Sobre a Pedagogia Kant

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<p>INTRODUO</p> <p>KANT, Immanuel (1724-1804) Sobre a pedagogia. Traduo de Francisco Cock Fontanella. 3. Ed. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2002.</p> <p>O homem a nica criatura que precisa ser educada. Por educao entende-se o cuidado de sua infncia (a conservao, o trato), a disciplina e a instruo com a formao. Conseqentemente, o homem infante, educando e discpulo. Os animais, logo que comeam a sentir alguma fora, usam-na com regularidade, isto , de tal maneira que no se prejudicam a si mesmos. de fato maravilhoso ver, por exemplo, como os filhotes de andorinhas, apenas sados do ovo e ainda cegos, sabem dispor-se de modo que seus excrementos caiam fora do ninho. Os animais, portanto, no precisam ser cuidados, no mximo precisam ser alimentados, aquecidos, guiados e protegidos de algum modo. A maior parte dos animais requer nutrio, mas no requer cuidados. Por cuidados entendem-se as precaues que os pais tomam para impedir que as crianas faam uso nocivo de suas foras. Se, por exemplo, um animal, ao vir ao mundo, gritasse, como fazem os bebs, tornar-se-ia com certeza presa dos lobos e de outros animais selvagens atrados pelos seus gritos.</p> <p>___________________________________________________* Observaes: os nmeros que aparecem margem do texto nesta edio brasileira correspondem paginao da edio da Real Academia Prussiana de Cincias (1923); quanto aos ttulos margem, so da edio original, exceto o que aparece entre colchetes; no interior do texto, as expresses entre colchetes so do tradutor brasileiro; as linhas dividindo pargrafos tambm constam da edio original</p> <p>A disciplina transforma a animalidade em humanidade. Um animal por seu prprio instinto tudo aquilo que pode ser; uma razo exterior a ele tomou por ele antecipadamente todos os cuidados necessrios. Mas o homem tem necessidade de sua prpria razo. No tem instinto, e precisa formar por si mesmo o projeto de sua conduta. Entretanto, por ele no ter a capacidade imediata de o realizar, mas vir ao mundo em estado bruto, outros devem faz-lo por ele. A espcie humana obrigada a extrair de si mesma pouco a pouco, com suas prprias foras, todas as qualidades naturais, que pertencem humanidade. Uma gerao educa a outra. Pode-se buscar o comeo da humanidade num estado bruto ou num estado perfeito de civilizao. Mas, neste ltimo caso, necessrio admitir que o homem tenha cado depois no estado selvagem e no estado de natureza rude. A disciplina o que impede ao homem de desviar-se do seu destino, de desviar-se da humanidade, atravs das suas inclinaes animais. Ela deve, por exemplo, cont-Io, de modo que no se lance ao perigo como um animal feroz, ou como um estpido. A disciplina, porm, puramente negativa, porque o tratamento atravs do qual se tira do homem a sua selvageria; a instruo, pelo contrrio, a parte positiva da educao. A selvageria consiste na independncia de qualquer lei. A disciplina submete o homem s leis da humanidade e comea a faz-Io sentir a fora das prprias leis. Mas isso deve acontecer bem cedo. Assim, as crianas so mandadas cedo escola, no para que a aprendam alguma coisa, mas para que a se acostumem a ficar sentadas tranqilamente e a obedecer pontualmente quilo que lhes mandado, a fim de que no futuro elas no sigam de fato e imediatamente cada um de seus caprichos.