TURISMO SOB A PERSPECTIVA HISTÓRICA, SÓCIO ?· TURISMO SOB A PERSPECTIVA HISTÓRICA, SÓCIO-POLÍTICA,…

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<ul><li><p>TURISMO SOB A PERSPECTIVA HISTRICA, SCIO-POLTICA, </p><p>ECONMICA-ADMINISTRATIVA E AMBIENTAL1 </p><p>Carlos Alberto Cioce Sampaio2 </p><p>Simone Calistro Fortes3 </p><p>Resumo: A temtica do Turismo tem sido estudada sobretudo sob a tica das Cincias </p><p>Sociais Aplicadas. Utilizando-se tambm de referencias bibliogrficos das Cincias </p><p>Humanas, esta pesquisa tem como objetivo sugerir proposies que amplie o entendimento </p><p>desta temtica. Epistemologicamente, incorporou no debate as perspectivas histrica, scio-</p><p>poltica, econmica-administrativa e ambiental sobre turismo de modo que pudesse superar </p><p>a tica do racionalismo utilitarista. Adicionou-se a este caldeiro, um ensaio original, </p><p>contudo ainda incipiente, que discerne sobre tipos de racionalidade que no s se baseiam </p><p>no clculo de conseqncias individuais (um ganha e outro perde). Acredita-se que a </p><p>racionalidade utilitarista seja um dos principais fatores causadores do distanciamento das </p><p>benesses da atividade turstica s comunidades receptoras em experincias de destinaes </p><p>tursticas. </p><p>Palavras-chave: Epistemologia do Turismo; Sociologia do Turismo; Metodologia do </p><p>Turismo </p><p>Abstrat This paper based on bibliographical references of Humanities, Environmentalism </p><p>and Applied Social Sciences. Its objective suggests propositions that enlarges the </p><p>understanding of Tourism. Methodoligically, it incorporated in the scientific debate types </p><p>of rationality and tacit knowledge in processes that share new experiences which, not </p><p>always, are necessarily used of the individualistic utilitarian rationality, originated from the </p><p>estrangement of the benefits caused by the touristic activity to the receivable communities. </p><p>Keywords: Tourisms Sociology; Receivable Communities; Rationality. </p><p> 1 Este artigo sntese do livro Sociologia do turismo: implicaes da atividade turstica como fenmeno </p><p>humano que est sendo concludo. 2 Professor dos Programas de Ps-Graduao em Administrao (PPGAd) e Desenvolvimento Regional </p><p>(PPGDR) da Universidade Regional de Blumenau (FURB); Coordenador do Ncleo de Estudos Complexos </p><p>em Estratgias Organizacionais (NEO) / PPGAd e PPGDR / FURB; Pesquisador do Ncleo de Meio </p><p>Ambiente e Desenvolvimento (NMD) do Programa de Ps-Graduao em Sociologia Poltica (PPGSP) da </p><p>Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 3 Coordenadora do Curso de Graduao e Turismo e Lazer da Universidade Regional de Blumenau (FURB). </p></li><li><p> 2 </p><p>O turismo um fenmeno, isto , ele pode ser observado. O fenmeno turismo pode ser </p><p>observado sob os contextos: histrico, econmico, scio-filosfico e ambiental, alm de </p><p>outros que no esto sendo privilegiados neste estudo. Estes contextos so </p><p>interdependentes, cada um interage com o outro, ora se complementando ora se </p><p>contradizendo. Nessa encruzilhada de relaes, tem-se como objetivo discutir o tema </p><p>turismo na sua complexidade ou, melhor, como fenmeno humano. </p><p> As perspectivas do turismo como fenmeno humano propem descrever e analisar </p><p>pressupostos que podem concomitantemente resgatar e construir uma ao social que </p><p>medeie melhor os interesses de comunidades receptoras, com o trade das destinaes </p><p>tursticas de modo que possa diminuir o vcuo existente entre estes dois elementos que </p><p>equivocadamente, muitas vezes, so considerados como extremos opostos. Nesta direo, </p><p>deseja-se superar a tica das cincias sociais aplicadas, complementando-a com as cincias </p><p>ambientais (humanas e sociais). Assim, tem-se como expectativa que este estudo possa ser </p><p>uma obra de referncia para a disciplina de sociologia do turismo e em temticas limtrofes </p><p>a esta, inseridas tanto nos cursos de graduao quanto nos programas de ps-graduao em </p><p>turismo e suas