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  • Curso de Capacitao em Auditoria e Financiamento do Sistema nico de Sade (Mdulo 1 - Unidade 1)

    Realizao: Empresa Mais E-duc - Soluo em Educao a Distncia Ltda. Pgina 1 de 24

    Evoluo Histrica das Polticas de Sade no Brasil

    Este texto tem por objetivo discutir a evoluo das polticas de sade no

    Brasil, como subsdio para uma melhor compreenso dos aspectos histricos que

    influenciaram a conformao de um Sistema de Sade no Brasil e conhecidamente

    ineficaz e ineficiente no enfrentamento dos problemas de sade da populao. Essa

    situao crtica imps a necessidade de mudanas nesse sistema e desencadeou o

    processo de implementao da Reforma Sanitria no Brasil, que tem como

    perspectiva fundamental a construo do Sistema nico de Sade.

    Para essa anlise histrica, sero apresentados, organizados por perodos,

    excertos de vrios outros textos de autores que se ocuparam desse tema, com a

    finalidade de apresentar uma sntese de contribuies julgadas significativas para o

    debate sobre as Polticas de Sade no Brasil.

    [...] Nesse contexto, que caractersticas deve ter o sistema de sade para que

    a populao brasileira possa exercer o seu direito?

    - Deve ser acessvel a todo cidado, independente de sua capacidade

    financeira ou de sua forma (ou possibilidade) de insero no mercado de trabalho;

    - Deve ser capaz de responder s exigncias postas pela transformao do

    quadro demogrfico e do perfil epidemiolgico, garantindo a adequao das aes

    s demandas postas pelos diferentes quadros sanitrios, nas diversas regies do

    Pas;

    - Deve ter como objetivo a construo e a preservao da sade e no

    apenas a cura da doena;

    - Deve operar de modo articulado, sujeito aos mesmos princpios e diretrizes,

    viabilizando a integralidade dos cuidados com sade e oferecendo servios de boa

    qualidade;

    - Deve, para assegurar tudo isso, contar com um processo decisrio

    participativo e submeter-se ao controle dos sujeitos sociais.

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    Em resumo, acesso universal, integralidade da ateno, nfase em aes de

    promoo e proteo da sade, descentralizao, participao social. Exatamente o

    que a legislao brasileira hoje em vigor e ainda no inteiramente implementada

    prope para o SUS (BARROS, 1996).

    O processo de construo do Sistema nico de Sade resultante de um

    conjunto de embates polticos e ideolgicos, travados por diferentes atores sociais

    ao longo dos anos. Decorrente de concepes diferenciadas, as polticas de sade e

    as formas como se organizam os servios no so frutos apenas do momento atual,

    ao contrrio, tm uma longa trajetria de formulaes e de lutas. A busca de

    referncias histricas do processo de formulao das polticas de sade, e da

    vinculao da sade com o contexto poltico mais geral do Pas, pode contribuir para

    um melhor entendimento do momento atual e do prprio significado do SUS

    (CUNHA; CUNHA, 1998).

    Nessa perspectiva, discute-se alguns aspectos fundamentais da evoluo

    histrica das polticas de sade no Brasil, neste sculo, sintetizados de acordo com

    seu perodo de ocorrncia.

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    A Primeira Repblica (18891930)

    Durante a Repblica Velha (18891930) o Pas foi governado pelas

    oligarquias dos estados mais ricos, especialmente So Paulo, Rio de Janeiro e

    Minas Gerais. A cafeicultura era o principal setor da economia, dando aos

    fazendeiros paulistas grande poder de deciso na administrao federal. (...) Os

    lucros produzidos pelo caf foram parcialmente aplicados nas cidades. Isso

    favoreceu a industrializao, a expanso das atividades comerciais e o aumento

    acelerado da populao urbana, engrossada pela chegada dos imigrantes desde o

    final do sculo XIX (BERTOLLI FILHO, 1996).

    (...) com a abolio da escravido em 1888, consolidou-se o processo de

    substituio da mo-de-obra escrava pela assalariada, de origem europia. (...) Na

    indstria nascente, tambm utilizou-se mo-de-obra europia, que chegou da

    Europa carregada de idias anarquistas. Foram freqentes os protestos e greves

    neste perodo. No que se refere situao de sade, as epidemias continuavam a

    matar a escassa populao, diminuindo o nmero de pessoas dispostas a vir para o

    Brasil. Por isso, o governo da poca foi obrigado a adotar algumas medidas para

    melhorar esta situao (CEFOR, [19--]).

