Sobre a Guerra do Paraguai

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Revista Urutgua - revista acadmica multidisciplinar www.uem.br/urutagua/06his_milanesi.htm Quadrimestral N 05 Dez/Jan/Fev/Mar Maring - Paran - Brasil - ISSN 1519.6178 Centro de Estudos Sobre Intolerncia - Maurcio Tragtenberg Departamento de Cincias Sociais - Universidade Estadual de Maring (DCS/UEM) Sobre a Guerra do Paraguai Dlcio Aurlio Milanesi* Resumo Este artigo tem por meta principal identificar as causas da Guerra do Paraguai grande conflito ocorrido na segunda metade da dcada de 1860 entre este pas e a Trplice Aliana. O tema da maior relevncia, pois est diretamente relacionado s razes do subdesenvolvimento da Amrica Latina. O texto tambm apresenta uma anlise crtica da abordagem do assunto presente nos livros didticos brasileiros. O corpus , portanto, composto quase exclusivamente por textos extrados de livros didticos brasileiros de histria do Brasil de 6 srie e de ensino mdio. Palavras-chaves: Guerra do Paraguai; Trplice Aliana; Livros Didticos. Abstract This article intends to find the causes of the Paraguayan War a great conflict between this country and the Triple Alliance. This issue is very important because it relates to the Latin Americas underdevelopment reasons. The work also analyses, critically, Brazilian textbooks that deal with this subject. Key-words: Paraguayan War; Triple Alliance; Textbooks. 1. Introduo A Guerra do Paraguai, a mais longa e devastadora da histria da Amrica do Sul, resultou no aniquilamento do Paraguai, o mais desenvolvido pas de toda a Amrica Latina at o incio do confronto. Os combates se realizaram na segunda metade da dcada de 1860 e envolveram as foras armadas do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai. Antes do conflito, desde o incio da re-ocupao do territrio conhecido hoje como Amrica do Sul, a rea da Bacia do rio da Prata formada pela Argentina, pelo Uruguai e pelo Paraguai, e banhada por rios considerveis como o Paran, o Paraguai e o Uruguai foi sempre muito disputada. No sculo XIX, a navegao martima e fluvial predominava sobre os demais meios de transporte. Com a implantao da navegao a vapor, a regio se tornava cada vez mais importante, intensificando-se o movimento comercial nos rios Paran, Paraguai, Uruguai e no esturio do Prata. (CARMO, 1989, p. 45). Da a importncia da Bacia Platina: dela dependia o comrcio da Argentina, do Uruguai, do Rio Grande do Sul, de * Bacharel e licenciando em cincias sociais pela UEM. http://www.uem.br/urutagua/06his_milanesi.htmSanta Catarina, do Paran e, principalmente, do Paraguai e do Mato Grosso, que no dispunham de outro meio para alcanar o oceano. Segundo o historiador Pedro Bastos (1983, p. 154), ela tambm escoava a prata extrada do Peru e da Bolvia. 2. O Modelo Econmico e Social Paraguaio O primeiro governante do Paraguai foi Gaspar Rodrguez de Francia (1776-1840). Ele governou de 1814 a 1840. Francia tentou estabelecer a livre navegao no Prata, mas os comerciantes dos portos de Buenos Aires e Montevidu insistiam em cobrar pesadas taxas. Nesta poca, A Argentina se recusava a reconhecer a independncia do Paraguai. Os poderosos comerciantes do porto de Buenos Aires - o principal da bacia - desejavam reunificar toda a regio platina1. Isto posto, restou repblica guarani trilhar uma poltica de desenvolvimento auto-sustentado ao contrrio dos demais pases da regio na qual o Estado controlava a economia de tal modo que a estrutura scio-econmica se voltava para os interesses da populao e a independncia do pas. Tal estrutura era livre de burocratas e cortesos. Para Denise Pereira, (...) a soluo foi uma resposta ameaa portenha contra a independncia paraguaia, e no se deve concluir que o modelo de desenvolvimento econmico foi livre opo de ditadores afeioados ao povo. (PEREIRA, 1987, p. 222). Francia considerava os grandes proprietrios e comerciantes como categorias perigosas, pois eram aliados em potencial de Buenos Aires. Durante sua gesto, o Estado atacou os privilgios