derivaes, como hotelaria, lazer e eventos. </p><p> Este trabalho est sendo escrito a partir de ensaios, pesquisas bibliogrficas e </p><p>prticas sociais intervencionistas realizadas no mbito de ncleos de pesquisa vinculados a </p><p>Programas de Ps-Graduao4. </p><p> 4 Ncleos de Estudos Complexos em Estratgias Organizacionais (NEO) e de Polticas Pblicas (NPP), </p><p>vinculados institucionalmente aos Programas de Ps-Graduao em Administrao e Desenvolvimento </p><p>Regional da Universidade Regional de Blumenau (FURB), com as cooperaes tcnica do Curso de </p><p>Graduao em Turismo da FURB e cientfica com os Ncleos de Meio e Ambiente e Desenvolvimento </p><p>(NMD) do Programa de Ps-Graduao em Sociologia Poltica e de Estudos da gua (NEA) do Programa de </p><p>Ps-Graduao em Engenharia Ambiental, ambos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o </p><p>Programa de Ps-Graduao em Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itaja (UNIVALI) e o </p><p>Departamento de Turismo da Universidade Federal do Paran (UFPR), e com financiamento do Conselho </p><p>Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq) e Coordenadoria de Aperfeioamento de </p><p>Pessoal de nvel Superior (CAPES). </p></li><li><p> 3 </p><p>1. Turismo como fenmeno histrico </p><p>O antropide5 foi o primeiro elo vivo do homem (aproximadamente 10.000.000 de </p><p>anos), entretanto, ele assemelhava-se mais com os smios (macacos). O segundo elo </p><p>humano, o homindeo (4.000.000 de anos), este sim aparentava mais com o homem. E na </p><p>Era Glacial (aproximadamente entre 100.000 a 50.000 anos atrs) surge o homo sapiens, ou </p><p>seja, o homem com suas caractersticas atuais. </p><p>Num primeiro momento dos ciclos civilizatrios humanos6</p><p> (aproximadamente </p><p>12.000 anos) ocorreu grandes ocupaes em regies prosperas com abundncia de riquezas </p><p>naturais, como por exemplo a Mesopotmia7. Este perodo conhecido pela formao de </p><p>comunidades domsticas humanas8</p><p> que se contrapunham aos movimentos nmades </p><p>(supracaracterstica das populaes que viviam no perodo pr-civilizatrio). No mbito das </p><p>comunidades domsticas pressupe-se que existiam condies ideais para o surgimento das </p><p>primeiras comunidades com caractersticas receptoras ao turismo. </p><p>As comunidades domsticas se caracterizavam pela permanncia humana num </p><p>determinado lugar. A permanncia humana, sem um grande rigor taxolgico, constitui uma </p><p>comunidade sexual duradoura, representada pela famlia (pai, me e filhos), pelas relaes </p><p>matrimoniais (entre filhos de pais diferentes) e pelas relaes de vizinhana, que se </p><p>mantinha atravs da convivialidade humana9. </p><p>Este tipo de comunidade perdurou a partir da sociabilidade de seus membros10</p><p>, e </p><p>no para salvaguardar interesses individuais na posse de bens materiais11</p><p>. Para que a </p><p> 5 Subordem dos primatas que inclui os macacos e o homem; apresentam crebro grande e desenvolvido, face </p><p>capaz de expressar emoo, olhos voltados para frente, um par de mamas e dedos com unhas achatadas, so </p><p>diurnos e vivem nas rvores ou no cho (HOUAISS, 2001). 6 MORIN (1975); CHARDIN (2001); TOYNBEE (1987). </p><p>7 Mesopotmia significa terra entre rios, que neste caso refere-se aos Rios Eufrates e Tigre Atualmente, esta </p><p>regio pertence ao Iraque. (ENCICLOPDIA CONHECER 2000, 1995). 8 WEBER (2000). </p><p>9 WEBER (2000). </p><p>10 No muito diferente de outros grupos de espcies animais, tais como: chimpanzs, lees, hienas e golfinho. </p><p>11 POLANY (2000, p.65). </p></li><li><p> 4 </p><p>sociabilidade perdurasse, isto , gerasse bem estar social, era necessrio realizar acordos, </p><p>independentemente se estes fossem de ordem tcita12</p><p> ou explcita. Sob esta tica, o turismo </p><p>pode ser considerado como um acordo para possibilitar o deslocamento de pessoas entre </p><p>comunidades. Podia-se acordar entre as comunidades interessadas, por exemplo, qual o </p><p>nmero de viajantes (estrangeiros13</p><p>) permitidos para se alojarem nas