Sumários Dos Capítulos VI a X

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Direito

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    VI DIREITO AO BOM NOME

    A. Bases jurdicas

    1. Direito internacional.

    O direito ao bom nome est presente em todas as modernas declaraes de direitos. Artigo 12 da Declarao Universal dos Direitos do Homem: Nin-gum sofrer ataques sua honra e reputao. Ar-tigo 17 do Pacto internacional sobre os Direitos Ci-vis e Polticos: Ningum ser objecto de atentados ilegais sua honra e reputao. Artigo 10 da Con-veno Europeia dos Direitos do Homem: O exerc-cio [da liberdade de expresso] pode ser submetido a certas formalidades, condies, restries ou san-es, previstas na lei, que constituam providncia necessrias, numa sociedade democrtica, para (...) a proteco da honra ou dos direitos de outrem.

    2. Constituio portuguesa.

    Artigo 26, n 1, da Constituio: A todos so reco-nhecidos os direitos (...) ao bom nome e reputao (...).

    3. Direito criminal.

    O direito ao bom nome entra frequentemente em conflito com a liberdade de expresso e o direito informao. O exerccio destes ltimos direitos, quando envolva ofensa do bom nome de outra pes-soa, constitui uma infraco, um acto ilcito, um abuso de liberdade de imprensa. Esta infraco, como todas as demais que forem cometidas no uso da liberdade de expresso e informao, fica sub-metida, segundo o artigo 37 da Constituio, aos princpios gerais do direito criminal.

    O Cdigo Penal protege o direito ao bom nome atravs dos crimes contra a honra: difamao, in-jria, calnia, ofensa da memria de pessoa falecida e ofensa de pessoa colectiva (artigos 180 a 189). A definio destes crimes contm os critrios legais de equilbrio entre o direito ao bom nome e a liber-dade de expresso e informao.

    4. Direito civil.

    A ofensa do direito ao bom nome pode ter outras consequncias alm das consequncias penais. O C-digo Civil regula a responsabilidade civil por afirma-o ou difuso de um facto capaz de prejudicar o cr-dito ou o bom nome de outrem (artigo 484). A res-ponsabilidade civil traduz-se no pagamento de uma indemnizao.

    5. Direito disciplinar.

    A ofensa do direito ao bom nome tambm pode ter consequncias disciplinares. Os deveres profissionais relacionados com o direito ao bom nome so o dever de no acusar sem provas e o dever de respeitar a presuno de inocncia.

    B. O que significa o bom nome

    1. O conceito penal de honra.

    As incriminaes penais relacionadas com a protec-o do bom nome so genericamente designadas como crimes contra a honra. A honra que o Cdi-go Penal protege no a auto-estima, a convico que cada um tem dos seus prprios mritos e virtu-des. a imagem moral que as pessoas projectam aos olhos dos outros. a sua boa fama ou boa reputao, a considerao social de que usufruem.

    2. Verdade e aparncia.

    Em princpio, a boa reputao protegida como um facto objectivo, fundado na percepo social do mri-to de cada pessoa. Para o comum dos cidados, a proteco do bom nome no tem de ser justificada, caso a caso, com a prova de que merecida. O direito ao bom nome no pressupe, portanto, uma corres-pondncia perfeita entre a imagem pblica da pessoa e cada um dos seus actos. A lei parte do princpio de que a reputao reflecte, tendencialmente, os mri-tos reais das pessoas, ainda que elas possam ocasio-nalmente desviar-se dos padres de conduta em que se funda a sua considerao social. Como regra, a lei faz prevalecer a paz e harmonia social sobre a trans-parncia pblica dos actos de cada pessoa.

    A consequncia mais importante desta concepo a de que os crimes contra a honra (com excepo da

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    ofensa a pessoa colectiva) no se destinam a punir apenas as ofensas feitas com base em factos falsos. Todas as ofensas da honra so potencialmente con-sideradas como crime, ou seja, como um abuso da liberdade de expresso, independentemente de os factos divulgados divulgados serem ou no verdade. A eventual falsidade desses factos, quando for co-nhecida e consciente por parte de quem os divulga, tem apenas o efeito de transformar o crime de di-famao ou injria numa crime de calnia, que so-fre penas mais graves.

    3. Outros factores relevantes.

    A proteco do bom nome pode afastar-se do me-recimento individual tambm noutras circunstn-cias. Assim, nomeadamente, quando a honra de uma pessoa incorpora factores de respeitabilidade decorrentes da profisso ou da participao no exerccio colectivo de actividades meritrias.

    O bom nome no depende da notoriedade indivi-dual. Qualquer pessoa pode reclamar a defesa da honra, mesmo que a sua vida no tenha projeco pblica. Basta que a sua honorabilidade tenha sido posta em causa perante terceiros, ainda que em cr-culos sociais muito restritos.

    Os factores de m reputao podem influenciar a proteco da honra, seja em consequncia de com-portamentos individuais, seja por efeito do despres-tgio social de certos grupos ou actividades. Mas o princpio da dignidade da pessoa humana exige um mnimo de considerao devido a todos.

