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  • http://dx.doi.org/10.1590/010318134955176321

    A LINGUAGEM DOS EMOJIS1

    THE LANGUAGE OF EMOJIS

    Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva*

    Ancient Egyptians had hieroglyphics. Modern Man has emojis. Maeve Maddox, 2015.

    RESUMO Partindo do pressuposto de que a linguagem é um sistema adaptativo complexo, este artigo demonstra que as tecnologias de comunicação digital têm forte impacto na interação humana, especialmente quando mediadas por tecnologias móveis, e, como consequência, introduzem mudanças na linguagem. Um desses fenômenos é o uso de emojis, figuras geradas pelo sistema Unicode para representar emoções, e os stickers usados para o mesmo fim em redes sociais como o Facebook. Este texto apresenta a história dos emojis; discute sua circulação nas interações por tecnologia móvel; e identifica regularidades sintáticas e discursivas em dados recolhidos do Twitter, WhatsApp e Facebook. Além disso, demonstra como essa nova linguagem tem sido usada por outros meios de comunicação. Palavras-chave: complexidade; comunicação; emojis.

    ABSTRACT On the assumption that language is a complex adaptive system, this article demonstrates that digital communication technologies have a strong impact on human interactions, especially when mediated by mobile technologies. As a consequence, they bring changes into language. One such phenomenon is the use of emojis, pictures generated by the Unicode system to represent emotions, and stickers used for the same purpose in some social networks such as Facebook. This paper presents the history of emojis; discusses their circulation in interactions with mobile technology; and identifies syntactic and discursive regularities in emojis and stickers in Twitter, WhatsApp and Facebook. In addition, the text demonstrates how this new language has been used by other media. Keywords: complexity; communication; emojis.

    INTRODUÇÃO

    A língua, como todo sistema complexo, está sempre em transformação. Ela muda no tempo e no espaço. O conceito de língua como um sistema adaptativo

    * Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte (MG) Brasil /Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). vlmop@vermenezes.com

    1 Uma primeira versão deste texto foi apresentada em uma mesa redonda no 20º InPLA na PUCSP, em 2015. Agradeço aos meus primeiros leitores pelas sugestões para esta versão. São eles: Acir Karwoski, Júlio Araújo, Rodrigo Aragão e Ronaldo Gomes.

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    complexo (SAC) foi introduzido no artigo seminal de Larsen-Freeman (1997) e, desde então, vários estudiosos da linguagem vêm analisando fenômenos linguísticos à luz da complexidade (ver, dentre muitos, ELLIS e LARSEN FREEMAN, 2006; PAIVA e NASCIMENTO e seus colaboradores, 2009; BEL-ENGUIX, G. e JIMÉNEZ-LÓPEZ, M. D. e seus colaboradores, 2010; ELLIS, 2011; BYBEE, J. e BECKNER e seus colaboradores, 2015; KRETZSCHMAR, 2015; OLIVEIRA, 2015; SILVA e RODRIGUES, 2015; SILVA e LEITE, 2015).

    The Five Graces group (2009, p.1- 2) explica:

    A língua como um SAC envolve as seguintes características chave: O sistema consiste de vários agentes (os falantes na comunidade de fala) em interação. O sistema é adaptativo; ou seja, o comportamento dos falantes é baseado em interações passadas, e as interações atuais em conjunto com as passadas alimentam os comportamentos futuros. O comportamento de um falante é consequência de fatores concorrentes que vão desde restrições perceptuais a motivações sociais. As estruturas da língua emergem a partir de padrões inter-relacionados da experiência, da interação social, e de mecanismos cognitivos.2

    Embora os autores reconheçam que “a mudança na linguagem é um processo evolutivo cultural” (THE FIVE GRACES GROUP, 2009, p.9), o foco desse ensaio e de outros estudos, no viés da complexidade, é a língua e não se inclui a interação com outras formas de significação não verbais. Em função disso, defendo que as tecnologias de comunicação e das mídias sociais são também elementos do SAC, pois afetam o desenvolvimento da linguagem. O que podemos observar na interação mediada pela tecnologia nos permite afirmar que novos comportamentos discursivos também emergem a partir da inter-relação entre as experiências, a interação social, os mecanismos cognitivos, os propiciamentos3 e as restrições tecnológicas. Um exemplo é o uso crescente da multimodalidade.

    A interação sempre foi multimodal. Usamos palavras, entonação, expressões faciais, e gestos para interagir com os outros. Como pontua Kress (2010, p.5), “os gestos estão presentes em todas as culturas, mesmo que em formas bastante diferentes” e sabemos que as imagens aparecem na comunicação humana desde a pré-história.

