Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatobá

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  • B. Geoci. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 445-453, maio/nov. 2007 | 445

    Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob

    Ivan Peixoto Costa1, Gilmar Vital Bueno2, Paulo da Silva Milhomem3,

    Hlio Srgio Rocha Lima e Silva4, Marlia Dietzsch Kosin4

    Palavras-chave: Sub-bacia de Tucano Norte e Bacia de Jatob l Estratigrafia l carta estratigrfica

    Keywords: Tucano North Sub-Basin and Jatob Basin l Stratigraphy l stratigraphic chart

    1 Unidade de Negcio de Explorao e Produo da Bahia/Explorao/Programao e Controle da Explorao

    e-mail: peixotocosta@petrobras.com.br2 E&P Explorao/Geologia Aplicada a Explorao/Modelagem de Sistema Petrolfero3 Unidade de Negcio de Explorao e Produo da Bahia/Explorao/Sedimentologia e Estratigrafia4 Unidade de Negcio de Explorao e Produo da Bahia/Explorao/Avaliao de Blocos e Interpretao Geolgica e Geofsica

    introduo

    A Sub-bacia de Tucano Norte e a Bacia deJatob ocupam uma rea de cerca de 13.800 km2,que abrange a extremidade nordeste do Estado daBahia e, no caso desta ltima bacia, tambm a por-o centro-sul de Pernambuco. A estratigrafia deambas as bacias aqui discutida de forma integradaem funo das similaridades de seu arcabouo es-trutural e registro sedimentar que as diferenciam dassub-bacias do Tucano Sul e Central. Uma nica car-ta sintetiza as principais caractersticas de seu arca-bouo estratigrfico.

    A Sub-bacia de Tucano Norte, com cerca de8.800 km2, possui uma orientao geral N-S. Seulimite com a Bacia de Jatob dado pela Falha de

    So Francisco, a nordeste. A sul, a Zona de Acomo-dao do Vaza-Barris a separa do Tucano Central. Ocontato com o embasamento definido pela Falhade So Sait, a oeste, e, por discordncia ou falhasde pequeno rejeito, a leste.

    A Bacia de Jatob ocupa uma rea de aproxi-madamente 5.000 km2 com orientao NE-SW. Asfalhas de So Francisco, a oeste, e Ibimirim, a norte,constituem seus principais limites estruturais. A sul ea leste, seu contato com o embasamento discor-dante ou ocorre mediante falhas de pequeno porte.

    A Sub-bacia de Tucano Norte e a Bacia deJatob representam a extremidade setentrional doSistema Rifte Recncavo-Tucano-Jatob, estando suaorigem relacionada extenso crustal que fragmen-tou o Supercontinente Gondwana, dando origem aoOceano Atlntico. Ao contrrio das bacias da mar-

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    gem continental, que evoluram ao estgio de mar-gem passiva, as bacias do Recncavo, Tucano e Ja-tob constituem um ramo do Rifte Sul-Atlntico abor-tado no Eoaptiano.

    A configurao estrutural de ambas as baciasreflete a atuao dos esforos extensionais em umembasamento heterogneo (Magnavita, 1996). Amudana no sentido de abertura do rifte, que passade S-N, no Tucano Norte, para SW-NE, na Bacia deJatob, talvez o exemplo mais explcito do contro-le exercido por estruturas pretritas do embasamen-to. Esta inflexo est condicionada Zona deCisalhamento Pernambuco-Paraba, cuja reativaodurante o Eocretceo deu origem Falha de Ibimirim,limite norte da Bacia de Jatob (Santos et al. 1990;Costa et al. 2003).

    O Tucano Norte, como a Bacia de Jatob, apre-senta uma geometria tpica de meio-grben, comfalhas de borda a oeste e noroeste, respectivamen-te. Falhas normais planares acomodam o mergulhodas camadas em direo aos depocentros, a partirda margem flexural. Na Bacia de Jatob, estas fa-lhas so sintticas em relao falha de borda epossuem uma orientao geral N70oE. Na Sub-baciade Tucano Norte registra-se uma maior complexida-de estrutural, manifestada por falhas com orienta-es NW-SE, N-S e NE-SW (Santos et al. 1990). Asul, seu limite com o Tucano Central envolve as fa-lhas de transferncia de Carit e Jeremoabo que,junto ao Alto de Vaza-Barris, constituem uma zonade acomodao ao longo da qual ocorre a inversona assimetria dos meio-grbens (Magnavita et al.2003). As profundidades estimadas do embasamen-to nos baixos de Salgado do Melo, Sub-bacia deTucano Norte, e Ibimirim, Bacia de Jatob, so supe-riores, respectivamente, a 7.000 m (Magnavita etal. 2003) e 3.000 m (Costa et al. 2003).

