Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatobá

Download Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatobá

Post on 21-Oct-2015

259 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 445-453, maio/nov. 2007 | 445

    Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob

    Ivan Peixoto Costa1, Gilmar Vital Bueno2, Paulo da Silva Milhomem3,

    Hlio Srgio Rocha Lima e Silva4, Marlia Dietzsch Kosin4

    Palavras-chave: Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob l Estratigrafia l carta estratigrfica

    Keywords: Tucano North Sub-Basin and Jatob Basin l Stratigraphy l stratigraphic chart

    1 Unidade de Negcio de Explorao e Produo da Bahia/Explorao/Programao e Controle da Explorao

    e-mail: peixotocosta@petrobras.com.br2 E&P Explorao/Geologia Aplicada a Explorao/Modelagem de Sistema Petrolfero3 Unidade de Negcio de Explorao e Produo da Bahia/Explorao/Sedimentologia e Estratigrafia4 Unidade de Negcio de Explorao e Produo da Bahia/Explorao/Avaliao de Blocos e Interpretao Geolgica e Geofsica

    introduo

    A Sub-bacia de Tucano Norte e a Bacia deJatob ocupam uma rea de cerca de 13.800 km2,que abrange a extremidade nordeste do Estado daBahia e, no caso desta ltima bacia, tambm a por-o centro-sul de Pernambuco. A estratigrafia deambas as bacias aqui discutida de forma integradaem funo das similaridades de seu arcabouo es-trutural e registro sedimentar que as diferenciam dassub-bacias do Tucano Sul e Central. Uma nica car-ta sintetiza as principais caractersticas de seu arca-bouo estratigrfico.

    A Sub-bacia de Tucano Norte, com cerca de8.800 km2, possui uma orientao geral N-S. Seulimite com a Bacia de Jatob dado pela Falha de

    So Francisco, a nordeste. A sul, a Zona de Acomo-dao do Vaza-Barris a separa do Tucano Central. Ocontato com o embasamento definido pela Falhade So Sait, a oeste, e, por discordncia ou falhasde pequeno rejeito, a leste.

    A Bacia de Jatob ocupa uma rea de aproxi-madamente 5.000 km2 com orientao NE-SW. Asfalhas de So Francisco, a oeste, e Ibimirim, a norte,constituem seus principais limites estruturais. A sul ea leste, seu contato com o embasamento discor-dante ou ocorre mediante falhas de pequeno porte.

    A Sub-bacia de Tucano Norte e a Bacia deJatob representam a extremidade setentrional doSistema Rifte Recncavo-Tucano-Jatob, estando suaorigem relacionada extenso crustal que fragmen-tou o Supercontinente Gondwana, dando origem aoOceano Atlntico. Ao contrrio das bacias da mar-

  • 446 | Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob - Costa et al.

    gem continental, que evoluram ao estgio de mar-gem passiva, as bacias do Recncavo, Tucano e Ja-tob constituem um ramo do Rifte Sul-Atlntico abor-tado no Eoaptiano.

    A configurao estrutural de ambas as baciasreflete a atuao dos esforos extensionais em umembasamento heterogneo (Magnavita, 1996). Amudana no sentido de abertura do rifte, que passade S-N, no Tucano Norte, para SW-NE, na Bacia deJatob, talvez o exemplo mais explcito do contro-le exercido por estruturas pretritas do embasamen-to. Esta inflexo est condicionada Zona deCisalhamento Pernambuco-Paraba, cuja reativaodurante o Eocretceo deu origem Falha de Ibimirim,limite norte da Bacia de Jatob (Santos et al. 1990;Costa et al. 2003).

