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Território e produção desigual do espaço urbano: uma análise cartográfica da territorialização da violência Denise Carla Melo VIEIRA; Clicia da Silva SANTOS; Clay Anderson Nunes CHAGAS ________________________________________________ Boletim Amazônico de Geografia (ISSN: 2358-7040 - on line), Belém, v. 01, n. 02, p. 161-180, jul./dez. 2014. 161 TERRITÓRIO E PRODUÇÃO DESIGUAL DO ESPAÇO URBANO: UMA ANÁLISE CARTOGRÁFICA DA TERRITORIALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA Denise Carla Melo VIEIRA [email protected] Clicia da Silva SANTOS [email protected] Clay Anderson Nunes CHAGAS [email protected] Resumo O presente trabalho se trata de uma discussão geográfica acerca da problemática urbana referente a uma criminalidade específica, homicídios; o mesmo objetiva analisar a relação entre os níveis de ocupação do espaço e sua respectiva espacialização da violência, tendo como lócus os bairros Jurunas e Umarizal. Quanto aos procedimentos metodológicos se destaca a discussão teórica da categoria geográfica território, espaço urbano e segregação socioespacial, outro recurso proposto é a representação cartográfica desses espaços a fim de melhor contemplar a perspectiva de análise. Conforme os resultados analisados é possível perceber que os níveis de ocupação do espaço e da atuação do Estado muito influenciam na dinâmica da criminalidade e violência dos bairros. Assim, mais que analisar a dinâmica da criminalidade e violência dos bairros, traduzida em homicídios, se buscou destacar outro estágio de violência, a violência da privação, do descaso do poder público sobre os mesmos, a fim de entender em sua totalidade a problemática em questão. Palavras-chave: Território; Violência; Cartografia. INTRODUÇÃO O processo de crescimento da violência tem se mostrado cada vez mais acentuado nas cidades, sobretudo, nas grandes metrópoles. Nesse sentido, a cidade de Belém se encontra inserida nessa dinâmica. Tal crescimento está intrinsecamente relacionado ao crescimento acelerado das metrópoles brasileiras, em que se perpetuam a expansão dos espaços periféricos, a qual reluz o forte contraste resultante da produção desigual do espaço urbano. O presente trabalho se trata de um estudo de dois bairros da metrópole belenense, Jurunas e Umarizal, cujo objetivo consiste em compreender a partir da representação cartográfica e discussão teórica, como a (re) produção espacial da cidade de Belém engendra espaços diferenciados caótico-segregados-periféricos e privilegiados-bem-estruturados, cuja suas características são apresentadas respectivamente, pelo déficit estrutural , “falta de urbanidade” onde as práticas violentas (RODRIGUES, 2010) se fazem mais evidentes, e espaços que também se estabelecem tais ações, no entanto de forma mais branda, pois expressam uma geografização privilegiada. Buscaremos, por conseguinte, entender quais as

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Page 1: TERRITÓRIO E PRODUÇÃO DESIGUAL DO ESPAÇO URBANO: UMA ... · informações gerais, sobre o computo de habitantes. Além disso, foram trabalhadas as informações de aglomerados

Território e produção desigual do espaço urbano: uma análise cartográfica da

territorialização da violência

Denise Carla Melo VIEIRA; Clicia da Silva SANTOS; Clay Anderson Nunes CHAGAS

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Boletim Amazônico de Geografia (ISSN: 2358-7040 - on line), Belém, v. 01, n. 02, p. 161-180, jul./dez. 2014.

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TERRITÓRIO E PRODUÇÃO DESIGUAL DO ESPAÇO URBANO: UMA ANÁLISE

CARTOGRÁFICA DA TERRITORIALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA

Denise Carla Melo VIEIRA

[email protected]

Clicia da Silva SANTOS

[email protected]

Clay Anderson Nunes CHAGAS

[email protected]

Resumo

O presente trabalho se trata de uma discussão geográfica acerca da problemática urbana

referente a uma criminalidade específica, homicídios; o mesmo objetiva analisar a relação

entre os níveis de ocupação do espaço e sua respectiva espacialização da violência, tendo

como lócus os bairros Jurunas e Umarizal. Quanto aos procedimentos metodológicos se

destaca a discussão teórica da categoria geográfica território, espaço urbano e segregação

socioespacial, outro recurso proposto é a representação cartográfica desses espaços a fim de

melhor contemplar a perspectiva de análise. Conforme os resultados analisados é possível

perceber que os níveis de ocupação do espaço e da atuação do Estado muito influenciam na

dinâmica da criminalidade e violência dos bairros. Assim, mais que analisar a dinâmica da

criminalidade e violência dos bairros, traduzida em homicídios, se buscou destacar outro

estágio de violência, a violência da privação, do descaso do poder público sobre os mesmos, a

fim de entender em sua totalidade a problemática em questão.

