Sumários Desenvolvidos de Filosofia do Direito

Download Sumários Desenvolvidos de Filosofia do Direito

Post on 10-Feb-2017

118 views

Category:

Law

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 1

    Conselho para o jovem aprendiz de Filosofia

    Ao jovem aprendiz de Filosofia

    Rogo que se no apresse a adoptar solues, que no leia obra de uma so

    escola ou tendncia, que procure compreender as argumentaes de todas e que

    queira tomar como primrio escopo a singela faanha de compreender os problemas,

    d compreende-los bem, de os compreender a fundo. Ora o fundamental da filosofia

    de facto a critica.

    Devera pois a iniciao filosfica assumir um carcter essencialmente crtico e

    consistir num debate dos problemas bsicos que no sejam dominados pelo intuito

    dogmtico cerrar as portas s discusses ulteriores; seja a filosofia para o aprendiz de

    filosofia no uma ilha de concluses adoptadas, sim uma actividade de elucidao dos

    problemas; essa actividade o que realmente importa, e no o citar e propagandear

    concluses. Pode ser muito til para a vida pratica o simples conhecimento do

    enunciado de uns tantos teoremas de matemtica, porm no tem nisso sombra de

    valor cultural; s possui de facto valor cultural o perfeito entendimento dos raciocnios

    que nos do as provas dos enunciados. Por isso mesmo, ao lermos um filsofo de

    genuno mrito, de dois erros opostos nos cumprir guardar-nos: o primeiro, o de nos

    mantermos a eternamente passivos e de tudo aceitarmos como se fossem dogmas,

    de que depois tentaremos convencer o prximo; o segundo, o de criticarmos

    demasiado cedo, antes de chegarmos compreenso do texto. Para se evitar o

    escolho do segundo, a atitude inicial dever ser receptiva e de todo humilde. Se achar

    uma ideia no texto de Mestre que lhe parea de fcil reputao, conclua que ele

    prprio que a no percebe, e que o pensar do autor devera ser mais fino, mais

    meandroso, mais facetado do que ao primeiro relance se lhe afigurou: e que se lhe

    impor uma ateno maior e o melhor processo, nessa 1 fase, de refazermos por

    iniciativa nossa, com exemplos familiares da nossa prpria experiencia, a doutrina

    exposta pelo autor que estudamos, at que a tenhamos como coisa nossa, porque

    feita de matria verdadeiramente nossa, e reconstruda pelo nosso esprito.

    Viver implica resolver problemas. Mas os problemas, embora sejam uma

    especificidade da racionalidade humana. portanto a reflexo que permite ao

    pensamento humano se voltar sobre si mesmo, sobre as suas operaes, sobre as

    aces, para as interpretar.

    Sempre que pensamos, pensamos atravs de uma linguagem que tem a lngua

    como suporte.

    Saber viver como nos diz Scrates um acto tico; visto que a experiencia da

    relao do homem com os outros configura sempre modelos de comportamento que

    pautam as relaes sociais.

    Teremos por isso de concordar antes de mais, que a filosofia o lugar por

    excelncia, onde se pensa e problematiza a experiencia, qualquer que seja.

  • 2

    Conceito de Filosofia

    A palavra filosofia (do grego philosophia) foi usada pela primeira vez por volta do sc.

    VI a. C. por Pitgoras, quando Lon, um tirano de Fliunte lhe perguntara um dia: quem

    s tu? sou um filosofo.

    Literalmente filosofia significa amor sabedoria. Todos conseguem distinguir o

    tolo de um sbio. O que significa amor sabedoria? Para Scrates, para este a

    Filosofia enquanto amor sabedoria, no posse mas o desejo, a procura

    permanente da sabedoria. Plato acrescentou ao conceito socrtico o sentido

    paradoxal de cincia da ignorncia, saber do no saber. Querendo com isto com

    isto sublinhar que o filosofo o que tem conscincia de que vive numa situao

    intermdia entre a ignorncia absoluta da sabedoria e sua posse plena. Assim sendo,

    o filsofo , para Plato, aquele que sente a ignorncia como uma incomodidade

    insuportvel e por isso, tenta super-la.

