tipos da atualidade

Click here to load reader

Post on 07-Mar-2016

218 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Texto de França Junior

TRANSCRIPT

  • TIPOS DA ATUALIDADE

    Frana Jnior

    (O BARO DA CUTIA.)

    Comdia em trs atos

    PERSONAGENS

    BARO DA CUTIA - 50 anosGASPARINO DE MENDONA - 25 anosDOUTOR CARLOS DE BRITO - 26 anosDONA ANA DE LEMOS, me de - 40 anosMARIQUINHAS - 17 anosPORFRIA DE MENDONA - 70 anos

    A ao passa-se no Rio de Janeiro.

    Atualidade.

    ATO PRIMEIRO

    A cena representa urna sala mobilada com gosto: no fundo portas que do para um jardim; esquerda uma janela, portas laterais, etc.

    CENA I

    MARIQUINHAS e DONA ANA DE LEMOS

    MARIQUINHAS (Encostada janela.) - Que bela tarde, mame. E bem provvel que oSenhor Carlos venha hoje fazer-nos uma visita. H tanto tempo que ele no aparece; talvezque esteja doente.

  • D. ANA - Tomas tanto interesse pelo Senhor Carlos, Mariquinhas.

    MARIQUINHAS (Saindo da janela e sentando-se defronte de D. Ana.) - Engana-se, mame:estimo-o apenas como se pode estimar um moo de belas qualidades e de fina educao. OSenhor Carlos foi-nos apresentado em uma das partidas do Clube, e estou bem certa quevosmec no lhe ofereceria a sua casa, se no visse nele um moo delicado e da altasociedade.

    D. ANA - No duvido, minha filha; porm seria melhor que te ocupasses mais com os teusbordados, com as tuas msicas e os teus desenhos, do que com o Senhor Carlos.

    MARIQUINHAS - Pois bem, mame, no falarei mais nele.

    D. ANA - Escuta, Mariquinhas; no te zangues, tu ainda ests muito criana e poucaexperincia tens do mundo; ests numa idade em que te deixas levar mais pela paixo doque pela razo. O Senhor Carlos tem transformado essa cabecinha: viste-o pela primeira vezno Clube, e desde ento tenho reparado que ele o objeto constante de tuas conversaes.Tu j o amas, Mariquinhas; no me negues. E sendo assim, pergunto-te eu agora: o quepretendes com esse namoro? Casar com o Senhor Carlos? Esperas fazer a sua felicidade,unindo-te a um doutorzinho em medicina, que agora comea a sua carreira, e cuja fortunaconsiste em um diploma?

    MARIQUINHAS - Mas, minha me, o Senhor Carlos um moo inteligente e estudioso, e como seu diploma poder em breve sustentar a dignidade de sua posio.

    D. ANA - Dignidade de posio! Que posio tem um doutor em medicina? Bem digo eu quea senhora est com essa cabecinha virada. Diga-me, Senhora Dona Mariquinhas, quando eume casei com seu pai, que Deus tenha em sua Santa Glria, no era ele um homemrespeitvel pela sua posio? e era porventura seu pai formado em medicina? seu pai foinegociante na rua do Rosrio, e negociante muito honrado. Se veio para o Brasil semposio, soube elevar-se com o suor de seu trabalho, tanto que freqentou depois asmelhores sociedades, e foi estimado de todos.

    MARIQUINHAS - Mas, minha me, acredite vosmec que, se meu pai era estimado de todos,como acaba de dizer, no era unicamente pelos seus belos olhos, mas sim por causa dodinheiro que tinha.

    D. ANA - Justamente! chegou a senhora onde eu queria chegar. Seu pai tinha dinheiro, e foi odinheiro que lhe deu posio. Enquanto ele era caixeiro, ningum lhe deu importncia; masdepois a senhora bem sabe que o dinheiro granjeou-lhe uma comenda, que o dinheiro abriu-lhe as portas das melhores sociedades, e que finalmente o dinheiro deu-lhe considerao eimportncia. Eu no quero portanto namoro em minha casa: quando for ocasio arranjar-lhe-

  • ei um negociante honrado, ou algum homem sisudo para fazer a sua felicidade. Deixe-se dedoutorzinhos.