Palavras-chave: Território; Violência; Cartografia.

INTRODUÇÃO

O processo de crescimento da violência tem se mostrado cada vez mais acentuado nas

cidades, sobretudo, nas grandes metrópoles. Nesse sentido, a cidade de Belém se encontra

inserida nessa dinâmica. Tal crescimento está intrinsecamente relacionado ao crescimento

acelerado das metrópoles brasileiras, em que se perpetuam a expansão dos espaços

periféricos, a qual reluz o forte contraste resultante da produção desigual do espaço urbano.

O presente trabalho se trata de um estudo de dois bairros da metrópole belenense,

Jurunas e Umarizal, cujo objetivo consiste em compreender a partir da representação

cartográfica e discussão teórica, como a (re) produção espacial da cidade de Belém engendra

espaços diferenciados caótico-segregados-periféricos e privilegiados-bem-estruturados, cuja

suas características são apresentadas respectivamente, pelo déficit estrutural, “falta de

urbanidade” onde as práticas violentas (RODRIGUES, 2010) se fazem mais evidentes, e

espaços que também se estabelecem tais ações, no entanto de forma mais branda, pois

expressam uma geografização privilegiada. Buscaremos, por conseguinte, entender quais as

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motivações que levam ao crescimento dos índices de criminalidade e de violência,

especificamente homicídio e compararemos esses índices com o tamanho da população,

localização ou “geografização”, como concebe Santos (2009) a forma e conteúdo desses

bairros.

A metodologia aplicada no presente estudo perpassa pelo levantamento bibliográfico,

leituras e discussões referentes à violência e a criminalidade, usos do território e as dinâmicas

do espaço urbano. A representação cartográfica da área é um recurso proposto, com a

utilização dos dados coletados junto a Subsecretaria de Inteligência e Análise Criminal, ligada

à Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SIAC/SEGUP), a partir da utilização de

dados de homicídio desses bairros referentes aos anos de 2011 a 2013 com a finalidade de

elaborar uma cartografia criminal. Quanto à prefeitura municipal de Belém conseguimos

informações gerais, sobre o computo de habitantes. Além disso, foram trabalhadas as

informações de aglomerados subnormais, do IBGE, buscando fazer uma sobreposição da

cartografia de maior incidência de homicídio com as condições de ocupação.

Quanto aos procedimentos metodológicas referentes a elaboração das representações

cartográficas, destaca-se a estruturação de um banco de dados Geográficos (BDG), sendo este

contemplado por dados disponíveis pela Secretaria de Segurança Pública, que possui

informações diversas, como endereço do local do homicídio, mês, ano, tipo do crime, sendo

que a partir do atributo endereço foi possível especializar/vetorizar tais homicídios em forma

de pontos/coordenadas geográficas através da interpretação visual da imagem orbital da

cidade de Belém presente no ambiente/software Google Earth (2013). Posterior a

espacialização das informações de homicídios no software Google Earth, transporta-se tais

informações para o software Quantum Gis (Versão), onde trabalha-se com tais informações a

fim de elaborar a representação cartográfica, com todos os seus elementos imprescindíveis.

Assim, o presente trabalho se encontra dividido em três momentos em que o primeiro

consiste em uma discussão conceitual da categoria geográfica território, despontando suas

características principais e sua relação com a produção do espaço urbano, especificamente

com a violência urbana, posteriormente se destaca a questão da segregação socioespacial e

como esta se ergue junto a urbanização enfatizando suas dinâmicas e contradições e por fim

destacaremos a cartografia da violência dos bairros Umarizal e Jurunas em Belém, levando

em consideração os espaços segregados e suas relações com esses indicadores de homicídios

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para assim formalizar o estudo que compreende na cartografia de sobreposição de tais

informações.

DIMENSÃO ESPACIAL DO PODER: UMA DISCUSSÃO SOBRE O CONCEITO DE

TERRITÓRIO.