    Se nos ativermos definio de Plato, filosofar ser no sentido mais concreto,

    assumir as consequncias da luta entre a ignorncia e o saber, que se constitui numa

    atitude radical de olhar crtico sobre a experincia quotidiana, o conhecimento vulgar e

    o cientifico. Sendo o homem, como diz Blaise Pascal, uma mente pensante, tende a

    reflectir acerca de tudo que faz ou pensa.

    Conceito de Filosofia de Direito e do Estado

    A Filosofia do Direito e do Estado a disciplina da cincia jurdica, que nos

    permite reflectir sobre o fundamento e validade ontolgica dos conceitos de direito e

    Estado; uma disciplina que assume uma inegvel importncia (dela) na medida em

    que permite ao homem, enquanto animal racional, de pensar e problematizar a sua

    experiencia jurdica. (o que que seria do direito sem a filosofia do direito? l onde

    no h reflexo terica, a cincia no passa de uma coleco para arquivos).

    Mas porqu muita gente tem uma ideia deturpada de filosofia e do seu ensino?

    Duas so as razes principais. A primeira, subjectiva, tem a ver com o facto dos

    homens serem naturalmente preguiosos, sobretudo quando se trata de pensar e

    raciocinar adequadamente. Preferem viver na caverna da ignorncia do que buscar

    em tudo, a verdade, mesmo quando no poucas vezes so detentoras de um

    considervel canudo. E mesmo afirmando com Stephen Jay Gould, que nada mais

    mortfero do que uma falsa cincia, na verdade a maioria das pessoas preferem a

    opinio mais difusa (doxa), do que o pensamento reflexivo, o verdadeiro

    conhecimento, a cincia (epsteme). Isto porque por norma os homens gostam de

    pensar por procurao. nico meio que permite ao homem dar verdadeiramente

    sentido vida.

    Uma outra razo, objectiva, tem a ver com a dificuldade de definir o que a

    filosofia, em que tropea todo aquele que se interessa pelo estudo dela. Ora,

    metodologicamente consueto, comear o estudo de uma cincia definindo o que ela

    , para da se delimitar o seu objecto, e campo de estudo. Acontece, porem, no nosso

    caso, que a primeira dificuldade em que embate todo aquele que se prope fazer

  • 3

    filosofia, est em saber precisamente o que ela . Quer dizer ao tentar definir a

    filosofia, embatemos logo numa grande dificuldade. No h uma definio nica de

    filosofia.

    Se perguntarmos a dez juristas o que o Direito, teremos em princpio a mesma

    definio; o mesmo acontece com os fsicos e outros. Se perguntssemos a dez

    filsofos o que a filosofia, certamente que teramos dez respostas completamente

    diferentes, pelo facto que para definir a filosofia, antes de mais filosofar. A primeira

    constatao a fazer que no existe filosofia, mas sim, filosofias que correspondem a

    diferentes modos de verem as coisas; diferentes modos de pensar e problematizar a

    experincia. Portanto definir a filosofia por si mesmo uma tarefa eminentemente

    filosfica.

    Embora haja em relao a Filosofia do direito e do Estado tanto preconceito,

    que muitos defendem a sua excluso do currculo de Direito, (SUA IMPORTANCIA)

    com Immanuel Kant, gostaramos, todavia, de lembrar que a cincia s tem realmente

    valor prprio, como rgo de sabedoria; indispensvel para a cincia, de modo que

    podemos certamente afirmar que a sabedoria sem cincia uma sombra da perfeio

    que nunca podemos obter. Uma cincia sem sabedoria uma actividade perigosa,

    que torna os homens obscuros, fteis e inumanos. Pelo que uma das mais importantes

    tarefas da filosofia impedir que os homens faam alguma cincia sem sabedoria.