dos ricos, as oligarquias de seu pas. Ele confiscou as (...) terras cujo direito de posse as classes proprietrias no puderam comprovar. (DANTAS, 1989, p. 157). A Igreja Catlica foi nacionalizada com o confisco de seus bens e propriedades. Realizou-se a primeira grande reforma agrria da Amrica do Sul: metade das terras foi arrendada a camponeses e indgenas, os quais receberam implementos agrcolas, sementes e cabeas de gado. Havia muitas fazendas sob o controle do Estado. Em 1840, o Paraguai praticamente no possua analfabetos. Seu desenvolvimento agrcola permitia-lhe produzir tudo quanto sua populao necessitava e sua atividade industrial era capaz de produzir ferramentas, armas e outros utenslios. (LUCCI, 1985, p. 36-37). Diante disso, conclui um autor2 que havia pouca pobreza no pas. O sucessor de Gaspar Rodrguez de Francia, Carlos Antonio Lpez, que permaneceu no poder at 1862, contratou tcnicos e enviou centenas de estudantes para o exterior com o objetivo de modernizar a economia. O pas atingiu esta meta, a indstria paraguaia tornou-se a mais avanada da Amrica do Sul. Foram instaladas ferrovias, estaleiros, indstrias blicas, metalrgicas, txteis, de calados, de louas, de materiais de construo, de instrumentos agrcolas, de tintas e de papel, alm do telgrafo e da grande Fundio de Ibicu. A nao mais desenvolvida da Amrica do Sul protegia a produo local. Assim, a balana comercial era sempre favorvel e a moeda era forte e estvel. Claudius Ceccon (1986) afirma que as exportaes paraguaias valiam duas vezes mais que as importaes. Para Eduardo Galeano, a interveno do Estado na economia era quase total, pois (...) noventa e oito por cento do territrio paraguaio era de propriedade pblica. (GALEANO, 1985, p. 207). O Paraguai havia conseguido eliminar a oligarquia, a escravido, a violncia, a misria e o analfabetismo. Era o nico pas sul-americano que tinha uma indstria de base. O nico que 1 Isto no significa que o pas estivesse completamente isolado. Segundo Jos Dantas (DANTAS, 1984, p. 36), as fazendas estatais produziam para exportar. Elas (...) monopolizavam o reduzido comrcio exterior. (ARAJO, 1985, p. 37). 2 No conseguimos descobrir seu nome, apenas o ano de publicao 1992 e a pgina 122. 2 no tinha dvida externa ou interna. O nico praticamente sem analfabetos. (CHIAVENATO, 1998, p. 33). A economia crescia sem a interferncia de emprstimos estrangeiros. O desenvolvimento econmico autnomo e sustentado do Paraguai era uma exceo na Amrica Latina, uma vez que os demais pases recorriam freqentemente aos banqueiros estrangeiros, notadamente aos ingleses. Enquanto os pases aliados, contra os quais ele lutaria na guerra que estava por vir, (...) tinham suas economias voltadas para o mercado externo, a economia paraguaia voltava-se muito mais para o atendimento das necessidades internas. (NADAI, 1985, p. 76). O historiador Jlio Jos Chiavenato (1998) aponta um problema no superado pelos governantes paraguaios: a inexistncia de uma intelectualidade capaz de apreender a natureza do confronto com o capital ingls. Como tambm no havia uma classe dirigente vinculada aos interesses da nao, a interpretao da conjuntura poltica internacional teria ficado comprometida, uma vez que os presidentes ficariam praticamente solitrios frente do governo. Esta tese, de acordo com nossa leitura, questionvel. Seria possvel que poucos indivduos permanecessem solitrios no comando de um pas por cerca de meio sculo, apoiados apenas pelas massas (no intelectualizadas e afastadas da participao poltica)? 3. As Foras Armadas De acordo com Borges Hermida (1986); Boni e Belluci (s/d); e Elian Alabi Lucci (1987), Carlos Lpez aumentou consideravelmente o poder militar de seu pas. Ele sabia que a Argentina ambicionava reconstruir o antigo vice-reino do Prata, o que pressupunha a re-anexao da nao guarani. Ao final de seu governo, de acordo com Raymundo Campos (1983), o exrcito paraguaio era o melhor da Amrica Latina. Seu sucessor, Solano Lpez, deu continuidade a esse trabalho de organizao e fortalecimento militar. 