Entender as diversas formas de manifestação de poder e como estas implicam na

configuração de determinado espaço se torna tarefa de suma importância para análise

geográfica, sendo esta apreendida sob a ótica da categoria geográfica território. Neste sentido,

o que se busca salientar aqui é qual a dinâmica dos espaços formados por um poder

específico, o poder da violência e do medo, engendrado por agentes que compõe os espaços a

serem analisados e que coabitam com outras manifestações de poder, formando assim,

multiterritorialidades (HAESBAERT, 2004).

O conceito de território sempre esteve atrelado à outra noção que lhe confere

característica própria, o poder, desde suas primeiras formulações advindas da geografia

política com Ratzel até análises mais atuais (SOUZA, 2000). Vale ressalta que as primeiras

abordagens de território tinham como agente fundamental de detenção do poder o estado,

sendo este o responsável pela conquista de novos territórios (expansão física), pois a terra

representa o seu valor e consequentemente o poder.

Haesbaert (2004) já nos traz outras dimensões de território a saber: jurídica-politica,

econômica e cultural, onde cada uma dessas apresentam o aspecto fundamental do território,

no entanto a relação entre o poder e o espaço se dá de forma diferenciada em cada um destes,

despontando comportamentos diferentes entre os agentes sobre os territórios.

Em relação ao espaço e sua dimensão de poder, Souza (2000, p. 111) também faz suas

considerações, afirma que este pode ser considerado em suas múltiplas escalas, considerando

os diversos agentes, visto que “Todo espaço definido e limitado por e a partir de relações de

poder é um território, do quarteirão aterrorizado por uma gangue de jovens até o bloco

constituído pelos países membros da OTAN”.

É a partir de tais discussões que se entende as múltiplas abordagens que contempla a

perspectiva territorial, sendo que esta além de se firmar em diversos níveis de análise também

pode ser considerada no âmbito econômico, político e cultual, onde o que o torna mais

instigante ao estudá-la é compreender a relação entre esses diferentes agentes que dividem

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esse mesmo território e suas distintas formas de manifestação de poder que confere dinâmica

ao espaço (passível de relações de poder) em questão.

Ao expressar a concepção territorial na dinâmica urbana e sua relação com os

indicadores de homicídios e segregação socioespacial se deve considerar que grande parte das

problemáticas concernentes às cidades são resultados de alguns processos pretéritos, as

cidades apenas vêm se reproduzindo segundo a lógica capitalista, guiado pelas desigualdades

que são produzidas pela valorização capitalista no/do espaço, esses processos por sua vez

induzem ao agravamento da problemática urbana, uma vez que, tais desigualdades se

expressam mais claramente nas periferias, visto que o valor no/do espaço juntamente com a

renda diferencial conduz a população mais pobre para as periferias, nesses espaços a

territorialidade/territorialização da criminalidade e violência encontram maiores

oportunidades de se materializarem a medida que os déficits de planejamento, saneamento,

policiamento entre outros são escassos ou mesmo inexistentes.

Podemos apontar ainda a atuação do poder do Estado nesses espaços periféricos como

um fator que contribui para o agravamento da criminalidade e violência nesses, pois se bem

analisarmos, os espaços periféricos em comparação com os espaços ditos privilegiados,

entenderemos sem dificuldades, a definição “privilegiado”, deste modo podemos sim falar de

uma atuação “diferenciada1” do Estado, nossas perspectivas tanto empíricas quanto

cartográficas nos possibilitam falar que esta atuação diferenciada permite outras atuações, que

por sua vez, tornam esses territórios mais diferentes e ainda torna o contraste

(periférico/privilegiado) exorbitante.

Tendo em vista a discussão de poder realizada no presente estudo se faz necessário

discernir as dimensões dele, uma vez que o poder não se manifesta exclusivamente a partir

das ações do Estado, este como concebe Foucault se trata de relações que se manifestam sob o

corpo dos indivíduos. O corpo esta investido politicamente; sendo assim, “as relações de

poder tem alcance imediato sobre ele” Foucault (2013, p. 28), o investimento político do

corpo se dá sob relações complexas, assim o corpo para ter utilidade necessita a um só tempo

ser submisso e produtivo.

Essa sujeição não é obtida só pelos instrumentos da violência ou da ideologia; pode

muito bem ser direta, física, usar a força contra força, agir sobre elementos materiais

sem no entanto ser violento; pode ser calculada, organizada, tecnicamente pensada,

1 Alguns autores utilizam o termo precário, para se referir a atuação do Estado nos espaços periféricos, nós

optamos pelo termo “diferenciado”.

