TCC Gustavo Nascimento - A prática do Som Direto: o caso do curta-metragem “Rosa e Benjamin”

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Este trabalho de concluso de curso pretende discutir os procedimentos utilizados pelo tcnico de som direto na captao para filmes de fico. dividido em dois captulos. O primeiro traz um breve contextualizao do ofcio. O segundo descreve os procedimentos adotados por mim na captao de som do curta-metragem Rosa e Benjamin.

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<p>Universidade de So Paulo Escola de Comunicaes e Artes Departamento de Cinema, Rdio e Televiso Curso Superior do Audiovisual</p> <p>A prtica do Som Direto: o caso do curta-metragem Rosa e Benjamin</p> <p>Gustavo Nascimento dos Santos Professor Orientador Joo Baptista Godoy de Souza</p> <p>So Paulo Janeiro/2009</p> <p>O Tcnico de Som desde o princpio um homem isolado Michel Chion, Le Cinem e ses mtiers</p> <p>2</p> <p>AGRADECIMENTOS</p> <p>Aos meus avs, aos meus pais e ao meu irmo Arthur, pelo apoio incondicional. Aos professores da ECA, que me acompanharam durante todo o perodo da graduao, e mais diretamente aos professores de som Joo Godoy e Eduardo Santos Mendes. Ao professor Eduardo Vicente, pela ateno j nos acrscimos da partida. Aos meus colegas de graduao, principalmente aqueles ingressantes em 2003, pelas conversas apaixonadas sobre cinema, pelo interesse compartilhado e por todos os penosos mas prazerosos trabalhos que realizamos juntos em muitos anos de vida acadmica. A Roney Freitas, pelas revises informais deste texto, pelos comentrios e indicaes bibliogrficas indispensveis. Fernanda Nascimento, pelo amor comum pelo som e pela parceria absoluta. Aos colegas Lucas Keese e Carolina Alckmin, pelo apoio na reta final desse trabalho. Fernando Henna, pelas ligaes de madrugada e paixo compartilhada pelo som. Gustavo Chiappeta, habilidoso microfonista do curta Rosa e Benjamin, mas nem tanto com a bola no p. Ao tcnico de som Gabriel Bi Gomes, pelas incontveis e pacientes horas de discusses acerca do som e do nosso trabalho. Ao estdio Input, pela acolhimento e pela confiana depositada em mim. Aos parceiros da Massa Real e do Insnia, por tudo. Flvia Ferreira, que me incentivou para que eu aprendesse italiano. Aos professores e colegas do Centro Sperimentale di Cinematografia, em especial aos professores Federico Savina e Sergio Bassetti, pela devoo ao som; e ao colega Omar Pareja, pela amizade sonora. A todos que, de alguma forma, me apontaram caminhos e fizeram parte da minha formao enquanto homem.</p> <p>3</p> <p>SUMRIO RESUMO INTRODUO 5 6 11 12 13 16 19 22 23 23 25 26 27 30 31 32 34 44 48 50</p> <p>CAPTULO 1: O TCNICO DE SOM DIRETO1.1 Um profissional de som 1.2 Um breve recuo histrico 1.3 O contexto atual: digitalizao e miniaturizao 1.4 Especificidade do som no set CAPITULO 2: A CAPTAO DE SOM DIRETO: ROSA E BENJAMIN 2.1 Consideraes iniciais 2.2 O som comea na pr-produo 2.3 Reunio com o diretor 2.4 A escolha da locao 2.5 Ferramentas de trabalho 2.6 A necessidade de outros equipamentos 2.7 Dilogo com a ps-produo 2.8 A Formao de equipe 2.9 Quando o som acontece 2.10 Os demais dias da filmagem CONSIDERAES FINAIS BIBLIOGRAFIA</p> <p>4</p> <p>RESUMO Este trabalho de concluso de curso pretende discutir os procedimentos utilizados pelo tcnico de som direto na captao para filmes de fico. dividido em dois captulos. O primeiro traz um breve contextualizao do ofcio. O segundo descreve os procedimentos adotados por mim na captao de som do curta-metragem Rosa e Benjamin.