    Nesse perodo, foram criados e implementados os servios e programas de

    sade pblica em nvel nacional (central). frente da Diretoria Geral de Sade

    Pblica, Oswaldo Cruz, ex-aluno e pesquisador do Instituto Pasteur, organizou e

    implementou progressivamente, instituies pblicas de higiene e sade no Brasil.

    Em paralelo, adotou o modelo das campanhas sanitrias destinado a combater as

    epidemias urbanas e, mais tarde, as endemias rurais. (...) Em termos de poder, o

    prprio nome sugere que o modelo campanhista de inspirao blica, concentra

    fortemente as decises, em geral tecnocrticas, e adota um estilo repressivo de

    interveno mdica nos corpos individual e social (LUZ, 1991).

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    A crescente interveno mdica nos espaos urbanos foi recebida com

    desconfiana e medo pela populao. A retirada fora da populao dos

    ambientes a serem saneados foi constantemente acompanhada pela vigilncia

    policial, pois temia-se que o povo se revoltasse, agredindo os agentes sanitrios.

    Alm disso, muitas vezes a polcia agia com violncia sem motivo, reproduzindo as

    formas repressoras comumente empregadas pelo regime oligrquico contra os

    protestos coletivos como passeatas e greves (BERTOLLI FILHO, 1996).

    A oposio ao modo como eram feitas (as campanhas) pode ser evidenciada

    na revolta contra a vacina obrigatria (contra varola), em 1904. Liderados por um

    grupo de cadetes positivistas que eram oposio ao governo, muitos se revoltaram

    acusando o governo de desptico, de devassar a propriedade alheia com

    interdies, desinfeces, da derrubada macia de bairros pobres, de

    arrombamentos de casas para nelas entrarem fora. A revolta reprimida, pois a

    questo sade ainda era concebida como uma questo policial (CEFOR, [19--]).

    Impressionado e desgastado com os acontecimentos, o governo revogou a

    obrigatoriedade da vacina, tornando-a opcional para todos os cidados (BERTOLLI

    FILHO, 1996).

    No campo da assistncia mdica individual, as classes dominantes

    continuaram a ser atendidas pelos profissionais legais da medicina, isto , pelos

    mdicos de famlia. O restante da populao buscava atendimento filantrpico

    atravs de hospitais mantidos pela igreja e recorria medicina caseira

    (CEFOR, [19--]).

    O surgimento da Previdncia Social no Brasil se insere num processo de

    modificao da postura liberal do Estado frente problemtica trabalhista e social,

    portanto, num contexto poltico e social mais amplo. Esta mudana se d enquanto

    decorrncia da contradio entre a posio marcadamente liberal do Estado frente

    s questes trabalhistas e sociais e um movimento operrio-sindical que assumia

    importncia crescente e se posicionava contra tal postura. Esta tambm a poca

    de nascimento da legislao trabalhista brasileira. Em 1923, promulgada a Lei Eloy

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    Chaves, que para alguns atores pode ser definida como marco do incio da

    Previdncia Social no Brasil.

    No perodo compreendido entre 1923 e 1930, surgem as Caixas de

    Aposentadoria e Penses CAPs. Eram organizadas por empresas, de natureza

    civil e privada, responsveis pelos benefcios pecunirios e servios de sade para

    os empregados de empresas especficas. As CAPs eram financiadas com recursos

    dos empregados e empregadores e administradas por comisses formadas de

    representantes da empresa e dos empregados. Cabia ao setor pblico apenas a

    resoluo de conflitos. No modelo previdencirio dos anos 20, a assistncia mdica

    vista como atribuio fundamental do sistema, o que levava, inclusive,

    organizao de servios prprios de sade. Caracteriza ainda este perodo, o

    elevado padro de despesa. Estas duas caractersticas sero profundamente

    modificadas no perodo posterior (CUNHA J.; CUNHA, R., 1998).

    A Era Vargas (19301945)

    A revoluo de 1930 marcou o fim da hegemonia poltica da classe dominante

    ligada exportao do caf. A crise de 1929 afetou as exportaes, provocando

    uma enorme queda nos preos do caf. O governo, impossibilitado de continuar a

    exercer a poltica de proteo aos preos do caf, devido crise que afetava os

    cofres pblicos, estava perdendo legitimidade. Assim, em 1930 ocorreu a revoluo,

    liderada por fraes da classe dominante que no estavam ligadas exportao de

    caf. Alm disso, o movimento contou com o forte apoio de camadas mdias

    urbanas, como intelectuais, profissionais liberais, militares, particularmente os

    tenentes (CEFOR, [19--]).