    O Tucano Norte, como a Bacia de Jatob, apre-senta uma geometria tpica de meio-grben, comfalhas de borda a oeste e noroeste, respectivamen-te. Falhas normais planares acomodam o mergulhodas camadas em direo aos depocentros, a partirda margem flexural. Na Bacia de Jatob, estas fa-lhas so sintticas em relao falha de borda epossuem uma orientao geral N70oE. Na Sub-baciade Tucano Norte registra-se uma maior complexida-de estrutural, manifestada por falhas com orienta-es NW-SE, N-S e NE-SW (Santos et al. 1990). Asul, seu limite com o Tucano Central envolve as fa-lhas de transferncia de Carit e Jeremoabo que,junto ao Alto de Vaza-Barris, constituem uma zonade acomodao ao longo da qual ocorre a inversona assimetria dos meio-grbens (Magnavita et al.2003). As profundidades estimadas do embasamen-to nos baixos de Salgado do Melo, Sub-bacia deTucano Norte, e Ibimirim, Bacia de Jatob, so supe-riores, respectivamente, a 7.000 m (Magnavita etal. 2003) e 3.000 m (Costa et al. 2003).

    histrico

    As primeiras referncias sobre a geologia e ocontedo fossilfero das bacias do Recncavo, Tuca-no e Jatob datam do sculo XIX e relacionam-seprincipalmente Bacia do Recncavo. At a dcadade 1930, prevaleceram os estudos de cunho maispropriamente acadmico, pautados pelo pioneirismodos trabalhos e com foco em descries litolgicas ena avaliao do contedo fossilfero. Contribuies

    efetivas para o estabelecimento de um arcabouoestratigrfico desenvolveram-se como suporte pes-quisa e prospeco de hidrocarbonetos, j ao finaldesta dcada, envolvendo a Diviso de Geologia eMineralogia do Departamento Nacional de Produ-o Mineral (DNPM) e, particularmente, o ConselhoNacional do Petrleo (CNP).

    Um breve histrico dos trabalhos que pon-tuaram a evoluo do conhecimento geolgico dasbacias do Recncavo e Tucano foi apresentado porViana et al. (1971), que destacaram o impulso dadoaos estudos de cunho estratigrfico, aps a cria-o da Petrobras, com a integrao de dados desuperfcie e subsuperfcie e a utilizao mais siste-mtica da paleontologia para o estabelecimentode relaes cronolgicas.

    Aps uma fase de rpido acmulo de infor-maes e controvrsias, o trabalho desenvolvido porViana et al. (1971), em sua reviso estratigrfica dasbacias do Recncavo e Tucano, consolidou a subdivi-so do registro sedimentar destas bacias em unida-des com nomenclatura, hierarquia e relaes bemdefinidas. Estes autores estabeleceram colunaslitoestratigrfica, bioestratigrfica e cronoestratigr-fica independentes, resgatando os princpios adotadospelo Cdigo Americano de Nomenclatura Estratigr-fica. Seu trabalho considerado um marco para acompreenso da seo sedimentar preservada noRecncavo e no Tucano. As unidades ento defini-das, mantm-se inalteradas, em sua maior parte.

    A proposta de Viana et al. (1971) foi revistapor Caixeta et al. (1994), que promoveram umamelhor caracterizao das relaes laterais e crono-lgicas entre as diferentes unidades litoestratigrfi-cas, alm de apresentarem cartas diferenciadas parao Recncavo, para as sub-bacias do Tucano Sul eCentral, e para o Tucano Norte e a Bacia de Jatob,em funo das particularidades de seu arcabouotectono-sedimentar. Foram ainda introduzidas modi-ficaes na coluna litoestratigrfica que, tendo porbase os trabalhos de Netto e Oliveira (1985) e Aguiare Mato (1990) afetaram, essencialmente, a Sub-ba-cia do Tucano Sul e a Bacia do Recncavo. As se-qncias paleozicas aflorantes na margem flexuralda Sub-bacia do Tucano Norte e da Bacia de Jatob,no discriminadas por Viana et al. (1971), foramento individualizadas e passaram a compor as car-tas destas bacias.

    As principais descontinuidades estratigrficashoje reconhecidas no Tucano Norte e em Jatob fo-ram apresentadas na proposta de Caixeta et al.

  • B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 445-453, maio/nov. 2007 | 447

    (1994), que contribuiu para uma melhor caracteriza-o das seqncias deposicionais. So aqui revistasas amplitudes estratigrficas de algumas unidades,bem como melhor definidos os limites de suas se-qncias deposicionais.

    embasamento

    O embasamento da Sub-bacia do TucanoNorte representado pelos terrenos Canind-Maranc e Pernambuco-Alagoas, a noroeste e les-te-nordeste, pelos metassedimentos da Faixa deDobramentos Sergipana, a oeste-sudoeste e sudes-te, e pelas rochas sedimentares da Bacia Ju, a su-deste. A Bacia do Jatob instalou-se integralmentesobre o terreno Pernambuco-Alagoas.

