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Caderno do Trabalho de Graduação Integrado I | Instituto de Arquitetura e Urbanismo - USP São Carlos

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  • 1ENTRE RUNAS E MEMRIAS

    A COMPOSIO DO LUGAR

  • 2

  • 3ENTRE RUNAS E MEMRIAS

    A COMPOSIO DO LUGAR

  • 4Mariana Cristina Ado

    Trabalho de Graduao Integrado I

    Instituto de Arquitetura e Urbanismo

    CAP Joubert Jos Lancha

    GT Simone HelenaT. Vizioli

    USP So Carlos

    Jun/2014

  • 5NDICE

    UNIVERSO PROJETUAL 7

    AES PROJETUAIS 21

    LUGAR 29

    PROGRAMA 49

    PROJETO 53

    BIBLIOGRAFIA 75

  • 6

  • 7UNIVERSO PROJETUAL

    UNIVERSO PROJETUAL

  • 8 ENTRE RUNAS E MEMRIAS

  • 9UNIVERSO PROJETUAL

    O trabalho de um arquiteto engloba diversos fatores que vo desde a construo at criao artstica. No entan-to, deve-se saber em qual medida utilizar tais fatores, pois enquanto satisfaz apenas s exigncias tcnicas e funcio-nais, no ainda arquitetura; quanto se perde em intenes OGTCOGPVGFGEQTCVKXCUVWFQPQRCUUCFGEGPQITCCq(COSTA, 2011, p. 22)

    Soma-se a isso, a dependncia da arquitetura de seu meio social e fsico, da poca na qual ocorre, das tcnicas GORTGICFCUFQUOCVGTKCKUWVKNK\CFQUGFQUTGEWTUQUPCP-ceiros disponveis.

    A histria da arte mostra que a arquitetura sempre foi parte integrante no processo da criao artstica como manifestao normal de vida. Ela engloba, portanto, a prpria histria da arquitetura, constituindo-se, ento, por assim dizer, no lbum de famlia da humanidade. atravs FGNCCVTCXUFCUEQKUCUDGNCUSWGPQUECTCOFQRCUUCFQque podemos, refazer, de testemunho em testemunho, os itinerrios percorridos nessa apaixonante caminhada, no na busca do tempo perdido, mas ao encontro do tempo que EQWXKXQRCTCUGORTGRQTSWGGPVTCPJCFQPCCTVGq%156#2011, p. 17)

    A arquitetura, e outras formas de expresso artstica, representam memrias de um tempo, lugar e cliente deter-minados, podendo este ltimo ser apenas um indivduo ou toda uma sociedade.

    O que observamos em arquitetura nos dias de hoje um grande descaso por essas memrias, sendo que, muitas FGNCUQWUQFGUVTWFCURCTCFCTNWICTCQPQXQQWECOtotalmente abandonadas, tornando-se lugares de riscos para quem se atreve a desvend-los.

  • 10 ENTRE RUNAS E MEMRIAS

    Dessa forma, o que procuro trabalhar no meu TGI como interferir nesse lugares, repletos de camadas sendo essas aqui trabalhadas como camadas do tempo compon-do com o contexto onde est inserido. O que pretendo fazer das memrias um passado vivo no presente.

    Para isso, foi necessrio pesquisar diferentes formas de se trabalhar e interpretar a memria, por meio de teoria e projetos arquitetnicos.

    Pierre Nora um dos autores que trabalha com esta questo e cujo texto Entre memria e histria: a problem-VKECFQUNWICTGUqVTC\WOCXKUQFKHGTGPEKCFCCQCPCNKUCTCMemria.

    Nele, Nora descreve memria como oposio a histria, sendo a acelerao da histria a causa da morte da mem-ria.

    Entretanto, apesar de colocar a memria como oposta histria, o autor mostra que esta essencial para a existncia daquela, uma vez que a histria que transporta a memria atravs do tempo e que, com a distncia e a mediao, a memria passa a ser histria.

    Essa passagem de memria para histria caracteriza-da pela mudana dos produtores de memria. Nos tempos clssicos, os produtores de arquivos eram as grandes fam-lias, Igreja e Estado, hoje, todos escrevem suas Memrias. Existe, assim, o dever de memria, cada um historiador de UKOGUOQ1OFC*KUVTKC/GOTKCOWNVKRNKEQWCUOGO-TKCURCTVKEWNCTGUIGTCPFQC/GOTKC*KUVTKEC

    Nora diz que a memria passou do histrico ao psico-lgico, do social ao individual, da repetio para a reme-morao, do pblico ao privado e do coletivo aos homens-

  • 11UNIVERSO PROJETUAL

    -memria.