</p> <p>5</p> <p>INTRODUO</p> <p>Desde que iniciei o curso de graduao, fui naturalmente me declinando em direo ao som, intimamente induzido, em parte pela curiosidade, por um forte interesse pessoal. Num dos primeiros exerccios sugeridos em aula fomos desafiados a construir uma narrativa utilizando apenas rudos, sons no-verbais. Isso nos colocou em contato pela primeira vez com um sistema de gravao profissional: um j antigo e robusto Nagra1, um microfone Sennheiser MKH4162</p> <p>e um surrado fone</p> <p>Beyerdynamic DT483. Surpreendi-me, nessas experimentaes, com as sensaes ao escutar o mundo atravs daquele aparato. O rudos dos passos, o timbre da minha prpria voz, o simples som da gua escorrendo da torneira, esses sons quando escutados atravs do microfone tinham uma potncia no experimentada na acstica do mundo real. Efeito da compresso/descompresso das molculas do ar, mas com uma vivacidade mpar, uma clareza distinta. Eram mais penetrantes, cristalinos, eram outros. E depois de fixados na fita magntica, e posteriormente reproduzidos, ressurgiam ali, com a mesma vibrao, potncia, intensidade. Fiquei fascinado pelo seu aspecto ttil. Puro romantismo, mas provei com os ouvidos o mesmo deleite que um fotgrafo tem ao acionar pela primeira vez uma cmera 35mm e aprisionar imagens num negativo. Esse poder de capturar os sons alimentava um desejo ntimo em torn-los mais belos, como um escultor que talha a madeira dando-lhe outra forma. E se por um lado essa noo do som como potencialidade expressiva foi uma espcie de propulsor subjetivo para continuar me dedicando a essa matria, por outro havia uma demanda1</p> <p>Gravador porttil de rolo desenvolvido pelo polons Stefan Kudelski em 1952. Registra o som em fita magntica 1/4. Em 1957, o lanamento Nagra III passa a ser utilizado de maneira corrente no registro sincrnico para Cinema e Televiso. 2 O MKH416 produzido pela empresa alem Sennheiser desde a dcada de 1970. Entrou no mercado e popularizou-se por sua resistncia, tima relao sinal/rudo e, claro, pelo seu som. Sua sonoridade forte vem de um truque na sua construo: um pequeno ganho nas mdias-altas (nem to pequeno assim, so quase 5dBs) na regio entre 5kHz e 13kHz. 3 Lanado pela empresa alem Beyerdynamic em 1937, foi o primeiro fone de ouvido dinmico desenvolvido. Largamente utilizado dentro da indstria cinematogrfica ainda produzido com seu design original.</p> <p>6</p> <p>crescente entre os colegas de algum que se dedicasse ao manuseio daqueles equipamentos, algum disposto a desempenhar tal papel - nem sempre to sedutor, algumas vezes aborrecido - pois dentre as carreiras possveis uma minoria que faz do som seu principal objeto de interesse. Aos poucos, e de maneira espontnea, o interesse transformou-se em oportunidades e liguei-me a projetos como tcnico de som direto com relativa rapidez, e eu, desembaraadamente, fui me dedicando a execuo desse ofcio e me preparando para cada desafio apresentado. Entre as aulas especficas de especializao em som, iniciadas no quarto semestre letivo, onde nos dividamos exercitando tanto as tcnicas de captao quanto as artimanhas da edio de som, a primeira experincia foi como tcnico, no exerccio curricular A Experincia, de Jlio Taubkin e Pedro Arantes. Rodado em 16mm no estdio da ECA, dividi a responsabilidade com Fabiana Ota. Apenas esses dois dias de filmagem, um como tcnico e outro como microfonista, foram determinantes para decidir que era aquele o caminho a ser trilhado. As oportunidades seguintes surgiram tambm no meio acadmico, posteriormente, nos trabalhos de concluso de curso de turmas mais avanadas, como os documentrios Kantuta, de Rodrigo Leite e Jnior e Alessa, de Samir Cheida. Nessa etapa, nas preparaes para cada projeto, eu reservava horas a perder de vista na sala da tcnica a fuar os armrios e investigar o que havia disposio no departamento, dentre os equipamentos e apetrechos de som. Essas tardes de testes, sempre com a tutela paciente do funcionrio do departamento, Guido Agovino, serviram como um valioso laboratrio, experimentando e familiarizando-me com aquelas novas ferramentas. A intimidade com os cabos, por exemplo, faculdade fundamental para o bom andamento do trabalho do tcnico de som, foi alcanada fora de numerosas prticas. Nessas ocasies, que aos poucos fui me dando conta