    Conforme Delgado et al. (2003), os terrenosCanind-Maranc e Pernambuco-Alagoas com-preendem rochas metavulcnicas e metassedimen-tares de idade mesoproterozica (1.2-1.0 Ma),intrudidas por inmeros batlitos granticos, data-dos do Mesoproterozico (1.0 Ma) e do Neoprote-rozico (650-600 Ma). O terreno Canind-Maranccaracteriza-se por duas seqncias metavulcano-se-dimentares, cuja origem relaciona-se a arcosmagmticos. Uma faixa de gnaisses migmatticossepara estas duas seqncias. O terrenoPernambuco-Alagoas subdivide-se nos complexosCabrob e Belm do So Francisco. O primeiro re-ne duas seqncias, uma metassedimentar e outrametavulcnica. Ortognaisses granticos-tonalticos emigmatizados constituem o segundo. Dentre osbatlitos granticos destacam-se as sutes Xing eChoroch, por suas grandes dimenses.

    A Faixa de Dobramentos Sergipana teve suaevoluo relacionada a um contexto de margempassiva. Sua origem, deformao e metamorfismoderam-se durante o Neoproterozico (850-650 Ma).Rochas metassedimentares pelticas e psamticas denatureza turbidtica caracterizam o subdomnioMacurur. O subdomnio Vaza-Barris compostopelos Grupos Miaba (conglomerados, metagrauvacas,metavulcnicas, metacarbonatos e metapelitos); Si-mo Dias (metassiltitos, filitos e metarenitosinterestratificados, contendo lentes de rochasmetavulcnicas) e Vaza-Barris (diamictitos e filitosseixosos sotopostos a metacarbonatos e raros filitos).

    A Bacia Ju desenvolveu-se entre o Cambria-no e o Ordoviciano (500 Ma), tendo evoludo comouma bacia extensional ps-orognica, instalada so-bre o subdomnio Macurur. Seus depsitos incluemuma fcies proximal, relacionada a fluxos de detri-tos, e outra distal, associada a rios entrelaados quepreencheram um antigo sistema de grbens.

    SuperseqnciaPaleozica

    Trs seqncias subdividem a seo paleozica,tendo atuado como embasamento para as bacias deJatob e de Tucano Norte. O registro sedimentarabrange estratos do Siluriano/Devoniano (FormaesTacaratu e Inaj), Carbonfero (Formao Curituba)e Permiano (Formao Santa Brgida). Sua caracteri-zao baseia-se, principalmente, em afloramentossituados na borda flexural de ambas as bacias, umavez que poucos poos amostraram o intervalo. Estefato contribui para as incertezas existentes quanto distribuio das diferentes unidades e para a dificul-dade de definio de suas relaes estratigrficas.

    Seqncia Siluro-Devoniana

    Rochas sedimentares pertencentes ao GrupoJatob (formaes Tacaratu e Inaj) caracterizam aSeqncia Siluro-devoniana, que aflora a S-SE daBacia de Jatob e a leste da Sub-bacia de TucanoNorte, no Grben de Santa Brgida. Em subsuperf-cie, a unidade foi amostrada por apenas um poo,perfurado na Bacia de Jatob. A Formao Tacaratu representada predominantemente por clsticos gros-sos (conglomerados e arcsios conglomerticos), de-positados no Siluriano, atravs de um sistema de le-ques aluviais coalescentes (Ghignone, 1979; MenezesFilho et al. 1988). Ghignone (1979) sugere uma pos-svel extenso da unidade ao Devoniano, tendo porbase dados palinolgicos obtidos por Regali (1964).A Formao Inaj, cuja ocorrncia restringe-se Ba-cia de Jatob, inclui arenitos finos a grossos, caulnicos,de origem fluvial, aos quais se intercalam pelitos ver-melhos. Sua deposio teria ocorrido no Devoniano,como o indicam dados palinolgicos (Regali, 1964apud Ghignone, 1979; Brito, 1967a, 1967b apud Costa

  • 448 | Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob - Costa et al.

    et al. 2003) e a presena de macrofsseis mari-nhos desta idade (Ghignone, 1979). As formaesTacaratu e Inaj correlacionam-se, respectivamen-te, com o Grupo Serra Grande e parte do GrupoCanind, ambos da Bacia do Parnaba (Caixetaet al. 1994).