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pode ser sutil, não fazer uso de armas nem de terror, e no entanto continuar a ser de

ordem física. (FOUCAULT, 2013, p.29).

Assim, tendo em vista a dimensão múltipla do poder se pode destacar a atuação

específica de sujeitos, que caracterizam as redes de relação que neste se inscrevem,

modificando o cotidiano da população que habita em seu entorno, onde imprimem relações de

poder sobre o espaço cujo medo da violência se torna fator característico do território.

Segundo Souza (2008) é o medo generalizado e a insegurança pública que dão margem ao

surgimento das “Fobópoles”, que são cidades guiadas por sujeitos que passam a coabitar esses

espaços e a disputá-los entre si. Como consequência, além da disposição de sofrer violência

física a população também fica sujeita a outro estágio de violência2, uma vez que a

ineficiência da gestão do Estado possibilita que se estabeleça um medo generalizado.

Verifica-se também que os territórios onde o Estado pouco se faz presente são aqueles

que também são marginalizados da economia formal, apresentam como características a

formação de um mercado informal, Castells (1999, p. 99) descreve que a formação desse

mercado aparece como uma alternativa para aqueles que estão excluídos, uma válvula de

escape, uma oportunidade de inserção no mercado de trabalho, ainda que seja o mercado

ilegal, o mesmo ressalta que:

O processo de exclusão social e a insuficiência de políticas públicas de integração

social levam a um quarto processo fundamental que caracteriza certas formas

especificas de relação de produção no capitalismo informacional chamo-o

“integração perversa”. Refere-se às formas de trabalho praticadas na economia do

crime. Entendo por economia do crime atividades geradoras de lucro que segundo as

normas vigentes, são tratadas como crime, estando sujeito às sanções legais cabíveis

em um determinado contexto institucional.

O bairro do Umarizal no momento é um dos bairros da cidade de Belém que vem

passando por grandes transformações a partir da ótica do capital (SILVA, 2013), deixando de

ser um bairro periférico e populoso como concebe Penteado (1968) e tornando-se um bairro

central, sendo territorializado por uma lógica de “dominação” como disserta Haesbaert (2004)

ao tratar de territórios formados sob a lógica do capital. Neste sentido, destacamos o que

2 No texto “por que a guerra” Freud (2005) faz uma discussão sobre os estágios da violência, onde mostra que

esta e o direito são opostos, porém o direito se desenvolve a partir dessa, sendo assim, a privação daquilo que é

legitimado, possibilita a violência para além da agressão física. (UM DIÁLOGO entre Einstein e Freud: por que

a guerra? Santa Maria: FADISMA, 2005).

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Santos (1998) afirma sobre o estudo do território, sendo o que lhe faz alvo de pesquisas não é

o espaço em si, mas sim suas formas de uso:

É o uso do território, e não o território em si mesmo, que faz dele objeto de análise

social. Trata-se de uma forma impura, um hibrido, uma noção que, por isso mesmo,

carece de constante revisão histórica. O que ele tem de permanente é ser nosso

quadro de vida. Seu entendimento, é, pois, fundamental para afastar o risco da

alienação, o risco da perda de sentido da existência individual e coletiva, o risco de

renúncia ao futuro. (SANTOS, 1998, p. 15)

Neste sentido, que se destaca a análise dos bairros Jurunas e Umarizal sendo estes

resultantes de processos que lhes confere dinâmicas diferenciadas de acordo com o tempo a

ser analisado e os agentes considerados, propondo assim novas territorialidades, e

possibilitando que o olhar sobre estas venham a contribuir para uma reflexão acerca das

práticas territoriais.

SEGREGAÇÃO SÓCIO-ESPACIAL NA URBE BELENENSE: O CASO ESPECÍFICO

DE JURUNAS E UMARIZAL

Primeiramente para iniciarmos nossa discussão acerca da representação cartográfica

dos indicadores de homicídios e de como estes contrastam com os níveis de ocupação do uso

do solo ressaltamos algumas características dos bairros em que estas se tornam

imprescindíveis à apreensão dos fenômenos presentes nestes.

Os bairros do Jurunas e Umarizal se encontram localizados na metrópole de Belém-

Pará, ambos às margens da Baia do Guajará. O Bairro do Jurunas se encontra localizado entre

os bairros de Batista Campos (ao Norte), Cidade Velha (Oeste), Condor (Leste) e a Sul o Rio

Guamá. O segundo bairro destacado no presente estudo, Umarizal, localiza-se entre os bairros

do Telégrafo (Norte), Pedreira (Nordeste), Fátima (Leste), Nazaré e São Braz (Sudeste),

Reduto (Sul) e o Rio Guamá a Oeste, conforme destacado na representação cartográfica a

seguir (MAPA 1).