    0QTCVCODOFK\CTGURGKVQFQOFCEQNGVKXKFCFGOG-mria, das sociedades-memria igrejas, escolas, famlias e Estado que faziam a transmisso de valores, e das ideolo-IKCUOGOTKCSWGFGPGEQOQUGPFQCRCUUCIGOTGIWNCTdo passado para o futuro. Isso teve como causa o fenmeno FCOWPFKCNK\CQGOKFKCVK\CQGHQKFGPKFQRGNQCWVQTcomo meios de memria. Sem esses meios, a memria cada vez menos vivida no interior e sente necessidade de suportes exteriores, ou seja, de se criar locais de memria, SWGUQFGPKFQUEQOQNWICTGUFGJKUVTKCEQOXQPVCFGFGOGOTKC+UUQGNGFGPGEQOQCOCVGTKCNK\CQFCOGOTKC

    O que se esquece, na arquitetura, que esses lugares no necessariamente precisam fazer parte da histria de uma sociedade inteira, sedo um marco de um tempo. Tam-bm so considerados lugares de memrias locais com UKIPKEPEKCCRGPCURCTCRGSWGPCUEQOWPKFCFGUQWCVmesmo, uma famlia. O importante so as camadas presen-tes nesses lugares. A Casa Lutzenberger, de Porto Alegre, um exemplo disso. Uma memria ntima e particular, mas no menos importante que outras memrias.

    Outra autora que tambm escreve sobre memria Maria Clia Paoli. Segundo ela, no texto Memria, histria GEKFCFCPKCQFKTGKVQCQRCUUCFQqJKUVTKCOGOTKCRCVTK-mnio e passado possuem sentidos mltiplos, pois vm de WOCEWNVWTCRNWTCNGEQPKVCPVG#UUKORCVTKOPKQJKUVTKEQdeve evocar dimenses da cultura como um passado vivo, acontecimentos e coisas que merecem ser preservadas por-SWGUQEQNGVKXCOGPVGUKIPKECVKXCUGOUWCFKXGTUKFCFG1Wseja, patrimnio histrico um lugar de memria com uma FKXGTUKFCFGFGTGNCGUGUKIPKEPEKCUOCUKUUQPQUKIPK-ca que todo lugar de memria patrimnio histrico.

  • 12 ENTRE RUNAS E MEMRIAS

    Casa LutzenbergerPorto Alegre / RSProjetada pelo arquiteto e artista pltico Joseph Lutzenberger, em 1932, foi reformada por Kiefer Arquitetos em 2010.

  • 13UNIVERSO PROJETUAL

    No entanto, como lembra a autora, observa-se que quan-do se fala em patrimnio histrico pensa-se quase sempre em uma imagem congelada, como museus, monumentos, obras de arte e documentos, sendo a preservao desse RCUUCFQFKUUQEKCFCFGUWCUKIPKECQEQNGVKXCGNQPIGFGexpressar as experincias sociais. Deve-se mudar essa viso de patrimnio e a arquitetura uma forte arma para essa transformao.

    Porm, isso no deve ser como vem ocorrendo, onde h apenas duas aes possveis para a histria: destruio ou conservao, sendo esta, a partir da preservao ou da construo do passado.

    5GIWPFQ2CQNKRTGUGTXCQFGPKFCEQOQCEQPUVCPVGproduo do novo: o passado visto como tendo pouco UKIPKECFQCUUKOVQTPCUGKPVKNOCPVNQCPQUGTEQOQtestemunho de algo superado. A construo do passado vista como um sentimento de nostalgia. Ambos possuem as OGUOCURTGOKUUCUPQUGKORQTVCOEQOQUKIPKECFQEQNG-tivo no passado e a histria torna-se um processo acabado e fechado.

    Esse um modo abstrato de se absorver a histria, sendo assim, ela no uma forma de conhecimento, nem TGHGTPEKCEQOCSWCNUGRQUUCTGGVKTUQDTGCGZRGTKPEKCsocial, o que gera uma sociedade sem cidadania.

