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    SIMPSIO 15

    PRODUO LITERRIA PARA CRIANAS E JOVENS E

    DILOGOS CONTEMPORNEOS

    A produo literria para crianas e jovens, na contemporaneidade, abarcando a complexidade

    de nosso tempo, reflete novos conceitos estticos. Assim, esto emergindo modos

    construtivos com a insero de novas tecnologias na produo, recepo e consumo. Este

    simpsio tem por objetivo propor reflexes acerca dos dilogos que se estabelecem entre

    literatura e outras reas do saber. Em uma perspectiva interdisciplinar, pretende-se uma

    discusso que abarque o estudo de adaptaes, anlises crticas e anlises comparadas,

    tradues intersemiticas, aspectos envolvidos na produo e recepo de textos em

    diferentes cdigos e linguagens e, por conseguinte, na formao do leitor literrio.

    COORDENAO

    Maria Auxiliadora Fontana Baseio

    Universidade de Santo Amaro

    dorafada@ig.com.br

    Maria Zilda da Cunha

    Universidade de So Paulo

    mariazildacunha@hotmail.com

  • 681

    AS RELAES ENTRE TEXTO VISUAL E TEXTO VERBAL NA ADAPTAO

    LITERRIA DO CONTO O ALIENISTA DE MACHADO DE ASSIS

    Caroline Peixoto e SILVA (UFMG)

    278

    Celia Abicalil BELMIRO (UFMG) 279

    Aracy Alves MARTINS (UFMG)280

    Resumo: Anlise das relaes entre o texto visual e verbal no trabalho de Csar Lobo e Luiz

    Antonio Aguiar, do conto O Alienista de Machado de Assis. Esta se deve ao fato de diferir

    das demais obras do conto machadiano para quadrinhos, pois nela h a criao de um novo

    personagem: o Alienista Alienado. As anlises aqui expostas so o resultado parcial da

    pesquisa de mestrado que tem como objetivo estudar as relaes entre texto visual e verbal

    nas adaptaes literrias em quadrinhos de Machado de Assis.

    Palavras Chave: Conto. Adaptao. Histria em Quadrinhos.

    1. Introduo

    Apresentamos, no presente artigo, um estudo do trabalho de Csar Lobo e Luiz

    Antonio Aguiar sobre o conto O Alienista, de Machado de Assis. Essa obra parte da Coleo

    Clssicos Brasileiros em HQ, publicada pela editora tica. Escolhemos a obra por se diferir

    das demais publicaes281

    do conto em quadrinhos. H, nesta obra, a criao do personagem o

    Alienista-Alienado (AA), que apresenta a possibilidade de uma nova leitura, se comparado ao

    texto original de Machado de Assis. A anlise a seguir um recorte da pesquisa As relaes

    entre texto visual e texto verbal nas adaptaes literrias em quadrinhos de Machado de

    Assis, que se encontra em andamento.

    Obras de Shakespeare, Edgar Alan Poe, Lima Barreto e Alusio de Azevedo e vm

    sendo adaptadas para os quadrinhos, dentre os quais Machado de Assis se destaca pelo grande

    nmero de publicaes em quadrinhos. A importncia e relevncia do autor so inegveis.

    So clssicos da literatura e so entendidos como livros que, independente da poca em que

    foram escritos, sempre tem algo a dizer a seus leitores.

    Ao tratarmos de obras literrias de Machado de Assis publicadas em quadrinhos, no

    podemos deixar de contemplar o processo da adaptao de uma obra. Segundo Amorim

    (2005), seria um processo de transformao que, se realizado com rigor, possibilitaria veicular

    imagens e estilos que poderiam ser considerados fiis ao texto de referncia. Dessa forma,

    as produes em quadrinhos poderia ser vista como transformao de gneros, o que no

    causaria o empobrecimento ou simplificao da obra. No entanto, devemos alertar que h

    muito se discute a questo relativa s adaptaes literrias para quadrinhos serem ou no

    278

    Faculdade de Educao/UFMG. Belo Horizonte, Brasil. E-mail: carolpeixoto19@hotmail.com (Bolsista

    Reuni de ps-graduao) 279

    Faculdade de Educao/UFMG. Belo Horizonte, Brasil. E-mail: celiab@terra.com.br 280

    Faculdade de Educao/UFMG. Belo Horizonte, Brasil. E-mail: aracymartins60@gmail.com 281

    CAVALCANTI, Lailson de Holanda. O Alienista/Machado de Assis. So Paulo: Companhia Editora

    Nacional, 2008.

    MOON, Fbio; B, Gabriel. Grandes Clssicos em Graphic Novel: O Alienista -Machado de Assis. Rio de

    Janeiro: Agir, 2007.

    VILACH, Francisco S.; RODRIGUES, Fernando A.A. O Alienista (Coleo Literatura

    Brasileira em Quadrinhos). So Paulo: Escala Educacional, 2007.

    mailto:carolpeixoto19@hotmail.commailto:celiab@terra.com.brmailto:aracymartins60@gmail.com

  • 682

    consideradas uma forma de literatura. Autores como Paulo Ramos (2010), afirmam que os

    quadrinhos possuem uma linguagem prpria e no podem ser classificados como literatura.