A área de ocupação destes bairros compreende em 2 358 215,92 m² distribuída por

uma população de 64.478 no Jurunas, 2 629 543,36 m² e população de 30.064 no Bairro do

Umarizal, conforme dados do Censo demográfico do IBGE 2010. Os mesmos fazem parte,

respectivamente dos Distritos administrativo do GUAMÁ e BELÉM.

A metrópole de Belém, inserida no contexto do subdesenvolvimento perpassa por

questões referentes à sua espacialidade desigual, visto que a mesma por se tratar de uma

metrópole inserida na dinâmica do sistema capitalista de acumulação de capital reproduzirá a

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dinâmica deste sistema, resultando, deste modo, também no palco da problemática urbana, a

ser identificada a partir dos bairros Jurunas e Umarizal.

Trindade Junior (1998) ao destacar acerca do processo de metropolização de Belém,

resultante da integração da economia Amazônica ao restante das economias brasileiras, como

a do Nordeste e Centro-sul, afirma que esse momento se encontra marcado por uma

divergência no que concerne a organização dos espaços que fazem parte do âmbito

metropolitano, pois ao passo que se consolida os espaços modernos cuja atuação do capital se

encontra de forma intensa e privilegiada, com incentivos do governo, surgem

concomitantemente espaços excluídos onde a escassez de serviços básicos como saúde,

educação, infraestruturas e saneamento se tornam fatores característicos de sua espacialidade.

Neste sentido, a partir da análise de cidade de Belém e levando em consideração o

momento mais recente da fase de metropolização destacada por Trindade Junior (1998),

torna-se possível aumentar a escala cartográfica de análise a fim de entender a dinâmica dos

bairros, Jurunas e Umarizal, destacados no presente estudo, que se constitui enquanto

proposta em questão.

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Mapa 1: Localização Bairros Jurunas e Umarizal. Fonte: Dados da Pesquisa (2014)

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JURUNAS: APROPRIAÇÃO ESPONTÂNEA DO ESPAÇO E PERCALÇOS

RECORRENTES

Seu processo histórico de formação, no primeiro momento, esteve ligada ao “boom”

da borracha em Belém, que atraiu muitos imigrantes motivados pelas oportunidades de

emprego, esse momento foi marcado pelo intenso êxodo-rural. O bairro do Jurunas recebeu

nesse contexto um número significativo de imigrantes interioranos, popularmente conhecidos

como ribeirinhos (SILVA, 2008).

No processo de ocupação do bairro do Jurunas esteve presente um número

significativo da população ribeirinha, Silva (2008) mostra que as motivações que atraíram

essa população estiveram fortemente relacionadas à geografia do bairro, assim como a

localização as margens do rio Guamá.

Atualmente o bairro do Jurunas apresenta grandes modificações no que concerne sua

estrutura, contudo, ainda há grandes déficits de serviços públicos essenciais; ruas muito

estreitas, pouco saneamento, muitas casas sem condições adequadas para habitação, lixões a

céu aberto, áreas alagadas com deficiência de drenagem, áreas perigosíssimas, segundo a

população residente, muitas casas sem infraestrutura de moradia entre outros aspectos que

tiram a dignidade do ser humano. Ainda sobre as características do bairro, verifica-se que este

é um bairro que apresenta uma população de baixo poder aquisitivo, que sobrevive de

atividades econômicas que foram muito presente no momento de sua formação, atividades

estas ligada ao rio Guamá.

UMARIZAL: PASSADO E PRESENTE SOB A LÓGICA DA VALORIZAÇÃO

CAPITALISTA DO ESPAÇO

O Bairro do Umarizal se caracteriza pela sua localização privilegiada e de visível

investimento em recursos em relação à infraestrutura, comércio, saneamento, etc., em sua

configuração. No entanto, tal conformação não se fez presente durante toda a história do

bairro, visto que inicialmente, se tratava de um bairro predominantemente residencial e

industrial, conforme Penteado (1968) periférico e o segundo mais populoso. Silva (2013)

destaca que somente a partir das décadas de 1960 a 1970 que o bairro tomou estrutura e

dinâmica diferenciada da inicial.

