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Introduo | O trfico de escravos | O comrcio triangular | A luta pela abolio da escravatura | A partilha da frica | O Congresso de Berlim | A reao dos africanos | A descolonizao | Os partidos e movimentos africanos | Dificuldades africanas | Principais pases, lderes, movimentos e partidos africanos | Bibliografia

frica Negra (colonizao, escravido e independncia) Introduo O Continente africano limita-se ao Norte pelo Mar Mediterrneo, ao Oeste pelo Oceano Atlntico e ao Leste pelo Oceano ndico. De uma maneira simplificada podemos dividilo em duas zonas absolutamente distintas: o centro-norte dominado pelo imenso deserto do Saara (8.600.000 de km2), enquanto que o centro-sul, depois de percorrer-se as savanas, ocupado pela floresta tropical africana. Esta separao geogrfica tambm refletiu-se numa separao racial. No Norte do continente habitam os rabes, os egpcios, os berberes e os tuaregues (sendo que esse dois ltimos so os que praticam o comrcio transaarino). No centro-sul, ao contrrio, habitam mais de 800 etnias negras africanas. Atribui-se ao atraso da frica meridional ao isolamento geogrfico que a populao negra encontrou-se atravs dos sculos. Afastada do Mediterrneo - grande centro cultural da Antigidade - pelo deserto do Saara, e longe dos demais continentes pela dimenso colossal dos dois oceanos, o Atlntico e o ndico. Apartados do resto do mundo, os africanos se viram vtimas de expedies forneas que lhes devoravam os filhos ao longo da histria. Mesmo antes da chegada dos traficantes de escravos europeus, os rabes j praticavam o comrcio negreiro, transportando escravos para a Arbia e para os mercados do Mediterrneo oriental, para satisfazer as exigncias dos sultes e dos xeques. As guerras tribais africanas, por sua vez, favoreciam esse tipo de comrcio, visto que a tribo derrotada era vendida aos mercadores. frica Negra (colonizao, escravido e independncia) O trfico de escravos Durante os primeiros quatro sculos - do sculo 15 a metade do 19 - de contato dos navegantes europeus com o Continente Negro, a frica foi vista apenas como uma grande reserva de mo-de-obra escrava, a madeira de bano a ser extrada e exportada pelos comerciantes. Traficantes de quase todas as nacionalidades montaram feitorias nas costas da frica. As simples incurses piratas que visavam inicialmente atacar de surpresa do litoral e apresar o maior nmero possvel de gente, foi dando lugar a um processo mais elaborado. Os mercadores europeus, com o crescer da procura por mo-de-obra escrava, motivada pela instalao de colnias agrcolas na Amrica, associaram-se militarmente e

financeiramente com sobas e rgulos africanos, que viviam nas costas martimas, dando-lhes armas, plvora e cavalos para que afirmassem sua autoridade numa extenso a maior possvel. Os prisioneiros das guerras tribais eram encarcerados em barraces, em armazns costeiros, onde ficavam a espera da chegada dos navios tumbeiros ou negreiros que os levariam como carga humana pelas rotas transatlnticas. Os principais pontos de abastecimento de escravos, pelos menos entre os sculos 17 e 18 eram o Senegal, Gmbia a Costa do Ouro e a Costa dos Escravos. O delta do Nger, o Congo e Angola sero grandes exportadores nos sculos 18 e 19. Quantos escravos foram afinal transportados pelo Atlntico? H muita divergncia entre os historiadores, alguns chegaram a projetar 50 milhes, mas R. Curtin (in The Atlantic slave trade: A census, 1969) estima entre 9 a 10 milhes, a metade deles da frica Ocidental, sendo que o apogeu do trfico ocorreu entre 1750 a 1820, quando os traficantes carregaram em mdia uns 60 mil por ano. O trfico foi o principal responsvel pelo vazio demogrfico que acometeu a frica no sculo 19. frica Negra (colonizao, escravido e independncia) O comrcio triangular Desta forma inseriram a frica Negra no comrcio triangular basicamente como fornecedora de mo-de-obra escrava para as colnias americanas e antilhanas. O destino dos barcos negreiros eram os portos da Jamaica, Baamas, Haiti, Saint- Eustatius, Saba, Saint-Martin, Barbuda e Antigua, Guadalupe, Granada, Trinidad & Tobago, Bonaire, Curaao e Aruba. Das Antilhas partiam outras levas em direo s Carolinas e Virgnia nos Estados Unidos. Outras dirigiam-se ao Norte e Nordeste do Brasil, Bahia e ao Rio de Janeiro. Os escravos eram empregados como carvo humano nas grandes plantaes de acar e tabaco que se espalhavam do Leste brasileiro at as colnias do Sul dos Estados Unidos: do Rio de Janeiro at a Virgnia. Enquanto a Europa importava produtos coloniais, trocava suas manufaturas (armas, plvora, tecidos, ferros e rum) por mo-de-obra vinda da frica. Os escravos eram a moeda com que os europeus pagavam os produtos vindos da Amrica e das Antilhas para no precisar despender os metais preciosos, fundamento de toda a poltica mercantilista. Tinham pois, sob ponto de vista economico uma dupla funo: eram valor de troca (dinheiro) e valor de uso (fora de trabalho). frica Negra (colonizao, escravido e independncia) A luta pela abolio da escravatura Um dos captulos mais apaixonantes, polmicos e gloriosos, da histria moderna foi o que conduziu abolio do trafico negreiro e a total supresso da escravido no transcorrer do sculo 19. A primeira reao contra a escravido ocorreu no sculo 18, partindo de uma seita protestante radical, os Quakers. Eles consideravam-na um pecado e no podiam admitir que um cristo tirasse proveito dela. Enviaram, em 1768, ao