    Diz o autor:

    Chamar quadrinhos de literatura, a nosso ver, nada mais do que uma forma

    de procurar rtulos socialmente aceitos ou academicamente prestigiados

    (caso da literatura, inclusive a infantil) como argumento para justificar os

    quadrinhos, historicamente vistos de maneira pejorativa, inclusive no meio

    universitrio. (2010, p. 17)

    De acordo com Amorim (2005), a noo de adaptao pode estar vinculada a ideia de

    empobrecimento ou enriquecimento. O primeiro, no sentido de que, ao adaptar uma obra

    literria para o publico infantil, ocorra uma extrema simplificao da linguagem, causando,

    assim, o empobrecimento da obra. Por outro lado, a atualizao e simplificao da linguagem

    usada na adaptao literria pode causar o enriquecimento da formao educativa do pblico

    infantil e juvenil, pois a linguagem usada de forma mais atual e o no uso da linguagem

    complexa de certos autores, tornaria a adaptao de clssicos da literatura de mais fcil

    entendimento para o pblico juvenil. A transformao de uma obra literria, seja para

    quadrinhos ou para outro gnero pode ser vista como uma recriao ou atualizao, na qual o

    profissional faz alteraes no enredo, podendo at criar novos personagens, modificando a

    obra. Segundo Amorim,

    As obras publicadas como adaptaes pressupem, muitas vezes, a noo de

    atualizao, mas no somente isso: o profissional que as produz tem um

    papel importante, na medida em que se pode esperar que a histria

    recontada receba um toque especial de quem a realiza.[...] Quem adquire

    uma adaptao pode esperar que o adaptador seja fiel histria, sem

    deixar, porm, de se fazer presente na sua prpria composio. (2005,

    p.124)

    Will Eisner, precursor no estudo sobre quadrinhos como arte grfica, considera a arte

    sequencial como a arte de urdir um tecido. Segundo Eisner (2010), nas histrias em

    quadrinhos, o autor imagina pelo leitor, j que, nos textos escritos apenas com palavras, o

    autor dirige a imaginao do leitor. Com a utilizao de imagens, o enunciado torna-se

    preciso e no permite ao leitor interpretaes adicionais. Quando palavra e imagem se

    misturam, as palavras formam um amlgama com a imagem e j no servem para descrever,

    mas para fornecer sim, dilogo e textos de ligao (p.127). Para esse autor, para que uma

    narrativa grfica prenda a ateno do leitor, necessrio que o texto e imagens sejam

    entrelaados com habilidade, acarretando, assim, o sucesso da obra.

    2. O conto

    O Alienista, de autoria de Machado de Assis, publicado inicialmente em captulos no

    jornal carioca A estao282

    entre 1881 e 1882, tem a loucura como centro temtico. Machado

    de Assis trata de forma magistral a tnue linha que separa a razo da loucura.

    O enredo trata da histria do ilustre mdico Simo Bacamarte, que funda um hospcio

    na cidade de Itagua. No incio a populao da vila aplaude a deciso mdico de levar algumas

    pessoas para a Casa Verde. Cada dia mais dedicado ao estudo da loucura, Simo Bacamarte

    acaba por trancar na casa de loucos dois teros da populao da vila, ocasionando um motim

    popular: a revolta dos canjicas, liderada pelo barbeiro da cidade. Entretanto, o mdico chega

    282

    O conto foi posteriormente publicado de forma integral no livro Papis Avulsos (1882).

  • 683

    concluso de que deveria repensar o caso dos loucos que estavam internados e acaba por

    liber-los. Bacamarte ento adota critrios inversos para a caracterizao da loucura e prende

    as pessoas que faziam bom uso da razo, os justos e honestos. Revendo sua teoria, Bacamarte

    verifica que ele prprio o nico sadio de suas faculdades mentais e interna-se no casaro da

    Casa Verde, onde morre dezessete meses depois.

    3. O Alienista em quadrinhos

    Na adaptao de O Alienista, antes do incio do conto, temos a seo Uma histria

    muito louca, na qual feita uma breve apresentao do enredo e, aps afirmar que a obra

    uma verso autoral, o novo personagem apresentado ao leitor:

    Um personagem especial abre a histria, em preto-e-branco, e vez por outra

    se intromete na narrativa. Trata-se de um duplo do prprio Simo

    Bacamarte, que parece confirmar o ditado: de mdico e louco, todos

    (principalmente em O alienista) tm um pouco... (p.3)

    Apesar da criao de um novo personagem, os autores mantm a mesma diviso do

    conto em captulos. Antes do primeiro captulo, h duas pginas em preto, branco e cinza

    mostrando o novo personagem, somente ao final do livro, denominado de AA (Alienista-

    Alienado).

    A primeira pgina composta de quatro quadros horizontais, da mesma largura, sendo

    os trs primeiros da mesma altura, e o ltimo um pouco maior. O primeiro quadro mostra uma

    cena noturna, na qual um edifcio iluminado pela luz da lua, e onde somente uma luz

    encontra-se acesa. No quadro seguinte podemos ver uma folha de papel sendo preenchida