    MARIQUINHAS - Pois bem, mame, no se amofine; sujeitar-me-ei s suas vontades. (parte.) Pobre Carlos!

    D. ANA - Seria melhor que, em lugar de pensar em namoros, fosse tocar alguma coisa aopiano para divertir sua me.

    MARIQUINHAS (Depois de alguma pausa.) - Vosmec pretende ir hoje ao teatro? representa-se a Traviata e canta a de La Grange.

    D. ANA - Hoje no posso: estou constipada, e o sereno h de fazer-me mal.

    MARIQUINHAS ( parte.) - Mais esta esperana perdida! (Alto.) mas ns vamos de carro, evosmec podia ir bem agasalhada... (Ouve-se o rodar de um carro: parte.) - ele! sinto ocorao bater, e o corao no me engana. Carlos! (Vai a uma das portas do fundo eencontra-se com Gasparino, que faz-lhe uma grande cortesia.)

    CENA II

    AS MESMAS e GASPARINO

    GASPARINO - um humilde criado de Vossa Excelncia.

    MARIQUINHAS ( parte.) - Que maante!

    GASPARINO (Dirigindo-se a D. Ana faz-lhe outra cortesia.) - Tenho a honra de fazer os meussinceros cumprimentos Senhora Dona Ana de Lemos.

    D. ANA - Ora viva, Senhor Gasparino. Pensei que j se tivesse esquecido de ns, e que noquisesse mais honrar esta sua casa.

    GASPARINO (Sentando-se.) - Depois que Vossa Excelncia mudou-se para o EngenhoVelho, raras so as tardes e noites de que tenho podido dispor. Scio dos Clubes Fluminensee de Botafogo, do Cassino, assinante de uma cadeira do Ginsio, de outra no Lrico,freqentador de todas essas sociedades onde se rene o grand monde faz-se necessria aminha presena nesses lugares. s tardes costumo dar o meu passeio pelo Catete, Botafogo

  • e So Clemente. Ultimamente mandei vir uma gua de Meklemburg, oh! que linda gua,minha senhora! Comprei um elegante faetonte... (Mudando de tom.) Com licena, (Indo janela.) James! vira o carrinho, e afasta o cavalo do trilho da Maxambomba.

    MARIQUINHAS ( parte.) - Oh! que bobo, meu Deus! (Encosta-se pensativa janela.)

    GASPARINO (Voltando-se para D. Ana.) - necessrio ter muito cuidado com aquele animal: muito fogoso e espanta-se de qualquer coisa.

    D. ANA - Se quiser pode mandar entrar o carrinho para a chcara.

    GASPARINO - No preciso, minha senhora... Mas, como ia dizendo, comprei este lindofaetonte e todas as tardes fao o meu tour de promenade pelas ruas mais freqentadas dacapital. Hoje quis respirar os ares do Engenho Velho, e ao mesmo tempo apreciar no campomicroscpio do meu pince-nez as belas ninfas deste arrabalde.

    D. ANA - No tenciona ir depois de amanh partida do Clube, Senhor Gasparino?

    GASPARINO - Se no estiver comprometido para outros lugares...

    D. ANA - A sua ausncia h de ser sentida, principalmente por aquela linda menina de vestidobranco que tanto ocupou sua ateno no baile passado!

    GASPARINO - Quer Vossa Excelncia falar-me da prola de So Clemente? Oh! c'estravissant! tive, verdade, um pequeno namoro de dias, mas afinal deixei-a.

    D. ANA (Rindo-se.) - Por qu, Senhor Gasparino?

    GASPARINO - Soube que o pai era um negociante falido, e bem v que uma mulher semdinheiro...