    Um exemplo inverso disso o SESC Pompia, onde o passado continuamente vivido e descoberto no presente e ambos os tempos convivem harmoniosamente.

    Segundo Nora, no passado, nao, histria e memria viviam em simbiose. Ento, Estado-Nao foi substitudo por Estado-Sociedade, histria como tradio de memria foi substituda por histria como laboratrio das mentalidades

  • 14 ENTRE RUNAS E MEMRIAS

    SESC PompeiaSo Paulo / SPLina Bo Bardi1977-1986

  • 15UNIVERSO PROJETUAL

    do passado e a legitimao pelo passado cedeu lugar le-gitimao pelo futuro. Com a retomada de suas autonomias, nao passa a ser um dado, histria, uma cincia social e memria, um fenmeno privado.

    Entretanto, necessrio fazer com que a produo incida sobre a questo da cidadania. Isso implica passar a histria e poltica de preservao e construo do passado para UKIPKECQEQNGVKXCGRNWTCNQSWGUGIWPFQ0QTCHGKVQEQOFWRNCVCTGHCETVKECJKUVTKCpFQUXGPEGFQTGUqFG9CNVGT$GPLCOKPGEQPUVTWQJKUVQTKQITECFGJQTK\QPVGUde validade histrica.

    #JKUVTKCpFQUXGPEGFQTGUqGUEQPFGQWVTCUPCTTCVKXCUdos acontecimentos passados e presentes e torna-se a hist-TKCpQEKCNq#RQNVKECFGRCVTKOPKQFKUUQFGTKXCFCRTGUGTXCapenas estes testemunhos, sem se importar se restaram PGNGUQUEQPKVQU#RQUVCUGSWGPQJOGOTKCRQRWNCTQWCNVGTPCVKXCFQRQFGTSWGUGLCUWEKGPVGOGPVGXCNKQUCe ilegitima essas memrias. Essa talvez se articula como a maior parte das polticas de preservao no Brasil.

    O que tem sido feito recriar a memria dos que per-deram a visibilidade de suas aes e resgatar essas aes e suas utopias no realizadas. Aposta na existncia de mem-rias coletivas e heterogneas, mas que so fortes referncias de grupo, mesmo que com fraco nexo com a histria origi-PCNq7OITCPFGFGUCQHC\GTEQOSWGGUUCUGZRGTKPEKCUsilenciadas se reencontrem com a dimenso histrica.

    necessrio produzir um direito ao passado com crtica e subverso constante das verses institudas. O reconheci-OGPVQCQFKTGKVQCQRCUUCFQGUVNKICFQCQUKIPKECFQRTG-sente da generalizao da cidadania. Esse reconhecimento aceita os riscos da diversidade e de encontrar as solicitaes

  • 16 ENTRE RUNAS E MEMRIAS

    por uma memria social que venham baseadas em seu valor simblico, mesmo que sejam locais, pequenas, quase fami-NKCTGU0QVGOGTGUVCWTCTGRTGUGTXCTQRCVTKOPKQGFKECFQUGORTGVGPFGTEQPUGTXCTQpCPVKIQqQWZCTQpOQFGTPQqcomo no SESC Pompia, onde o novo e o antigo (...) esto VTCDCNJCFQUFGHQTOCSWGWOPQUGKORQPJCCQQWVTQq(DE OLIVEIRA, 2006), e tambm na casa Lutzemberger que, segundo Jorge Figueira, procura (...) recriar um layer tem-poral, que no tem de necessariamente moralizar ou denun-ciar o tempo preexistente ou demonstrar um virtuosismo do RTGUGPVGq(+)7'+4#'UUGTGEQPJGEKOGPVQQTKGPVC--se pela produo de uma cultura que no repudie sua prpria historicidade, mas que possa dar-se conta dela pela participao nos valores simblicos da cidade.

    'UUGUXCNQTGUUKODNKEQUVCODOUQKPENWFQUPCFGPK-o de Nora dos lugares de memria, que, segundo ele, so momentos da histria arrancados do movimento da histria, lugares de histria com vontade de memria, tudo o que administra a presena do passado no presente. Os lugares de memria possuem dois domnios: simples e ambguos, GPCVWTCKUGCTVKEKCKUGVTUUGPVKFQUOCVGTKCNUKODNKEQe funcional, presentes simultaneamente, porm, em graus diversos.

    O estudo dos lugares, segundo Nora, um