</p> <p>Mas o homem to naturalmente inclinado liberdade que, depois que se acostuma a ela por longo tempo, a ela tudo sacrifica. Ora, esse o motivo preciso, pelo qual conveniente recorrer cedo disciplina; pois, de outro modo, seria muito difcil mudar depois o homem. Ele seguiria, ento, todos os seus caprichos. Do mesmo modo, pode-se ver que os selvagens jamais se habituam a viver como os europeus, ainda que permaneam por muito tempo a seu servio. O que neles no deriva, como opinam Rousseau e outros, de uma nobre tendncia liberdade, mas de uma certa rudeza, uma vez que o animal ainda no desenvolveu a humanidade em si mesmo numa certa medida. Assim, preciso acostum-lo logo a submeter-se aos preceitos da razo. Quando se deixou o homem seguir plenamente a sua vontade durante toda a juventude e no se lhe resistiu em nada, ele conserva uma certa selvageria por toda a vida. Tampouco uma afeio materna exagerada til aos jovens, uma vez que mais tarde lhes surgiro obstculos de todas as partes e recebero golpes de todos os lados, logo que tomarem parte nos afazeres do mundo. Um erro, no qual se cai comumente na educao dos grandes, o de no se Ihes opor nenhuma resistncia durante a juventude, porque esto destinados a comandar. No homem, a brutalidade requer polimento por causa de sua inclinao liberdade; no animal bruto, pelo contrrio, isso no necessrio, por causa do seu instinto. O homem tem necessidade de cuidados e de formao. A formao compreende a disciplina e a instruo. Nenhum animal, quanto saibamos, necessita desta ltima, uma vez que nenhum deles aprende dos seus ascendentes qualquer coisa, a no ser aqueles pssaros que aprendem a cantar. De fato, os pssaros so treinados no canto por seus genitores; e, </p> <p>admirvel ver, como se fosse numa escola, os pais cantarem com todas as foras diante dos filhotes, enquanto estes se esforam por tirar os mesmos sons das suas pequenas goelas. Para convencer-se de que os pssaros no cantam por instinto, mas que aprendem a cantar, vale a pena fazer a prova: tire dos canrios a metade dos ovos e os substitua por ovos de pardais; ou tambm misture aos canarinhos filhotes de pardais bem novinhos. Coloque-os num cmodo onde no possam escutar os pardais de fora; eles aprendero dos canrios o canto e assim teremos pardais cantantes. estupendo o fato de que toda espcie de pssaros conserva em todas as geraes um certo canto principal; assim, a tradio do canto a mais fiel do mundo. O homem no pode se tornar um verdadeiro homem seno pela educao. Ele aquilo que a educao dele faz. Note-se que ele s pode receber tal educao de outros homens, os quais a receberam igualmente de outros. Portanto, a falta de disciplina e de instruo em certos homens os torna mestres muito ruins de seus educandos. Se um ser de natureza superior tomasse cuidado da nossa educao, ver-se-ia, ento, o que poderamos nos tornar. Mas, assim como, por um lado, a educao ensina alguma coisa aos homens e, por outro lado, no faz mais que desenvolver nele certas qualidades, no se pode saber at aonde nos levariam as nossas disposies naturais. Se pelo menos fosse feita uma experincia com a ajuda dos grandes e reunindo as foras de muitos, isso solucionaria a questo de se saber at aonde o homem pode chegar por esse caminho. Uma coisa, porm, to digna de observao para uma mente especulativa quanto triste para o amigo da humanidade ver que a maior parte dos grandes no cuida seno de si mesma e no toma parte nas interessantes experincias sobre a educao, para fazer avanar algum passo em direo perfeio da</p> <p>natureza humana. No h ningum que, tendo sido abandonado durante a juventude, seja capaz de reconhecer na sua idade madura em que aspecto foi descuidado, se na disciplina ou na cultura (pois que assim pode ser chamada a instruo). Quem no tem cultura de nenhuma espcie um bruto; quem no tem disciplina ou educao um selvagem. A falta de disciplina um mal pior que falta de cultura, pois esta pode ser remediada mais tarde, ao passo de que no se pode abolir o estado selvagem e corrigir um defeito de disciplina. Talvez a educao se torne sempre melhor e cada uma das geraes futuras d um passo a mais em direo ao aperfeioamento da