    As imagens, segundo Sternbergh (2014), podem ser classificadas em pictogramas, logogramas, e ideogramas. O pictograma, do latim pinctos (pintado, do verbo pingere)+grama (escrita) do grego4, é a representação de um conceito por

    2 Esta e todas as demais traduções são de minha responsabilidade. 3 Minha tradução de affordances, defendida no texto PAIVA, V.L.M.O. Propiciamento (affordance) e

    autonomia na aprendizagem de língua inglesa In: LIMA, Diógenes Cândido. Aprendizagem de língua inglesa: histórias refletidas. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2010.

    4 http://etimologias.dechile.net/?pictograma

  • A linguagem dos emojis

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    meio de uma figura. Joan Costa (1989, p. 139), citada por Neves (2007), “entende pictograma como um signo figurativo simplificado que representa coisas e objetos do meio envolvente: os pictogramas provêm dos antigos hieróglifos e são parte dos códigos funcionais atuais”. Exemplos de pictograma são os desenhos de homem e de mulher na porta dos banheiros em locais públicos, como nos restaurantes.

    O logograma (palavra+escrita) é um símbolo que representa uma palavra, como, por exemplo, o símbolo do dólar ($) e o da libra (£). O ideograma (ideia+escrita), na definição de Sternbergh (2014) são “figuras ou símbolos que representam uma ideia ou conceito abstrato”. Ele cita, como exemplo de ideograma moderno, “o símbolo de uma pessoa na cadeira de rodas que comunica, universalmente, acessibilidade”.

    Com o advento das tecnologias digitais, pictogramas, ideogramas e logogramas ganharam suas versões digitais.

    Reed (2014) reconhece que a evolução da língua tem também a ver com sua interação com a tecnologia. Segundo ele, “como a língua que usamos para nos comunicar com os outros tende a ser mais maleável do que a da escrita formal, a combinação do informal, da comunicação pessoal e a da plateia de massa propiciada pelas mídias sociais é uma receita para mudanças rápidas”. Dentre as mudanças, ele cita a introdução de novas palavras e a ressignificação de palavras velhas (ex. amigo, e curti (like), dentre outras, no Facebook) e as novas formas de comunicação como os acrônimos e as abreviações. Reed (2014) lembra, ainda, que o emoticon ;-) e o acrônimo LOL (‘laughing out loud’), que “acrescentaram novos elementos na comunicação não verbal, fizeram 25 anos em 2014”.

    É justo lembrar também o pioneirismo do Orkut com a introdução de BuddyPokes, avatares animados usados para expressar emoções diversas (ver estudo sobre BuddyPokes em ARAÚJO, 2012).

    Reed (2014) ressalta que, no Twitter, aprendemos a tirar o máximo de 140 caracteres5 e que o uso de hashtag (#) para a categorização de tweets “se espalhou para outras plataformas de mídias sociais – e até alcançaram a língua falada” (...) e

    5 Notícia veiculada no USA Today, de 5 de janeiro de 2016, (http://www.usatoday.com/story/tech/news/2016/01/05/twitter-may-soon-go-beyond-140-character

    s/78304512/?hootPostID=a50dc5157235ed304b6eb8e36bfa3d5b) acena com a possibilidade de o Twitter aumentar o limite de caracteres para 10k. O argumento é que algumas pessoas já burlam o limite de caracteres quando transformam seus textos em imagens. Os usuários continuariam a ver 140 caracteres com a possibilidade de clicar em Read More e ver o resto da mensagem. Neste momento (tarde de 5 de janeiro de 2016), o top trend no twitter é #Twitter10k e a maioria dos Tweets é de pessoas contrárias ao aumento do tamanho das mensagens. Muitos argumentam que isso não diferenciaria o Twitter de outros blogs, lamentam a perda do charme dessa rede social e dizem que seria muito melhor ter a possibilidade de edição.

  • Oliveira e Paiva

    382 Trab. Ling. Aplic., Campinas, n(55.2): 379-399, mai./ago. 2016

    encontramos “hashtags em toda a cultura popular, de cartões de cumprimentos a camisetas e diálogos de personagens em seriados de televisão”.

    Ao lado de todas essas novidades na comunicação escrita, utilizamos três tipos de figuras: os emoticons, que são representações tipográficas de expressões faciais, como :) que se transforma automaticamente em ☺ pelo editor de texto Microsoft Word; os emojis6, que são gravuras produzidas com a tecnologia criada por um grupo sem fins lucrativos denominado Consórcio UNICODE e os Stickers, figurinhas disponíveis em algumas plataformas como o Facebook, por exemplo.

    Uma prova da influência dessas mudanças na interação humana tem sido as escolhas das palavras do ano. Em 2013, a palavra selfie foi a escolha dos Oxford Dictionaries7, o que revela o impacto das tecnolo