    Seqncia Carbonfera

    A Seqncia do Carbonfero representadapela Formao Curituba, cuja presena reporta-da no Grben de Santa Brgida, Sub-bacia de Tu-cano Norte, e em um dos poos perfurados na Baciade Jatob. Sua composio inclui arenitos argilo-sos, folhelhos vrvicos e calcrios. Pavimentosestriados em arenitos (Magnavita et al. 2003) evarves so indicativos de atividade glacial ao tem-po de sua deposio. Dados palinolgicos corro-boram a idade carbonfera da unidade que secorrelaciona com a Formao Batinga nas baciasde Sergipe e Alagoas.

    Seqncia Permiana

    A Seqncia Permiana aflora apenas na mar-gem flexural da Sub-bacia de Tucano Norte, no Gr-ben de Santa Brgida, que apresenta o registro maiscompleto da sedimentao paleozica no SistemaRifte Recncavo-Tucano-Jatob, reunindo estratos noapenas do Permiano, mas tambm do Siluriano-Devoniano (Grupo Jatob) e do Carbonfero (Forma-o Curituba). Rochas sedimentares pertencentes Formao Santa Brgida (membros Caldeiro e Ing)caracterizam a seqncia, que em subsuperfcie foiamostrada por dois poos perfurados no Tucano Nor-te. O Membro Caldeiro representado por clsticosavermelhados (siltito e arcsio grosso e fino), comevidncias de sedimentao elica. O Membro Inginclui arenitos quartzosos mdios a grossos, siltitoscalcferos, folhelhos verdes e dolomitos de coloraocinza escuro a preta, ricos em matria orgnica epor vezes silicificados. Sua deposio teria ocorridoem ambiente transicional a marinho raso, relacionvelao do Membro Pedro da Formao Afligidos, nasbacias de Camamu e do Recncavo. A FormaoSanta Brgida correlaciona-se ainda com as forma-es Aracar, na Bacia de Sergipe-Alagoas, e Pedrade Fogo, na Bacia do Parnaba.

    Seqncias Sedimentares

    Na Sub-bacia do Tucano Norte e na Baciade Jatob, o registro estratigrfico representadopor rochas sedimentares do Jurssico Superior eCretceo Inferior. So reconhecidas quatro seqn-cias deposicionais, dentre as quais se destacamaquelas relacionadas ao processo extensional juro-cretceo, abrangendo os estgios pr-rifte (Neoju-rssico a Eoberriasiano), rifte (Eoberriasiano aEoaptiano) e ps-rifte (Neo-aptiano).

    Superseqncia Pr-Rifte

    Seqncia J20-K05

    A Seqncia Juro-cretcea (J20K05) carac-teriza o estgio pr-rifte, estando representada, so-bretudo, por depsitos do Neojurssico (Andar DomJoo). Registros da base do Eocretceo (Eoberria-siano), vinculados Formao Itaparica, foramamostrados apenas na poro centro-sul do TucanoNorte. No h registro dos arenitos flvio-elicosque caracterizam a Formao gua Grande e queno sudeste do Tucano Sul e na Bacia do Recncavoconstituem o topo da seo pr-rifte.

    A rea abrangida pela Sub-bacia de Tuca-no Norte e pela Bacia de Jatob representa aporo distal dos sistemas aluviais do Neojurssi-co (Andar Dom Joo), depositados sob paleoclimarido. Os pelitos lacustres que caracterizam oMembro Capianga atingem suas maiores espes-suras nestas bacias. J os ciclos flvio-elicos,relacionveis ao Membro Boipeba e FormaoSergi, mostram uma tendncia de adelgaamen-to ao longo da Bacia de Tucano. Na Bacia de Ja-tob, h registros da Formao Sergi, mas a ocor-rncia do Membro Boipeba incerta. O MembroCapianga correlaciona-se com a Formao Bana-neiras, nas bacias de Sergipe e Alagoas. O Mem-bro Boipeba e a Formao Sergi relacionam-se,respectivamente, s formaes Candeeiro e Ser-raria, nessas mesmas bacias.