    histrico

    As primeiras referncias sobre a geologia e ocontedo fossilfero das bacias do Recncavo, Tuca-no e Jatob datam do sculo XIX e relacionam-seprincipalmente Bacia do Recncavo. At a dcadade 1930, prevaleceram os estudos de cunho maispropriamente acadmico, pautados pelo pioneirismodos trabalhos e com foco em descries litolgicas ena avaliao do contedo fossilfero. Contribuies

    efetivas para o estabelecimento de um arcabouoestratigrfico desenvolveram-se como suporte pes-quisa e prospeco de hidrocarbonetos, j ao finaldesta dcada, envolvendo a Diviso de Geologia eMineralogia do Departamento Nacional de Produ-o Mineral (DNPM) e, particularmente, o ConselhoNacional do Petrleo (CNP).

    Um breve histrico dos trabalhos que pon-tuaram a evoluo do conhecimento geolgico dasbacias do Recncavo e Tucano foi apresentado porViana et al. (1971), que destacaram o impulso dadoaos estudos de cunho estratigrfico, aps a cria-o da Petrobras, com a integrao de dados desuperfcie e subsuperfcie e a utilizao mais siste-mtica da paleontologia para o estabelecimentode relaes cronolgicas.

    Aps uma fase de rpido acmulo de infor-maes e controvrsias, o trabalho desenvolvido porViana et al. (1971), em sua reviso estratigrfica dasbacias do Recncavo e Tucano, consolidou a subdivi-so do registro sedimentar destas bacias em unida-des com nomenclatura, hierarquia e relaes bemdefinidas. Estes autores estabeleceram colunaslitoestratigrfica, bioestratigrfica e cronoestratigr-fica independentes, resgatando os princpios adotadospelo Cdigo Americano de Nomenclatura Estratigr-fica. Seu trabalho considerado um marco para acompreenso da seo sedimentar preservada noRecncavo e no Tucano. As unidades ento defini-das, mantm-se inalteradas, em sua maior parte.

    A proposta de Viana et al. (1971) foi revistapor Caixeta et al. (1994), que promoveram umamelhor caracterizao das relaes laterais e crono-lgicas entre as diferentes unidades litoestratigrfi-cas, alm de apresentarem cartas diferenciadas parao Recncavo, para as sub-bacias do Tucano Sul eCentral, e para o Tucano Norte e a Bacia de Jatob,em funo das particularidades de seu arcabouotectono-sedimentar. Foram ainda introduzidas modi-ficaes na coluna litoestratigrfica que, tendo porbase os trabalhos de Netto e Oliveira (1985) e Aguiare Mato (1990) afetaram, essencialmente, a Sub-ba-cia do Tucano Sul e a Bacia do Recncavo. As se-qncias paleozicas aflorantes na margem flexuralda Sub-bacia do Tucano Norte e da Bacia de Jatob,no discriminadas por Viana et al. (1971), foramento individualizadas e passaram a compor as car-tas destas bacias.

    As principais descontinuidades estratigrficashoje reconhecidas no Tucano Norte e em Jatob fo-ram apresentadas na proposta de Caixeta et al.

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    (1994), que contribuiu para uma melhor caracteriza-o das seqncias deposicionais. So aqui revistasas amplitudes estratigrficas de algumas unidades,bem como melhor definidos os limites de suas se-qncias deposicionais.

    embasamento

    O embasamento da Sub-bacia do TucanoNorte representado pelos terrenos Canind-Maranc e Pernambuco-Alagoas, a noroeste e les-te-nordeste, pelos metassedimentos da Faixa deDobramentos Sergipana, a oeste-sudoeste e sudes-te, e pelas rochas sedimentares da Bacia Ju, a su-deste. A Bacia do Jatob instalou-se integralmentesobre o terreno Pernambuco-Alagoas.