3.1 Discordncias Pretendemos, neste captulo, apresentar um levantamento das informaes, presentes nos livros por ns analisados, a respeito dos efetivos militares disposio dos pases diretamente envolvidos na guerra da Trplice Aliana3 em 1864, s vsperas do conflito. Estes dados esto listados na tabela da pgina seguinte, na qual no esto arroladas as populaes das foras armadas da Argentina e do Uruguai devido escassez destes subsdios em nosso corpus. Chiavenato acredita que o exrcito do Paraguai era constitudo por cerca de 40 mil homens em 1864; por sua vez, Antaracy Arajo (1985) assegura que tal exrcito era composto por 100 mil homens. No h consenso sequer a respeito da populao paraguaia da poca. Para Max Justo Guedes (1995), ela era formada por 300 a 400 mil habitantes, menos da metade do nmero divulgado pela maioria dos autores consultados 800 mil pessoas. A divergncia entre as fontes consultadas to grande que somos tentados a seguir pelos caminhos do ceticismo. preciso, entretanto, tentar entender o que determina a multiplicao das divergncias e das concepes distorcidas do processo histrico. 3 Utilizamos as expresses Guerra do Paraguai e Guerra da Trplice Aliana para nos referirmos ao mesmo conflito. 3 TABELA: COMPARAO DAS INFORMAES SOBRE OS EFETIVOS MILITARES DISPONVEIS NO INCIO DA CAMPANHA AUTOR EXRCITO PARAGUAIO EXRCITO BRASILEIRO EXRCITO ALIADO FERREIRA 140 mil (1) x (2) x ARAJO 100 mil x 30 mil BASTOS 80 mil x x BONI; BELLUCI 80 mil x 45 mil HERMIDA 80 mil 17 mil x GUEDES Entre 28 mil e 57 mil + reservistas (entre 20 mil e 28 mil). Total: de 48 mil a 85 mil 17 mil a 20 mil + 200 mil da Guarda Nacional. Entre 232 mil a 240 mil NADAI 64 mil x 27 mil LUCCI 64 mil x x PEREIRA 64 mil 18 mil 27 mil SANTOS 64 mil x 27 mil COTRIM 60 mil x x CHIAVENATO 40 mil x x LACAMBE 4 vezes o brasileiro do paraguaio x FONTE: Livros didticos brasileiros de histria do Brasil. NOTAS: (1) Incluindo a fora policial. Entretanto, Ferreira assegura que o Paraguai, no incio das hostilidades, colocou 80 mil soldados em combate. (FERREIRA, 1986, p. 128). (2) Utilizamos a letra x para indicar que a informao no consta no referido texto. 4. A Reao da Inglaterra Durante o sculo XIX, a Inglaterra foi a potncia hegemnica no mundo, ampliando constantemente seu imprio colonial e impondo sua vontade pela fora, especialmente nos pases ao sul do Equador. (CAMPOS, 1983, p. 136). A independncia dos pases latino-americanos, com a honrosa exceo do Paraguai, o nico destes ainda no penetrado pelo capital ingls, no era completa, pois eram dependentes do capitalismo mundial. A guerra ocorreu num perodo caracterizado pela expanso da produo e das trocas inglesas e pelo aumento do nmero dos investimentos britnicos na regio. No esturio do Prata, os ingleses realizavam intenso comrcio, (...) exportando seus produtos industrializados e importando matrias-primas. (SANTOS, 1990, p. 51). Na segunda metade do sculo XIX, do ponto de vista econmico, a Inglaterra substituiu Portugal na condio de metrpole do Brasil, afirma Elza Nadai. O comrcio brasileiro era quase todo feito com a Inglaterra: ela era o principal comprador de caf e fornecia a maior parte dos produtos industrializados que se consumiam no Brasil. Alm do comrcio, as estradas, os bancos e muitas empresas eram inglesas; portanto, os valores e os padres ingleses acabaram por se impor como modelos para a sociedade brasileira. (NADAI, 1985, p. 74). Elza Nadai e Elian Lucci (1987) asseguram que o Brasil atuava na regio platina, sobretudo quando havia revoltas ou guerras, tambm como representante dos interesses da Inglaterra. Estes dois pases, assim como a Frana, eram contrrios reunificao dos pases platinos, consolidao de qualquer grande nao na regio, pois desejavam a livre utilizao da rede hidrogrfica platina. Foram, portanto, razes comerciais que levaram os governos ingleses a 4 apoiar os movimentos de independncia na Amrica Espanhola inclusive no Paraguai e no Brasil. A Inglaterra, no sculo XIX, exportava aproximadamente 