teatro amador como pedagogia cultural

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  • A Casa

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    T e a t r o a m a d o r c o m o p e d a g o g i a c u l t u r a l

    F E R R E I R A , T a s 1

    Resumo: Neste artigo, so tecidas consideraes sobre o teatro amador como pe-

    dagogia das artes cnicas, como lugar de constituio de artistas e de professores

    de Artes, de formao tica e esttica. Inicialmente, o conceito de teatro amador

    problematizado e, em seguida, aponta-se como os estudos das pedagogias cultu-

    rais nos possibilitam compreender o teatro amador como espao eminentemente

    pedaggico. Finalmente,abordam-se os modos de formao em teatro no Brasil

    contemporneo, atrelados ou no ao ensino formal e universitrio, e como o te-

    atro amador pode operar nestes percursos formativos de profissionais em Artes

    Cnicas, na esfera do ensino informal, como uma pedagogia cultural.

    Palavras-chave: : Teatro amador. Pedagogia cultural. Ensino de teatro.

    Resumen: En este artculo, hago consideraciones sobre el teatro de aficionados

    como pedagoga de las artes escenicas, como lugar de constitucin de artistas y

    profesores de arte, de formacin tica y esttica. Empezo cuestionando el con-

    cepto de teatro aficionado y sealo que los estudios de las pedagogas culturales

    nos permiten entender este teatro como un espacio eminentemente pedaggico.

    Concluyo el artculo comentando los modos de formacin en teatro en el Brasil

    contemporneo, vinculados a la educacin formal y la universidad o no, y cmo se

    puede utilizar el teatro aficionado en estas vas profesionales en las artes escni-

    cas, en el mbito de la educacin informal, ya que pedagoga cultural.

    Palabras-clave: Teatro aficionado . Pedagogias culturales . Ensino del teatro.

    1 As consideraes aqui tecidas fazem parte dos estudos e anlises preliminares de pesquisa desenvolvida na UFPel durante os anos de 2010 e 2011, intitulada O teatro amador como espao de formao teatral: um estudo de caso na Serra Gacha, que teve por objetivo analisar os percursos formativos de profissionais das artes cnicas da Serra Gacha (regio do estado do Rio Grande do Sul) oriundos de experincias com o teatro amador, compreendendo esse como uma pedagogia cultural e teatral. O resultado final desta pesquisa est apresentado em um artigo estendido com as anlises dos discursos dos depoentes, que est no prelo, no peridico Estudios Sobre Las Culturas Contemporneas, da Universidad de Colima, Mxico. Endereo para acesso revista: http://www.culturascontemporaneas.com/.

    2 Professora do curso de Teatro - Licenciatura da UFPel. Bacharel em Artes Cnicas e Mestre em Educao pela UFRGS. Doutoranda em Artes Cnicas na UFBa e na Universidade de Bolonha (Itlia). Tem se dedicado ao ensino e pesquisa nas reas de pedagogia do teatro, es-tudos de recepo, formao de professores, teatro infantil e histria e teoria do teatro. autora de diversos artigos, captulos, e coletneas. autora dos livros A escola no teatro e o teatro na escola e Teatro e dana nos anos iniciais (este ltimo com Maria Falkembach).

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    Partimos da premissa de que o caminho percorrido do teatro amador ao teatro profis-

    sional, na maioria das vezes, imbudo de uma importante dimenso pedaggica. Isso porque,

    percebendo a educao a partir de um ponto de vista das pedagogias culturais, aprende-se teatro

    por meio das vivncias teatrais s quais cada sujeito submetido em sua histria de vida, entre

    tantas outras instncias culturais que nos ensinam modos de ser e estar no mundo. O teatro ama-

    dor pode, portanto, ser encarado como um espao formativo na linguagem teatral.

    Comecemos pelo mais difcil: a tarefa de distinguir o teatro amador do teatro profissional.

    H pouca bibliografia disponvel em que este debate se coloca abertamente no Brasil. Fala-se em

    amadorismo geralmente com o cunho pejorativo de uma atividade menor, exercida por diletantes,

    por pessoas sem preparo tcnico, sujeitos esses sem uma educao formal na linguagem tea-

    tral, ou seja, aqueles que no passaram por escolas de teatro, universidades, conservatrios ou

    oficinas com diretores famosos (comuns nos dias de hoje). As prprias exigncias dos sindicatos

    dos artistas3 para que algum se profissionalize no campo das artes cnicas (receba uma DRT,

    nmero de registro profissional no Ministrio do Trabalho) so um tanto quanto arbitrrias e pas-

    sveis de questionamento.