  • B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 445-453, maio/nov. 2007 | 449

    Superseqncia Rifte

    O limite entre os estgios pr-rifte e rifte dado pela discordncia que sobrepe a FormaoCandeias Formao Itaparica, ou diretamente aosdepsitos flvio-elicos da Formao Sergi. A se-o rifte engloba duas seqncias, que abrangemestratos de idade Eorrio da Serra (Eoberriasiano) aNeojiqui (Eoaptiano). A sucesso estratigrfica ilus-tra um rpido assoreamento de ambas as bacias,refletindo o preenchimento axial do Sistema RifteRecncavo-Tucano-Jatob. J ao incio do Neo-rioda Serra, sistemas fluviais dominavam a sedimen-tao na Sub-bacia de Tucano Norte e na Bacia deJatob. O nmero reduzido de poos perfuradosnestas bacias e a prevalncia de ambientes deposi-cionais pouco favorveis preservao demicrofsseis dificultam a caracterizao e odetalhamento das seqncias estratigrficas, cujadistribuio avaliada principalmente com base nainterpretao de dados ssmicos.

    Seqncia K10-K20

    A Seqncia K10-K20, de idade Rio da Serra(Eoberriasiano/Eohauteriviano), compreende depsi-tos relacionveis s formaes Candeias, So Se-bastio e Salvador e ao grupo Ilhas. Estas unidadesno ilustram variaes internas significativas dos pa-dres de sedimentao, o que as torna indivisas noTucano Norte e na Bacia de Jatob.

    Durante o Eorrio da Serra (Eoberriasiano), eparticularmente no incio do Mesorrio da Serra (Eo/Neoberriasiano), o tectonismo que estruturou as ba-cias, conjugado a uma progressiva umidificao doclima, resultou na implantao e posterior expansodo sistema lacustre que caracteriza a FormaoCandeias. Arenitos deltaicos descontnuos interca-lam-se seo peltica nas reas flexurais, estandorelacionados s oscilaes freqentes do nvel debase em um paleolago para o qual se estimambatimetrias bem inferiores a de sistemas contempo-rneos aos da Bacia do Recncavo, onde se deposi-tavam turbiditos nos grandes depocentros, sob ele-vada lmina dgua. Santos et al. (1990) conside-ram que a pequena espessura da FormaoCandeias, na Bacia de Jatob, estaria relacionada ataxas de subsidncia com magnitude insuficiente paraum aprofundamento significativo do sistema lacustre.

    A integrao regional de dados de poo e os padresde preenchimento ilustrados em sees ssmicas su-gerem esta mesma interpretao para todo o seg-mento setentrional do rifte Tucano-Jatob.

    A implantao da fase lacustre relaciona-sea um primeiro ciclo tectnico, cujo pice deu-seno Mesorrio da Serra. Ainda ao longo do Mesorrioda Serra (Neoberriasiano/Eovalanginiano), a redu-o da atividade tectnica permitiu que os siste-mas deltaicos progradassem a partir da margemflexural, dando incio ao assoreamento de ambasas bacias. Rochas sedimentares do Grupo Ilhas ca-racterizam este perodo.

    No Neo-Rio da Serra (Neovalanginiano/Eohau-teriviano), j sob tectonismo atenuado, o Tucano Nortee a Bacia de Jatob estiveram sujeitos a uma extensasedimentao fluvial (Formao So Sebastio) quepersistiu at o Neojiqui (Eoaptiano).

    Seqncia K30

    A discordncia que separa as seqncias K10-K20 e K30 de difcil avaliao, no apresentandouma expresso ssmica diagnstica. A exigidadede dados de poos e os problemas de detalhamentobioestratigrfico em sees predominantemente flu-viais contribuem para as dificuldades de se avaliar aamplitude do hiato envolvido e a prpria extensogeogrfica das reas sujeitas eroso. Dados bio-estratigrficos isolados sugerem um hiato que abran-ge o Neo-Rio da Serra (Neovalanginiano/Eohauteri-viano), na poro centro-sul do Tucano Norte. A con-tinuidade da sedimentao nos depocentros , poroutro lado, especulativa, embora dados ssmicospermitam interpretar uma deposio quase-contnuados fandeltas da Formao Salvador junto Falhade So Sait.