Tal processo de modificação da estrutura do bairro do Umarizal pode ser analisada a

partir da perspectiva de Villaça (2001) acerca das mudanças de centralidade, em que os

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espaços tornam-se valorizados devido a presença de elementos que lhe confere maior

dinâmica, esse bairro passa a se valorizar devido ao intenso fluxo que este recebe devido as

passagens de acesso que este possibilita, o que de certa forma, mostra-se enquanto atrativo

para a instalação de aparatos que venham a atender as demandas do capital, o que por sua vez

demanda uma série de investimentos públicos a sua estrutura.

Passando de periférico e popular para central, conforme Silva (2013) o bairro do

Umarizal possui, atualmente, o preço de terreno, por metro quadrado mais caro de Belém, que

juntamente com o conjunto de estruturas urbanas, ratifica-o enquanto central destacando-se

enquanto núcleo urbano, que “torna-se, assim, produto de consumo de uma alta qualidade

para estrangeiros, turistas, pessoas oriundas da periferia, suburbanos. Sobrevive graças a este

duplo papel: lugar de consumo e consumo do lugar” (LEFEBVRE, 2001, p. 12).

ANÁLISE CARTOGRÁFICA DA CRIMINALIDADE (HOMICÍDIOS) NOS

BAIRROS DO JURUNAS E UMARIZAL

Entender as especificidades presentes nos territórios dos bairros analisados constitui-se

tarefa fundamental para o estudo em questão, no entanto, mais que entender tais fenômenos

torna-se necessário estabelecer técnicas para demonstrar como estes se espacializam e/ou

territorializam, de forma a contemplar uma análise mais completa e pautada na discussão

geográfica, onde considere o uso de categorias geográficas (neste caso, território) e suas

respectivas representações. O estudo se destaca na medida em que este mais que representar

dados de uma realidade em escala cartográfica reduzida, atrela a tais dados informações que

se tornarão imprescindível ao entendimento da dinâmica socioespacial. É neste sentido que a

pertinência da cartografia no presente estudo mostra-se mais evidente, uma vez que a partir

desta tornar-se-á possível a análise e reflexão da dinâmica recorrente nesses espaços

analisados, destacando desta forma suas conformações divergentes.

Verifica-se uma problemática ao que diz respeito às formas desiguais de estruturação

dos espaços em que Lefebvre (2006, p. 6) faz uma análise da valorização de alguns espaços

em detrimento de outros:

A cidade e a realidade urbana dependem do valor de uso. O valor de troca e a

generalização da mercadoria pela industrialização tendem a destruir, ao subordina-

las a si, a cidade e a realidade urbana “refúgios do valor de uso, embriões de uma

virtual predominância e de revalorização do uso”.

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Nessa perspectiva, percebe-se que os espaços são produzidos conforme uma lógica

maior, que é a lógica do capital, assim é que se erguem os centros-periferias. Como já

mencionamos estes além de evidenciar uma geografização também ratifica a riqueza ou a

pobreza da população, contudo a latente problemática da periferia não é a pobreza como se

divulgam, pelos clichês/estigmas, mas sim a privação de saneamento, moradias adequadas,

serviços públicos, escolas, saúde, etc. deixando a população residente cada vez mais propensa

a se inserir no trabalho informal, uma vez que não encontram alternativas.

Dessa forma, verifica-se a complexidade inerente aos espaços segregados-periféricos

uma vez que as privações3 dos direitos básicos dos habitantes desses lócus se fazem abismais.

Assim, ao compararmos o bairro do Jurunas com o Umarizal tal privação se faz bem mais

presente no Jurunas, assim como a territorialização da criminalidade traduzida em homicídios,

violência e sensação de insegurança.

Nesse sentido, é que consiste nossa inquietação, pois tal privação é consequência da

(re) produção desigual dos espaços urbanos, que por sua vez torna a territorialização da

criminalidade e da violência mais acessível em bairros periféricos como no caso do Jurunas,

que no Umarizal, destacado no presente estudo. Tal questão torna-se mais explicita ao analisar

o comportamento da mancha criminal nos dois bairros referentes aos anos de 2011 a 2013,

figura 1.

Vale ressaltar que tais questões concernentes ao comportamento da mancha criminal,

discutidas no presente trabalho, refere-se a um tipo específico de violência, o homicídio, uma

vez que este permite quantificar e espacializar de forma mais verídica as ocorrências do

mesmo.

