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Trab. Ling. Aplic., Campinas, 50(1): 169-187, Jan./Jun. 2011

o inTerLoCuTor nAs proposTAs de produo TexTuAL no Livro didTiCo

The inTerLoCuTor in The TexTuAL produCTions found in TexTbooks

Renilson Jos Menegassi*

resumo: este artigo resulta de pesquisa que teve como propsito analisar duas colees de livros didticos de lngua portuguesa, mais utilizadas atualmente na regio noroeste do Paran, destacando, nas propostas de produo textual, a imagem e a influncia do interlocutor no ato da escrita. Os resultados demonstram que somente uma coleo apresentou propostas de produo sem definio de interlocutores. Porm, o problema no se estabeleceu somente na falta do destinatrio, sendo observado que a forte presena do interlocutor professor e colega, na imagem de avaliadores, acarreta dificuldades para a construo da escrita. Percebe-se que as colees investigadas apresentam incoerncia, no entanto, uma delas valoriza a interlocuo, tentando eliminar a artificialidade da escrita; diferentemente, a segunda coleo no apresenta nenhum esforo para diminuir a imagem de avaliador do interlocutor. palavras-chave: interlocutor, produo textual, interao, livro didtico.

AbsTrACT: This research analyzes two collections of Portuguese language textbooks, extensively used in the northwestern region of the state of Paran, Brazil, with special reference to the interlocutors image and influence in the writing act, within the context of textual production suggestions. Results show that only one collection presented text production suggestions without defining the interlocutors. The problem, however, is not due to the absence of the receiver since the dominant presence of the teacher and colleague interlocutor coupled with the evaluation image always brings about some difficulties in the construction of writing. Although incoherence is found in both collections, one of them acknowledges the interlocutor and tries to avoid textual artificiality. The second collection, however, fails to make any effort to diminish the interlocutors evaluation image. keywords: interlocutor; textual production; interaction; textbook.

1. inTroduo

O que se observa, nas prticas de sala de aula, em relao ao ato de escrever, que existe ainda um grande obstculo a ser vencido pelos professores, para que se consiga desenvolver um trabalho eficiente de produo textual. Detecta-se, ainda, que se continua produzindo texto para a escola, em que a situao de escrita, muitas vezes, irreal, na qual se tem como nico interlocutor e avaliador o professor, que no oferece funcionalidade ao ato de escrever.

Para que esse educando passe a realizar, de fato, uma produo textual, necessrio que o professor faa uso de uma abordagem capaz de propiciar esse trabalho, tendo

* UEM, Departamento de Letras, Maring (PR), Brasil. renilson@wnet.com.br

MENEGASSI - O interlocutor nas propostas de produo textual...

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conscincia da importncia de se considerar o interlocutor na produo textual, para que o educando passe a produzir textos na escola, como declara geraldi (1993), em que a escrita torne-se funcional, no uma situao artificial. A escola, assim como o professor, passa a ser instrumento do processo e no somente interlocutor nico (MENEGASSI, 1997).

A partir do momento em que se tem a concepo sobre a importncia da interlocuo para a produo escrita, esta passa a ter novos rumos, ou seja, o produtor, sabendo que possui um interlocutor, determina o gnero textual certo, utilizando uma linguagem adequada ao leitor, enfim, o interlocutor interfere na construo do sentido do texto. Nessa perspectiva, Britto (1997) enuncia que uma das muitas dificuldades encontradas no momento da escrita no saber para quem se escreve. No entanto, ele comenta que no a falta do interlocutor o grande problema, mas a sua forte presena, pois diante de um interlocutor que o locutor vai selecionar o vocabulrio, o mecanismo de coeso, influenciando direta e indiretamente, na deciso da construo do texto.

No caso da escola, o aluno produz o texto para o professor, segundo Geraldi (1993), escolhendo o vocabulrio que agrada o educador, como afirma Britto (1997), pois esse o nico corretor e leitor do seu texto. Assim, o educando escreve segundo a imagem que possui do educador: por trs do discurso do leitor tem um agente que manipula e nele que o discurso se justifica. por isso que a forte presena do interlocutor professor muitas vezes dificulta a produo do aluno.

Em virtude do fato de demarcar esses problemas e mostrar que, para atingir uma produo textual, necessria a presena de interlocutores e no somente do interlocutor real-professor, esta pesquisa, vinculada ao projeto maior A escrita e o professor: interaes no ensino e aprendizagem de lnguas (UeM), e ao grupo de Pesquisa Interao e escrita (UEM/CNPq- www.escrita.uem.br), tem o propsito de analisar a seo de produo textual presente no livro didtico, observando os modos como o interlocutor apresentado e a sua possvel influncia no texto produzido pelo aluno.