    No entanto, perde-se de vista que, no Brasil, grande parte da arte ligada pesquisa de

    novas estticas e linguagens esteve, pelo menos durante todo o sculo XX, ligada aos movimen-

    tos amadores. Graas ao amadorismo vivo, ativo e sadio dos estudantes, de grupos ligados aos

    movimentos sindicais e das altas classes burguesas, as primeiras tentativas de profissionalizao

    de um dito teatro srio fizeram-se possveis em empreendimentos como o Teatro Brasileiro de

    Comdia, o Teatro Oficina, o Teatro de Arena e o Teatro de Equipe. E foi graas escola que o

    teatro amador e estudantil propiciou a esses jovens que se pde construir uma produo teatral

    no Brasil que se diferenciasse das comdias de costume (levadas cena por atores mticos e

    suas companhias) e dos grandiosos espetculos do teatro de revista. Destarte, contextualizando

    a histria do teatro brasileiro, percebemos, a priori, a importncia do teatro amador nos percur-

    sos formativos dos profissionais do teatro em grandes centros urbanos como So Paulo, Rio de

    Janeiro, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre, entre outros.

    O teatro amador poder ser considerado todo aquele teatro que acontece sem fins de

    subsistncia, ou seja, aquele teatro que envolve a dimenso simblica de gozo e vivncias para

    aqum das necessidades financeiras que regem o mercado cultural e os agentes que nele atuam.

    Coletivos de artistas que se unem com finalidade de jogar, de pesquisar ou de montar espetculos,

    3 Os profissionais e tcnicos das artes e espetculos no RS tm como representao sindical o SATED/RS.Maiores informaes sobre o sindicato e sobre a obteno do registro profissional podem ser obtidas no site:. Acesso em: 01 maio 2011.

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    bem como os grupos estudantis, sero considerados amadores na medida em que no forem

    fonte de subsistncia financeira dos sujeitos artistas neles envolvidos e no estiverem inseridos

    em circuitos comerciais de espetculos. Por conseguinte, atividades profissionais podero ser

    consideradas aquelas atividades ligadas s artes cnicas (seja na produo, atuao, docncia ou

    funes tcnicas) que envolvam fontes de renda e subsistncia dos sujeitos. Mas h outros pontos

    de vista no horizonte terico das artes cnicas.

    Recentemente, foi traduzido e publicado em portugus um importante artigo da pes-

    quisadora francesa Marie Madeleine Mervant-Roux (2012) que ressignifica esta compreenso do

    teatro amador como aquele que no serve para fins de subsistncia dos artistas nele envolvidos.

    Essa autora defende que o teatro amador caracteriza-se, prioritariamente, por no apresentar

    uma distino social ntida entre artistas e pblico, ou seja, as relaes socioculturais, afetivas e

    comunitrias entre as duas partes mnimas necessrias ao acontecimento teatral estariam inde-

    levelmente ligadas, mescladas entre si. Geralmente, os artistas do teatro amador conhecem os

    espectadores que compem seu pblico e vice-versa. H uma participao efetiva daquele grupo

    de artistas na vida social, poltica e afetiva daquela comunidade e de seus integrantes. O grupo

    de artistas, ou boa parte dele, pertenceria comunidade em questo, compartilharia de uma

    mesma cultura. Segundo Mervant-Roux, esta no diferenciao sociocultural e a relao comunal

    entre espectador e artista seriam as principais caractersticas daquilo que se conceitua no mundo

    contemporneo como teatro amador.

    No Brasil, se seguirmos as colocaes de Mervant-Roux, temos um amplo espectro de

    atividades cnicas que se enquadram nessa categorizao de teatro amador, j que aglutinadores

    de expresses e de ludicidade comunitria: os folguedos ou brinquedos folclricos e diversas

    manifestaes populares como bumba-meu-boi, maracatus, reisados, congados, sambas-rurais,

    pastoris, cavalo-marinho, entre tantos outros. No adentraremos na especificao dessas mani-

    festaes espetaculares brasileiras, pois no h espao neste artigo, mas cumpre notar que este

    tipo de teatro amador tambm atua fortemente como pedagogia cnica nas comunidades em

    que so realizados.

    As pedagogias culturais

    A compreenso de pedagogias culturais que baliza estes escritos amparada nos escri-

    tos e pesquisas no campo dos Estudos Culturais em Educao no Brasil. Ainda que saibamos da

    tentativa dessa rea de conhecimento de no se constituir como campo definido,e sim de situar-

    se como espao de passagem, de transdisciplinaridade, o modo como a universidade no Brasil

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    apropriou-se dos Estudos Culturais (oriundos da Universidade de Birmingham e que tm em

    Stuart Hall seu maior porta-voz) foi no sentido da institucionalizao.

    Demarcando o lugar pedaggico de onde falo neste artigo, trago as palavras de Tomaz

    Tadeu da Silva (2007) ao explicitar essa relao entre cultura e educao, constituindo as peda-

    gogias culturais trazidas pelo ttulo deste artigo.

    Uma das consequncias da virada culturalista na teorizao

    curricular consistiu na diminuio das fronteiras entre, de um

    lado, o conhecimento acadmico e escolar e, de outro, o con-

    hecimento cotidiano e o conhecimento da cultura de massa.

    Sob a tica dos Estudos Culturais, todo conhecimento, na me-

    dida em que se constitui num sistem