O homicídio, de acordo com Silveira (2008) é classificado no Artigo 121 do código

penal como crime contra a vida e é considerado a mais grave violação reprimida pela

sociedade e pela lei, ainda sobre o crime, Durkheim (1999, p. 13) faz sua consideração, “o

crime nada mais é que um ato ou conduta praticada pelos indivíduos, fruto da maldade e

liberdade humanas”, para esse autor o crime não é entendido como uma conduta anormal,

sendo, portanto, considerado normal, visto que, são considerados normais os fatos que

3 O sentido do termo privação foi empregado segundo a perspectiva de Castells (1999) para explicar a acepção

da palavra miséria ou pobreza extrema, assim privação seria uma ampla gama de desvantagens

sócio/econômicas. No primeiro momento que empregamos esse termo explicamos a relação deste com a

violência, mostrando que tal desvantagem regride ao estado de violência, visto que, esta é anterior ao direito.

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territorialização da violência

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apresentam formas gerais em toda a extensão de uma espécie. Mais importante que classificar

o crime como normal ou anormal, é compreender no âmbito da geografia as relações entre a

criminalidade e o uso do território em suas diversas escalas, visto que conforme Souza (2008,

p.11) “as práticas de violência não estão dissociadas do espaço. Aqui também o espaço

comparece em sua dupla qualidade de produto social e condicionante das relações sociais”.

Assim, ao tratar das diferentes espacialidades dos bairros estudados se tem como

analisar, Figura 1 e 2, as diferentes estruturas dos bairros, apesar de ter sido constatado em

lócus pelos pesquisadores uma espacialidade heterogênea, no interior de cada bairro onde são

perceptíveis áreas mais bem estruturadas em certos pontos em relação a outros, se percebe,

tratando-se de uma comparação entre os dois bairros, o descaso do poder público maior no

bairro do Jurunas em relação ao Umarizal, onde na representação cartográfica tais áreas

críticas (representadas pela figura 1), denominadas segundo IBGE (2010) aglomerados

subnormais, encontra-se latente no bairro do jurunas seguido dos indicadores de homicídios

também mais expressivos em tais áreas.

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Mapa 2 – Análise multitemporal do comportamento da mancha criminal no ano de 2011

Fonte: Dados da Pesquisa (2014)

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Mapa 3– Análise multitemporal do comportamento da mancha criminal no ano de 2012

Fonte: Dados da Pesquisa (2014)

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Mapa 4 – Análise multitemporal do comportamento da mancha criminal no ano de 2013

Fonte: Dados da Pesquisa (2014)

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A cartografia presente acima nos traz informações importantíssimas, que contemplam

nossa análise, o primeiro ponto a ser destacado diz respeito aos aglomerados subnormais, que

estão fortemente presente no bairro do Jurunas, enquanto o Umarizal não possui em sua forma

estes aglomerados. Ainda em relação a esses espaços de privação (aglomerados subnormais) e

tendo como demonstração o bairro do Jurunas, verifica-se que na zona estabelecida de

aglomerado subnormais, a violência torna-se mais evidente, visto que de 30 homicídios,

ocorrentes no ano de 2011, 27 ocorreram nesses espaços de aglomerados subnormais (ver

tabela 2), espaços estes que não apresentam condições apropriadas para habitação, são áreas

que não passaram por um planejamento adequado, não apresentam saneamentos básicos,

infraestrutura mínima para habitação, corroborando desse modo para maior incidência de

homicídios.

Tabela 01: Indicadores de homicídios dos Bairros Jurunas e Umarizal quanto ao nível de

ocupação.

Bairro

Classificação IBGE do nível

de ocupação

Homicídios

2011 2012 2013

Umarizal

Aglomerados subnormais - - -

Total 03 01 04

Jurunas

Aglomerados subnormais 27 44 33

Total 30 45 37

Fonte: SIAC/SEGUP, Dados Referentes aos anos: 2011 a 2013. Org. Santos, C. S; Vieira, D.

C. 2014.

Ainda sem deixar de mencionar o total da população presente nos bairro, torna-se

necessário fazer tal relação, entre população e indicadores de homicídios, para que se analise

a partir de tal relação às afirmações presentes no trabalho, assim, levando em consideração a

população dos dois bairros estudados, nos respectivos períodos analisados se tem, a título de

exemplo, o ano de 2013, o percentual de mortes no Jurunas foi de 0,05% enquanto no

Umarizal o percentual foi de 0,01 %, em relação aos anos anteriores tais indicadores não são

diferentes do ano de 2013, pois também apesentam um maior indicador de homicídio no

Bairro do Jurunas em relação ao Bairro do Umarizal.

