tempo e histÓria na china antiga

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Nesse artigo, discutiremos a questo da relao entre tempo e histria na China Antiga, baseando nossa anlise nos textos de Confcio (-551 a -479) e Sima Qian (-145 a -85), os dois principais fundadores da historiografia chinesa

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    TEMPO E HISTRIA NA CHINA ANTIGA

    Andr Bueno5

    RESUMO Nesse artigo, discutiremos a questo da relao entre tempo e histria na China Antiga, baseando nossa anlise nos textos de Confcio (-551 a -479) e Sima Qian (-145 a -85), os dois principais fundadores da historiografia chinesa. Palavras Chave: China Antiga Sinologia Historiografia Chinesa

    ABSTRACT In this article, we discuss the question of the relation between time and history in ancient China, basing our analysis on texts of Confucius (-551 a -479) and Sima Qian (-145 a -85), the two main founders of Chinese historiography. Keywords: Ancient China Sinology Chinese Historiography

    INTRODUO

    H um velho provrbio chins que diz: o povo chins tem uma mente histrica. A

    anlise dessa simples frase nos indica um fator crucial para o entendimento da

    mentalidade chinesa: a crena de que a histria o sustentculo da civilizao. Para a

    China tradicional, histria e cultura so praticamente sinnimas; todavia, a primeira

    delimita, no tempo, o momento (espao) das transformaes na segunda. Isso levaria os

    chineses, desde os tempos mais remotos, a tentarem uma srie de mtodos e formas de

    periodizar sua histria, buscando compreender e organizar sua dinmica de

    5 Prof. Adjunto de Histria da UNESPAR; Ps-Doutor em Histria pela UNIRIO.

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    transformao. Nesse texto, analisaremos o surgimento das frmulas de periodizao

    estabelecidas na China Antiga, principalmente em Confcio (-551 a -479) e Sima

    Qian (-145(?) a -85), os dois grandes inaugurados da histria chinesa, e cujas

    contribuies marcariam decisivamente a formao da historiografia e do pensamento

    chins.

    O TEMPO

    O conceito de Tempo, (shi) no pensamento chins antigo, bastante vago. Ele

    se articula a duas questes uma filosfica, outra lingustica que fazem parte da

    mentalidade chinesa. A primeira considerao, de ordem filosfica, a pouca importncia

    dada pelo pensamento chins ao verbo Ser (shi) como sentido de existncia. O mundo

    material era entendido como um mundo em mutao (yi), no qual a manifestao das

    coisas se dava de forma dinmica. A essencialidade de algo, pois, no se apresentava

    diretamente, mas era mediada pela forma com que se manifestava. Assim, a existncia

    era entendida como transitria, fludica; um dos verbos bsicos para defini-la, por

    exemplo, era Estar (zai). Algo no , algo est, num determinado contexto, dentro do

    mundo da mutao. Por causa disso, a preocupao sobre uma possvel essencialidade se

    dirige a investigao das leis naturais que regem essas manifestaes. Isso se projeta

    diretamente sobre a ideia de tempo. O tempo um momento em que as coisas esto de

    um modo especfico. Sabia-se que havia um padro de tempo em funo das estaes do

    ano, sempre repetidas em srie e em propriedades naturais. Marcaes lunares

    delimitavam os meses. Todavia, a preciso cronolgica no era uma preocupao

    fundamental para a maior parte da sociedade. Os camponeses ficavam apreensivos com a

    aproximao das pocas de plantio e colheita, de seca e de chuva, ou seja, momentos

    num ciclo anual perene. Entendido assim, a essncia do tempo seria um padro natural de

    repeties de momentos, de estados das coisas (LARRE, 1975). Proclamar um calendrio

    anual, que interpretasse esses sinais do tempo, acabou por tornar-se um atributo

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    imperial; cabia ao soberano compreender o ritmo (yun) das estaes e inteirar a

    sociedade sobre isso, justificando desse modo o seu papel de intermedirio entre o cu e

    a terra (como podemos ver claramente no captulo Yueling do Liji, ou

    Recordaes Culturais).

    Tal vagueza e impreciso so representadas, igualmente, pela questo do tempo

    verbal entre os chineses. Na antiguidade como at hoje no h, na lngua chinesa,

    flexo direta de um verbo para o passado ou futuro. Todos os verbos so sempre

    apresentados no tempo presente. Quando algum desejar expressar temporalmente, em

    chins, por exemplo: ontem fui escola, dir eu ontem ir escola. Quando algum diz:

    sou professor h dez anos, traduza-se eu professor ter dez anos ou eu dez anos ser

    professor. Pode-se usar partculas como guoou lepara indicar situaes j

    encerradas: eu fui professor (wo shi le laoshi, ), denota que essa estado j

    mudou, e no se mais docente. Um texto histrico chins se aproxima, portanto, de uma

    narrativa atemporal, e precisa estar situada no contexto. Outra traduo simples pode nos

    dar uma idia disso: Confcio dizer aos seus discpulos; eu estudar o passado (forma

    infinitiva), poderia ser traduzido como Confcio diz..., Confcio disse... ou Confcio

    dizia.... Tais ambigidades foraram os historiadores chineses a inserir o discurso histrico

    numa datao, no momento do tempo em que se desenrola. A histria, pois, um registro

    de momentos elucidativos sobre a compreenso da realidade, e disso resulta sua

    importncia fundamental.

