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  • Sobre escravos e regates:

    sociabilidades, conflitos e alianas complexas no territrio amaznico oitocentista.

    ANTONIO ALEXANDRE ISIDIO CARDOSO

    Introduo

    A Coberta Nova Diana, de Manoel Ribeiro de Vasconcelos, aportou em 30 de

    outubro de 1854 na capital da novssima Provncia do Amazonas, carregada com secos e

    molhados. Vinda do Par, tinha a direitura de vender seus produtos na cidade,

    engrossando o movimento j crescente de embarcaes que encostavam na Cidade da

    Barra do Rio Negro poca. Trazia como tripulantes o proprietrio e sua famlia,

    juntamente com um homem chamado Jos Manuel, que teria sido agregado ao barco de

    regateio no percurso.

    Mesmo tendo aceitado a presena do desconhecido, Manoel Ribeiro suspeitava

    que Jos Manuel fosse desertor militar, modalidade de fugitivo bastante comum em vrias

    reas do territrio amaznico naqueles tempos. No se sabe ao certo qual foi o arranjo

    acordado entre os dois, mas provavelmente a guarida ao estranho veio em troca de

    servios prestados ao comerciante durante a viagem, acordo comum firmado com a

    populao lotrica arregimentada para conformar tripulao nos barcos dos mascates

    fluviais (GOULART, 1968:30).

    Aps ancorar na Barra, a Nova Diana passaria pelo crivo da vigilncia policial e

    pelo fisco, situao sempre tensa, ainda mais para os que traziam consigo tripulantes no

    matriculados ou potencialmente suspeitos. Nessa ocasio, certamente antevendo medidas

    punitivas voltadas aos seus negcios, Manoel Ribeiro adotou uma postura incomum, se

    adiantando fiscalizao e afirmando ao delegado sua suspeita sobre o incgnito

    embarcadio, que logo seria apreendido na cadeia e interrogado. Talvez Jos Manuel no

    soubesse que o acordo de trabalho e a presumvel camaradagem do comerciante se

    dissolveria to facilmente.

    Doutorando em Histria Social pela Universidade de So Paulo - USP, bolsista da Fundao de Amparo

    Pesquisa do Estado de So Paulo FAPESP.

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    Aps ser custodiado foi iniciada uma investigao sobre sua suposta trajetria

    como fugitivo, tendo como objetivo sua correo e devoluo ao comando de origem.

    Jos Manuel logo no primeiro dia confessou que era soldado da 1 Companhia do

    Batalho n11 do Par, permanecendo preso disposio do Delegado Suplente

    Alexandrino Magno Taveira Po Brazil. Tudo corria normalmente, faltava contatar seus

    superiores militares e organizar seu traslado ao destino devido, como qualquer caso de

    fuga congnere que vira-e-mexe aportava na Cidade da Barra. Mas, antes de ter seu caso

    despachado, o prisioneiro enviou dois bilhetes ao Delegado que mudariam os rumos da

    investigao. Em ofcio, aps as novidades contadas pelo desertor, a autoridade

    encaminharia para o Presidente de Provncia novas informaes.

    Illm Exm Snr.

    Tendo eu participado a V.Ex em meu ofcio de 30 de Outubro p.pdo

    sob o nmero 392 que dentre a tripulao da Coberta de Manoel Ribeiro

    de Vasconcelos tinha eu descoberto um soldado desertor, tendo este

    mesmo logo depois declarado que com efeito o era, e que pertencia a 1

    Comp. do Batalho n 11 e que se chamava Joz Manuel por cujo

    motivo o tinha por isto em custdia disposio de V.Ex ; agora

    ultimamente acaba mais de declarar ele esta Repartio que escravo

    no Distrito do Rio Xing, Provncia do Par, e que tendo fugido

    assentara praa, e pouco tempo depois desertara, e que seu nome

    Raphael Manuel Joz, incluso envio a V.Ex dois bilhetes que por parte

    do referido desertor me foi enviado da priso. o que assim tenho a

    honra de levar a conhecimento de V. Ex.

    Alexandrino Magno Taveira Po Brazil

    Delegado Suplente dos Temos da Capital1

    Jos Manuel, na verdade, era Raphael Manuel Joz, escravo fugido que assentara

    praa com nome falso e vivia como livre. Aps ser aceito como soldado em pouco tempo

    fugira novamente, e na empreitada teria encontrado a Coberta Nova Diana, que ia em

    direo Cidade da Barra do Rio Negro. A escolha de seguir para o Amazonas no teria

    sido ingnua, especialmente porque poderia confundir-se dentro do crescente movimento

    de outros tripulantes e demais agentes que todos os dias aportavam em situao

    semelhante. Os giros dos mascates fluviais, inclusive, carregavam muitos desses

    personagens, e por isso eram alvo de graves suspeitas e fiscalizaes, velhos conhecidos

    como interlocutores de fugas de escravos, ndios e outros transgressores. Mas no caso