    Conforme Delgado et al. (2003), os terrenosCanind-Maranc e Pernambuco-Alagoas com-preendem rochas metavulcnicas e metassedimen-tares de idade mesoproterozica (1.2-1.0 Ma),intrudidas por inmeros batlitos granticos, data-dos do Mesoproterozico (1.0 Ma) e do Neoprote-rozico (650-600 Ma). O terreno Canind-Maranccaracteriza-se por duas seqncias metavulcano-se-dimentares, cuja origem relaciona-se a arcosmagmticos. Uma faixa de gnaisses migmatticossepara estas duas seqncias. O terrenoPernambuco-Alagoas subdivide-se nos complexosCabrob e Belm do So Francisco. O primeiro re-ne duas seqncias, uma metassedimentar e outrametavulcnica. Ortognaisses granticos-tonalticos emigmatizados constituem o segundo. Dentre osbatlitos granticos destacam-se as sutes Xing eChoroch, por suas grandes dimenses.

    A Faixa de Dobramentos Sergipana teve suaevoluo relacionada a um contexto de margempassiva. Sua origem, deformao e metamorfismoderam-se durante o Neoproterozico (850-650 Ma).Rochas metassedimentares pelticas e psamticas denatureza turbidtica caracterizam o subdomnioMacurur. O subdomnio Vaza-Barris compostopelos Grupos Miaba (conglomerados, metagrauvacas,metavulcnicas, metacarbonatos e metapelitos); Si-mo Dias (metassiltitos, filitos e metarenitosinterestratificados, contendo lentes de rochasmetavulcnicas) e Vaza-Barris (diamictitos e filitosseixosos sotopostos a metacarbonatos e raros filitos).

    A Bacia Ju desenvolveu-se entre o Cambria-no e o Ordoviciano (500 Ma), tendo evoludo comouma bacia extensional ps-orognica, instalada so-bre o subdomnio Macurur. Seus depsitos incluemuma fcies proximal, relacionada a fluxos de detri-tos, e outra distal, associada a rios entrelaados quepreencheram um antigo sistema de grbens.

    SuperseqnciaPaleozica

    Trs seqncias subdividem a seo paleozica,tendo atuado como embasamento para as bacias deJatob e de Tucano Norte. O registro sedimentarabrange estratos do Siluriano/Devoniano (FormaesTacaratu e Inaj), Carbonfero (Formao Curituba)e Permiano (Formao Santa Brgida). Sua caracteri-zao baseia-se, principalmente, em afloramentossituados na borda flexural de ambas as bacias, umavez que poucos poos amostraram o intervalo. Estefato contribui para as incertezas existentes quanto distribuio das diferentes unidades e para a dificul-dade de definio de suas relaes estratigrficas.

    Seqncia Siluro-Devoniana

    Rochas sedimentares pertencentes ao GrupoJatob (formaes Tacaratu e Inaj) caracterizam aSeqncia Siluro-devoniana, que aflora a S-SE daBacia de Jatob e a leste da Sub-bacia de TucanoNorte, no Grben de Santa Brgida. Em subsuperf-cie, a unidade foi amostrada por apenas um poo,perfurado na Bacia de Jatob. A Formao Tacaratu representada predominantemente por clsticos gros-sos (conglomerados e arcsios conglomerticos), de-positados no Siluriano, atravs de um sistema de le-ques aluviais coalescentes (Ghignone, 1979; MenezesFilho et al. 1988). Ghignone (1979) sugere uma pos-svel extenso da unidade ao Devoniano, tendo porbase dados palinolgicos obtidos por Regali (1964).A Formao Inaj, cuja ocorrncia restringe-se Ba-cia de Jatob, inclui arenitos finos a grossos, caulnicos,de origem fluvial, aos quais se intercalam pelitos ver-melhos. Sua deposio teria ocorrido no Devoniano,como o indicam dados palinolgicos (Regali, 1964apud Ghignone, 1979; Brito, 1967a, 1967b apud Costa

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    et al. 2003) e a presena de macrofsseis mari-nhos desta idade (Ghignone, 1979). As formaesTacaratu e Inaj correlacionam-se, respectivamen-te, com o Grupo Serra Grande e parte do GrupoCanind, ambos da Bacia do Parnaba (Caixetaet al. 1994).

    Seqncia Carbonfera

    A Seqncia do Carbonfero representadapela Formao Curituba, cuja presena reporta-da no Grben de Santa Brgida, Sub-bacia de Tu-cano Norte, e em um dos poos perfurados na Baciade Jatob. Sua composio inclui arenitos argilo-sos, folhelhos vrvicos e calcrios. Pavimentosestriados em arenitos (Magnavita et al. 2003) evarves so indicativos de atividade glacial ao tem-po de sua deposio. Dados palinolgicos corro-boram a idade carbonfera da unidade que secorrelaciona com a Formao Batinga nas baciasde Sergipe e Alagoas.

