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  1. 1. TRANSFORMAES RECENTES DA MATRIZ BRASILEIRA DE GERAO DE ENERGIA ELTRICA CAUSAS E IMPACTOS PRINCIPAISOmar Alves Abbud1Marcio Tancredi2 Textos para DiscussoMaro 2010691 Jornalista e Consultor Legislativo do Senado Federal.2Engenheiro, Bacharel em Filosofia, Ps-Graduado em Gesto Empresarial e Consultor Legislativo doSenado Federal.
  2. 2. SENADO FEDERALCONSULTORIA LEGISLATIVABruno Dantas Consultor Geral O contedo deste trabalho de responsabilidade dos autores e noCONSULTORIA DE ORAMENTOSrepresenta posicionamento oficial do SenadoFederal.Fabio Gondim Pereira da Costa ConsultorGeralpermitidaareproduodestetextoedos dados contidos, desde que citada a fonte. Reprodues para fins comerciais so proibidas. Criado pelo Ato da Comisso Diretora n 09,de 2007, o Centro de Estudos da Consultoria doSenado Federal tem por objetivo aprofundar oentendimento de temas relevantes para a aoparlamentar.CENTRO DE ESTUDOSFernando B. Meneguin DiretorCONSELHO CIENTFICOCaetano Ernesto Pereira de AraujoFernando B. MeneguinLus Otvio Barroso da GraaLuiz Renato VieiraMarcos Jos MendesPaulo Springer de FreitasRaphael Borges Leal de SouzaContato:conlegestudos@senado.gov.brURL:http://www.senado.gov.br/conleg/centroaltosestudos1.htmlISSN 1983-0645
  3. 3. 1RESUMOO Brasil tem o maior potencial hidreltrico do mundo, metade do qual ainda por aproveitar.Entretanto, essa imensa reserva barata e ambientalmente segura est sendo cada vezmenos utilizada, passando o abastecimento a depender cada vez mais de fontes trmicas,caras e poluentes. O esforo feito a partir de 1995 para abrir o setor eltrico ao investimentoprivado, no geral bem sucedido, sofreu significativa soluo de continuidade entre 2003 e2006, funo do processo relativamente longo de reviso do modelo setorial empreendidopelo Governo. Na retomada, contudo, ficou evidente que as estratgias dos variados setorescontrrios soluo hidreltrica conseguiram, na prtica, estabelecer um veto branco, seno s usinas, ao menos construo de reservatrios, aos quais foram impostas severasrestries. Com isso, perde o Pas qualidade e eficincia em seu sistema de gerao deenergia eltrica; perdem as atividades econmicas ribeirinhas por no ver regularizados ofluxo dos rios; perdem os consumidores, que esto pagando mais pela energia; e perde omeio ambiente, em funo da crescente dependncia da termeletricidade. Urge discutir essevirtual veto branco feito s hidreltricas e aos seus reservatrios, registrando em corponormativo apropriado as definies por fim alcanadas, aps percorridos os caminhosregulares de tomada de deciso no mbito do Estado.ABSTRACTBrazil has the greatest hydroelectric energy potential in the world, half of which stillremains untapped. However, this vast reserve - cheap and environmentally safe - is beingless and less used. The energy supply is increasingly dependent on expensive and pollutingthermal sources. The efforts made since 1995 to open the electricity sector to privateinvestment generally with success - have been partly discontinued between 2003 and2006, due to the relatively lengthy governmental effort to review the sector model. Midstthe resumption, however, it became evident that the strategy of the various sectors againstthe hydro solution has resulted, actually, in a veiled veto, if not on hydro plants, at leaston the construction of reservoirs, which became subject to severe restrictions. As a result,the country loses quality and efficiency in its power generation system; the riversideeconomic activities lose with the non regularization of the waterflow; the consumers loseby paying more for energy; and the environment loses with the increasing dependency onthermal-generated electricity. There is an urgent need to discuss this virtual veiled vetoon dams and reservoirs through the State regular decision-making process to produceappropriate regulation for the national hydro potential use.
  4. 4. 2Resumo Executivo O Brasil tem o maior potencial hidreltrico do mundo, do qual a metade aindaest por aproveitar, o que lhe confere uma vantagem comparativa excepcional. Entretanto,essa imensa reserva, de carter renovvel, est sendo utilizada cada vez menos, enquanto oabastecimento de energia eltrica passa a depender cada vez mais de fontes trmicas, maiscaras e mais poluentes. Este trabalho uma tentativa de entender por que isso est ocorrendo, combase em fatos e dados, sempre que possvel, oriundos de fontes oficiais. Para isso, foinecessrio documentar e analisar a transformao que est ocorrendo na matriz de geraode energia eltrica brasileira, a partir de 2003, bem como examinar as polticas pblicas quenorteiam o setor eltrico e seu impacto sobre essa mudana. A falta de recursos interrompeu os investimentos governamentais no setor jna dcada de 1980. Alm disso, entre 1988, quando a Constituio abriu a possibilidade deconcesso de servios pblicos, e 1995, quando foram aprovadas as Leis ns. 8.987 e 9.074,nenhuma concesso nova para empreendimento de gerao de energia eltrica no Pas foioutorgada por falta de legislao que regulamentasse o dispositivo constitucional. Estavamlanadas as sementes da crise de abastecimento que se abateria sobre o Pas em 2001. Em 1995, foi finalmente aprovada a regulamentao que assumiu como um deseus objetivos principais permitir a participao da iniciativa privada no setor eltricobrasileiro, mecanismo considerado necessrio para financiar a expanso da capacidade degerao nacional. Foi implementada, tambm por essa poca, a venda das estatais do setor,objeto de intensa polmica. A primeira empreitada teve xito; a segunda, nem tanto, comose sabe. No total, entre 1996 e 2002, foram licitados ou leiloados aproveitamentoshidreltricos que somavam 12.144,6 MW uma mdia de 1.734 MW por ano. Nessemesmo perodo entraram em operao 12.319 MW oriundos de novas usinas hidreltricas,a includas, naturalmente, as que se encontravam em obras antes de 1996, numa mdia de1.759,9 MW por ano. Desse esforo resultou que entre 1996 e 2002 includa a energia deempreendimentos cujas obras j estavam em andamento em 1996 entraram em operao20.576 MW, o que representa uma mdia de 2.939,42 MW por ano.