70% da sua produo, constituda por produtos industrializados. Ela necessitava de novos compradores para estas mercadorias e de diversificar suas fontes de suprimento de matrias-prima. Alm de no ser um grande exportador destes produtos, nem um voraz consumidor de mercadorias inglesas, o Paraguai impedia a entrada dos capitais provenientes da Gr-Bretanha. Deste modo, seu modelo econmico independente (...) no era bom para o comrcio ingls, que do Paraguai comprava o mate e a ele nada vendia. (ARAJO, 1985, p. 37). Jos Dantas (1984) afirma que os produtos industrializados do Paraguai j comeavam a abastecer a Amrica do Sul. Para outro autor, Elian Lucci (1985), a guerra de Secesso norte-americana lanou a economia britnica em uma crise que acentuou ainda mais sua necessidade de destruir a repblica guarani, a qual possua terras frteis e excelentes para o cultivo do algodo matria-prima vital para a fortssima indstria txtil da Inglaterra, que at ento dependera das provises dos Estados Unidos. Os capitalistas ingleses estavam inquietos com o perigoso exemplo da experincia paraguaia de desenvolvimento, que poderia influenciar as polticas de outros pases sul-americanos. Conseqentemente, no foi por acaso que tais capitalistas estimularam e alimentaram a Guerra da Trplice Aliana contra o Paraguai, financiando os aliados Brasil, Argentina e Uruguai com grandes emprstimos. 4.1 Imperialismo Ingls Versus Imperialismo de Solano Lpez Muitos autores discordam da interpretao acima. Diferentemente de ns, eles no incluem os interesses dos capitalistas ingleses entre as principais causas do conflito. Dentre aqueles por ns consultados, integram este grupo os seguintes historiadores: Max Justo Guedes (1995); Amrico Lacambe (1979); Arthur da Costa Sobrinho (s/d); Olavo Leonel Ferreira (1986); lvaro de Alencar (1985); Ana Maria de Morais e Maria Efignia Lage de Resende (1979); Srgio Buarque de Holanda (s/d); Vital Dars (s/d); Geraldo Arcnio (s/d); Boni e Belluci (s/d); Milton B. Barbosa Filho e Maria Luiza Santiago Stockler (1988); Borges Hermida (1986); e Lcia Carpi (1985). Elza Nadai tambm pode ser includa graas a um livro publicado em 1985, mas ela muda sua interpretao no livro didtico que publica em 1990. Entre os 39 textos consultados, pelo menos 14 pertencem a esse grupo, sendo que 13 deles sequer citam o nome da referida potncia. Em geral, os escritores mencionados no pargrafo anterior substituem a argumentao baseada nas determinaes do capitalismo internacional, o qual se manifesta mais claramente nas aes imperialistas da maior potncia econmica do planeta, por uma verso que culpa as iniciativas imperialistas de Solano Lpez, realizando a condenao moral deste presidente. Foi interessante constatar que cinco dentre eles no se preocupam em descrever o modelo econmico e social do Paraguai e que trs no mencionam as trgicas conseqncias do conflito para a repblica guarani lacunas que no verificamos em nenhum dos historiadores esforados em relacionar a atuao da Inglaterra com a destruio do exemplo paraguaio de desenvolvimento. Existem, entretanto, estudiosos que combinam os dois fatores para compor suas interpretaes. 5. O Projeto de Solano Lpez Na gesto de Francisco Solano Lpez, a orientao da poltica econmica do Estado no sofreu grandes modificaes. Assim como seu antecessor, ele contratou vrios profissionais de alto nvel de instruo na Europa para fortalecer o parque industrial de seu pas. Eduardo 5 Galeano (1985) assegura que o protecionismo sobre a indstria nacional e o mercado interno foi muito reforado em 1864. Para Gilberto Cotrim, o objetivo daquele presidente (...) era fazer do Paraguai um pas forte e soberano. (COTRIM, 1987, p. 54). Mas, em boa medida, o Paraguai j era um pas forte e soberano. Quantos pases europeus, chamados por ns de desenvolvidos, podiam, em meados do sculo XIX, afirmar que estavam livres da misria, da violncia e do analfabetismo? Solano Lpez, provavelmente, apenas desejava consolidar o desenvolvimento de seu pas. Mesmo defendendo e realizando o