    1 Arquivo Pblico do Estado do Amazonas APEA. Livro n.04 Polcia (delegacias), 1854. Manuscrito.

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    aqui destacado o presumido protetor teve uma postura diversa, denunciando seu

    tripulante para as autoridades. Mesmo que no tenhamos na documentao da Delegacia

    de Polcia do Amazonas mais indcios sobre quais os motivos da denncia ou mesmo o

    contedo dos bilhetes que posteriormente teriam sido enviados ao delegado, fica bastante

    evidente a complexidade da trama. Muito provavelmente depois de afirmar sua condio

    de cativo, Raphael foi remetido ao Xing, pois o mesmo ofcio assinado pelo delegado

    em 30 de outubro foi copiado e enviado ao Presidente da Provncia do Par no dia 7 de

    novembro, um aceno claro para as autoridades paraenses tomarem providncias. A partir

    desse ponto perdemos os rastros do escravo desertor nas fontes.

    Tendo em vista o caso sumarizado acima, buscaremos no presente artigo discutir

    algumas dimenses das relaes e alianas complexas tecidas entre escravos e regates

    no territrio amaznico oitocentista. Para tanto, far-se- necessria uma discusso sobre

    algumas facetas do pequeno comercio fluvial pelos rios e cidades amaznicas, alm do

    estudo de sua relao ambgua com autoridades e populaes subalternizadas, em especial

    mulheres e homens escravizados. O recorte se concentrar entre as dcadas de 1850 e

    1860, perodo no qual as movimentaes de embarcaes entre Par e Amazonas se

    acentuaram com a criao da nova provncia e a abertura da navegao a vapor.

    A documentao policial que nos deu o exemplo de Raphael apresenta poucos

    livros sobreviventes para o perodo em tela (principalmente no que se refere ao

    Amazonas), e como alternativa ser feito um exerccio de cruzamento com outras fontes,

    especialmente peridicos, que podem ajudar a pensar melhor o contexto, alm de sugerir

    outros problemas sobre a trajetria dos atores sociais aqui investigados. Afinal de contas,

    qual o teor dos arranjos sociais tecidos entre regates e escravos? Como eram

    estabelecidos seus dilogos e conflitos? Como entender a complexidade de suas

    presumveis alianas?

    Floresta ao retalho: comrcio fluvial na rota de fugitivos

    No sculo XIX o comrcio de regato no era novidade nos rios e canais

    amaznicos. Segundo Jos Alpio Goulart, sua presena remontava ao perodo colonial,

    herana portuguesa de antigos mascates que mercadejavam ao retalho no reino,

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    alcanando lugares distantes de centros distribuidores de bens de consumo. Na Amaznia

    a atividade seguia uma lgica bastante semelhante, mas ao invs de andarilhos de trilhas

    terrestres os regates tornaram-se hbeis navegadores de caminhos fluviais. Sua atuao

    tinha base em trocas entre produtos naturais (sobremaneira extrativistas) e quinquilharias,

    como tecidos, calados, utenslios domsticos, faces, terados, entre outros provimentos

    criadores de novas necessidades e usos entre as populaes contatadas. Seus circuitos

    davam flego e capilarizavam atividades econmicas pelo interior amaznico,

    aproveitando especificidades pr-existentes da produo e do trabalho locais. Eram

    muitas vezes os primeiros a alcanarem reas distantes e ainda no tocadas pela presena

    do Estado, o que lhes trazia recorrentes acusaes de trapaa ou ferimento da moral de

    inocentes selvagens, quem vendiam mercadorias de valor nfimo em troca de valiosas

    drogas da floresta2. No por acaso, os regates tinham uma relao dbia com as

    autoridades, pois se de um lado eram agentes que levavam o comrcio (e supostamente a

    civilizao) aos mais distantes rinces, por outro eram acusados de explorar e desviar as

    populaes do interior dos projetos desejados pelas provncias. Como assevera Mrio

    Ypiranga Monteiro, podemos destacar duas vises opostas, uma que os atacava como

    causa e origem de exploraes e sangrias da economia do ribeirinho e da fazenda estatal,

    e outra que os desculpava como pertinaz e frequente varador de meandros

    (MONTEIRO, 1958:23-24).

    O Deputado Aureliano Cndido Tavares Bastos, conhecido por seu

    engajamento na questo da abertura internacional da navegao na bacia amaznica, era

    um dos que refletia sobre a problemtica do regateio e deixava entrever os dilemas dos

    discursos oficiais. Embora salientasse a espoliao que os mascates impingiam aos

    indgenas e a outros habitantes das matas, afirmava que a prosperidade da regio dependia

    de suas atividades, que ao invs de serem importunadas com pesada carga de impostos,

    deveriam ser desoneradas e incentivadas. Afirmava que as canoas de regato eram

    indispensveis naqueles desertos imensos, mesmo que em seus giros firmassem contatos

    indesejveis aos olhos de muitos (BASTOS, 1937:356).