    Seqncia Permiana

    A Seqncia Permiana aflora apenas na mar-gem flexural da Sub-bacia de Tucano Norte, no Gr-ben de Santa Brgida, que apresenta o registro maiscompleto da sedimentao paleozica no SistemaRifte Recncavo-Tucano-Jatob, reunindo estratos noapenas do Permiano, mas tambm do Siluriano-Devoniano (Grupo Jatob) e do Carbonfero (Forma-o Curituba). Rochas sedimentares pertencentes Formao Santa Brgida (membros Caldeiro e Ing)caracterizam a seqncia, que em subsuperfcie foiamostrada por dois poos perfurados no Tucano Nor-te. O Membro Caldeiro representado por clsticosavermelhados (siltito e arcsio grosso e fino), comevidncias de sedimentao elica. O Membro Inginclui arenitos quartzosos mdios a grossos, siltitoscalcferos, folhelhos verdes e dolomitos de coloraocinza escuro a preta, ricos em matria orgnica epor vezes silicificados. Sua deposio teria ocorridoem ambiente transicional a marinho raso, relacionvelao do Membro Pedro da Formao Afligidos, nasbacias de Camamu e do Recncavo. A FormaoSanta Brgida correlaciona-se ainda com as forma-es Aracar, na Bacia de Sergipe-Alagoas, e Pedrade Fogo, na Bacia do Parnaba.

    Seqncias Sedimentares

    Na Sub-bacia do Tucano Norte e na Baciade Jatob, o registro estratigrfico representadopor rochas sedimentares do Jurssico Superior eCretceo Inferior. So reconhecidas quatro seqn-cias deposicionais, dentre as quais se destacamaquelas relacionadas ao processo extensional juro-cretceo, abrangendo os estgios pr-rifte (Neoju-rssico a Eoberriasiano), rifte (Eoberriasiano aEoaptiano) e ps-rifte (Neo-aptiano).

    Superseqncia Pr-Rifte

    Seqncia J20-K05

    A Seqncia Juro-cretcea (J20K05) carac-teriza o estgio pr-rifte, estando representada, so-bretudo, por depsitos do Neojurssico (Andar DomJoo). Registros da base do Eocretceo (Eoberria-siano), vinculados Formao Itaparica, foramamostrados apenas na poro centro-sul do TucanoNorte. No h registro dos arenitos flvio-elicosque caracterizam a Formao gua Grande e queno sudeste do Tucano Sul e na Bacia do Recncavoconstituem o topo da seo pr-rifte.

    A rea abrangida pela Sub-bacia de Tuca-no Norte e pela Bacia de Jatob representa aporo distal dos sistemas aluviais do Neojurssi-co (Andar Dom Joo), depositados sob paleoclimarido. Os pelitos lacustres que caracterizam oMembro Capianga atingem suas maiores espes-suras nestas bacias. J os ciclos flvio-elicos,relacionveis ao Membro Boipeba e FormaoSergi, mostram uma tendncia de adelgaamen-to ao longo da Bacia de Tucano. Na Bacia de Ja-tob, h registros da Formao Sergi, mas a ocor-rncia do Membro Boipeba incerta. O MembroCapianga correlaciona-se com a Formao Bana-neiras, nas bacias de Sergipe e Alagoas. O Mem-bro Boipeba e a Formao Sergi relacionam-se,respectivamente, s formaes Candeeiro e Ser-raria, nessas mesmas bacias.

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    Superseqncia Rifte

    O limite entre os estgios pr-rifte e rifte dado pela discordncia que sobrepe a FormaoCandeias Formao Itaparica, ou diretamente aosdepsitos flvio-elicos da Formao Sergi. A se-o rifte engloba duas seqncias, que abrangemestratos de idade Eorrio da Serra (Eoberriasiano) aNeojiqui (Eoaptiano). A sucesso estratigrfica ilus-tra um rpido assoreamento de ambas as bacias,refletindo o preenchimento axial do Sistema RifteRecncavo-Tucano-Jatob. J ao incio do Neo-rioda Serra, sistemas fluviais dominavam a sedimen-tao na Sub-bacia de Tucano Norte e na Bacia deJatob. O nmero reduzido...