humanidade, uma vez que o grande segredo da perfeio da natureza humana se esconde no prprio problema da educao. A partir de agora, isso pode acontecer. De fato, atualmente se comea a julgar com exatido e a ver de modo claro o que propriamente pertence a uma boa educao. entusiasmaste pensar que a natureza humana ser sempre melhor desenvolvida e aprimorada pela educao, e que possvel chegar a dar quela forma, a qual em verdade convm humanidade. Isso abre a perspectiva para uma futura felicidade da espcie humana. O projeto de uma teoria da educao um ideal muito nobre e no faz mal que no possamos realiz-lo. No podemos considerar uma Idia como quimrica e como um belo sonho s porque se interpem obstculos sua realizao. Uma Idia no outra coisa seno o conceito de uma perfeio que ainda no se encontra na experincia. Tal, por exemplo, seria a Idia de uma repblica perfeita, governada conforme as leis da justia. Dir-se-, entretanto, que impossvel? Em primeiro lugar, basta que a nossa Idia seja autntica; em segundo lugar, que os obstculos para efetu-la no sejam absolutamente impossveis de superar. Se, por exemplo, todo</p> <p>mundo mentisse, o dizer a verdade seria por isso mesmo uma quimera? A Idia de uma educao que desenvolva no homem todas as suas disposies naturais verdadeira absolutamente. Com a educao presente, o homem no atinge plenamente a finalidade da sua existncia. Na verdade, quanta diversidade no modo de viver ocorre entre os homens! Entre eles no pode acontecer uma uniformidade de vida, a no ser na medida em que ajam segundo os mesmos princpios, e seria necessrio que esses princpios se tornassem como que uma outra natureza para eles. Podemos trabalhar num esboo de uma educao mais conveniente e deixar indicaes aos psteros, os quais podero p-las em prtica pouco a pouco. V-se, por exemplo, nas flores chamadas "orelhas de urso" que, quando as arrancamos pela raiz, tm todas a mesma cor; quando, ao invs, plantamos suas sementes, obtemos cores diferentes e variadssimas. A natureza, portanto, deps nelas certos germes da cor e, para desenvolv-las, basta semear e transplantar de modo conveniente estas flores. Acontece algo semelhante com o homem. H muitos germes na humanidade e toca a ns desenvolver em proporo adequada as disposies naturais e desenvolver a humanidade a partir dos seus germes e fazer com que o homem atinja a sua destinao. Os animais cumprem o seu destino espontaneamente e sem o saber. O homem, pelo contrrio, obrigado a tentar conseguir o seu fim; o que ele no pode fazer sem antes ter dele um conceito. O indivduo humano no pode cumprir por si s essa destinao. Se admitimos um primeiro casal,realmente educado, do gnero humano, preciso saber tambm de que modo ele educou os seus filhos. Os primeiros genitores do a seus filhos um primeiro exemplo; estes o imitam e assim se desenvolvem algumas disposies naturais.</p> <p>Mas no podem todos ser educados desse modo, uma vez que as crianas vem os exemplos ocasionalmente. Normalmente os homens no tinham idia alguma da perfeio de que a natureza humana capaz. Ns mesmos ainda no a temos em toda a sua pureza. certo igualmente que os indivduos, ao educarem seus filhos, no podero jamais fazer que estes cheguem a atingir a sua destinao. Essa finalidade, pois, no pode ser atingida pelo homem singular, mas unicamente pela espcie humana. A educao uma arte, cuja prtica necessita ser aperfeioada por vrias geraes. Cada gerao, de posse dos conhecimentos das geraes precedentes, est sempre melhor aparelhada para exercer uma educao que desenvolva todas as disposies naturais na justa proporo e de conformidade com a finalidade daquelas, e, assim, guie toda a humana espcie a seu destino. A Providncia quis que o homem extrasse de si mesmo o bem e, por assim dizer, desse modo lhe fala: "Entra