  5. 5. 3 Nesse mesmo perodo, comearam a ser igualmente licitadas novas linhas detransmisso e estaes de transformao destinadas a ampliar e reforar a Rede Bsica deTransmisso. Entre 1996 e 2002, considerando-se as obras que j vinham em andamentoanteriormente a esse perodo, foram agregados novos 11.144 quilmetros de linhas Rede,o que contribuiu para aumentar a segurana do sistema. O Governo do Presidente Luiz Incio Lula da Silva assumiu em 2003 comalgumas preocupaes fundamentais: garantir o abastecimento do Pas, a universalizaodo servio de energia eltrica e a modicidade tarifria, alm de corrigir o que entendiacomo deficincias existentes no setor eltrico, algumas delas diagnosticadas pela Cmarade Gesto da Crise de Energia Eltrica, instituda em 2001. Mas as autoridades sabiam queprecisavam, simultaneamente, assegurar remunerao justa aos investidores privados, comoforma de preservar o aporte de recursos financeiros ao setor. Entretanto, o mero anncio da mudana da legislao, em fevereiro de 2003,gerou a imediata suspenso dos investimentos privados. Ningum, de fato, aceitou o riscode aportar recursos no setor sem conhecer em definitivo o contedo das regras quealterariam seu funcionamento. As Medidas Provisrias editadas em dezembro de 2003 s setransformaram em lei em 15 de maro de 2004, aps duros embates no Congresso. Esse efeito protelatrio, contudo, prolongou-se, no mnimo, at a metade de2004, quando a edio do Decreto n 5.163/2004, de 30 de julho, completou as alteraespretendidas pelo Governo, e os empresrios do setor puderam avaliar concretamente osentido e a extenso das mudanas, entre as quais constava a exigncia de obteno delicenciamento ambiental prvio ao lanamento dos processos licitatrios. O hiato entre os leiles de aproveitamentos hidreltricos foi deaproximadamente trs anos e cinco meses, no perodo de julho de 2002 a dezembro de2005, quando foram retomados de forma ainda tmida. Em conseqncia, foi inevitvel oaumento da participao de usinas trmicas na gerao de energia eltrica. Outro efeitonegativo advindo da delonga na licitao de aproveitamentos hidreltricos foi o despachoda gerao fora da ordem de mrito econmico, como se ver adiante. Vale registrar, ainda, que, no perodo entre 2003 e 2008, ou seja, jposteriormente mudana da legislao, entrou em operao um total de 20.767 MW, uma
  6. 6. 4mdia de 3.461 MW por ano. Desses, entretanto, somente 9.543,97 MW eram provenientesde fontes hidrulicas, o que significa uma mdia anual de 1.590 MW. Esto includosnesses totais os empreendimentos que j estavam em obras antes de 2003. significativo o fato de que todas as hidreltricas que entraram em operaoentre 2003 e 2008 foram justamente as que haviam sido leiloadas at julho de 2002. Issoilustra de modo eloqente o tempo que separa a licitao de uma usina hidreltrica da suaentrada em operao. Cabe observar, tambm, que as hidreltricas licitadas de 2003 para c sopraticamente todas a fio dgua ou com pouqussima capacidade de reservao. Com isso, aparticipao trmica vem se ampliando na matriz brasileira de energia eltrica, comimpactos previsveis sobre os preos e sobre o ambiente, com destaque para as emisses deGases de Efeito Estufa (GEE) pelas usinas trmicas. O crescimento da participao da gerao trmica na matriz brasileira degerao de energia eltrica no comeou, entretanto, nos leiles introduzidos pela novalegislao aprovada pelo Congresso em 2004. Ele data da instituio do ProgramaPrioritrio de Termeletricidade (PPT), cujos efeitos comeam a se manifestar j a partir de2001. As dificuldades de licitao de aproveitamentos hidreltricos a partir de 2003no podem ser atribudas exclusivamente introduo do Licenciamento Ambiental Prviocomo requisito para o leilo de novos aproveitamentos. Na verdade, implantou-se, no Pas,um clima desfavorvel ao licenciamento de usinas hidreltricas, do qual exemplo atual aUsina de Belo Monte