este teve acesso a uma

    educao formal e proveniente de um centro urbano. Pensemos no primeiro falante: a

    frase dita por ele no segue a gramtica tradicional, pois esta diz que todos os

    constituintes flexionveis do sintagma devem flexionar de acordo com o gnero e

    nmero do sujeito. luz da gramtica tradicional este sintagma foi construdo de forma

    errada, pois o determinante est no plural e os outros constituintes esto no singular. De

    fato, de acordo com a norma padro essa construo no pode ocorrer.

    No entanto, por trs dessa noo e percepo da realizao como erro existe

    algo muito mais profundo do que um simples preconceito lingustico, existe, antes, um

    preconceito social. As pessoas que no usam bem sua lngua esto afastadas dos

    grandes centros urbanos, tm pouco ou nenhum acesso educao formal, tm

    subempregos ou vieram da zona rural. Enquanto que os bons falantes da lngua tm

    acesso educao formal, vivem nos grandes centros e tm bons empregos. Tanto os

    falantes que realizam a flexo de nmero dos constituintes de um sintagma, como

    aqueles que no realizam essa flexo so bons falantes da lngua, pois se entendem e se

    fazem entender na sociedade em que vivem.

    O estudo que apresentaremos nesse artigo uma tentativa de traar a origem

    desse preconceito lingustico, como pode ter surgido e como ganhou corpo ao longo da

    histria, sobretudo do portugus brasileiro objeto de estudo desse artigo. No nos basta

    simplesmente saber a existncia desse preconceito, pois este dirio e palco de muitas

    discusses. O que objetivamos investigar a sua origem e por que tem ocorrido com

    tanta fora, principalmente no Brasil, aventando como um dos motivos a grande

    contribuio lingustica de vrios povos para a formao do Portugus Brasileiro bem

    como de sua cultura. Este estudo , tambm, motivado por uma curiosidade acadmica e

    social, porque, ao nos depararmos com discusses no ambiente acadmico sobre a

    noo de certo e errado no tocante lngua falada, somos postos prova, chamados e

    instigados a olhar alm das aparncias e senso comum. papel da Academia suscitar

    questionamentos e fazer com que esses ultrapassem seus muros e levem esses

    questionamentos discusso social, de forma clara e objetiva.

  • 5

    Quando assistimos a filmes nacionais com mais de 50 anos de produo, e at

    menos, podemos observar que houve mudanas na lngua, que, ao longo da histria

    recente, essas mudanas so perfeitamente observveis. Imaginemos, ento, essas

    mudanas no decorrer de 300, 400 anos ou mais, porm essas diferenas no so apenas

    diacrnicas (no tempo), so tambm diatpicas (no espao). Se existem essas diferenas

    na prpria lngua e os falantes conseguem se entender e comunicar, o que leva alguns de

    seus falantes a terem um to grande preconceito, visto que uma lngua viva est sujeita a

    mudanas ao longo de sua histria e no ambiente em que falada?

    Ao olharmos a norma padro da Lngua Portuguesa falada hoje, podemos ver

    sua origem no latim vulgar, falado pelos comerciantes, artesos e soldados romanos.

    Esse latim vulgar era uma forma desprestigiada, e a classe dominante romana no o via

    com bons olhos. Esse latim rejeitado pela elite romana, ao longo de sua histria evoluiu

    para os romances que mais tarde deram origem ao galego, que posteriormente deu

    origem ao portugus. Percorrendo a histria, vimos que o latim rejeitado pela elite

    romana deu origem ao portugus, visto, hoje, pela elite brasileira como o bom

    portugus. E a partir desse olhar histrico da formao e evoluo do Portugus

    Brasileiro at o que ele hoje, procuraremos entender o preconceito lingustico ora

    existente em nosso Pas. A pergunta que nortear esse trabalho ser: ser o preconceito

    lingustico, hoje, uma nova forma de dominao da elite?

    Buscando apoio em textos de autores conhecidos pelo seu rduo trabalho, no

    apenas na lingustica, como tambm na sociolingustica, queremos abrir uma discusso

    que ultrapasse o ambiente acadmico. Queremos estend-la at a sociedade, que precisa

    tomar conscincia do assunto e participar dessa discusso, pois a lngua no pertence a

    um grupo, seno populao como um todo, pois a lngua se cria e transforma com e

    por meio de seus falantes.

    Estruturalmente, este artigo est organizado em cinco partes. A primeira

    compreende a Histria da Lngua Portuguesa, dividida nos subitens: Do Latim ao PE,

    Do PE ao PB e ainda uma reviso bibliogrfica. A segunda comtempla a metodologia

    utilizada neste artigo. A terceira contendo noes tericas sobre a sociolingustica,

    dividida em: Lngua, Norma e Gramtica e Variao e Mudanas nas Lnguas e no

    Portugus. A quarta parte, que trata do Preconceito Lingustico, encontra-se organizada

    nos subitens Conceito e Expanso; Ambiente e Ocorrncias, que abrange o preconceito

  • 6

    na Mdia Impressa e Internet. Por fim, so tecidas as Consideraes Finais do presente

    estudo.

    2. A Histria da Lngua Portuguesa

    2. 1. Do Latim ao Portugus Europeu

    Neste ano de 2014 comemoram-se os 800 anos da Lngua Portuguesa, se for

    considerado o mais antigo documento escrito em portugus, datado de 1214. So 800

    anos do primeiro registro escrito dessa lngua falada por mais de 240 milhes de

    pessoas mundo afora. Podemos dizer que o portu