no mundo. Coloquei em ti toda espcie de disposies para o bem. Agora compete somente a ti desenvolv-las e a tua felicidade ou a tua infelicidade depende de ti". O homem deve, antes de tudo, desenvolver as suas disposies, para o bem; a Providncia no as colocou nele prontas; so simples disposies, sem a marca distintiva da moral. Tornar-se melhor, educar-se e, se se mau, produzir em si a rnoralidade: eis o dever do homem. Desde que se reflita detidamente a respeito, v-se o quanto difcil. A educao, portanto, o maior e o mais rduo problema que pode ser proposto aos homens. De fato, os conhecimentos dependem da educao e esta, por sua vez, depende daqueles. Por isso, a educao no poderia dar um passo frente a no ser pouco a pouco, e somente pode surgir um conceito da arte de educar na medida em que cada gerao transmite suas experincias e seus conhecimentos gerao seguinte, a qual lhes acrescenta algo</p> <p>de seu e os transmite gerao que lhe segue. Que grande cultura e que experincia, portanto, esse conceito supe? Na verdade, tal conceito no poderia ter surgido seno muito tarde e ns mesmos ainda no o elevamos ao seu mais alto grau de pureza. Deve a educao do indivduo imitar a cultura que a humanidade em geral recebe das geraes anteriores? Entre as descobertas humanas h duas dificlimas, e so: a arte de governar os homens e a arte de educ-los. Na verdade, ainda persistem controvrsias sobre esses assuntos. Ora, de onde comearamos a desenvolver as disposies naturais dos homens? Deveremos comear pelo estado rude ou pelo estado j culto? No fcil conceber um desenvolvimento, partindo do estado rude (da tambm a dificuldade de formar uma idia do primeiro homem); e vemos que, sempre que se partiu desse estado, o homem sempre recaiu na rudeza e novamente se levantou a partir da. At nos povos bastantes civilizados reencontramos ausncia de limites para a rudeza, o que atestado pelos mais antigos monumentos escritos que nos foram legados - e que grau de cultura a escrita j no supe? -, de tal modo que se poderia propor a inveno da escrita como o comeo do mundo com respeito civilizao. Uma vez que as disposies naturais do ser humano no se desenvolvem por si mesmas, toda educao uma arte. A natureza no depositou nele nenhum instinto para essa finalidade. A origem da arte da educao, assim como o seu progresso, : ou mecnica, ordenada sem plano conforme as circunstncias, ou raciocinada. A arte da educao no mecnica seno em certas oportunidades, em que aprendemos por experincia se urna coisa prejudicial ou til ao homem. Toda arte desse tipo, a qual fosse puramente mecnica, conteria muitos erros e lacunas, pois que no obedeceria a plano algum. A arte da educao ou pedagogia deve, portanto, ser</p> <p>raciocinada, se ela deve desenvolver a natureza humana de tal modo que esta possa conseguir o seu destino. Os pais, os quais j receberam uma certa educao, so exemplos pelos quais os filhos se regulam. Mas, se estes devem tornar-se melhores, a pedagogia deve tornar-se um estudo; de outro modo, nada se poderia dela esperar e a educao seria confiada a pessoas no educadas corretamente. preciso colocar a cincia em lugar do mecanicismo, no que tange arte da educao; de outro modo, esta no se tornar jamais um esforo coerente; e uma gerao poderia destruir tudo o que uma outra anterior tivesse edificado. Um princpio de pedagogia, o qual mormente os homens que propem planos para a arte de educar deveriam ter ante os olhos, : no se deve educar as crianas segundo o presente estado da espcie humana, mas segundo um estado melhor, possvel no futuro, isto , segundo a idia de humanidade e da sua inteira destinao. Esse princpio da mxima importncia. De modo geral, os pais educam seus filhos para o mundo presente, ainda que seja corrupto. Ao contrrio, de...</p>