    Embora de difcil caracterizao, o limite en-tre estas seqncias marca o incio de um segundociclo distensional, expresso pela atividade das falhasde borda de ambas as bacias. Durante o Eo/Mesoaratu(Hauteriviano), taxas de subsidncia maiores que asprevalentes no Neo-Rio da Serra (Neovalanginiano/Eohauteriviano) so evidenciadas por crescimentosda seo sedimentar e pela ampliao dedepocentros. Mudanas contemporneas na ativida-de tectnica, envolvendo a atenuao ou o recru-descimento dos esforos distensionais, so observa-das tambm em outras bacias, como a do Recnca-vo e a de Sergipe-Alagoas. Bueno (2001, 2004) re-

  • 450 | Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob - Costa et al.

    lacionou-as a esforos intraplaca vinculados propa-gao dicrona do sistema de riftes da margem leste.

    No Tucano Norte e na Bacia de Jatob, a ar-quitetura estratal reflete um equilbrio entre as taxasde subsidncia e de aporte sedimentar ao tempo dedeposio da Seqncia K30, definindo um padrode empilhamento estratigrfico agradacional, re-presentado pela recorrncia de ciclos fluviais. Entreo Neoburacica e o Jiqui (Neobarremiano/Eoaptiano),estas bacias estiveram submetidas a um terceiro epi-sdio distensional, que resultou em uma expressivaacumulao de sedimentos nos depocentros. A m-xima taxa de distenso do Rifte Tucano-Jatob re-lacionada a este ltimo ciclo tectnico, de idadeNeoburacica a Jiqui (Neobarremiano/Eoaptiano).

    Conglomerados sintectnicos (Formao Sal-vador) constituem uma feio conspcua adjacentes falhas de borda de ambas as bacias, em seesde idade Mesorrio da Serra a Neojiqui (Eoberriasia-no/Eoaptiano). Sua deposio relaciona-se ao soer-guimento e posterior eroso das ombreiras do rifte,ilustrando ciclos de rejuvenescimento de relevo as-sociados aos diferentes episdios tectnicos que ca-racterizam a histria de subsidncia das bacias.

    Superseqncia Ps-Rifte

    Seqncia K50

    A Seqncia K50 rene depsitos relacionadosao estgio ps-rifte, identificando um contexto de sub-sidncia trmica, em bacia do tipo sag. O registro sedi-mentar inclui as associaes de fceis aluviais que ca-racterizam a Formao Marizal, representadas sobre-tudo por clsticos grossos (conglomerados e arenitos)de idade Neo-Alagoas (Neo-aptiano). Na Serra do Ton(Sub-bacia de Tucano Norte) so descritos ainda folhe-lhos esverdeados e calcrios escuros albo-aptianos, paraos quais se sugere uma correlao com a FormaoSantana, na Bacia do Araripe (Bueno, 1996a; Magna-vita et al. 2003). No h uma designao formal eespecfica para estes depsitos, que foram relaciona-dos Formao Marizal por Ghignone (1979). A seops-rifte recobre grande parte do Tucano Norte e daBacia de Jatob, sobrepondo-se aos depsitos

    estruturados da Formao So Sebastio atravs dediscordncia angular. Esta discordncia, registrada emtodo o Sistema Rifte Recncavo-Tucano-Jatob, estpresente tambm em bacias da margem continentaldo Brasil e na costa oeste africana (Magnavita et al.2003) correspondendo ao evento de breakup.

    Seqncias doNegeno

    Seqncia N60

    No Tucano Norte e na Bacia de Jatob no hregistros de depsitos do Neocretceo e do Negeno.Aluvies quaternrios ocorrem associados aos princi-pais rios da regio e caracterizam a Seqncia N60.

    refernciasbibliogrficas

    AGUIAR, G. A.; MATO, L. F. Definio e relaes es-tratigrficas da Formao Afligidos nas bacias do Re-cncavo, Tucano Sul e Camamu, Bahia, Brasil. In:CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA, 36., 1990,Natal. Anais. So Paulo: Sociedade Brasileira deGeologia, 1990. v. 1, p. 157-170.