Os materiais analisados so os livros didticos de Lngua Portuguesa de 5. a 8. sries, utilizados em instituies de ensino do Noroeste do Paran. Neste caso, as colees selecionadas so: William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhes (2002) Portugus: Linguagens; Magda Soares (2002) Portugus: uma proposta para o letramento. Desta forma, a pesquisa se justifica pela ateno que volta para as maneiras como o livro didtico apresenta a imagem do interlocutor, que, por sua vez, influencia no ato de escrita do aluno.

2. inTerAo verbAL e inTerLoCuTor: A ConsTruo do TexTo

A lngua tem como constituinte a interao verbal. A enunciao, salienta Bakhtin/Volochinov, resultado da interao de dois indivduos: o locutor e o interlocutor, que se estabelecem socialmente e caso no haja a presena real do interlocutor, este pode ser substitudo pelo representante mdio do grupo social ao qual pertence o locutor. (1992, p. 112), pois no se tem possibilidade de haver um interlocutor abstrato. a ele que se encaminha a palavra; esta funo da pessoa desse interlocutor (p. 112). Por isso, h variantes no discurso tanto oral como escrito, ao estabelecer-se a quem se refere, qual o grupo social, se possui relao com o locutor, alm de supor [...] um certo horizonte social

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definido e estabelecido que determina a criao ideolgica do grupo social e da poca a que pertencemos, um horizonte contemporneo da nossa literatura, da nossa cincia, da nossa moral, do nosso direito. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992, p. 112).

Cada indivduo possui um auditrio social, de acordo com Bakhtin/Volochinov, onde se constroem suas dedues interiores, suas motivaes, apreciaes, (1992, p. 113) e quanto mais aculturado for esse, mais prximo fica do auditrio mdio da criao ideolgica (1992, p. 113). A palavra, portanto, considerada o produto da interao entre esses seres: locutor e interlocutor, pois ela possui dois lados que so importantes: fato de que se procede de algum, como pelo fato de que se dirige para algum. (1992, p. 113). Dessa forma, a palavra a expresso que existe entre os seres, sendo, por meio dela, que se estabelece uma ligao entre locutor e interlocutor: Se ela se apia em mim numa extremidade, na outra se apia sobre o meu interlocutor. A palavra territrio comum do locutor e do interlocutor. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992, p. 113). Isto demonstra o papel mediador que a palavra assume na interao.

Porm, quando se coloca que a palavra exteriorizada pelo locutor, no se pode considerar, somente, o ato fisiolgico da sua materializao.Torna-se fundamental destacar que a sua materializao se concretiza por meio das relaes sociais. Assim, a palavra, mesmo sendo observada como uma individualizao estilstica, resulta de um reflexo de inter-relao social. A situao social mais imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim dizer, a partir do seu prprio interior, a estrutura da enunciao. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992, p. 29).

Na expresso verbal, o locutor leva em conta seus participantes, os interlocutores, a situao em que se est inserido, significando que tanto o participante quanto a situao so aspectos relevantes que determinam a forma dessa expresso verbal, ou seja, no coerente destacar somente a situao social como o nico responsvel pela enunciao. Alm dessa, tem-se o interlocutor e o locutor, os fatores histricos, ideolgicos, a variao lingustica, o conhecimento de mundo, todos constituintes da enunciao. Nas palavras de Bakhtin/Volochinov, a situao e os participantes mais imediatos determinam a forma e o estilo ocasionais da enunciao. Os estratos mais profundos da sua estrutura so determinados pelas presses sociais mais substanciais e durveis a que est submetido o locutor. (1992, p. 114).

Isso pode ser observado desde o incio da enunciao, pois o seu desenvolvimento inicial to social quanto a sua objetividade exterior: O grau de conscincia, de clareza, de acabamento formal da atividade mental diretamente proporcional ao seu grau de orientao social. (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992, p. 114). Sendo que, sem este, no h atividade mental, pois toda enunciao orientada socialmente, como expe Bakhtin/Volochinov, at o choro de um recm-nascido orientado para me, que possui, assim, a quem se referir, como se referir, qual a situao e que objetivo possui, manifestando-se o princpio do dilogo.

Sobre o dilogo, Bakhtin/Volochinov (1992) afirma que ele constitui uma das mais importantes formas de interao verbal. No entanto, destaca que esse no visto somente como comunicao em alta voz, face a face, mas toda comunicao verbal, independentemente da maneira que seja, por exemplo, o livro impresso considerado um elemento da comunicao verbal. Este estabelece ativos dilogos, em que se encontram

MENEGASSI - O interlocutor nas propostas de pr