protecionismo econmico, interessava repblica guarani ver suas embarcaes e mercadorias navegando com liberdade a bacia rio-platense. Do ponto de vista paraguaio, a independncia do Uruguai era a melhor garantia para manter livre o trnsito no esturio do Prata. (PEREIRA, 1987, p. 222). A independncia do Uruguai era vital para a manuteno de um equilbrio de poderes na regio. Tal equilbrio garantia, na opinio de Solano Lpez, a segurana, a integridade territorial e a independncia do Paraguai. Muitos historiadores declaram que a maior preocupao de Francisco Lpez era garantir o controle sobre os rios platinos ou conseguir uma sada direta para o oceano por meio da ampliao do territrio paraguaio. Mariana Nunes, por exemplo, sustenta ser isto (...) imprescindvel para a continuidade do processo de modernizao do Paraguai. (NUNES, s/d). preciso questionar esta afirmao de Nunes e descobrir o quo necessrio era para esse pas assegurar a comunicao direta com o oceano na gesto de Solano Lpez. Isto muito importante, pois o argumento utilizado por Mariana Nunes fundamenta uma tese que denominaremos de Paraguai Maior. 5.1 Projeto Paraguai Maior Paraguai Maior e Grande Paraguai so os nomes atribudos por dezenas de autores aos supostos planos expansionistas de Solano Lpez. Segundo eles, o territrio deste Grande Paraguai se estenderia at o mar. Em verdade, porm, as descries no coincidem. Osvaldo de Souza, por exemplo, afirma que o Grande Paraguai iria dos Andes ao Atlntico, (...) abrangendo o Uruguai, provncias argentinas e, no Brasil, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. (SOUZA, 1987, p. 48). De outro lado, Srgio Buarque de Holanda e Denise Pereira garantem que Solano Lpez desejava incorporar ao seu pas apenas (...) antigas reas das misses argentinas e das redues jesutas no sul do Brasil. (HOLANDA, s/d, p. 33). Consultamos cerca de 20 livros didticos que incluem este projeto de expanso territorial entre as causas fundamentais da guerra. A maioria deles utiliza a expresso Paraguai Maior ou a expresso Grande Paraguai. Entretanto, nenhum destes historiadores se preocupa em revelar a procedncia de tais nomes, o que consideramos uma falha grave de documentao. 6. A Formao da Trplice Aliana Desde sua independncia, em 1811, o Paraguai procurou se isolar dos conflitos platinos. (SILVA, 1994, p. 28) 4. Francisco Solano Lpez, porm, por considerar fundamental para seu pas a manuteno da independncia do Uruguai, abandona essa posio de neutralidade e firma com este pas um tratado militar de ajuda mtua. Este pacto era conhecido pelo governo brasileiro, pois o presidente paraguaio deixou claro que declararia guerra ao Brasil caso as tropas do Imprio invadissem o Uruguai. 4 Costa Sobrinho (s/d) assegura que Carlos Lpez declinou do convite brasileiro para formar uma aliana contra Rosas, governante argentino. Marina Nunes (s/d) sustenta o oposto. Para ela, o Imprio tambm contou com o apoio do exrcito paraguaio para derrubar Rosas. 6 Em um livro didtico publicado em 1989, Jos Dantas menciona que a Argentina e o Brasil assinaram em 1857, sete anos antes de explodir o conflito, (...) um protocolo secreto onde manifestavam a inteno de se aliarem contra a nao guarani caso esta se recusasse a abrir o rio Paraguai livre navegao. (DANTAS, 1989, p. 158). Renato Mocellin (1985), Claudius Ceccon (1986), Jlio Jos Chiavenato (1998), Jos Dantas (1984) e mais um autor5, cujo nome no conseguimos identificar, destacam o fato de que o Tratado de Trplice Aliana entre o Imprio do Brasil, a Repblica Argentina e a Repblica Oriental do Uruguai foi secretamente engendrado um ano antes de sua publicao. Chiavenato (1998) cita documentos cartas e artigos de jornal que provam o caso. Segundo Mocellin e Chiavenato (1998), esta farsa tornou-se pblica na poca, uma vez que vrios pases (...) protestaram contra esse plano premeditado de destruir e partilhar o Paraguai. (MOCELLIN, 1985, p. 33). certo que a verso oficial dos signatrios tenta encobrir o nascimento precoce do pacto. As bases do Tratado de