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Diante desses números se ressalta que embora a população do Jurunas represente mais

que o dobro da população do Umarizal, respectivamente, 64.478 e 30.064, ainda assim se

verifica o indicador de criminalidade traduzidas em homicídios mais frequente no bairro do

Jurunas em relação ao Umarizal, o que por sua vez corrobora com as afirmações até então

destacadas acerca dos aglomerados subnormais e suas problemáticas recorrentes.

Tais aglomerados subnormais são destacados na figura 1, no bairro do jurunas em que

a privação de direitos mostra-se evidente.

Figura 1 – Bairro do Jurunas: área de ocupação às proximidades de Igarapé cujo planejamento/drenagem do

mesmo não é adequado para a ocupação, ressaltando a problemática referente a falta de planejamento,

aglomerado subnormal. Fonte: Dados da Pesquisa (2014)

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Figura 2 – Bairro do Umarizal: área com intensa atuação do capital, presença de vários equipamentos urbanos,

na Travessa Dom Romualdo de Seixas. Fonte: Dados da Pesquisa (2014)

Ao analisar as imagens se nota a problemática urbana, e as diferentes formas de

estruturação do espaço urbano, o que vem a gerar conflitos que expressam os diferentes

anseios dos sujeitos próprios deste espaço, a respeito de tal disputa Carlos (2008. p.87) afirma

que:

O uso do solo urbano será disputado pelos segmentos da sociedade de forma

diferenciada, gerando conflitos entre indivíduos e usos. Esse pleito será, por sua vez,

orientado pelo mercado, mediador fundamental das relações que se estabelecem na

sociedade capitalista, produzindo um conjunto limitado de escolhas e condições de

vida. Portanto, a localização de uma atividade só poderá ser entendida no contexto

do espaço urbano como um todo, na articulação da situação relativa dos lugares. Tal

articulação se expressará na desigualdade e heterogeneidade da paisagem urbana.

Assim, se tratando das formas de uso dos recursos disponibilizados pela cidade

verificam-se essas diferentes espacialidades, que expressam diversas formas, conteúdos e

funções, onde se utilizando dos termos de Lefebvre (2006) o Habitat e o Habitar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base em estudos deste caráter é possível refletir acerca do nível de atuação do

Estado nos diferentes espaços que compõe o todo urbano, sendo que conforme o nível de

atuação percebe-se uma dinâmica específica de cada espaço. Verifica-se que essa atuação

diferenciada aprofunda as diferenças entre os centros e as periferias no que se refere à

infraestrutura como, saneamento, segurança, lazer, entre outros; é ainda a privação dos

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direitos básicos do indivíduo que estão fortemente espraiados, sobretudo nas periferias e

favelas onde a pobreza e a exclusão social são fatores característicos desses espaços, não é a

pobreza o maior problema desses, mas sim a exclusão social e a privação a qual esses

indivíduos estão inseridos, fazendo com que esses se incluam de forma perversa

(CASTELLS, 1999).

Muitos estudos e medidas socioeducativas foram tomadas no sentido de combater a

violência entendendo suas ações de causa e efeito, sobretudo, nas grandes cidades. Sabe-se

que a violência não é um fenômeno da sociedade moderna, visto que sempre esteve presente

em toda a história da humanidade. Contudo, o que se constata é que a violência tem se

mostrado muito mais presente na vida cotidiana das sociedades urbanizadas.

Entende-se, especificamente, que as formas de ocupação e atuação do Estado não são

suficientes para conferir condições salubres de vida garantindo a dignidade, direitos e deveres

imutáveis, senão inalienáveis previstos em lei, capazes de diminuir a criminalidade e

violência, como observado a partir da análise multitemporal do comportamento das manchas

de crime nos bairros estudados.

Portanto, se destaca o importante papel da geografia no entendimento da dinâmica dos

bairros estudados, onde atrelada a ferramenta cartográfica, além de propor a discussão da

dinâmica territorial destes, quando se observa as ocorrências de homicídios e a sobreposição

com os níveis de ocupação do espaço, possibilita o debate de questões presentes no âmbito

social e sua respectiva espacialização trazendo a uma escala geográfica reduzida tais

implicações presentes nos territórios em questão, suscitando amplas discussões que

perpassam por estruturas socioeconômicas e político-institucional.

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