sobre tempo nos mapas - .and georges didi-huberman, i consider the challenges that the image imposes

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    Sobre tempo nos mapas

    Marcia Franco dos Santos Silva

    Artista e pesquisadora. Cursa o mestrado em Estudos Contemporneos das Artes na Universidade Federal Fluminense - UFF (ingresso em 2013), especialista em Histria da Arte Moderna e Contempornea pela

    Embap (2014), graduada Bacharel em Gravura (Embap, 2012) e Tecnloga em Artes Grficas (UTFPR,

    2012).

    Resumo: A partir de uma seleo de obras da Mostra Geopoticas da 8 Bienal do

    Mercosul, o artigo prope um olhar s temporalidades que habitam os mappa mundi,

    percorrendo mapas da arte contempornea e das cartografias greco-romana e medieval e

    como cada um apresenta e se relaciona com o tempo. Considerando, com Walter

    Benjamin e Georges Didi-Huberman, os desafios que a imagem impe histria,

    realizada uma montagem de mapas de tempos heterognios, a partir da qual so

    levantadas questes crticas noo de progresso e sobre a natureza histrica e social de

    todos os mapas.

    Palavras-chave: Bienal do Mercosul, histria, montagem, cartografia, mapa.

    About time in maps

    Abstract: From a selection of artworks presented in Mostra Geopoticas from the 8

    Bienal do Mercosul, this paper shows a view at temporalities that inhabit the mappa

    mundi. In contemporary art maps and Greco-Roman and Medieval cartography I look

    for how each of these maps presents and relates to time. Along with Walter Benjamin

    and Georges Didi-Huberman, I consider the challenges that the image imposes on

    history, presenting a montage of maps from different times, from witch questions are

    highlighted criticizing the notion of progress and the historical and social nature of all

    maps.

    Keywords: Bienal do Mercosul, history, montage, cartography, map.

    Sobre tempo nos mapas

    os mapas podem se sobrepor

    e acontecer de se cruzarem em rmini mas combinam antes no deserto de atacama dali a 50 voltas

    porque se mapas podem ser sobrepor

    sabe que o tempo no dobra

    apenas se vier o acaso fundamental

    assim

    para nossos espaos se cruzarem

    outra vez na vida

    e podermos nos reencontrar

    preciso que um acaso fundamental

    sobreponha dois mapas

    ignorando as montanhas e os acidentes

  • 2

    e que faa um sol

    Marlia Garcia (2012, p.13)

    Em Porto Alegre, trs armazns margem do Guaba abrigaram, de setembro a

    novembro de 2011, a mostra central da 8 Bienal do Mercosul: Ensaios de Geopoticas,

    cuja curadoria geral foi de Jos Roca. O tema dessa Bienal foi o territrio e sua

    definio crtica desde uma perspectiva artstica em termos geogrficos, polticos,

    culturais e econmicos (Roca, 2011, p.43). A curadoria estruturou a mostra central

    com sees temticas, como FRONTEIRA, I(MIGRAO), SMBOLOS NACIONAIS.

    Localizada ao fim do armazm A6, segundo percurso de um visitante que tivesse acesso

    ao Cais do Porto pela Av. Seplveda, a ltima dessas sees foi chamada de

    (GEO)POTICAS. Essa seo contava com obras de Angela Detanico e Rafael Lain,

    Lais Myrrha, Luis Romero, Manuela Ribadeneira, Mayana Redin e do coletivo Slavs

    and Tartars. Esse o ponto de partida do presente trabalho, em que proponho um

    passeio pelas temporalidades que habitam os mapas, recorrendo para tanto s obras de

    Lais Myrrha, de Ptolomeu, de cartgrafos medievais e questes da histria como

    disciplina.

    Em (GEO)POTICAS o espao expositivo era repleto de referncias a astros e a

    encontros. Ali, como no poema de Garcia (2012), havia mapas sobrepostos. Mayana

    Redin, em sua srie de desenhos Geografia de encontros (2011), criou paisagens atravs

    da aproximao de mapas cuja seleo segue critrios poticos. Por exemplo, como em

    o Encontro dos pases sem mar e em o Desmoronamento de pases sem montanha cuja

    seleo determinada por aspectos geogrficos dos lugares a que os contornos se

    referem; ou ento pela relao dos nomes, como em Ilha Decepo encontra Ilhas

    Desolao; Lagoa, Ribeira Grande e Rio Maior encontram Feliz Deserto, ou ainda,

    Cabo da Boa Esperana encontra Cabo das Tormentas.

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    Figura 1 - Mayana Redin, Encontro entre Mar Negro, Mar Vermelho e Mar Amarelo(srie Geografia de

    encontros), 2011. Foto: Site da artista

    O visitante da Bienal poderia contemplar a justaposio de mares coloridos de Redin

    (Figura 1) e ento, continuando seu percurso pela esquerda, deparar-se com a ausncia

    de cores de Cielo, de 2010 - instalao de Luis Romero constituda por bandeiras com

    imagens do sol, da lua e das estrelas. Nesse trabalho o artista se apropria de bandeiras

    diversas (de pases e de tratados econmicos) nas quais aparecem astros; ele mantm

    suas estruturas grficas mas remove as cores que as caracterizam e as unifica com o uso

    do fundo negro e das figuras bordadas em branco.

