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  • DE JURE - REVISTA JURDICA DO MINISTRIO PBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS

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    SUBSEO II DIREITO PROCESSUAL CIVIL

    1. ARTIGOS

    1.1 INTERCEPTAO TELEFNICA EM AO DE EXECUO DE ALIMENTOS

    LEONARDO BARRETO MOREIRA ALVESPromotor de Justia do Estado de Minas Gerais

    Membro do Instituto Brasileiro de Direito de Famlia (IBDFAM)Ps-Graduando em Direito Civil pela PUC/MG

    O que , exatamente por ser tal como , no vai fi car tal como est.Bertold Brecht

    1. Introduo

    Em 28 de maro de 2007, a 7 Cmara Cvel do Egrgio Tribunal de Justia do Estado do Rio Grande do Sul, no bojo dos autos do Agravo de Instrumento n 70018683508, exarou acrdo absolutamente indito no cenrio jurdico nacional, permitindo a interceptao telefnica em sede de ao de execuo de alimentos.

    Em um primeiro momento, o decisum pretoriano afi gura-se como violador do quanto disposto no art. 5, XII, da Carta Magna, segundo o qual a interceptao telefnica excepcionalmente admitida apenas em investigao criminal e instruo processual penal. Destarte, uma anlise mais acurada desse importante julgado ir evidenciar que, na verdade, a Corte gacha agiu com acerto, deixando de lado, no caso concreto, o direito intimidade do devedor dos alimentos com a fi nalidade de salvaguardar os direitos vida e proteo integral dos credores menores de idade.

    justamente essa anlise que nos propomos a fazer no presente trabalho. Antes de darmos incio a ela, recomenda-se a transcrio, na ntegra, do acrdo de lavra do TJRS.

    2. Acrdo

    EXECUO DE ALIMENTOS. INTERCEPTAO TELEFNICA DO DEVEDOR DE ALIMENTOS. CABIMENTO. Tentada a localizao do executado de todas as formas, residindo este em outro Estado e arrastando-se a execuo por quase dois anos, mostra-se cabvel a interceptao telefnica do devedor de alimentos. Se por

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    um lado a Carta Magna protege o direito intimidade, tambm abarcou o princpio da proteo integral a crianas e adolescentes. Assim, ponderando-se os dois princpios sobrepe-se o direito vida dos alimentados. A prpria possibilidade da priso civil no caso de dvida alimentar evidencia tal assertiva. Tal medida dispe inclusive de cunho pedaggico para que outros devedores de alimentos no mais se utilizem de subterfgios para safarem-se da obrigao. Agravo provido.

    Agravo de Instrumento n. 70018683508Stima Cmara Cvel da Comarca de Porto AlegreAgravante: A. S. P.Agravado: A. P.

    ACRDO

    Vistos, relatados e discutidos os autos. Acordam os Desembargadores integrantes da Stima Cmara Cvel do Tribunal de Justia do Estado, unanimidade, em dar provimento ao agravo de instrumento interposto.

    Custas na forma da lei.

    Participaram do julgamento, alm da signatria (Presidente), os eminentes Senhores Des. Luiz Felipe Brasil Santos e Des. Srgio Fernando de Vasconcellos Chaves.

    Porto Alegre, 28 de maro de 2007.

    DES. MARIA BERENICE DIAS, Presidenta e Relatora.

    RELATRIO

    Des. Maria Berenice Dias (presidenta e RELATORA)

    Trata-se de agravo de instrumento interposto por A. S. P. e S.J.S.P., representados por R. S. em face da deciso da fl . 76, que, nos autos da execuo de alimentos movida em face de A. P., indeferiu o pedido de escuta e de quebra do sigilo telefnico do executado.

    Alegam que o agravado aps ser citado escondeu-se para impedir o cumprimento do mandado de priso. Asseveram que a polcia paulista no tem efetivo sufi ciente para fi car em campana na moradia do agravado. Seguindo sugesto dos agentes, realizaram

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    pedido de escuta telefnica com a fi nalidade de localizar o agravado. Salientam que no se trata de mera priso administrativa, mas, de priso judicial. Requerem o provimento do recurso para a determinao de escuta nos telefones do recorrido (fl s. 2-8).

    O Desembargador-Plantonista indeferiu o pedido liminar (fl . 79).

    A parte agravada deixou de ser intimada para prestar contra-razes, uma vez no angularizada a relao processual.

    A Procuradora de Justia opinou pelo conhecimento e provimento do recurso (fl s. 80-5).

    o relatrio.