    D. ANA - Entendo; o Senhor Gasparino anda caa de um casamento rico.

    GASPARINO - Um casamento rico, minha senhora, na minha opinio um emprego maisvantajoso do que outros tantos que por a h. Devemos acompanhar as idias do sculo;longe vo esses tempos em que o cavaleiro de espada em punho combatia pela sua dama. Jno h Romeu nem Julieta, e se ainda existe o amor platnico, como o concebeu o filsofo da

  • antiguidade, to somente na cabea desses loucos que se intitulam poetas. Hoje as teoriasso mais positivas.

    D. ANA (Suspirando.) - Desgraadamente nem todos pensam assim, Senhor Gasparino.(Para Mariquinhas.) Menina, vai tocar alguma coisa para o Senhor Gasparino ouvir.

    MARIQUINHAS - O piano est muito desafinado, mame. ( parte.) Este homem no nosdeixar!

    D. ANA - O Senhor Gasparino h de desculpar. (Mariquinhas dirige-se ao piano para abri-lo.)

    GASPARINO (Para Mariquinhas.) - Sans fan, minha senhora, Vossa Excelncia apreciavada janela o grato perfume das flores do seu jardim, e a queda do astro brilhante que l seatufa num oceano de luz na horizonte. (Pondo a luneta.) Oh! c'est magnifique! um quadrodigno do pincel o mais inspirado.

    MARIQUINHAS - O Senhor Gasparino sabe desenhar?

    GASPARINO - Alguma coisa, minha senhora, o meu pincel no l dos melhores. (Ouve-seo toque da corneta da Maxambomba, e em seguida um rumor surdo de carro.)

    MARIQUINHAS ( parte.) - Oh! sem dvida Carlos. (Alto. Dirige-se janela.) Oh! mame, lcaiu um homem da Maxambomba; est todo sujo de poeira, coitado; levantou-se e dirige-separa aqui.

    D. ANA (Indo ao fundo.) - Machucar-se-ia? coitado!

    GASPARINO (Pondo a luneta.) - uma figura antediluviana!

    CENA III

    OS MESMOS e o BARO DA CUTIA

    BARO (Entra todo sujo de poeira, sacudindo a roupa.) - aqui que mora a Senhora DonaAna de Lemos?

    D. ANA (Fazendo uma cortesia.) - esta sua criada: queira ter a bondade de sentar-se.

  • MARIQUINHAS ( parte.) - O que querer este homem!

    GASPARINO ( parte.) - uma figura antediluviana, no retiro a expresso. (Dirige-se aoespelho, torce o bigode e arranja os colarinhos e a gravata.)

    BARO (Sentando-se, fica por algum tempo atrapalhado com o chapu e a bengala, e ummao de cartas que tira do bolso.) - Trago esta carta de So Paulo para Vossa Senhoria.

    GASPARINO ( parte.) - Vossa Senhoria? Isto coisa muito ordinria, no tem dvida.

    D. ANA (Recebendo a carta.) - Com licena, (Abre-a lendo.) "Ilustrssima e ExcelentssimaSenhora Dona Ana de Lemos. So Paulo, etc. A maneira obsequiosa e delicada com queVossa Excelncia se dignou tratar-me durante o tempo que estive em sua amvel companhia,animou-me a utilizar-me ainda de seu valioso prstimo, apresentando a Vossa Excelncia,por meio desta, o meu sincero amigo e companheiro de infncia, o Excelentssimo SenhorBaro da Cutia, um dos mais ricos fazendeiros desta Provncia... (Procurando a assinatura.)Seu Venerador e Criado. - Prudncio Augusto de Villas-Boas". - (Para o Baro.) Oh! SenhorBaro, d-me o seu chapu e a sua bengala. (Para Mariquinhas) Menina, venhacumprimentar o Excelentssimo Senhor Baro da Cutia. (Mariquinhas faz uma grande cortesiaao Baro.)

    D. ANA - O Senhor Gasparino de Mendona, 1o Oficial da Secretaria da Justia,