Trplice Aliana foram lanadas numa reunio entre Jos Antnio Saraiva, poltico brasileiro; Rufino de Elizalde, diplomata argentino; Venncio Flores, militar e poltico uruguaio; e o diplomata ingls Thornton. O acordo tinha como seus objetivos principais estabelecer a partilha de uma grande frao do territrio paraguaio; (...) tirar do Paraguai a soberania sobre seus rios; (...) responsabilizar o Paraguai por toda a dvida de guerra; no negociar qualquer trgua (...) at a deposio de Solano Lpez. (CARPI, 1985, p. 158) 6. Ele estipulava o saque do pas e a destruio de suas instalaes industriais. Seu texto contraditrio, pois afirma respeitar a integridade territorial da repblica guarani ao mesmo tempo em que determina unilateralmente novas fronteiras. 7. Os Efeitos da Guerra 7.1 Paraguai Este pas o qual era o mais desenvolvido da Amrica do Sul antes da guerra ficou arrasado: sua populao foi reduzida a uma pequena parcela e sua economia foi destruda. Desde ento o Paraguai no mais se recuperou, sendo at hoje um dos pases mais pobres da Amrica Latina. (BARBOSA FILHO; STOCKLER; 1988; p. 38). Os vencedores implantaram o livre-cambismo e o latifndio. Tudo foi saqueado e vendido: as terras e as propriedades estatais foram vendidas a capitalistas estrangeiros. Em poucos anos o Paraguai contraiu uma enorme dvida com os ingleses. O pas, at mais que o Uruguai, ficou sob a influncia e o controle do Brasil. O conflito entre os aliados e a nao guarani foi um dos maiores massacres da histria das Amricas. Os historiadores divergem enormemente a respeito do nmero de mortos e do tamanho do territrio perdido pelo Paraguai. Morais e Resende (1979) afirmam que, para cumprir o tratado de aliana, a integridade territorial e a independncia do Paraguai foram mantidas. Isso falso. Estas autoras devem partir de um curioso ponto de vista. Para elas, as terras incorporadas pelo Brasil e pela Argentina estariam sob o poder ilegtimo do governo paraguaio ou eram terras de ningum. Somente desta maneira pode-se compreender a posio das autoras e o prprio Tratado da Trplice Aliana como algo diferente de propaganda cnica. 5 Trata-se de uma obra didtica do autor(a) referido(a) na nota 2, escrita para o Ensino Mdio, publicada em 1992 pela editora Nova Gerao, em So Paulo. 6 Dois autores, Lucci (1985) e Guedes, asseguram que o presidente Solano Lpez pediu a paz, (...) contando que ele prprio fosse poupado e que o Paraguai no fosse totalmente desmembrado e ocupado de forma permanente. (GUEDES, 1995). 7 Chiavenato (1998) e Mocellin (1985) declaram que a repblica paraguaia perdeu 140 mil km de terras. Para Dantas (1984), foram 40 mil km. Max Justo Guedes (1995) acredita numa perda de 40% do territrio. Segundo ele e Costa Sobrinho (s/d), as perdas populacionais do Paraguai foram grosseiramente exageradas pela grande maioria dos historiadores e devem ser de 15% a 20% da populao pr-guerra entre 50 mil e 80 mil mortes. Em geral, os autores informam que mais de 75% dos paraguaios foram mortos. Ao contrrio dos aliados7, o Paraguai teve de confiar em seu prprio arsenal e estaleiros, pois no comprou armas e navios com dinheiro emprestado em Londres. Infelizmente, ele foi obrigado pelos vencedores a assumir uma pesada dvida de guerra que nunca teve condies de pagar. Muitos anos depois, (...) os prprios aliados reconheceram que o Paraguai jamais teria condies de saldar as dvidas de guerra e acabaram por perdo-las. (NADAI, 1985, p. 78).8 7.2 Aliados O Brasil perdeu muitas vidas e grandes recursos financeiros. O temor de que os bolivianos ajudassem Solano Lpez levou o governo brasileiro a ceder ao ditador boliviano Melgarejo a regio do Acre. (MOCELLIN, 1985, p. 35). Para Argentina e Brasil [e tambm para o Uruguai], a guerra aumentou a dependncia ao capital ingls, mas desafogou suas dificuldades financeiras imediatas. (CHIAVENATO, 1998, p. 93). O nmero de negros no Brasil sofreu uma grande queda, uma vez que havia um branco para cada 45 negros nas foras brasileiras. A navegao brasileira dos rios Paran e Paraguai