    VOTOS

    Des. Maria Berenice Dias (presidenta e RELATORA)

    Pretendem os recorrentes a reforma da deciso que indeferiu o pedido de escuta e de quebra do sigilo telefnico do executado.

    Justifi cam que tal medida se faz necessria to-somente para possibilitar a localizao do foragido a fi m de tornar efi caz a ordem de priso.

    A presente execuo desenrola-se desde maio de 2005 (fl . 21), ou seja, h mais de 22 meses, tendo os alimentados sido pagos, pela ltima vez, no longnquo ms de maro de 2004, exclusivamente com o objetivo de afastar o cumprimento de um mandado de priso.

    O ru foi citado para o pagamento das prestaes em atraso em janeiro de 2006 (fl . 31). No tendo realizado o pagamento, nem justifi cado a impossibilidade de faz-lo, teve sua priso decretada em abril de 2006 (fl . 38), oportunidade em que a dvida alimentar j era superior ao montante de R$ 37.000,00 (fl . 67).

    Compulsando os autos, verifi ca-se que a localizao do recorrido foi tentada de todas as formas. Nem mesmo a louvvel e diligente disposio da procuradora dos credores, que em mais de duas oportunidades foi at a Cidade de So Paulo, e, em companhia dos agentes da Delegacia de Capturas daquele Municpio, conseguiu obter sucesso para o cumprimento do mandado (fl s. 44-45 e 52-53).

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    De acordo com o art. 5, XII, regulamentado pela Lei n. 9.296/96, a interceptao telefnica somente pode ocorrer, por ordem judicial, nas hipteses e na forma que a lei estabelecer para fi ns de investigao criminal e instruo penal.

    Contudo, o presente caso trata de situao excepcional.

    Se por um lado a Carta Magna protege o direito intimidade, tambm abarcou o princpio da proteo integral a crianas e adolescentes, conforme tenho manifestado doutrinariamente:

    O princpio no uma recomendao tica, mas diretriz determinante nas relaes da criana e do adolescente com seus pais, com sua famlia, com a sociedade e com o Estado. A maior vulnerabilidade e fragilidade dos cidados at os 18 anos, como pessoas em desenvolvimento, os faz destinatrios de um tratamento especial. Da a consagrao do princpio da prioridade absoluta, de repercusso imediata sobre o comportamento da administrao pblica, na entrega, em condies de uso, s crianas e adolescentes, dos direitos fundamentais especfi cos que lhes so consagrados constitucionalmente. (Manual de Direito das Famlias. 3. ed. So Paulo: RT, 2006, p. 57).

    A matria aqui tratada confronta duas questes de ordem constitucional que merecem ser sopesadas: de um lado est o direito intimidade do devedor de alimentos, e, de outro, o princpio da proteo integral a crianas e adolescentes, a quem destinada a verba alimentar.

    Ocorrendo choque entre dois princpios constitucionais, certo que impossvel a aplicabilidade de ambos, um dever necessariamente ser afastado, a partir de uma anlise e interpretao sistemtica do ordenamento jurdico relativamente ao caso concreto, aplicando-se a este o princpio da proporcionalidade.

    A respeito ao princpio supracitados, merecem ser elencados os ensinamentos de Humberto Bergmann vila:

    exatamente do modo de soluo da coliso de princpios que se induz o dever de proporcionalidade. Quando ocorre uma coliso de princpios preciso verifi car qual deles possui maior peso diante das circunstncias concretas...

    Assim, o dever de proporcionalidade estrutura-se em trs elementos: adequao, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito. Uma medida adequada se o meio escolhido est apto para alcanar o resultado pretendido; necessria, se, todas as disponveis e igualmente efi cazes para atingir um fi m, a menos gravosa em relao

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    aos direitos envolvidos; proporcional ou correspondente, se, relativamente ao fi m perseguido, no restringir excessivamente os direitos envolvidos. (A distino entre princpios e regras e a redefi nio do dever de proporcionalidade. Revista de Direito Administrativo, n. 215, p. 158/159, jan./mar. 1999).

    Conforme bem posto pela Procuradora de Justia, Dr Ida Sofi a da Silveira (fl . 83): no caso dos autos, por ocorrer a violao do alimentante com relao s suas fi lhas menores, o direito sua intimidade no pode se sobrepor de forma absoluta ao direito das meninas de receberem a verba alimentar.

    Assim, patente a sobreposio do direito vida dos alimentados em frente intimidade do executado. A prpria possibilidade da priso civil no caso de dvida alimentar evidencia o carter superior da verba alimentar, devendo sobrepor o dire

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