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APRESENTAO: A Tcnica vocal, tal qual a conhecemos hoje, constitui-se enquanto o conjunto de estudos e mtodos aglutinadores de todas as informaes de carter terico e prtico pertinentes formao da voz humana, tendo sido tais estudos e mtodos, a princpio, baseados em aes especulativas, e, ultimamente, fundamentados pela experimentao cientfica. A voz humana se estendeu ao longo da histria tambm em funo da arte, desde que esta se tornou o meio sublimado de expresso das idias, sentimentos e concepes do homem. Em cada grande poca e em cada civilizao, houve o teatro e com ele, um idioma referente fora institudo. Falando ou cantando, o homem sempre executou o que chamamos de "AO VOCAL" sendo porem esta ao, durante muito tempo, realizada revelia do conhecimento cientfico, muito embora se saiba que investigaes sobre o fenmeno da voz humana j haviam sido realizadas pelos gregos, que no sculo V a.C., j observavam a anatomia humana e sua relao com a voz. Muitos cientistas dedicaram-se aos estudos do fenmeno vocal, mas a preocupao com a criao de mtodos que pudessem interferir a melhor na atuao funcional do aparelho fonador para a voz cantada s surgiria a partir da pera, quando apareceram os primeiros mtodos e as primeiras escolas de canto. Ainda assim, os resultados eram obtidos pela prtica, pois naquela poca no haviam meios que precisassem a ao especfica de tais mtodos sobre o aparelho vocal, no sendo possvel determinar os pontos de aplicao ou incidncia dos exerccios utilizados. Em outras palavras se sabia o que fazer, mas se ignorava o como e o por qu. Na Grcia antiga, sabemos que a arte de representar predominava sobre o canto e que muitos foram os que se destacaram na histria como grandes oradores, detentores de uma agilidade e eloqncia vocal incomparveis. J na antiga Roma, registros histricos apontam para o surgimento da primeira escola de canto criada pelo papa Silvestre, para o ensino do canto religioso, no sculo IV. Dos sculos XII a XV, uma nova msica cantada se espalha por toda a Europa atravs dos trovadores e menestris. A msica profana retratava a natureza humana em seu teor mais terreno, menos divino que o carter da msica litrgica da igreja, responsvel por todo o pensar e fazer musical da poca. Nos fins do sculo XVI, tudo estava pronto para receber uma nova forma musical: a pera. A msica sofria grandes transformaes, assim como toda a ordem estrutural na Europa. O canto no se fez exceo. A nova forma musical teatralizada exigia dos cantores qualidades vocais com maiores possibilidades. Ora, os teatros passaram a Ter platias cada vez maiores, a orquestra estava ampliada e sem os recursos da tecnologia eletrnica moderna (microfone) para amplificar as vozes dos cantores, tinham estes, para serem ouvidos, de suplantar a orquestra, criando assim pela necessidade, novas formas e mtodos para APOIAR e SUSTENTAR, AMPLIAR e PROJETAR, ARTICULAR e DOMINAR a voz, surgindo assim as mais variadas escolas de canto, destacando-se as escolas da Itlia e Alemanha.

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De l para c, muitas mudanas aconteceram. A racionalidade, a sociedade, o conhecimento foram evoluindo e com isso o que antes era mera especulao, passou a ser visto com os olhos da cincia e grandes pesquisas comearam a se desenvolver no campo da voz. Entendemos por TCNICA o conjunto de normas, mtodos, princpios e meios que regem e fundamentam um processo terico-prtico, numa relao simultnea e recproca. Vocal diz respeito voz, aquilo que serve para expressar por meio da voz. TCNICA VOCAL , portanto o processo terico-prtico que possibilita o conhecimento e a vivncia para se trabalhar a voz humana de forma SISTEMTICA, PERIDICA E GRADATIVA E CONSTANTE: Sistemtica - Todo estudo deve seguir uma ordem estrutural que envolva teoria e prtica, observando as propriedades de cada proposta de exerccio em funo do comportamento muscular e corporal do indivduo. Peridica Todo estudo deve ter uma periodicidade regular uma vez que a ao vocal uma aprendizagem de automatismo. Precisa ser praticada com freqncia regular para que se instaure o processo de condicionamento fsico e mental do indivduo. Gradativa Por ser aprendizagem de automatismo, exigir periodicidade regular, e por trabalhar o condicionamento muscular, se faz necessrio graduar as etapas do trabalho desenvolvido. Os exerccios e Propostas devem conter do menor ao mais elevado grau de dificuldade para agilizar o processo de execuo da ao vocal. Constante A atividade muscular no pode ser interrompida. Dever haver sempre um trabalho de manuteno para que o Tnus muscular esteja sempre se revitalizando. O esforo muscular rompe pequenas estruturas que durante o repouso se restabelecem, criando assim uma fibra mais resistente, com mais energia. Como cantar resultado de uma ao muscular conjunta e complexa, uma vez iniciado o trabalho, este no deve ser interrompido. Nos dias atuais a Tcnica Vocal ganha outras dimenses em seu campo de estudo. Muito diferente daquela praticada h sculos, na obscuridade da desinformao cientfica, hoje podem os cantores realizar um estudo bem mais detalhado e consciente de sua PRODUO VOCAL. J no se realiza uma AO VOCAL baseada na especulao, quase instintivamente, a partir da reproduo e/ou da imitao do professor de canto, como se fazia h bem pouco tempo. Os estudos atuais possibilitam o direcionamento pessoal do cantor sua voz, com a ORIENTAO do professor. Desde o laringoscpio de Manuel Garcia a electromiografia computadorizada dos anos 90, muito j se sabe sobre os fenmenos da voz humana, muito embora ainda haja tanto a descobrir. Com o surgimento da Fonoaudiologia - Estudo dos problemas pertinentes a voz e ao ouvido - e com o auxlio indispensvel da Otorrinolaringologia - rea da medicina que trata dos problemas ligados ao ouvido, nariz e garganta - podemos hoje conhecer bem melhor o chamado APARELHO FONADOR ou APARELHO VOCAL para, atravs da Tcnica, aprendermos a MANTER e DOMINAR a esplendida e maravilhosa ARTE DE CANTAR. .

