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Trab. Ling. Aplic., Campinas, 49(2): 455-479, Jul./Dez. 2010

LETRAMENT O METAMIDITICO: TRANSFORMANDO SIGNIFICADOS EMDIAS *

METAMEDIA LITERACY : TRANSFORMING MEANINGS AND MEDIA

JAY L. LEMKE**

RESUMO: Toda semitica semitica multimditica e todo letramento letramento multimiditico. Aanlise da semitica multimiditica me levou a refazer algumas perguntas antigas de maneiras novas e acomear a olhar para a histria da escrita, do desenho, do clculo e da mostra visual de imagens em umaperspectiva diferente. Faz um bom tempo que as tecnologias do letramento no so to simples quanto acaneta, a tinta e o papel. E na era da imprensa, assim como antes dela, o letramento raramente esteveatrelado de forma estrita ao texto escrito. Muitos dos gneros do letramento, do artigo da revista popularao relatrio de pesquisa cientfica, combinam imagens visuais e texto impresso em formas que tornam asreferncias entre eles essenciais para entend-los do modo como o fazem seus leitores e autores regulares.Nenhuma tecnologia uma ilha. Conforme nossas tecnologias se tornam mais complexas, elas se tornamsituadas em redes mais amplas e longas de outras tecnologias e de outras prticas culturais.Palavras chave: letramento multimiditico; letramento metamiditico; semitica multimiditica.

ABSTRACT: All semiotics is multimedia semiotics, and all literacy is multimedia literacy. Analyzingmultimedia semiotics has led me to ask some old questions in new ways and to begin to see the history ofwriting, drawing, calculating, and displaying images visually in a different light. Its been a long time sincethe technologies of literacy were as simple as pen, ink, and paper; and in the era of print, as before,literacy has rarely meant verbal text alone. Many of the genres of literacy, from the popular magazinearticle to the scientific research report, combine visual images and printed text in ways that make cross-reference between them essential to understanding them as their regular readers and writers do. Notechnology is an island. As our technologies become more complex they find themselves situated in largerand longer networks of other technologies and other cultural practicesKeywords: multimedia literacy; metamedia literacy; multimedia semiotics.

TRANSFORMANDO TEORIAS DE LETRAMENTO E SOCIEDADE

Letramentos so legies. Cada um deles consiste em um conjunto de prticas sociaisinterdependentes que interligam pessoas, objetos miditicos e estratgias de construode significado (LEMKE, 1989a; GEE, 1990; BEACH, LUNDELL, 1998). Cada um deles parteintegral de uma cultura e de suas subculturas. Cada um tem um papel em manter e transformar

*Original em ingls intitulado Metamedia Literacy: Transforming Meanings and Media disponvelem http://www-personal.umich.edu/~jaylemke/jll-new.htm. Agradecimentos ao autor pela autorizaopara traduo.

** Department of Educational Studies University of Michigan.

LEMKE Letramento metamiditico: tranformando significados e mdias

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a sociedade, porque os letramentos produzem ligaes essenciais entre significados efazeres. Os letramentos so, em si mesmos, tecnologias e nos do as chaves para usartecnologias mais amplas. Eles tambm produzem uma chave entre o eu e a sociedade: omeio atravs do qual agimos, participamos e nos tornamos moldados por sistemas e redesecossociais mais amplos (veja exemplos abaixo e em LEMKE, 1993a, 1995b). Os letramentosso transformados na dinmica desses sistemas de auto-organizao mais amplos e ns nossas percepes humanas, identidades e possibilidades somos transformadosjuntamente com eles.

Este, pelo menos, o estado da arte da forma como esquematizaria hoje. Deixem-metentar apontar alguns detalhes que so particularmente relevantes para as nossaspreocupaes aqui. A noo de letramento assim colocada parece-me muito ampla paraser utilizvel. No acho que possamos defini-la de forma mais precisa do que um conjuntode competncias culturais para construir significados sociais reconhecveis atravs do usode tecnologias materiais particulares. Uma definio como esta dificilmente distingue oletramento de uma competncia para cozinhar ou escolher o que vestir, exceto pelos recursossemiticos particulares usados para construir significados (o sistema lingustico vs. osistema culinrio ou de moda) e os artefatos materiais particulares que mediam esse processo(sons vocais ou sinais escritos vs. comidas, roupas). Houve um tempo, talvez, em quepodamos acreditar que construir significados com a lngua de algum modo erafundamentalmente diferente ou poderia ser tratado separadamente da produo designificados com recursos visuais ou padres de ao corporal e interao social. Hoje, noentanto, nossas tecnologias esto nos movendo da era da escrita para a era da autoriamultimiditica(ver PURVES, 1998 e BOLTER, 1998), em que documentos e imagens denotaes verbais e textos escritos propriamente ditos so meros componentes de objetosmais amplos de construo de significados. Os significados das palavras e imagens, lidasou ouvidas, vistas de forma esttica ou em mudana, so diferentes em funo dos contextosem que elas aparecem contextos que consistem significativamente de componentes deoutras mdias. Os significados em outras mdias no so fixos e aditivos (o significado dapalavra mais o significado da imagem), mas sim, multiplicativos (o significado da palavra semodifica atravs do contexto imagtico e o significado da imagem se modifica pelo contextotextual) fazendo do todo algo muito maior do que a simples soma das partes (ver LEMKE1994a, 1998). Alm disso, todo letramento letramento multimiditico: voc nunca podeconstruir significado com a lngua de forma isolada. preciso que haja sempre uma realizaovisual ou vocal de signos lingusticos que tambm carrega significado no-lingustico (porex.: tom da voz ou estilo da ortografia). Para funcionarem como signos, os signos devem teralguma realidade material, mas toda forma material carrega, potencialmente, significadosdefinidos por mais de um cdigo. Toda semitica semitica multimdia e todo letramento letramento multimiditico.