    BRITO, I. M. Contribuio ao conhecimento dosmicrofsseis devonianos de Pernambuco: I-Archaeotriletes. Anais da Academia Brasileira deCincias, Rio de Janeiro, v. 39, n. 2, p. 281-283, 1967.

    BRITO, I. M. Contribuio ao conhecimento dosmicrofsseis devonianos de Pernambuco: II-Acritarcha.Anais da Academia Brasileira de Cincias, Rio deJaneiro, v. 39, n. 2, p. 285-287, 1967.

    BUENO, G. V. Serra do Ton: um elo estratigrficoentre as bacias de Tucano Norte (BA) e Araripe(CE), Nordeste do Brasil. In: SIMPSIO SOBRE O

  • B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 445-453, maio/nov. 2007 | 451

    CRETCEO DO BRASIL, 4., 1996a, Rio Claro. Bo-letim. Rio Claro: Universidade Estadual Paulista,1996. p. 143-146.

    BUENO, G. V. Discordncia pr-Aratu: marcotectono-isotpico no rifte afro-brasileiro. 2001. 2 v.Tese (Doutorado) Universidade Federal do Rio Gran-de do Sul, Porto Alegre, 2001.

    BUENO, G. V. Diacronismo de eventos no rifte Sul-Atlntico. Boletim de Geocincias da Petrobras, Riode Janeiro, v. 12, n. 2, p. 203-229, maio/nov. 2004.

    CAIXETA, J. M.; BUENO, G. V.; MAGNAVITA, L. V.;FEIJ, F. J. Bacias do Recncavo, Tucano e Jatob.Boletim de Geocincias da Petrobras, Rio de Ja-neiro, v. 8, n. 1, p. 163-172, jan./mar. 1994.

    COSTA, I. P.; MILHOMEM, P. DA S.; CARVALHO, M.S. S. DE. Bacias sedimentares brasileiras: Baciade Jatob. Aracaju: Fundao PaleontolgicaPhoenix, 2003. (Srie Bacias Sedimentares, n. 53).

    DELGADO, I. M.; SOUZA, J. D.; SILVA, L. C.; SILVEIRAFILHO, N. C.; SANTOS, R. A.; PEDREIRA, A. J.; GUI-MARES, J. T.; ANGELIM, L. A. A.; VASCONCELOS,A. M.; GOMES, I. P.; LACERDA FILHO, J. V.; VALEN-TE, C. R.; PERROTTA, M. M.; HEINEC, C. A.Geotectnica do Escudo Atlntico. In: BIZZI, L. A.;SCHOBBENHAUS, C.; VIDOTTI, R. M.; GONALVES,J. H. (Ed.). Geologia, tectnica e recursos mineraisdo Brasil: textos, mapas & SIG. Braslia: Companhiade Pesquisa de Recursos Minerais, 2003. p. 227-334.

    GHIGNONE, J. I. Geologia dos sedimentosfanerozicos do Estado da Bahia. In: INDA, H. A. V.(Ed.) Geologia e recursos minerais do Estado daBahia: textos bsicos. Salvador, v. 1, p. 24-117, 1979.

    MAGNAVITA, L. P. Sobre a implantao da fase sin-rifte em riftes continentais. In: CONGRESSO BRASI-LEIRO DE GEOLOGIA, 39., 1996, Salvador. Anais.So Paulo: Sociedade Brasileira de Geologia, 1996,p. 335-338.

    MAGNAVITA, L. P.; DESTRO, N.; CARVALHO, M. S.S. DE; MILHOMEM, P. DA S.; SOUZA-LIMA, W. Ba-cias sedimentares brasileiras: Bacia de Tucano.Aracaju: Fundao Paleontolgica Phoenix, 2003. (S-

    rie Bacias Sedimentares, n. 52).