comunidades </p><p>receptoras. Imagina-se que o prato contendo as clebres lentilhas egpcias, que era um </p><p>atrativo em Alexandria14</p><p>, possua uma capacidade de carga. Alm de acordos, a </p><p>comunidade domstica utilizava instrumentos15</p><p> para tornar a vida de seus membros melhor. </p><p>O turismo, de um certo modo, um instrumento (necessita manuseio) que facilita o </p><p>deslocamento humano, ou seja, pressupe coordenao de algumas atividades, tais como, </p><p>hospedagem, refeies e entretenimento, para que o evento turstico ocorra. Cita-se a </p><p>realizao dos primeiros jogos olmpicos16</p><p>. </p><p>2. Turismo como fenmeno econmico-administrativo </p><p> Num segundo momento desse perodo civilizatrio, caracterizou-se pela </p><p>predominncia de fluxos econmicos entre comunidades domsticas humanas. </p><p>A economia um termo que teve seu significado modificado ao longo dos ltimos </p><p>dois milnios e meio.17</p><p> A origem da palavra economia grega e denominava o </p><p>gerenciamento de uma casa, oikos moradia18</p><p>. </p><p>Atualmente, economia um substantivo de difcil adjetivao, isto , onipresente. </p><p>Supera o gerenciamento da espacialidade domstica, tpica de comunidades receptoras. A </p><p>economia atualmente vai alm, inclusive tentando gerenciar toda a vida humana. Em outras </p><p> 12</p><p> De difcil mensurao. 13</p><p> Os atenienses no consideravam os estrangeiros como possuidores dos mesmos direitos do que os cidados </p><p>da Polis (ARISTTELES, 1991). 14</p><p> AGOSTINHO (1987). 15</p><p> Diferentemente de outros grupos de espcies animais, embora, algumas as possuem em menor grau, tais </p><p>como: chimpanzs e corvos. 16</p><p> ENCICLOPDIA 2000 (1995). 17</p><p> HUBERMAN (1978). </p></li><li><p> 5 </p><p>palavras, surge o agir econmico19</p><p>, baseado no senso utilitarista hobesiano (clculo de </p><p>conseqncias20</p><p>) que distorce o sentido de felicidade ao ponto de que seja sinnimo de se </p><p>obter bens (mercadoria), de forma a substituir as satisfaes afetivas, e assim se correr o </p><p>risco de dela se tornar escravo, tendo a necessidade material sempre crescente, para </p><p>mascarar a nossa insatisfao afetiva e o nosso mal-estar21</p><p>. </p><p>Entretanto, acredita-se que a desigualdade econmica no natural e a competio </p><p>econmica tampouco o 22</p><p>, isto : no uma lei da natureza23</p><p>. Conseqentemente, no se </p><p>tem dvidas de que o fenmeno turismo supera, na sua essncia, a perspectiva de uma </p><p>atividade utilitarista com feio econmica e compenstria aos seus efeitos: neurose do </p><p>excesso ou da presso de trabalho24</p><p>. </p><p> necessrio resgatar a percepo (viso de mundo) das comunidades domsticas de </p><p>poder alcanar o bem estar social dentro dos parmetros de uma ao social-econmico-</p><p>cultural local (endgena), entretanto, sem correr riscos de um localismo exagerado, e sim </p><p>transform-la numa comunidade de vistas, decidindo o que ela quer ser, grande ou pequena, </p><p>criando no momento em que percebe sua vocao econmica25</p><p>. </p><p>3. Turismo como fenmeno social-filosfico </p><p>A diviso de trabalho com traos capitalistas, surgida aps a revoluo industrial </p><p>(sculo XVIII), na qual polarizou as foras do capital de um lado e do trabalho de outro26</p><p> e, </p><p>ao mesmo tempo, a discusso ainda emergente da trade liberdade, igualdade e fraternidade, </p><p> 18</p><p> TOYNBEE (1987). 19</p><p> Racionalizao tcnica-produtiva-utilitarista (SEN, 2000; BOBBIO et al., 2000). 20</p><p> HOBBES DE MALMESBURY (2000). 21</p><p> MARCUSE apud SACHS (1986); DE MAIS (2000). 22</p><p> SINGER (2002); POLANY (2000); MANNHEIM (1971). 23</p><p> Apologia que se faz a teoria do evolucionismo baseado nos princpios da seleo natural das espcies </p><p>(DARWIN, 2002). 24</p><p> DUMAZEDIER (1999). 25</p><p> SAMPAIO (2002). 