    AS PRIMEIRAS DATAES E O CALENDRIO CHINS TRADICIONAL

    (NONGLI)

    Ento, quando foi que os chineses comearam a datar seus acontecimentos? As

    referncias mais antigas de que dispomos esto gravadas em carapaas de tartarugas e

    escpulas de bois e carneiros, do perodo Shang(-1523 a -1027). Elas eram utilizadas

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    com fins oraculares, e nelas vislumbramos a origem da escrita chinesa. O sistema de

    consulta consistia, basicamente, em escrever duas previses na superfcie do osso ou

    carapaa uma favorvel, outra no. Inseriam-se barras de metal aquecidas, que

    provocavam rachaduras no material. O curso das rachaduras em direo a uma das

    mensagens determinava o augrio. Um detalhe importante surge nesses materiais

    oraculares: as datas de consulta. Possivelmente com o objetivo de arquivar as predies, e

    montar um balano anual dos movimentos da natureza, em algum momento essas

    carapaas e ossos comearam a ser guardados, formando as enormes colees dos quais

    dispomos hoje. Nelas, eram indicados o ano(nian) e o ms(yue, ou lua) e por vezes,

    o dia. provvel que esses orculos fossem de uso particular de uma elite, e o sistema de

    datao era desconhecido de grande parte da populao. De fato, no temos nenhum

    documento da poca Shang que nos explique o funcionamento desse calendrio. Ele ser

    explicado, na verdade, pelos documentos histricos da dinastia Zhou(-1027 a -221),

    principalmente a partir da poca de Confcio (-551 a - 479). Esse mtodo de

    datao seria chamado de nongli.

    O sistema do calendrio tradicional, o nongli(ou, calendrio agrcola),

    organizava a periodizao do tempo em um ciclo de sessenta anos(Ganzhi, ou

    sistema troncos-ramos), que podia ser estendido pela insero de elementos

    complementares. Sua composio bsica era a seguinte:

    a) Os Troncos Celestes(Tiangan), em nmero de dez, e organizados na

    seguinte sequncia: jia (), yi (), bing (), ding (), wu (), ji (), geng (),

    xin (), ren () e gui ().

    b) Os Ramos Terrestres(Dizhi), em nmero de doze, e organizados na

    seguinte sequncia: zi (), chou (), yin (), mao (), chen (), si (), wu

    (), wei (), shen (), you (), xu () e hai ().

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    O ciclo era organizado da seguinte maneira: combinava-se um dos troncos

    celestes, em sequncia, com um ramo terrestre, para criar o nome do ano. Assim, os

    anos eram nomeados da seguinte forma: 1.1(jiazi), 2.2(yichou), 3.3(bingyin)

    at 10.10(guiyou), quando o ciclo continua em 1.11, 2.12, 3.1 [...] at

    a juno 10.12. Como a conjuno dual, dela resulta uma sequncia que s se

    repete a cada sessenta anos. Esse padro pode ser diversificado com a insero dos

    Xing(estados da matria, ou: metal, gua, madeira, terra e fogo) aos troncos celestes,

    e com a associao dos animais do zodaco chins (em nmero de doze) para

    corresponder aos ramos terrestres. Esse ciclo apresentava a vantagem de estabelecer

    dataes especficas para cada ano, afastando a possibilidade de confundir uma data em

    seis dcadas. Alm disso, registros de acontecimentos astronmicos podiam ser

    comparados e calculados com a data do ano, confirmando a ocorrncia de um

    determinado evento importante.

    Por outro lado, o sistema lunisolar de clculo dos meses necessitava de ajustes

    peridicos, que revelavam as falhas desse sistema. Os meses chineses eram baseados nas

    fases da lua, possuindo de 29 a 30 dias. O final de um ciclo de doze lunaes marca o incio

    de um novo ano, em sua primeira lua nova. O problema a defasagem de dias ao final de

    cada ano, que exigem o acrscimo de dias para manter a sincronia entre o ano solar e o

    lunar. O registro desses meses excedentes complicava, por vezes, a recuperao de uma

    data. Outro problema era a distncia temporal em relao aos acontecimentos: quanto

    mais antigos, maiores as chances de ocorrerem confuses ou coincidncias entre os anos

    de um ciclo (ASLAKSEN, 2010).

    A grande ironia que esse sistema de calendrio, chamado de agrcola ou

    campons, era desconhecido da maior parte da populao rural. Como vimos, a

    proclamao de um calendrio anual era atributo do imperador. Devemos nos perguntar:

    qual a necessidade de um sistema to complexo e elaborado como esse, numa sociedade

    em que a maioria do povo se preocupava com a repetio das estaes, e no com anos

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    especficos? Como vimos, o incio do nongli estava ligado aferio e preservao de

    orculos, bem como a predio das colheitas; contudo, durante a dinastia Zhou, o

    surgimento do gnero

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