    MENEZES FILHO, N. R.; SANTOS, R. A.; SOUZA, J. D.Programas levantamentos geolgicos bsicos do

    Brasil: Santa Brgida Folha SC 24-X-C-V. Braslia: Com-panhia de Pesquisa de Recursos Minerais, 1988. 113 p.

    NETTO, A. S. T.; OLIVEIRA, J. J. O preenchimento do rift-valley na Bacia do Recncavo. Revista Brasileira deGeocincias, So Paulo, v. 15, n. 2, p. 97-102, 1985.

    REGALI, M. S. P. Resultados palinolgicos de amos-tras paleozicas da Bacia de Tucano-Jatob (seopaleozica do poo IMST-1-PE). Boletim Tcnico daPetrobras, Rio de Janeiro, v. 7, n. 2, p. 165-180, 1964.

    SANTOS, C. F.; CUPERTINO, J. A.; BRAGA, J. A. E. Sn-tese sobre a geologia das bacias do Recncavo, Tucanoe Jatob. In: RAJA GABAGLIA, G. P.; MILANI, E. J. (Coord.)Origem e Evoluo de Bacias Sedimentares. Rio deJaneiro: Petrobras, 1990. p. 235-266.

    VIANA, C. F.; GAMA JUNIOR, E. G.; SIMES, I. A.;MOURA, J. A.; FONSECA, J. R.; ALVES, R. J. Revisoestratigrfica da Bacia do Recncavo/Tucano. Bole-tim Tcnico da Petrobras, Rio de Janeiro, v. 14, n.3-4, p. 157-192, 1971.

  • 452 | Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob - Costa et al.

    100

    110

    120

    130

    140

    150

    250

    300

    400

    500

    350

    450

    550

    0

    10

    20

    145

    135

    125

    115

    105

    SUB-BACIA DE TUCANO NORTE E BACIA DE JATOB

    C

    PK1

    0 - K2

    0

    SANTABRGIDA CALDEIRO

    ALIANA CAPIANGABOIPEBA

    SERGI

    CANDEIAS

    S A

    L V

    A D

    O

    R

    S

    O S

    E B

    A S

    T I

    O

    105180120

    700700

    4000

    3025

    BROT

    ASSA

    NTO

    AMAR

    OIL

    HAS

    M A

    S S

    A C

    A R

    800

    585

    CURITUBA

    JATOBINAJ

    TACARATU

    150

    E M B A S A M E N T O

    RESTRITO A LITORNEO

    FLVIO-ELICO

    FLVIO-ELICOLACUSTRE

    LACUSTRE

    F L

    U V

    I A L

    DELTAICO

    LACUSTRE

    FAN

    -DE

    LTAS

    FLUVIAL

    RASO

    RASO

    RASO

    C O

    N

    T I N

    E

    N T

    A L

    MAR

    INH

    O

    ( G

    L I

    C O

    )

    N E

    G

    E N

    O

    APTIANOALAGOAS

    A Q U I T A N I A N OB U R D I G A L I A N O

    T O R T O N I A N O

    ( N E

    O C

    O M

    I A

    N O

    )

    A L B I A N O

    BARRE-MIANO

    HAUTE-RIVIANO

    VALAN-GINIANO

    BERRIA-SIANO

    J I Q U I

    BURACICA

    A R A T U

    R I OD A

    S E R R A

    D O MJ O O

    C R

    E T

    C

    E O

    C E N O M A N I A N O

    K30

    J20

    - K0

    5

    MaPOCA IDADE NAT

    UREZ

    A D

    ASE

    DIM

    ENTA

    O

    DISCORDNCIASAMBIENTEDEPOSICIONALGEOCRONOLOGIA

    FORMAO MEMBRO

    LITOESTRATIGRAFIA

    MESO

    EO

    NEO

    NEO

    NEO

    EO

  • B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 445-453, maio/nov. 2007 | 453

  • BGP v15 n2 grafica 271BGP v15 n2 grafica 272BGP v15 n2 grafica 273BGP v15 n2 grafica 274BGP v15 n2 grafica 275BGP v15 n2 grafica 276BGP v15 n2 grafica 277BGP v15 n2 grafica 278BGP v15 n2 grafica 279BGP v15 n2 grafica 280

Recommended

View more >