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O QUE CANTAR? Se consultarmos o dicionrio vamos nos deparar com a seguinte definio: "Cantar expressar-se melodicamente seguindo ritmo e compasso musical Esta definio realmente muito vaga para definir esta ao que desencadeia aspectos significativos nas diversas reas da Educao Fsica, da Psicologia, da Filosofia, da Educao Artstica e Cultural, da Histria, da Educao Poltica, etc. Cantar est alm de uma simples definio que pode perfeitamente ser considerada limitada, uma vez que no compreende sua complexidade e seu carter multidisciplinar. Perde-se ao longo da histria o dia em que aquele homem pr-histrico percebeu que os sons que emitia num momento de dor, de luta ou num esforo, serviriam para externar seus sentimentos. Com o aprimoramento da sua inteligncia ele deixou de expressar-se somente por meio de rudos e gestos e assim, imitando os sons da natureza, o canto dos pssaros, o seu universo sonoro, ele foi criando paulatinamente, com movimentos buconasais, as primeiras slabas de uma linguagem onomatapica com um ritmo desordenado, surgindo assim a linguagem como meio de expresso. Os sons que antes emitiam constituram uma "msica" precursora da fala, razo pela qual se diga que o homem pode Ter cantado primeiro e falado depois. O ato de cantar, ento remonta os primrdios da humanidade. Sabemos historicamente que povos primitivos - aldeias e tribos da terra em diversas regies do mundo - utilizavam o canto em seus rituais e celebraes a divindades. O canto de guerra dos conquistadores, a cantor das danas egpcias, os cantos litrgicos dos fencios, assrios, hebreus, a msica profana dos trovadores e menestris da idade mdia, a polifonia das vozes renascentistas, o canto cheio de floridos do perodo barroco, o "bel canto" e a expressividade da pera, da msica clssica, os Lied, as canes impressionistas, a msica moderna, os cantores dos nossos dias, o canto popular, tudo caminha para cada vez mais suscitar no homem a capacidade de criar e recriar melodias para serem executadas por instrumentos e vozes, redimensionando assim a definio do que seja CANTAR. "E NO ENTANTO PRECISO CANTAR, MAIS QUE NUNCA PRECISO CANTAR, PRECISO CANTAR E ALEGRAR A CIDADE..." Cantar apenas por cantar gera uma ao alienada. preciso ter conscincia de COMO CANTAR, POR QUE cantar e PARA QUEM cantar. Neste primeiro momento nos deteremos no primeiro tpico - COMO CANTAR, sendo esse o objetivo primordial de nosso estudo. Assim, necessariamente teremos de considerar a tcnica vocal como conhecimento imprescindvel para aqueles que pretendem realizar uma atividade vocal IDEAL e CONSCIENTE, pois, se ela rene os processos, terico e prtico, consequentemente reunir tambm os pressupostos didtico-pedaggicos que orientam o saber e o fazer desta atividade. Poderemos ainda justificar a tcnica vocal enquanto necessidade se considerarmos a realidade brasileira no que diz respeito educao. Nas nossas escolas de 1 e 2 Graus no foi (e ainda no ) oferecido o ensino musical e, por conseguinte, no existe nenhum registro de que se tenha dado ateno ao estudo dos processos de formao e conservao da voz humana, enquanto que nas escolas dos pases mais desenvolvidos - os do chamado 1 mundo as crianas no s recebem orientao musical, como tambm desenvolvem uma ATIVIDADE VOCAL consciente, ou seja, fazem tcnica vocal, cantam em coral, etc. No Brasil, nem os professores sabem usar a voz, sendo estes os que mais procuram os

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consultrios mdicos e profissionais da voz em busca de solues para seus problemas vocais, decorrentes do total desconhecimento dos processos de formao e conservao da voz e assim, consequentemente por mau uso do aparelho vocal. Finalmente, poderemos justificar a tcnica vocal como disciplina indispensvel formao no s dos que desenvolvem diretamente a AO VOCAL - os chamados EXECUTANTES DIRETOS, tais como: Cantores, Atores, Radialistas, Oradores etc. - mas principalmente, como disciplina imprescindvel formao dos musicistas e outros profissionais da voz - os EXECUTANTES INDIRETOS (Professores de Canto, Fono