foi garantida. O Imprio, de acordo com Eduardo Galeano (1985), ganhou mais de 60 mil km de territrio e levou muitos prisioneiros paraguaios como mo de obra escrava. O exrcito brasileiro ficou mais unido e ganhou importncia poltica. Ele tornou-se um centro de contestao escravido e ao Imprio, e aderiu s campanhas abolicionista e republicana. A guerra do Paraguai foi uma das causas da queda do Imprio brasileiro. As provncias argentinas de Entre Rios e Corrientes tiveram grandes lucros vendendo provises aos exrcitos aliados. A Argentina ficou com 94 mil km de terra paraguaia, segundo Eduardo Galeano (1985) e Claudius Ceccon (1986). 7.3 Inglaterra Os bancos ingleses financiaram os aliados e receberam altos juros. (...) Os prejuzos que os pases envolvidos tiveram foram muito maiores do que os benefcios. S a Inglaterra saiu ganhando, e duplamente: recebeu com juros o dinheiro que havia emprestado (...) e passou a vender seus produtos ao Paraguai. (PILETTI; PILETTI; 1989, p. 22). 8. Consideraes Finais Classificamos as interpretaes da Guerra da Trplice Aliana em trs grupos. No primeiro se encontram aqueles que identificam o Projeto Paraguai Maior de Solano Lpez como causa principal do conflito; no segundo, os que afirmam que o conflito foi causado (...) pelo rompimento da estrutura dominante do imperialismo ingls (CHIAVENATO, 1998, p. 37); e no terceiro, intermedirio entre os outros dois, os historiadores que combinam em suas explicaes os interesses de todos os pases envolvidos e no apontam uma causa principal. 7 Segundo Arajo (1985), o Paraguai comprou armamento dos ingleses, aumentando suas dvidas junto aos bancos britnicos. Ns discordamos desta informao. 8 Os Estados Aliados perdoaram as dvidas de guerra do Paraguai. No consta, porm, que os banqueiros ingleses tenham remitido qualquer dbito deste pas, do Brasil, da Argentina ou do Uruguai. 8 No acreditamos nos autores do primeiro grupo. Eles incorrem na ideologia estatista, que considera o Estado como um sujeito autnomo. Assim, por exemplo, Mariana Nunes realiza uma inverso de causas e conseqncias ao afirmar que os comerciantes de Buenos Aires impuseram restries ao comrcio paraguaio em represlia poltica econmica de Francia, (...) que acabava com o poder de infiltrao de Buenos Aires. (NUNES, s/d). Em nossa interpretao, e tambm na de Denise Pereira (1987), a poltica econmica e social de Francia uma resposta ameaa portenha contra a autonomia do Paraguai. Em segundo lugar, no encontramos nada que prove a necessidade absoluta de Solano Lpez ampliar o territrio paraguaio. Para ns, a presena de um diplomata ingls nas negociaes que resultaram no secreto pacto dos aliados no simples acaso. O nome Trplice Aliana esconde a existncia de uma outra aliana presidida pela Inglaterra. Sabe-se que a participao das foras do Uruguai foi quase insignificante se comparada com a ajuda dos emprstimos ingleses aos pases aliados. Os aliados provavelmente no seriam os vencedores sem este apoio. Encontramos contradies e, principalmente, lacunas nos livros didticos. Estas obras apresentam muito resumidamente os temas. A documentao praticamente inexiste neles. Desta forma, o risco de realizar simplificaes bastante grande. Apenas uma pequena frao dos autores se preocupa em apresentar o contedo de forma no dogmtica, mostrando as diferentes interpretaes existentes. Alguns realizam isto de maneira atrapalhada ao oferecer textos contraditrios entre si. Seria muito interessante realizar um estudo que comparasse as interpretaes da Guerra da Trplice Aliana contra o Paraguai apresentadas pelos livros didticos paraguaios com as interpretaes apresentadas pelos livros didticos brasileiros. Isto nos ajudaria a compreender a influncia do sentimento nacionalista e do etnocentrismo na elaborao dos textos dos historiadores. 9. Referncias ALENCAR, lvaro de. A guerra do Paraguai. In: ____. Histria do Brasil, 6 srie. So Paulo: Saraiva, 1985. p. 3841. ARAJO, Antaracy. Histria do Brasil, 6 srie. 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