    C. Como se ofende o bom nome

    1. Regra geral.

    A ofensa da honra atravs da comunicao social pode verificar-se por todas as formas de expresso escrita e audiovisual. A gravidade da ofensa depen-de do grau de difuso de cada meio de comunica-o, da sua credibilidade e do destaque dado ao texto ou imagem.

    2. Juzos genricos e suspeitas.

    Alm da imputao de factos concretos, o Cdigo Penal incrimina tambm as ofensas atravs de ju-

    zos genricos e meras suspeitas. Muitas vezes, as suspeitas e insinuaes so mais perigosas do que as afirmaes peremptrias, porque tornam mais difcil a defesa da pessoa atingida. A publicao de boatos e rumores deve ser encarada com o maior cuidado no jornalismo, porque a sua difuso pode tornar-se uma causa autnoma da ofensa da honra. A publicao das concluses de uma investigao mal conduzida ou prematuramente divulgada pode ter o mesmo efeito, com a consequente responsabilidade dos jor-nalistas e dos rgos de comunicao.

    3. Reproduo de ofensas.

    Segundo os princpios gerais do Cdigo Penal, a re-produo da ofensa vale tambm como ofensa. Tanto difamao afirmar como repetir e divulgar. Mas es-te princpio coloca um problema comunicao soci-al, na medida em que uma afirmao lesiva da honra pode ser, em si mesma, notcia. Da que a Lei de Im-prensa tenha estabelecido uma regra especial (artigo 31), que isenta de responsabilidade as citaes das declaraes feitas por terceiros, desde que o autor das declaraes seja devidamente identificado e o contedo das declaraes seja correctamente repro-duzido. A Lei de Imprensa pe ainda como condio que as declaraes reproduzidas no instiguem pr-tica de um crime, mas no exige (o que seria razo-vel) que as declaraes tenham um interesse infor-mativo legtimo.

    4. Ofensas da honra e liberdade de crtica.

    A proteco da honra ou bom nome no pode impe-dir o debate e o exerccio da crtica, mesmo quando envolvam apreciaes pessoais. A crtica de arte, ci-entfica, literria, desportiva, etc., no deve ser quali-ficada como ofensa da honra, ainda que diminua o prestgio e a credibilidade da pessoa criticada.

    5. Princpio da proporcionalidade.

    Os hbitos de linguagem e os estilos de comunicao devem ser tidos em conta para medir a existncia ou a gravidade das ofensas ao bom nome. Do mesmo modo, o uso de expresses contundentes pode legi-timar, at certo ponto, a utilizao de uma linguagem ou de um tom semelhante na resposta (princpio da proporcionalidade).

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    D. A verdade legitima nalguns casos a ofensa?

    1. Regra geral.

    Como ficou dito acima, na difamao e na injria (e tambm nas ofensas memria de pessoa faleci-da), o objectivo da lei no punir a mentira ou a falsidade, mas sim a perturbao social causada pe-las ofensas. Por isso, a veracidade das afirmaes no afasta a responsabilidade criminal. O mesmo se passa com a responsabilidade civil por ofensa do crdito e do bom nome. A falsidade s punida no mbito do crime de calnia e no mbito do crime de ofensa autoridade pblica. Nestes dois casos, os factos imputados tm de ser, alm de ofensivos da honra, tambm inverdicos.

    2. A exceptio veritatis (excepo da verdade).

    A veracidade factual duma afirmao pode em cer-tos casos afastar o crime de difamao e injria. Se-gundo o artigo 180 do CP, necessrio, porm, que se preencha uma condio fundamental: que a imputao dos factos desonrosos, e tidos por ver-dadeiros, seja feita para realizar interesses legti-mos.

    Os interesses legtimos tanto podem ser de nature-za privada como de natureza pblica. Para a comu-nicao social, interessa considerar o interesse p-blico da informao. A divulgao de factos lesivos do direito ao bom nome fica isenta de penalizao criminal se se demonstrar que ela justificada por um legtimo interesse noticioso luz do direito in-formao. Os critrios para avaliar o interesse leg-timo das notcias potencialmente difamatrias tm, portanto, de ser definidos com base no direito de informar, consagrado no artigo 37 da Constituio.

    3. Limites da excepo da verdade.

    A justificao atravs da prova da verdade no pode ser invocada quando estejam em causa factos inse-ridos na intimidade da vida privada de qualquer pessoa. Esta regra uma consequncia lgica da proteco do direito reserva da vida privada, tambm ele um direito fundamental protegido pela Constituio. Mas a regra vai um pouco mais alm do que resultaria da simples aplicao das normas sobre este direito (artigo 192 do CP), porque a im-

    putao de factos desonrosos da vida privada proi-bida ainda que haja um interesse pblico legtimo e relevante na sua divulgao.

    A partir da reforma do Cdigo Penal de 1995, deixou de ser proibida a divulgao de factos criminosos at condenao judicial definitiva. Esta proibio era mui-to limitativa do jornalismo de investigao e do jor-nalismo judicirio. O nico limite a este tipo de not-cias o respeito da presuno de inocncia.