    Cientistas sem sabedoria so ciclopes, gigantes com um s olho, porque

    vem e ajuzam as coisas somente do ponto de vista limitado do seu campo de

    especializao. Uma atitude que s pode ser vencida pelo estudo da filosofia, j que

    s a filosofia pode filosofar, ou seja, aprender a ver e ajuizar as coisas no seu

    encadeamento e na sua universalidade. A filosofia como que pe um segundo olho no

    ciclope, que faz com que ele veja o seu objecto tambm do ponto de vista de outros

    homens. nisto que se funda dimenso humana das cincias; preciso atribuir a

    cada, um olho de uma espcie particular: atribuir ao jurista a crtica do seu

    conhecimento jurdico e moral.

    A Filosofia do Direito a reflexo filosfica sobre o direito, ou a

    considerao do direito, sob o ponto de vista filosfico, que abrange todas as formas

    de indagao sobre o valor das normas que governam a vida social no sentido do

    justo; ela o estudo metdico dos pressupostos ou condies da experiencia jurdica,

    considerada em sua unidade sistemtica. Ela portanto, a proposta de investigao

    que valoriza a abstraco conceitual, servindo de reflexo, sobre as construes

    jurdicas, sobre os discursos jurdicos, sobre as praticas jurdicas, sobre os factos e as

    normas jurdicas. Com o repdio dela, a lei passaria a ser para o jurista, a autoridade

    nica, o dogma; no enxergando um palmo alm dos cdigos. E o cdigo seria

    vontade histrica do Estado ou de maiorias parlamentares, e no da sociedade .

    Direito conjunto de normas que servem para regular as regras de convivncia

    humana em sociedade, com o intuito de prevenir e dirimir os conflitos e o Estado

    comunidade humana politicamente organizada, detendo e exercendo o poder

    politico

  • 4

    Atendendo que onde h direito h Estado e onde h Estado h direito, todo o

    direito ou lei emana de uma sociedade, enquanto autoridade soberana, visto que toda

    a sociedade implica necessariamente a existncia de um direito ou lei como

    justificao da sua autoridade.

    (procuraremos tambm perceber o sentido da pergunta que o homem de

    todas as pocas, de todas as sociedades e de todas as culturas, sempre se colocou e

    que Plato pe em A REPUBLICA) na boca de Scrates: o que mais conveniente

    para a comunidade civil, estar sob um regime de leis, ou de homens?

  • 5

    2 - OBJECTIVOS E FINS DA FILOSOFIA JURIDICO-POLTICA

    A Filosofia uma ocupao de seres livres, que usam autonomamente a razo

    na procura da verdade, constituindo-se numa atitude radical de olhar crtico sobre a

    experincia quotidiana, sobre o conhecimento vulgar e o cientfico, visto que filosofar

    , como afirma Plato, assumir as consequncias da luta entre a ignorncia e o saber.

    A Filosofia na realidade, um sistema cientfico formado de verdades e raciocnios

    conseguidos pela reflexo e crtica, ao contrrio da ideologia, que no passa de um

    agregado de ideias e crenas inconscientemente aceites e vividas.

    Ao contrrio da filosofia que pressupe a liberdade do ser pensante, a ideologia

    um conjunto de crenas semeadas por um grupo annimo, que no respeita a

    liberdade individual e cuja finalidade prtica e interesseira, geralmente contrria s

    ideias da pessoa a quem dirigida e que consiste em persuadir e controlar o

    comportamento de outrem. A ideologia usa e abusa de presso, por isso tende a

    formar uma massa e no gente; no se orienta pela procura da verdade como a

    cincia.

    Dizia Herclito que a sabedoria a meta da alma humana, que no se aprende

    nos livros, menos ainda com o professor. Sbio aquele que sereno, aquele que

    estuda e compreende as leis ocultas da natureza e submete sua vida a elas por meio

    do emprego da razo e do bom senso ( no ter medo de errar, ser prudente) (filosofia

    saber pensar e no saber de pensamentos - Kant).

    Filosofar significa perguntar, questionar, interrogar e interpelar a natureza, os

    entes, o homem, sobre a possibilidade do conhecimento do ser, das relaes do

    homem com a natureza e os entes, i e, dos fins e valores que o homem se prope.