do carter essencialmente emprico do aprendizado dessa arte, que alm do conhecimento tcnico, exige destrezas manuais. Depois, por uma ausncia de alunos interessados por som direto naquele momento, fui indicado a alguns TCCs das turmas que se formavam na FAAP. Trabalhei como tcnico de som de Rascunho de Pssaro, de Otvio Pacheco; Alfaville 2007d.C., de Paulo Caruso; e Vero, de Luiz Gustavo Cruz. Nesses</p> <p>7</p> <p>trabalhos emergiram novos desafios que se mostraram um penoso aprendizado para alm da tcnica, como por exemplo, aqueles relacionados natureza diplomtica do trabalho do som no set de filmagem, assunto que ser retomado adiante. Participei tambm como microfonista e editor de som no curta-metragem Esconde-esconde, de lvaro Furloni, parte do projeto Sal Grosso 2006, promovido pelo Festival de Cinema Universitrio, que reune estudantes de cinema e audiovisual de diversas instituies. Acumuladas essas experincias acadmicas, foram aos poucos surgindo oportunidades profissionais no mercado, como nos documentrios do projeto Histria dos Bairros de So Paulo, com fomento da Secretaria de Cultura da Prefeitura de So Paulo: O Bom Retiro o mundo, de Andr Klotzel, sobre a diversidade do tradicional bairro imigrante paulistano, e Perdizes, sobre o bairro de mesmo nome, na zona oeste da cidade. Mais dois trabalhos importantes no campo da fico: o mdia-metragem Cana Quente, de Luiz Alberto Zakir, rodado na cidade de Iep, no interior de So Paulo, e o curta Bicho, de Vitor Brant, onde atuei como microfonista e editor de som. No ltimo ano da minha turma, de volta ao meio acadmico, atuei como tcnico de dois Trabalhos de Concluso de Curso: o curta-metragem de fico A Guerra de Arturo, de Jlio Taubkin e Pedro Arantes e o documentrio Velhas Virgens Atrs de Cerveja e Mulher, de Angelo Ravazi. Realizados dentro do mbito universitrio, ambos foram excelente espao de aprendizado. Em 2007, fui contemplado com uma bolsa oferecida pela Unio Latina para o curso Corso di aprrofondimento sulla ripresa del suono del film, especficamente sobre som direto, ministrado no Centro Sperimentale de Cinematografia, em Roma. Um ms intenso de aprendizado e novos horizontes. O ano de 2008 foi praticamente dedicado a projetos profissionais de no-fico: o documentrio Teu canto de praia, de Manuela Sobral, sobre as razes do fandango, gnero musical praticado no litoral paranaense; o documentrio Paraguay: rio de olvido, caudal de esperanzas, sobre as eleies do ex-bispo Fernando Lugo para a presidncia do Paraguai; Across the Amazon, uma srie de 6 programas para o National Geographic Channel; e o documentrio Route 66, sobre a famosa 8</p> <p>rodovia americana. Ainda trabalhei em mais dois curtas-metragens de fico: Rosa e Benjamin, de Cleber Eduardo e Ilana Feldman e No pas do futebol, de Andr Queiroz e Thas Bologna. Enquanto vivenciava essa gama de projetos com propostas, prticas, oramentos e mtodos distintos, foi inevitvel que uma srie de aprendizados essencialmente empricos se acumulassem. Ao longo dessa trajetria, surgiram sensibilidades, tambm questionamentos e reflexes, fruto de experincias que s se apresentam ali: com os microfones apontados, com o fone nos ouvidos, no campo de batalha. Uma sntese dessas reflexes se expressam nas seguintes questes: qual o papel do tcnico de som? Quais os parametros para o julgamento da qualidade de um som, por exemplo? Qual a melhor maneira de executar o trabalho? Qual postura assumir num set? Como proceder diante dos problemas? Quais as responsabilidades? Como deve ser a relao com o diretor ou produtor? E com o resto da equipe? Tcnico de som um nome adequado a essa tarefa? Seria mesmo um trabalho meramente tcnico? Teria o tcnico de som qualquer papel criativo? Quando devo gravar coberturas de som? Em meio a essa perguntas fui em busca de algum embasamento terico e me deparei com uma bibliografia escassa. Descobri que poucos so os escritos que tratam especificamente da prtica do Som Direto. Os livros dedicados ao assunto, e posso citar Practial Art of Motion Picture Sound ou Sound for Film and Television como exemplos, so basicamente voltados para os aspectos tcnicos. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho descrever os procedimentos adotados na captao do som direto do curta-metragem Rosa e Benjamin. A escolha por um texto de cunho pessoal pretende sobretudo dirigir a ateno s circunstncias cotidianas do ofcio. No pretendo me ater a questes puramente tcnicas abordadas por manuais prticos, a no ser a partir de casos especficos vivenciados na prtica do trabalho. Essa eleio, que supostamente pode parecer arbitrria, buscou selecionar um caso mais recente, onde tive um contato estreito com o projeto, desde a fase da pr-produo. Pude tambm aplicar parte desse conhecimento emprico acumulado e contar com um rol mais amplo de equipamentos, comparando-se com projetos 9</p> <p>realizados no mbito acadmico. Apresento aqui brevemente o projeto: O curta-metragem Rosa e Benjamin, escrito por Cleber Eduardo e Ilana Feldman. Produzido pela SuperFilmes, foi rodado em 35mm, entre 24 e 29 de novembro de 2008. O filme retrata um perodo da vida do casal Rosa e Benjamin. Moradores de uma casa no bairro do Jabaquara, em So Paulo, eles tm o cotidiano abalado tanto pela mudana de um novo vizinho, Seu Alfredo, para o sobrado da frente. Isso motivo de um forte cime de Benjamin. No entanto, os rumores da construo de um novo prdio podem desalojar Seu Alfredo. Em termos de estruturao, esse trabalho composto por dois captulos e um DVD anexo. No primeiro captulo, abordo o ofcio do tcnico de som com um breve percurso histrico e aponto as novas perspectivas tecnolgicas. No segundo, me debruo sobre os procedimentos adotados na pr-produo e mtodos executados na filmagem. O DVD anexo contm as seqncias comentadas no texto e permite escutar o som de cada microfone e/ou uma mixagem dos canais.</p> <p>10</p> <p>CAPTULO 1: O TCNICO DE SOM DIRETO</p> <p>11</p> <p>1.1 UM PROFISSIONAL DE SOM O termo que designa em portugus, tanto no Brasil como em Portugal, o especialista responsvel pela captao de som nas filmagens cinematogrficas marcadamente acentua seu papel de executor de tcnicas: tcnico de som direto. Na lngua inglesa, o termo sound mixer, mais usual nos EUA, remonta aos processos de gravao em suporte tico mono quando era preciso misturar os sinais de diversos microfones numa s pista. Na Inglaterra, se afirmou o termo sound recordist. Em francs, manteve-se o termo ingenieur du son, que era usado tambm em portugus no incio do cinema sonoro. Em castelhano, cunhou-se o simptico sonidista. Em italiano, fonico di presa diretta. Independente do idioma, o tcnico de som direto lida, num primeiro momento, com noes no ligadas diretamente ao cinema, mas a outros domnios que so da fsica e da eletrnica. Nesse ponto, ele se confronta com a busca de qualidade que se d no mbito da engenharia do som. Nesse conjunto de conhecimentos elementares esto contidas as noes bsicas: range dinmico4, frequncia 5, resoluo de udio digital6, acstica 7, diretividade dos microfones8</p> <p>, cancelamento de fase</p> <p>9</p> <p>, uso de</p> <p>filtros10. No entanto, esses fundamentos, embora pressupostos bsicos ao tcnico de som direto, no sero o foco desse trabalho e s viro tona quando necessrios.</p> <p>4</p> <p>Range dinmico se refere a gama de intensidades que um equipamento ou dispositivo pode distinguir ou produzir, isto , a faixa de intensidades compreendida entre os sinais mais fracos e mais fortes que podem ser manipulados pelo equipamento. A faixa dinmica do ouvido humano pode ser considerada a gama de intensidades que podemos perceber, desde o limiar da audio (sons muito fracos) at o limiar da dor (sons muito fortes) 5 Freqncia um dos parametros fundamentais do som, determinado pela quantidade de oscilaes da onda sonora dentro de um int...</p>