parlamento de Londres uma solicitao pedindo o fim do trfico de escravos. Pouco depois, John Wesley, o fundador do movimento metodista, pregou contra a escravido (Thoughts upon Slavery, 1774) afirmando que preferia ver a ndias Ocidentais (como eram denominadas as colnias antilhanas inglesas) naufragarem do que manter um sistema que violava a justia, a misericrdia, a verdade. Economistas ilustrados tambm entraram na luta. Tanto os Fisiocratas franceses como Adam Smith, o pai do capitalismo moderno, (in Wealth os the Nations, 1776) afirmaram que a escravido era deficitria na medida que empregava uma enorme quantidade de capital humano que produzia muito aqum daquele gerado por homens livres. Viam-na como parte de um sistema de monoplio e privilgio especial, onde um homem desprovido de liberdade no tinha nenhuma oportunidade de garantir a propriedade do que quer que fosse e que seu interesse em trabalhar era o mnimo possvel. Assim a escravido s podia sobreviver pela violncia sistemtica do amo sobre o cativo. Anterior a ele, nas colnias americanas, Benjamin Franklin foi o primeiro homem moderno a submeter a instituio da escravido a uma analise contbil, concluindo tambm que um escravo era muito mais caro do que um trabalhador livre (The Papers of B.Franklin, 1751). Alexis de Tocqueville, o grande pensador liberal francs, que visitou os Estados Unidos, deixou pginas memorveis no seu A Democracia na Amrica, de 1835, ao fazer a comparao entre os estados escravistas (povoados por brancos indolentes e negros pauprrimos) e aqueles que mantinham o trabalho livre, ativos e industriosos. No plano filosfico ela foi repudiada na obra de Montesquieu (Lesprit de les Lois, livro. XV,1748), onde afirmou que a escravido, por sua natureza, no boa: no til nem ao senhor nem ao escravo: a este porque nada pode fazer de forma virtuosa; aquele porque contrai dos seus escravos toda a sorte de maus hbitos... porque se torna orgulhos, irritvel, duro, colrico, voluptuoso e cruel. (...) os escravos so contra o espirito da constituio, s servem para dar aos cidados um poder e um luxo que no devem ter. Mais radical do que ele foi o pensamento de J.J. Rousseau (in Le Contrat Social, 1762) para quem os homens haviam nascido livres e iguais e que a renuncia da liberdade eqivalia a renncia da vida. Como a escravido repousava sempre a fora bruta ...os escravos no tinham nenhuma obrigao ou dever para com os seus amos. Apesar de Condorcet lamentar que s uns poucos filsofos atreveram-se de vez enquanto a soltar um grito a favor da humanidade, a soma das presses religiosas, econmicas, filosficas e morais comearam a surtir efeito. O Sculo das Luzes, como o sculo 18 foi chamado, terminou por condenar a escravido como atentatria dignidade do homem, A Revoluo Francesa de 1789 aboliu com a escravido nas colnias francesas por acredit-la incompatvel com a Declarao dos Direitos do Homem e do Cidado. Napoleo, porm, mais tarde, restaurou-a. Mas em 1848 ela foi finalmente reafirmada. Na Inglaterra o abolicionismo encontrou respaldo num grupo militante chamado de Os Santos (The Saints), que organizaram, em 1787, sob liderana de William Wilberforce, a Sociedade anti-escravista (Anti-slavery Society). Graas as suas batalhas parlamentares contra os interesses escravistas das cidades porturias de Liverpool e Bristol, Wilberforce conseguiu fazer aprovar a lei de 1807 que proibia o trfico

negreiro. Depois de uma srie de leis intermedirias, a abolio completa da escravido nas colnias ingleses ocorreu em agosto de 1834 (Slavery Abolition Act) que libertou 776 mil homens, mulheres e crianas. Nesse nterim a Inglaterra havia declarado guerra aberta ao trfico. Nenhum barco negreiro poderia mais singrar os oceanos sem ser vistoriado (Aberdeen Act). Se fosse capturado os escravos deveriam ser devolvidos. Por presso inglesa, o Brasil finalmente concordou em abolir com o trfico pela Lei Eusbio de Queirs, em 1850. Mesmo assim continuou recebendo, em desembarques clandestinos, braos contrabandeados, o que gerou srios atritos com a marinha inglesa. Na verdade, a razo material primeira da abolio foi a emergncia da sociedade industrial, surgida pelos efeitos scio-econmicos provocados pela introduo da mquina a vapor no processo produtivo.. Essa sociedade, que se expanda a partir do sculo 18, produzia mercadorias em srie para consumo em massa. Uma comunidade de escravos no consome pois no ganha salrios. Houve ento um conflito estrutural e ideolgico entre a crescente e poderosa sociedade industrial, que requeria mercados livres e trabalho assalariado, com