    4. A convico da verdade.

    A verdade dos factos pode ser substituda pela con-vico, baseada em fundamento srio (boa f), de que os factos noticiados so verdadeiros. A boa f dos jornalistas consiste, essencialmente, no cumpri-mento dos deveres de cuidado exigveis na elabora-o das notcias: investigao diligente (pesquisa, cruzamento e avaliao crtica das fontes), audio do visado.

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    VII DIREITO RESERVA DA VIDA PRIVADA

    A. Princpios gerais

    1. A proteco da vida privada como direito funda-mental.

    Artigo 26 da Constituio. Artigo 12 da Declarao Universal dos Direitos do Homem. Artigo 8 da Conveno Europeia dos Direitos do Homem.

    2. Proteco criminal.

    Violao de domiclio ou perturbao da vida priva-da e introduo em lugar vedado ao pblico (artigos 190 e 191 do Cdigo Penal). Devassa da vida privada e devassa por meio de in-formtica (artigos 192 e 193). Violao de correspondncia e de telecomunica-es (artigo 194). Violao de segredo e aproveitamente indevido de segredo (artigos 195 e 196).

    3. Tutela civil.

    Artigo 80 do Cdigo Civil: Todos devem guardar reserva quanto intimidade da vida privada de ou-trem

    4. Disciplina profissional.

    Artigo 14, n 2, alnea h), do Estatuto do Jornalista: dever dos jornalistas preservar, salvo razes de incontestvel interesse pblico, a reserva da intim-idade, bem como respeitar a privacidade de acordo com a natureza do caso e a condio das pessoas.

    B. Conceito de vida privada

    1. A vida privada a parte da vida de cada pessoa que os outros no tm o direito de conhecer ou dar a conhecer. So os factos que cada um tem direito de guardar para si, ou de partilhar apenas com certas pessoas por si escolhidas. Que factos so esses?

    Nenhuma lei os enumera. O conceito de vida privada varia em funo das pocas histricas e da cultura de cada povo.

    2. O mundo moderno oferece alguns aspectos contras-tantes. Suprimiu as formas de coabitao alargada e de vizinhana ou proximidade comunitria prprias da sociedade rural. Deste ponto de vista, o espao de vida individual, invisvel aos olhos de outras pessoas que no sejam da famlia imediata (se esta existir), cresceu consideravelmente. Mas ao mesmo tempo aumentaram tambm os meios de comunicao distncia, os meios tcnicos de devassa da vida al-heia, os fenmenos de exposio pessoal a pblicos vastos e annimos, a possibilidade de concentrao e manipulao de dados pessoais tudo factores que enfraquecem a fronteira da privacidade e tiram ni-tidez aos seus contornos.

    C. Fundamento da proteco da vida privada

    1. Proteco do segredo.

    Que sentido tem o direito reserva da vida privada? Para alguns, tem o sentido de permitir a cada um guardar na medida do possvel o segredo da vida pes-soal, isolando-se e mantendo afastada a presena dos outros (o direito de estar s). Seria uma forma de compensar e atenuar o peso, s vezes excessivo, da sociabilidade humana, que traz consigo a necessidade de compromisso, de justificao de condutas, de preservao de aparncias. Mas esta maneira de en-tender o direito reserva da vida privada baseia-se numa distino demasiado polarizada entre segredo e publicidade, entre solido e sociabilidade.

    2. Proteco do pudor.

    Tambm se pode procurar o sentido do direito reserva da vida privada no sentimento natural de pu-dor e embarao que suscita, no comum das pessoas, a exposio de certos aspectos da sua vida pessoal. Esta explicao com certeza verdadeira para os fac-tos da vida ntima propriamente dita, que se desen-rolam por detrs de portas fechadas, dentro da hab-itao de cada um ou noutros locais protegidos. Mas deixa de fora do conceito de vida privada outros as-pectos da vida pessoal e profissional que podem legi-timamente ser inseridos nesse conceito.

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    3. Proteco da liberdade pessoal.

    Uma outra forma de caracterizar o direito reserva da vida privada consiste em ver nele uma forma de proteco da liberdade pessoal. O relacionamento social no mundo contemporneo cada vez mais determinado por opes individuais, que determi-nam graus de exposio pblica muito variveis. Desde os estilos de vida mais discretos, quase soli-trios, at aos casos extremos de visibilidade meditica, h um nmero muito grande de possi-bilidades que dependem, em certa medida, de decises livremente tomadas. Cada um pode, assim, construir a sua privacidade com maior ou menor ex-tenso e com as gradaes que entender, alargando ou restringindo o crculo das pessoas com quem quer partilhar os vrios aspectos da sua vida. Desde que no estejamos no terreno dos factos que a lei deseja manter no conhecimento de todos (a iden-tidade, a filiao, o sexo, o estado civil, por exem-plo, ou em geral todos os factos sujeitos a registo pblico),...

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