    O valor da filosofia reside portanto, mais nas perguntas que so eternas - e

    questes que suscita do que nas respostas que d. Como j dizia Plato, a pergunta

    mais importante que a resposta porque lana a dvida sobre as ideias estabelecidas,

    abre novos horizontes, novas perspectivas, colocando em questo o estabelecido por

    respostas dadas no passado.

    Algumas das perguntas eternas que a filosofia coloca:

    a) O que o mundo que rodeia o homem?

    b) Quem o homem no mundo e at aonde pode ir o seu conhecimento?

    c) Que fins se prope, i e, como deve comportar-se na sua relao com os entes

    e com os outros?

    d) Que significao deve o homem dar sua existncia, considerando a realidade

    global, i e, qual a significao das suas relaes com o absoluto, com o

    transcendente?

    A Filosofia do Direito e do Estado um ramo da cincia jurdica, que procura

    compreender o sentido das relaes que deve o homem enquanto indivduo, manter

    com o Direito e com o Estado.

    O valor ou actualidade da Filosofia do Direito consiste (1 lugar) em despertar

    as dvidas sobre as verdades jurdicas, geralmente ideolgicas, e como tal, histricas;

    incentivar reformas jurdicas, criando a conscincia de a lei ser sempre uma obra

  • 6

    inacabada, em conflito permanente com o Direito. Em segundo lugar, a Filosofia do

    Direito e do Estado serve ao jurista de inspirao nas horas difceis para a sociedade e

    ao juiz quando literalmente a lei obriga-o a praticar injustias, d tambm a iluso de

    ter alcanado o absoluto jurdico e de ter conseguido saber o que o Direito,

    independentemente do que, historicamente, quer o legislador.

    Sendo verdade que o homem enquanto indivduo, nasce livre e detentor de

    direitos naturais inalienveis e imprescindveis j que alienar ou prescindir da sua

    liberdade significa perder a sua natureza? prpria da disciplina, a qual esta ajuda a

    responder : embora por natureza seja livre e social (livre porque social e social

    porque livre), deve o indivduo como parte, diluir-se no Estado enquanto todo,

    alienando a sua liberdade inalienvel, com o risco de negar a prpria natureza? Ou

    deve ao contrrio, afirmar a sua liberdade natural inalienvel e sem limites, minando

    desta forma o todo, sem o qual o homem nunca existiria, nem poderia exprimir a sua

    animalidade racional (deve ele afirmar a sua racionalidade ou liberdade).

    Filosofar acerca do Direito e do Estado significa fazer interrogaes ou

    interpelaes em face da realidade jurdica. Os problemas postos e as perguntas

    colocadas podem ser considerados segundo as quatro perspectivas seguintes: o que

    so o Direito e o Estado? (Ontologia); que podemos saber acerca do Direito e do

    Estado? (Gnoseologia); quais os fins e valores do Direito e do Estado? (Axiologia);

    qual a significao ltima que o homem deve atribuir ao Direito e ao Estado, dentro

    duma concepo global do mundo e da vida humana, i e, a vida ter para o homem

    algum sentido?

    Enquanto a Ontologia jurdica preocupa-se predominantemente com os seres, com

    as realidades, com os factos, que so o Direito e o Estado; a Gnoseologia preocupa-

    se directamente com os conceitos, com as formas e espcies de cincia possveis,

    tendo por objecto o Direito e o Estado; a Axiologia trata do fenmeno do valor,

    estranho natureza e s peculiar da vida do esprito e por fim a Metafsica

    considerada o verdadeiro fim ltimo de todo o pensar filosfico, tanto sobre o ser em

    geral, sobre a natureza como sobre o homem. Filosofar sempre tentar fazer

    metafsica, a qual consiste na procura duma viso global do mundo e da existncia do

    homem, nas suas relaes com o ser e o absoluto.

    Acontece que a liberdade nos sempre dada como liberdade de algum, assim

    tambm algum que se nos apresenta como liv...