26</p><p> No se tem a pretenso de contradizer a teoria marxiana, entretanto, se deseja apontar algumas perspectivas </p><p>novas no debate sociolgico, </p></li><li><p> 6 </p><p>a partir da revoluo francesa (sculo XVIII), contrapondo o Estado absolutista de traos </p><p>hobesiano27</p><p>, herdeiro de um feudalismo senhoril, supracaracteristica do sistema social-</p><p>econmico da Idade Mdia (entre os sculos IX e XIII), no consiguiram reverter as </p><p>patologias sociolgicas que descaraterizaram s comunidades domsticas ocasionadas pela </p><p>sobreposio da racionalidade utilitarista individual a valorativa coletiva. </p><p> preciso retroceder no tempo e resgatar os valores da integridade verdadeiramente </p><p>humana, discutida na filosofia clssica28</p><p>, tais como os que aqui esto sintetizados: </p><p>intelectual, esttica, moral e espititual. A intelectualidade tem que almejar a verdade dos </p><p>fatos, e no reduzi-los ou, mesmo, distorce-los para melhor compreende-los. </p><p>Esteticamente, a beleza deve revigorar o sentido de pureza, e no da futilidade. Moralmente </p><p>tem-se que ressaltar a solidariedade humana em detrimento do bem estar individual. E </p><p>espiritualmente, a unidade deve ser almejada para fortalecer as relaes humanas, ao invs </p><p>do interesse econmico29</p><p>. necessrio resgatar a ao social com traos weberianos30</p><p>, na </p><p>qual relaciona os elementos agente, meios e fins, e rediscuti-los, relacionando-os com a </p><p>razo valorativa sob as ticas substantiva31</p><p>, paraeconmica32</p><p>, comunicativa33</p><p> e ambiental34</p><p>, </p><p>com a mesma intensidade do que, normalmente, se faz com a racionalidade utilitarista sob </p><p>as ticas da burocracia35</p><p>, econmia36</p><p> e determinismo pragmtico37</p><p>, </p><p>Faz-se necessrio encontrar um tipo de ao social que possa melhor mediar os </p><p>interesses das chamadas comunidades domsticas potencialmente receptoras com o trade </p><p>da destinao turstica, isto , as comunidades tm o direito de decidir o que elas querem </p><p>ser. Caso queiram ser uma destinao turstica, possam estabelecer quais so os limites de </p><p> 27</p><p> Hobbes (2000) utiliza a metfora Leviat, que na mitologia significa monstro marinho do caos primitivo </p><p>mencionado na Bblia, para designar o Estado (HOUAISS, 2001). 28</p><p> Se tem menes do filsofo Scrates, entretanto nada escrito por ele. Inclusive, existe uma discusso da sua </p><p>real existncia (PLATO, 2000; Aristteles, 1991, 2000, 2002). 29</p><p> MORRIS (1998). 30</p><p> WEBER (2000). 31</p><p> WEBER (2000); MANNHEIM (1971). 32</p><p> RAMOS (1989). 33</p><p> HABERMAS (1989). 34</p><p> LEFF (2001). 35</p><p> WEBER (2000). 36</p><p> MARX (2000). 37</p><p> DEWEY apud ROHMANN (2000). </p></li><li><p> 7 </p><p>carga do impacto ocasionado pelo trade turstico. </p><p>As ditas comunidades domsticas devem assumir uma ao compromissada38</p><p>, que </p><p>surge da insatisfao moral (vcuo institucional) provocada pelos interesses individuais </p><p>baseados no clculo meios e fins utilitaristas, se configura, por sua vez, numa racionalidade </p><p>alternativa, a racionalidade solidria39</p><p>. difcil de imaginar que um proprietrio de um </p><p>hotel no fique perturbado ao se despejar o esgoto de sua empresa no rio. </p><p>Por outro lado, no se quer cair nos riscos da ideologia, do romantismo utpico e </p><p>da generalizao, muito menos, no risco do ceticismo, da imobilidade e da especificao. </p><p>Acredita-se que necessrio permitir uma flexibilizao na busca do entendimento do saber </p><p>cientfico, de modo que possa permitir mecanismos que transformem o conhecimento </p><p>tcito, de difcil mensurao, em conhecimento explcito, racionalizado40</p><p>. Isto : nas </p><p>experincias de Agenda 21 em destinaes tursticas e do Plano Nacional de </p><p>Municipalizao do Turismo (PNMT), deve-se levar tambm em conta, alm da </p><p>diversidade de conhecimento racional encontrada entre sujeitos, uma significativa </p><p>diversidade subjetiva de conhecimento tcito encontrada entre sujeitos que compartilham </p><p>das mesmas argumentaes racionais41</p><p>. Isto , a racionalizao, muitas vezes, consiste em </p><p>elaborar uma explicao que mais uma justificao dos nossos atos do...</p></li></ul>