    Estrelas so tambm a base das obras situadas em frente Cielo, de Manuela

    Ribadeneira e da dupla Detanico e Lain. Ribadeneira, para elaborar El arte de navegar

    (2011), pesquisou cartas de colonizadores em arquivos histricos; a obra faz referncia

    Carta do Mestre Joo, um documento enviado ao rei de Portugal por um membro da

    expedio de Pedro Alvares Cabral em abril de 1500 nela, entre os atos de posse do

    territrio encontrado constava o registro, feito com um astrolbio, da latitude do local

    em que desembarcaram os exploradores (Mazucchelli, 2014). A obra de Ribadeneira

    uma reconstruo e subverso de um astrolbio nutico, instrumento utilizado para

    determinar a latitude de uma embarcao no mar: ao meio-dia, quando o sol est em seu

    ponto mais alto, a mira do objeto apontada para o astro e sua sombra, projetada sobre

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    uma tabela, permite medir a declinao do sol; com a declinao, atravs de tabelas, era

    calculada a latitude. O uso da escultura em questo , entretanto, frustrado pois falta-lhe

    as inscries que permitiriam determinar a localizao.

    Figura 2: Detanico e Lain, Sol Mdio (Cruzeiro do Sul), 2011. Fonte: Cristiano Sant'Anna, indicefoto.com

    A Carta do Mestre Joo tambm o primeiro documento onde aparece a constelao

    base da obra de Detanico e Lain, Sol Mdio (Cruzeiro do Sul), de 2011, instalao em

    que, em um ambiente isolado de luz exterior, quatro objetos em forma de pirmide

    distribuem-se no espao, seguindo o desenho das estrelas que compem o Cruzeiro do

    Sul. As bases so orientadas para o centro da cruz, fazendo face, cada uma, a um ponto

    cardeal (Albuquerque, 2011, p.68). Na base cncava de cada objeto projetada uma

    animao que simula a incidncia do sol sobre aquele elemento, sendo que as laterais

    projetam-se como sombra na superfcie interior iluminada (Figura 2). O espectador v o

    jogo de luz e sombra correspondente ao horrio presente, segundo o percurso do sol em

    um dia mdio de 12 horas seguido de 12 horas de noite (Lapa, 2014).

  • 5

    Uma experincia temporal tambm a proposta de Lais Myrrha com a instalao Onde

    nunca anoitece (Figura 3). Nessa obra 299 relgios digitais so dispostos na parede em

    um arranjo que forma o mappa mundi. Diante dela escuta-se relgios soarem. Cada

    relgio da obra corresponde ao encontro de um meridiano com um parelelo, marcando

    seu respectivo horrio e cada um programado para despertar no alvorecer do local

    que representa.

    Figura 3: ao fundo Lais Myrrha, Onde nunca anoitece, 2009 (2 verso);

    em frente Slavs and Tartars, Dear 1979, Meet 1989, 2011. Fonte: Site de Lais Myrrha

    O visitante poderia sentar, beber ch e observar o mappa mundi de Myrrha em Dear

    1979, Meet 1989 (2011), do coletivo Slavs and Tartars. A obra constitui em uma srie

    de estruturas de casas de ch sobre camas (river-bedsi) - havia na 8 Bienal do

    Mercosul uma river-bed em cada um dos trs armazns do Cais do Porto em que

    ocasionalmente eram servidos ch branco e vermelho simbolizando as duas grandes

    narrativas do sculo XX e XXI (islamismo e comunismo) (Helguera, 2011, p.259).

    Sobre as camas encontrava-se o projeto 79.89.09, brochura que rene publicaes

    relacionadas revoluo iraniana de 1979 e ao movimento de Solidariedade na Polnia

    de 1989. Folheando-o, lia-se:

  • 6

    Em seu livro Les Antimodernes (2005), Antoine Compagnon descreve os

    verdadeiros modernistas no como utpicos que olham apenas para frente (a.g. Vladimir Mayakovsky, F. T. Marinetti), mas como anti-modernistas,

    aqueles visionrios um tanto conflitantes, profundamente afetados pela

    passagem da era pr-moderna. Como Sartre disse a respeito de Baudelaire,

    aqueles que vo adiante, mas com um olho no espelho retrovisor. Walter

    Benjamin usa uma analogia parecida em seu Anjo da Histria, lanado para

    frente, de costas para o futuro, mas voltado para o passado, assim como a

    lngua malgaxe que, ao contrrio da concepo positivista de tempo das

    lnguas Ocidentais, usa palavras como atrs para descrever o futuro e em

    frente para transmitir a ideia de passado.

    Slavs and Tartars, p.11

    No texto a que o coletivo Slavs and Tartars faz referncia, Walter Benjamin (1987)

    defende que a crtica ao tempo positivista ocidental modifica o modo de se fazer

    histria. Para o autor o tempo homognio do relgio est ligado idia de progresso;

    assim, olhando os relgios que compe a instalao de Lais Myrrha penso na questo da

    temporalidade presente no mapa. Como o tempo reside nos mapas? Pode haver

    representao geogrfica livre de dados histricos e sociais? Adiante procurarei esboar

    temporalida

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