A tradio cultural europeia, assim como outras, reconheceu h algum tempo estesprincpios multimiditicos e deles tem feito uso mesmo em textos impressos comuns (cf.OLSON, 1994; ALPERS, 1983; BELLONE, 1980; EISENSTEIN, 1979 ), seja atravs de ilustraomanuscrita ou pelo uso de diagramas em escrita tcnica. Contudo, tem havido um certologocentrismo moderno (DERRIDA, 1976) que identificou somente na lngua um meioconfivel para o pensamento lgico, e na lngua escrita, inicialmente, o primeiro meio de

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autorizar o conhecimento e, posteriormente, o meio mais avanado de capacidade cognitiva(ver OLSON, 1994 para uma reprise destes argumentos e LEMKE, 1995c, para uma crtica).

Se tivermos que especificar com exatido quais recursos semiticos e quais materiaistecnolgicos definem um letramento particular, ento teremos tantos letramentos quanto onmero de gneros multimiditicos (cf. GEE, 1990). Estes talvez possam ser aindasubdivididos (e da mesma forma o nmero de letramentos funcionais possam sermultiplicados) considerando-se se devem ser includas tanto a competncia com astecnologias de produo quanto com as tecnologias de uso. Quando a escrita requeriacaneta e papel ou mquina de datilografia, e a leitura requeria apenas o livro (e talvez um parde culos) era simples manter essas distines. Hoje, no entanto, se voc desejar ler umhipertexto (ver BOLTER, 1998) ou escrev-lo, precisar praticamente das mesmas tecnologiasde hardware e software, e precisar tanto de habilidades de autoria novas quanto de novashabilidades de interpretao para us-las.

Finalmente, no esprito do trabalho de Latour (1987, 1993) sobre redes de ator noestudo das tecnologias na sociedade, precisamos considerar outras pessoas como parteda ecologia tecnolgica das prticas de letramento. (Latour constri redes sociais tantodos atores humanos quanto dos atores no humanos, tais como artefatos tcnicos emuma ecologia social de prticas culturais). A rede de interaes que torna significativo umtexto ou um objeto multimiditico no se limita quelas entre o autor ou usurio e o objeto,mas deve tambm incluir aquelas com professores, colegas e comunidades de pessoas queassumem prticas que tornam uma combinao sgnica significativa. Isolados de todas asinteraes, os humanos no aprendem a falar ou a escrever. Por mais que a ideologia doindividualismo possa construir o esteretipo do escritor ou leitor solitrio, o fato de ostextos e signos serem socialmente significativos o que confere a eles a sua utilidade e ostorna possveis. Aquilo que parece ser o mesmo texto ou gnero multimiditico no funcionalmente o mesmo quando no papel ou na tela, segue diferentes convenes designificado e requer diferentes habilidades para que seu uso seja bem sucedido, quandofunciona em diferentes redes sociais para diferentes objetivos, como parte de diferentesatividades humanas. Um letramento sempre um letramento em algum gnero e deve serdefinido com respeito aos sistemas sgnicos empregados, s tecnologias materiais usadase aos contextos sociais de produo, circulao e uso de um gnero particular. Podemos serletrados em um gnero de relato de pesquisa cientfica ou em um gnero de apresentao denegcios. Em cada caso as habilidades de letramento especficas e as comunidades decomunicao relevantes so muito diferentes.

No estudo do letramento na linguagem escrita, h ainda debate considervel sobre oquo importante o fato de os sinais materiais da escrita serem relativamente mais permanentesou mais evanescentes, como so organizados no espao e no tempo e o que conta comoescrita (Matemtica? Braille? Vdeos da Lngua Americana de Sinais?) Algumas destasquestes permanecem como questes de interesse no caso de alguns gneros e tecnologias,mas poucas delas j foram reconceitualizadas no contexto das novas tecnologiasmulti